Arquivo de Julho de 2008

O que temos à frente: alguns anos difíceis ou uma década ruim?

Peter S. Goodman

Você ficou sabendo que Fannie e Freddie, a despeito de seus meigos nomes, podem arruinar o sistema financeiro se não receberem uma grande injeção de dinheiro dos contribuintes. Você percebe que os empregos estão desaparecendo, o preço das casas despencando e os salários encolhendo efetivamente com a grande alta nos preços de alimentos e energia. Você notou a perturbadora conversa de uma crise pairando sobre Wall Street.

Alguma coisa certamente deu errado na economia. Mas até que ponto, realmente, as coisas vão mal? E quanto elas poderão piorar antes que voltem os dias melhores?

Mesmo para muitos economistas que até há pouco tempo pensavam que o desânimo era exagerado, a situação parece soturna. A economia atravessa um período bastante difícil. O pior provavelmente ainda está para chegar.

É provável que as perdas de empregos se acelerem este ano e em 2009, e o mercado de trabalho poderá ficar fraco durante um período ainda maior. O preço das moradias provavelmente continuará caindo, depreciando a riqueza das famílias e reduzindo o poder de compra.

“A questão em aberto é saber se teremos uns dois ou três anos ruins ou uma década má,” disse Kenneth S. Rogoff, ex-principal economista no Fundo Monetário Internacional, agora professor de Harvard.

Esta é uma recessão?
Oficialmente, não. A economia só estará em recessão depois que um painel na instituição privada denominada National Bureau of Economic Research (Departamento Nacional de Pesquisas Econômicas) disser que está. Não oficialmente, muitos economistas acreditam que a recessão começou há seis ou sete meses, mesmo que a economia tenha continuado a se expandir -embora em um ritmo moderado.

Muitos acreditam que se a economia se expandir de qualquer forma, então, não existe uma recessão, mas isso não é verdade. O departamento define a recessão como “um significativo declínio na atividade econômica que se espalhe por toda a economia e que dure mais de alguns meses”. Se um número razoável de pessoas perde seus empregos, fábricas deixam de produzir coisas, as lojas param de vender e menos dinheiro vai para o bolso das pessoas, trata-se provavelmente de uma recessão.

Seja qual for o nome pelo qual é chamada, trata-se de uma época dolorosa para dezenas de milhões de pessoas. Na verdade, este pode acabar sendo o mais sofrido declínio econômico desde as duas recessões ocorridas no início da década de 1980: quase certamente pior que a recessão que acabou com a bolha da tecnologia no início dessa década; talvez pior mesmo que o declínio do início da década de 1990 que acompanhou a última queda nos preços de imóveis.

Mas, apesar do que proclamam alguns alarmistas, esta não é a Grande Depressão, quando o desemprego saltou para 25% e milhões de pessoas que antes eram trabalhadores, viram-se de uma hora para outra em favelas. Não, de forma alguma, mesmo se seus vizinhos façam elaboradas observações sobre o uso das lições herdadas de avós, tais sobre como transformar uma lata de feijões em uma refeição para a família.

Até que ponto as coisas vão mal no setor imobiliário?
Mal em muitos mercados, horrorosas em alguns e ainda bem em vários.

O declínio da economia tem suas raízes no frenesi que transformou isoladas fazendas em Nevada em subúrbios com casas de fazenda e pantanais da Flórida em condomínios. Os especuladores levaram os preços de moradias para um nível acima de qualquer conexão histórica com as rendas. A gravidade fez o restante. Depois de quase duplicar em valor de 2000 a 2005, os preços das moradias caíram cerca de 17% -algo mais próximo dos 25% ajustados à inflação- segundo o índice Case-Shiller, um dos mais seguidos.

Mesmo assim, a maior parte dos economistas acredita que os preços de moradias devem cair mais 10% a 15% para voltar à realidade. Uma medida útil é a relação entre os custos de compra e de aluguel de uma casa. De 1985 a 2002, a casa média americana era vendida por uma média de 14 vezes o aluguel anual cobrado por uma casa igual, segundo a Moody’s Economy.com. No início de 2006, o preço das moradias inchou para cerca de 20 -ainda bem acima da norma histórica.

Com a dificuldade em se conseguir hipotecas agora e a especulação deixando de ser atraente, a aritmética substituiu o impulso como a força de orientação para os preços de moradias. A equação fundamental aponta para baixo: mesmo com a construção desacelerando, ainda existem mais casas no mercado do que pessoas para comprá-las, e ainda mais a caminho, uma vez que um número maior de proprietários cai na execução de hipotecas.

Pelas contas da Economy.com, existem casas suficientes para atender à demanda no mercado para os próximos dois anos e meio, sem que se construa uma única residência nova.

O tempo que se leva para vender uma casa nova completamente pronta ampliou-se de uma média de quatro meses em 2005 para cerca de nove meses, segundo análise de Dean Baker, co-diretor do Center for Economic and Policy Research (Centro para Pesquisa Econômica e Política).

E muitas das vendas estão deixando de ser feitas -mais de 30% em algumas partes da Califórnia e da Flórida- pois os compradores não conseguem financiamento, o que amplia o excesso de oferta moradias, disse Baker.

Em Los Angeles, São Francisco, Phoenix e Las Vegas, os preços das casas declinaram, nos últimos meses, em taxas anuais de mais de 33%.

Quando os bancos vão se recuperar?
Até agora, eles deram baixa contábil em mais de US$ 300 bilhões em empréstimos. Muitos especialistas prevêem que a contagem chegará a US$1 trilhão ou mais -uma soma desconcertante que poderá deixar muitas instituições incapacitadas durante anos.

No tempo em que os preços das moradias se multiplicavam, os bancos despejaram oceanos de dinheiro tomado por empréstimo em empréstimos para o setor imobiliário. Ao contrário das companhias ponto.com no centro da última bolha de investimento especulativo, a nova corrida do ouro estava centrada em algo que parecia ser incontestavelmente sólido -a casa americana.

Mas tudo funcionou apenas enquanto os preços do setor habitacional subiam. A queda nos preços despencou como uma bomba. Os proprietários atrasaram o pagamento de seus empréstimos e não se qualificavam para obter novos: não havia valor sobrando em sua casa para valer como garantia para novo empréstimo. Enquanto milhões de pessoas entravam em inadimplência, os bancos viram-se à frente de enormes prejuízos em um sangrento período de prestação de contas.

Em março, o Federal Reserve ajudou a orquestrar o acordo para que o JPMorgan Chase comprasse o problemático banco de investimentos Bear Stearns. Muitos imaginaram que o pior havia passado. Mas, este mês, o revés tornado público de Fannie Mae e Freddie Mac -duas instituições imensas, patrocinadas pelo governo que em conjunto possuem ou garante cerca de metade dos US$ 12 trilhões em hipotecas a pagar -sinalizaram que surpresas piores poderiam vir à frente.

Para acalmar os mercados, o governo apressadamente reuniu um pacote de ajuda no último fim-de-semana para Fannie e Freddie que, se for usado, pode custar cerca de US$ 300 bilhões. A necessidade urgente de socorro -junto de outra rodada de baixas contábeis de bilhões de dólares em Wall Street- deixou perturbados economistas e investidores.

“Eu estava relativamente otimista, mas certamente tornei-me mais pessimista,” disse Alan S. Blinder, economista de Princeton, e ex-vice-presidente do Conselho de governadores do Federal Reserve. “O sistema financeiro parece estar substancialmente pior agora que há um mês. Se fracassar a ajuda a Freddie e Fannie, pode ficar muito, mas muito pior. Se tivermos mais falências de bancos, existe a possibilidade de ver mais daquelas imagens de pessoas em fila para sacar seu dinheiro. Isso pode realmente apavorar os consumidores.”

De certa forma, acrescentou Blinder, isso se parece com a Grande Depressão. “Não vimos esse tipo de sofrimento nos mercados financeiros desde a década de 1930,” afirmou.

Há mais de dois anos, Mouriel Roubini, economista na Faculdade de Administração Stern na New York University, vem dizendo que a bolha no setor habitacional geraria uma crise financeira e uma recessão. Sua opinião foi minimizada como se ele fosse o “galinho Chicken Little” em busca de atenção. Agora, Roubini diz que o pior ainda não chegou, porque o acerto de contas até agora ficou confinado às hipotecas não pagas, deixando de fora outras áreas -cartões de crédito, empréstimos para compra de carros e dívidas corporativas e municipais.

Roubini diz que o custo dos prejuízos do sistema financeiro pode chegar a US$ 2 trilhões. “Mesmo se estiver mais próximo de US$ 1 trilhão, acrescenta, ainda não percorremos nem um terço do caminho”.

Onde os bancos vão captar as gigantescas somas necessárias para repor o capital que eles aparentemente perderam? E o que acontecerá se não conseguirem?

Não se sabe quais são as respostas a essas perguntas, um vácuo perturbador que mantém grande parte da economia em um compasso de espera.

“Estamos em um ponto perigoso,” afirmou Andrew Tilton, economista do Goldman Sachs. “A grande ameaça está em maiores perdas de capital.”

Os bancos são uma parte crucial do sistema arterial da economia, desviando capital para onde ele é necessário a fim de abastecer os gastos e o poder de crescimento. No momento, eles estão se apegando fortemente aos seus dólares, privando empresas de empréstimos que estas poderiam usar para se expandir, e deixando de fornecer às famílias o dinheiro que poderia ser empregado na compra de casas e para enchê-las de móveis e utilidades domésticas.

De junho do ano passado até este junho, os empréstimos da parte dos bancos comerciais declinaram em mais de 9%, segundo uma análise de dados do Federal Reserve, feita pelo Goldman Sachs.

“Temos outra onda de ansiedade, outro aperto de crédito”, disse Robert Barbera, principal economista na ITG, empresa de pesquisa e negociações. “A idéia de que teremos uma recuperação no segundo semestre do ano se desmanchou no ar”.

O meu emprego está seguro?
As desacelerações na economia representam perda de empregos. O desemprego já subiu, e quase certamente aumentará mais.

Os primeiros sinais de ansiedade vieram à tona com o mercado imobiliário. As construtoras, imobiliárias, corretoras de hipotecas e bancos começaram a demitir. Em seguida, os empregos começaram a ser cortados em fábricas que fazem produtos relacionados ao mercado de habitação, de carpetes e móveis a iluminação e assoalhos.

Mas quando a quebra no setor imobiliário espalhou-se para a economia mais ampla, reduzindo o valor da riqueza familiar, os impactos foram repassados aos varejistas, salões de beleza, escritórios de advocacia e transportadoras, provocando cortes em toda a economia, exceto nos setores de saúde, agricultura e energia. Nos seis últimos meses, a economia perdeu 485.000 empregos no setor privado, segundo o Departamento do Trabalho. Muitas pessoas tiveram redução em sua jornada de trabalho.

A taxa de desemprego ainda permanece baixa, de acordo com padrões históricos, em 5,5%. E até agora, a perda de empregos -cerca de 65.000 por mês este ano- não se aproxima da magnitude de outras, vistas em declínios econômicos anteriores, particularmente na recessão dupla no início da década de 1980, quando a economia cortou mais de 140.000 empregos por mês e a taxa de desemprego superou os 10%.

Mas o Goldman Sachs calcula que a taxa de desemprego chegará a 6,5% até o final de 2009, o que se traduz em mais várias centenas de milhares de americanos sem trabalho.

Tais perdas chegam justo no momento do que foi considerado, pela maior parte dos americanos, em um período notavelmente fraco de expansão. De 1992 a 2000 -enquanto o boom da tecnologia catalisava os gastos e contratações- a economia acrescentou mais de 22 milhões de empregos no setor privado. Nos últimos oito anos, apenas cinco milhões de novos empregos foram acrescentados.

A perda do emprego está atingindo os americanos junto de uma variedade de problemas -o preço da gasolina acima dos US$ 4 o galão, inflação geral de cerca de 5% e salário sem queda.

“De qualquer ponto de vista, as pessoas estão em situação pior do que estavam”, disse Roubini, economista da New York University.

Os consumidores estão exauridos?
Essa é uma grande preocupação.

O destino da economia agora repousa sobre os ombros dos consumidores norte-americanos, cujos gastos representam 70% de toda a atividade econômica.

Quando as pessoas vão aos shopping centers e compram televisores e comem fora, seu dinheiro circula por toda a economia. Quando elas apertam seus cintos, a austeridade se dissemina em ondas e sufoca o crescimento.

Durante os anos do boom no setor habitacional, os norte-americanos chegaram a tratar suas casas como se fossem caixas automáticos que jamais exigissem depósitos. Eles captaram dinheiro por meio de vendas, segundas hipotecas e linhas de crédito que davam o imóvel como garantia -uma artéria de financiamento que chegou a US$ 840 bilhões por ano de 2004 a 2006, segundo um trabalho dos economistas James Kennedy e Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve. Isso permitiu aos americanos viverem bem acima do que traziam para casa com o trabalho.

Mas no três primeiros meses deste ano, esse fluxo restringiu-se para uma taxa anual de cerca de US$ 200 bilhões.

A média de dívida por família inchou para 120% da renda anual, acima dos 60% em 1984, segundo o Federal Reserve.

E agora os bancos estão fechando as torneiras do crédito.

“O crédito ficará apertado por um tempo que poderá ser medido em anos”, disse Tilton, o economista do Goldman Sachs.

Esse é o panorama que deixa tantos economistas convencidos de que os gastos com consumo devem diminuir, impondo um aperto de vários anos sobre a economia.

“A dúvida é saber se as coisas vão ficar tão mal quanto na década de 1970?”, indaga Rogoff, lembrando de uma era de grandes altas nos preços da gasolina e de uma inflação de dois dígitos.

No longo prazo, os norte-americanos poderão não ter escolha a não ser gastar menos, economizar e reduzir suas dívidas -em resumo, viver dentro de suas possibilidades.

“Estamos passando por um grande ajustamento e isso dói,” diz Kristin Forbes, ex-integrante do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George W. Bush e atualmente bolsista na Faculdade de Administração Sloam do MIT. “Mas é um ajuste que precisaremos fazer.”

De quem é a culpa?
Existem muitos pontos a se considerar.

Na estimativa de muitos economistas, começa com o Federal Reserve. O banco central reduziu as taxas de juros depois do calamitoso fim da bolha de tecnologia em 2000, rebaixou-as ainda mais depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, e depois as manteve baixas, mesmo que os especuladores começassem a negociar casas como se fossem ações das empresas pontocom.

Enquanto isso, o Fed se acomodou e ficou olhando enquanto os magos financeiros de Wall Street bolavam investimentos diabolicamente complicados ligados a hipotecas, gerando enormes quantias de capital especulativo que transformaram o setor imobiliário em uma febre.

“No final do filme, fica claro que o Fed terá que cuidar dos excessos”, disse Barbera.

Os preços se multiplicaram uma vez que muitos compradores de imóveis ficaram com propriedades muito maiores do que teriam condições de pagar, seduzidos pelas baixas taxas de juros iniciais que acabariam sendo reajustadas para cima, levando muitos à execução hipotecária.

Os corretores de crédito hipotecário auferiram comissões uma vez que emprestaram quase que indiscriminadamente, oferecendo termos exoticamente tolerantes -sem adiantamento em dinheiro, sem exigência de renda ou de emprego. Os bancos de Wall Street ganharam bilhões vendendo títulos incertos, associados a hipotecas em todo o mundo, ajudados pelas agências de classificação de risco que os rotulavam como sólidos.

Com tudo isso, uma grande quantidade de norte-americanos comuns tomou emprestado muito mais dinheiro do que teriam condições de reembolsar, acumulando enormes contas em cartões de crédito e levantando empréstimos sobre o valor de suas casas. Agora está chegando o dia da prestação de contas.

“The New York Times”

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Muhammad Yunus: “O sistema é cego para toda consideração que não seja o lucro”

Neste momento em que o mundo está às voltas com a crise do sistema bancário e com motins da fome, o Prêmio Nobel da Paz em 2006 aponta os limites e as falhas do capitalismo, e preconiza a implantação de um modelo de empresa social que não excluiria mais da vida econômica a maior parte da humanidade

Frédéric Joignot

Ela chamava-se Sufiya Begum. No início dos anos 1980, ela vivia numa casa de terra, no campo, em Bangladesh. Ela fabricava bonitos banquinhos de bambu. O seu marido, um trabalhador diarista, ganhava o equivalente a alguns centavos de euros por dia. Sufiya Begum, que não tinha nenhum dinheiro guardado, vendia todos os seus banquinhos para um mesmo comerciante, que os adquiria em troca de US$ 0,25 a peça e de um pouco de bambu - este era o preço que eles haviam combinado. Um dia, Muhammad Yunus aparece para falar com ela, espantado com o fato de ela ganhar tão pouco. Nesta época, após concluir estudos de economia nos Estados Unidos, o professor Yunus está dominado pela dúvida. Em 1974-1975, Bangladesh foi assolado por uma terrível onde de fome, e, segundo ele mesmo relata, ele achava “cada vez mais difícil ensinar elegantes teorias econômicas sobre o funcionamento supostamente perfeito dos mercados livres, enquanto a morte arrasava [seu] país”. Ele decide agir, movido pela determinação de debelar a pobreza na região de Jobra. Ele não entende por que ela é endêmica. Ao conversar com Sufiya Begum, ele se dá conta do que está acontecendo. “Esta mulher estava sendo estrangulada pelo seu credor. Ele a estava condenando a uma espécie de escravidão. Ela lhe dava toda a sua coleção de banquinhos por US$ 0,25 a peça, apenas por que ela não podia comprar o bambu. Ela carecia de um crédito. Então, eu resolvi investigar por minha conta. Descobri que, no total, 42 aldeões dependiam dos credores. Todos eles poderiam viver da sua atividade, se eles pudessem contar com um pequeno investimento. Tudo o que esses 42 trabalhadores precisavam era de US$ 27, no total. Eu tinha esta quantia no meu bolso…” As idéias que motivaram a fundação do Banco Grameen e do micro crédito nasceram desses encontros.

Atualmente, depois de 25 anos de existência, o Grameen Bank e as instituições de microcrédito que existem pelo mundo afora já ajudaram 150 milhões de pessoas a se desvencilharem da pobreza. O professor Yunus obteve, com o Grameen Bank, o prêmio Nobel da Paz em 2006. Já faz vários anos, ele passou a desenvolver paralelamente uma nova iniciativa: a “empresa social”. Trata-se de deslanchar atividades econômicas rentáveis, mas cujo objetivo é de proporcionar um benefício social para os excluídos do mundo econômico. Foi assim que ele fundou, em Bangladesh, junto com Franck Riboud, o CEO da Danone, a sociedade Grameen Danone Foods que vende para os habitantes de Bogra iogurtes frescos a preço reduzido, que eles gostariam de comercializar em breve dentro de copinhos comestíveis - e vitaminados. A iniciativa permite lutar contra a desnutrição e as carências alimentares, além de oferecer empregos locais. Se a experiência funcionar, ela será estendida ao país inteiro. “A implantação de pequenas empresas sociais desta natureza poderia generalizar-se”, explica o professor Yunus. “Ela abre um novo tipo de mercado, atento para a pobreza e para as necessidades reais, que talvez venha a modificar os nossos fundamentos econômicos”.

A reportagem do “Le Monde” entrevistou Muhammad Yunus em Paris, no momento em que o sistema mundial do crédito está enfrentando uma crise histórica e que vários bancos desmoronaram. O medo da recessão está tomando conta dos Estados Unidos, enquanto dezenas de milhares de americanos inadimplentes se vêem empurrados para o olho da rua pelos organismos credores. O que pensa disso o fundador do Grameen Bank, um estabelecimento no qual as taxas de reembolso dos empréstimos são superiores a 95%?

Le Monde - Como o senhor explica esta gigantesca crise do crédito popular que está abalando o sistema financeiro como um todo? O senhor chegou a prever a ocorrência de tal fenômeno?
Muhammad Yunus - No caso dos subprimes (crédito hipotecário), a crise é inerente ao funcionamento do mundo financeiro e bancário. Os próprios princípios de crédito, as garantias exigidas, os prêmios de risco que são faturados em detrimento das pessoas menos solvíveis revelaram o quanto este sistema não sabe emprestar para os pobres. A culpa disso, portanto, é dos bancos em primeiro lugar. Eles emprestaram muito dinheiro, multiplicando as falsas promessas. Eles se mostraram muito agressivos com a sua propaganda para vender essas hipotecas. Eles apresentavam às pessoas ofertas fantásticas, garantiam que os mais modestos poderiam reembolsar no longo prazo. De fato, os créditos acabaram ficando mais e mais pesados. Esta é a lógica do sistema financeiro. Os pobres devem ser colocados sob pressão para reembolsarem. No Grameen Bank, nós fazemos o inverso. Nós não pedimos nenhuma garantia para emprestar dinheiro. Nós não estrangulamos as pessoas praticando taxas exorbitantes. Nós invertemos o próprio princípio do crédito. No nosso estabelecimento, quanto menos dinheiro você tem, mais vocês é interessante para nós. Se você não tiver um tostão sequer, então você se torna prioritário. E isso funciona! A nossa taxa de reembolso é superior a 95%, pode comparar!

