Arquivo de Maio de 2008

Relator da ONU diz que biocombustíveis são um crime contra a humanidade

AFP

A produção em massa de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos, declarou nesta segunda-feira o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler, em entrevista a uma rádio alemã.

Os críticos dessa tecnologia argumentam que o uso de terras férteis para cultivos destinados a fabricar biocombustíveis reduz as superfícies destinadas aos alimentos e contribui para o aumento dos preços dos mantimentos.

Ziegler pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que mude suas políticas sobre os subsídios agrícolas e deixe de apoiar apenas programas destinados à redução da dívida. Para ele, a agricultura também deve ser subsidiada em regiões onde se garanta a sobrevivência das populações locais.

O ministro das Relações Exteriores alemão, Peer Steinbrueck, deu seu apoio ao apelo feito pelo FMI e o Banco Mundial neste fim de semana para responder à crise gerada pelo aumento de preços dos alimentos, que está gerando violência e instabilidade política em inúmeros países.

“A Alemanha não fugirá de sua obrigação nesse tema”, afirmou Steinbrueck.

Ziegler acusou a União Européia de dumping agrícola na África.

A UE financia as exportações de superávits agrícolas europeus para a África, onde são oferecidos pela metade ou a um terço de seu preço de produção”, queixou-se Ziegler. “Isso arruina completamente a agricultura africana”, acrescentou.

Em entrevista ao jornal francês “Liberation”, Ziegler também advertiu que o mundo se dirige para “um período muito longo de distúrbios e outros tipos de conflitos derivados da escassez de alimentos e aumentos de preços”.

Nesse contexto, a Comissão Européia indicou nesta segunda-feira que vai propor a supressão das subvenções para os cultivos destinados à produção de biocombustíveis, em meio à crescente polêmica causada pelo desenvolvimento dessa fonte de energia para lutar contra a mudança climática.

Vários outros dirigentes europeus já manifestaram preocupação com a utilização da produção agrícola com fins energéticos em detrimento dos alimentos, num contexto de alta dos preços das matérias-primas.

A produção agrícola com fins alimentares deve ser claramente prioritária”, afirmou o ministro francês da Agricultura, Michel Barnier.

A França propôs nesta segunda-feira uma iniciativa européia frente ao aumento de preços das matérias-primas e a crise alimentar que isto provoca, impulsionando um apoio reforçado à agricultura comunitária e uma ajuda maior a este setor nos países pobres.

“Em um mundo em que vai ser necessário produzir mais e melhor para alimentar nove bilhões de habitantes, há necessidade dos esforços de todos e também da Europa”, afirmou o ministro francês da Agricultura, Michel Barnier, ao antecipar as grandes linhas da proposta que deve apresentar a seus colegas da União Européia em Luxemburgo.

AFP

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Por que a “liga democrática” de McCain é uma idéia ruim

Proposta, que visa isolar “autocracias”, pode na verdade impedir cooperação em questões que interessam aos Estados Unidos; Europa vê iniciativa com desdém

GIDEON RACHMAN

Todos esperam que presidentes americanos tenham grandes idéias sobre o mundo: uma “nova fronteira”, uma “aliança pelo progresso”, uma “guerra contra o terrorismo”.
Infelizmente para o Partido Democrata, a grande idéia que mais anima seus dois potenciais presidentes, Barack Obama e Hillary Clinton, parece ser a da destruição mutuamente assegurada.
Isso deixa campo aberto para o senador John McCain. O republicano é o único candidato a defender uma idéia nova e notável sobre o papel dos EUA no mundo. E o mundo deveria prestar atenção, já que as chances de que ele conquiste a Presidência crescem a cada dia.
A grande idéia de McCain é a formação de uma “liga das democracias”, cujo cerne seriam os EUA. Em discurso recente em Los Angeles, ele delineou um plano para “aglutinar o imenso poder de mais de cem democracias”. Não era apenas um conceito vago usado para preencher um vazio no discurso. McCain vem insistindo sobre a “liga das democracias” há mais de um ano.
Em discurso na Hoover Institution, no ano passado, ele ofereceu alguns exemplos concretos do que essa liga poderia fazer. Essencialmente, ela parece ser um meio para contornar as Nações Unidas.
A liga poderia patrocinar uma intervenção em Darfur, ou “exercer pressão coordenada contra os tiranos da Birmânia ou Zimbábue, com ou sem a aprovação de Moscou e de Pequim”. Poderia ainda “se unir para impor sanções ao Irã”. Ele prometeu convocar uma conferência de cúpula das democracias em seu primeiro ano na Casa Branca e comparou a formação da liga à criação da Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte).
O apoio de McCain a uma liga de democracias significa que isso foi rotulado como uma idéia de direita. Mas variantes dessa idéia já atraíram o apoio da esquerda. O Projeto de Segurança Nacional da Universidade Princeton -apoiado por muitos acadêmicos esquerdistas- promove a idéia de um “concerto de democracias”. Ivo Daalder, assessor de Obama, também já defendeu a idéia.

Profecia auto-realizável
Mas os principais candidatos democratas se mantiveram cuidadosamente neutros. Em contraste, McCain abraçou a idéia como se fosse sua. Caso ele chegue à Casa Branca, pode vir a lastimar essa escolha. Embora a idéia tenha atrativos, ela oferece alguns perigos óbvios.
O primeiro problema é que a liga exacerbaria as tensões com a Rússia e China. Robert Kagan, assessor de McCain, argumenta que essas tensões já existem.
De fato, Rússia e China ocasionalmente agem como uma liga de autocracias, protegendo maus governos na ONU. Por isso, Kagan crê que seria uma boa idéia se os democratas do planeta promovessem seus valores de modo mais organizado. O problema dessa idéia é que ela acarreta o risco de tornar realidade aquilo que profetiza.
A relação entre EUA, China e Rússia é complicada, com elementos de cooperação e competição. A formação da liga exacerbaria os antagonismos. McCain rapidamente descobriria que precisa da cooperação da Rússia e da China para atingir outros objetivos. Ele prometeu negociar um novo tratado sobre as alterações climáticas que incluiria a China.
Qualquer esforço para reforçar o regime de não-proliferação nuclear necessitará de assistência russa. Os EUA também têm alianças com governos autocráticos no Oriente Médio.
Antagonizar os sauditas e até os chineses e russos poderia ser válido se possibilitasse realizar outros objetivos. Até os mais fervorosos defensores da ONU sabem que ela falha em sua “responsabilidade de proteção” aos povos oprimidos. A formação de uma liga de democracias poderia ainda estimular reformas democráticas nos aliados americanos mais autocráticos. O maior problema da “grande idéia” de McCain não está nas autocracias, mas nas democracias mesmas. Quase todos os aliados democráticos dos EUA expressam profundas reservas quanto à idéia da liga. Os europeus hesitariam em aderir a uma aliança que desestabilize a ONU e suspeitam da pregação democrática dos EUA. Os aliados na Ásia, receosos quanto a antagonizar os chineses, não devem ser mais receptivos.
Assim, caso McCain, logo depois de eleito, decidisse convocar uma conferência de cúpula das democracias, a festa seria bastante estranha. Muitos dos convidados alegariam outros compromissos -o equivalente diplomático de “não conseguimos uma babá para a noite da festa”. E as democracias que aceitassem o convite poderiam se ver como integrante de uma nova coalizão dos indispostos.

“Folha de S. Paulo Mundo”

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Banco Central: sitiado ou estrela-guia?

Paulo Passarinho

Com a adesão de Lula e de seu governo à política macroeconômica de interesse do capital financeiro – entenda-se como tal, principalmente, os bancos e as grandes corporações empresariais, com atuação transnacional –, convencionou-se rotular o governo atual, especialmente em seu primeiro mandato, como um governo “em disputa”.

Essa rotulagem interessava aos setores de esquerda que apoiavam, e ainda o fazem, o governo. Esses setores atribuíam as opções de Lula, em favor de uma política econômica ortodoxa, como uma contingência da situação deixada por FHC, onde o endividamento público era explosivo e a pressão inflacionária poderia comprometer a almejada estabilidade de preços.

Para esses setores, os grandes vilões contra políticas de desenvolvimento e geração de empregos eram o Banco Central e a taxa de juros. Porém, tudo seria uma questão de tempo. Quando a situação viesse a melhorar, o governo poderia alterar a sua política econômica.

Nesse primeiro mandato de Lula, esses setores chegavam até mesmo a personalizar essa suposta disputa, colocando Antônio Palloci (e Henrique Meireles) como representante maior da “direita”, da ortodoxia, enquanto José Dirceu, chefe da Casa Civil, seria o expoente maior de uma ala desenvolvimentista dentro do governo.

O tempo passou, Palocci e Dirceu acabaram caindo. Esse último é hoje um saltitante lobista confesso de interesses de multinacionais, e, apesar da política econômica não ter se alterado, os efeitos da mesma começaram a apresentar resultados aparentemente animadores. As contas externas começaram a apresentar saldos comerciais expressivos, puxados pela demanda asiática e seus efeitos nos preços das commodities agrícolas e minerais; taxas de crescimento da economia melhoraram um pouco em relação aos anos de governo FHC, elevando a oferta de emprego; e, particularmente desde o início do segundo mandato, o lançamento e propaganda massiva do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – fizeram com que muitos daqueles que acreditavam na suposta disputa passassem a crer que já havíamos ingressado em uma hegemonia “desenvolvimentista”.

Passavam também a crer (estimulados inclusive pela abordagem feita por muitos órgãos da grande imprensa) que o Banco Central – que continua sob direção do agora blindado “ministro” Henrique Meireles, para evitar complicações judiciais – havia se transformado em uma espécie de bunker dos liberais, um órgão sitiado pelos ortodoxos, em meio a um governo onde os desenvolvimentistas passavam a ser maioria e força maior de inspiração de Lula nesse seu segundo mandato.

Entretanto, bastou o aparente início da reversão do excepcional quadro da conjuntura externa – provocado pela crise financeira nos Estados Unidos, mas com importantes reflexos na Europa e no Japão – para que as esperanças dos mais afoitos e otimistas possam estar comprometidas.

O Banco Central, por exemplo, voltando a evocar os riscos de um descontrole da inflação – a partir das metas estabelecidas pela própria equipe econômica – acaba de recorrer ao velho e lucrativo, para bancos e financistas, remédio da alta da taxa de juros. Em um contexto em que os países em geral estão trabalhando com taxas de juros reais extremamente baixas ou até mesmo negativas, o Brasil volta a ter a taxa real mais alta do mundo.

Até mesmo o outrora desenvolvimentista Guido Mantega, em peregrinação aos Estados Unidos, admite que não é conveniente ao nosso país crescer a taxas superiores a 5% ao ano, repetindo, com uma leve variação, o que antes era uma espécie de lugar-comum do discurso de Pedro Malan.

A preocupação principal dessas autoridades continua sendo a sensibilidade e os humores dos nossos credores, e não os interesses e necessidades da nossa população.

Crescimento forte da economia – dado o modelo econômico em curso, baseado em metas de inflação rígidas, arrocho fiscal e câmbio definido pelo movimento especulativo de divisas – leva inevitavelmente a um comprometimento muito sério da nossa balança comercial, pelo crescimento que acaba produzindo nas importações. E o saldo da balança comercial é a mais importante variável para um não descontrole das nossas contas externas.

E, assim, continuamos a vivenciar a hegemonia neoliberal, em meio a um governo que, tendo as suas origens na esquerda, optou por assumir a política e as preocupações da direita.

Na política, infelizmente, assim como na vida em geral, as análises e as tomadas de posições nem sempre são pautadas por uma racionalidade que se baseie em uma apreciação da realidade, a partir de fatos objetivos. Elementos ligados à subjetividade, à maneira como cada indivíduo vê o mundo que o cerca, à sua fé, às suas convicções e compromissos de fidelidade grupal, e especialmente estritos interesses materiais, econômicos e também de natureza política, acabam tendo muito mais força e relevância do que qualquer outra variável.

