Arquivo de 22 de Maio de 2008

Mais educação, menos diferença salarial

Aumento da escolaridade reduz disparidade de salários de trabalhadores com mais e menos estudo

Igor Waltz

Investimentos em educação no Brasil nas últimas décadas propiciaram uma redução nas disparidades salariais. Com o aumento da escolarização média da população, diminuiu a diferença entre os salários de trabalhadores com mais e menos anos de estudo. Enquanto na década de 1980 cada ano a mais de escolaridade equivalia a uma diferença salarial de 17%, a partir do fim da década de 1990 esse valor caiu para 11% em média.

A conclusão foi apresentada na dissertação de mestrado da economista Priscilla de Albuquerque Tavares, sob orientação do professor Naércio Aquino Menezes Filho, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP). O estudo estimou o ‘efeito-preço’, que corresponde à diferença salarial paga ao trabalhador para cada ano a mais de escolaridade, e o ‘efeito-composição’, que diz respeito à composição educacional da força de trabalho, ou seja, à desigualdade educacional do mercado de trabalho, medida pela quantidade de pessoas com mais e menos anos de estudo.

Segundo Tavares, entre 1980 e 1993, o efeito-preço e o efeito-composição aumentaram significativamente a defasagem de renda entre os mais e os menos escolarizados. Nesse período, o mercado elevou a remuneração por cada ano a mais de escolaridade e a desigualdade educacional também cresceu bastante. Além disso, a inflação e a queda no valor real do salário mínimo provocaram uma maior disparidade salarial.

Essa defasagem salarial manteve-se estável entre 1993 e 1997, mas começou a cair a partir de 1998. O aumento da escolarização média da população afetou o efeito-preço e levou à diminuição da diferença de valor paga ao trabalhador por cada ano a mais de escolaridade. Assim, reduziu-se a desigualdade de salários nesse período.

Por outro lado, o efeito-composição não teve o mesmo impacto, pois a mudança na estruturação educacional da força de trabalho não foi suficientemente significativa. “Mesmo com o aumento da escolarização média da população, a diferença entre a quantidade de trabalhadores com mais e menos anos de estudo ainda é muito grande”, esclarece Tavares.

Segundo a economista, projeções para os próximos anos apontam que as melhorias em todas as faixas de ensino geradas pelos investimentos atuais acarretarão mudanças mais profundas na composição da força de trabalho. “A maior qualificação dos trabalhadores que entrarão no mercado reduzirá ainda mais as desigualdades salariais a partir de 2012.”

Força de trabalho masculina
O estudo analisou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (PNAD) coletados entre 1981 e 2006, relativos a homens entre 25 e 60 anos. A avaliação não levou em conta as mulheres, pois elas apresentaram uma mudança de comportamento muito significativa em relação ao mercado de trabalho durante o período estudado. “Houve um aumento no ingresso de mulheres no mercado, o que poderia afetar os resultados. Já os homens mantiveram um comportamento constante”, explica a economista.

Segundo Tavares, a redução das disparidades salariais é um processo sustentável. Nos próximos anos, os novos trabalhadores terão maiores níveis de qualificação, o que proporcionará o aumento do equilíbrio educacional no mercado de trabalho. Ela completa: “O Brasil é ainda um país de desigualdades, mas a redução das diferenças de salários (a maior fonte de renda da população) contribui muito para diminuir as desigualdades sociais.”

“Ciência Hoje”

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O que há por trás da greve agropecuária na Argentina?

Juan Jose Funes

A semana começou com o recrudescimento da greve agropecuária, que já faz sentir seus efeitos sobre a classe trabalhadora, com o desabastecimento de carne e outros alimentos e a brutal alta dos preços do que se pode conseguir. Pela noite de terça-feira, 25, desde tradicionais centros da grande burguesia, como a Recoleta, Bairro Norte e Belgrano, se organizaram piquetes em ‘apoio ao campo’ e uma marcha à Praça de Maio. A que se deve isto? Quem está por trás da ‘greve do campo’? Que responsabilidade tem o governo K (Kirchner)? Que posição devemos tomar os trabalhadores?

Desde o governo De la Rúa que não há greve de todas as entidades que centralizam a atividade agropecuária (SRA, CRA, FAA etc). Ao término desta edição, a greve já tinha sete dias, com bloqueios e cortes de estradas, e começava a se sentir nos açougues e verdurarias, tanto nos preços como no abastecimento.

O estopim da medida de protesto foi o aumento do governo nas retenções das exportações de soja, girassol, azeite de soja (comestível e biodiesel) e azeite de girassol. Também fixou uma faixa flutuante de retenções, que no caso da soja, por exemplo, se chega a subir para 600 dólares a tonelada (FOB, quer dizer, colocada sobre o barco) aumentaria o imposto em 49% e daí para cima congelaria o preço líquido do setor em 280 dólares a tonelada.

Os grandes pecuaristas e os donos dos grandes armazéns querem mais subsídios; os poderosos do setor agrícola querem driblar a porcentagem das retenções. É uma briga de tubarões: o Governo e o setor agrícola acomodados; o objetivo é a divisão da renda agrária excedente. Avizinha-se um inverno de crise energética na Argentina e terá de se importar (com preços internacionais nas nuvens e consumo local altamente subsidiado). E os ‘K’ precisam arrecadar para que os números batam.

Uma greve reacionária

Desde o início há de se dizer que a greve do campo contra o governo é uma medida reacionária: ou seja, não expressa interesses populares, dos explorados e oprimidos, mas sim que a Sociedade Rural e os grandes proprietários agrícolas arrastam as entidades representativas dos pequenos produtores em uma luta que se amarra em volta da extraordinária renda agrícola que se gerou, entre outras coisas, devido aos altíssimos preços das matérias primas no mercado mundial.

Desde já, o caráter reacionário dessa briga entre o campo e o Governo K não quer dizer que o governo seja quem expresse os interesses populares. No fundo, é uma batalha para ver quem fica com a renda excedente, apesar da pretensão do governo de aparecer como o representante da população, afetada pela brutal escalada dos preços.

Com esse manual, o Ministro da Economia, Lousteau, saiu dizendo que “não é o mesmo um pequeno armazém e um grande pool de soja (…); o governo utiliza as retenções para impedir que a alta dos preços internacionais se transfira totalmente aos domésticos (…); diante do risco da ’sojização’ da economia, devemos zelar pelo equilíbrio (…); a medida retrai os valores dos grãos a dezembro de 2007, que já eram altíssimos (…); o setor continua sendo muito rentável” (Clarín, 14/03/08).

Efetivamente muitas das afirmações que profere aqui Lousteau são certas, mas o que o ministro não diz é que o Governo K não tomou uma só medida que afetasse a estrutura da propriedade agrária em todos os seus anos de mandato. Pretende apenas - sobre a base da atual estrutura superconcentrada da propriedade e a economia do campo - conseguir que os ‘barões do campo’ lhe entreguem uma fatia da renda agrária para colocá-la a serviço do caixa do Estado.

Os pequenos produtores não podem ir atrás da Sociedade Rural

A Sociedade Rural foi ao choque dizendo que “as medidas são confiscatórias e atentam contra a rentabilidade do setor” e para a CRA (Confederações Rurais Argentinas) “são medidas de puro traço fiscalista, que têm um único objetivo: arrecadar mais”. Por sua vez, Eduardo Buzzi, presidente da FAA (Federação Agrária Argentina, pequenos e médios produtores) afirmou que “potencializará ainda mais a concentração da propriedade da terra em poucas mãos”.

Aqui se observa com claridade a contradição dessa frente única de todo o campo. É que quando se fala do ‘campo’ sempre deve se diferenciar de quem falamos: se dos grandes empresários e latifundiários ou dos pequenos e médios produtores (sem falar quando se trata de assalariados que trabalham sob patronato no âmbito rural).

“O país vive de nós, porque injetamos dinheiro e porque o Governo sempre nos mete a mão para tirar dinheiro fácil”, se exalta e se queixa, ao volante de sua caminhonete Toyota Hilux 0Km, Cristian Villarreal, médio-grande produtor agropecuário de Casilda (Santa Fé), capital nacional da soja. Do sudoeste da província de Buenos Aires, zona trigueira não muito apta para a soja, Juan Casas, pequeno produtor, diz que “os armazenadores nos pagam o que querem, ainda por cima está fechada a exportação de trigo”. Duas realidades muito distintas as de Villarreal e Casas.

O campo não é uniforme; a grosso modo, há - em nível produtivo - quatro setores: agrícola; pecuário; leiteiro; hortifruti. Todos têm algo em comum, a terra como força produtiva, e estão profundamente inter-relacionados, porém, cada um deles tem características próprias em nível de propriedade que os diferenciam dos demais. Porque, como falamos, a SRA e o pool sojeiro não são o mesmo que os pequenos produtores.

Quando a SRA critica as medidas por serem “confiscatórias” e a CRA as qualifica como de “puro traço fiscalista”, só estão dizendo que, sob a base de leis que resguardam a propriedade privada, corresponderia a eles, de maneira íntegra e total, algo que lhes vêm de forma absolutamente gratuita: a abundância do campo argentino, em condições onde, além de tudo, os preços das commodities estão nas nuvens.

Está claro que o ângulo de Buzzi (FAA) é diferente ao dar conta do processo histórico de concentração de terra em poucas mãos, que tem décadas e parece incontrolável. Mas Buzzi se coloca do lado errado da trincheira quando diz que “o campo se uniu por um único objetivo”. Porque 10% do setor agrícola produz 90% de soja e vive um período de esplendor, mas ao mesmo tempo essa situação fez entrar em crise estrutural o pequeno fazendeiro, com seus 200 hectares em uma economia mundializada, é vítima dos grandes armazenadores de grãos e das empresas de biotecnologia (Monsanto, Nidera), não tendo mais remédio, na maioria das vezes, que não arrendar seu campo.

Mas, então, o que faz uma organização de pequenos e médios produtores - que são os que põem as pessoas nos bloqueios de estradas no interior - na trilha dos interesses dos grandes tubarões do campo? Não têm nada a fazer ali, junto aos que queremficar com toda a renda agrária e liberalizar os preços, o que só podia se fazer às custas dos trabalhadores e setores populares do campo e da cidade.

Por uma aliança independente dos explorados e oprimidos da cidade e do campo

Dirigentes como D’Elia, Depetris e outros saíram a convocar uma marcha até a Sociedade Rural. Esses setores ‘K’ pretendem repudiar a greve do campo a partir do posicionamento de defesa cerrada do governo. Não é disso que se precisa. Porque os problemas dospequenos e médios produtores são reais e, na realidade, o próprio governo que agora sofre a greve agrária, em todos esses anos, como está dito, não tomou uma só medida contra o processo brutal de concentração da terra e da renda agrária.

A única saída que têm os pequenos produtores é se aliar aos trabalhadores e demais setores oprimidos, porque ambos são vítimas da política do governo kirchnerista. O governo não corrigiu desequilíbrios, pelo contrário. Sob os ‘K’ eles se acentuaram. Desaparecerão mais e mais fazendeiros e os pools do campo se farão cada vez mais fortes.

Não é alinhando-se, portanto, ao governo K que se poderia dar uma saída tanto aos problemas desses produtores como à escalada dos preços e o desabastecimento que se começa a notar nos açougues e verdurarias. O que é necessário é outra coisa: a unidade desses pequenos produtores com os trabalhadores urbanos e rurais, em via tanto de impulsionar medidas de autêntica reforma agrária e socialização do campo como de um estrito controle dos preços dos produtos de primeira necessidade, assim como a expropriação de todos aqueles grandes proprietários que especulem com os preços e/ou provoquem desabastecimento.