Le Monde - Os subprimes, as dívidas transformadas em produtos financeiros, a cegueira diante da situação das famílias mais pobres: como acabamos chegando a uma situação tão alarmante?
Muhammad Yunus - O sistema financeiro está sempre em busca do melhor rendimento; ele vai sendo levado pela sua própria lógica, que o conduz a criar todos esses produtos, os subprimes, os títulos negociáveis, os hedge funds (fundos de securitização)… A única voz que se faz ouvir no mercado é a da maximização dos lucros. A venda dos créditos consentidos em títulos financeiros e dívidas hipotecárias, a criação e uso como moeda de troca de ativos bancários sem solvabilidade aceleraram a crise. Grandes bancos, grandes sociedades financeiras os utilizaram para cobrir seus déficits na hora dos balanços. O sistema é cego a toda consideração que não seja a do lucro. Atualmente, a mídia publica as suas principais manchetes a respeito das quantias colossais perdidas pelos bancos, todo esse dinheiro dilapidado, esses patrões demitidos das suas funções… Mas ouve-se falar muito pouco das famílias que foram enganadas pelas ofertas inadaptadas dos bancos, que acabaram ficando no olho da rua, perseguidas pelos credores; essas centenas de milhares de pessoas que acreditaram neles e que não são nem sequer mencionadas.

Le Monde - O senhor questiona o próprio princípio da concessão do crédito sob garantia, que é um fundamento da teoria econômica clássica e do funcionamento financeiro…
Muhammad Yunus - É verdade, eu critico o dogma segundo o qual empréstimos não podem ser concedidos sem garantia, sobretudo aos mais pobres. Todos os banqueiros defendem este princípio sem nem sequer analisá-lo. Quando nós começamos a nossa atividade, em 1983, eles nos diziam: “Vocês estão desperdiçando o seu dinheiro. Vocês nunca serão reembolsados. O seu sistema vai desmoronar”. Contudo, atualmente, é o sistema deles que está desmoronando. Nos últimos 25 anos, o Grameen Bank e as instituições do microcrédito distribuíram US$ 6 bilhões (equivalente hoje a R$ 10 bilhões) para 150 milhões de famílias, sem exigirem garantia alguma. O nosso banco realiza lucros, como todo banco que é bem administrado. Desde 1995, ele não precisa recorrer a doações. Ele funciona em colaboração com 10 mil instituições de crédito em todo o mundo. Segundo uma pesquisa recente, 64% daqueles que tomaram dinheiro emprestado do nosso banco durante cinco anos se desvencilharam da pobreza crônica. A nossa iniciativa constitui uma oportunidade para ajustar o conjunto do sistema financeiro. Ela deveria permitir pensar num crédito de um novo tipo que não deixe ninguém de lado. Os princípios atuais do sistema bancário impedem que a metade da população mundial possa participar da vida econômica. Não apenas nos países em desenvolvimento, como também nos Estados Unidos e na Europa. Os bancos tradicionais exigem das pessoas que elas sejam solvíveis antes mesmo de lhes emprestarem dinheiro. Mas então, para que servem essas instituições, se elas não ajudam as pessoas a saírem de uma situação difícil, a criarem valor agregado, a proporcionarem trabalho? Os bancos vêm pedindo todos os dias aos seus advogados para imprensarem seus clientes. Por nossa vez, nós não temos juristas em nosso sistema. Nós não precisamos deles. Com isso, é possível perceber o quanto a teoria econômica dominante apresenta diversos pontos cegos e armadilhas.

Le Monde - Quais deles lhe parecem os mais perigosos?
Muhammad Yunus - Os bancos e os financistas se recusam a entender que o fato de emprestar para os pobres permite criar empregos e gerar renda. Eles não reconhecem uma família ou um casal como uma unidade de produção dinâmica. Eles não enxergam que uma atividade independente - um pequeno estabelecimento de rua, serviço de conserto, barbeiro, oficina de reforma de objetos, pequeno artesão itinerante, ou seja, tudo aquilo que chamam de “setor informal” - constitui um verdadeiro trabalho, e até mesmo uma fonte de empregos que deve ser estimulada por meio do crédito. A literatura econômica cria um impasse em relação a este dado fundamental da atividade humana, o trabalho independente, que é o meio principal de ganhar a sua vida. Os responsáveis econômicos consideram o emprego unicamente como assalariado, e eles esperam das empresas que elas contratem. Se elas não o fizerem, o desemprego se instala. Eis a lógica atual do capitalismo. Por que as pessoas deveriam esperar serem empregadas? Por que não ajudá-las a criarem a sua própria atividade? Os pobres dos países em desenvolvimento não esperam que grandes empresas os remunerem. Eles não esperam tudo da política de emprego, nem das alocações-desemprego. Eles precisam alimentar a sua família, eles fazem uma multidão de trabalhos úteis, ganham a vida no pequeno comércio, tocando serviços de consertos, de alfaiate… Vejam a intensa atividade que predomina nas ruas das cidades asiáticas mais pobres, e comparem com o que ocorre na Europa! É preciso sustentar essa energia por meio do crédito popular, lhe fornecer ferramentas econômicas…

Le Monde - O senhor afirma que na Europa e nos Estados Unidos, nós estamos presos na armadilha de uma política de emprego e de crédito elitista e tacanha. Poderia explicar isso melhor?
Muhammad Yunus - Recentemente, um amigo americano me contou que ele havia atravessado as regiões pobres dos Estados Unidos, as cidades que mais foram atingidas pelas demissões e o desemprego. Ele descreveu bairros desertos, ruas mortas, casas desocupadas, escritórios e usinas fechadas, por todo lugar. Ele se perguntava como os habitantes conseguiam sobreviver. Eis o resultado a que conduz a lógica do trabalho assalariado, a política do emprego único. Quando este amigo visitou o Bangladesh, infinitamente mais pobre do que os Estados Unidos, ele descobriu o quanto qualquer canto do país, na cidade, no campo, fervilha de atividades “informais”. Em qualquer parcela de terreno desocupada, há cabanas onde vendem de tudo, legumes, ferramentas, equipamentos eletrônicos… Em praticamente todas as casas, nos quintais, nos jardins, há pessoas que selecionam sua colheita, fabricam, soldam, consertam. No Ocidente rico, vocês oferecem um tipo de emprego apenas, o emprego assalariado, a serviço de um patrão, de uma empresa. Entenda bem o que estou querendo dizer: eu apóio toda forma de contratação e de indústria, toda política de emprego. Mas o fato de promover apenas o regime do assalariado me parece terrivelmente limitado. Considerar o homem apenas como um ser em busca de um pagamento me parece uma concepção demasiadamente estreita do humano. É uma forma de escravidão.

Le Monde - De escravidão?
Muhammad Yunus - Atualmente, nos países desenvolvidos, cada criança trabalha duro na escola para obter um bom trabalho. Ou seja, um bom salário. Uma vez adulto, ele ou ela trabalhará para alguém, se tornará dependente dele. Ora, o ser humano não nasceu para servir um outro ser humano. Um trabalhador independente, que mantém uma pequena venda, por exemplo, trabalha apenas quando ele precisa. Se, em determinados dias, ele não quiser trabalhar, ele pode. Ele faturou seu dia, e resolve tirar proveito um pouco da vida. Ele não precisa avisar ninguém caso ele chegar com um atraso de uma hora. Ele não está preocupado em perder uma parte do seu salário. Quando nós éramos caçadores ou colhedores, nós não éramos escravos, nós dirigíamos as nossas existências. Milhões de anos mais tarde, nós perdemos esta liberdade. Nós levamos vidas rígidas, escoradas nos mesmos ritmos de trabalho todos os dias. Nós corremos para ir trabalhar, nós corremos para voltar para casa. Esta vida robótica não me parece ser um progresso. Com o regime do assalariado, nós acabamos passando da liberdade de empreender e de um modo de vida mais versátil para uma maior rigidez. Eu tenho um salário, um patrão, devo fazer o meu trabalho que isso me agrade ou não, pois eu sou uma máquina de fazer dinheiro. É nisso que identifico o perigo global das estruturas econômicas atuais, da teoria dominante. O homem é considerado exclusivamente como um agente econômico, um empregado, um assalariado, uma máquina. Esta é uma visão unidimensional do humano. O regime do assalariado deveria permanecer uma escolha, uma opção entre outras possibilidades.

Le Monde - O “setor informal” não goza de uma boa reputação na literatura econômica dos países ricos?
Muhammad Yunus - É um termo degradante. Este setor nunca é incentivado; ao contrário, ele se vê impor toda uma série de entraves, como regulamentos, patentes, impostos. Eu sugiro dar-lhe um nome mais adaptado, mais valorizador, justamente por ser neste setor que os homens se mostram mais criativos. Na falta de uma expressão mais apropriada, eu proponho o “setor das pessoas”, isto é, o que elas fazem quando inventam por conta própria o seu emprego, criam a sua atividade e a exercem nas ruas, nos bairros, no campo. Neste setor de atividade, a população inventa o seu emprego, o exerce em todo lugar, onde for possível, na rua, nos bairros, no campo. Em relação a ele, o governo não precisa fazer nada, apenas cuidar para não sufocá-lo. Eu fabrico jóias, torro nozes e produzo bombons, eu preparo refeições para pessoas do bairro, eu reformo roupas usadas, eu canto nos terraços dos cafés… É o auto-emprego, o “self-employement”. Eu não preciso preencher formulários de candidatura. Eu não espero ser contratado. Eu atendo diretamente à demanda. Ao inventar a minha própria atividade, estou cuidando de mim mesmo e da minha família. Dezenas de milhões de pessoas vivem desta forma nos países em vias de desenvolvimento. Já, nos países ricos, a teoria dominante não considera essas atividades como “econômicas”. Os atores sociais, os bancos, se recusam a financiá-las e a ajudá-las. Eles acreditam somente na empresa formal, no regime do salariado. Como se o fato de receber um salário lhes desse uma certidão de desenvolvimento!

Le Monde - Quais outros “pontos mortos” e armadilhas do pensamento econômico seriam reveladores da crise atual?
Muhammad Yunus - Os governos que seguram as alavancas e os bancos consideram a pessoa humana como uma entidade abstrata, um agente econômico desprovido de gênero sexual. Ora, a nossa experiência no Grameen Bank revela que as mulheres se mostram muito mais ativas e solváveis do que os homens, tão logo alguém lhes dá crédito. Em Bangladesh, quando eu tentava, em vão, convencer os bancos a outorgarem empréstimos para os aldeões, eu sempre ouvia a seguinte resposta: “É impossível fazer isso”. Quando eu sugeri a idéia de emprestar dinheiro para mulheres pobres, eles me consideraram como um iluminado. Quando nós tentávamos falar de dinheiro com as mulheres, todas elas respondiam: “Conversem com o meu marido. Eu nunca toco em dinheiro. Não entendo nada disso”. Eu me dei conta de que nenhuma mulher, nem mesmo 1% dentre elas, freqüentava os bancos. Elas eram subestimadas de tal forma que eu me dizia: elas estão com medo, vai demorar bastante tempo até convencê-las do contrário. Quando nós lançamos o Grameen Bank, queríamos conseguir conceder empréstimos para ao menos 50% de mulheres. Nós sabíamos que seria necessário vencer as resistências das próprias mulheres.

Le Monde - O senhor precisou de muito tempo para alcançar esta meta?
Muhammad Yunus - Nós demoramos seis anos até alcançar a paridade entre homens e mulheres. Nós percebemos ao longo deste processo que o dinheiro confiado às mulheres proporcionava muito mais benefícios. Elas criavam trabalho, empregos, riquezas. Elas reembolsavam o seu crédito. No começo, nós só trabalhávamos em Bangladesh. As mulheres bengalis cuidam muito mais das crianças do que os homens. Elas pensam no seu futuro, querem fazer as coisas acontecerem de modo a viverem melhor num futuro próximo. Os homens, por sua vez, querem tirar proveito do instante, eles gastam com maior facilidade. No início, nós pensávamos que esta situação de fato só dizia respeito ao Bangladesh. Mas não, é possível encontrar a mesma vontade feminina em todos os continentes. Eu creio que em função da sua longa história a serviço das crianças e dos homens, a mulher possui uma qualidade única, que é o sacrifício de si. O homem não possui este mesmo senso do sacrifício. Você raramente ouve dizer que uma mulher foi “beber seu pagamento”. As mulheres pensam a longo prazo, elas economizam, elas são solvíveis. Isso explica por que o quociente do Grameen Bank se inverteu. Atualmente, as mulheres são os nossos principais clientes, numa proporção de 90%… Os bancos tradicionais nunca pensaram em emprestar dinheiro para as mulheres, porque eles nunca compreenderam a força econômica virtuosa e dinâmica que elas representam.

Le Monde - O senhor diz torcer pelo advento de um “capitalismo social”, um novo capitalismo. O que isso vem a ser?
Muhammad Yunus - Com freqüência, as pessoas me perguntam: “Você fundou o Grameen Bank. Não estaria obtendo nenhum lucro com as suas atividades?” Eu lhes respondo: “Eu não sou proprietário do Grameen, eu não possuo parte alguma da sociedade”. Eu sempre pensei que o Grameen Bank deveria ter como proprietários aqueles que tomam dinheiro emprestado, os pobres. São eles os proprietários, e, aliás, eles fazem parte do conselho da diretoria. Evidentemente, eu sou chefe de empresa e, como tal, recebo um salário, mas este não está vinculado ao fato de que eu venha a possuir partes ou não. O fato de trabalhar numa empresa de vocação social não lhe proporciona dividendo algum. Outros interlocutores me dizem, em Bangladesh: “Você deve ser rico, você fundou a maior companhia de telefonia móvel do país”. Eu lhes respondo: “É verdade que se trata da maior companhia de telefonia móvel do país, mas isso não me torna necessariamente mais rico. Eu fundei a companhia sem sequer pensar por um único instante em adquirir partes do seu capital”. Então, eles perguntam: “Por que ter construído todas essas estruturas se você não ganha nada com isso?” Eu ganho aquilo que me proporciona o meu trabalho.

Le Monde - Contudo, o senhor contribuiu para fundar um grande número de sociedades…
Muhammad Yunus - Eu participei da criação de 26 sociedades por intermédio da Grameen Bank, mas eu não sou acionista de nenhuma delas. Eu sei muito bem o que alguns pensam: “É um idealista”. Mas não é nada disso, eu não sou um idealista, sou realista. Todo mundo espera ganhar dinheiro fazendo negócios. Mas o homem pode realizar tantas outras coisas fazendo negócios. Por que alguém não poderia definir para si mesmo objetivos sociais, ecológicos, humanistas? Foi o que nós fizemos. O problema central do capitalismo “unidimensional” é que ele dá espaços apenas para uma única maneira de atuar: faturar lucros imediatos. Por que não integrar a dimensão social na teoria econômica? Por que não construir companhias que tenham como objetivos pagar decentemente seus assalariados e melhorar a situação social em vez de procurarem fazer com que dirigentes e acionistas obtenham apenas lucros?

Le Monde - Quais seriam as regras de funcionamento deste sistema, ao mesmo tempo capitalista e social? O senhor poderia dar exemplos?
Muhammad Yunus - As primeiras empresas deste tipo já estão gravitando em volta do Grameen Bank ou do comércio eqüitativo. Elas se parecem com sociedades capitalistas clássicas, elas empregam trabalhadores, produzem bens e serviços, oferecem aos seus clientes um preço único e coerente, o seu faturamento permite cobrir seus custos de maneira perene, sem que elas nada esperem das doações ou de uma ajuda governamental. Trata-se de negócios que funcionam, mantêm seu equilíbrio e não dependem da caridade. Qual é a sua particularidade? Elas se destinam a criar um benefício social para uma categoria de população. Pode ser, por exemplo, produzir uma alimentação de qualidade destinada às crianças pobres, livrando-se de todos os custos com embalagem luxuosa e propaganda dos alimentos tradicionais. Ou ainda, comercializar apólices de seguro-doença que permitam que os mais depauperados possam ter acesso a tratamentos médicos. Ou então, dedicar-se à reciclagem do lixo e das águas usadas que poluem um bairro onde vive uma população que foi deixada por conta pela sociedade. É só olhar em volta de você, e encontrará em todo lugar elementos capazes de motivar a montagem de um “social-business”. Sem dúvida seja necessário imaginar um desses negócios que possa ajudar as famílias que foram expulsas da sua casa pela crise dos subprimes.

“Le Monde”

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Rússia nega que política está por trás de suspensão do fornecimento de petróleo

Judy Dempsey

A Rússia negou que haja motivações políticas por trás da repentina redução do fornecimento de petróleo para a República Tcheca, que teve início um dia depois de Praga ter irritado o Kremlin ao assinar um acordo para escudo antimísseis com os Estados Unidos.

Apesar de terem mencionado “motivos técnicos” para o corte, os diplomatas russos em Praga não disseram quando o fornecimento pleno seria retomado, disseram autoridades tchecas na segunda-feira.

Em 8 de julho, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, visitou Praga para assinar um tratado permitindo ao Pentágono a instalação de parte de seu escudo antimísseis em território tcheco.

Mal o tratado foi assinado e a Rússia anunciou que retaliaria, apesar do Ministério das Relações Exteriores russo não ter especificado naquele momento qual seria a forma. Um dia depois, a quantidade de petróleo enviada pela Rússia por oleoduto Druzhba (ou amizade, em português) foi reduzida.

Mas as autoridades tchecas foram cuidadosas na segunda-feira em não sugerir que o Kremlin estava usando seu poder como fornecedora de energia para punir o país.

“Os russos disseram que a redução no fornecimento não foi política”, disse Tomas Bartovsky, um porta-voz do Ministério da Indústria e Comércio tcheco, em uma entrevista. “O lado russo disse que havia alguns problemas técnicos. Eles envolviam a reestruturação das empresas que lidam com o óleo cru.”

Quando lhe foi pedido para que fosse mais específico, Bartovsky disse que não podia; a Rússia não forneceu nenhum detalhe adicional.

A Transneft, a empresa russa que envia o petróleo para a República Tcheca, disse que as reduções podiam ser atribuídas a fatores econômicos. “Não tem nada a ver com política”, disse Mikhail Barkov, vice-presidente da empresa, para a agência de notícias “Interfax”. “É uma questão puramente comercial.”

Barkov também disse que as duas empresas russas cortaram o fornecimento porque podiam refinar o petróleo cru na Rússia em termos mais lucrativos.

As reduções, que representam cerca de 15% das importações de petróleo da República Tcheca pelo oleoduto da amizade, levantam dúvidas sobre os motivos russos e sua credibilidade como exportador confiável, em um momento em que a União Européia (UE) está buscando adotar uma política comum para segurança da energia.

Quando a Rússia reduz ou suspende o envio de gás natural ou petróleo para a Europa, ela supostamente deveria informar a Comissão Européia por meio de um sistema de alerta com o qual concordou 18 meses atrás.

O acordo foi acertado depois que a Rússia suspendeu o fornecimento para Belarus, um importante país de trânsito para o petróleo e gás natural russos destinado aos mercados europeus. O resultado foi que alguns países informaram falta dos produtos.

Ferran Tarradellas Espuny, um porta-voz de Andris Piebalgs, o comissário de energia da UE, disse que “não houve necessidade de ativar o sistema de alerta” desta vez.

“A comissão está em contato com o lado tcheco. Os tchecos disseram que contam com reservas suficientes para durar cerca de 95 dias e que possuem fontes alternativas de energia.”

A Rússia fornece mais de um quarto do gás natural e petróleo usados na Europa. Muitos dos ex-países comunistas da Europa Central e Oriental são quase completamente dependentes da energia russa, porque suas infra-estruturas foram ligadas diretamente aos oleodutos e gasodutos soviéticos.

Durante os anos 90, a República Tcheca adotou uma estratégia de diversificação de energia, comprando a partir do oleoduto TAL-IKL, que fornece petróleo dos países no Mediterrâneo. A República Tcheca também tem um acordo com a Alemanha para aumentar o fornecimento de petróleo a partir do oleoduto Ingolstadt.

Como resultado, a República Tcheca conta com amplas reservas. “Neste sentido, nós somos muito, muito afortunados”, disse Bartovsky, o porta-voz do Ministério da Indústria e Comércio tcheco. Mas Bartovsky disse não saber por quanto tempo durará a redução do fornecimento de petróleo pelos russos.