Somente assim se pode explicar o fato de que setores de esquerda, que querem e precisam acreditar no governo Lula, se deixem levar e acreditar em uma mudança de orientação substantiva entre o primeiro e o segundo mandato.

Todas as políticas públicas de responsabilidade do governo federal trazem a marca da inflexão doutrinária e política – para a direita – efetuada por Lula e seus aliados ditos de esquerda. As políticas ambiental, agrária, agrícola, de petróleo, de educação, de saúde, de seguridade social, de comunicações, de concessões de serviços públicos e de financiamentos oficiais em curso – só para ficar em alguns exemplos – representam a negação límpida de tudo o que as chamadas bases de esquerda do atual governo sempre defenderam.

Até mesmo a propalada política externa não pode ser excluída dessa triste lista. Se é verdade que a política diplomática, especialmente a voltada para a América Latina, é progressista e já cumpriu importantes iniciativas, é importante destacar também que as tropas militares brasileiras cumprem um papel muito grave no Haiti, país que teve um presidente deposto por uma ação direta de desestabilização patrocinada pelos governos dos Estados Unidos e da França. Além disso, o Brasil é hoje o principal país-suporte das iniciativas de grupos estrangeiros poderosos em nosso continente, “confiantes” na ordem econômica garantida pelo atual governo federal.

E é nesse contexto que é forçoso reconhecer que, muito diferente de ser uma ilha no atual governo, a direção emanada do Banco Central é a verdadeira estrela-guia das principais e decisivas opções do Palácio do Planalto.

Paulo Passarinho é economista.

“Correio da Cidadania”

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Os piores pesadelos

McCain promete ser o sonho mau do Hamas e de Cuba. Por que não faria a insensatez de atacar o Irã?

Sérgio Augusto

Amanhã os americanos festejam o Memorial Day. Instituído há 140 anos, em honra aos soldados mortos na Guerra Civil (1861-1865), acabou virando uma solenidade patrioteira a serviço de todas as guerras em que os EUA se meteram nas últimas 11 décadas. Seguindo a tradição, o presidente Bush irá ao cemitério nacional de Arlington depositar flores no túmulo do Soldado Desconhecido e louvar “os homens que deram suas vidas pelo país e pela democracia”. Respeitando o momento, ninguém ousará perguntar quantas daquelas vidas foram realmente dadas ou compulsoriamente sacrificadas, de maneira estúpida e descuidada, na guerra do Iraque.

O Memorial Day já se chamou Decoration Day. Pelo andar dos tanques, ainda será rebatizado de Depression Day. Em cinco anos, uma invasão arquitetada a partir de uma mentira e com duração prevista de algumas semanas já causou a morte de milhares de soldados americanos, ferimentos em outros 30 mil combatentes, e uma média de 65 óbitos diários entre os civis iraquianos. Sem fim à vista, conseguiu transformar Bagdá num inferno pior que o mantido a ferro e fogo pelo finado Saddam Hussein.

Nenhum dos três postulantes à sucessão de Bush sabe exatamente quando e como sair de lá. Só porque já visitou o Iraque oito vezes, John McCain pensa que sabe. Por ele, as tropas americanas se retiram do Iraque em 2013. Detalhe: vitoriosas. Seus assessores ainda não divulgaram se o veterano da guerra do Vietnã pretende comemorar o triunfo no Iraque caminhando sobre as águas do Tigre ou do Eufrates ou se deixará para fazê-lo no Golfo Pérsico, depois de arrancar Osama bin Laden pela barba de uma caverna afegã.

A guerra sempre foi e continua sendo um malogro de proporções épicas. Com brutais repercussões na terra de quem a provocou. Ou melhor, provocou-as; porque, na realidade, são duas guerras: a do Iraque e a do Afeganistão. Juntas, já produziram 655 mil mortos e feridos; mais 620 mil com problemas psicológicos e sérias avarias no cérebro. Os dados são de um estudo de 500 páginas, divulgado em abril pela (no caso, insuspeita) Rand Corporation. Segundo a pesquisa, 18,5% dos que estiveram nos dois conflitos, como soldados ou intendentes, sofrem de depressão e stress pós-traumático, e 19% padecem de algum tipo de lesão cerebral. Levam uma vida desgraçada e sem perspectiva, atormentados por dores físicas e mazelas psicológicas, insônias, pesadelos, surtos de apatia, irritação e fúria. Efeito colateral: cerca de mil tentativas de suicídio por mês.

Terapia infalível não há. Na revista The New Yorker desta semana, Sue Halpern dá detalhes de uma opção psicoterápica, aparentemente promissora, que atualiza as experiências cognitivo-behavioristas de Pavlov com os avanços da simulação computadorizada (leia-se realidade virtual). Imerso numa versão modificada do videogame Full Spectrum Warrior, que simula a guerra no Iraque, o paciente trabalha aos poucos os traumas que os combates reais lhe deixaram.

E ainda pensam numa guerra contra o Irã. Tamanha insensatez não passa pelas cabeças de Barack Obama e Billary (perdão, Hillary) Clinton, mas pela de Bush III (ou melhor, John McCain), passa. Como também faz parte dos devaneios das corporações (Blackwater, Halliburton, etc.) que grandes bocas arrumaram graças às duas guerras, impondo um rombo de bilhões de dólares aos contribuintes americanos, conforme apurou uma auditoria do Pentágono nas despesas do Exército americano, divulgada na quinta-feira. Isso só fará aumentar o interesse em torno do filme de John Cusack War, Inc., que no dia seguinte estreou em Nova York e Los Angeles.

Cusack, obsessivo monitor da dominação corporativa da máquina de guerra americana, retrata a loucura da invasão do Iraque por meio da ação das 630 empresas que faturam 40% dos mais de US$ 2 bilhões que Washington gasta por semana com a ocupação. Se for, como dizem, uma mistura de Dr. Fantástico com Laranja Mecânica e O Mágico de Oz, para alguma boa causa, além de acelerar o desprestígio de Bush, a guerra terá servido.

Incorrigível, Bush passou três dias no Oriente Médio, na semana passada, tentando remediar às pressas os erros que cometeu ao longo de sete anos, quando só teve olhos para os monarcas da Arábia Saudita, aos quais voltou a pedir que aumentassem a produção de petróleo. Um editorial do New York Times qualificou a viagem de inútil. Totalmente inútil, não foi. Ao repelir, mais uma vez, qualquer diálogo com os países que apóiam os militantes do Hamas e o Hezbollah, Bush desqualificou aqueles que propõem uma conversa com o Irã e a Síria, velada pichação em Obama, supostamente útil à campanha de McCain, que aproveita qualquer circunstância e qualquer microfone para caracterizar Obama como um político não só inexperiente em política externa como ingênuo no trato com países indignos da confiança dos americanos.

Nessas horas, a palavra-chave é appeasement, que significa conciliação, apaziguamento. Se proposta por um democrata, é sinal de fraqueza diante do inimigo; se proposta por um republicano, é um ato de coragem, um gesto de estadista. Na falta de melhor picuinha, McCain e os que o apóiam encanaram na predisposição de Obama de procurar alguma forma de entendimento com Irã, Síria, Coréia do Norte e Cuba. No dia 9, McCain voltou a afirmar que seu presuntivo adversário democrata era o candidato favorito dos palestinos do Hamas. Ora, entre Obama e um esquentado veterano de guerra que já ameaçou expulsar a Rússia do Grupo dos Oito e prometeu ser “o pior pesadelo” do Hamas, o conselheiro político da organização, Ahmed Yousef, tinha mais era que torcer pelo democrata.

Implícita na aleivosia de McCain a suposição de que o senador por Illinois, se eleito presidente, trataria o Irã com chá e simpatia. Inúmeras vezes Obama reconheceu o Hamas como uma organização terrorista, e nunca defendeu negociações imediatas, diretas e incondicionais com Mahmud Ahmadinejad, o balandrão presidente iraniano - até porque sabe, ao contrário de McCain e alguns analistas conservadores, que quem discute assuntos militares, diplomáticos e nucleares no Irã é o aiatolá Ali Khamenei.

E se fosse Ahmadinejad, qual o problema? Quantos países estrangeiros ele já bombardeou e quantos civis matou? Se minimamente coerente, McCain nem sequer cumprimentaria Bush, nem pediria conselhos a Henry Kissinger, notório criminoso de guerra, como fez em dezembro de 2007.

Esquecido de que na campanha de 2000 defendera a suspensão do embargo a Cuba, mesmo com Fidel no poder, McCain aproveitou os festejos da independência cubana, terça-feira passada, para se retratar. Agora que as coisas parecem estar mudando em Cuba, a tal ponto que o próprio Bush prometeu liberar o envio de celulares americanos para Havana, McCain mudou de posição. É contra qualquer appeasement com Raúl Castro. Também quer ser o pior pesadelo de Cuba. Só para se distinguir ainda mais de Obama. Como se isso fosse necessário.

SEXTA, 23 DE MAIO
Embargo fica, diz Obama

O senador Barack Obama prometeu a anticastristas da Flórida que, se for eleito presidente, liberará viagens de cubanos para visitar parentes em Cuba. Manterá, no entanto, o embargo econômico que os EUA impõem à ilha há quatro décadas.{TEXT}

“Estado de S. Paulo”

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As cidades gregas

HISTORIANET

O Período Arcaico da história grega ( séculos VIII VI a. C.) caracterizou-se pela formação e desenvolvimento das cidades-Estado. Formaram-se aproximadamente 160 cidades em território grego e, a princípio a característica mais marcante foi a soberania de cada uma delas. A cidade soberana é aquela que possui seu próprio governo, leis e não possui nenhuma estrutura política acima dela. A cidade funciona como se fosse um pequeno país. Tratar da Grécia Antiga neste período significa portanto conhecer o desenvolvimento das cidades.

Não havia na Antigüidade um Estado Grego ou um governo grego, mas apesar disso podermos nos referir a uma cultura, religião ou a um povo grego; grande parte das cidades formaram-se com elementos étnicos semelhantes: Jônios, Aqueus e Eólios além disso formaram-se dentro de um mesmo contexto histórico, quando da crise da sistema gentílico e tiveram um desenvolvimento semelhante

A religião politeísta “mitológica” e os Jogos Olímpicos também foram um fator de união entre gregos.

Esparta
No final do século VI a.C., depois da conquista da Messênia, o Estado espartano completou sua organização, transformando-se em verdadeiro “acampamento militar”. As Instituições sócio-políticas espartanas foram atribuídas a um legislador lendário, Licurgo, que teria recebido as instruções do deus Apolo. Várias das instituições atribuídas a Licurgo já existiam desde há muito, mas adaptaram-se aos novos tempos, servindo para manter o corpo de cidadãos como uma minoria dominante, que se sobrepunha e explorava uma população camponesa numerosa.

Havia em Esparta três camadas sociais bem diferenciadas, que viviam em territórrios separados e cuja origem ainda é bastante discutida. Os espartanos ou esparcíatas eram a classe dominante, formada provavelmente pelas famílias dos conquistadores dórios. Estavam proibidos de se dedicarem à agricultura, ao comércio ou a qualquer outra atividade que não fosse a política e a guerra: eram verdadeiros soldados profissionais. Embora cada família espartana possuísse hereditariamente um lote de terra, o kleros, cultivado por servos, os hilotas, era o Estado que administrava a produção econômica. Por essa razão convencionou-se chamar o regime econômico de Esparta de hilotismo, para acentuar as diferenças entre o escravismo praticado na quase totalidade do mundo grego e a escravidão pública que caracterizou o regime espartano. Tanto as terras quanto os hilotas pertenciam ao Estado: o cidadão espartano não podia vender, nem ceder, nem legar por herança o kleros, a não ser ao filho mais velho, assim como não podia vender os hilotas. A princípio havia igualdade entre os espartanos quanto à posse da riqueza, mas, aos poucos, os homoi (iguais), mais ricos e poderosos, foram se distinguindo dos hipomeiônios (menos ricos). Apenas os espartanos possuíam direitos políticos, e, como já dissemos, formavam uma minoria - a quinta parte da população.