Isto é, para resolver os problemas dos pequenos produtores e trabalhadores do campo é necessária uma aliança de classe oposta: nem com a SRA nem com o Governo K, mas com os trabalhadores.

Juan José Funes

Publicado originalmente no periódico Socialismo o Barbarie.

“Correio da Cidadania”

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Março de 1968: 40 anos depois

Rodrigo Valente

Há quarenta anos, em 28 de março de 1968, era assassinado pela ditadura militar o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto. O jovem, de apenas 17 anos, foi morto com um tiro no peito quando participava de uma simples manifestação pela reabertura do restaurante universitário O Calabouço, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Revoltados, os estudantes ocuparam a Assembléia Legislativa para velar o corpo e, no dia seguinte, realizaram, em conjunto com diversos setores sociais, um gigantesco protesto durante o enterro. Mais de 50 mil pessoas participaram do cortejo fúnebre, à época só comparável aos de Getúlio Vargas e Carmem Miranda. Se o movimento estudantil já estava articulado e promoveu importantes manifestações desde 1966 – como, por exemplo, a chamada Setembrada, em São Paulo – o assassinato de Edson Luís potencializou essa insatisfação e fez eclodir as maiores e mais vigorosas manifestações abertas de repúdio à ditadura desde sua implantação, em 1964.
As principais cidades do país foram tomadas por passeatas contra a violência e a falta de democracia. O assassinato de Edson Luís funcionou como se mais combustível houvesse sido derramado sobre uma chama que já se encontrava acesa.

O turbilhão político
1968 é um marco na luta por liberdades em todo o mundo. A ofensiva do Tet, no Vietnã, as revoltas estudantis na França, a primavera de Praga, na antiga Tchecoslováquia, o movimento por direitos civis nos Estados Unidos são apenas os episódios mais conhecidos. O mais impressionante de 1968 é que, apesar de haver uma sinergia política entre os diversos acontecimentos, cada um tinha suas causas e contradições próprias. Não é plausível dizer, por exemplo, que a França tenha tido influência direta sobre os estudantes brasileiros.
Aliás, parte importante do mito criado em torno de 1968 reside exatamente no fato de que, em um curto período de tempo, vários movimentos de massa, particularmente dirigidos pela juventude, tomaram de assalto tantos lugares em tão distantes partes do globo. Dos Estados Unidos ao Japão, da Europa Ocidental à Oriental, da América Latina à China e Sudeste asiático, todos foram sacudidos pelo turbilhão político da época.
Até hoje se tenta explicar o que exatamente aconteceu naquele ano, sem que se obtenha uma resposta definitiva. Entretanto, é consenso que rupturas profundas nos valores, no comportamento, na moral sexual e nos direitos civis aconteceram naquele período. A partir de 1968 , a revolução de costumes, que já vinha se impondo durante a década de 1960, se consolidou em definitivo. As transformações foram tão fortes que as velhas formas de se comportar, de se vestir, de se expressar artisticamente foram rapidamente transformadas em artigos de museu. Não há dúvidas de que o mundo, após atravessar 1968, não era mais o mesmo.
Na realidade, os desdobramentos daquele período estão em andamento até os dias de hoje. O movimento feminista dos anos 1960 ainda não realizou todas as suas aspirações, e o mesmo pode-se dizer do movimento negro ou por direitos civis. Mas é certo que foram realizadas rupturas com várias formas de autoritarismo. Destaco pelo menos a mudança significativa na relação entre pais e fi lhos, entre marido e esposa (ou namorado e namorada) e entre professor e aluno. Hoje tais relações são tratadas com muito mais igualdade.
Em um país da periferia do capitalismo, como é o Brasil, todas essas mudanças se deram claramente de forma mais lenta e gradual, e não se concretizaram da mesma forma que na Europa Ocidental. A longa duração da ditadura fez com que muitas conquistas fossem interrompidas ou pelo menos atrasadas. Ainda hoje escutamos os ecos das reivindicações de 1968 e muitas delas ainda estão distantes de nossa realidade.

O movimento estudantil
O ano de 1968 marcou o auge do descontentamento social com a ditadura, particularmente dos setores médios urbanos. Em 1964, a chamada classe média, apesar de dividida, apoiou em sua maioria o golpe, influenciada pela crise econômica e pela propaganda anticomunista. O aprofundamento da recessão econômica e o fechamento político do regime foi aos poucos levando esses setores para a oposição. Os estudantes – fi lhos daquela classe média – seguiram o mesmo caminho.
De forma diferente dos sindicatos combativos, dos partidos de esquerda e das Ligas Camponesas, imediamente após o golpe, o movimento estudantil sofreu uma perseguição menos implacável, mesmo com o incêndio da sede de sua entidade de representação nacional, a União Nacional dos Estudantes (Une), no Rio de Janeiro, promovido pelos golpistas. A Une, apesar de colocada na ilegalidade, já em 1965 estava reorganizada em todo o país, e legitimida pelos estudantes.
Em 1968, as entidades estudantis – Une, UEEs (uniões estaduais de estudantes), centros acadêmicos, grêmios e outras entidades de secundaristas etc. – lançam uma grande ofensiva contra a ditadura. Aquele movimento que fermentava e crescia nas universidades e escolas, agora saía mais uma vez às ruas das principais cidades. A própria sociedade passou a reconhecer os estudantes como representantes e porta-vozes de sua oposição ao regime.
Seguidas manifestações, ocupações de faculdades e universidades, greves e passeatas mostravam que os estudantes estavam cada vez mais organizados e radicalizados. Os líderes e suas bases rompiam com a política tradicional. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), de orientação pró-soviética, em pouquíssimo tempo perdeu sua influência junto à juventude, que criticava sua passividade frente ao golpe.
Em sua maioria, os dirigentes estudantis pertenciam à Ação Popular (AP) – com origem na esquerda católica –, a dissidências de esquerda do PCB, e a outros agrupamentos surgidos àquela época, nos quais se misturavam trabalhistas, nacionalistas e marxistas de diversas nuances, correntes livres de responsabilidade frente ao fracasso do projeto levado pelo Governo João Goulart e que, por isso, logo se legitimaram.
As maiores mobilizações de massa ocorreram em junho, quando foi organizada, no Rio de Janeiro, a conhecida Marcha dos 100 mil. Repetindo o acontecido no enterro de Edson Luís, vários setores se uniram aos estudantes para realizar o protesto, desta vez ainda maior. Professores, intelectuais, artistas, mães e pais de alunos, sindicalistas, religiosos aderiram à passeata. A Marcha dos 100 mil foi realizada sem incidentes e representou o auge do protesto de massa contra a ditadura, em 1968. Manifestações de mesma proporção aconteceram em outras cidades, especialmente nas capitais.

Limites do movimento
No início do segundo semestre, o movimento estudantil parecia reflorescer em todo o país. Paralelamente a isso, crescia também a escalada da respressão. Muitos confrontos são registrados em todo Brasil, resultando em presos, feridos e até mortos. Episódios como a Sexta-Feira Sangrenta, no Rio de Janeiro; a invasão da Universidade de Brasília; e a Batalha da Maria Antônia, em São Paulo, mostravam que as condições de luta estavam muito mais difíceis, e setores da sociedade que ainda se encontravam desorganizados passam a refluir em sua participação e apoio público às manifestações. Sem um amplo movimento dos trabalhadores, que naquele ano realizaram duas grandes greves – em Osasco (SP) e Contagem (MG) – mas que foram imediatamente reprimidas, seria impossível derrubar a ditadura. Os movimentos sindical e camponês ainda estavam debilitados ou em processo inicial de acúmulo de forças, desde que suas organizações foram invadidas, colocadas sob intervenção, ou simplesmente destruídas pelos golpistas, como o caso das Ligas Camponesas. Em outubro, com a queda da 30° Congresso na Une, em Ibiúna (interior de São Paulo), mais de 700 lideranças e dirigentes estudantis acabaram presos, o que debilitaria ainda mais o movimento.
Em 13 de dezembro de 1968, o governo do generalpresidente Arthur da Costa e Silva decretou o Ato Institucional Número 5 (AI-5). As últimas liberdades democráticas foram suprimidas, e o país entrou em um de seus períodos mais sombrios. A violência política praticada pela ditadura após o AI-5 impossibilitava de imediato a organização ou manifestação de qualquer movimento de oposição. Porém, não foi apenas a repressão que fez refluir o movimento estudantil de 1968 .
Com grande parte de seus dirigentes e líderes estudantis obrigados a atuar na clandestinidade, pressupondo a inviabilidade de continuar construindo um movimento de massas, parte signifi cativa das organizações às quais estavam ligadas essas lideranças acabou optando pelo confronto armado imediato. A avaliação de que seria possível, naquele momento, derrubar a ditadura pelas armas era enganosa, e aquela entrega generosa à luta até as últimas conseqüências acabou por se mostrar desastrosa do ponto de vista da política.
Nos anos seguintes, muitos daqueles jovens que protagonizaram nas ruas a resistência à ditadura acabaram mortos em combate ou assassinados nos porões da repressão. Aquele vigoroso movimento estudantil surgido em 1968 estava debelado.

Há um legado de 1968?
Apesar de derrotado em seu objetivo principal de derrubar a ditadura, o movimento estudantil de 1968 também obteve vitórias. Concretamente, a universidade pública continuou existindo em nosso país, e muitas de suas reivindicações acabaram em parte conquistadas nas décadas seguintes. Além disso, a ditadura, mesmo que tardiamente, foi derrotada, e hoje é objeto de escánio e de condenação pública.
Os ideais daquele movimento estudantil que floresceu no país em 1968, mesmo que brutalmente interrompidos por alguns anos, puderam renascer na segunda metade da década de 70, em uma nova geração de estudantes, na reorganização do movimento operário e camponês, na redemocratização e em outros belos momentos políticos vividos pelo Brasil a partir da segunda metade dos anos 1970.

Rodrigo Valente é jornalista e estudante de história

“Brasil De Fato”

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Dizem os pais

LEDA PAULANI E AIRTON PASCHOA

A disputa entre Mercadante e Virgílio denuncia que não há no país força política capaz de enfrentar o velho patrimonialismo nacional