Há três anos, o petróleo russo destinado para uma refinaria de petróleo lituana também foi suspenso por motivos técnicos. A Transneft, o monopólio russo responsável pelo envio do gás natural e petróleo por gasodutos e oleodutos, disse na época que tinha ocorrido um rompimento do oleoduto e que precisaria de alguns poucos meses para repará-lo. O fornecimento de petróleo para a refinaria ainda não foi retomado.

Os governos polonês e lituano disseram na época que a Rússia adotou essa política para minar os planos de uma empresa polonesa, a PKK Orlen, que impediu a Rússia de adquirir a refinaria.

“International Herald Tribune”

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Quem topa produzir por menos?

Na lógica da OMC, só os preços devem regular o comércio internacional. No Caribe, isto inviabilizou a pequena produção camponesa, que assegurava ótimas condições de trabalho

Samy Archimede

Um hangar aberto em todos os lados, uma gamela de lavagem corroída pela ferrugem, uma caminhonete abandonada em meio a centenas de pés de banana ressecados, nas terras cobertas por ervas daninhas. Eis o que resta desta plantação que sustentava, há alguns meses, uma família de agricultores da região de Saint-Claude, na Guadalupe. Entre as folhas queimadas pelo sol, algumas frutas verdes parecem ainda aguardar uma improvável colheita. Como muitos antes dele, o proprietário acabará, talvez, revendendo seus poucos hectares à comuna ou a um corretor imobiliário.

O esquema é simples: de um lado, agricultores super endividados e desmotivados; de outro, investidores à espera de qualquer pedaço de terra para construir. “Os plantadores que compraram o metro quadrado de terreno há alguns anos por menos de um euro podem hoje revendê-la por cerca de 45 euros, uma vez ela passe a ter uma outra classificação. Considerando as dificuldades do setor bananeiro, alguns nem vão pesquisar preços menores”, suspira Jean-Marie Nomertin, secretário geral da Confederação Geral dos Trabalhadores de Guadalupe(CGTG). É grande a tentação de repassar as terras para aqueles que aqui chamamos de “plantadores de cimento”. De Trois-Rivières a Gourbeyre, não dá para contar o tanto de loteamentos que vieram substituir as grandes áreas verdes agrícolas.

Em todos os locais onde o comento substituiu a banana, um grande número de empregos foi perdido: desde 1993, um total de 3300, segundo Karubana, principal grupo de produtores de Guadalupe [1]. A este número devem-se acrescentar mais de 1500 empregos indiretos: caminhoneiros, vendedores de material agrícola, motoristas de ônibus, postos de serviço, pequenas lojas, ferreiros, encanadores e outros pequenos artesãos…

“Será a morte do emprego produtivo”
É todo o tecido econômico e social das Antilhas que está prestes a mudar, sob o efeito desta crise. Primeira cultura de exportação na Guadalupe e na Martinica, a banana é também uma das raras fontes de divisas de uma região fortemente dependente da metrópole. “Se as coisas continuarem desta maneira, não se poderá cultivar mais nada daqui a dez ou quinze anos. Será a morte do emprego produtivo em Guadalupe”, adverte Nomertin.

A cadeia bananeira de Guadalupe nunca esteve tão mal. Em apenas 15 anos, suas exportações despencaram, passando de cerca de 115 mil para menos de 50 mil toneladas por ano. “Em fins, de 2004 o clima social estava muito tenso. Durante a greve dos portuários, que durou várias semanas, todos os meus frutos permaneceram no cais. Isto representa deixar de ganhar um dinheiro considerável, o que me obrigou a vender quatro hectares de terra”, diz Damien Frair. Gerente de uma pequena propriedade situada na parte superior de Sainte-Marie, a uns trinta quilômetros de Pointe-à-Pitre, e membro do Comitê de Defesa dos Pequenos Produtores de Banana, ele será o próximo plantador a desaparecer? Por quanto tempo poderá conservar seus cinco operários, cujos salários representam cerca de 60% de seus custos de produção?

Embora atormentado por estes problemas cada vez mais presentes, Frair não quer ceder às explicações simplistas. Ele sabe que as tensões sociais que sacodem sua profissão não passam de sintomas de um mal exógeno mais profundo. “Antes de 1993, dois terços do mercado francês da banana eram reservados à produção antilhesa: um terço restante correspondia aos países ACP (África, Caraíbas, Pacífico). Nossos frutos eram vendidos entre 75 e 90 centavos de euro por quilo. Hoje eles não nos rendem mais de 30 centavos, em média”, explica. E prossegue: “Desde que entrei no ramo da banana, há oito anos, os resultados de minhas vendas foram freqüentemente negativos. Nunca pude pagar todos os encargos. As ajudas da Europa nunca me permitiram por em dia meus problemas de caixa.”

As desgraças dos plantadores guadalupenhos começaram em 1989, com a passagem do ciclone Hugo, um dos mais devastadores do século passado. Mas é a partir de 1993 que o horizonte piora talvez para sempre. A criação de uma Organização Comum do Mercado Europeu da Banana (OCMB), no âmbito da União Européia, encerrou um sistema de preferência nacional que tinha permitido aos guadalupenhos despejar, durante trinta anos, a totalidade de sua produção em solo francês.

Impossível concorrência com gigantes
De um dia para o outro, eles se viram concorrendo diretamente com as poderosas multinacionais norte-americanas (Chiquita, Dole e Del Monte), que detêm com exclusividade dois terços do mercado mundial da banana. Proprietários de extensas plantações de banana na América Latina e na África, estes gigantes do agronegócio possuem locais próprios de amadurecimento. Já dominam as centrais de compra européias, o que lhes permite controlar o conjunto da cadeia. Ao contratar, desde 1993, a compra de dois milhões de toneladas das famosas “bananas dólar” estas transnacionais comercializam, a União Européia assinou a sentença de morte de centenas de plantações antilhesas.

Com custos de mão de obra de dez a vinte vezes inferiores aos das Antilhas, o Equador, primeiro exportador mundial, não teve dificuldade em conseguir um lugar nos balcões dos supermercados do Velho Continente. Em posição de força em todas as negociações internacionais, os produtores sul-americanos conseguiram também, em muitas oportunidades, um aumento de suas cotas de exportação, o que contribuiu para rebaixar os preços.

Para permitir aos fornecedores europeus (Canárias e Antilhas, principalmente) enfrentar o diferencial de custo e benefícios favorável aos seus concorrentes, a OCMB tinha previsto uma ajuda compensatória à perda de receitas. Eficaz no início, ela revelou-se insuficiente à medida que o preço de venda da banana das Antilhas se transformava em pó. Muitos plantadores entraram numa espiral de endividamento que os obrigou a encerrar as atividades.

Em Guadalupe, onde um trabalhador em três recebe a renda mínimo de inserção (RMI [2]), o número de plantadores reduziu-se em três quartos, ao longo dos doze últimos anos. Apenas 220 continuam a exportar sua produção. E, como ocorre muitas vezes, são os pequenos produtores que foram as primeiras vítimas. Entre 1993 e 2005, o porte médio das explorações guadalupenhas passou de 3,5 a 13 hectares. Mas ninguém foi poupado pela crise. Entre Pointe-à-Pitre e Baisse Terre, as «grandes» plantações (de 30 a 200 hectares), mais modernas e também mais consumidoras de mão-de-obra não conseguem mais se desfazer de seus encargos sociais. Salários e custos de transportes elevados, o tamanho das explorações reduzidos, terrenos acidentados, condições climáticas difíceis…

Diante do restante da América Latina e da África, as desvantagens dos plantadores caribenhos parecem ainda mais intransponíveis desde janeiro de 2006, data em que as quotas de importação de bananas na Europa foram suprimidas [3]. Aceitando a mudança para um sistema unicamente tarifário que faz, mais uma vez, o jogo dos mais poderosos [4], a União Européia sacrificou seus próprios agricultores no altar da desregulamentação e do livre comércio. Agora que ela se submeteu às regras da Organização Mundial do Comércio(OMC), o que propõe para auxiliar os plantadores em dificuldade? Por ora, nada de novo.

Os plantadores martiniquenses, que tinham resistido até agora ao choque de 1993 e que exportam quatro vezes mais bananas que seus vizinhos guadalupenhos, sofrem, por sua vez, à lei do mercado. “Em 2004, entre as 30 grandes propriedades que foram requalificadas, 28 precisaram ser liquidadas. Mais de mil operários viram-se desempregados, provocando, por outro lado, a perda de 1 500 empregos indiretos” constata, impotente, Juvénal Rémir, presidente do Comitê de Defesa das Profissões Agrícolas (Codema), um dos principais sindicatos de produtores martiniqueses. E, segundo ele, é só o começo: sessenta e cinco outros produtores fortemente endividados estariam ameaçados de encerrar as atividades. “A situação é muito preocupante, pois nenhuma medida de requalificação foi prevista para o pessoal desempregado. O que vai ocorrer dos desempregados que nunca trabalharam em outro ramo a não ser no da banana?”

Saída: «adequar-se» à produção predatória?
Do lado dos plantadores, as alternativas parecem totalmente inexistentes. «A cana de açúcar está em plena crise e os outros ramos agrícolas não estão suficientemente estruturados. Sofremos a concorrência do inhame da França e da Costa Rica, que chega aqui mais barato que o nosso! De qualquer forma, não se pode mais plantar, pois os solos foram contaminados pelos anos de monocultura intensiva”. Remir é um homem revoltado. Para ele, o Estado é tão responsável pela situação quanto as instâncias européias.

Ele culpa o ministério da Agricultura por fechar os olhos às práticas fraudulentas que agravam a situação: “Alguns plantadores, maus gestores, ignoram suas dívidas e despedem seus operários muito facilmente, liquidando sua produção. Seis meses mais tarde, autoriza-se a que voltem a se dedicar às bananas sem obrigação de recontratar seu pessoal”.O Estado pôs em prática, há dois anos, um «contrato de progresso» visando sustentar os exploradores em dificuldade. Mas o presidente do Codema só vê nisso medidas temporárias visando acalmar os ardores de camponeses em ebulição. «O que seria necessário é organizar os estados gerais da agricultura para que fiquemos finalmente seguros sobre nosso futuro”.

Nas Antilhas, há alguns anos, todos falam de diversificação, mas ninguém parece acreditar nisso realmente. Abacaxis, abacates, limão verde, berinjela…Todas as tentativas de exploração fracassaram. Apesar do escândalo da poluição dos solos e das águas pelos pesticidas, revelado em um recente relatório parlamentar [5], a monocultura da banana ainda é o mais seguro meio de sobrevivência para estes agricultores, na maioria com mais de 50 anos.

É preciso também poder se adaptar às novas regras do jogo impostas pelo mercado, e seu caderno de encargos cada vez mais draconianos. Como lembra Fredéric de Reuynal, presidente da Banamart, o principal conglomerado de produtores da Martinica, “para vencer financeiramente e responder às exigências do mercado em termos de qualidade de produção, é preciso abandonar a gestão camponesa de empresa agrícola e adotar uma gestão industrial. O ideal é produzir cerca de 3 mil toneladas de bananas por ano [o que corresponde a uma exploração de, pelo menos, 60 hectares].”.

Quantos operários será necessário despedir nas Antilhas para atingir este ideal? Patrick Jean-Baptiste, agricultor de 42 anos e membro da Federação Departamental dos Dindicatos de Exploradores Agrícolas (FDSEA) da Martinica, não pode dizer, mas seu discurso é revelador do que se aguarda para os sobreviventes da banana nos próximos anos: “Reestruturar as empresas de forma perene, para diminuir as cargas sem fazer baixar as receitas, eis nosso desafio”. Por outro lado, Jean-Baptiste fixou um objetivo pessoal ambicioso: “permanecer na banana até a aposentadoria”. Talvez ele consiga, mas para seus operários, ao contrário, é muito menos certo.

[1] Em dezembro de 2005, Karubana fundiu-se com Banagua para criar um grupo único: Os produtores de Guadalupe.

[2] Benefício previdenciário pago aos que não têm emprego.

[3] Em virtude de um acordo assinado há cinco anos pela Comissão Européia visando se adaptar as regra da OMC e colocar um fim na guerra comercial com os Estados Unidos.

[4] No novo sistema de importação unicamente tarifário, o dólar-banana enfrenta tarifas alfandegárias de apenas 176 euros a tonelada. Isso permitiu aos demais produtores que atuam na América Latina conseguir uma confortável posição no mercado.

[5] Relatório sobre o uso do clordecone e outros pesticidas na agricultura martiniquesa e guadalupenhana entregue dia 30 de junho de 2005 na Assembléia Nacional.

“Le Monde diplomatique”

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Jeitinho mineiro de fazer queijo é patrimônio cultural imaterial

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registra no Inventário Nacional de Referências Culturais o processo artenasal da produção de queijo em Minas Gerais

Marina Lemle

O modo de fazer queijo artesanal de Minas Gerais agora é patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Aprovado em 15 de maio de 2008, o registro no Inventário Nacional de Referências Culturais destaca a forma tradicional de se fazer queijo em quatro regiões do estado: Serro, no nordeste; Serra da Canastra, na região central; Salitre/Alto Parnaíba, ou Serra do Oeste; e Araxá, no Triângulo Mineiro.

De acordo com o historiador José Newton Coelho Meneses, da UFMG, que coordenou o estudo que embasa a inclusão no inventário, o registro da tradição técnica é uma vitória para o estado. “Fazer queijo é uma atividade econômica tipicamente familiar em Minas. É a síntese do que é a fazenda. A cultura não é imaterial, ela é materializada nas manifestações”, diz.

Segundo Meneses, os queijos dessas quatro regiões têm características distintas na textura, sabor e carga microbiana, devido ao tipo de pastagem ingerido pelas vacas, o clima e a altitude locais. Já o modo de fazer é muito parecido, apesar de haver diferenças sobre quem faz: na Canastra e no Alto Parnaíba há muitas mulheres na produção; no Serro, elas estão vetadas – diz-se que têm mão quente, ou impregnada de cosméticos, ou que o ciclo menstrual interfere no produto.

Ele acredita que, além do reconhecimento identitário do queijo mineiro, o registro reforçará sua segurança alimentar e seu valor econômico.

Queijo DOC

A pesquisa sobre o modo de fazer queijo mineiro começou em 2004, quando associações de produtores locais pediram ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) o registro da tradição como patrimônio imaterial do estado. O movimento nasceu como resistência à propaganda de que o queijo artesanal faria mal à saúde e que sua produção deveria ser proibida. As associações se uniram numa luta contra a legislação restritiva e a favor da qualidade do produto.

Meneses, que também é veterinário, explica que o leite cru, não pasteurizado, se matura e se transforma num produto melhor. “Os micróbios podem ser benéficos à saúde. Os micróbios próprios do leite dão qualidade, não há risco alimentar, muito pelo contrário”, garante, acrescentando que os únicos riscos seriam a brucelose e a tuberculose, doenças fáceis de controlar no rebanho.

O pesquisador afirma que os produtores hoje têm grande preocupação com a qualidade e querem instituir o selo DOC - Denominação de Origem Controlada - cujo controle seria feito por associações produtoras, como é feito na França, onde o Estado fiscaliza o rebanho e a água. Através de uma associação, o produtor aganha o selo DOC.

Meneses observa ainda que o movimento em favor da produção do queijo artesanal com qualidade se coaduna com a tendência da valorização da ruralidade e o slowfood, movimento internacional, na contramão da tendência do fastfood, defende que as pessoas comam bem e devagar.

Origem portuguesa

Trinta mil famílias trabalham com queijo artesanal em Minas Gerais, segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). A tradição começou de uma colonização portuguesa do século XVIII, que trouxe heranças como o queijo da Serra da Estrela, no centro de Portugal, feito lá com leite de cabra e de ovelha e aqui com a matéria prima local.

Autor de O continente rústico-abastecimento alimentar nas Minas Gerais setencentistas, Meneses conta que em Portugal usava-se a flor do cardo para coagular o leite, enquanto aqui usavam-se fragmentos de estômago de animais, um saber mouro praticado até o início do século XX. Hoje usa-se um produto lácteo coagulante produzido em laboratório, a enzima pepsina.

O pingo e outros segredos

Meneses tem uma relação antiga com seu objeto de estudo: seu pai era produtor na região do Serro. Como legítimo herdeiro cultural, à vontade ele abre o jogo:

“O segredo do queijo artesanal é o pingo, o fermento feito do soro do queijo do dia anterior. O pingo é a unidade identitária do produto.”

Ele conta que há uma tradição de troca de pingos entre fazendeiros. “A troca de informação é uma coisa impressionante. Sempre há discussões sobre o pingo. É motivo de orgulho”, diz. E ensina: o queijo deve ser mantido fora da geladeira, lavado só com água duas vezes ao dia, assim como a tábua, para matar a contaminação externa e hidratá-lo. Deve ser guardado preferencialmente numa queijeira de madeira arejada, ou em queijeira de tampa furada ou ainda sob cobertura de bolo.

“Revista de História”

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Vídeo chama atenção para crescente violência contra minorias na Rússia

Michael Schwirtz

Shamil U. Odamanov costumava telefonar para seus pais quase que diariamente de Moscou, onde trabalhava como operário após se mudar de sua aldeia, na região do norte do Cáucaso da Rússia, em busca de um melhor emprego. Então, há pouco mais de um ano, os telefonemas pararam.

Agora, para horror da família, eles acham que sabem o motivo. Eles identificaram Odamanov, 24 anos, como o homem decapitado em um vídeo de um duplo assassinato, aparentemente cometido por membros de um grupo neonazista russo no ano passado.

“Não é que seja apenas parecido, é ele, ponto”, disse Umakhan Odamanov, o pai de Shamil, por telefone de sua casa no Daguestão, uma república russa no norte do Cáucaso. Os Odamanovs, que vivem no Daguestão há gerações, são kumyks, um minúsculo grupo étnico nativo da região. Os investigadores disseram que Shamil Odamanov é provavelmente uma das duas vítimas no vídeo, homens de pele morena que aparecem ajoelhados sob uma bandeira nazista antes de serem mortos.

Apesar de inicialmente considerado falso, o vídeo, que apareceu originalmente em sites ultranacionalistas russos em agosto, se espalhou rapidamente pela Internet e foi exibido em versões editadas em televisão nacional. Ele colocou o problema da violência contra minorias étnicas em primeiro plano de discussão nacional, mesmo que apenas brevemente.

A polícia está investigando várias pessoas, algumas de grupos nacionalistas, em ligação com as mortes, mas nenhum suspeito foi oficialmente identificado, disse Vladimir I. Markin, o porta-voz do Comitê Investigativo do Gabinete do Procurador-Geral, em uma entrevista.

Em fevereiro, um tribunal declarou Viktor Milkov, um estudante de Adygei, no sul da Rússia, culpado de ajudar a divulgar o vídeo e o sentenciou a um ano de prisão. Ele alega que uma pessoa desconhecida enviou o vídeo por e-mail para ele.

A polícia não encontrou os corpos das vítimas, disse Markin, nem identificou onde os assassinatos ocorreram.

Ataques contra minorias étnicas na Rússia têm crescido constantemente ao longo dos últimos anos, à medida que mais migrantes do exterior ou de enclaves étnicos mais pobres da Rússia se mudam para grandes centros urbanos à procura de trabalho.

Odamanov estava entre eles. Ele deixou sua aldeia natal de Sultanyangiyurt, no Daguestão, há cerca de dois anos e se mudou para Moscou para procurar um emprego e “possivelmente uma esposa”, disse seu pai.

Em seus telefonemas regulares para casa, ele freqüentemente se queixava de problemas com skinheads, que às vezes rondam por áreas residenciais de baixa renda, nos arredores de Moscou, molestando pessoas de pele morena.

No final de março de 2007, Shamil Odamanov telefonou “para me desejar um feliz aniversário”, disse seu pai. “Foi a última vez que tive notícias dele”.

Ele só foi ver seu filho novamente no vídeo. Ele estava amarrado, ajoelhado ao lado de outro homem e vestindo uma camisa e casaco Adidas preto que Artur, seu irmão, lhe deu, disse Umakhan.

Tendo música heavy metal como trilha sonora, o vídeo começa com o título “Operação do Partido Nacional-Socialista da Rússia para Prender e Executar Dois Colonos do Daguestão e Tadjiquistão”. Há algumas cenas iniciais do interior, que investigadores agora acreditam ser em algum lugar na região de Kaluzhkaya, a cerca de 190 quilômetros a sudoeste de Moscou.

“Nós fomos presos pelos nacional-socialistas”, os dois homens atados murmuram pelas suas mordaças.

Na cena seguinte, um dos captores, em uniforme de camuflagem e usando luvas pretas pesadas, grita “Glória à Rússia!” e então mergulha o que parece ser uma grande faca no pescoço do homem que se acredita ser Odamanov. Ele é decapitado em segundos.