A segunda camada social era formada pelos periecos (os da periferia, composta por populações livres, porém sem direitos políticos, embora lhes coubesse administrar as comunidades, fora da cidade de Esparta; onde viviam. Por muito tempo foram considerados prováveis descendentes dos aqueus que se haviam submetido, sem oporem grande resistência aos conquistadores; hoje, admite-se que também famílias dóricas, juntamente com famílias aqueanas, integrassem a camada dos periecos. Eram camponeses, comerciantes e artesãos, podendo possuir terras e bens móveis; gozavam de certa autonomia, vigiada ; por funcionários espartanos, os Harmostes, e eram obrigados a pagar tributos. 0 casamento entre espartanos e periecos era proibido. Serviam no exército em unidades à parte, pois o serviço militar lhes era obrigatório.

A última camada social era composta pelas populações dominadas e reduzidas à escravidão pública: os hilotas. Eram a massa da população trabalhadora, que habitava nas terras que o Estado havia conquistado. “Cada kleros era cultivado por várias famílias de hilotas que com seu trabalho sustentavam o proprietário e sua família. O que distinguia, em primeiro lugar, os hilotas dos escravos de outros Estados gregos é que eles eram propriedade do Estado, escravos públicos, como os chamam os autores antigos; além disso, ainda que estivessem ligados ao principal meio de produção - a terra - guardavam certa autonomia econômica que os assemelha aos servos. Cultivavam a terra do proprietário espartano com suas ferramentas e pagavam uma renda anual fixa (apófora) in natura : trigo, vinho, queijo, azeite. Como essa renda constituía cerca de metade do rendimento do solo, o resto era suficiente apenas para sustentar algumas famílias hilotas, sem falar nas carências devido às más colheitas. Contrariamente aos escravos de outros Estados, os hilotas iam muitas vezes à guerra, como escolta, carregadores, criados. Sua vida era tão dura que o poeta espartano, Tirteu (século VII a. C.) os compara a “asnos sobrecarregados” (DIAKOV, ,V. e KOVALEV, S.,op. cit., págs. 338 e 339.). Suas revoltas eram freqüentes, ó que colocava os dominadores espartanos sob constante ameaça. Para prevenir essas revoltas, os espartanos exerciam, anualmente, matanças de hilotas nas aldeias; realizadas por jovens espartanos, as críptias constituíam também uma das etapas da educação dos futuros cidadãos.

Na verdade, toda a sociedade e a educação espartanas estavam voltadas para a guerra. “Espero que meu filho volte com seu escudo ou deitado sobre ele”, é uma das frases atribuídas às mães espartanas e que caracteriza, de modo exemplar, os costumes belicosos

daquela sociedade. Nesse tipo de organização social, o exército tinha importância fundamental. Era sobre ele que assentava a ordem interna e a defesa, externa. Os hoplitas (soldados

(Texto extraído de História das sociedades; Denise, Aquino, Oscar. Ed. Ao Livro Técnico)

Atenas
Atenas foi fundada na região da Ática, próxima ao litoral, no século VIII a.C. em torno de uma colina fortificada, onde encontrava-se o Palácio do rei (Basileu) e o templo, constituindo a Acrópole.

A sociedade ateniense dividia-se em três classes sociais, sendo que os eupátridas formavam a aristocracia rural, dona das melhores terras que, diferente de Esparta, eram consideradas propriedade individual, e que monopolizavam o poder político, tanto no período monárquico, como durante o arcontado, forma aristocrática de governo composta por nove arcontes, quando mantiveram a grande maioria da população marginalizada das discussões políticas.

Os georgóis formavam uma segunda camada social, composta a princípio por pequenos proprietários rurais, que trabalhavam com seus familiares e produziam para a subsistência. Muitos desses homens foram reduzidos à condição de servos e de escravos, juntamente com mulher e filhos e podiam inclusive serem vendidos ao estrangeiro.

Os demiurgos formavam a terceira camada social, eram artesãos e viviam do próprio trabalho, porém normalmente em uma situação de pobreza. Havia ainda os metecos, estrangeiros, normalmente comerciantes e sem direitos políticos.Os thetas formavam a camada inferior, eram trabalhadores braçais, camponeses, marginalizados econômica e politicamente. A produção de excedente, fez com que a situação dessa camada se deteriorasse, pois em Atenas desenvolveu-se a escravidão por dívida.

A concentração fundiária, a cunhagem de moeda e a colonização do Egeu, e a marginalização de georgóis e thetas foram os fatores responsáveis pelo acirramento da luta de classes, processo que determinou a criação da democracia na cidade. A passagem do arcontado para a democracia foi fruto portanto da luta contra os privilégios da minoria eupátrida, sendo que esse processo completou-se cerca de um século depois.

Os confrontos políticos possibilitaram o surgimento de líderes que tentaram golpes como forma de ascensão política. Como essas lutas ameaçavam não só o poder político dos eupátridas, mas inclusive a propriedade, a aristocracia foi forçada a ceder às exigências de concessão de leis escritas, nomeando o arconte Drácon para redigir um código de leis. Essas reformas porém mantiveram a escravidão por dívida e os privilégios da elite, fatos que determinaram a continuidade dos confrontos, até a eleição de Sólon para o arcontado. As reformas promovidas por esse legislador foram maiores: abolição da escravidão por dívidas, a libertação de todos os devedores escravizados o favorecimento a produção artesanal e ao comércio e a instituição de uma nova forma de participação política, baseada na riqueza, denominada Timocracia.

Essas reformas desagradaram tanto a elite que perdeu privilégios, como os thetas que obtiveram poucas conquistas, acirrando ainda mais a luta de classes, favorecendo o advento da Tirania.

Tirano é o nome dado aos governantes que chegaram ao poder através de golpes e exercem um governo pessoal. Considera-se que a tirania acabou sendo responsável por abrir caminho para o surgimento da democracia, pois o tirano para poder manter o poder, teve que atrair as camadas populares, dando-lhes maior organização e consistência e ao mesmo tempo enfraqueceu a elite, perseguida, sendo que vários aristocratas tiveram propriedades confiscadas ou foram expulsos da cidade.

No entanto, a transição para a democracia não foi um processo natural. Os tiranos foram derrubados pela elite, que inclusive contou com o apoio de Esparta. No entanto a situação de Atenas caracterizava-se pela decadência: declínio da produção, marginalização dos thetas, conquista persa sobre as colônias da Ásia Menor e a presença dos espartanos em apoio a elite. Foi neste contexto que ocorreu uma grande revolta liderada por Clístenes, que instituiu a democracia na cidade.

As reformas de Clístenes tiveram como objetivo eliminar o controle da aristocracia sobre o poder político. A cidadania foi concedida a um número maior de indivíduos, porém ainda restrita a uma minoria: Homens, livres, maiores de18 anos, nascidos em Atenas e filhos de pais ateniense. Instituiu o Ostracismo, processo que permitia a expulsão de um cidadão da cidade por um período de dez anos, sendo que o nome de pessoas consideradas nocivas a cidade eram escritas em um pedaço de argila

A Democracia Ateniense era uma democracia escravista, o trabalho escravo continuava a ser a base da vida econômica e sua exploração tendeu a aumentar.

“HISTORIANET”

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Governo Lula respalda-se cada vez menos na classe trabalhadora organizada

Valéria Nader

O Correio publica abaixo a segunda parte da entrevista que o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concedeu ao Correio. Na primeira parte, publicada na edição de número 595, analisaram-se os aspectos nefastos da aprovação do projeto de lei 1.990/07 pelo Câmara Federal no dia 11 de março, reconhecendo legalmente as centrais sindicais como entidades gerais de representação dos trabalhadores.

Inserindo essa medida no lógica do governo Lula, Antunes não tem nenhuma complacência: em um processo de grandes avanços e pequenos recuos, o sociólogo destaca que o governo vem devastando a classe trabalhadora organizada, amenizando o caminho para o avanço do grande capital.

Confira abaixo.

Correio da Cidadania: Em sua última entrevista ao Correio, você mencionou que o governo Lula fala com os pobres muito bem, mas garante mesmo é a boa vida dos ricos – uma situação, no mínimo, capciosa, já que os governos burgueses não dialogam com os pobres. Que governo é esse?

Ricardo Antunes: Com o Lula é diferente mesmo, há uma espécie de semibonapartismo, onde os interesses de cima estão absolutamente preservados e garantidos, e a relação com as massas pode prescindir dos partidos. É nítida também uma migração da base social do governo Lula. Esse governo foi eleito com o apoio da classe trabalhadora organizada, sindical e politicamente. Hoje é cada vez menos ancorado na classe trabalhadora organizada e cada vez mais respaldado pelas parcelas mais empobrecidas da classe trabalhadora, que não têm emprego, trabalham sem organização sindical e política e vivem da esmola vergonhosa que o governo dá sob o nome de Bolsa Família, que hoje atinge 11 a 12 milhões de famílias, cerca de 60 milhões de pessoas.

É nesse pólo, por isso o traço semibonapartista, que o governo Lula investe pesadamente. Eu me lembro que, há 4, 5 anos atrás, o Lula esteve no ABC e disse que os operários de São Bernardo do Campo eram uma elite, pois pagavam o imposto de renda. Foi vaiado. É comum esse tipo de gafe quando Lula vai a um encontro operário organizado. Em compensação, nos rincões miseráveis, para uma família paupérrima, que não tem trabalho, alimento, produção, nada, receber 50, 60, 70 reais por mês permite a compra da ração mínima necessária para a sobrevida.

CC: Vivemos um momento muito esquizofrênico, não?

RA: É um momento difícil, porque, digamos assim, a tragédia brasileira é que o governo Lula deu certo para os de cima, para as classes dominantes. Quem ganha dinheiro com esse governo? O sistema financeiro, o capitalismo financeiro, os bancos e o grande capital produtivo; Vale do Rio Doce, Telefônica… O governo Lula é o reino desses grandes capitais produtivos e do sistema financeiro. E perdem com isso os assalariados médios, os de base. Claro, se você comparar com o governo Fernando Henrique, é evidente que o atual significa uma pequena melhora. Mas ninguém votou no Lula pensando num governo um pouquinho melhor que o de Fernando Henrique. Votou-se em Lula, pelo menos nos setores organizados, por uma mudança substancial, e isso passou longe.

Essa chance nós perdemos, o governo Lula jogou fora a chance de fazer algo como está sendo feito na Venezuela, onde começaram a desmontar as engrenagens da dominação burguesa, oligárquica; as mudanças que se fazem no Equador, que têm um certo respaldo político do governo; as lutas da Bolívia, onde indígenas, camponeses e trabalhadores de certo modo têm alguma ressonância no Estado. Daí a política desses respectivos governos de nacionalização das riquezas minerais, de petróleo, gás, minérios, e a preservação da água não como mercadoria privatizada. Tudo isso o Brasil jogou fora.

O governo Lula tem sido capaz de fazer privatizações que o governo FH não fez. E não fez a revisão de nenhuma delas. Lembre-se que, quando o MST fez a importante campanha pelo plebiscito da Vale, o governo Lula disse que a situação era intocável, que a história não andava para trás, e isso não entrou sequer na pauta de governo. É um governo tíbio, servil, que está completamente embasbacado com as vantagens do país “grande potência”.