QUEM APRECIA humor mórbido deve ter se deleitado ultimamente com ver nesta seção da Folha uma disputa renhida de paternidade (”Diziam”, Aloizio Mercadante, 16/3; “Tardia conversão”, Arthur Virgílio, 23/3; “Dizem, ainda”, Aloizio Mercadante, 6/4; “Distorções, ainda”, Arthur Virgílio, 20/4).
Mas podemos tranqüilizá-los, aos pais presuntivos. Se Collor fecundou o ovo, foram os governos tanto de FHC quanto de Lula que o criaram, merecendo ambos assim, de acordo com a anedota popular, o nobre e litigado título. Pois pai é quem cria… Que criatura, porém, será essa por que tanto se encantam e terçam os valorosos senadores?
Dizem os pais que a criatura agora cresce (e não há dúvida de que devem estar igualmente embevecidos com seu ingresso recente na classe dos mais adiantados emergentes). Mas o amor de pai os impede de ver, junto com esse crescimento, cuja geração disputam, o manifesto risco de desindustrialização, produzido pela combinação de ortodoxia monetária levada ao limite da irresponsabilidade com indecorosa abertura financeira.
Dizem os pais que, a par do crescimento, há distribuição de renda e pagamento da dívida social (como se o Paraíso morasse logo acima da linha de pobreza). Mas o amor de pai os impede de ver que os programas sociais, por cujo melhor ou pior foco concorrem, produzirão, na melhor das hipóteses, alguns milhões a mais de consumidores, e não de cidadãos, a verdadeira matéria-prima, como lembra Conceição Tavares, com que se faz um país.
Dizem os pais que não se trata apenas de crescimento, mas de crescimento sustentado. Mas o amor de pai os impede de ver que a assim denominada estabilidade, cujo alcance é fruto de tão encarniçada disputa, assenta-se no fundamentalismo econômico, o qual vai cevando a casta de 20 mil famílias que, como não cansa de acusar Marcio Pochmann, detém 80% desse capital caído do céu que se chama dívida pública.
Mas a contenda revela mais do que parece e mais do que aquilo que já era sabido. O teor da disputa denuncia por si só que não há hoje no país força política capaz de enfrentar com destemor o velho patrimonialismo nacional, com o qual contemporizaram tanto o governo FHC quanto o governo Lula, conforme declarou recentemente Ciro Gomes em entrevista a este mesmo jornal. No Brasil, para termos idéia do descalabro, basta dizer que o índice de Gini de riqueza, a crer em estudos mais avançados, encosta na escandalosa marca de 0,9.
A hegemonia às avessas que Lula protagoniza, em que os dominados ou seus representantes podem assumir o comando moral da sociedade desde que não toquem em seus imorais fundamentos econômicos, traduz a combinação perversa, embora eleitoralmente eficaz, entre concessões à larga aos detentores do grosso da riqueza e distribuição de migalhas à maioria despossuída da população.
Fernando Haddad, em livro infelizmente ainda pouco conhecido (”Trabalho e Linguagem - Para a Renovação do Socialismo”), denuncia a arriscada comunhão de valores entre a classe dominante e o lúmpen: a extrema liberdade de que ambos os grupos gozam (os primeiros porque não têm problemas materiais, e os segundos porque não há solução para seus problemas) gera um perigoso descompromisso com as regras que garantem a coesão social.
Os governos de FHC e Lula não fizeram mais do que ratificar a vocação para o apartheid social inscrita no DNA do país, consagrando a fratura que sempre lhe foi constitutiva.
A certa altura do debate, assevera o senador Arthur Virgílio que se deu uma curiosa inversão no Congresso, com os parlamentares da oposição defendendo a política econômica do executivo federal enquanto os da situação a atacavam. Atirando no que viu, o senador acertou no que não viu.
O rumo da economia, daquilo que antes se subordinava democraticamente à instância política, já foi decidido. Oposição e situação podem se engalfinhar à vontade, podem trocar divertidamente de posição, que não afetam mais a autonomia da esfera econômica.
E é este, para além da comédia ideológica que envolve governos e partidos, o grande drama histórico que hoje vivemos. Resgatar a possibilidade do político, do tomar decisões nacionais e soberanas capazes de redirecionar nossa economia, de fazê-la sujeitar-se aos imperativos de uma nação que se quer integrar, constituirá o desafio das futuras gerações, órfãs hoje de pais verdadeiramente responsáveis.

LEDA PAULANI , 53, é professora titular da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP), presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política e autora de “Brasil Delivery” (Boitempo, 2008).
AIRTON PASCHOA , 49, é escritor e autor de “Ver Navios” (Nankin, 2007).

“Folha de S. Paulo Opinião”

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Com novas ocupações, movimento urbano busca rearticulação no país

CIDADES Manifesto unificado cobra política habitacional para famílias de baixa renda, transporte público gratuito e acesso à creche

Eduardo Sales

MOVIMENTOS populares urbanos de nove estados brasileiros promoveram atividades em 28 de março, chamando a atenção do governo e da sociedade em geral para as condições de vida degradantes de milhões de pessoas das grandes cidades. Segundo estudo da Fundação João Pinheiro, o país possui um deficit habitacional de cerca de 7,9 milhões de moradias.
O objetivo da jornada nacional de luta urbana foi reivindicar habitação digna, emprego, transporte público, educação pública de qualidade, creche para todas as crianças e tarifa social de energia elétrica, dentre outros direitos reivindicados no “Manifesto popular de 28 de março”.
Os movimentos populares reivindicam uma política habitacional popular baseada em subsídios com valores adequados à realidade das metrópoles. Criticam que a população com renda entre um e três salários mínimos segue excluída das políticas nacionais e estaduais, sem acesso aos financiamentos bancários e sem subsídios governamentais para conseguir moradia.
Em paralelo, querem que a União desenvolva uma política nacional de desapropriações de terrenos e edifícios urbanos que não cumprem função social, destinando-os às demandas populares organizadas. Estima-se que essa é a situação de cerca de 5 milhões de residências no Brasil. Somadas à questão da moradia, mais três pautas centrais foram propostas pelo manifesto. Uma política nacional integrada de transporte urbano público gratuito. Creches financiadas pelo Estado sob o controle dos trabalhadores.
E o controle restritivo das taxas cobradas por serviços públicos básicos, como água e energia elétrica, garantindo a aplicação de Tarifas Sociais previstas na lei.

Ceará sem moradia
Uma das ações foi realizada em Fortaleza, onde 400 manifestantes organizados principalmente pelo Movimento dos Conselhos Populares (MCP) ocuparam a Secretaria de Assistência Social do município e protestaram em frente ao palácio do governo do Estado. As secretarias estaduais de Habitação e do Trabalho também foram ocupadas pelas organizações populares cearenses.
Uma comissão com oito representantes foi recebida pelo governador Cid Gomes (PSB). “Queremos assistência técnica, crédito e apoio na comercialização”, destaca Sérgio Farias, membro do MCP. No Estado, de acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), de 2005, o deficit habitacional constava mais de 400 mil moradias, e, apenas na Região Metropolitana de Fortaleza, superava as 160 mil unidades – o quarto maior do país. Em Fortaleza, existe cerca de 700 favelas para uma população de 2,5 milhões de pessoas.
Em Manaus, uma ocupação de 500 famílias foi realizada no Parque do Rio Negro, com apoio de sindicatos regionais. “No dia seguinte, a uma hora da manhã, fomos acordados com bombas de efeitos moral”, lembra o participante da ocupação e integrante da coordenação estadual do MTST do Amazonas Júlio César de Souza. O terreno público estadual tem 403 mil metros quadrados e suporta 2 mil moradias.

Pelo Brasil
Já no Estado de São Paulo, as ocupações realizadas por famílias do MTST nas cidades de Campinas, Mauá e Embu das Artes na noite de sextafeira (28) conseguiram se estabelecer. Em média, 500 famílias estão acampadas em cada uma das três ocupações. Em Campinas, o risco de despejo é iminente, pois o proprietário do terreno localizado no Jardim Telesp, zona sul da cidade, tenta obter uma liminar de reintegração de posse com o juiz de plantão. Em Embu das Artes, a prefeitura ordenou que a Guarda Municipal bloqueasse as ruas de acesso à ocupação, cerceando o direito de ir e vir das famílias e apoiadores, assim como em Manaus (AM).
Em São Luiz (MA), o Movimento Quilombo Urbano (MQU) realizou ato na praça central de São Luis contra a criminalização dos movimentos sociais, com participação de 1000 pessoas. O Movimento das Famílias Sem Teto e o Movimento de Luta Popular Comunitária chegaram a bloquear a rodovia federal PE- 22, em Recife. Em Belo Horizonte (MG), o Fórum de Moradia travou rodovias federais e ocupou, com 250 pessoas, um departamento da prefeitura Barreiro.
No dia 29, no Estado da Bahia, 100 famílias, organizadas pela União por Moradia Popular da Bahia, ocuparam o terreno da Fazenda Sossego para assegurar o projeto do Crédito Solidário previsto na Estrada Velha do Aeroporto. O Movimento Sem Teto da Bahia realizará, na primeira semana de abril, ações de continuação da jornada em Salvador.
Movimento das Mães Sem-Creche realizou um protesto na Secretaria de Educação de São Paulo. Em São José dos Campos (SP), houve uma marcha de mais de 500 semteto até a prefeitura, realizada pelo MUST.
Assinaram o manifesto de 28 de março: Movimento Urbano dos Sem Teto (MUST); Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB); Movimento dos Conselhos Populares – Ceará (MCP); Movimento Sem Teto de Luta – Amazonas; Movimento de Luta Popular Comunitária (MLPC) – Pernambuco; Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST); Movimento das Famílias Sem Teto (MFST) – Pernambuco; Movimento Quilombo Urbano – Maranhão; Movimento das Mães Sem Creche – São Paulo; Fórum de Moradia Minas Gerais, MTL, Democrático Independente – Minas Gerais.

“Brasil De Fato”

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Podemos escapar à vigilância?

As liberdades individuais se reduzem no mesmo ritmo em que as novas tecnologias se desenvolvem. No entanto, sem nos preocupar, ajudamos essa vigilância ao revelar nossas vidas na Internet ou utilizar senhas eletrônicas. Assim sacrificamos a liberdade pelo conforto, a diversão ou a segurança

Jérôme Fenoglio

Satélites de observação, câmeras de vigilância, passaportes biométricos, cadastros administrativos, policiais ou comerciais, chips de radiofreqüência, GPS, telefones celulares, Internet: o cidadão moderno está no centro de uma rede de tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas e cada vez mais indiscretas. Cada um desses instrumentos, que deveriam nos dar conforto e segurança, pergunta diariamente um pouco mais sobre nós mesmos, nos classifica, nos observa. Ao mesmo tempo cúmplices e inconscientes, caímos na sociedade da vigilância.

Ainda é possível escapar desses inúmeros dispositivos que nos cercam? Perguntamos a Thierry Rousselin, consultor em observação espacial, ex-diretor de programa de armamentos na Delegação Geral para o Armamento, que publica com Françoise de Blomac, especialista em novas tecnologias da informação, “Sous Surveillance” (ed. Les Carnets de l’Info), um apanhado muito útil dessas tecnologias, que tenta distinguir entre as fantasias e os verdadeiros riscos de desvios.

Le Monde - Quais são hoje os grandes campos da vigilância tecnológica?
Thierry Rousselin
- Poderíamos traçar círculos concêntricos. O primeiro são os “pedaços” de nós mesmos, tudo o que se refere à biometria. Progressivamente, damos um certo número de elementos que nos pertencem, que nos identificam. Isso começou com nossas impressões digitais. Hoje é a vez do DNA, da íris, da palma da mão, e em breve nossa maneira de andar ou nossos tiques. Nossa identidade está se confundido com a biologia e nossos comportamentos físicos. O segundo círculo são todos os sensores que nos cercam: os que nos olham com a videovigilância, as webcams, os teleguiados, os aviões, os helicópteros, os satélites.

Também há a escuta, em todos os sentidos da palavra. Não devemos nunca esquecer que o principal meio de escuta é uma pessoa ao nosso lado. Podemos também utilizar nossas próprias ferramentas, sobretudo o telefone. Fui visto, fui escutado, também sabem onde estou ou quem sou através de meus próprios objetos? Eu comprei um GPS ou um celular. Será que podem me seguir através desses aparelhos? Os diversos cartões -de pagamento, de fidelidade, de crédito- que tenho em minha carteira contam coisas sobre mim em tempo real cada vez que os utilizo. Os formulários que preenchi há 30 anos desenham uma imagem de mim mais precisa que minhas próprias lembranças.

O último ponto se refere ao computador. Será que ao utilizá-lo eu transmito informações além do que estou percebendo? Há um certo número de anos, vemos que em cada inquérito judicial os policiais usam o computador. Ele pode contar coisas sobre nossas atividades. Depois há a Internet. Nela nos preocupamos que as pessoas sejam capazes de entrar na rede para extrair nossas informações. Minha sede de fazer amigos, de me fazer conhecer, não me leva a contar coisas demais que um dia poderão ser usadas contra mim? Portanto, os domínios da vigilância afetam hoje quase todas as nossas interações com o mundo exterior, quase todos os nossos sentidos.