Então o segundo homem, não identificado pela polícia, leva um tiro na cabeça e cai de frente em uma cova rasa. Na cena final, dois homens vestindo camuflagem e máscaras pretas, fazem a saudação nazista.

Cerca de 600 ataques racistas violentos, incluindo 80 assassinatos, foram informados na Rússia em 2007, segundo o centro Sova, uma organização que monitora crimes de ódio na Rússia. O número de ataques neste ano chegou a 232 até 1º de junho, 57 deles assassinatos.

Grupos de direitos humanos freqüentemente acusam as autoridades de ignorarem o problema da violência racial na Rússia, apesar de, pelo menos em Moscou, uma recente aumento nos assassinatos de pessoas de pele morena ter levado a uma resposta perceptível entre as agências de manutenção da lei.

“Os promotores de Moscou definitivamente começaram a tratar mais ativamente deste problema, desde o ano passado”, disse Aleksandr Verkhovsky, diretor do centro Sova.

O Ministério do Interior anunciou na semana passada que a polícia prendeu mais de 50 pessoas neste ano que estariam envolvidas em ataques xenofóbicos em Moscou e São Petersburgo, as cidades com os maiores níveis de violência racista.

Ainda assim, o número de ataques em todo o país continua a crescer constantemente em cerca de 15% a 20% a cada ano, como tem ocorrido nos últimos cinco anos, disse Verkhovsky. Além disso, ele disse, o percentual de homicídios está crescendo à medida que os adolescentes envolvidos nos grupos nacionalistas violentos se tornam adultos.

“Eles simplesmente levam estes assuntos muito a sério”, ele disse.

“The New York Times”

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Aristóteles

Enquanto Platão busca a verdade em um mundo das idéias, Aristóteles a procura no mesmo plano do contato prático e perceptivo com a realidade

Franklin Leopoldo e Silva

Tal como seu mestre Platão, Aristóteles também pretende alcançar a inteligibilidade do mundo, isto é, estabelecer as condições de um conhecimento racional que vá além das aparências ou do contato imediato com as coisas. Mas, diferentemente de Platão, Aristóteles não busca atingir esse objetivo por meio da separação entre aparências sensíveis e idéias inteligíveis, existências contingentes e essências absolutas; opta por um outro caminho que é o de tentar encontrar o que há de essencial e de inteligível no próprio âmbito da realidade que nos é dada. Podemos dizer, simplificando bastante, que Platão busca a verdade em um mundo transcendente (o mundo das idéias, distinto do mundo sensível) e Aristóteles a procura em uma ordem imanente ao mundo percebido, isto é, no mesmo plano em que desenvolvemos nosso contato prático e perceptivo com a realidade.

Essa diferença, decisivamente importante para entender os dois autores e as vertentes filosóficas a que dão origem, não nos deve fazer esquecer, no entanto, que ambos consideram que há uma nítida distinção entre o conhecimento sensível e o intelectual, e que o segundo é hierarquicamente superior ao primeiro. O que Aristóteles rejeita em Platão é a interpretação dessa diferença como separação e a conseqüente duplicação da realidade em dois mundos, o que faz do processo de conhecimento uma ascensão metódica do mundo sensível ao mundo inteligível e, no limite, o abandono dos conteúdos sensíveis em prol da intuição das formas inteligíveis.

Para Aristóteles, o conhecimento consiste em descobrir no sensível as condições de sua própria inteligibilidade. Pressupõe-se, então, que é possível passar de um primeiro contato com a multiplicidade contingente das coisas percebidas ao conhecimento intelectual da ordem e da estrutura, ou seja, é possível transformar a experiência imediata em compreensão teórica mediada por categorias e princípios que nos permitem saber não apenas que as coisas existem, mas também como e por que elas são tais como se apresentam aos nossos sentidos e ao nosso intelecto.

Dentre as condições ou requisitos de inteligibilidade destaca-se a causalidade: quando entendemos que a gênese e a estrutura de tudo que existe depende de causas, atingimos um patamar de ordem e de articulação em que todos os elementos das coisas tornam-se explicáveis. Entendemos que algo existe porque é feito de uma determinada matéria; que obedece a uma certa forma; que o fato de algo vir a existir depende de uma ação e de um agente e que se destina a alguma finalidade. Assim podemos articular a imensa variedade do real com a unidade intelectual de uma noção que nos permite compreender a pluralidade e a composição pela unidade e pela simplicidade. Da mesma maneira compreendemos que a variedade das qualidades que apreendemos nas coisas articula-se em torno da substância ou essência, o atributo principal que confere à multiplicidade qualitativa, em muitos aspectos acidental e passageira, a unidade de uma coisa, uma realidade dotada de permanência.

A visão dessa ordem é também o impulso para que procuremos seu princípio e sua razão de ser, o elemento primeiro que dá origem ao universo dos fenômenos e que deve ser entendido como Causa na acepção mais elevada, porque sua posição o coloca como absoluto, isto é, uma existência que deve ser pensada como independente de qualquer outra condição. Passando assim da Filosofia Natural à Filosofia Primeira realizamos o conhecimento no mais alto grau que o ser humano possa alcançar; realizamos o propósito implicado na Filosofia como amor ao saber ou como o desejo de saber que anima naturalmente, segundo Aristóteles, todo ser racional.

E por que nos deixamos levar por esse amor e esse desejo? Certamente não nos move qualquer motivação utilitária; a filosofia nada acrescenta à nossa prática natural, à nossa vida estritamente cotidiana. Aristóteles diz mesmo que a filosofia começa quando já estão estabelecidos os meios de satisfazer as necessidades imediatas. A questão é que, quando já temos tudo de que aparentemente necessitamos, um outro desejo nos assola, um outro objeto de amor; e a ele nos dirigimos não movidos por necessidades práticas, mas simplesmente pela admiração, um estado de ânimo que abre a nossa mente para investigar não aquilo de que precisamos, mas aquilo que admiramos e diante do que nos colocamos como que perplexos e tomados por um sentimento de ignorância infinitamente maior do que tudo que já sabemos. Trata-se de um espanto proveniente de que sentimos que tudo que sabemos é nada frente ao que há para saber.

A ignorância filosófica é, portanto, o fundamento da liberdade de saber; pois se trata de um conhecimento que procuramos movidos pela admiração, que é algo como uma espontaneidade gratuita quando comparado à necessidade, à urgência de saber aquilo de que precisamos para viver. Quando submetidos à necessidade, somos menos do que homens, somos escravos; quando movidos pela admiração, quase superamos a condição humana, pois nos colocamos na via de um saber divino: mesmo que não o alcancemos, diz Aristóteles, nossa dignidade está em buscá-lo.

Franklin Leopoldo e Silva é professor de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Descartes - A metafísica da modernidade (Editora Moderna, 1994), Bérgson - Intuição e discurso filosófico (Loyola, 1994) e Ética e Literatura em Sartre (Unesp, 2004).

“CULT”

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A África nos genes do povo brasileiro

Análise de DNA revela regiões que mais alimentaram o tráfico de escravos para o país

Ricardo Zorzetto*

Durante pouco mais de três séculos de tráfico negreiro o trecho da África Ocidental que vai do Senegal à Nigéria possivelmente forneceu muito mais escravos ao Brasil do que se imaginava. A proporção de homens e mulheres capturados nessa região e enviados à força para cá pode ter superado – e muito – os 10% do total estimado anos atrás pelos historiadores norte-americanos Herbert Klein e David Eltis, estudiosos do tráfico de escravos no Atlântico. Os argumentos que agora servem de suporte à revisão dos cálculos, em especial para o Sudeste do Brasil, não são apenas históricos, mas genéticos. Analisando a constituição genética de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os geneticistas Sérgio Danilo Pena e Maria Cátira Bortolini estão ajudando a resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida sobre a origem dos quase 5 milhões de escravos africanos que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Salvador e Recife e contribuíram para a formação do povo brasileiro.

Em dois estudos recém-concluídos a equipe de Pena, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a de Maria Cátira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Desse modo, conseguiram estimar a participação de diferentes regiões africanas no envio de escravos para o Brasil, o último país da América Latina a eliminar a escravidão com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

Os resultados confirmaram que foram três as regiões da África – a Oeste, a Centro-Oeste e a Sudeste – que mais exportaram mão-de-obra africana para o país até 1850, quando o ministro da Justiça do Império Eusébio de Queirós formulou uma lei tornando crime o tráfico de escravos. Até aí, nada muito novo, e a genética apenas corrobora as informações históricas a respeito de uma das situações mais cruéis a que um ser humano pode submeter outro. Já se sabia que o Brasil foi um dos poucos, se não o único, países das Américas a receber africanos de todas as origens.

A novidade é o envolvimento maior no tráfico negreiro da África Ocidental, também conhecida como Costa Oeste, região de onde vieram povos como os iorubás, os jejes e os malês, que exerceram forte influência social e cultural no Nordeste brasileiro, em especial na Bahia.

Durante os três séculos em que os portugueses controlaram o tráfico no Atlântico – o mais antigo, de mais longa duração e maior em termos numéricos –, a proporção de escravos embarcados no Oeste, no Centro-Oeste e no Sudeste da África oscilou bastante. Avaliando registros de viagem africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região Oeste da África e 17% da Sudeste.

O principal fornecedor de escravos seria mesmo o Centro-Oeste, onde ficava a colônia portuguesa de Angola, que teria contribuído com 73% dos africanos enviados para o Brasil amontoados no porão de pequenos navios. “Os dados sobre o tráfico de escravos ainda são incompletos e os historiadores aceitam que a maior parte veio da região de Angola”, comenta Marina Mello Souza, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em história africana.

Cientes de que os registros de viagem nem sempre refletem com precisão o passado, nos últimos tempos os historiadores passaram a recorrer também à genética na tentativa de compreender melhor o que de fato ocorreu. “Nossas estimativas anteriores se basearam em amostras parciais”, disse Klein à Pesquisa FAPESP.

“Estamos revendo essas projeções, com base no trabalho de geneticistas e na revisão dos dados de viagem que a equipe de David Eltis vem investigando na Universidade Emory.” E, nesse ponto, os trabalhos de Pena e Maria Cátira podem colaborar para esse reexame histórico. A análise do material genético compartilhado por brasileiros e africanos revelou que a proporção de escravos oriundos do Oeste da África – entre Senegal e Nigéria – pode ter sido de duas a quatro vezes maior que o contabilizado até o momento, bem mais próximo dos números exportados por Angola.

Origens e destinos – Superior à esperada, a contribuição do Oeste africano provavelmente não se distribuiu igualmente pelo país. Pena e sua aluna de doutorado Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que classificavam a si próprios e aos seus pais e avós como sendo pretos, seguindo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que agrupa os brasileiros em brancos, pretos e pardos – os movimentos de afrodescendentes em geral usam a palavra negro para se referir a pretos e pardos.

Quatro de cada dez pretos paulistas apresentavam material genético típico do Oeste africano. Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo da equipe da UFRGS a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 pretos cariocas testados por Maria Cátira e Tábita Hünemeier, 31% traziam no sangue a assinatura genética do Oeste africano, apresentada por apenas 18% dos 107 pretos gaúchos. Além de indicar origens e destinos, esses dados talvez expliquem a penetração heterogênea no país do candomblé, religião com importantes traços culturais iorubás e jejes.

Revista da Fapesp
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Substância suspeita de ser carcinógena agora está onipresente

Jeff Nesmith
Em Washington

Novos estudos realizados por cientistas e pesquisadores de universidades para os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) indicam que uma substância química apontada como um provável carcinógeno humano está presente no sangue de quase todo americano, incluindo recém-nascidos [carcinógeno é um agente que provoca o aparecimento de tumores malignos no organismo].

A substância química, o ácido perfluoroctanóico, está associada à fabricação e uso do Teflon e outros produtos impermeabilizantes. Ele é normalmente conhecido como PFOA.

Tim Begley, um químico da Food and Drug Administration (FDA, a agência de controle de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos), informou em 2005 que o PFOA e substâncias semelhantes usadas em produtos de papel nos quais alimentos como pizza e pipoca são vendidos tendem a migrar para o alimento quando o papel é aquecido.

Os sacos de pipoca de microondas liberam centenas de vezes mais dessas substâncias que utensílios revestidos com substâncias como Teflon, informou Begley. Em um estudo posterior divulgado neste mês, Begley confirmou seus resultados anteriores e produziu dados que questiona se a FDA está subestimando a quantidade de substâncias químicas que contaminam os alimentos.

Deirdre Flynn, diretora executiva do Popcorn Institute, disse em uma entrevista por telefone que “a indústria da pipoca trabalha arduamente para produzir um produto seguro e de qualidade para os consumidores. A FDA e a indústria sempre trabalharam juntas para assegurar a segurança”, disse ela.

Dan Turner, um porta-voz da DuPont, que usa PFOA na produção do Teflon, disse que a empresa está convencida de que seus produtos não representam ameaça à saúde humana. “A DuPont acredita e mantém que os produtos vendidos ao consumidor com traços de PFOA são seguros para seu uso pretendido”, disse em uma entrevista por telefone. E acrescentou que está familiarizado com a pesquisa da Johns Hopkins. “Até o momento não há efeitos conhecidos à saúde humana causados por PFOA”, disse.

A evidência de presença de PFOA em 100% das amostras de sangue de cordões umbilicais analisadas pelos toxicologistas dos CDC e pela Universidade Johns Hopkins foi informada no mês passado.

As concentrações eram baixas, disseram os pesquisadores, e tanto a Agência de Proteção Ambiental (EPA) quanto a FDA disseram desconhecer qualquer evidência de que a população americana está sendo exposta a níveis perigosos.

Mas o toxicologista da Johns Hopkins que dirigiu o estudo disse que ele também revelou elos estatisticamente significativos entre os níveis de PFOA no sangue do cordão umbilical e o peso dos bebês no nascimento, circunferência da cabeça e outras medições comuns da saúde do recém-nascido.

O relatório está entre uma série de estudos que nos últimos meses aumentaram a preocupação com a presença de PFOA e várias substâncias químicas relacionadas em seres humanos, seu alimento e meio ambiente.

Um painel da EPA de consultores científicos disse ao administrador Stephen Johnson, no ano passado, que a maioria deles está convencida de que o PFOA deve ser considerado como um provável carcinógeno humano e regulado de acordo. Alguns sentiam que deveria ser designado como “possível” carcinógeno.

O painel não ofereceu sugestão sobre os níveis de exposição capazes de causar câncer nos seres humanos, mas notou que em experiências com animais, a substância estava associada a cânceres de fígado e pâncreas.

O PFOA e seus primos químicos são substâncias feitas pelo homem que desde os anos 50 se tornaram ubíquas no meio ambiente, do Oceano Ártico aos solos da rural Geórgia.

As substâncias foram encontradas no sangue de pandas gigantes da China, albatrozes no Atol de Midway, no meio do Oceano Pacífico, em golfinhos em Indian River Lagoon, Flórida, e em ursos polares na Groenlândia.

John Washington, um químico do laboratório da EPA em Athens, Geórgia, informou no mês passado que “traços” de PFOA foram extraídos de amostras de solo coletadas em Athens e perto de Watkinsville, Geórgia.

Em um estudo publicado no site da revista “Environmental Science and Technology” no mês passado, os pesquisadores da Johns Hopkins descreveram as análises de sangue de cordão umbilical extraídas de 299 bebês nascidos em Baltimore, Maryland, em 2004 e 2005.

Quando as amostras de sangue foram analisadas pelos CDC, todas continham PFOA, disse a pediatra Lynn Goldman, principal autora do estudo, e 99% continham uma substância química relacionada, sulfonato perfluoroctano (PFOS).

Goldman não pôde ser contatada para comentários. Mas, segundo um artigo publicado na edição atual de outra revista, a “Environmental Health Perspectives”, Goldman encontrou correlações entre as concentrações das substâncias químicas e indicadores comuns da saúde dos bebês.

A revista informou que Goldman disse em um recente encontro da Sociedade de Toxicologia que os indicadores incluíam a circunferência da cabeça, peso de nascimento e uma medição da massa corporal conhecida como “índice ponderal”.

“Quanto mais baixo o índice ponderal, maior é a concentração de PFOS e PFOA”, Goldman disse à conferência segundo a revista.

Em outro estudo divulgado em março, Antonia Calafat, uma química do Centro Nacional de Saúde Ambiental dos CDC, disse que a análise de 1.562 amostras de sangue encontrou baixo nível de PFOA, PFOS e várias substâncias relacionadas em todas as amostras. As amostras foram coletadas em 1999 e 2000 como parte de uma pesquisa nacional de saúde e nutrição.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Cox Newspapers

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Por que o Ocidente não compreende o mundo árabe?

Barreiras entre o mundo ocidental e o muçulmano: terrorismo, preconceitos e religião politizada dificultam a integração dos muçulmanos

Josep Play-Maset

“Não entendo os imigrantes: vêm para o nosso país, vivem ao nosso lado e depois querem mudar nossas normas e costumes. A Espanha não é um país muçulmano e não tem por que aceitar essas tradições arcaicas. Colocar o véu islâmico em uma menina é impedir que ela aprenda, é excluí-la da escola pública”, diz María, uma jovem catalã de 17 anos que estuda no Instituto Francês de Barcelona, em uma mensagem eletrônica enviada para suas amigas Meriem, francesa, e Lydia, italiana.

Não se trata de um diálogo real, mas da ficção criada pelo escritor Tahar Ben Jelloun em seu último ensaio, “Não entendo o mundo árabe” (editado pela Aleph e em catalão pela Empúries), a partir do diálogo entre quatro adolescentes.

Existe uma incompreensão do mundo muçulmano e árabe, dois termos que muitas vezes se misturam no discurso dos ocidentais. Ben Jelloun prefere falar dos árabes para circunscrever o problema, já que também há muçulmanos na China, na Indonésia ou na Índia.

Kebir Sabar, um pesquisador-colaborador da Universidade do País Basco, alertou sobre o ressurgimento de uma ideologia cheia de preconceitos, estereótipos e xenofobia. “As velhas representações do outro no imaginário europeu -o bárbaro ou o mouro, por exemplo- são substituídas ou atualizadas por outras figuras: o ‘fundamentalista muçulmano’, o ‘terrorista árabe ou islâmico’ e o ‘imigrante clandestino’”, salientou o autor.

Uma pesquisa do CIS feita em 2003 mostrou que “os norte-africanos são os imigrantes que inspiram menos simpatias” e em uma escala de 0 a 10 obtinham 5,3, contra 5,9 dos africanos, 5,8 dos cidadãos do Leste Europeu e 6,6 dos latino-americanos. Quais são as causas? Em países com uma longa relação com os árabes existem preconceitos que se expressam inclusive em canções e que têm raízes profundas na história (piratas argelinos, desastres da guerra do Rif, a guarda moura de Franco…).

Medo do terrorismo
O 11 de Setembro e o 11 de Março representaram dois grandes golpes para a aproximação entre o mundo ocidental e o islâmico, e vieram reforçar a idéia do choque de civilizações previsto por Samuel Huntington. E embora esses e outros atentados sejam obra de indivíduos isolados ou com uma relação difusa através da Al Qaeda, se amparam no islamismo fundamentalista. E a mídia ocidental não entra em matizes. “Por que a televisão convida esse tipo de gente que quando fala sobre o islã assusta os europeus? São pessoas que caricaturizam a religião. Não deveriam lhes dar a palavra, não lhes dêem publicidade”, diz Meriem, a protagonista meio marroquina meio francesa, que vive em Paris. Seu mentor, Ben Jelloun, afirma que há intelectuais do islamismo moderado e críticos do fanatismo, mas “não são convidados para os programas de televisão”. E acrescenta que o que existe é “um choque de ignorâncias e de preconceitos”.

As últimas detenções de paquistaneses no Raval são um exemplo de como esse tipo de atuação, tanto as dos terroristas como algumas ações preventivas desmesuradas da polícia, acentuam a islamofobia. Depois desse episódio, um grupo de entidades muçulmanas divulgou um comunicado em que conclamava “a reagir diante da difusão de leituras fundamentalistas do islã e a combater o radicalismo dentro das comunidades muçulmanas”. Em particular, alguns signatários manifestaram sua preocupação diante “da presença de discursos salafistas entre as comunidades muçulmanas da Catalunha”. Seu eco foi tênue dos dois lados da barreira.

Religião politizada
Em uma sociedade de origem católica que acabava de retirar os crucifixos dos prédios oficiais e das escolas e que deixava para trás uma época em que a igreja compartilhou o poder, a presença de meninas com véus nos colégios, trabalhadores que param para cumprir o Ramadã ou orações na rua criam incompreensões. O recente acordo de um matadouro de Girona que faz coincidir os descansos com as horas de oração é considerado por alguns um convênio pioneiro e por outros, um passo atrás.