Nesse sentido, é curioso que, nos últimos anos, Lula tem reiteradamente feito referências à ditadura militar, sempre elogiosas. É o governo Geisel, o governo Médici, o Brasil cresceu… Quer dizer, recorre à ditadura militar como se aquele fosse um período positivo da nossa história. Isso mostra a tragédia em que nos enfiamos.

E há uma diferença do primeiro mandato para o segundo que temos de ter claro. Depois do destroçamento interno do governo que foi o mensalão, que devassou o PT, chegou à Casa Civil e atingiu o alto comando do partido e do governo, aconteceu que a oposição centro-direitista errou redondamente. Imaginou que podiam deixar o Lula seminocauteado o ano de 2005 inteiro, para chegar em 2006 e dar o golpe final na eleição, fazendo a sucessão. Erraram rotundamente. Porque a população percebe: entre um governo pífio como o do Lula e um governo pífio, ultra-elitista e anódino como o do Alckmin, era melhor o primeiro. A população tapou o nariz, não votou nele no primeiro turno, depois tapou o nariz mais ainda e disse: “Bom, vamos votar no menos nefasto”, e deu uma chance para o Lula.

E também, por motivos mais ou menos conhecidos, havia uma impossibilidade de gestação de uma oposição de esquerda ampliada. Houve um processo eleitoral, a Heloísa Helena teve 7 milhões de votos - o que é muito expressivo para uma candidatura à esquerda da esquerda -, mas, com todas as dificuldades encontradas naquele momento, era mais uma candidatura para marcar um contraponto do que para empolgar as massas do país. Até porque a presença do Lula conquistada em 30 anos de lutas sociais ainda tem força no imaginário popular.

CC: Esse prestígio histórico do Lula acaba atravancando muito a resistência?

RA: Claro, porque a população diz: “Pelo menos ele está tentando fazer e não consegue”. Não é isso, ele não está tentando. O Lula não tentou nenhuma medida substantiva contra a ordem. Ao contrário, o que ele faz – digo o governo, o Lula em si é parte dessa história – magistralmente bem é o que o governo Fernando Henrique fez razoavelmente bem, pela ótica das classes dominantes.

O governo Lula é aquilo que as classes dominantes nunca imaginaram que seria. Não sei se você se lembra, nas eleições de 2006, perguntaram ao ex-presidente do Itaú, Olavo Setúbal, quem ele preferia. Ele disse: “É a mesma coisa, tudo igual. O Lula está sendo o melhor dos mundos, estamos ganhando dinheiro como nunca, o Alckmin também é isso, então estamos tranqüilos, é questão de gosto, quase como time de futebol”. Um ou outro, a garantia é a de que a política econômica dos juros altos, do receituário externo, aquela política balizada pelo FMI, das privatizações, da garantia dos recursos financeiros estrangeiros que vêm aqui, saqueiam o país e voltam, tanto o governo Alckmin como o Lula podem garantir.

CC: Mas essa história começou lá atrás, já no primeiro mandato.

RA: E a expressão disso é que, já em 2002, quando Lula ganhou a eleição, o presidente do Banco Central seria ninguém menos que Henrique Meirelles, que era presidente do Banco de Boston, recém eleito deputado federal pelo estado de Goiás, sem provavelmente nunca ter posto o pé lá, porque ele estava no jet-set internacional. Isso dá a dimensão da privatização dentro do Estado e do governo Lula.

Para dar um segundo elemento, que foi absolutamente surpreendente, há a liberação dos transgênicos, que foi uma imposição das mais nefastas transnacionais, com a Monsanto sempre à frente. Eu imagino o que não passou dentro do governo para que a liberação dos transgênicos fosse aprovada…

CC: Ou seja, é uma capitulação atrás da outra, a exemplo também da reforma trabalhista e sindical, que vem vindo de mansinho.

RA: Exato. Mas há um elemento também importante: naquela votação da emenda 3 – que proibia os auditores fiscais da Receita Federal de autuar ou fechar as empresas prestadoras de serviço quando entendessem que a relação de prestação de serviços com uma outra empresa era, na verdade, uma relação trabalhista, em prejuízo dos contratos de trabalho pela CLT -, que significaria um passo muito grave no processo de terceirização e precarização do trabalho, nesse momento, o governo Lula foi contrário. Porque o Lula, que é uma figura política muito inteligente, percebeu o momento.

No ápice da crise do mensalão, tenho a impressão que deve ter faltado muito pouco para ele renunciar. Quem convive lá, com o dia-a-dia do palácio, deve ter sentido que faltou pouco para o Lula fazer como o Collor: tirar o chapéu. Não sei se você se lembra quando ele deu uma entrevista a uma jornalista em Paris, assumindo que tinha mensalão, mas não tinha, que era, mas não era…

Quem segurou o governo Lula na crise do mensalão foi o grande capital, que deu a ordem de ninguém pensar em apagar o governo Lula, porque, com a economia estável, os bancos e o grande capital ganhando como nunca, quem seria louco de abrir uma crise política que podia detonar uma crise econômica? Portanto, a ordem do grande capital era não tocar no governo, daí o PSDB e o PFL não assumirem a luta pelo impeachment de Lula.

Nesse sentido, a rejeição da Emenda 3 foi muito pensada. O governo Lula deve ter feito um balanço de que estava perdendo muito rapidamente sua base social de trabalhadores e estava nas mãos integralmente do grande capital. Era preciso segurar algumas pontas de apoio, porque, numa segunda crise do mensalão, ele podia não ter mais o suporte desses setores de cima.

Mas, mesmo na primeira crise, era assim: “Vamos deixá-lo seminocauteado, o nocaute será nas eleições. Erraram feio. E em 2006 o que o Lula faz? Continua garantindo a boa vida para os ricos; lembre-se que uma vez ele disse que “nunca os ricos ganharam tanto dinheiro nesse país como no meu governo”. Ele diz isso com orgulho, quer dizer, esse lado nefasto, trágico, que é a cara do governo Lula, ele destaca com orgulho.

CC: São os pequenos recuos para avançar na mesma direção…

RA: Suponha-se que haja uma crise do segundo governo numa situação econômica de instabilidade. Bom, aí as classes dominantes não teriam mais o que garantir. Por isso que, no meu entender, o presidente faz uma pequena inflexão em algumas medidas. Amplia o Bolsa Família, coopta centrais sindicais e aceita algumas das suas reivindicações, nesse caso justas, como, por exemplo, ser contra a “pejotização”, que tiraria poder dos fiscais do trabalho.

CC: O apoio que foi dado às convenções 151 e 158 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) - que, respectivamente, institui a negociação coletiva no setor público e proíbe as demissões imotivadas na iniciativa privada - viria também nesse pacote de recuos para segurar a base social e não ficar só nas mãos do capital?

RA: Em parte sim, em parte não. Quanto à convenção da OIT que obriga a justificação para as demissões, sim. Mas com relação à outra, lembre-se das medidas que também foram tomadas e que impedem o direito pleno de greve do funcionalismo público, claramente uma imposição do FMI, do sistema financeiro, que quer detonar o funcionalismo. E uma das formas de impedir a organização do funcionalismo público é decretar a ilegalidade da greve.

Essa restrição ao direito de greve mostra o caráter anti-republicano do governo Lula. Então veja, ele caminha assim, uma vez ele cede, na outra ele bate.

Esta negociação coletiva estava atada, portanto, a uma segunda medida. Qual a segunda medida? Como o funcionalismo público passa a ter negociação coletiva, passa a ter direito restrito de greve. Algo do tipo “agora que vocês têm quem os represente, o direito de greve não é mais pleno”. Uma concessão e uma cacetada.

No frigir dos ovos, tornar ilegal o direito de greve ao funcionalismo é um getulismo nos anos 2000. O que Getúlio fez com o decreto lei 19770/1931? Proibiu os sindicatos no setor público e o direito de greve, de todos os trabalhadores, incluindo o setor público. A Constituição de 88 concede o pleno direito de greve. Diz que vai haver uma regulamentação posterior, mas o preceito constitucional é o direito de greve. O governo Lula, por sua vez, está dando passos - e ainda vai tentar, pois não desistiu disso – no sentido de tentar coibir, restringir e, em certo sentido, impedir mesmo o direito de greve em vários setores do funcionalismo público.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

“Correio da Cidadania”

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Na toca do tatu

Megatatuzão do metrô - Shield Earth Pressure Balanced, a máquina que escava túneis; Sob os pés dos paulistanos, repousa um gigante que escava túneis do metrô. Aqui, sua anatomia

Flávia Tavares

O elevador de metal desce, aos trancos, 30 metros para debaixo da terra, partindo da Rua Oscar Freire. Mais uns passos numa lama pegajosa e clara, alguns minutos dentro de um trenzinho por túneis escuros, como aqueles dos filmes do Indiana Jones, e ali está. O rabo do tatu. Ou cauda, para ser mais fino. Por entre estruturas de metal e escadas estreitinhas, começa a jornada bicho adentro. Ele não é só um tatu. É um tatuzão. Melhor: é um megatatuzão. Pesa 1,8 mil toneladas, ou 1.800.000 quilos. É o equivalente a 2.250 fuscas juntos. Se bem que comparar o glorioso “Shield Earth Pressure Balanced”, nome oficial do megatatuzão, com um fusquinha é covardia. O shield tem 9,5 metros de diâmetro e 75 metros de comprimento, levando-se em conta a couraça e a cauda. Os aumentativos vão sendo justificados.

Faz muito calor dentro do tatu, o que não é exatamente uma surpresa. Mesmo agora, que ele não está com o metabolismo em plena atividade. O gigante está sonolento, avançando a 5 centímetros por minuto pela futura Estação Paulista da Linha Amarela do metrô de São Paulo. Não está escavando nada, porque não há terra nas estações. Só entre uma estação e outra. Quando ele terminar de atravessar esse pedaço, daqui a pelo menos 20 dias, e depois de passar por uma recauchutagem, recomeça o trabalho - ele escavará 3,2 quilômetros entre a Paulista e a Luz, a uma velocidade de 20 metros por dia. Já escavou outros 3,2 quilômetros da Faria Lima até a Paulista. Aliás, vira-e-mexe ele se pega pensando: por que a estação Paulista fica na Consolação e a Consolação, na Paulista? Depois, ele é que é o jeca.

Os órgãos do animal incluem bobinas de cabo, de mangueira, transformadores, geradores, compressores e esteiras, muitas esteiras. Elas são como um sistema digestivo, um intestino, responsável por levar 30 toneladas de lama a cada cinco minutos para o Largo da Batata, e, de lá, para um aterro. São 200 caminhões por dia. O tatu come toda essa terra enquanto escava. Mastiga bem o terreno com seus 200 dentes. Para amolecer o solo, ora arenoso ora argiloso, cospe uma espuma. Avança como se um bração de 8 milhões de quilos empurrasse a parede. Nessa altura, uma patricinha dos Jardins já estaria pronta para chamar nosso amigo de mega-super-hiper-blaster-tudo-de-bom-tatuzão.

Caminhando mais um pouco pelas entranhas do bicho, chegamos aos anéis que ele instalará enquanto se move lentamente sob as grandes avenidas da cidade. Sim, porque ele só escolhe as vias largas, sobre as quais passam carros e ônibus, para trafegar. Não é bobo. Vai que algum pedaço de terra cede e um prédio cai sobre seu corpão metálico. O tatu não quer ser responsável por nenhuma tragédia. No fundo, no fundo, ele é um bicho bom. Os anéis funcionam assim: conforme o tatu se arrasta para frente, vai instalando anéis de concreto, de 1,5 metro de largura, para dar sustentação ao túnel. Talvez isso tudo esteja confuso. Talvez, em vez de tatuzão, esse gigante devesse ser chamado de minhocão. Porque ele é tubular. Então, é só imaginar um minhoco que vai comendo terra e deixando anéis de concreto para trás. Por esse túnel, passarão os dois trens do metrô dessa linha.