As preocupações são ainda mais vivas porque percebemos que teríamos muita dificuldade para dispensar várias dessas tecnologias. Sim, somos em grande parte cúmplices do avanço da vigilância. Primeiro, ela simplifica nossa vida. Preferimos ter um cartão a um tíquete para pegar um ônibus, assim não precisamos perfurar a passagem. O passe Navigo, que os transportes públicos franceses (RATP) estão substituindo pelo cartão Laranja, contém um chip de radiofreqüência no qual são incluídos dados pessoais que permitem reconstituir todos os seus deslocamentos durante dois dias. Ao utilizá-lo, você não se desloca mais anonimamente. Mas o cartão permitiu ganhar tempo nos guichês e nos portões, e fluidificar o fluxo de passageiros. A maioria dos usuários o considera principalmente um aperfeiçoamento do serviço.

Nos EUA, uma empresa comercializa um cartão especial para evitar as filas de espera nos controles dos aeroportos. Para obtê-lo, é preciso responder a um questionário detalhado na Internet e fornecer elementos de identificação biométricos. Recentemente, um dos primeiros assinantes comentou o serviço nestes termos: “Ao me inscrever, comecei a pensar: espero que eles tenham um bom sistema de segurança, diante da quantidade de informações que forneci… Mas não pensarei mais nisso quando passar assobiando pela via expressa, olhando para a enorme fila dos coitados que esperam”. É totalmente típico de nossa ambivalência sobre essas questões. Sentimos que confiamos elementos íntimos, às vezes para empresas que nem sequer existiam há um ano.

AGIR CONTRA A VIGILÂNCIA

A Privacy International (www.privacyinternational.org), que milita desde 1990 contra a vigilância e pela defesa da vida privada, é sem dúvida a ONG de maior influência internacional nesse campo. Ela publica uma lista anual de países onde a vida privada está mais ameaçada: na última delas a França se classificou entre os “países de vigilância desenvolvida”. Os Big Brothers Awards (bigbrotherawards.eu.org) são entregues anualmente em cerca de 20 países para “distinguir os predadores da vigilância”. Na França, notadamente, eles acabam de sancionar em 21 de março as empresas que fabricam teleguiados de vigilância e o Google.

Uma equipe mista de pesquisadores juristas e informáticos apresenta na rede seus trabalhos sobre o direito e a segurança da informação (www.asphales.cnrs.fr).

A CNIL [Comissão Nacional da Informática e das Liberdades] permite visualizar em seu site os vestígios deixados por cada internauta no site (www.cnil.fr, seção “découvrir” e depois “vos traces”).

No campo artístico, entre diversas iniciativas, o cineasta Adam Rifkin realizou um filme totalmente feito com câmeras colocadas ao lado de câmeras de vigilância autênticas ou em lugares onde podemos encontrá-las. “Look” acaba de ser lançado nos EUA.

Na Grã-Bretanha, o Manifesto for CCTV Filmmakers (Manifesto pelos Realizadores de Filmes de Videovigilância) reúne artistas que exploram vídeos feitos com câmeras de vigilância. Eles obtêm essas imagens em virtude da lei que permite que as pessoas filmadas recebam as gravações que representam um atentado à sua vida privada.

Mas elas fornecem serviços tão práticos que preferimos esquecer os riscos que isso representa. Também é o caso das soluções RFID [identificação por radiofreqüência] e GPS [sistema de posicionamento global] destinadas a crianças ou aos doentes de Alzheimer. Aceitamos a vigilância porque ela envolve nossos próximos mais frágeis. Mas para os industriais essas técnicas também representam as condições do mercado. Começamos a aceitá-las para as pessoas que mais queremos, e isso abre caminho para a utilização em massa.

LM - O interesse financeiro também pode influir?
Rousselin
- É claro! Se eu aceito um cartão fidelidade, vou receber presentes em troca de alguns dados pessoais. Na Grã-Bretanha, várias companhias propõem seguros mais baratos para motoristas que se comprometem a não rodar em certas horas de dias “de risco”. Para verificar, as empresas têm o direito de obter todas as informações sobre os deslocamentos contidas no computador eletrônico do veículo. Os clientes trocaram uma economia substancial contra a perda da confidencialidade de suas idas e vindas. Ao contrário, proteger seu anonimato pode custar mais caro. A CNIL [Comissão Nacional da Informática e das Liberdades] pediu que a RATP proponha um cartão sem informações pessoais. É o passe Navigo Découverte: ele existe, mas é mais caro que o passe clássico.

LM - Muitos prefeitos franceses aderiram à videovigilância, no modelo da Grã-Bretanha, onde já são utilizadas ao todo 25 milhões de câmeras. A que se deve esse entusiasmo?
Rousselin
- É muito irracional! Em novembro, a ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie, afirmou que “a eficácia da videovigilância para melhorar de modo significativo a segurança cotidiana está comprovada”. No entanto, não existe um trabalho de pesquisa que confirme a eficácia das câmeras. Com freqüência, por trás dos sistemas tecnológicos de vigilância há a incapacidade do poder público de dar respostas reais aos problemas. Instalam-se câmeras porque são muito visíveis e custam menos que contratar pessoas e realizar um verdadeiro trabalho em campo.

Portanto, todo mundo adere, enquanto no Reino Unido os balanços são muito moderados. O efeito é muito fraco em termos de prevenção, de dissuasão, sobretudo quanto aos ataques a pessoas (brigas, violações…), muitas vezes devidos a pessoas de comportamento impulsivo que não se importam de estar sendo filmadas. O mesmo vale para o terrorismo: os “loucos por Deus” ou por uma causa qualquer ficariam até contentes de passar assim à posteridade.

Quanto aos pequenos delitos praticados por batedores de carteira no metrô, são rápidos demais para ser notados e seus autores agem em lugares muitas vezes de múltiplos usos. A videovigilância é uma ajuda preciosa principalmente na solução de investigações a posteriori.

LM - Diante dessa generalização dos meios de vigilância, ainda é possível “desaparecer” em nossas sociedades, escapar ao controle da tecnologia?
Rousselin
- Desaparecer ainda é possível: vários milhares de pessoas o fazem voluntariamente todo ano na França sem que o fisco ou a seguridade social consigam encontrá-las. Mas é preciso saber o que isso representa como esforço, sobretudo se você fica na ilegalidade, sem uma falsa identidade ou cirurgia plástica. A opção “ilha deserta” é aparentemente a mais simples de realizar.

Você se retira para uma zona rural na qual poderá praticar um modo de vida que reduza ao máximo os intercâmbios comerciais, sem computador nem celular; eles ainda existem na França. Você fecha sua conta no banco e paga tudo em espécie. Será preciso se abster de viajar ao estrangeiro, principalmente aos EUA, para não ter de preencher papéis que apelam para a biometria. Será preciso manter sua antiga carteira de identidade, que na França é válida enquanto você estiver reconhecível na foto.

É claro que não poderá mandar seus filhos à escola no sistema oficial. E o verdadeiro limite será a saúde, pois a partir do momento em que você precisar do sistema de saúde entrará obrigatoriamente nos arquivos. O problema é que essa retirada da sociedade vai parecer uma viagem ao passado, um retorno a formas antigas de controle social.

Em seu vilarejo perdido não haverá quase ninguém, mas todo mundo num raio de 10 quilômetros conhecerá seus hábitos de vida, suas particularidades. Os séculos anteriores à tecnologia moderna estavam longe de ser épocas sem vigilância. Para evitar isso, você talvez prefira se fundir à selva urbana. A multidão das cidades também pode garantir o anonimato. Mas nesse caso a margem entre saída do sistema e exclusão é perigosamente estreita. Você passará despercebido, mas com um modo de vida cada vez mais parecido com o de um sem-teto.

LM - Sem ir tão longe, ainda podemos pelo menos controlar as informações que deixamos sobre nós?
Rousselin
- Se você decide continuar na sociedade, necessariamente circulam informações sobre você. Você paga impostos ao fisco, que por conseguinte sabe coisas sobre você, assim como seu empregador, etc. Por outro lado, pode evitar dar informações sobre si mesmo que ninguém o obriga a revelar. Pode evitar preencher todos os questionários a que nem presta atenção, geralmente sob o pretexto de ganhar brindes. Podemos muito bem sobreviver sem cartões fidelidade e sem dar nossa ficha completa para comprar uma torradeira de pão. É verdade que ganhamos com isso, mas principalmente damos o direito de que o conjunto de nossas compras seja analisado e identificado. Os cartões fidelidade alimentam constantemente bancos de dados que memorizam todas as transações.

Progressivamente, deixamos que se forme uma mina de informações sobre nós mesmos. Alguns desses arquivos circulam livremente, se você esquecer de marcar o quadradinho embaixo à direita que proíbe que seu interlocutor ceda seus dados para “parceiros”. Portanto, quando você preenche questionários não-obrigatórios, não é absolutamente obrigado a dar informações reais. Nada o impede de errar seu endereço ou o número de telefone.

LM - Os telefones celulares são cada vez mais considerados potenciais espiões. Podemos limitar esse risco?
Rousselin
- A partir do momento em que seu aparelho está ligado ou à espera (em stand-by), sua operadora, a pedido de um vigilante, pode efetivamente acionar uma série de mecanismos de espionagem. Para a localização existem vários procedimentos que permitem situá-lo com precisão de cerca de 50 metros, utilizando, por triangulação, as três antenas retransmissoras mais próximas de seu aparelho. É o que foi utilizado para localizar o comando que assassinou o delegado Erignac.

Os telefones de última geração, que hoje constituem o topo de linha, contêm um chip GPS e serão localizáveis com muito mais facilidade e precisão. Para a escuta, isso não se limita à possibilidade de interceptar uma conversa, o que se tornou muito simples. Uma operadora também tem a capacidade de usar um celular como microfone de ambiente.

Juridicamente, os serviços policiais podem, sob certas condições, pedir à operadora que transforme o telefone em microfone e escutar tudo o que se diz ao redor da pessoa que o utiliza. Mas em todo caso, tanto para localização como para escuta, é preciso que o celular não esteja desligado. Se estiver, nada mais é possível, ao contrário do que afirmaram vários artigos que confundiram desligado com o modo em espera.

Portanto, se você quiser evitar ser constantemente localizável, faça como os policiais ou os bandidos: desligue seu celular assim que não o estiver mais usando. Evidentemente, você perderá um dos grandes interesses do aparelho, o de poder ser localizado a qualquer momento.

LM - A maior brecha em nossa vida privada continua sendo o computador conectado à Internet?
Rousselin
- É verdade. A maioria dos computadores é fornecida com sistemas operacionais que dão direito juridicamente à Microsoft ou à Apple de colocar espiões em sua casa, supostamente por bons motivos. Desde a conexão à rede, e sem qualquer decisão autônoma de nossa parte, haverá todo um pequeno tráfego para propor atualizações, verificar se não estamos utilizando programas piratas e coletar informações sobre nosso local de trabalho.

Recentemente, o estado da Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha, votou um projeto de lei autorizando a polícia a colocar vírus de escuta no computador de suspeitos. Isso serviu como alerta. As pessoas perceberam que tecnicamente era infantil e que muitas empresas sabiam fazer isso. Assim que a pessoa entra na rede a coisa se agrava.

Cada vez que vemos um site, ele registra o número de páginas vistas, seu tempo de consulta, os links seguidos, a integralidade do percurso do cliente antes da transação, assim como os sites visitados antes e depois. Imagine os mesmos métodos aplicados à revista que seus leitores têm nas mãos: eles concordariam que você conhecesse sistematicamente o tipo de poltrona em que estão sentados, o grau de seus óculos, suas horas de leitura, o jornal que leram antes deste? Certamente não, no entanto é o que acontece, sem nossa interferência, cada vez que navegamos.

