O cérebro não é uma folha de papel em branco

Fernando Reinach *

O ensino está baseado na crença de que o ser humano possui um cérebro que pode ser comparado a uma folha de papel em branco. À medida que a pessoa é educada, pais e professores preenchem essa folha com informações e conhecimento. Nada mais errado.

Neste sábado, estava tomando café da manhã com meu filho de dois anos quando ele pegou uma colher. De repente, observei que ele havia descoberto sua imagem refletida na face convexa da colher. Ficou olhando sua superfície até que virou o talher e examinou a face côncava. As sobrancelhas demonstraram seu espanto com sua imagem de ponta-cabeça. Segurando a colher pelo cabo, por várias vezes, mirou-se no espelho côncavo e convexo. Finalmente, concentrou-se na face interna da colher. Parou e, então, fez o que me parecia impossível: rodou o talher de modo que, ainda olhando sua imagem invertida, o cabo da colher, que apontava para o solo, passou a apontar para o teto. Será que se frustrou porque não teve sucesso em corrigir a imagem invertida girando a colher? Não sei, mas perdeu a paciência e jogou o talher no chão. A cena não durou mais do que um minuto.

Comportamentos como esse, normais em qualquer criança e descritos há décadas, são as raízes do pensamento científico. Primeiro somos estimulados por uma observação (a imagem refletida no lado externo da colher). Ao examinar o fenômeno, deparamo-nos com algo estranho e inesperado (a imagem invertida de nossa face no lado interno da colher). Confirmamos a observação (comparamos diversas vezes a imagem formada no lado interno com a imagem formada no lado externo da colher). Fazemos uma hipótese para explicar o ocorrido (a imagem, que está de ponta-cabeça, pode ser corrigida se virarmos o cabo da colher para cima). Fazemos o experimento (viramos o cabo da colher para cima). O experimento demonstra que nossa teoria estava errada (a imagem não é corrigida). Frustração.

É claro que meu filho nunca leu Popper ou teve aulas sobre método científico, mas seu cérebro já possui o aparato mental necessário para esse tipo de raciocínio. Atualmente, acredita-se que já nascemos com essa capacidade. O mesmo ocorre com nossa capacidade para a fala (em que língua, depende do meio ambiente em que crescemos), para efetuar operações matemáticas simples (foi demonstrado em bebês de três meses) e para dezenas de outras habilidades. A cada ano que passa, biólogos e psicólogos demonstram que ao nascermos nosso cérebro é exatamente o oposto de uma folha de papel em branco. O problema é que essa descoberta ainda não chegou ao sistema educacional.

Daqui a quinze anos, meu filho terá uma aula de ótica na qual as propriedades dos espelhos côncavos e convexos serão ‘ensinadas’. Provavelmente, ele será estimulado a fazer experimentos com espelhos, e as noções básicas do método científico serão diligentemente ensinadas. É fácil prever que, como a maioria dos jovens, ele vai achar o assunto pouco interessante. Dificilmente seus professores verão em seus olhos o espanto que observei no último sábado.

Do ponto de vista biológico, a educação pode ser resumida como a tentativa da sociedade de influenciar o funcionamento do cérebro de seus membros. Entender os mecanismos que regem o funcionamento e o desenvolvimento do órgão que estamos manipulando deveria ser uma das principais preocupações dos educadores. Infelizmente, a pedagogia ainda está muito distante de tentar incorporar os progressos recentes da neurobiologia.

*Biólogo (fernando@reinach.com)

“Estado de S. Paulo”

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