O cérebro fica bem perto do intestino. Nenhum insulto implícito. A cabine de controles do shield, com seis telas de computador e muitos botões verdinhos, é comandada, em pelo menos um dos turnos, por um colombiano, Antonio Vargas. Se falasse, o shield diria: “Mi nombre és armadillo”. Não há dúvidas de que o tatuzão é macho. Só homens trabalham na operação da máquina. São 150, em três turnos. Os que operam o tatu passam 8 horas sem ver a luz do dia. Vinte deles são estrangeiros. Esse bicho enlameado é um poliglota.

Bom, pelo menos alemão é certeza que ele falaria. Encomendado pelo Consórcio Via Amarela, o megatatuzão foi fabricado em Schwanau, na Alemanha, pela Herrenknecht, e chegou ao Brasil, no porto de Santos, em setembro de 2006. Viajou em mais de cem carretas até São Paulo. Levou três meses para ser montado, nos túneis de onde será a Estação Faria Lima. Custou 30 milhões - quase R$ 80 milhões. O gerente de produção do shield, o engenheiro Carlos Henrique Maia, não tem dúvidas de que o investimento vale a pena. Confessa: “A obra da Linha Amarela tem cerca de 4 mil homens. Mas, com o shield e 150 homens, nós fazemos 60% do trabalho”. O megatatuzão não pôde ser usado no resto das obras por conta do tipo de geologia entre a Vila Sônia e Pinheiros, que é mais rochosa. Ali, para abrir os túneis, é usado um outro método, mais complexo, lento e trabalhoso. O tatu não é pra quem quer, é pra quem pode.

O primeiro tatuzão usado no Brasil foi na construção da Linha Azul, aquela que liga norte e sul, no início dos anos 70. Eram dois shields, de 6 metros de diâmetro. Chegaram shield, viraram tatuzão num minuto. Os paulistanos acolheram os bichões. Parecem não se incomodar de ter gigantes deslizando sob seus pés. Qualquer coisa que vá aliviar o caos do trânsito sobre a terra é bem-vinda. Só que, naquela época, os tatus se arrastavam por baixo de prédios, como o da Caixa Econômica Federal, na Praça da Sé. “Passávamos muito perto das fundações dos edifícios e, debaixo da Caixa, a argila era tão dura que o tatuzão desviou de caminho. Deu trabalho colocá-lo no eixo”, lembra Amauri Corrêa, engenheiro que comandou os trabalhos desses tatus pioneiros e deu consultoria nas operações da segunda geração, na Linha Verde, nos anos 90. “Ah, esse que veio depois era mais simples, porque o terreno era favorável. Tanto que ele foi fabricado no Brasil.” E foi mesmo. Por um inglês, John Foster, que vive em Minas Gerais.

Depois do cérebro, vem a boca. De dentro da câmara de pressão hiperbárica, é possível ver, de onde seriam os olhos do tatu, as hastes com os dentes girando e engolindo a terra. Ele é imponente, apesar da lentidão. Não faz movimentos bruscos, suas tocas serão duradouras. Deve ser por isso que se movimenta com tanta autoconfiança. É por essa câmara que os funcionários entram na cabeça do bicho para trocar os instrumentos de corte, quando eles se desgastam. E eles se desgastam muito. O megatatuzão chegou ao Brasil pintado de verde e amarelo (era uma homenagem, porque ele foi fabricado no ano daquela copa em que os nossos jogadores é que deveriam ter cavado um buraco e se entocado). Já está marrom, envelhecido. Mas continua digno. Ao completar sua viagem até a Estação da Luz, em julho do ano que vem, ele terá atingido a metade da vida. Será um tatu maduro. Acontece que, se nenhum outro trecho das obras do metrô tiver exatamente o mesmo diâmetro e as mesmas características geológicas, estará aberta a temporada de caça ao tatu. Ele será desmantelado, virará sucata. Megatatuzão não quer pensar nisso agora. Tem muita terra para comer, muito anel para instalar. Seus antepassados já diziam: quem nasceu para tatu morre cavando.

DOMINGO, 18 DE MAIO
Pára tudo! Ele chegou

Durante o fim de semana, a circulação de trens do Metrô entre as Estações Clínicas e Consolação, da Linha Verde, ficou interrompida. A paralisação aconteceu devido à chegada do megatatuzão, que escava o túnel da Linha Amarela, à região da Avenida Paulista.

TEMPERATURA
Faz muito calor dentro do tatu, o que não é exatamente uma surpresa

CAVIDADES
Os órgãos incluem bobinas de cabo, de mangueira, transformadores
e geradores

ESTÉTICA
Talvez, em vez de tatuzão, esse gigante devesse ser chamado
de minhocão

“Estado de S. Paulo”

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Julgamento histórico condena assassinos de trabalhador rural

PERNAMBUCO Por unanimidade, júri considerou culpados os 14 réus acusados de matar um canavieiro; pena será de 18 anos

Mariana Martins

EM JULGAMENTO histórico, que durou cinco dias, 14 pessoas – 5 policiais militares e 9 seguranças da Usina Santa Teresa, de propriedade do Grupo João Santos – foram condenadas a 18 anos de prisão pelo assassinato do trabalhador rural Luiz Carlos da Silva e pela tentativa de assassinato de outros 13 trabalhadores.
O crime aconteceu durante uma greve de canavieiros, em Goiana, cidade da zona da mata Norte do Estado, no ano de 1998. O julgamento foi considerado o maior da Justiça de Pernambuco, em número de réus e também de duração. A sentença foi anunciada no início da noite do dia 29 de março.

O Caso
Nada mais condizente com a realidade do Estado, conhecido como um dos que mais promove violência no campo, do que ter como maior julgamento da sua história um caso emblemático da “guerra” secular entre trabalhadores rurais e latifundiários. O caso, que completará dez anos em novembro, é resultado de uma trágica e conhecida combinação: trabalhadores rurais explorados que lutam pelos seus direitos; seguranças de usinas, engenhos e fazendas que trabalham armados e que muitas vezes não estão preparados para o serviço; e policiais militares que, em recorrentes situações, atuam como milícia privada, e não como segurança pública.
Era novembro de 1998, época da safra de cana-de-açúcar em toda na zona da mata de Pernambuco. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape) estava em negociação com os usineiros para realização da convenção coletiva, momento em que são feitos acordos coletivos para toda zona canavieira entre a federação e os usineiros. As negociações desandaram e os canavieiros iniciaram uma greve geral em todo o estado de Pernambuco, que teve início no dia 1º de novembro.
Na região norte da Zona da Mata, a greve teve o atenuante das péssimas condições de alojamento em que se encontravam os trabalhadores de outros Estados, contratados temporariamente para a época da safra. No terceiro dia de paralisação, na cidade de Goiana, os canavieiros ficaram sabendo, segundo João Salustiano, na época tesoureiro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Goiana e testemunha do caso, que Engenho Terra Rica, da Usina Santa Teresa, forçava trabalhadores que vieram de outros estados a trabalharem em seu canavial.
“Existiam seguranças e policiais militares que faziam a escolta desses trabalhadores que iam para o canavial na calada da noite, por volta das 2h da madrugada”.
Ao tomarem conhecimento da ação da Usina, conta Salustiano, os grevistas tiraram um grupo de cerca de 80 trabalhadores para tentar convencer os canavieiros que trabalhavam no Engenho Terra Rica sobre a necessidade de aderirem à greve. “As empresas do grupo João Santos são muito resistentes, não gostam de pagar os direitos dos trabalhadores, forçando-os a trabalhar quase em regime de escravidão. Nós precisávamos conversar com esses trabalhadores”, relembrou o tesoureiro do sindicato.
Por volta das 9h da manhã do dia 04 de novembro, os canavieiros chegaram ao engenho. Eles desconheciam que, na noite anterior, o chefe de segurança da Usina, Sylvio Frota, e o Capitão do 2º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, Marcelo Renato da Silva, haviam planejado uma emboscada com dois bloqueios, cada um com dois policiais militares e dois seguranças da Usina.
Ao se depararem com o primeiro bloqueio, os manifestantes foram recebidos a tiros. “Quando nós estávamos a 500 metros de onde estavam trabalhando esses canavieiros, fomos abordados por uma barricada de policiais militares e seguranças da empresa e já fomos recebidos à bala. Quando nós tentamos correr, nos deparamos com outra barricada. Foram cerca de 8 a 10 minutos de tiroteio”, conta Salustiano.
Os primeiros tiros foram disparados pelo soldado José Augusto da Silva, que, em depoimento durante o julgamento, afi rmou ter pego a arma do segurança que estava no mesmo bloqueio para comunicar ao outro grupo a chegada dos canavieiros. Minutos depois do disparo, uma caminhonete S-10 com seguranças da Usina e policiais militares chegou ao local, atirando contra os trabalhadores.
Quatorze foram atingidos, alguns pelas costas, como no caso de Luiz Carlos da Silva, que morreu na hora com um tiro na nuca. Luiz Carlos da Silva, à época com 27 anos, era trabalhador da Usina Maravilha, estava exercendo o seu direito de greve e lutava por melhores condições de vida para ele e sua família: uma mulher e dois fi lhos, uma menina e um menino, com 4 e 5 anos respectivamente.
O processo contra os cinco policiais militares e contra os dez seguranças da Usina Santa Teresa foi aberto pelo Ministério Público do Estado. O promotor Edson Guerra, que à época respondia pela comarca de Goiana, abriu um processo que acusava as dez pessoas por homicídio qualificado e por lesões corporais. Após o exame de corpo de delito das vítimas, a acusação passou a ser de um homicídio consumado e de outras treze tentativas de homicídio qualificado, visto os locais onde as vítimas foram atingidas e também a premeditação do crime.