O “New York Times” publicou uma pesquisa em dezembro passado que explica que quando entramos no Yahoo damos 811 informações pessoais simultâneas. O computador é uma verdadeira janela para o mundo, mas não tem cortinas. Assim, se quero ter certeza de passar despercebido, não entro na Internet. Mas isso equivale cada vez mais a dizer “saí do jogo social”.

LM - Isso será possível daqui a 15 ou 20 anos, quando tudo estiver desmaterializado, principalmente as formalidades administrativas? Nesse novo “jogo social”, por que o senhor é tão crítico com as redes sociais ou a prática dos blogs?
Rousselin
- Porque, para mim, o maior risco se situa aí, principalmente no que se refere aos adolescentes. Milhões deles abriram blogs ou participam de fóruns onde vão deixar um volume enorme de informações sem perceber as conseqüências. Já vimos diversos casos. Jovens que massacram em seus blogs as empresas onde fizeram estágios e que dois anos depois se surpreendem ao saber que os recrutadores lêem esse tipo de coisa. Fazer besteiras e querer se mostrar é próprio da adolescência. O problema é que as divulgamos em sistemas tecnológicos privados que as guardarão na memória. Noventa por cento das pessoas que se inscrevem em redes sociais as abandonam dois meses depois. Elas fizeram todo o processo de admissão e depois acabam se cansando, e deixam para trás montes de dados pessoais.

Eu acabo de fazer uma experiência edificante nesse sentido, no âmbito profissional. Estava em um centro de informação militar para uma auditoria e visitei as unidades de produção. Ao voltar, quando redigi meu relatório, percebi que não havia anotado o nome do responsável. Então fui procurar em uma ferramenta que permite buscar quem está em qual rede social, o equivalente a um metamotor de busca para as redes sociais. Coloquei as informações de que dispunha (o primeiro nome dele, sua nacionalidade e seu empregador). Encontrei o sujeito no LinkedIn. Nesse site havia sua biografia, que ele mesmo havia digitado, assim como todas as suas missões militares até seu posto atual. Fiquei atônito.

Google e Yahoo tornaram-se assim os principais detentores de informações sobre nossos comportamentos, nossos hábitos de consumo. São empresas que não existiam há dez ou 15 anos. Quem pode dizer o que elas serão daqui a 20?

LM - Acabamos de ver que restam algumas margens de manobra se quisermos escapar da vigilância tecnológica. Mas o que vai acontecer no dia em que todos esses sistemas estiverem interconectados, quando for instaurada a “convergência” dos arquivos, dos computadores, dos meios de observação que alguns autores anunciam como inevitável até 2050?
Rousselin
- Não tenho certeza se podemos ser tão categóricos sobre a chegada desse metassistema. Há vários fatores difíceis de medir, que podem retardar essa evolução ou mesmo impedi-la, emperrando o sistema. Primeiro a incompetência, que não se deve subestimar jamais. O vigilante é, por definição, paranóico. Em conseqüência, hoje ele tem muitos inimigos entre os que supostamente estariam do seu lado. Antes de chegar a um sistema que poderá dispensar os humanos, ainda haverá pessoas que brigam, serviços que não se comunicam, responsáveis que dissimulam as informações. O bê-á-bá da administração pública há 5 mil anos consiste, entre os serviços públicos, em ocultar mutuamente as informações. Em todos os casos ligados ao terrorismo, percebemos que a lógica básica é o FBI que vigia a CIA, que vigia a ASN, etc. É por isso que o mulá Omar e Bin Laden ainda estão por aí.

É o que às vezes eu acho excessivo nos panfletos sobre vigilância: sempre há um exagero, essa tendência a pensar que o vigilante não comete erros, que ele não levanta no meio do vídeo para tomar um café, etc. Ele se torna desumano. Mas várias imperfeições prejudicam a potencial eficácia da vigilância.

Outro parâmetro a se levar em conta é que cada uma das tecnologias cria seus próprios contrapoderes. Para a observação (videovigilância ou satélites), vemos que a maior dificuldade está na enorme quantidade de imagens em relação ao número de analistas existentes e às capacidades técnicas de análise disponíveis. Dezenas de milhares de amadores que decifram as imagens também se tornam tão poderosos quanto os poderes que dispõem de meios limitados. Constatamos isso no momento do furacão Katrina, quando, ao ver as imagens à sua disposição, os internautas revelaram a impotência das autoridades americanas.

Os cidadãos também podem inverter certos meios contra seus criadores e vigiar os vigilantes. Um dos aspectos da nossa pesquisa que nos deixou otimistas é a efervescência criativa que está crescendo ao redor desse assunto. Diversas formas de resistências artísticas ou associativas estão surgindo. Elas podem retardar ou impedir o pior, ao sensibilizar o grande público.

LM - Mais que buscar passar despercebido, a solução seria tornar-se ativo para subverter o sistema?
Rousselin
- Sim, ainda há muitos campos em nossa vida pessoal onde nem tudo está decidido. E por isso cabe a cada um de nós agir para que a vigilância não se amplifique. Assistimos ao surgimento de ativistas, vemos artistas, pessoas que têm comportamentos saudáveis. Mas caímos sob nossas próprias facilidades, nossos pequenos interesses momentâneos. Talvez seja contra isso que devemos lutar. Contra nós mesmos? Sim! Porque gostamos muito do que é moderno e simples. A força do Google ou da Apple são as interfaces incrivelmente fáceis e intuitivas que nos seduzem.

Todos temos amigos que fazem demonstração de seu novo objeto super high-tech, que elogiam as virtudes de seu novo telefone, de seu novo assistente pessoal. Eles estão simplesmente promovendo o novo instrumento que os vigia. E se orgulham muito disso. Somos todos um pouco parecidos. Isso mostra que somos modernos. Em certos momentos é preciso saber se mostrar um pouco antiquado e aceitar que nossa vida seja um pouco menos simplificada.

“Le Monde”

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A transformação do mundo ou as Onze teses de Marx sobre Feuerbach

Ernst Bloch

O pensamento para frente já há muito está na ordem do dia e pode ser ouvido. Só os covardes procuram sempre desconversar, e os mentirosos mantêm-se num plano geral. Só eles escondem-se em roupas folgadas ou pedantes, procuram estar sempre em outro lugar que não aquele em que são flagrados. Porém, nem é possível definir suficientemente o verdadeiro, mesmo quando ou justamente quando a coisa ainda está tomando forma diante dos olhos. Graças a esse faro para o essencial, já com a idade de dezenove anos, Marx foi capaz de produzir, na carta ao seu pai que se conservou, teses fundamentais em formulações precisas. Esse tipo busca de início entrar no âmago da questão, nunca desperdiça tempo com o inútil, descarta-o assim que o reconhece como tal. Assim, em tudo o que contempla largamente, em tudo o que pondera longamente, e que se acrescenta ao que tem, ele é capaz de, a cada momento, estar novamente em forma, intervindo e realçando. O que dessa forma pode ser compreendido mostra suas ênfases ao caminhar. Com estas e nestas aguça-se a tração para diante, para que lhe sejam proveitosas até mesmo possíveis digressões. Todavia, também esse indicativo, na sua seqüência, nem sempre pode ser vislumbrado tão rapidamente quanto pode ser citado em sua concisão. Pois a concisão significativa é coerente, razão pela qual oferece menos facilidade no que se refere a encontrar rapidamente uma formulação bem-acabada.

A época da composição

Assim, o entendimento tem de comprovar-se constantemente frente a frases desse tipo. Em nenhuma parte se pode fazer isso de modo mais renovador do que na coleção compacta de instruções extremamente compactas, conhecidas como as Onze teses sobre Feuerbach. Marx as redigiu em abril de 1845 em Bruxelas, muito provavelmente no embalo dos estudos preparatórios para a Ideologia alemã. As Teses só foram publicadas em 1888 por Engels, como anexo do seu Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Ao fazê-lo, Engels ocasionalmente deu aguns leves retoques estilísticos no texto apenas rascunhado por Marx, obviamente sem a menor modificação do conteúdo. Na observação introdutória ao seu Ludwig Feuerbach, Engels escreve o seguinte sobre as Teses: “Trata-se de notas para posterior elaboração, registradas rapidamente, em absoluto destinadas à impressão, mas inestimáveis como o primeiro documento em que foi depositado o germe genial da nova visão de mundo”. Feuerbach havia conclamado a retornar das puras idéias à contemplação sensorial, do espírito ao homem, incluindo a natureza como a sua base. Como se sabe, essa rejeição tão “humanista” quanto “naturalista” de Hegel (tendo o homem como idéia central, a natureza como prius em vez do espírito) teve uma influência muito forte sobre o jovem Marx. A essência do cristianismo, publicado por Feuerbach em 1841, as suas Teses provisórias sobre a reforma da filosofia, de 1842, os seus Princípios da filosofia do futuro, de 1843, tiveram um efeito tanto mais libertador porque nem a escola dos hegelianos de esquerda conseguiu se libertar de Hegel, antes não foi além de uma mera crítica intra-hegeliana ao mestre do idealismo. “O entusiasmo”, diz Engels restrospectivamente no Ludwig Feuerbach, cerca de cinqüenta anos depois, “foi geral: momentaneamente todos nós éramos feuerbachianos. Com que entusiasmo Marx saudou a nova concepção, e o quanto ele foi influenciado por ela ─, pode ser verificado na leitura de A sagrada família” (Ludwig Feuerbach, Diez, 1946, p. 14). A juventude alemã de então acreditava estar finalmente vendo, em vez de céu, terra, humana, imanente.