“O lenço não é uma simples peça de vestimenta, é um símbolo político. Quando uma menina se cobre com o lenço é porque quer ser reconhecida como muçulmana praticante; e logo depois se nega a fazer aulas de ginástica (não quer vestir uma malha) e depois rejeita a aula de biologia porque dão explicações científicas sobre a origem do homem”, diz o e-mail de Meriem. Jelloun acredita no laicismo e considera que o primeiro passo deveria ser uma escola onde se ensinasse a história das religiões, e não o proselitismo (cristão ou muçulmano). Só uma pedagogia baseada na tolerância permitirá avançar.

Os imigrantes latino-americanos, por sua proximidade com a cultura e a língua espanholas e por sua tradição associativa, tendem a criar entidades e adotar porta-vozes. Entre os marroquinos e entre os africanos é mais difícil. Na Catalunha, somente em abril passado surgiu uma federação de entidades culturais catalãs de origem marroquina. Eles mesmos fizeram um mea culpa por ser um dos coletivos pior organizados. A necessidade de dar coesão ao tecido associativo anda junto com a de trabalhar para oferecer um âmbito de diálogo, reflexão e debate. Inclusive se anunciou a criação de uma Casa do Marrocos em Barcelona. Poderia ser um passo a mais.

“Tudo começou com Khomeini”
A entrada dos radicais islâmicos na política começou no Irã com a revolução de Khomeini, em 1979. É a hipótese de Tahar Ben Jelloun (nascido em Fez, Marrocos, em 1944). O ex-dirigente iraniano disse que o islã seria político. E o fracasso das ideologias progressistas no mundo árabe propiciou que o islã ocupasse esse vazio.

“De uma religião se fez uma ideologia, e isso é um perigo”, afirma Jelloun, um prestigioso intelectual que vive entre Tânger e Paris.

Na opinião dele há outras tentativas como o aparecimento dos Irmãos Muçulmanos no Egito (1928), mas foi Khomeini “quem conseguiu liberar o imaginário do fanatismo”. E também lembra que a vitória da revolução iraniana foi louvada em sua época por intelectuais como Michel Foucault, Jean Genet ou Claude Mauriac, que não viram que essa revolução se dirigia para uma ditadura.

La Vanguardia”

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Os cadernos inéditos de Che Guevara

Mantidas em sigilo por décadas, estão disponíveis as Notas em que ele aponta as desigualdades do socialismo real, ironiza os “calhamaços soviéticos” que “não deixam pensar” e começa a compreender a necessidade de democratizar o poder revolucionário

Michael Löwy

Pouco a pouco, Ernesto Che Guevara distanciou-se de suas ilusões iniciais sobre a URSS e o marxismo de tipo soviético. No ano de 1965, em carta ao amigo Armando Hart, então ministro da Cultura de Cuba, ele critica duramente o “continuísmo ideológico” que se manifesta na ilha com a edição dos manuais soviéticos para ensino do marxismo – um ponto de vista convergente com o defendido, na mesma época, por Fernando Martínez Heredia, Aurélio Alonso e seus amigos do Departamento de Filosofia da Universidade de Havana, editores da revista Pensamiento Critico. Esses manuais – chamados por ele de “calhamaços soviéticos” – “têm o inconveniente de não deixarem pensar: o Partido já fez isso por você e você deve digeri-lo” [1].

De forma cada vez mais explícita, percebe-se a busca de um outro modelo, de um método diferente de construção do socialismo — mais solidário, igualitário e radical.

A obra de “Che” não é um sistema fechado, um argumento acabado, com resposta para tudo. Para muitas questões — a democracia socialista, a luta contra a burocracia — sua reflexão permanece incompleta, já que foi interrompida pela morte prematura, em 1967. Mas, em relação a esse aspecto, Martínez Heredia está certo ao ressaltar: “O caráter inacabado do pensamento de Che também apresenta aspectos positivos. O grande pensador está lá presente, assinalando problemas, exigindo que seus camaradas pensem, estudem, combinem a teoria e a prática. Torna-se impossível, quando se assume realmente o seu pensamento, dogmatizá-lo e convertê-lo em um baluarte especulativo de frases e de receitas” [2].

Em um primeiro momento — 1960-1962 —, Guevara depositou muita esperança nos “países irmãos” do chamado “socialismo real”. Mas, após algumas visitas à União Soviética e aos países do Leste Europeu, e após ter vivido a experiência dos primeiros anos de transição para o socialismo em Cuba, ele se mostra cada vez mais crítico. Suas divergências são expressas publicamente em várias ocasiões, especialmente durante o célebre Discurso de Argel [3], em 1965. Mas é a partir de 1963-1964, durante o grande debate econômico realizado em Cuba, que aparecem suas tentativas de formular uma abordagem distinta do socialismo.

Um combate contra o “socialismo de mercado”

Tal debate opõe os partidários de uma espécie de “socialismo de mercado” — com autonomia das empresas e busca da rentabilidade, nos moldes soviéticos — e Guevara, que defende o planejamento centralizado, baseado em critérios sociais, políticos e éticos. Muito mais do que bonificações pelo rendimento e preços fixados pelo mercado, ele propõe que alguns bens e serviços sejam gratuitos. No entanto, há uma questão que permanece não muito clara nas intervenções de Che: quem toma as decisões econômicas fundamentais? Em outras palavras, como ele trata a questão da democracia no planejamento?

A respeito desse tema, e de vários outros, os documentos inéditos de Guevara, recentemente publicados em Cuba, oferecem novas perspectivas. Trata-se de suas Notas Críticas ao Manual de Economia Política: uma reflexão sobre o famoso texto da Academia de Ciências da URSS – um desses “calhamaços” que ele criticava na carta dirigida a Hardt. Foram redigidas durante sua estada na Tanzânia e, principalmente, em Praga, em 1965-1966. Não é um livro, nem mesmo ensaio, mas uma coleção de trechos da obra soviética, seguidos de comentários freqüentemente ácidos e irônicos [4].

Há muito tempo, esperava-se a publicação do documento. Durante décadas, esse permaneceu “fora de circulação”: no máximo foi permitido a alguns pesquisadores cubanos consultá-lo e citar certas passagens [5]. Graças a Maria Del Carmen Ariet Garcia, do Centro de Estudos Che Guevara de Havana, que o organizou, agora ele está à disposição dos leitores interessados. Essa edição ampliada contém, aliás, outros materiais inéditos: uma carta de Fidel Castro, de abril de 1965, que serve de prólogo ao livro; notas sobre os escritos de Marx e de Lênin; uma seleção de anotações das conversas de Guevara com seus colaboradores do ministério das Indústrias, em 1963-65 (já publicadas, parcialmente, na França e na Itália, na década de 1970); cartas a diversas personalidades (Paul Sweezy, Charles Bettelhein); trechos de uma entrevista ao jornal egípcio El-Taliah (abril de 1965).

A obra é, ao mesmo tempo, um testemunho da independência de espírito de Guevara, de seu distanciamento crítico em relação ao “socialismo real”, e de sua busca de uma via radical. E mostra também os limites da sua reflexão.

Visão limitada do stalinismo, crítica ácida ao bloco “socialista”

Comecemos pelos limites: Che, naquele momento (não se sabe se sua análise a esse respeito avançou em 1966-1967), não compreendeu a questão do stalinismo. Ele atribui os impasses da URSS na década de 1960 à Nova Política Econômica (NEP) [6]] pós-de Lênin! Certamente, pensa que se Lênin tivesse vivido mais tempo (“Ele cometeu o erro de morrer”, observa com humor) teria corrigido os seus efeitos mais retrógrados. Permanece convencido de que a introdução de elementos capitalistas pela NEP conduziu às tendências nefastas, indo no sentindo da restauração do capitalismo, que observava na União Soviética de 1963.

Mas nem por isso suas críticas à NEP são sem importância. Elas coincidem, às vezes, com aquelas formuladas pela oposição de esquerda da URSS, em 1925-1927. Por exemplo, quando constata que “os quadros se aliaram ao sistema, constituindo uma casta privilegiada”. Mas a hipótese histórica que torna a NEP responsável pelas tendências pró-capitalistas da URSS de Leonid Brejnev é decididamente pouco operacional. Não que Guevara ignorasse o papel nefasto de Stálin. Em uma de suas notas críticas, encontramos esta frase precisa e surpreendente: “O terrível crime histórico de Stálin” foi “o de ter desprezado a educação comunista e de ter instituído o culto ilimitado da autoridade”. Mesmo que ainda não represente uma análise do fenômeno stalinista, já é uma rejeição categórica.

Em Discurso de Argel, Che exigia dos países que se diziam socialistas que pusessem fim a sua “cumplicidade tácita com os países exploradores do Ocidente”, prática traduzida em relações de troca desiguais com os povos em luta contra o imperialismo [7]. Essa questão é retomada várias vezes nas Notas críticas ao manual soviético. Enquanto os autores dessa obra oficial elogiam “a ajuda mútua” entre países socialistas, o revolucionário argentino é obrigado a constatar que isso não corresponde à realidade: “Se o internacionalismo proletário presidisse os atos dos governos de cada país socialista, seria um sucesso. Mas o internacionalismo foi substituído pelo chauvinismo (de grande potência ou de pequeno país) ou pela submissão à URSS. Isso fere todos os sonhos honestos dos comunistas do mundo.”

Algumas páginas adiante, em comentário irônico sobre a exaltação que o manual faz à divisão do trabalho entre os países socialistas, fundada numa “colaboração fraternal”, Guevara observa: “O balaio de gatos que é o Comecon [8] desmente tal afirmação na prática. O texto se refere a um ideal que “somente poderia se estabelecer pela verdadeira prática do internacionalismo proletário, mas que está, lamentavelmente, ausente hoje em dia”. Na mesma linha, outra passagem constata (com amargura) que, nas relações entre os países que se diziam socialistas, encontram-se “fenômenos de expansionismo, troca desigual, concorrência, até certo ponto de exploração e certamente de submissão dos Estados fracos aos fortes”.

Uma tentativa de articular planejamento com democracia

Por fim, quando o manual fala sobre a “construção do comunismo” na URSS, Che comenta: “O comunismo pode ser construído em um único país?”. Uma outra observação segue o mesmo raciocínio: Lênin, observa o revolucionário, “afirmou claramente o caráter universal da revolução, coisa que a seguir foi negada” – crítica explícita ao “socialismo em um só país” [9].

A maior parte das críticas de Guevara ao manual soviético corresponde de perto aos seus escritos econômicos de 1963-1964: defesa do planejamento central contra a lei do valor e as fábricas autônomas, que funcionam segundo as regras do mercado; defesa da educação comunista contra os estímulos materiais individuais. Ele também se preocupa com o recebimento de uma parte dos benefícios pelos dirigentes das fábricas, o qual considera um princípio de corrupção.

Che defende o planejamento como eixo central do processo de construção do socialismo, porque ele “libera o ser humano de sua condição de coisa econômica”. Mas reconhece – em carta a Fidel – que em Cuba “os trabalhadores não participam da elaboração do plano”.

Quem deve planejar? O debate de 1963-1964 não havia respondido à questão. Os avanços mais interessantes que encontramos nas notas críticas de 1965-1966 são sobre tal assunto: algumas passagens apresentam de forma clara o princípio de uma democracia socialista, na qual as grandes decisões econômicas são tomadas pelo próprio povo. “As massas”, escreve Che, “devem participar da elaboração do plano, ao passo que sua execução é um assunto puramente técnico”. Na URSS, em sua opinião, a concepção do plano como “decisão econômica das massas, conscientes do seu papel” foi substituída por um placebo no qual as alavancas econômicas determinam tudo. As massas, ele insiste, “devem ter a possibilidade de dirigir seu destino, decidir quanto vai para a acumulação e quanto vai para o consumo”. A técnica econômica deve operar com esses números – decididos pelo povo – e “a consciência das massas deve garantir a sua realização”.

Reflexão sobre democracia, interrompida por morte prematura

O mesmo tema é retomado em várias ocasiões: os operários, o povo em geral, “decidirão sobre os grandes problemas do país (taxa de crescimento, acumulação/consumo)”, mesmo se o próprio plano for obra de especialistas. Essa separação, por demais mecânica, entre as decisões econômicas e sua execução é discutível, mas, por meio de tais formulações, Guevara se aproxima consideravelmente da idéia de planejamento socialista democrático. Ele ainda não extrai disso todas as conclusões políticas (democratização do poder, pluralismo político, liberdade de organização), mas não se pode negar a importância dessa nova visão da democracia econômica [10].

Tais notas podem ser consideradas uma etapa importante no caminho de Che para uma alternativa comunista/democrática ao modelo soviético. Um caminho brutalmente interrompido, em outubro de 1967, pelos assassinos bolivianos a serviço da CIA (a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos).

[1] Tal carta, durante muito tempo inédita, é reproduzida por Nestor Kohan em Ernesto Che Guevara. Otro mundo es posible (Buenos Aires, Nuestra America, 2003, pp.156-158).

[2] Martínez Heredia: “Che, el socialismo y el comunismo”, em Pensar el Che, Centro de Estudios sobre América (Havana, Editorial José Marti, 1989, tomo II, p. 30).

[3] Fragmentos do Discurso de Argel estão disponíveis, em espanhol e formto “pdf”, na página web do Centro de Estudos Manuel Rodríguez, do Chile

[4] Ernesto Che Guevara: Apuntes criticos a la economia politica (Havana, Ocean Press, Editorial de Ciencias Sociales, 2006).

[5] Conforme Carlos Tablada: El pensamiento economico de Ernesto Che Guevara (trinta edições desde 1987, a última pela Ruth Casa Editorial, Panamá, 2005). E também Orlando Borrego: El camino del fuego (Havana, Imagen Contemporánea, 2001).

[6] Política iniciada a partir de 1922, após o fracasso da onda estatista que se seguiu à revolução de 1917, e que ficou conhecida por “Comunismo de Guerra”. A NEP, vista por Lênin como um recuo necessário, devolveu parte dos meios de produção a seus antigos proprietários, ou permitiu que fossem administrados em moldes capitalistas. Nota de edição brasileira

[7] Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967. Paris: François Maspero, 1970, tomo II, p. 574.

[8] Espécie de mercado comum dos países do “socialismo real”.

[9] Em contradição com os preceitos “internacionalistas” antes defendidos por Lênin, a teoria política, defendida por Stálin, em 1924, foi adotada pelo XIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética em dezembro de 1925.

[10] É interessante observar que, nas discussões com seus colaboradores do ministério da Indústria, publicadas no mesmo volume, várias vezes encontramos a defesa, por Guevara, do princípio da livre discussão. Dessa forma, em um debate de dezembro de 1964, ele insiste: “Não é possível destruir uma opinião pela força, isso bloqueia o livre desenvolvimento da inteligência”.

“Le Monde diplomatique”

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Uma visão sobre Cuba

Dirlene Marques

Influenciados pela propaganda, fomos a Cuba procurando a miséria; o povo deveria ser muito passivo para manter uma ditadura de 49 anos

Dirlene Marques

Participei de um grupo de mineiros que esteve em Cuba do dia 20 de janeiro a 5 de fevereiro de 2008, nas Brigadas de Solidariedade. A carta renuncia de Fidel e os comentários da imprensa e das diversas pessoas que encontro me levaram a escrever este texto, considerando o que vivi, vi, ouvi, observei e estudei.

Como todas (os) brasileiras (os), influenciadas (o) pela intensa propaganda, fomos a Cuba procurando a miséria e a ditadura. E, no nosso subconsciente, o povo deveria ser muito passivo e muito bronco, para manter uma ditadura de 49 anos.

E o que encontramos? Tivemos um choque, pois encontramos um povo com um nível cultural bem acima da media do povo brasileiro. Tivemos liberdade de ir e vir, de bisbilhotar, entrar em todos os lugares e de conversar com todos. Alias, ate de forma muito invasiva, entravamos nas casas, nas escolas infantis, nos n museus. Procurávamos crianças e adultos de pés no chão, mendigando, dormindo debaixo de marquises, casas miseráveis. Só então entendemos a verdade do outdoor próximo ao aeroporto: “Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma e cubana”. Outro: “A cada ano, 80 mil crianças morrem vitimas de doenças evitáveis. Nenhuma delas e cubana”. E nos sabemos que milhares delas são da 8a. economia do mundo, a brasileira.

Além disto, chegamos um dia apos o encerramento do processo eleitoral, com a eleição do Parlamento, eleição não obrigatória que teve 95% de participação. E, para nossa surpresa, ficamos sabendo que o Partido Comunista Cubano não e uma organização eleitoral e portanto não se apresenta nas eleições e nem postula candidatos. Os candidatos são tirados diretamente, em assembléias publicas nas diversas formas de organizações existentes: do bairro, das mulheres, jovens, estudantes, campesinas. Que depois vão se reunindo por região, estado e finalmente, no nível nacional.

Estes representantes nacionais elegem o presidente e o vice. Todos os representantes podem ser destituíveis, a qualquer momento, pelas suas bases, caso não estejam respondendo ao projeto de sua eleição. E vimos como 46% dos eleitos são mulheres (no Brasil conseguimos as cotas de 30% para disputar e não eleitas). As estruturas de funcionamento são mais próximas de uma democracia direta. Parece-me um contra-senso chamar este processo de ditadura. Seguramente, e diferente da democracia burguesa, onde apos colocar o voto na urna finda a obrigação do eleitor. Os críticos valem-se da mágica de que “o que e bom para os EUA e bom para o resto do mundo”. Desconhecem, e não querem que seja conhecido, outro processo de participação popular, como o cubano.

Tentando também entender o que víamos, um povo simples e culto, simpático e sem stress, procuramos estatísticas: alfabetização de 99,8% (no Brasil 86,30%) e que de 1959 a 2007, a quantidade de escolas passou de 7.679 a 12.717, os professores passaram de 22.800 para 258.000, com uma população em torno de 11 milhões de habitantes sendo o pais que o maior índice de professores por habitante do mundo. No IDH 2007 da ONU, o Brasil comemorou o fato de figurar em 70º lugar.

Cuba figura em 51º lugar. O país conta com 70.594 médicos para uma população de 11,2 milhões (1 médico para 160 habitantes); índice de mortalidade infantil de 5,3 para cada 1.000 nascidos vivos (nos EUA são 7 e, no Brasil, 27); 800 mil diplomados em 67 universidades gratuitas, nas quais ingressam, por ano, 606 mil estudantes. Dados da Unesco em 2002 relatavam que 98% das residências cubanas possuíam instalações sanitárias adequadas (contra 75% das brasileiras). Dados da CIA, central de inteligência americana, estimava em 1,9% o desemprego em Cuba. No Brasil , segundo a mesma fonte, o índice era de 9,6% no ano de 2007. E que, a expectativa de vida ao nascer na ilha era de 77,41 anos e no Brasil era de 71,9 anos.

Esses números a despeito de ser uma pequena ilha, ao alcance de um tiro de canhão disparado de Miami e que resistiu a uma tentativa de invasão norte-americana (Baía dos Porcos, 1961) e a várias outras de assassinato de Fidel Castro e ações terroristas orquestradas pela CIA, ter um bloqueio econômico e político apenas rompido por países com autonomia como Venezuela, Bolívia, China e alguns países da Europa.

E nós, com a arrogância de quem tem toda a informações pela imprensa livre brasileira (sic), continuávamos procurando outros sinais de desmandos: e os presos políticos?

De fato, há pessoas detidas, mas não pelo que pensam, mas pelo que fazem, como o de organizar grupos financiados pela embaixada dos EUA. Fora isso, todas as personalidades importantes da dissidência estão em liberdade e tem suas atividades políticas como Martha Beatriz Roque, Vladimiro Roca e Oswaldo Paya. É importante ressaltar que Cuba sofreu intensamente com o terrorismo nos últimos 40 anos, perfazendo mais de 3500 mortos. E fica fácil mostrar a postura dos EUA com documentos oficiais, confirmando o financiamento de cubanos exilados para promover ações contra o governo cubano.

O museu na Praia Giron (ou Baía dos Porcos) e um monumento de denuncia as ações terroristas, iniciadas desde 1961 quando o se rompe às relações e se instaura o bloqueio. Em 1963, o democrata Kennedy, aprova o plano de manter todas as pressões possíveis com o fim de perpetrar um golpe de Estado. E, sabemos quantas vezes, ao longo destes anos, tentaram matar Fidel Castro, obrigando-o a sequer ter uma residência fixa. Nos anos 90, a Lei Torricelli reforça o bloqueio econômico e, na seção 1705 diz que “Os Estados Unidos proporcionara assistência governamental adequada para apoiar a indivíduos e organizações não governamentais que promovam uma mudança democrática não violenta em Cuba”.