O julgamento
O julgamento, anunciado como o maior do Estado de Pernambuco, teve início no último dia 25, após quase dez anos de ocorrido o fato. Como em casos de crimes que atentam contra a vida, o processo foi levado a júri popular, no qual sete juízes populares (cidadãos comuns) decidem a condenação do réu ou dos réus. O júri sorteado para este caso foi composto por quatro mulheres e três homens, e presidido pela juíza de direito Marylúsia Feitosa.
A pedido da promotoria, que fez a denúncia do caso, um dos réus, o administrador do Engenho Terra Rica, José Soares, foi absolvido das acusações por ter conseguido provar que estava no local do fato por ter pego uma carona e não participou nem do planejamento nem da ação. Os demais réus foram todos condenados por unanimidade pelos sete componentes do júri popular. Ficou comprovado que houve planejamento da ação que resultou na morte do trabalhador e que a mesma foi articulada entre policiais militares e seguranças da Usina Santa Teresa. Sendo assim, o Major Marcelo Renato (que, na época, era Capitão) e o chefe da segurança da Usina, Sylvio Frota, foram indiciados também pelo planejamento do crime.
Todas as argumentações do promotor de Justiça, André Rabelo, e do assistente de acusação, o advogado Gilberto Marques, foram aceitas pelos jurados, que tornaram o caso ainda mais histórico por deferirem, por unanimidade, a condenação dos 14 acusados. A juíza Marylúsia Feitosa, que calculou a pena de cada um como sendo de 18 anos de reclusão, solicitou a detenção imediata dos condenados. Os policiais militares foram encaminhados para o Centro de Reeducação da Polícia Militar, o Creed, exceto o Major Marcelo Renato da Silva, que, por ser oficial, ficou no Batalhão de Choque da PM. Os seguranças da usina, por sua vez, foram levados ao Centro de Observação e Triagem de Abreu e Lima, o COTEL.
Após a leitura da sentença, os advogados de defesa apelaram da decisão e pediram para que os réus respondessem o crime em liberdade. O pedido foi negado pela juíza, que alegou não ser procedente o pedido, visto que todos eles já aguardaram os dez anos que se passaram em liberdade.
Os assistentes de acusação, o advogado Gilberto Marques e o promotor André Rabelo mostraram-se muito satisfeitos com a decisão proferida pelo Conselho de Sentença. “A gente começa a ver na prática que o país está mudando, e está mudando para melhor. O Conselho de Sentença é a nação representada no Tribunal de Júri. E este tribunal entendeu a dor e a luta dos trabalhadores representados por Luiz Carlos”, declarou Marques.
O promotor André Rabelo considerou a vitória como sendo uma importante conquista para a luta por direitos dos trabalhadores. “Faço uma avaliação muito correta do julgamento. Acho que demorou, 10 anos se passaram, mas a justiça foi feita. A Justiça cumpriu a sua função e eu, como representante do Ministério Público, entendo que a decisão foi correta, de acordo com as provas existentes no processo. Isso serve de lição para que as pessoas aprendam definitivamente que o direito do cidadão deve ser respeitado, o direito de ir, vir e o de fazer greve, inclusive”.
Na avaliação do presidente da Fetape, Aristides Santos, a sentença foi a mais positiva possível. “O resultado com certeza é um anúncio de que nós podemos, neste país, acabar com a impunidade. O recado importante desta decisão é para o patronato, para eles entenderem que o caminho é o diálogo, e não a força só porque tem dinheiro. E para a polícia militar também; eles precisam cuidar da segurança pública, e não fazer o papel da milícia privada. Isso tem que acabar em Pernambuco e no Brasil”.
O padre Tiago Thorlby, que foi nomeado para a Comissão Pastoral da Terra para acompanhar o caso desde o início, acredita que o resultado deste processo não representa apenas uma vitória dos trabalhadores, mas também uma derrota do latifúndio do álcool e da monocultura da cana-deaçúcar. “O resultado do julgamento é uma grande vitória para o povo brasileiro, pois foram sete brasileiros que condenaram, por unanimidade, os responsáveis pelo assassinato de um canavieiro e a tentativa de homicídio de outros treze trabalhadores. Os jurados conseguiram, em cinco dias, o que o poder judiciário não realizou em dez anos – prova que este poder sofre com as procrastinações e pressões feitas pelo agronegócio de cana-de-açúcar e etanol”.

Réus condenados

Major Marcelo Renato da Silva – Polícia Militar
Sérgio José de Oliveira Leomos –Polícia Militar
José Augusto da Silva Neto – Polícia Militar
José Marcelino da Silva Neto – Polícia Militar
Rosinaldo Chagas Dantas – Polícia Militar
Ângelo Alberto dos Santos – Vigilante da Usina
Sebastião Augusto Ferreira – Vigilante da Usina
Dílson Cosmo do Nascimento – Vigilante da Usina
Cícero Vieira da Silva – Vigilante da Usina
Fernando Félix Pereira da Silva – Vigilante da Usina
Aluízio Antônio da Silva – Vigilante da Usina
Emiliano Silvino Gomes – Vigilante da Usina
Ivanildo Pereira Capitulino – Vigilante da Usina
Sylvio Cláudio Coutinho Frota – encarregado de segurança

“Brasil De Fato”

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As origens do Islamismo

Mônica Muniz

No século VII, a península arábica era habitada por povos que levavam uma vida nômade, divididos em tribos, incapazes de constituir uma federação mais ampla e estável. Ao sul da península, no Iêmen, havia formas de sociedades mais desenvolvidas. Importante porto, por ali passava todo o comércio vindo do Oriente, que ganhava o interior da península através de caravanas de cameleiros que iam até à Síria. Persas e etíopes disputavam a posse de pontos essenciais. Os sassânidas (persas) tinham o monopólio comercial do oceano Índico e queriam impedir a concorrência de Bizâncio que, pelo Egito, tentava infiltrar-se na região.

Em decorrência, Meca tornara-se um centro comercial importantíssimo, rota de passagem entre o Iêmen e a Síria e o atual Iraque. Portanto, os árabes não viviam confinados, como podemos imaginar, mas nas fronteiras das duas grandes civilizações existentes então. Eram politeístas e a religião absorvia essa realidade, posto que sua fé refletia um pouco de todas as crenças populares do Oriente.

muçulmana. Em Medina, já não é só a pregação de uma fé. Mohammad organiza uma comunidade dentro dos princípios islâmicos, cuja lei não está dissociada da fé, posto que sua origem é divina. Ao morrer, em 632, ele tinha deixado uma religião consciente de sua especificidade, esboçara um regime social externo e superior à organização social e unificara a Arábia, coisa até então inconcebível. Toda a Arábia havia se tornado muçulmana e os árabes já não mais estavam divididos entre a lealdade ao Islam ou às tribos, porque todos eram muçulmanos e o Islam havia absorvido a todos por igual.

Em linhas gerais, o Islam é uma religião simples, isenta de dogmas e fundamenta-se em 5 pilares básicos: crença em Deus, nos Seus anjos, nos livros e nos mensageiros, no dia do juízo final, e na predestinação. São pilares da fé: o testemunho, a oração 5 vezes ao dia, o pagamento do zakat, o jejum no mês do Ramadã e a peregrinação, pelo uma vez na vida. São fontes do Islam: o Alcorão, a sunnah (ditos e atos) do Profeta e as biografias escritas.

Após a morte do Profeta, as antigas inimizades que tinham sido administradas por ele em vida, tornaram-se mais evidentes. A comunidade muçulmana de Medina estava constituída por quatro grupos principais: os muhajirin, muçulmanos de Meca, que tinham acompanhado o Profeta por ocasião da Hégira; os ansar, cidadãos de Medina, que tinham recebido os muçulmanos de Meca e lutado com eles; os partidários de â??Ali, que defendiam que o sucessor do Profeta deveria ser alguém da família dele (hashemita), no caso â??Áli ibn Abu Talib, genro e primo do Profeta; e os omíadas, pertencentes à aristocracia de Meca, cujo líder do clã era Abu Sufyan.

Esses grupos, de uma forma ou de outra, achavam-se os legítimos sucessores do Profeta. O Profeta não havia determinado a forma de sucessão. Seguindo as tradições, em que a escolha do líder do clã era em função da experiência, sabedoria e prestígio, escolheram Abu Bakr para ser o primeiro califa. Não obstante umas poucas reações, não houve uma oposição declarada à indicação.

Com a morte de Abu Bakr, assumiu o califado Omar ibn al-Khattab. Durante seu período, o império expandiu-se com as conquistas do Iraque, Palestina, Pérsia, Síria e Egito. Omar foi assassinado por um desafeto seu. O terceiro califa foi Osman ibn Affan, que era um membro da casa omíada. Osman governou por doze anos. Os primeiros seis anos foram marcados por uma paz e tranquilidade internas, mas, na segunda metade de seu califado as rivalidades ressurgiram e os descontentes, aproveitando-se da insatisfação entre as pessoas, começaram a conspirar contra Osman. Os rebeldes pediram a sua renúncia, e alguns dos companheiros até pediram que renunciasse. Certo dia, após um longo cerco, os revoltosos entraram em sua casa e o assassinaram.

Quando ‘Ali, primo e marido da filha de Mohammad, portanto um hashemita, foi escolhido como o quarto califa, encontrou forte oposição por parte de Muawiya, filho de Abu Sufyan, descendente do clã dos omíadas. Foram cinco anos de guerra civil entre hashemitas e omíadas, que culminaram com o assassínio de ‘Ali. Muawiya tornou-se califa e estabeleceu a dinastia omíada, que governou o mundo muçulmano por 90 anos, de 661 a 750. As divergências entre omíadas e hashemitas dividiram o mundo islâmico e perduram até os dias atuais. Aqueles que defendem o direito dos descendentes de ‘Ali ao califado, ficaram conhecidos como xiítas (Shia â??Ali - Partido de ‘Ali) e, do ponto de vista espiritual, constituem um grupo separado dos sunitas, isto é, aqueles que seguem as sunas (ditos e atos) do Profeta.

A expansão árabe, partindo de um emaranhado de tribos nômades, de um deserto remoto, para transformar-se no maior império do mundo, é um dos eventos mais impressionantes e dramáticos da história mundial. De início, essas conquistas não apresentaram efeitos perturbadores sobre as populações conquistadas. Não havia perseguição religiosa por parte dos muçulmanos, que apenas exigiam que os não-muçulmanos admitissem a supremacia política do Islam, materializada no pagamento de um imposto especial, na proibição de qualquer proselitismo junto a muçulmanos e no caráter puramente árabe do exército. Na verdade, essas restrições pouco afetavam o cotidiano dos povos vencidos. O que é fato é que a vida intelectual floresceu, tanto em Córdoba e Granada como em Damasco e Bagdá.

Após 200 anos de iniciada a expansão islâmica, o domínio do Islam começa a se fragmentar em uma série de governos independentes, cada um deles com uma feição própria, e a supremacia titular do califado passa a ser questionada e, em alguns casos, recusada.

Nos cinco séculos seguintes, as regiões centrais da Ásia começam a sofrer as invasões nômades e o mundo islâmico vai perdendo a unidade política e o brilho militar que haviam caracterizado os primeiros séculos do Islam. A Ásia Ocidental é ocupada pelos turcos seljúcidas, que passam a controlar o califado, partilhando com os fatimidas do Egito, o poder dominante da comunidade muçulmana. Tão importante quanto a chegada dos turcos, foi o surgimento dos mongóis na última grande invasão nômade.

Em 1492, o califado de Granada rendeu-se ao exército de Fernando e Isabela, da Espanha, marcando o fim do domínio islâmico na Europa ocidental. Em 1500, já não mais havia esperança de unidade política no mundo islâmico. Eram dois os principais centros islâmicos: o Egito e o império otomano. Duas grandes culturas dividiam os muçulmanos: a cultura árabe, com o predomínio do Egito, e a cultura persa, que se tinha difundido entre os grandes impérios continentais criados pelos povos turcos. Apesar disso, o Alcorão, as tradições e a lei, foram os instrumentos aglutinadores para transformar as divergências em uma força social, o que, em última análise, significava o domínio do árabe.

Quando falamos em estado islâmico, estamos nos referindo ao período da história islâmica em que os princípios e as instruções do Islam foram totalmente aplicados em seu verdadeiro sentido. Esse período começa em 622 DC, quando o Profeta Mohammad estabeleceu o primeiro estado islâmico na cidade de Medina. Depois de sua morte, os quatro primeiros califas que se seguiram (Abu Bakr, Omar, Osman e Ali), aplicaram em sua totalidade todos aqueles princípios islâmicos. O período que se seguiu e que se estende até os dias atuais, podemos dizer que o sistema islâmico autêntico se modificou, transformando-se em monarquias, sem a participação popular na escolha de seus governantes. São sistemas hereditários, semelhantes aos tempos pré-islâmicos, baseados no sistema tribal. O Islam não reconhece esses governos e sequer pode ser responsabilizado por eles.

“HISTORIANET”

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Custo social do abuso de álcool chega a 125 bilhões de euros

Vários países aumentam os impostos sobre bebidas alcoólicas mas não se considera viável um aumento global. Alguns especialistas indicam que políticas como as médicas são mais caras. E ao aumento de preços costuma se seguir um maior comércio ilegal

M. Ricart

Quanto mais barato é o álcool, maior o consumo e mais caro vem a ser seu abuso, afirmam especialistas europeus reunidos em Barcelona. O custo atribuído aos danos causados pelo consumo excessivo de álcool representa 125 bilhões de euros por ano, segundo cálculos de 2003. A conta mais elevada é a de custos trabalhistas, que somam 59 bilhões, incluindo perdas de produtividade e anos não trabalhados por morte prematura; seguida de danos causados por delitos em que interveio o álcool (33 bilhões), os custos de tratamentos de saúde (22 bilhões) e acidentes de tráfego (10 bilhões), explicou o consultor Peter Anderson.