Entretanto, Marx livrou-se bem depressa dessa visão imanente demasiado vaga da vida humana. Sua atividade na Rheinischen Zeitung [Gazeta Renana] trouxe-lhe contatos muito mais estreitos com questões políticas e econômicas do que tiveram os hegelianos de esquerda e também os feuerbachianos. Justamente esse contato fez com que Marx passasse da crítica da religião, à qual Feuerbach havia se limitado, de modo crescente à crítica do Estado, sim, já da organização social, que determina a forma do Estado ─ como reconhece a Crítica da filosofia do Estado de Hegel (1841-1843). A diferenciação que Hegel faz entre sociedade burguesa e Estado, apontada por Marx, já continha mais consciência econômica do que possuíam seus epígonos, inclusive os feuerbachianos. O distanciamento de Feuerbach ocorreu com todo o respeito e primeiramente apenas como uma correção ou até mera complementação; contudo, a perspectiva social, totalmente nova, está clara desde o início. Assim, no dia 13 de março de 1843, Marx escreve para Ruge: “Os aforismos de Feuerbach apenas num ponto não me parecem corretos, ou seja, pelo fato de ele apontar demais para a natureza e muito pouco para a política. Esta, porém, é o único pacto que levaria a atual filosofia a tornar-se uma verdade” (MEGA I, ½, p. 308). Os Manuscritos econômico-filosóficos, de 1844, ainda contêm uma significativa louvação de Feuerbach, ainda que como contraposição às lucubrações de Bruno Bauer; os Manuscritos louvam, assim, dentre os feitos de Feuerbach, sobretudo a “fundação do materialismo autêntico e da ciência real, quando Feuerbach torna a relação ‘do homem com o homem’ igualmente o princípio básico da teoria” (MEGA I, 3, S. 152). Todavia, os Manuscritos econômico-filosóficos já ultrapassaram Feuerbach muito mais do que dizem. Neles, a relação “do homem com o homem” não permanece uma relação antropológico-abstrata de cunho geral, como em Feuerbach; ao contrário, a crítica da alienação humana em relação a si mesma (transposta da religião para o Estado) já penetra aí no cerne econômico do processo de alienação. Isso ocorre não por último nas passagens extraordinárias sobre a fenomenologia de Hegel, em que é caracterizado o papel do trabalho na formação da história e em que a obra de Hegel é interpretada quanto a esse aspecto. Ao mesmo tempo, porém, os Manuscritos econômico-filosóficos criticam essa obra porque ela concebe a atividade laboral humana apenas como atividade intelectual e não material. A passagem para a economia política, portanto, afastando-se do homem genérico de Feuerbach, acontece na primeira obra empreendida em conjunto com Engels, em A sagrada família, igualmente em 1844. Os Manuscritos econômicos-filosóficos já continham a seguinte tese: “O próprio trabalhador é um capital, uma mercadoria” (loc. cit., p. 103), nada sobrando, portanto, da existência humana segundo Feuerbach, a não ser a sua negação no capitalismo; A sagrada família registrou o próprio capitalismo como fonte dessa alienação mais forte e definitiva. No lugar do homem genérico de Feuerbach, com sua naturalidade abstrata e invariável, surgiu então um conjunto historicamente alternante de relações sociais e sobretudo antagônico quanto à classe social. A alienação, entretanto, englobava as duas: tanto a classe dos exploradores quanto a dos explorados, principalmente no capitalismo, que é a forma mais intensa dessa auto-alienação, dessa objetificação. “Porém”, consta em A sagrada família, “a primeira classe sente-se bem e afirmada nessa alienação de si mesma, está ciente de que a alienação é seu próprio poder e possui dentro dela a aparência de uma existência humana; a segunda sente-se destruída na alienação, vislumbra nela a sua impotência e a realidade de uma existência inumana” (MEGA I, 3, p. 206). Isto comprovou, enfim, que a produção e o modo de troca respectivos, classistas e causadores da divisão do trabalho, em grau extremo os capitalistas, são as fontes da alienação. No mais tardar, a partir de 1843, Marx tornou-se materialista; A sagrada família deu à luz, em 1844, a concepção materialista da história, e com ela o socialismo científico. E as Onze teses, surgidas entre A sagrada família de 1844/1845 e a Ideologia alemã de 1845/46, representam assim a despedida expressa de Feuerbach, juntamente com a tomada de posse de uma herança extremamente original. A experiência empírico-política do período renana somada a Feuerbach deixaram Marx imune contra o “espírito” e mais “espírito” da escola dos hegelianos de esquerda. A posição assumida a partir do proletariado fez com que Marx se tornasse causalmente concreto, ou seja, verdadeiramente (a partir de um fundamento) humanista.

Obviamente a despedida em questão aqui não representa uma ruptura completa. As relações com Feuerbach perpassam grande parte da obra de Marx, também após a despedida representada pelas Onze teses. O que está mais próximo da terra que ficou para trás, já por razões temporais, é a Ideologia alemã, que vem imediatamente após as Teses. Diversas versões críticas das Teses retornam nela, sendo que, no entanto, há uma diferença muito grande entre a crítica a Feuerbach e a liquidação impiedosa dos falsos epígonos de Hegel. Feuerbach ainda fazia parte da ideologia burguesa; por isso, a controvérsia com as encarnações decadentes aparentemente radicais originadas dele, como Bruno Bauer e Stirner, necessariamente atingia também a ele na Ideologia alemã. Porém, de tal maneira que o próprio filósofo em parte ainda fornecia o punho da arma conseqüente com que Marx investia contra ele. Mas sobretudo contra os hegelianos de esquerda. Em conformidade com isso, a Ideologia alemã inicia fundamentalmente com o nome de Feuerbach e, tomando como ponto de partida a sua crítica da religião, critica a “superação” meramente intra-idealista do idealismo. “A nenhum desses filósofos ocorreu perguntar pela relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã, pela relação entre a sua crítica e o seu próprio contexto material” (MEGA I, 5, p. 10). Contudo, Marx enfatiza, por outro lado, a “grande preeminência [de Feuerbach] frente aos materialista ‘puros’, no fato de reconhecer que também o homem é um ‘objeto sensorial [sinnlicher Gegenstand]’”. De fato, o referido reconhecimento caracteriza, justamente dessa forma, a importância de Feuerbach para a formação do marxismo, assim como a crítica ao seu homem abstrato, aistórico, aponta o aspecto não-feuerbachiano, sim, antifeuerbachiano do próprio marxismo já desenvolvido. O reconhecimento diz o seguinte: sem considerar o homem igualmente como um “objeto sensorial” teria sido muito mais difícil elaborar no nível materialista o humano como raiz de todas as coisas sociais. O materialismo antropológico de Feuerbach designa assim a transição possível facilitada do materialismo meramente mecânico para o histórico. A crítica diz o seguinte: sem a concretização do humano nos homens realmente existentes, sobretudo socialmente ativos, com relações reais entre si e com a natureza, materialismo e história teriam divergido constantemente, apesar de toda a “antropologia”. Mas nesse ponto Feuerbach continua sempre relevante para Marx, tanto como passagem quanto como o único filósofo contemporâneo com o qual uma controvérsia é possível, esclarecedora e frutífera. Assim, as idéias fundamentais, às quais Marx reage criticamente, as quais ele ultrapassa produtivamente, constam basicamente no escrito principal de Feuerbach intitulado A essência do cristianismo, de 1841. Além disso, entram em cogitação as Teses provisórias sobre a reforma da filosofia, escritas por Feuerbach em 1842, e os Princípios da filosofia do futuro, de 1843. Os escritos anteriores do filósofo dificilmente terão tido alguma importância para Marx, já que, pelo menos até 1839, Feuerbach nada tinha de original, por estar demasiadamente sob a influência de Hegel. Somente a partir de então, Feuerbach aplicou à religião o conceito hegeliano da auto-alienação. Somente a partir de então, o antigo hegeliano disse que sua primeira idéia teria sido Deus, a segunda, a razão, sua terceira e última seria o homem. Isto quer dizer: assim como a filosofia hegeliana da razão superara a fé da Igreja, assim a filosofia colocaria agora o ser humano (incluindo a natureza como sua base) no lugar de Hegel. Não obstante tudo isso, Feuerbach não conseguiu encontrar o caminho até a realidade; ele jogou fora justamente o mais importante em Hegel, o método dialético-histórico. As Onze teses foram as primeiras a indicar o caminho do mero anti-hegelianismo para a realidade passível de transformação, do materialismo da etapa para o da linha de frente.

A questão do agrupamento

Uma questão antiga e nova ao mesmo tempo é a de como as Teses devem ser agrupadas. Pois assim como estão, destinadas ao entendimento próprio, e não para serem impressas, elas apresentam diversos pontos de interseção. Também trazem o mesmo conteúdo em outra parte, nem sempre permitem discernir a razão do ordenamento e da seqüência. Em vista disso, exigências didáticas deram origem a diversas tentativas de reordenar as Teses conforme seus traços comuns e de classificá-las assim em grupos. Nesse caso, procura-se às vezes manter a seqüência numérica, como se as Onze teses pudessem ser subsumidas uma após a outra, na seqüência em que aparecem. Esse agrupamento fiel à numeração tem, por exemplo, o seguinte aspecto: as teses 1, 2 e 3 encontram-se sob “Unidade de teoria e práxis no pensamento”, as teses 4 e 5 sob “Compreensão da realidade em contradições”, as teses 6, 7, 8 e 9 sob “A própria realidade em contradições”, as tese 10 e 11 sob “Lugar e tarefa do materialismo dialético na sociedade”. Esta é uma ordenação por cifras; como há muitas outras desse tipo e de conteúdo bem distinto uma das outras, resulta que, neste caso, o mero valor numérico significa muito pouco. Cada uma dessas ordenações, por um lado, valoriza demasiadamente a seqüência, fazendo com que esteja gravada por toda a eternidade, como a Lei das Doze Tábuas ou nos Dez mandamentos; por outro lado, trata-a de modo simplório e formalista, como se fosse uma série de selos. A numeração, no entanto, não é sistemática, e Marx é o que menos tem necessidade desse tipo de compensação. Por isso, deve-se agrupar filosófica e não aritmeticamente, isto é, a seqüência das teses é unicamente a de seus temas e conteúdos. Tanto quanto se pode enxergar, ainda não existe nenhum comentário às Onze teses; porém somente com ele, como resultado da própria causa comum, evidencia-se igualmente a coerência que continua a produzir-se, tanto a sua concisão quanto a sua profundidade. Surge, então, em primeiro lugar, o grupo epistemológico, referente à contemplação e atividade (teses 5, 1 e 3); em segundo lugar, o grupo histórico-antropológico, referente à auto-alienação, sua causa real e o verdadeiro materialismo (teses 4, 6, 7, 9 e 10); em terceiro lugar, o grupo sintetizador ou grupo teoria-práxis, referente a comprovação e validação (teses 2 e 8). Por último, segue a tese mais importante, a senha, na qual os espíritos não só se dividem definitivamente, mas com cuja utilização eles deixam de ser meros espíritos (tese 11). O grupo epistemológico é apropriadamente aberto com a tese 5, o grupo histórico-antropológico, com a tese 4; pois essas teses designam as duas teorias fundamentais de Feuerbach, que Marx reconhece relativamente, e as quais ele ultrapassa nas demais teses dos respectivos grupos. A teoria assumida na tese 5 é a da rejeição do pensamento abstrato, na tese 4, a da rejeição da alienação humana. E, em conformidade com o primeiro traço básico da dialética materialista, cuja imagem anuncia-se aqui, há entre as teses individuais dentro do rerspectivo grupo um movimento livre e complementar das vozes; assim como entre os próprios grupos ocorre uma interação constante, um todo único e coerente.

[BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Vol I. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ, Contraponto, 2005, p. 246-251]

Ernst Bloch (1885-1977), filósofo marxista alemão, é autor de O princípio esperança.

“www.socialismo.org.br”

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Tecnologia provoca temor no tradicional mercado de chá da Índia

Jeremy Kahn

Os comerciantes aglomeram-se em torno das mesas de madeira em um grande e empoeirado auditório, examinando grossos catálogos que descrevem caixas de chá. Um vendedor sentado na frente do salão grita os preços em uma cadência rápida, enquanto os comerciantes berram e gesticulam, assinalando as suas ofertas.

Uma enérgica batida do martelo fecha cada venda, e o processo começa de novo - segundo as regras do mercado o leiloeiro tem que vender pelo menos três lotes em um minuto.

A cena repete-se todas as terças e quartas-feiras pela manhã, aqui no Centro de Leilão de Chá no Estado de Assam, no centro da famosa região produtora de chá da Índia, encaixada entre Butão, Bangladesh, Mianmar e China.

O chá é comercializado desta forma na Índia desde 1861. Mas, neste ano, a cacofonia dos leilões públicos de chá darão lugar ao barulho suave de teclados: os mercados de chá da Índia estão se tornando digitais.

Da mesma forma como o comércio eletrônico tomou conta da Bolsa de Valores de Nova York e da Bolsa de Mercadorias de Chicago, a mudança para os leilões computadorizados promete virar de ponta-cabeça o mundo tradicional dos mercadores de chá. Embora os produtores de chá e as grandes multinacionais tenham recebido bem a promessa do comércio computadorizado, diversos pequenos negociantes de chá temem que um comércio eletrônico signifique o fim de seu meio de vida.

O órgão governamental que estabelece as regras para o comércio de chá na Índia, o Departamento de Chá Indiano, vê no comércio eletrônico uma maneira de ajudar os plantadores que foram duramente atingidos pelos preços reduzidos do chá na última década. A idéia é que o comércio eletrônico resulte em preços mais justos e em menores custos das transações comerciais.