Esta lei vai ser reforçada na administração de Clinton, pela lei Helms-Burton quando diz: “O presidente dos EUA esta autorizado a proporcionar assistência e oferecer todo tipo de apoio a indivíduos e organizações não governamentais independentes com vistas a construir uma democracia em Cuba”. E, o governo Bush não podia ficar atrás e, em 2004 aprovou um financiamento de 36 milhões de dólares para financiar a oposição a Cuba, em 2005 mais 14,4 milhões de dólares, em 2006 mais 31 milhões de dólares alem do financiamento de 24 milhões de dólares para a Radio e TV Marti, transmitida dos EUA para Cuba neste caso, infligindo a legislação internacional que proíbe este tipo de transmissão. Estes valores são fantásticos -105,4 milhões em apenas 3 anos.

Outra dificuldade é entender o funcionamento da economia cubana. Logo após a revolução faz-se uma ampla reforma agrária, instalando uma via muito particular no campo, onde de um lado manteve alguns proprietários privados, como o de tabaco, e de outro, constituindo cooperativas voluntárias ao lado das propriedades estatais. O setor serviços foi todo ele estatizado. Após os anos 90, com as dificuldades dada pela intensificação do bloqueio e com o fim da União Soviética, foi feita uma grande abertura para entrada do capital internacional no setor turismo, sem desconhecer o risco que isto poderia acarretar. O setor de transformação, inicialmente todo ele estatizado, hoje tem tido parcerias.

Com o nosso olhar de classe méia, que podemos fazer uma viagem internacional, nos chocava alguns problemas com a vida cotidiana como habitações pobres, transporte publico precário, limitações econômicas para se ter ate papel higiênico (isto deixava a todos pensando, pobrezinho dos cubanos). Isso é verdadeiro, alem destes problemas da vida cotidiana, vários outros nos foram apresentados pelo secretário do partido comunista, que fez uma palestra para os brigadistas: o aumento da prostituição, dos pequenos delitos, da corrupção e da desigualdade social.

Quando se investiu no turismo e posteriormente, com a criação da moeda turística (o peso conversível), cresce de um lado a entrada de divisas e de outro, possibilitou um rendimento, para os trabalhadores destes setores, acima do restante da população, ocasionando um aumento da desigualdade social. Afirma ele que vivem numa quádrupla ilha: geográfica; única nação socialista do Ocidente; órfã de sua parceria com a União Soviética e bloqueada há mais de 40 anos pelo governo dos EUA. E buscando respostas coletivas para estes problemas, desencadearam um processo interno de críticas e sugestões à Revolução, através das organizações de massa e dos setores profissionais. São mais de 1 milhão de sugestões que pretendem trabalhar, mas mantendo os princípios do socialismo: solidariedade e não a competitividade, o coletivo e não o individualismo.

Mas, para nos brasileiros de classe media (somos quantos? Depende da estatística mas varia de 5 a 10%), que podemos fazer uma viagem internacional e que não conhecemos a realidade dos 90% do povo brasileiro que não tem como pagar um plano de saúde, que tem pouca alimentação, que fica com os restos do desperdício dos 10%, com uma educação precária, e difícil entender a lógica econômica de uma sociedade voltada para os 100% da população. E ficamos horrorizados por eles não terem papel higiênico. Mas não nos deixam horrorizados que tenham bibliotecas e livrarias em toda escola e em toda cidadezinha. Ou que tenham acesso à saúde e educação da melhor qualidade, habitação com saneamento e aparelhos eletrodomésticos novos para economizar energia. Ou, que não tenhamos encontrado erosão por todos os lugares que andamos.

E a busca do conhecimento? E as escolas? Como e possível ver os círculos infantis, crianças de 1 a 4 anos, assentadas ouvindo historias, sem a professora estar gritando, mandando ficarem quietas? E ver os portões destas escolas abertas e as crianças não fugirem? Como e possível não ter o stress que, temos em nossas escolas? E, conversando com as crianças do pré-escolar e do escolar (5 a 11 anos), ficávamos surpresas com as perguntas cheias de inteligência e informação sobre nosso pais, que faziam aquelas pequenas crianças? E, como nos permitiam entrar nas salas de aulas, fotografar, bisbilhotar as bibliotecas onde encontrávamos livros de Marx a Lênin, de Jorge Amado, Machado de Assis, a Shakespeare.

Imagine isto aqui no Brasil? Ficávamos encantadas. Eu, como professora da UFMG, tida como uma das melhores do Brasil, me encantava com aquelas bibliotecas. E as livrarias? Na pequenina Caimito onde ficava o acampamento, literalmente invadimos uma livraria, comprando tudo quanto e tipo de livro, pela sua qualidade e pelo preço (comprei um livro do Boaventura de Souza Santos por 8 pesos cubanos – que equivale mais ou menos a R$ 0,50 -, outro do Che Guevara sobre Economia Política de 397 págs. por 22 pesos cubanos, portanto em torno de R$ 1,40 (e dai para frente).

E o investimento na potencialidade do ser humano não pára ai. O desenvolvimento das artes – dança, pintura, musica, poesia, desportos – e encontrado em cada escola, em cada esquina, em cada cidade.

E claro que também tivemos as frustrações no contato com algumas pessoas, especialmente em Havana onde impera o espírito da cidade turística, onde se busca sempre ganhar alguma coisa, passar a perna, apenas diferenciando pela intensidade dos problemas, com as nossas cidades turísticas como Rio de Janeiro. Só que e mais ingênuo, meio estilo anos 60. De todo jeito, frustrante. Também nos entristeceu encontrar tantos cubanos sonhando em sair da ilha, acreditando, por exemplo, que o Brasil é um paraíso, visão que tem através das telenovelas (que todos assistem).

E assim, uma sociedade muito diferente que nos estimula e atrae. Alias, nada melhor para expressar isto do que a crônica do Clovis Rossi (O “pop star” se aposenta) do dia 20 de fevereiro na Folha de São Paulo contando o episodio de um encontro do GATT, que contava com a presença dos chefes de estados, diferentes autoridades mundiais e jornalistas de todo o mundo. Onde o burburinho na sala do encontro e na sala dos jornalistas era enorme, com a atenção dispersa. Quando se anunciou Fidel Castro houve um grande burburinho, com todos procurando o melhor lugar para assisti-lo e “ao terminar, uma chuva de aplausos, inclusive de seus pares, 101% dos quais não tinham nem nunca tiveram nenhum parentesco e/ou simpatia com o comunismo. Difícil entender o que aconteceu ali.”

Para terminar, quero colocar uma idéia desenvolvida na mesa redonda integrada por vários cientistas cubanos e sintetizada pelo jornalista Jesus Rodrigues Diaz, falando sobre o potencial no desenvolvimento do conhecimento quando ele se da de forma coletiva. E que no capitalismo existe uma grande contradição entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação. Dai, a reação do capitalismo ao papel crescente do conhecimento na economia e a busca da privatização do conhecimento, principalmente através da propriedade intelectual, das barreiras regulatórias e do roubo dos cérebros.

“Temos que insistir também que, quando falamos do Potencial Humano criado pela revolução, não nos referimos exclusivamente à quantidade de conhecimentos técnicos incorporados em nossa população. Mais importante ainda é a semeadura de valores éticos, de atitudes ante a vida. Na sociedade do conhecimento faz falta um cidadão com vocação de aprender e de criar, e de levar seus conhecimentos aos demais seres humanos. Os conhecimentos técnicos nos podem dizer como se trabalha, porem são os valores os que nos fazem compreender porque se trabalha e deles tiramos as motivações e as energias para seguir adiante.

Que se passa agora se os conhecimentos se voltem ao fator mais importante da produção, inclusive os bens de capital? Não e difícil de prever. A resposta do capitalismo e a intenção de converter também o conhecimento em Propriedade Privada. Porem, a boa noticia e que isto não vai funcionar. O conhecimento não e igual ao Capital. Esta nas pessoas e não se pode facilmente privatizar. O conhecimento requer circulação e intercambio amplo. As leis da propriedade intelectual inibem este intercambio. O conhecimento e validado pela sua aplicação social, não pela sua venda. O uso amplo dos produtos do conhecimento e o que os potencializa”, termina o jornalista. Esta e a grande limitação do raciocínio capitalista em entender a potencialidade da criação coletiva. Ignoram que a criação humana coletiva tem muito mais possibilidades do que as leituras positivistas do conhecimento.

O maior feito desta pequenina ilha, com um povo cheio de dignidade e coragem, terá sido o de mostrar ao mundo que e possível construir uma sociedade baseada no ser humano e não na mercadoria e na acumulação de capital. E isto ameaça o mundo capitalista, e é rejeitada pela imprensa burguesa e pelos setores médios que querem impor as condições de suas vidas para a totalidade do mundo. Mas, Cuba não esta só. Existe hoje uma rede internacional de solidariedade ocasionada pelos médicos e professores cubanos em mais de 100 países, pela Operação Milagros, pelas brigadas de solidariedade e por todos aqueles que acreditam que um Outro Mundo é Possível e que lutam pela sua construção.

Dirlene Marques é economista, professora da UFMG, coordenadora do Fórum Social Mineiro.

“Brasil De Fato”

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Considerado a maior vítima da mudança climática, Bangladesh se prepara para enfrentar a água

Engenheiros holandeses estão ajudando as pessoas em Bangladesh a construir diques, pôlderes e estruturas para reter água para protegê-las das enchentes recorrentes. Apesar das mudanças climáticas, o país poderá até mesmo crescer. Mas no final, a maior ameaça em Bangladesh vem do caos político

Gerald Traufetter

Fortunato Carvajal Monar está no ramo de criação de terras. E esta manhã de sábado está prometendo ser o início de um bom dia de trabalho.

O sol bate na água suja do Rio Ganges, fazendo com que cintile em cores douradas. Carvajal Monar salta energicamente de uma lancha na areia. Ele caminha alguns poucos passos antes de chegar a uma saliência de aparência estranha, que já tinha atraído sua atenção quando a viu por binóculos.

A saliência tem meio metro de altura. Linhas de areia de cor leve estão ensanduichadas entre camadas de argila escura. Carvajal Monar espeta sua caneta esferográfica no solo para testar a consistência do material. “Tem menos de um ano de idade”, conclui sucintamente o engenheiro hidráulico de 59 anos.

Ele puxa a moita grossa de grama que cresceu no solo macio. “Esta ilha se desenvolveu muito recentemente”, ele diz. Vastas quantidades de sedimento foram levadas pelas águas durante a última enchente, e com base em sua experiência, diz Carvajal Monar, “a ilha continuará crescendo”.

Natural da Colômbia, Carvajal Monar freqüentemente pisa em novas terras neste país, que todos dizem estar condenado. Ele trabalha para a empresa de consultoria holandesa Royal Haskoning em Bangladesh, um país que é considerado uma das maiores vítimas das mudanças climáticas.

Carvajal Monar às vezes considera os cenários apocalípticos surpreendentes. Eles simplesmente não condizem com suas experiências em Bangladesh. “Este país tem oportunidades tremendas para crescer”, diz Carvajal Monar, enquanto abre um mapa mais velho e aponta para a Baía de Bengala. “Aqui, por exemplo, não há muito neste mapa que ainda esteja correto.”

O país é tão efêmero quanto a vida humana. “Terra está desaparecendo por toda parte, mas novas terras estão se formando por toda parte”, diz Carvajal Monar. “O problema é que os políticos daqui carecem de uma estratégia de longo prazo para ganho, desenvolvimento e proteção da nova terra.” Seus dedos deslizam mais ao sul ao longo do mapa, entrando na Baía de Bengala, onde a cor leve indicando água se torna azul escura. Isto representa o início da rampa continental, onde o fundo do oceano mergulha centenas de metros e, ao longo dela, 2,4 bilhões de toneladas de sedimentos não usados. que os grandes rios em Bangladesh, o Ganges, Brahmaputra e Meghna, escoam pelos seus leitos de quilômetros de largura. Carvajal Monar calculou que um ano deste sedimento é suficiente para criar 200 quilômetros quadrados de novas terras.

“Atualmente, grande parte do sedimento simplesmente desaparece em alto-mar”, ele diz. Isto, segundo Carvajal Monar, é praticamente um pecado mortal em um país que deveria ter iniciado há muito tempo um programa para usar o lodo, mica e argila férteis para proteger sua costa, protegendo assim futuras gerações de afogamento.

Não é por acaso que ele trabalha para uma empresa de engenharia holandesa. A Holanda e Bangladesh compartilham um destino semelhante. Ambos os países são planos e grande parte de seu território fica abaixo do nível do mar, o que os força a se protegerem constantemente de inundações. “Na Holanda, isto há muito é visto como uma oportunidade, não como uma ameaça”, diz Carvajal Monar.

Na verdade, hidrologicamente falando, a Holanda é um país que nem deveria existir. Mas uma hábil engenharia garante a existência bem-sucedida da Holanda. Pôlderes, diques e estruturas de retenção de água protegem seu território contra o mar. Segundo Carvajal Monar, “isto é precisamente o que poderíamos fazer em Bangladesh, mas infelizmente estamos avançando de forma lenta demais”.

Fora os paralelos morfológicos, a Holanda e Bangladesh têm pouco em comum. O país muçulmano no canto leste do subcontinente indiano, que se tornou independente do Paquistão em uma guerra sangrenta no início dos anos 70, foi devorado por uma cleptocracia corrupta que foi derrubada por um golpe militar em janeiro. Um governo interino controlado por generais governa o país atualmente. O caos na política se estende profundamente pelos ministérios e pela burocracia do governo, adiando decisões -o grande obstáculo na construção de novas estruturas para proteção contra inundações.

A Holanda já está pagando por uma série de projetos que visam proteger os flancos vulneráveis do país ao longo da costa e das margens dos rios. Um diagrama traçando um desses projetos está pregado em um painel no escritório de Carvajal Monar em Dacca, capital de Bangladesh. É um plano que poderia expandir a massa de terra do país em vários quilômetros quadrados. Na região do delta do Meghna, pela qual 160 mil metros cúbicos de água fluem a cada segundo, Carvajal Monar quer conectar ilhas recém formadas por meio de barragens. A estrutura forçaria o rio a depositar grandes quantidades de sedimentos ao longo de suas margens. “Mas o projeto está parado”, se queixa Carvajal Monar. “E isso em um país de 150 milhões de pessoas onde a terra agrícola está encolhendo 1% ao ano.”

As coisas estão se movendo em um ritmo mais rápido em Hatia. Antes eram duas pequenas ilhas no delta do Meghna, mas então chegaram os engenheiros holandeses e ajudaram os bengaleses a conectarem as duas ilhas mais ao norte com o continente. Agora tratores estão cavando fossos para formar a característica estrutura retangular do pôlder familiar a todo turista que já esteve na Holanda -a única diferença sendo que em Bangladesh bananeiras estão plantadas nos diques em vez de choupos.

Zulfiquer Azeez é um dos engenheiros que, sob a supervisão de Carvajal Monar, é responsável pelas obras de construção. Ele está familiarizado com a retangularidade verde da Holanda após uma visita ao país há poucos anos. “Mas aqui nós nunca sonharíamos em construir campos de golfe em terra recém recuperada”, diz Azeez, um bengalês de 41 anos. “Quase cada pedaço dela é usado para plantações.”

Um trator está reunindo o solo cinza e pegajoso. A apenas poucos metros de distância, mulheres da aldeia se ajoelham diante de um pedaço de metal corrugado e viram pimentas para secar ao sol. O dique em breve protegerá as pessoas daqui das enchentes da primavera e das ondas gigantes que regularmente são provocadas por ciclones. Um bunker protetor em palafitas é parte integral do equipamento básico do pôlder tanto quanto seus canais de drenagem. “Sem eles a terra se tornaria salinizada”, explica Azeez.

Mas até mesmo a terra desprotegida diante do dique é usada tão logo se projeta apenas poucos centímetros acima do nível da água. Uma das audaciosas é Shamsun Nahar, cuja choupana de bambu fica em uma pequena colina de terra. como uma versão de Terceiro Mundo das pequenas ilhas nas planícies de lama de Frisland, no norte holandês, conhecidas como Halligen. Ela planta no solo aluvial fértil com seus quatro filhos, e o chama de “um presente de Alá”. Nahar chegou aqui há apenas poucos meses. Seu marido trabalha no sudeste do país, ou nas docas ou como condutor de riquixá. De fato, Nahar não sabe ao certo o que ele está fazendo no momento, porque, sem um celular, ela não tem como manter contato com seu marido. Ela também não possui um rádio para alertá-la contra ciclones.

Ela envia seu filho para trazer as redes. Sem a pesca, a família não conseguiria sobreviver. A maré atingiu a ponta do dique e a água está se agitando diante de sua choupana.

Nahar sabe muito bem quão perigosas vastas quantidades de água podem ser, e ainda assim ela corre o risco de viver à beira da água, na esperança de se tornar a proprietária da terra recuperada. Segundo as leis não escritas dos nômades das marés, o governo no final dará a propriedade da terra recuperada aos primeiros que tiverem sucesso em tomar posse dela.

Uma rajada de vento envolve Nahar em uma nuvem de poeira fina. O vento mudou de direção e agora está soprando do sul. A estação seca, que geralmente dura de novembro a abril, está chegando ao fim.

Domando rios monstros
Um vento sul é um sinal de aproximação da monção de verão, um tempo em que os esforços de Gerard Pichel serão testados. O engenheiro holandês está tentando domar os rios que incham em monstros selvagens durante a monção.

Pichel está a caminho do Jamuna, como o Brahmaputra é chamado no lado bengalês da fronteira. Um hidrólogo da DHV, uma firma de engenharia da cidade da Amersfoort, na região central holandesa, Pichel, em um projeto conjunto do Ministério dos Recursos Hídricos em Dacca, protegeu as margens do rio com diques e dois quebra-mares que se projetam do rio em ângulos retos. A enchente da última monção arrancou partes da amurada. “Não podemos permitir que um desastre semelhante aconteça desta vez”, diz Pichel.

Os bengaleses construíram os quebra-mares em um ângulo reto e não em um ângulo oblíquo. Como resultado, o lado diante da corrente fica exposto à força plena da água. “Nós cometemos o mesmo erro na Holanda no passado”, diz Pichel, balançando sua cabeça. “Mas não é preciso cometer os mesmos erros duas vezes.”

Ele já descobriu erros de engenharia hidráulica incômodos ao longo de todo o caminho de Dacca até o Jamuna: aberturas de ponte que são pequenas demais, estruturas de retenção de água dimensionadas de forma imprópria. Além disso, muito dinheiro está sendo gasto em investimentos errados. A companhia aérea estatal acabou de anunciar planos para gastar mais de US$ 1 bilhão em novos aviões. Pela mesma quantia, milhões de pessoas poderiam ser salvas de enchentes. Na verdade, muitas coisas seriam possíveis. Engenheiros desenvolveram formas de domar a natureza, com uma barragem bem situada, por exemplo, forçando o rio a depositar sedimentos ao longo de suas margens. Segundo Pichel, a tecnologia é “mais rápida do que qualquer draga e não custa nada.”

Mas a barragem precisa ser construída manualmente. Os cenários que se desdobram diante dos olhos de Pichel lembram a construção das pirâmides. Usando umas macas de madeira, homens encharcados de suor arrastam blocos de pedra de um barco, se deparam com a tábua de bambu do barco ao canal e jogam a pedra na água.

Para Pichel, as mudanças climáticas representam apenas outro desafio de engenharia. Além disso, os indianos, e não o aquecimento global, são os principais responsáveis pelos problemas agudos de enchente de Bangladesh.

O país vizinho muito maior construiu barragens gigantes para explorar seus grandes rios. Como resultado, os indianos estão interferindo em um equilíbrio que é crítico para Bangladesh. “Quanto menos água flui do norte para o mar, mais a água do mar avança rio acima”, diz Pichel. O resultado fatal é a salinização dos campos no sul e menores safras agrícolas.

Exatamente o oposto ocorre durante o período da monção. Para se protegerem contra as enchentes, os indianos abrem suas comportas, o que causa inundações rio abaixo em Bangladesh.

As mudanças climáticas poderiam causar derretimento adicional das geleiras no Himalaia, levando a um nível mais elevado das águas nos rios. “Mas isso seria praticamente marginal em comparação aos atuais problemas de enchentes em Bangladesh”, diz Pichel.

O conhecimento sobre os riscos das mudanças climáticas ainda não chegou ao novo pedaço de terra plana na Baía de Bengala. “Eu já ouvi certa vez os homens na cidade conversando a respeito”, diz Shamsun Nahar, a agricultora em seu pequeno pedaço de terra recuperada em Hatia.

Nahar não sabe o que é pior: os caprichos da natureza ou os dos seres humanos. Há algum tempo, alguns homens de Dacca apareceram com falsos documentos e um grupo de capangas, e expulsaram os vizinhos dela de suas terras. “Quem nos protege?”, ela pergunta retoricamente. “Ninguém!”