Entre as políticas para reduzir esses danos, o mais eficaz em custo-benefício é aumentar os impostos sobre o álcool, para que diminua o consumo, enquanto se encarecem os tratamentos de saúde -mesmo que sejam os cinco minutos no consultório do clínico geral que se dedicam na Catalunha- e os controles de teor alcoólico no sangue, afirmou Dan Chisholm, do departamento financeiro da Organização Mundial de Saúde. Se a política fiscal representa para os governos um gasto de US$ 289 por vida salva por ano, o tratamento de saúde custa US$ 2.351 e os testes de sangue, US$ 2.467.

Chisholm afirmou que “há margem para aumentar os impostos e o preço do álcool na Europa, pois, em comparação com o tabaco, os impostos representam 23,3% do preço final do álcool contra 44% do tabaco (segundo cálculos de vários países)”.

Países como o Reino Unido aumentaram os impostos sobre o álcool em 6%, indicou Wanderson. Na Finlândia o aumento foi de 11,5% depois que em 2004 o preço do álcool diminuiu 10% em restaurantes e locais de lazer e 20% em lojas e aumentaram 17% as mortes semanais relacionadas ao seu abuso. A Estônia também aumentou os impostos. Os especialistas afirmam que o aumento de impostos não tem por que afetar os empregos do setor.

O maior problema quando um país aumenta os impostos sobre o álcool é que cresce o comércio ilegal, ao aumentar os preços.

Por isso as autoridades dos diversos países pedem ações comunitárias. Robert Madelin, da Comissão Européia, disse que não é previsível um aumento global da fiscalidade pois exige muito consenso político e envolve pressão social.

As normativas apontam para todas as linhas. A Escócia endureceu a norma para abrir destilarias. Na Alemanha existe inclusive uma lei conhecida como “do suco de maçã”, pela qual nenhuma bebida alcoólica pode ser vendida por preço inferior ao de um refresco.

“La Vanguardia”

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As esquerdas na América Latina

A VEZ DA ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA

Cristiano Catarin

O século XXI revela um domínio curioso de regimes governamentais chamados de esquerda nos principais países do continente americano como: Brasil, Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile. Esta preferência está ligada, muitas vezes, a um forte desgaste nos partidos políticos tradicionais, ditos de direita.

Sustentado por movimentos de resistência, os países latino-americanos estão experimentando a liderança estabelecida por regimes governamentais (reconhecidos pela forte oposição praticada aos modelos neoliberais do século XX) com objetivo de avançarem rumo ao desenvolvimento político-econômico sólido e equilibrado.

A década de 1980 representou um cenário de desenvolvimento do modelo neoliberal, adotado por muitos países latino-americanos. O neoliberalismo gerou grande expectativa para a América Latina que estava em busca de estabilidade política e consolidação da economia.

Por outro lado, nesse mesmo período iniciou-se uma grande resistência social estabelecendo forte oposição ao modelo neoliberal. Entretanto, a crescente presença de oposição ao neoliberalismo não conseguiu frear a quebra econômica de países como Brasil, Chile, Colômbia, etc. Em 1975 os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, fato que abalou sensivelmente o governo americano. Em 1976, o então presidente dos EUA, Jimmy Carter mostrou-se defensor do fim da ditadura militar na América Latina e favorável ao regime democrático com objetivo de estabelecer novas diplomacias político-econômicas.

Na verdade, quando um país está sob regime de ditadura militar, um dos primeiros sintomas negativos a ser revelado fica por conta do aumento significativo na dívida externa e também, uma gradual redução salarial do trabalhador (perda do poder de compra). As “páginas da História” revelam que o período pós-ditadura representou aos latino-americanos forte expectativa pela democracia e surgimento de características como: liberdade de imprensa, fortalecimento do sindicalismo, greves freqüentes e a criação de novos órgãos, novos partidos políticos.

O experimento da democracia trouxe paradigmas aos países da América Latina. A expectativa certa de justiça mostrou-se insuficiente para provocar melhorias no cenário econômico desses países. A democracia não evitou, por exemplo, o aparecimento de moratórias, crise financeira e aumento considerável do desemprego.

Diante deste panorama, os partidos tidos como tradicionais (em sua grande maioria conhecidos como de “direita”) começaram a perder espaço e a apresentar enfraquecimento de sua credibilidade no cenário político. Esse mesmo desgaste acabaria fornecendo elementos que mais tarde explicariam a presença de partidos políticos de “esquerda” ou ditos de esquerda sagrando-se vitoriosos em diversos processos eleitorais.

O neoliberalismo somou-se à democracia e abriu espaço para um crescimento muito freqüente de movimentos sociais. A resistência popular passou a fazer parte de maneira mais presente na história da América Latina. Na Argentina de 2001 pôde-se ter uma idéia desta reação popular frente à crise econômica e política instalada no país.

A Venezuela, sob governo de Chávez, é um exemplo de governo de esquerda que beneficiou-se do desgaste de partidos ditos tradicionais venezuelanos. Mesmo com a tentativa do Golpe de Estado sofrido 1992, o presidente venezuelano mostrou-se ainda mais forte após ter ficado por 72 horas preso. Chávez procurou popularizar às “diretrizes oficiais do Estado”, fornecendo acesso da informação as classes mais pobres do país. O presidente venezuelano também traçou um plano de melhor distribuição de renda baseado na redefinição dos lucros obtidos pela PDVSA (uma espécie de Petrobrás da Venezuela). Vale lembrar que a Venezuela é o atual 4º produtor de petróleo mundial. O maciço apoio manifestado pela população na época da tentativa de Golpe ficou conhecido como chavismo.

Parte dos recursos da empresa petrolífera foram destinados a programas sociais. Chávez conseguiu aliar sua proposta política a satisfação da massa populacional mais necessitada (certa de 79% da população) reduzindo o índice de analfabetismo e de pobreza dos venezuelanos.

O Brasil do século XXI é outro modelo onde revela também o desgaste de partidos tradicionais como PSDB, PFL, PL, dentre outros. Diante do enfraquecimento da credibilidade desses partidos, o PT – partido dos trabalhadores (tido como principal oposição à direita) sagrou-se vitorioso ao conseguir eleger seu candidato, Luis Inácio Lula da Silva, a presidente da república em 2002. Sua eleição mostrou superioridade constante em comparação aos principais adversários, ganhou com folga de 62% dos votos válidos em relação ao principal candidato do PSDB, José Serra. Em 2006, Lula foi reeleito e mais uma vez venceu com tranqüilidade seu adversário mais “perigoso”, também do PSDB, Geraldo Alkimin.

Em meados de 2001 a Argentina foi protagonista de um fracasso político liderado pelo então presidente De la Rúa, defensor do regime neoliberal amparado pelo programa de ampla privatização das empresas estatais. Em 2001, cerca de 80% da população argentina estava mergulhada na miséria e 20% detinham toda riqueza produzida pelo país. A privatização da petrolífera YPF foi o maior golpe proferido ainda pelo governo de Carlos Saul Menem ao país. Com a privatização, milhares de empregos foram fechados e o endividamento externo da Argentina aumentou de maneira impressionante. Néstor Kirchner pegou a “batata quente” e tomou varias medidas com objetivo de conter a crise argentina. Uma das primeiras medidas foi negociar o pagamento da dívida externa do país. Kirchner apostou nas exportações de grãos, setor que movimenta bilhões de dólares para o país devido à super valorização dos produtos comercializados.

As providências tomadas por Néstor podem não terem sido suficientes, mas foi o bastante para “ganhar” a aprovação do povo, tanto que desde 10 de dezembro de 2007, Cristina Kirchner passou a ser presidente da Argentina e ninguém tem dúvidas de que ela dará continuidade ao programa político e econômico iniciado anteriormente.

Há 60 anos que a América Latina não apresentava freqüente reação social, freqüente oposição aos governos. A política de “esquerda”, ou dita esquerda, nunca tomou tanto espaço no cenário político dos países latino-americanos. Isto não quer dizer que seja o caminho certo, ou o caminho da reação da democracia. As enormes reservas de dólares no Brasil atual não refletem uma melhora na condição da população mais carente. Talvez reflita sim, numa redução da dívida externa, que seria tão bom senão tivesse aumentando significativamente a dívida interna do país.

“HISTORIANET”

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Zimbábue: Mugabe se apóia nos militares para manter o poder

O presidente do Zimbábue quer adiar segundo turno da eleição

Pere Rusiñol

“Não aceitaremos nenhum presidente que não seja Robert Mugabe.” O chefe do exército do Zimbábue, Constantine Chiwenga, e o da polícia, Agustine Chihuri, disseram isso publicamente antes das eleições de 29 de março passado. Mas é neste momento em que o país se prepara para o segundo turno que entraram em cena os militares: Mugabe se apóia neles e nas milícias de seu partido para tentar se manter no poder, adiar em meses o segundo turno e amedrontar a oposição, sobretudo nas áreas rurais.

“Todo o mundo no regime tenta ganhar tempo, mas os falcões militares estão se impondo”, explica um general aposentado que participou da guerra de libertação e que mantém bons contatos com o exército. E acrescenta: “O problema deles é que os comandos intermediários e os soldados da base, que sofrem como todos a brutal crise econômica, já estão com a oposição”.

Uma vez recebido o golpe de que a oposição ganhou as eleições, o bunker do regime foi recuperando terreno diante dos setores liberais, que pretendem fazer uma transição compactuada, sem revanchismo. O plano do núcleo imobilista está sendo aplicado a dedo: reter o máximo possível os resultados das eleições presidenciais -hoje faz nove dias que se realizaram e nem sequer se conhece o número de participação-, esperar que os observadores e jornalistas estrangeiros deixem o país, atrasar em meses o segundo turno -deveria ser em 19 de abril- e mobilizar militares, policiais, milícias da juventude do partido do governo (ZANU-PF) e batalhões de veteranos de guerra até o último rincão do território.

“A oposição nunca havia entrado nas zonas rurais, mas desta vez deixaram que fizesse campanha e conseguiu resultados muito bons”, indica Ellen, ativista de direitos humanos que depois das eleições foi interrogada pela polícia. “Recebemos continuamente informações de que nas zonas rurais já estão fustigando todos os suspeitos de ter votado na oposição”, acrescenta.

O jornal do regime deu no domingo outra prova de que os setores mais recalcitrantes tomaram as rédeas com o apoio do exército. Apesar do próprio ZANU-PF ter admitido na sexta-feira (04/04) que haverá segundo turno, o jornal afirma que o partido vai impugnar os resultados de algumas circunscrições -que só os membros do politburo conhecem, porque ainda não foram divulgados- porque foram detectadas “irregularidades” na apuração. Também vai impugnar 16 assentos do Parlamento, com o que seus dirigentes esperam recuperar o controle da Câmara, que foi arrebatado pelos cidadãos.

O cínico gesto de denunciar um organismo ferreamente controlado pelo governo pretende sobretudo adiar o segundo turno. A lei define três semanas de prazo para que seja realizado, mas Mugabe quer retardá-lo em pelo menos três meses. Impugnar resultados que ainda não foram divulgados é uma das tramas para conseguir isso.

O Movimento Democrático para a Mudança (MDC, em inglês, de oposição) também foi ontem aos tribunais para exigir que os resultados sejam divulgados imediatamente. “Como a oposição foi aos tribunais, temos a obrigação de esperar que se pronuncie antes de anunciar qualquer coisa”, explicou no domingo um porta-voz do organismo oficial (ZEC), que acrescentou: “Além disso, ainda estamos recebendo e analisando dados que chegam das circunscrições”.