Estudos de outros mercados de commodities em todo o mundo demonstraram que até mesmo reduções modestas nos custos por meio da automação são capazes de gerar grandes aumentos no volume comercializado. O esforço da Diretoria do Chá é apenas uma dentre várias experiências na Índia nas quais o comércio computadorizado está sendo estimulado como forma de melhorar os preços que os agricultores pobres recebem pelas suas colheitas.

A principal vantagem do sistema computadorizado, segundo a Diretoria do Chá, é que os compradores podem fazer as ofertas de qualquer lugar, sem terem que estar fisicamente presentes na sala de leilão - ou sequer na mesma cidade em que o chá está estocado. “Isso significa maior participação do comprador e também maior competição”, afirma H.N. Dwibedi, um consultor que assessora a Diretoria do Chá em questões referentes ao comércio computadorizado. “Uma maior competição garante que o verdadeiro preço do produto será encontrado”.

Dwibedi diz também que um sistema eletrônico deverá ajudar a automatizar a compilação de catálogos de chá e a eliminar a papelada envolvida nas negociações, fazendo com que os negociantes poupem tempo e dinheiro.

A Índia, o maior produtor de chá do mundo, é também o terceiro maior exportador, depois de Sri Lanka e Quênia. Atualmente, nove centros de leilão como este de Guwahati operam em todo o país, e por eles passam cerca de 55% das 1 milhão de toneladas de chá indiano vendidas a cada ano (o restante é vendido diretamente das plantações para companhias de chá ou consumidores).

Atualmente, levar o chá a leilão pode ser uma tarefa que consome tempo e dinheiro: os plantadores colhem as folhas verdes, que a seguir são processadas, transformando-se em chá preto, ou então as vendem para que sejam processadas em outros locais. Após o processamento, um corretor leva um lote de chá, estoca-o, avalia a sua qualidade, envia amostras para potenciais compradores para degustação, e cria catálogos identificando os chás à venda - um processo que pode demorar semanas.

Depois disso o corretor vai até uma casa de leilão e vende o lote. Ele certifica-se de que o comprador pagou o preço combinado e levou a carga, e, em troca, recebe uma comissão, geralmente de 1% do preço da venda, mais o preço da armazenagem e outras taxas.

Um sistema eletrônico é especialmente atraente para grandes companhias de chá, como a Tata, o conglomerado indiano que é dono da marca de chá Tetley, e a Hindustan Unilever, o braço indiano da companhia internacional de produtos Unilever, que é dona da marca PG Tips.

Juntas, essas duas companhias controlam cerca de 45% do mercado. Elas têm feito pressões pela adoção dos leilões eletrônicos.

A Tata espera que o sistema computadorizado permita que ela coordene melhor as suas iniciativas nacionais para as vendas e poupe custos trabalhistas, segundo Kevin Paul, gerente da divisão de exportações da Tata Tea. O sistema de leilões pode também constituir-se em uma vantagem para os grandes compradores ao tornar mais difícil a divisão de lotes, uma prática na qual vários pequenos compradores se reúnem para comprar em conjunto um único grande lote de chá.

Por esta e outras razões, muitos pequenos compradores estão temerosos - especialmente aqueles que atuam como agentes de leilão para companhias de chá distantes. “Se os seus diretores das companhias puderem fazer propostas de suas cidades em qualquer lugar da Índia, o papel dessas pessoas será minimizado”, diz Jayanta Kakati, secretário do Centro de Leilão de Chá de Guwahati.

Um dia os nove centros de leilão separados poderão se aglutinar, quem sabe resultando em um único mercado nacional de venda.

Os corretores também estão preocupados. Alguns dizem que um comércio eletrônico permitirá que plantadores e fábricas dispensem os seu serviços, vendendo diretamente para o mercado, embora não percam tempo em observar que o chá, ao contrário de muitos outros produtos agrícolas, não é uma commodity de verdade.

Cada lote de chá é único, e os compradores precisam degustá-lo para conhecerem a qualidade daquilo que estão comprando, o que faz com que o chá assemelhe-se mais aos vinhos finos - um produto para o qual o vinhedo, o solo e o clima desempenham papéis vitais - do que ao trigo ou à carne de porco.

“Teremos que mudar, mas sempre haverá uma exigência de alguém para avaliar a qualidade do chá, e catalogar o produto de maneira apropriada”, diz Bikram Barua, diretor da Contemporary Brokers, uma das maiores companhias de comércio de chá do norte da Índia. “Por este motivo, não acredito que o corretor desapareça”.

Mas os corretores de chá da Índia estão certos em se preocupar, explica Benn Steil, membro do Conselho de Relações Exteriores em Nova York. “É muito difícil para as firmas e os indivíduos especializados em negociações nos leilões adaptar-se aos mercados eletrônicos”, afirma ele, observando as dificuldades que muitas firmas especializadas que atuam na Bolsa de Valores de Nova York vêm encontrando desde que o comércio eletrônico foi introduzido no ano passado.

Até mesmo alguns compradores que apóiam o mercado eletrônico dizem estar preocupados com a estrutura deste mercado. Por exemplo, eles temem que catálogos inteiros possam ser colocados simultaneamente à venda. Alguns compradores de chá dizem que preferem leilões parcelados, nos quais os lotes são oferecidos um por vez, porque isso permite que eles ajustem as suas ofertas a fim de obter quantidades suficientes dos tipos de chá corretos para manter um sabor consistente nas suas misturas do produto.

Esta é a segunda maior tentativa da Índia de implementar a venda eletrônica de chá. Em 2005, a Diretoria do Chá determinou que todos os leilões de chá deveriam ser feitos eletronicamente, mas a plataforma de informática que o órgão adquiriu da IBM estava repleto de problemas de software, e em um ano o sistema foi totalmente abandonado. A IBM não retornou os telefonemas que foram feitos durante várias semanas pela reportagem à empresa, no sentido de que a sua versão fosse ouvida.

Uma firma da Internet chamada teauction.com também tentou oferecer leilões on-line no início desta década, mas nunca conseguiu movimentar grandes volumes, e acabou fechando.

As autoridades indianas dizem que desta vez as coisas serão diferentes. O sistema mais recente está sendo projetado pela NSE-IT, um ramo da bolsa de valores da Índia especializado em criar plataformas computadorizadas de comércio. A Diretoria do Chá pretende estrear este sistema em Calcutá, onde tiveram início os primeiros leilões de chá, em dezembro próximo, e introduzir o software nos outros centros de leilão nos três meses posteriores.

A princípio, embora o comércio vá ser conduzido por computadores, compradores e corretores ainda terão que estar presentes no centro de leilão. Mas, caso o desempenho do sistema seja bom, ele será aberto para o comércio remoto pela Internet.

Os comerciantes de chá mais antigos, muitos dos quais não sabem lidar com computadores, já falam com tom de voz melancólico nos centros de leilão, como se já estivessem fora do jogo.

“Éramos capazes de entrar em uma sala de leilão e entender rapidamente como estava o mercado em cinco ou dez minutos - quem estava comprando a partir de que país e por que”, diz Ulhas Saraf, diretor da Saraf Trading Corporation, uma companhia de chá na cidade de Kochi, no sul da Índia.

Mesmo assim, Saraf, que ingressou no setor na década de 1950, afirma que não poderia se colocar como empecilho ao progresso. “A nova geração acha que o computador é melhor”, afirma ele.

“The New York Times”

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Transnacionais de alimentos lucram com aumento da fome

A fome no mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes e de cereais aumentaram 83%. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos. A análise é de Boaventura de Sousa Santos.

Boaventura de Sousa Santos

Há muito conhecido dos que estudam a questão alimentar, o escândalo finalmente estalou na opinião pública: a substituição da agricultura familiar, camponesa, orientada para a auto-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria, orientada para a monocultura de produtos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o.

Tendo prometido erradicar a fome do mundo no espaço de vinte anos, confrontamo-nos hoje com uma situação pior do que a que existia há quarenta anos. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos os bancos alimentares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome que em alguns países já causaram mortes. Entretanto, a ajuda alimentar da ONU está hoje a comprar a 780 dólares a tonelada de alimentos que no passado mês de março comprava a 460 dólares.

A opinião pública está a ser sistematicamente desinformada sobre esta matéria para que se não dê conta do que se está a passar. É que o que se está a passar é explosivo e pode ser resumido do seguinte modo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome.

A fome no mundo não é um fenômeno novo. Ficaram famosas na Europa as revoltas da fome (com o saque dos comerciantes e a imposição da distribuição gratuita do pão) desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo na fome do século XXI diz respeito às suas causas e ao modo como as principais são ocultadas. A opinião pública tem sido informada que o surto da fome está ligado à escassez de produtos agrícolas, e que esta se deve às más colheitas provocadas pelo aquecimento global e às alterações climáticas; ao aumento de consumo de cereais na Índia e na China; ao aumento dos custos dos transportes devido à subida do petróleo; à crescente reserva de terra agrícola para produção dos agro-combustíveis.

Todas estas causas têm contribuído para o problema, mas não são suficientes para explicar que o preço da tonelada do arroz tenha triplicado desde o início de 2007. Estes aumentos especulativos, tal como os do preço do petróleo, resultam de o capital financeiro (bancos, fundos de pensões, fundos hedge [de alto risco e rendimento]) ter começado a investir fortemente nos mercados internacionais de produtos agrícolas depois da crise do investimento no sector imobiliário.

Em articulação com as grandes empresas que controlam o mercado de sementes e a distribuição mundial de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir, e, ao fazê-lo, reforça essa expectativa. Quanto mais altos forem os preços, mais fome haverá no mundo, maiores serão os lucros das empresas e os retornos dos investimentos financeiros.

Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes e de cereais aumentaram 83%. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos.

O escândalo do enriquecimento de alguns à custa da fome e subnutrição de milhões já não pode ser disfarçado com as “generosas” ajudas alimentares. Tais ajudas são uma fraude que encobre outra maior: as políticas econômicas neoliberais que há trinta anos têm vindo a forçar os países do terceiro mundo a deixar de produzir os produtos agrícolas necessários para alimentar as suas próprias populações e a concentrar-se em produtos de exportação, com os quais ganharão divisas que lhes permitirão importar produtos agrícolas… dos países mais desenvolvidos.

Quem tenha dúvidas sobre esta fraude que compare a recente “generosidade” dos EUA na ajuda alimentar com o seu consistente voto na ONU contra o direito à alimentação reconhecido por todos os outros países.

O terrorismo foi o primeiro grande aviso de que se não pode impunemente continuar a destruir ou a pilhar a riqueza de alguns países para benefício exclusivo de um pequeno grupo de países mais poderosos. A fome e a revolta que acarreta parece ser o segundo aviso. Para lhes responder eficazmente será preciso pôr termo à globalização neoliberal, tal como a conhecemos.

O capitalismo global tem de voltar a sujeitar-se a regras que não as que ele próprio estabelece para seu benefício. Deve ser exigida uma moratória imediata nas negociações sobre produtos agrícolas em curso na Organização Mundial do Comércio. Os cidadãos têm de começar a privilegiar os mercados locais, recusar nos supermercados os produtos que vêm de longe, exigir do Estado e dos municípios que criem incentivos à produção agrícola local, exigir da União Europeia e das agências nacionais para a segurança alimentar que entendam que a agricultura e a alimentação industriais não são o remédio contra a insegurança alimentar. Bem pelo contrário.