“Der Spiegel”

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Estados Unidos pretendem reduzir limite de subsídio agrícola para US$ 15 bilhões

Alan Beattie

Na terça-feira (22) os Estados Unidos tomaram a primeira medida significativa na reunião politicamente tensa de ministros do Comércio, em Genebra, reduzindo o teto proposto dos subsídios agrícolas para US$ 15 bilhões ao ano.

A medida diminuiria em cerca de US$ 2 aqueles subsídios agrícolas norte-americanos capazes de distorcer o comércio internacional - em relação à atual oferta feita na chamada “rodada Doha” de negociações comerciais - para um valor bem menor do que o teto atual de cerca de US$ 48 bilhões.

Mas o valor ficaria confortavelmente acima do recentes subsídios à agricultura que distorcem o comércio, com valor estimado de US$ 7 bilhões a US$ 9 bilhões anuais.

A oferta exigiria uma reformulação substancial da legislação agrícola - o generoso programa de cinco anos de subsídios agrícolas recentemente aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos, que superou uma tentativa de veto por parte da Casa Branca.

Brasil e Índia, dois dos principais parceiros nas conturbadas negociações na Organização Mundial de Comércio, rejeitaram a oferta, alegando que ela é inadequada. “Foi uma tentativa boa, mas insuficiente”, afirmou um porta-vos do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim. “Esta não é a oferta final que eles são capazes de fazer”.

A União Européia, que sofrerá pressões para reduzir os seus subsídios caso os Estados Unidos acenem com cortes maiores, deu maior apoio à proposta, afirmando que se trata de uma oferta razoável no atual estágio, sendo algo que sem dúvida terá um efeito limitador.

A oferta está na faixa de US$ 13 bilhões a US$ 16,4 bilhões sugerida em uma minuta feita pelo diretor de negociações agrícolas da rodada Doha, mas não está mais próxima do limite inferior desta faixa, conforme exigiram muitos países emergentes.

Alguns dos parceiros comerciais dos Estados Unidos, como a Índia, solicitaram no passado que os Estados Unidos concordassem com um teto que implicaria na redução dos seus gastos reais. Susan Schwab, representante comercial dos Estados Unidos, afirmou que o limite de US$ 15 bilhões significaria reduções reais dos gastos em sete dos dez últimos anos. Segundo ela, não se pode acreditar que a disparada dos preços dos commodities, que reduziu os pagamentos de subsídios vinculados aos preços, vá continuar elevada por tempo indefinido.

“Quem estiver sugerindo um número que esteja fora das faixas mencionadas no texto não estará demonstrando seriedade quanto à meta de se chegar a um acordo na rodada Doha”, afirmou Schwab. “Os preços sobem e descem”.

Schwab disse que a oferta foi feita com a condição de que os outros países abram os seus mercados para os produtos agrícolas de exportação norte-americanos, e que concordem em não contestar os subsídios norte-americanos junto à Organização Mundial de Comércio, conforme aconteceu repetidamente em anos recentes. Um desses casos, levado à organização pelo Brasil, obrigou os Estados Unidos a reverem o seu polêmico programa de subsídios para apoio à produção de algodão.

Schwab disse que consultou o Congresso, e que estaria satisfeito com o rumo tomado pela representante comercial. Tom Harkin, presidente do Comitê de Agricultura do Senado dos Estados Unidos, recebeu bem a oferta, mas disse que ela depende de que os outros países concedam aos produtores norte-americanos maior acesso aos seus mercados.

Os produtores de diversos países em desenvolvimento afirmam que os subsídios agrícolas dos Estados Unidos empurram os preços dos commodities para baixo, aviltando o valor desses produtos, embora os Estados Unidos apontem para uma pesquisa do Banco Mundial que mostra que são as tarifas sobre a importação de produtos agrícolas, e não os subsídios, que causam o maior impacto negativo sobre os produtores dos países pobres.

A oferta dos Estados Unidos não modifica a proposta existente no sentido de limitar a forma de subsídio que mais distorce o comércio a US$ 7,6 bilhões anuais, e tampouco cria novos limites para a quantia gasta com uma cultura agrícola específica.

“Financial Times”

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Doha, um erro perigoso

Bélgica e Suíça são famosas pelos chocolates; alguém sabe de algum pé de cacau em Flandres ou na Basiléia? A Alemanha é grande exportadora de cafés industrializados; o leitor já ouviu falar de cafezais no Ruhr? Essas perguntas indicam o que está em jogo na Rodada de Doha: a cristalização da velhíssima divisão internacional do trabalho.

Gilson Caroni Filho

Ao dar sinais de que está disposto a aceitar a proposta encaminhada por Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê cortes tarifários médios de 54% da indústria nos países em desenvolvimento, o Brasil está dando dois passos atrás e guardando um tropeço mais para frente. Cria uma fratura irreversível na aliança dos países emergentes (G20) e estabelece impasses desnecessários no âmbito do Mercosul.

A declaração do chanceler Celso Amorim de que “na hora da verdade, as avaliações podem não ser as mesmas. Cada país terá de tomar a sua decisão” destoam totalmente da política, até então, adotada no plano externo pelo governo Lula.

Como destacamos em artigo recente, o fundamental é fortalecer o Mercosul e estreitar laços com África do Sul, Índia e China. O que soa como pragmatismo é um preocupante indicativo de capitulação. O que está em curso em Genebra é tão cristalino como água de fonte. Doha, e a OMC-como-um-todo, assim como o GATT, velho antecessor, nada mais são que a cristalização da velhíssima divisão internacional do trabalho: os países outrora ditos “do terceiro mundo” entram com mão de obra e recursos naturais (a preços vis), e os países antes ditos “de primeiro mundo”, com tecnologia e manufaturas (com alto valor agregado). Sub-Ricardo, “vantagens comparativas”, fórmulas tão velhas quanto o colonialismo, merecem um lugar de destaque em um antiquário, não na agenda de um governo que estabeleceu uma agenda de inserção soberana no mundo globalizado.

Bélgica e Suíça são famosas pelos chocolates; alguém sabe de algum pé de cacau em Flandres ou na Basiléia? A Alemanha é grande exportadora de cafés industrializados; o leitor já ouviu falar de cafezais no Ruhr? Os exemplos são tantos que não caberiam no espaço desse pequeno artigo. O que interessa é dissipar a cortina de fumaça, derrubar os sofismas que voltaram a embaralhar as cartas da mesa. A começar pelo que se convencionou chamar de luta pela redução de subsídios. Aqui, uma breve explicação se faz necessária.

Há subsídios e subsídios. A “exception culturelle” da França (apesar do uso feito pela direita francesa do conceito de multifuncionalidade), que visa também a preservar culturas e sociedades locais, é uma coisa; o protecionismo estadunidense em prol de gatos gordos daqueles “red states” cujos nomes começam por vogal, outra bem diferente.

Note-se que não ignoramos que, no caso europeu, a sustentação da renda dos agricultores está deixando de ser o pagamento para funções múltiplas, socialmente valorizadas, e não remuneradas pelo mercado, para se transformar em forma de garantir o lugar dos grandes produtores rurais no mercado mundial. Isso posto, há distinções e elas não podem ser ignoradas.

Os produtos primários, de petróleo a grãos, de há muito viraram “commodities”, cujos preços são determinados nos mercados compradores sobre os quais o Brasil não tem qualquer ingerência, interferência ou influências. Qual a nosso grau de intervenção no jogo especulativo das Bolsas de Mercadorias de Chicago, Londres ou New York?

A contrapartida não é verdadeira; as cotações internacionais têm implicações no mercado interno, tanto em termos de oferta quanto de preços. Se a saca de arroz está com valor alto no mercado internacional, a troco de quê “nossos” arrozeiros vão querer vender prá mesa do “João”, a não ser que ele pague preço de “John”, “François” ou “Fritz”, que ainda por cima bancam o custo de transporte?

O noticiário que destaca a pressão dos países ricos por abertura, pelos países pobres e “emergentes”, de seus mercados “apenas” para bens industriais é, sem eufemismos, conversa mole pra “boi pirata” dormir. Afora os ditos “serviços” (bancos, finanças, seguros e resseguros, os serviços públicos ainda não “globalizados” etc.), há a agenda oculta das ditas propriedades industrial e intelectual, de medicamentos a “software”, passando por toda a vastíssima “indústria do entretenimento”.

Nesses termos e pelo exposto, a pergunta é se é mais vantajoso para o Brasil “fazer progressos” em Doha ou, em conjunto com outros paises, forçar o impasse? Tendo como meta a adoção de uma política econômica menos dependente de setores exportadores de produtos primários.

Quando o presidente Lula diz que ”o importante é que há decisão política de que nós podemos fazer um acordo, e ele será bom para todo mundo”, comete um erro perigoso para quem construiu sua trajetória sob o fogo de negociações difíceis. Nada é “bom para todo mundo” quando o jogo é de soma zero. Estamos falando de imperialismo. Aquele que, para não deixar dúvidas, resolveu voltar a içar velar em águas latinas e caribenhas para garantir recursos naturais e um “mercado realmente livre”.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Carta Maior”

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A revanche da agricultura

Frédéric Lemaître

Durante séculos, ela foi o objeto de todas as atenções. Então, atraído pelas luzes da cidade, o homem começou a ignorá-la. Até que no século 20, a agricultura acabou sendo marginalizada de vez, e o agricultor, desprezado. Foram tantos os sinais desta decadência que eles acabaram se tornando incontáveis. Por mais que a França celebre até hoje as dádivas do seu “terroir” (conjunto das terras cultivadas em determinada região e as suas virtudes, consideradas do ponto de vista agrícola), neste país a expressão “camponês” acabou se transformando num insulto. Talvez não seja totalmente por acaso se foi no Salão da Agricultura que Nicolas Sarkozy, emblemático como poucos do homem político eleito nas cidades, disparou o seu famoso “se manda daqui, pobre cretino”. Uma vez que um insulto nunca é gratuito, o presidente, um homem urbano até as extremidades dos seus sapatos, talvez não tivesse feito outra coisa senão dizer em voz alta aquilo que uma boa parte do povo das cidades teve vontade um dia de dizer ao povo do campo.

Este desprezo é mundial. Apesar de 75% dos pobres morarem em zonas rurais, a agricultura não recebe mais do que 4% dos investimentos públicos e 4% das ajudas para o desenvolvimento. Muito além de todas as causas conjunturais que foram enumeradas para explicar o surgimento da atual crise dos alimentos - progressão da demanda, aquecimento climático, concorrência dos biocombustíveis e especulação financeira -, é mesmo esta inexistência de meios empenhados na valorização da agricultura que constitui a sua causa principal.

Duas razões explicam esta inacreditável injustiça que caracteriza a repartição das despesas públicas. Diferentemente dos urbanos, os rurais raramente se reúnem para formar um grupo de pressão. Paradoxalmente, é nos países desenvolvidos, onde eles são menos numerosos, que os agricultores exercem uma maior influência política (e recebem ajudas em maiores quantidades). Acima de tudo, até os últimos meses, o Banco Mundial, junto com a maior parte dos dirigentes, considerava que a agricultura não passava de uma atividade secundária.

Uma vez que nos países desenvolvidos, 4% da população conseguem fornecer alimentos para os 96% restantes, por que então ajudar os agricultores dos países pobres, que quase sempre estão fadados a partirem para a cidade, onde eles irão trabalhar na indústria e nos serviços? Diante disso, o fato de ouvir Robert Zoellick, o presidente do Banco Mundial, se dizer preocupado hoje com a penúria de alimentos, causa perplexidade. Isso porque o Banco Mundial desponta como um dos principais responsáveis pela situação atual. Pois é ele que vem impondo há muitas décadas aos países pobres as metas de reduzir toda e qualquer ajuda financeira e administrativa para este setor e de privilegiar as culturas para a exportação. Em conseqüência desta miopia, que alguns consideram como impregnada de malevolência de tanto que ela atendeu aos interesses dos países ricos, os agricultores dos países pobres sofrem cruelmente de uma carência crônica de formação e de investimentos públicos. Eles são vítimas do fato de a auto-suficiência alimentar ter sido, por muito tempo, considerada como ultrapassada.

Ousemos aqui fazer uma indagação politicamente incorreta: dá para acreditar que se os países ricos se interessassem verdadeiramente pelo desenvolvimento agrícola, eles teriam deixado um africano - o senegalês Jacques Diouf - exercer três mandatos (de 1994 até, em princípio, 2012) à frente da FAO, a agência da ONU encarregada da alimentação? Até mesmo a localização da agência - na Itália - é significativa. Ao lado do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, a FAO não tem peso algum. O que pode fazer esta entidade com sede em Roma contra as autoridades de Washington?

A reviravolta que o Banco Mundial está promovendo neste momento é uma prova disso: as tensões atuais, que são o resultado de vinte anos de erros e de passividade, estão conduzindo os responsáveis a considerarem novamente a agricultura como um setor estratégico. Enquanto a mídia e os homens políticos se interessam, sobretudo, pelo curto prazo (”é preciso agir rápido para salvar o Haiti…”), a FAO não dormiu no ponto. Junto com dois outros organismos da ONU, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) ela seguiu preparando o futuro, organizando em Nova Delhi (Índia), de 8 a 11 de abril, o 1º Fórum Mundial das Indústrias Agrícolas. Mais de 500 pessoas, vindas de 110 países, participaram.

Alain de Janvry, um professor na universidade de Berkeley, lembrou que a agricultura constitui um setor-chave para o crescimento. Em países como a China, na Índia ou o Vietnã, foi o seu desenvolvimento que permitiu que centenas de milhões de pessoas saíssem da pobreza e que as economias pudessem deslanchar. Além do mais, a criação de indústrias agro-alimentares com muita freqüência constitui uma primeira etapa rumo a uma economia mais industrial. Enquanto a participação da agricultura na economia mundial não pára de diminuir, a da indústria agro-alimentar está aumentando. Mesmo se os números apresentados são particularmente incompletos em razão da importância do setor informal (6% dos empregos em certos países), as indústrias agro-alimentares, sem dúvida, despontam como o mais importante setor econômico no mundo.

Estradas em bom estado e refrigeradores
Atualmente, todo mundo está de acordo com a seguinte afirmação: a agricultura tem um futuro. Em razão do aumento da população mundial e do crescimento do seu nível de vida, a demanda por gêneros alimentícios deverá duplicar daqui até 2050. Mas o futuro da agricultura passa necessariamente pela transformação dos produtos agrícolas, cuja importância está crescendo, e, portanto, por uma aproximação com a indústria. Em função da sua carência de infra-estruturas, um país como a Índia perde anualmente cerca de 30% das suas colheitas e acaba se vendo obrigado a tornar-se novamente um importador de cereais. Mais que das biotecnologias, os agricultores dos países pobres precisam, acima de tudo, de sistemas de irrigação, de estradas em bom estado e de refrigeradores que lhes permitam ter acesso aos mercados e exercerem uma influência real diante dos industriais.

Essas constatações são as mesmas na Ásia, na África, na América Latina e na Europa Central: os agricultores carecem de um meio ambiente capaz de estimular a sua atividade, de organizações em forma de rede tais como as cooperativas de produção, de formação e de infra-estruturas públicas. O dinheiro também faz uma falta tremenda. Mas a crise atual poderia conduzir os investidores a se interessarem por este setor. Desde já, o banco francês Crédit Agricole, que até agora vinha apostando na globalização da sua rede para garantir o seu desenvolvimento, decidiu reatar com as suas raízes rurais, organizando um fórum internacional sobre o financiamento nos diferentes setores da agricultura. Menos por filantropia, e muito mais por ter compreendido onde está o seu interesse.

Os debates não dizem mais respeito ao desaparecimento progressivo da agricultura, mas sim à sua evolução. Contudo, nem todas as ambigüidades foram dirimidas. Os países do Sul estão diante de um duplo desafio. Eles precisam de um lado tornar as suas agriculturas mais competitivas, e de outro, reorientá-las em parte, de modo a satisfazerem a sua auto-suficiência alimentar, uma virtude que daqui para frente se tornou sacrossanta, o que não será nem um pouco fácil.

Simultaneamente, os países do Norte terão de se conformar com a necessidade de levantarem as suas barreiras alfandegárias. Isso porque os programas de ajuda que estão sendo decididos atualmente a toque de caixa e no desespero despontam, ao menos em parte, como a conseqüência das políticas que têm sido conduzidas ou impostas até o presente momento pelos países ocidentais.

“Le Monde”

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Charles Darwin, o agnóstico

Avesso a controvérsias públicas, ele viveu conflito entre sua formação cristã e suas descobertas científicas

Herton Escobar

Charles Darwin era um homem cauteloso. Por 20 anos ele manteve sua teoria da evolução em segredo, conduzindo experimentos em seu jardim e estudando a literatura científica para, já de antemão, tentar responder todas as dúvidas e críticas que inevitavelmente seriam lançadas sobre ela.

Estava convicto de suas conclusões, mas tinha plena consciência do impacto avassalador que sua tese teria sobre o pensamento científico e religioso da época. E queria estar preparado.

Além disso, era um pensador reservado, avesso a enfrentamentos públicos e bate-bocas de qualquer natureza. Tanto que, ao fazer a redação final de A Origem das Espécies, retirou propositalmente sua conclusão mais polêmica: de que o homem não era uma criatura divina, criada por Deus à sua imagem e semelhança, mas um animal orgânico, puramente material, e de descendência comum com gorilas, orangotangos e chimpanzés. Uma espécie altamente evoluída de macaco, para ser bem sincero.

De fato, Darwin não menciona o ser humano em nenhum momento do livro. Mas foi pouco para acolchoar o impacto. Assim que chegou às livrarias de Londres, em novembro de 1859, A Origem das Espécies explodiu como uma bomba atômica sobre a sociedade vitoriana do século 19, espalhando nuvens incendiárias de polêmica por todo o planeta. E o parentesco de homens e primatas, de qualquer maneira, virou semente da discórdia.

Começava, assim, “o primeiro debate científico internacional da história”, segundo a historiadora inglesa Janet Browne, da Universidade Harvard. A ciência passou a fornecer respostas para perguntas que, até então, eram respondidas apenas pela fé - algo que não caiu muito bem com os religiosos. “O fato era que Darwin parecia expulsar por completo o divino do mundo ocidental, pondo em dúvida tudo que até então se acreditava sobre a alma humana e nosso sentido de moralidade”, escreve Browne em seu último livro, A Origem das Espécies de Darwin, com lançamento previsto no Brasil para esta semana.

REVOLUÇÃO

Charles Darwin não foi o primeiro a escrever sobre evolução. Mas foi o primeiro a propor, de maneira convincente, um mecanismo puramente biológico capaz de explicar a origem e a diversidade de todas as formas de vida. Nada de espíritos, projetos, propósitos ou intervenção divina: apenas variações aleatórias e seleção natural. Biologia pura.

A inferência de que o homem evoluíra dos macacos era apenas um detalhe. “Por mais surpreendente que pareça, houve pouca oposição ao livro de Darwin sob a alegação de que ele contestava diretamente o relato da criação feito no Gênesis”, observa Browne. “Desde o Iluminismo, os estudos bíblicos estimulavam os cristãos a ver essas antigas histórias como poderosas metáforas, não como narrativas literais. O fundamentalismo bíblico é um problema moderno, não vitoriano.”

CRIACIONISMO

O renascimento do criacionismo e de outros movimentos antidarwinistas nos últimos anos é surpreendente. Principalmente nos Estados Unidos, onde quase metade da população não acredita na evolução, segundo uma pesquisa da revista Newsweek. Talvez nem Darwin pudesse prever que, 150 anos após a publicação de sua obra, o confronto entre criação e evolução continuaria a ferver nas manchetes, salas de aula e tribunais de Justiça.

A pauta do debate não mudou muito: se o homem não é nada mais mesmo do que um aglomerado de matéria orgânica, sem alma nem propósito, onde fica Deus? Como ficam os valores morais e as tradições familiares? Qual o propósito da vida? Como interpretar a Bíblia e outros textos sagrados? E hoje, que temos o conhecimento da biologia molecular e do genoma: será o ser humano nada mais do que um punhado de genes egoístas?

“As semelhanças são incríveis”, disse Browne, em entrevista exclusiva ao Estado do seu escritório no Centro de Ciências de Harvard. “As controvérsias são basicamente as mesmas.” Mas com uma diferença importante: a fé deixou de ser o único contraponto. Agora, mais do que nunca - talvez pela primeira vez -, criacionistas ortodoxos usam argumentos científicos para atacar o trabalho de Darwin, questionando metodologias e reinterpretando evidências na tentativa de apresentar a história da Bíblia como algo cientificamente comprovável.

“O mais interessante é que, agora, os críticos estão dizendo que a ciência está errada”, afirma Browne. “Quando Dar-win publicou A Origem das Espécies, a maioria das pessoas aceitava que suas informações estavam, muito provavelmente, corretas. O que elas criticavam eram as conclusões que ele desenhou a partir dessas informações. A teoria era rejeitada em bases teológicas, não científicas.”