Várias unidades de polícia antidistúrbios patrulhavam ontem o centro de Harare, em meio à indiferença da população, que aproveitava o domingo passeando nas ruas e desfrutando o sol, completamente alheia à agitação política.

Harare é um feudo da oposição, mas as pessoas aguardam com calma e paciência infinita tanto a divulgação dos resultados como sua vez nas intermináveis filas que se formam todos os dias diante dos caixas automáticos para sacar notas que servem muito pouco, com uma inflação de 100.000%. Na Espanha, por muito menos se teria chegado às vias de fato. Mas muitos zimbabuanos acreditam ver na distância o fim do túnel e decidiram que é melhor ficar quietos. Pelo menos por enquanto.

“El País”

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Mudar… e não mudar nada

ELEIÇÕES NOS EUA Democrata ou republicano, negro ou branco, homem ou mulher, mudanças não estão no horizonte

Dafne Melo

SE HÁ algo claro em relação ao novo presidente estadunidense que assumirá a Casa Branca a partir de 2009, é que ele não representará qualquer possibilidade de mudanças em relação à gestão de George W. Bush.
Uma breve consulta acerca dos principais doadores de campanha de cada um dos concorrentes deixa ainda mais evidente essa impossibilidade. Na lista das 20 maiores doações de campanha do republicano John McCain e dos democratas Barack Obama e Hillary Clinton estão gigantes do mercado financeiro internacional, como JP Morgan Chase & Co, Morgan Stanley, Citigroup e Goldman Sachs.
A gigante da comunicação Time Warner aparece apenas na lista dos candidatos democratas e a Microsoft mostra que aposta em Hillary Clinton, a única para quem faz doações.
A necessidade de pagar a conta de campanhas apoiadas cada vez mais no espetáculo midiático já garantiu à corrida eleitoral de 2008 o posto de eleição mais cara da história do país. Antes mesmo do início das prévias partidárias, os candidatos já haviam gasto mais do que em qualquer outra eleição. “Sabíamos desde o início que esta eleição seria a mais cara, mas ver que a temporada anterior às primárias custou sozinha mais que uma eleição inteira é extraordinário”, declarou, à agência France Press, Sheila Krumholz, diretora da organização independente Center for Responsive Politics.
Ainda não tão clara assim está a definição de quem vencerá o pleito a ser realizado em 4 de novembro. As pesquisas mostram empate técnico entre John McCain e qualquer um de seus possíveis concorrentes democratas, Obama e Clinton, senadores pelos Estados de Illinois e Nova Iorque, respectivamente. Já outra pesquisa divulgada na semana passada pelo The Wall Street Journal indica que 50% dos estadunidenses querem que o próximo presidente seja democrata, contra 37% que preferem um republicano.

Mais do mesmo
Sean Purdy, canadense e professor de História dos Estados Unidos na Universidade de São Paulo (USP), analisa com pessimismo as possibilidades de alteração das políticas estadunidenses. Ao seu ver, o candidato republicano irá, naturalmente, seguir fielmente os passos de Bush, inclusive no item mais polêmico: a Guerra do Iraque. Mc-Cain defende a permanência das tropas no país, pois sua retirada significaria um fortalecimento do Irã na região.
Purdy aponta que Obama e Clinton, embora apóiem enfaticamente a desocupação, não têm planos consistentes para a retirada. “Debate-se muito pouco e muito superfi cialmente sobre a guerra, e o plano de ambos é extremamente vago. Além disso, não estão contra a guerra porque ela é um conflito racista e imperialista, mas porque não é mais interessante financeiramente”, enfatiza. A lógica, completa, é desocupar simplesmente porque não há mais como ganhar o conflito que já custou um trilhão de dólares aos cofres públicos.
O historiador completa ainda que, em relação a outros pontos da política externa, a tendência é a continuidade em relação à era Bush. A desocupação do Afeganistão, por exemplo, não é cogitada por nenhum dos democratas. A política de apoio a Israel no Oriente Médio também é inquestionável. Barack Obama declarou que fará esforços pela paz na região, mas afirma que Israel tem o direito de se defender contra os ataques palestinos. Hillary também mantém essa posição. “No geral, muda quase nada entre Clinton e Obama, apenas o tom, o que é importante, porque, ao adotar um discurso mais ameno e progressista, Obama procura marcar sua diferença”, analisa Purdy.
Assim, enquanto o caráter conservador do republicano John McCain – ex-combatente da guerra do Vietnã e atual senador pelo Arizona – é inquestionável, Hillary e Obama procuram explorar uma imagem mais progressista, buscando conquistar os votos dos insatisfeitos com o governo Bush.
Nessa corrida, o candidato negro, fi lho de um imigrante queniano, está na frente. “Obama representa mudança no imaginário público. Acredito que o povo estadunidense queira mudanças de fato e ele tem usado muito bem sua retórica para conquistar esses votos”, opina Purdy. “Mas, como disse a ativista Angela Davis [militante comunista e integrante dos Panteras Negras, na década de 1970], ele é ‘mudança que não traz mudança’”, completa.

As opiniões dos candidatos sobre alguns temas polêmicos

Cuba/renúncia de Fidel Castro
Barack Obama:
afirmou que a saída de Fidel “deve marcar o fim de uma era obscura na história cubana”. Em debate, cogitou fazer reuniões com líderes cubanos para negociar libertação de presos e discutir direitos humanos e a democratização da ilha. Cogitou, também, afrouxar o embargo econômico à ilha.

Hillary Clinton: segundo analistas, evita tocar no assunto sobre como irá lidar com Cuba. Após saída de Fidel, porém, qualifi cou o sistema cubano como “totalitário” e afirmou que ou o país permanece com suas “fracassadas políticas do passado” ou se une “à comunidade das nações democráticas”. Apóia o embargo à ilha.

John McCain: afirmou que não há liberdade em Cuba e criticou os irmãos Castro por se “agarrarem ao poder”. Para o senador, “a transição de Cuba rumo à democracia é inevitável”, e os EUA “podem e devem” incentivar a “explosão da liberdade em Cuba”. Também promete manter o embargo. Guerra do Iraque

Obama: único candidato que votou contra a guerra em 2003. Afirma que “não há solução militar” para o conflito. Rejeitou a estratégia de aumento da presença militar e, em janeiro de 2007, propôs um plano para uma retirada gradual de tropas, dizendo que é necessário definir um cronograma e alcançar uma solução política para o Iraque. Entretanto, em 2006, votou contra o plano de retirada do Partido Democrata.

Clinton: não se desculpa por ter votado a favor da guerra em 2003, mas diz que, se soubesse à época o que sabe agora, teria agido de maneira diferente. Opôs-se à estratégia de aumentar a presença militar em Bagdá em 2007 e disse que porá fim à ocupação se for eleita presidente. “A retirada não representa uma derrota. A derrota seria manter os soldados no Iraque por cem anos.”

McCain: afirma que a saída das tropas estadunidenses levaria a um fortalecimento do Irã na região e, por isso, não defende a desocupação. Como senador, votou pela invasão em 2003 e apóia o aumento de tropas no país. Adverte, ainda, que os planos de retirada de soldados pode provocar um genocídio na região.

Crise na América Latina
Obama:
no recente episódio entre Colômbia e Equador, declarou que o povo colombiano sofreu durante mais de quatro décadas “nas mãos de uma brutal insurgência terrorista”, e que Álvaro Uribe “tem todo o direito de se defender” contra as Farc. Recomendou também a “diplomacia ativa” para acabar com as tensões. Cogita, também, reunir-se com Hugo Chávez, algo negado pelos outros dois candidatos.

Clinton: Assim como Obama, apoiou a invasão de Uribe e pediu uma saída diplomática para o conflito. Sobre Chávez, “está se colocando abertamente do lado de terroristas que ameaçam a democracia na Colômbia e a paz e segurança na região”.

McCain: assim como George W. Bush, defendeu a ação de Uribe e considera Hugo Chávez um inimigo na América Latina. Defende a continuidade do Plano Colômbia. Imigração

Obama: defende maior policiamento na fronteira entre os EUA e o México e punições rigorosas para empregadores que contratarem imigrantes ilegais. Defende, ao mesmo tempo, um plano de legalização de imigrantes que cumpram determinados requisitos.

Clinton: defende as mesmas propostas de Obama. Em debate, afirmou que, se eleita, elaborará um plano de para “tirar das sombras” o que se estima serem 12 milhões de imigrantes ilegais já nos primeiros 100 dias de seu governo. Destacou as implicações para a segurança, após 11 de setembro, de não se saber quem entra nos EUA através de sua fronteira com o México.

McCain: Defende o reforço das fronteiras para garantir a segurança nacional e adotou um discurso mais ameno do que o de Bush, que cogitou a construção de um muro entre os países. Para os democratas, sua posição é falsa e eleitoreira. Para os republicanos, sua proposta é criticada por ser bipartidária e por, na prática, oferecer anistias a imigrantes ilegais. Economia e questões sociais

Obama: afirma não ser protecionista e defende os acordos de livre comércio. A atual crise mostra a fragilidade da economia estadunidense causada pelas políticas dos anos Bush. Promete ajudar famílias de classe média que enfrentam custos crescentes e salários estagnados. Defende que os interesses das grandes empresas não podem ditar ações e reformas nos setores de saúde e educação.

Clinton: tem tentado mostrar-se bem preparada para assumir a “caótica” economia estadunidense. Promete gerar 5 milhões de empregos e aposta na transição de uma economia baseada em petróleo e combustíveis poluentes para os agrocombustíveis. Afirma que a crescente diferença de renda entre ricos e pobres está minando as classes média e trabalhadora nos Estados Unidos. Quer reduzir os benefícios dados às grandes empresas e investir em educação e criação de novos empregos.

McCain: colocou a preservação do liberalismo econômico estadunidense no centro de sua campanha. Fala da necessidade de controlar os gastos federais antes de realizar corte de impostos, mas também prometeu manter os impostos baixos e simplificar o sistema fiscal. Relaciona a perda do controle dos gastos federais à derrota republicana nas eleições legislativas de 2006.

“Brasil De Fato”

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A ARMA DOS PODEROSOS

Um norte-americano fala do terrorismo praticado pelos Estados Unidos, país que não respeita as formas judiciais internacionalmente instituídas. A América Latina foi um dos principais alvos da violência

Noam Chomsky

Devemos partir de dois postulados. O primeiro é que os acontecimentos de 11 de setembro constituem uma atrocidade terrível, provavelmente a perda instantânea de vidas humanas mais importante da história, guerras à parte. O segundo postulado é que nosso objetivo deveria ser reduzir o risco de reincidência de tais atentados, sejamos nós ou outras pessoas as suas vítimas. Se você não aceita esses dois pontos de partida, o que vem a seguir não lhe diz respeito. Se você os aceita, muitas outras questões se apresentam.

Comecemos pela situação no Afeganistão. Haveria, no Afeganistão, vários milhões de pessoas ameaçadas pela fome. Isso era verdadeiro já antes dos atentados; elas sobreviviam graças à ajuda internacional. No dia 16 de setembro, os Estados Unidos exigiram, no entanto, que o Paquistão suspendesse os comboios de caminhões que levavam alimentos e outros produtos de primeira necessidade para a população afegã. Essa decisão não provocou reação alguma no Ocidente. A retirada de parte do pessoal humanitário tornou a assistência ainda mais problemática. Uma semana após o início dos bombardeios, a ONU considerava que a aproximação do inverno tornaria impossíveis as entregas, já reduzidas à quantidade de alimentos apenas suficiente para sobreviver devido aos ataques da aviação norte-americana.

Quando organizações humanitárias, civis e religiosas, e o relator da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) pediram a suspensão dos bombardeios, a informação nem sequer foi publicada pelo New York Times; o Boston Globe dedicou-lhe uma linha inserida num artigo que tratava de outro assunto: a situação na Caxemira. Em outubro passado, portanto, a