“Carta Maior”

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O desmanche de Hillary

Ser mulher de ex-presidente poderia ajudá-la. Atrapalhou. O ar falso também contribuiu para o declínio

Flávia Tavares

Hillary Rodham Clinton tentou. Chorou na TV. Bateu pesado no adversário, Barack Obama, ao levantar suspeitas sobre o “radicalismo” do colega e competidor no partido. Assoprou, dizendo que ficaria a seu lado se Obama fosse o escolhido. Tirou milhões de dólares da bolsa para financiar a própria campanha. Exibiu o marido em certos comícios e o escondeu em outros. Argumentou que já era hora de os Estados Unidos terem uma mulher na presidência. E, apesar de ficar atrás na contagem dos delegados necessários para fazê-la candidata do Partido Democrata à Casa Branca, a senadora ainda assim não dá sinais de que pretende parar de tentar. Em seu discurso após a vitória apertada nas primárias de Indiana, na última terça, declarou: “Temos uma estrada longa pela frente, mas vamos continuar a lutar nesse caminho pela América.” Hillary insiste.

Por quê, se seus correligionários já estão clamando para que ela desista? Para Anne Applebaum, colunista do Washington Post e ganhadora do Pulitzer de 2004 pelo livro Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos, trata-se de um caso de ambição desmedida. “Talvez ela queira competir com o marido ou talvez seja feminismo”, alfineta. “Mas a insistência pode prejudicar os democratas. Se quiser manter algum prestígio político, ela deve sair da disputa.”

Mas não se deduza que a potencial derrota de Hillary deve-se ao fato de ser mulher, argumenta Anne. Em entrevista ao Aliás, a colunista americana quase deixa escapar uma gotícula de veneno no canto do lábio ao explicar que o problema não é ser mulher, mas “que” mulher. Crava que Hillary perderá exatamente por ser esposa de ex-presidente e carregar um discurso antigo por trás de um sorriso falso, o que resultaria numa combinação fatal. A desconfiança de que ela não teria chegado aonde chegou não fosse pela aliança com Bill Clinton sempre desagradou as feministas. As idéias associadas à geração pós-1960 da política americana a afasta dos jovens. “Quem acredita ser hora de ter uma mulher na Casa Branca acha que não é esse o tipo de mulher ideal”, decreta Anne, para quem Obama é, de longe, o melhor candidato. “Isso não quer dizer que outras candidatas não possam chegar lá. Talvez ainda precisemos de mais uma geração.”

Há chances de Hillary Clinton se recuperar na corrida pela indicação do Partido Democrata depois das recentes derrotas nas primárias?

Ela está muito atrás de Barack Obama no número de delegados. Não há mais como Hillary vencer a não ser que algo extraordinário aconteça com a campanha dele. Muitos querem sua desistência, porque ela está tirando a atenção do que deveria ser o principal foco no momento: o confronto entre Obama e John McCain.

Por que ela não desiste?

Esta é uma pergunta mais para um psicólogo do que para analistas políticos. As especulações são de que talvez ela se sinta competindo com o marido, ou seja uma questão de feminismo, ou, ainda, que ela queira recuperar a aprovação do público americano. Já em fevereiro não se via como Hillary poderia virar o placar. Embora tenha se saído bem em algumas primárias, não será suficiente para derrotar Obama. Por que continua? É uma questão psicológica dela.

Falaríamos em psicologia se estivéssemos tratando de um homem?

Certamente. Na disputa republicana, os candidatos desistiram de concorrer bem cedo. Conforme a vitória de McCain foi se configurando, Fred Thompson, Mike Huckabee e Mitt Romney largaram o osso. Se qualquer um deles tivesse insistido, a conversa seria a mesma.

Sua insistência, então, seria uma ambição pessoal demasiada?

Não a conheço pessoalmente. Mas me parece irracional que Hillary queira continuar. A campanha está sem dinheiro, figuras importantes do partido estão dizendo que ela deve desistir, e seu discurso se tornou mais agressivo nos últimos meses contra o oponente. Faz parte da ambição de ser presidente entender que, a uma certa altura, é preciso colocar os interesses do partido acima dos próprios. Quanto mais ela insiste, mais chances o Partido Republicano tem de vencer a eleição. Se Hillary realmente acredita que é importante que os democratas vençam, ela precisa parar.

Até que ponto o fato de a senadora ser mulher foi determinante nessa potencial derrota?

Sem dúvida, há machismo nos EUA, mas não foi isso que tirou Hillary da corrida. Não podemos nos esquecer que muitas pessoas votaram nela. Sua campanha foi bem-sucedida em vários aspectos. Transformar a derrota de Hillary numa questão de gênero é simplismo.

Ela não soube usar a seu favor o fato de ser uma mulher na disputa?

Ser mulher é seu aspecto menos interessante. As pessoas deixam de votar nela por ser a esposa de um ex-presidente. Hillary é possivelmente a figura política mais conhecida do público americano. A rejeição a ela, muitas vezes, tem mais de 20 anos e tem a ver com o legado político do Bill e as posições que ela assumiu como senadora.

Então não se trata de escolher entre o homem negro e a mulher branca?

Exato. Ela tentou levar a discussão para esse lado, mas não teve sucesso. Estou certa de que os americanos não escolheram Obama por ele ser homem ou negro. Como não rejeitaram Hillary por ela ser mulher.

Mas ela quis usar a carta do gênero em sua campanha.

Os assessores que a cercam tentaram usar esse argumento como atrativo. Ela própria tentou conquistar apoios alegando ser um bom momento para ter uma presidente na Casa Branca. Mas é uma argumentação de que a maioria do eleitorado feminino não gosta. Mulheres querem escolher uma presidente não pelo fato de ser mulher, mas por ser melhor.

Afinal, por que as feministas americanas, tão articuladas e influentes, negaram apoio a Hillary?

Simplesmente porque as feministas não vêem Hillary como um modelo a ser seguido. Ninguém questiona que ela conquistou muitas coisas em sua vida, mas uma das principais razões para essas conquistas é o fato de ser e se manter casada com Bill Clinton. As pessoas não a vêem como alguém que construiu uma carreira pelo próprio esforço, como Obama. Se era hora de ter a primeira presidente, esperava-se que fosse um tipo diferente de mulher.

A forma como ela reagiu ao caso Monica Lewinsky serviu como um ponto positivo ou negativo na construção de sua imagem?

Acho que até influenciou positivamente. Ela angariou muita solidariedade naquele episódio, no papel de vítima. Como não fez escândalo, o que acabou transparecendo foi que ela é uma mulher equilibrada e forte. Algumas pessoas especulam que Hillary tenha aceitado passar pela humilhação pública numa espécie de acordo: ela apoiaria Bill naquele momento e ele a ajudaria a ser presidente no futuro. Os americanos têm uma imaginação fértil quando se trata dos Clinton, porque é um casal peculiar. Todos tentam explicar o relacionamento dos dois - e não conseguem.

De alguma forma, ela foi uma primeira-dama diferenciada?

A não ser por esse escândalo sexual, não tanto. Ela tentou ser participativa, chegou a assumir o comando da reforma do sistema de saúde e fracassou retumbantemente. Alguns a consideraram intrometida ou abusada demais e muito da antipatia que se tem por ela vem daí.

Na América do Sul, ser mulher de ex-presidente pode significar ter cacife eleitoral, como foi o caso de Cristina Kirchner. Por que nos EUA isso tem um efeito negativo?

Não tem efeitos apenas negativos. Mas na América do Sul e em alguns países asiáticos, como Sri Lanka, Índia e Bangladesh, isso tem sido um fator favorável na campanha de mulheres, porque há uma tradição de famílias permanecerem no poder. Nos EUA, isso soa como nepotismo. Sempre soou, mesmo com os Kennedy, os Bush e com Al Gore, cujo pai era senador. Não seria diferente com os Clinton.

A senadora foi se desumanizando ao longo da campanha?

Dizem que ela perdeu a humanidade há muitos anos (risos). Hillary tem uma persona pública estranha, que freqüentemente soa falsa e artificial. Talvez sempre tenha sido assim. Mas, ultimamente, ela tem agido como se fosse uma péssima atriz. Adotou uma linguagem cheia de insultos contra Obama, enquanto dava sorrisos falsos. Isso definitivamente não a ajudou.

E pode impossibilitar uma chapa conjunta para o Partido Democrata?

Ah, sim. Uma união entre os dois seria complicada porque há muita animosidade entre eles, seus assessores e aliados. Acho que Obama se sairia melhor sozinho, mesmo porque ele é melhor candidato do que ela.

Pesquisas apontam que as mulheres partidárias de Hillary são mais velhas e, em muitos casos, donas-de-casa. Por que ela não tem apelo entre as mais jovens?

É verdade que as mulheres mais velhas apóiam Hillary. Mas é preciso levar em conta que Obama tem mais apelo com a maioria dos jovens, homens e mulheres. Ele próprio é mais jovem. Hillary tem posturas claramente associadas à geração pós-1960 da política americana. Obama, por outro lado, tem pontos de vista distintos, usa uma linguagem original, diferente de todos os outros candidatos. Por isso, americanos que têm 35 anos ou menos se identificam mais com ele. É uma questão geracional, não de gênero.

Que legado político Hillary deixa se permanecer na disputa?

Se desistisse agora, pelo bem do partido, ela se sairia bem e poderia permanecer como uma das figuras mais importantes entre os democratas. Por outro lado, levando a disputa até agosto e, assim, prejudicando Obama… As pessoas vão ficar furiosas. Aliás, já estão. Muitos correligionários já declararam que ela deveria ter desistido em fevereiro. Desistindo agora, talvez consiga manter algum capital político.

Os fundadores da Nação americana foram, todos, homens brancos. O que seria mais renovador para os americanos: uma mulher ou um negro na Casa Branca?

Depende do candidato, de como eles se sairiam em seu mandato. Neste caso, qualquer um dos dois democratas seria pioneiro: ou a primeira mulher ou o primeiro negro a chegar à presidência. Ambos representariam uma virada histórica. Mas Obama lideraria uma mudança mais radical, porque toda sua postura é diferente do que tivemos até aqui. Além disso, o passado dele é peculiar. Obama era pobre, não conhecia o pai, que é africano, sua mãe era hippie, ele cresceu no Havaí, viveu na Indonésia. Jovens acham isso atraente, especialmente porque as gerações americanas mais novas normalmente são metade isso, metade aquilo, têm ascendências misturadas.

Os Estados Unidos têm Condollezza Rice como secretária de Estado e já tiveram Madeleine Albright no mesmo cargo. Além disso, Nancy Pelosi é a atual presidente da Câmara (Speaker of the House). São posições de destaque, mas não são o cume da hierarquia. O que as impede de chegar ao topo?

Acredito que ser secretária de Estado é estar no topo. Tanto Condollezza Rice quanto Madeleine Albright não foram modeladas como políticas. Elas são especialistas em relações internacionais. Nesse campo de atuação, ambas chegaram ao topo possível. Nunca quiseram ser presidente. Nancy Pelosi está no ponto mais alto do Congresso, cargo que muitos homens não conquistam nem chegam perto. E, se um dia ela se candidatar à presidência, talvez não se eleja, mas não por ser mulher. Por ser extremamente liberal e ter pontos de vista que não têm apelo nacional. Bom, nunca se sabe, mas não me parece que ela tenha muita chance agora. Talvez em 10 anos.

Será que precisaremos de mais uma geração para ver mulheres no topo do poder?

Sim. Como eu disse, muitas mulheres já ocupam postos de poder. Mas, em se tratando de presidência, os fatores que levam um candidato a se eleger são muito mais complexos, não são previsíveis. O possível fracasso de Hillary Clinton nessa corrida não quer dizer que outras mulheres não possam chegar lá. Na próxima geração, certamente teremos mais mulheres presidente ao redor do mundo.

“Estado de S. Paulo”

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