Criacionistas modernos defendem que a Terra tem apenas 6 mil anos de idade (em vez de 4,5 bilhões), que dinossauros conviveram com seres humanos, e que as técnicas de datação usadas na geologia e na paleontologia estão erradas. No Estado americano do Kentucky há até um sofisticado Museu da Criação, de US$ 27 milhões, com dinossauros robóticos, planetário, cinema e uma reconstrução da Arca de Noé. Fósseis de animais extintos são apresentados como vítimas do Dilúvio - aqueles que não conseguiram um lugar no barco.

“O método científico está sendo atacado nos seus princípios mais básicos”, observa Browne. “Isso é muito difícil para os cientistas aceitarem.”

MORALIDADE

O novo criacionismo, segundo a historiadora, parece ser alimentado por uma sensação de perda de valores e tradições morais. “A sociedade moderna está repleta de dificuldades, pobreza, desamparo, e é provável que as pessoas com espírito religioso relacionem isso a um secularismo, uma perda de fé”, afirma Browne. “O ataque à evolução é um ataque à secularização.”

O cenário no qual Darwin produziu seu livro - a Europa do século 19 - era um mundo repleto de certezas, explica Browne. E a maioria dessas certezas era expressa por meio de crenças religiosas, que proporcionavam às pessoas uma razão para sua existência. “Aí veio Darwin e produziu um livro dizendo que os seres humanos eram apenas produtos naturais, que tudo dentro de nós, tudo que pensamos e fazemos, é simplesmente um resultado da natureza, que não há nenhuma dádiva de um poder sobrenatural. Isso era muito desconcertante.”

PRINCÍPIOS

Darwin não era ateu. Fez, inclusive, faculdade para ser pastor anglicano - depois de abandonar a Escola de Medicina de Edimburgo, para onde seu pai o havia enviado aos 16 anos de idade. Não tinha estômago para o trabalho de médico, e a carreira eclesiástica era uma alternativa honrosa aos olhos da família e da sociedade. Entrou para o Christ’s College, de Cambridge, e talvez tivesse virado pastor mesmo, não fosse por um convite que apareceu no meio do caminho para se juntar a uma certa expedição.

A missão do navio HMS Beagle era cartográfica: prospectar e mapear águas da América do Sul. O capitão, Robert FitzRoy, porém, queria levar alguém que também pudesse coletar espécimes e fazer estudos científicos ao longo do caminho. Darwin (que sempre se dedicou a colecionar besouros e às cadeiras de história natural mais do que à teologia ou medicina) foi indicado ao posto por seu professor de botânica, John Henslow.

Em dezembro de 1831, o jovem naturalista embarcou para uma odisséia marítima de cinco anos que o carregaria ao redor do mundo, com passagens pelo Brasil e, é claro, pelas Ilhas Galápagos do Equador.

CONFLITO

Darwin nunca se acostumou ao balanço do mar e passou praticamente toda a viagem nauseado. O maior redemoinho de todos, porém, estava em sua cabeça. Quanto mais aprendia sobre o mundo natural, mais Darwin questionava sua própria fé.

“Não há dúvida de que ele viveu um conflito”, afirma Browne. Quando se juntou ao Beagle, Darwin era um jovem que acreditava na Bíblia. Ao longo da viagem, entretanto, a Bíblia gradativamente perdeu significado para ele. Quando retornou da expedição e começou a trabalhar em sua teoria, Darwin foi forçado a reavaliar profundamente suas crenças.

Por fim, se proclamaria um agnóstico: termo cunhado pelo amigo Thomas Huxley para descrever alguém que não vê provas de Deus, mas não descarta completamente sua existência. “Quando escreveu A Origem das Espécies, Darwin abandonou completamente a idéia de um Criador que interferia ativamente no mundo natural. Ele tinha, sim, a sensação de que algo supernatural existia, mas seja lá o que fosse, esse deus não tinha influência sobre o mundo natural”, explica Browne.

DEMORA

Vários dos amigos de Darwin também eram agnósticos, ou até religiosos, e ele tomava grande cuidado em seu texto para não ofendê-los. Essa foi uma das razões, também, para o parto demorado de A Origem das Espécies.

Ninguém sabe quanto tempo mais ele levaria para publicar o livro, não fosse pela intervenção de um outro naturalista inglês, Alfred Russel Wallace. Em junho de 1858, Darwin foi surpreendido por uma carta na qual o colega descrevia uma teoria da evolução idêntica à sua. Sem saber da obra secreta de Darwin, Wallace havia descoberto a seleção natural por si só, enquanto pesquisava nas florestas do sudeste asiático. Como não tinha influência dentro da comunidade científica, resolveu enviar sua teoria a Darwin, em vez de alguma revista especializada. Queria saber o que o colega achava da idéia.

Darwin entrou em pânico. Após duas décadas de cuidadosas pesquisas, o pioneirismo de sua teoria estava seriamente ameaçado. Ele consultou seus dois amigos mais próximos, Joseph Hooker e Charles Lyell. A decisão foi escrever um texto misto, assinado por Darwin e Wallace, para apresentação na prestigiosa Sociedade Lineana de Londres. O manuscrito foi lido no dia 1º de julho de 1858, e não causou lá muito alvoroço.

Wallace só ficou sabendo três meses depois - tempo que levava para o correio chegar até a Indonésia. Há quem acredite que Darwin se aproveitou da situação, e que poderia até ter roubado idéias de Wallace para sua teoria. O próprio Wallace, porém, jamais reclamou de alguma coisa. Pelo contrário: “Ele ficou extremamente entusiasmado e os dois viraram bons amigos”, garante o especialista Andrew Berry, professor de biologia evolutiva de Harvard e especialista na história de Wallace. “Nunca houve uma gota de ciúmes ou descontentamento.”

“Darwin escrevia tudo que pensava e nunca jogava nada fora. Há evidências mais do que suficientes de que sua teoria estava completa naquele momento. Portanto, não havia motivo para plágio”, diz Berry.

LEGADO

A Origem das Espécies foi finalmente publicado em novembro de 1859. Charles Darwin virou um ícone instantâneo. Wallace, no final das contas, caiu no esquecimento.

“Temos de dar crédito ao grande livro de Darwin: fabuloso, detalhado e muito bem pensado”, observa Browne. Para ela, a história de A Origem das Espécies é, em muitos aspectos, a história do mundo moderno. Como diria o geneticista Theodore Dobzhansky em 1964, “nada na biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução”.

Fora dos laboratórios, as idéias evolutivas de Darwin infiltraram todas as expressões do pensamento humano, para o bem e para o mal. A seleção natural é usada para explicar tanto o desenvolvimento de espécies quanto a sobrevivência de empresas no mercado globalizado. A “lei do mais forte” já foi usada como bandeira para justificar expansões imperiais, guerras e genocídios. E a evolução, quando mal interpretada, já motivou preconceitos raciais de todos os tipos.

Darwin carregou o fardo e as glórias de sua obra por 23 anos, até sua morte em 1882. Ironicamente, o homem que desafiou a autoridade da Igreja foi enterrado com honras na sagrada Abadia de Westminster, aclamado como um gênio à altura de Isaac Newton.

“Considerando a ferocidade com que fui atacado pelos ortodoxos, parece risível que eu tenha outrora pretendido ser pastor”, escreveria o gênio em sua autobiografia.

Jornal Estado de S. Paulo
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Clima pesado

MIKE DAVIS

O urso polar flutuando em sua placa de gelo cada vez menor se tornou um ícone urgente do aquecimento global e das alterações climáticas descontroladas.
Mesmo o ocupante da Casa Branca, que parece acreditar na teoria de que a terra é chata, agora reconhece que os magníficos ursos podem estar condenados à extinção à medida que o gelo oceânico se derrete e o Ártico se torna um mar aberto pela primeira vez em milhões de anos.
A “grande experiência geofísica” da humanidade, como o oceanógrafo Roger Revelle há muito tempo caracterizou a curva cada vez mais acentuada de alta nas emissões de dióxido de carbono, extirpou as raízes holocênicas da natureza nas regiões em torno do pólo. Mas o Ártico não é o único cenário de alterações climáticas espetaculares e inequívocas, e os ursos polares não são os únicos arautos de uma nova era de caos.
Considerem-se, por exemplo, alguns dos parentes mais distantes do Ursus maritimus: os ursos pretos, que se alimentam alegre, mas ominosamente, nas montanhas Chisos, parte do parque nacional Big Bend, no Texas.
Eles podem ser mensageiros de uma transformação ambiental nas terras fronteiriças norte-americanas que terá impacto quase tão radical quanto as que vêm acontecendo no Alasca ou na Groenlândia.
Em uma caminhada até o monte Emory, em uma manhã incomumente quente de janeiro de 2002, com minha mente ainda ocupada pelas imagens apocalípticas do setembro anterior, fiz amizade, ainda que um pouco distante, com um urso jovem e brincalhão, em um acampamento à beira da trilha.
Urso imigrante
Aparições de ursos sempre têm algo de mágico, e presumi que o encontro fosse uma afirmação da presença de terras selvagens intocadas.
Na verdade, fiquei surpreso quando me foi informado por um guarda do parque, no dia seguinte, que o jovem urso era, tecnicamente, um mojado -filho de imigrantes recentes e não documentados oriundos do lado de lá do rio Grande.
Os ursos pretos sempre foram comuns nas montanhas Chisos, quando elas serviam como reduto quase mítico aos apaches mescaleros e aos comanches que atacavam os colonos nos séculos 17 e 18, mas os fazendeiros os caçaram sem piedade, e a espécie se extinguiu na região mais ou menos no começo do século 20.
Depois, de maneira quase miraculosa, no início da década de 1980, os ursos reapareceram em meio aos madrones e pinheiros do monte Emory.
Os biólogos especializados em fauna, atônitos, desenvolveram a hipótese de que eles teriam migrado da Sierra del Carmen, em Coahuila, no México, atravessado o rio Grande a nado e cruzado cerca de 65 quilômetros de deserto escaldante para chegar à região de Chisos, terra prometida ocupada por cervos dóceis e lixo abundante.
Como os leopardos que se restabeleceram nas montanhas fronteiriças do Arizona nos últimos anos ou, aliás, os chupacabras sugadores de sangue do folclore que supostamente foram avistados em subúrbios de Los Angeles, os ursos pretos são parte de uma migração épica, tanto da fauna quanto de pessoas.
Ainda que ninguém saiba exatamente por que os ursos, os felinos de grande porte e os lendários vampiros estão se transferindo para o norte, uma hipótese plausível é a de que estão ajustando seus alcances e populações ao novo reino da seca no norte do México e sudoeste dos EUA.
No que diz respeito aos seres humanos, o caso é mais fácil de acompanhar.
Pequenos ranchos e cidades quase desertas nos Estados mexicanos de Coahuila, Chihuahua e Sonora são prova da sucessão incansável de anos secos -começando nos anos 80, mas assumindo intensidade verdadeiramente catastrófica no final da década passada-, que forçou centenas de milhares de camponeses pobres a encontrar empregos de salários miseráveis nas fábricas de Ciudad Juárez, no México, e nos bairros latinos de Los Angeles.
Em determinados anos, uma “seca excepcional” tomou toda a região das planícies norte-americanas, do Canadá ao México.
Seca persistente
Em outros anos, conflagrações rubras nos mapas meteorológicos desceram pela costa do Golfo do México, na Louisiana, e cruzaram as Montanhas Rochosas em direção ao interior dos Estados Unidos, na região Noroeste.
Mas os epicentros quase permanentes da seca continuaram a ser as bacias dos rios Colorado e Grande e o norte do México.
Em 2003, por exemplo, o lago Powell registrava queda de quase 2,5 metros em seu nível de água nos três anos precedentes, e as cruciais represas ao longo do rio Grande eram pouco mais que poças de lama. O inverno de 2005/6 na região Sudoeste, enquanto isso, foi um dos mais secos já registrados, e a cidade de Phoenix, no Arizona, passou 143 dias sem uma gota de chuva.
As raras interrupções da seca, como a monção diluviana do final do verão (partes de El Paso receberam incríveis precipitações da ordem de 75 centímetros), foram insuficientes para reabastecer os aqüíferos e as represas, e em 2006 tanto Arizona quanto Texas reportaram as piores perdas de safras e gado -devido à seca- em suas histórias (um prejuízo total acumulado de quase US$ 7 bilhões).
A seca persistente, como o gelo em derretimento, reorganiza ecossistemas e transforma paisagens inteiras.
Sem umidade suficiente para produzir seiva protetora, milhões de hectares de pinheiros foram devastados por pragas de besouros devoradores de cascas; as florestas mortas, por sua vez, ajudaram a alimentar os incêndios florestais que se expandiram até atingir os subúrbios de Los Angeles, San Diego, Phoenix e Denver e destruíram parte de Los Alamos.
No Texas, as planícies gramadas também queimaram -cerca de 800 mil hectares apenas em 2006-, e, à medida que a terra fértil que forma a camada superior do solo é varrida para longe, as pradarias voltam à condição de deserto.
Alguns estudiosos do clima não hesitam em classificar o fenômeno como uma “mega-seca”, até mesmo como “a pior em 500 anos”. Outros mostram mais cautela e não estão certos, até agora, se a aridez atual do oeste dos Estados Unidos supera marcos de crise como os anos 1930 (o chamado cinturão da poeira nas planícies do sul) e a devastadora seca do sudoeste nos anos 50.
Mas é possível que não haja mais motivo para debater. As pesquisas mais recentes e abrangentes constatam que a “vermelhidão noturna do oeste” (para invocar o portentoso subtítulo do romance “Blood Meridian” [Meridiano de Sangue], de Cormac McCarthy), não é apenas episódica. A seca representa o novo “clima normal” da região.
Em depoimento chocante ao Conselho Nacional de Pesquisa, em dezembro do ano passado, Richard Seager, geofísico sênior no Observatório Terrestre Lamont Dohey, da Universidade Colúmbia, alertou que as principais projeções quanto ao clima mundial estavam todas resultando em modelos semelhantes nos supercomputadores dos cientistas: “De acordo com os modelos, um clima semelhante ao da grande seca dos anos 50 se tornará o clima dominante no sudoeste dentro de alguns anos a algumas décadas”.
Rancho de areia
Essa previsão extraordinária -”a iminente seca perene do sudoeste dos Estados Unidos”- é um subproduto de um esforço monumental de computação montado por 19 grupos de modelagem do clima (entre os quais as organizações mais conhecidas desse ramo, localizadas em Boulder, Princeton, Exeter e Hamburgo) para o quarto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC).
O IPCC, evidentemente, representa a “suprema corte” da ciência do clima. Estabelecido em 1988 pela ONU e pela Organização Mundial de Meteorologia, seu objetivo é pesquisar o aquecimento global e seu impacto.
Ainda que o presidente George W. Bush agora aceite relutantemente a avaliação do IPCC de que o Ártico está derretendo rapidamente, ele provavelmente ainda não registrou a possibilidade de que seu rancho texano em Crawford um dia possa se transformar em duna de areia.
Os cientistas do clima que estudam os anéis de troncos de árvores e arquivos naturais comparáveis há muito tempo estão cientes de que o Acordo do Rio Colorado, assinado em 1922 para alocar água aos oásis cada vez mais urbanizados do sudoeste norte-americano, se baseia em um estudo sobre período de 22 anos de fluxo do rio (1899-1921) e que o período, longe de representar uma média histórica do volume de água daquele sistema fluvial, na verdade foi uma era anômala e registrou a mais elevada umidade em 450 anos.
Mais recentemente, eles começaram a compreender de que maneira as persistentes Las Niñas (episódios de frio no leste equatorial do oceano Pacífico) interagem com os períodos de calor no Atlântico Norte subtropical para gerar secas -que podem durar décadas- na regiões das planícies e no sudoeste.
Mas, como Seager enfatizou em Washington, as simulações do IPCC apontam para algo de muito diferente dos episódios áridos catalogados no Atlas da Seca na América do Norte, do observatório Lamont. Inesperadamente, o que está mudando é o clima básico em si, e não apenas suas perturbações.
Além disso, essa transição abrupta para um clima novo e mais extremo deriva não de flutuações nas temperaturas oceânicas, mas de “mudanças nos padrões de circulação atmosférica e transporte de vapor d”água que surgem como conseqüência do aquecimento da atmosfera”.
Em resumo, as terras secas se tornarão mais áridas, e as terras úmidas, mais molhadas. E o ressecamento do oeste dos EUA será acompanhado por um calor de fornalha. O relatório do IPCC inclui uma previsão chocante: as temperaturas na região subirão em média cinco graus centígrados até o final do século.
Os eventos Las Niñas, acrescentou Seager, continuarão a influenciar o nível de precipitação nas terras fronteiriças, mas, com base em uma fundação mais árida, podem gerar o pior pesadelo do oeste: secas em escala de catástrofes medievais como as que contribuíram para o colapso das sofisticadas sociedades dos anasazis no cânion Chaco e em Mesa Verde, no século 12.
Para tornar ainda piores as más notícias dos supercomputadores, mais aridez é também prevista para boa parte do Mediterrâneo e Oriente Próximo, onde secas épicas são sinônimo histórico de guerras, deslocamento populacional e etnocídio.
Mas uma série de pronunciamentos científicos, ainda que representem a conclusão unânime de 19 modelos climáticos, não deve causar muito abalo nas pistas de golfe localizadas no subúrbios de Phoenix, onde estilos de vida luxuosos resultam em consumo de água da ordem de 1.500 litros por pessoa/dia.
E tampouco impedirá que as escavadeiras continuem abrindo terreno para os monstruosos subúrbios de Las Vegas (onde 160 mil casas novas estão planejadas), estendendo-se até Kingsman, no Arizona.
E o alerta tampouco deve impedir que a população do Texas dobre daqui até 2040, apesar do possível esgotamento do aqüífero Ogallala, que se estende por sob oito Estados da região das grandes planícies.

Slogans vazios
A despeito de muitos slogans recentes sobre “crescimento inteligente” e uso inteligente da água, as incorporadoras imobiliárias que operam no deserto continuam a criar subúrbios do mesmo modelo burro, ambientalmente ineficiente, que prejudica o sul da Califórnia há décadas.
O trunfo dos defensores da livre iniciativa no sudoeste, além disso, é o fato de que a maior parte da água disponível nos sistemas fluviais dos rios Colorado e Grande é ainda dedicada à irrigação agrícola.
Mesmo que o “pico das águas” tenha chegado e partido, a expansão imobiliária no deserto poderia se sustentar, em médio prazo, pela eliminação das lavouras de algodão e alfafa, enquanto os grandes agricultores se manteriam ricos vendendo seus direitos sobre a água subsidiados pelo governo federal aos subúrbios urbanos sedentos.
Um protótipo dessa reestruturação já pode ser visto no Vale Imperial, da Califórnia, região que tem recebido forte atenção de San Diego no que tange à aquisição de direitos sobre a água. Como resultado, um passageiro atento de avião já começa a perceber a presença cada vez maior, nos últimos tempos, de campos sem cultivo, em meio às plantações de alfafa e melões que caracterizam a região.
Uma solução mais futurista seria a opção “saudita”. Steve Erie, professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, que escreveu extensamente sobre a política de água no sul da Califórnia, disse que os incorporadores de imóveis no deserto no sudoeste e na baixa Califórnia confiam em que podem manter a população abastecida por meio da dessalinização da água marinha.
“O novo mantra das agências de água, evidentemente, é incentivar a conservação e a recuperação, mas os incorporadores gananciosos estão lançando olhares cobiçosos ao Pacífico, pensando na alquimia da dessalinização, apesar de suas conseqüências ambientais perniciosas.”
De qualquer modo, diz Erie, os mercados e políticos continuarão a votar na suburbanização descontrolada e de alto impacto que pavimenta e comercializa milhares de quilômetros quadrados na frágil ecologia dos desertos de Mojave, Sonora e Chihuahua.
À medida que o preço da água aumenta, o ônus do ajuste ao novo regime climático e hidrológico cairá sobre grupos subalternos, como trabalhadores rurais (empregos ameaçados pela transferência de água), pobres urbanos, agricultores de baixa produção (entre os quais muitos indígenas americanos) e, especialmente, as populações rurais do norte do México, que já estão em risco.
De fato, o fim da era da água barata no sudoeste -especialmente porque pode coincidir com o fim da era da energia barata- acentuará os graus já elevados de desigualdade racial e de classe na região e levará mais imigrantes a apostarem contra a morte em perigosas travessias dos desertos fronteiriços.
Aliás, não é preciso muita imaginação para adivinhar o futuro grito de guerra das milícias: “Eles vêm roubar nossa água!”.
Como aponta Jared Diamond no recente “Colapso” [Ed. Record], os antigos anasazis não sucumbiram apenas à seca mas ao impacto da aridez inesperada sobre uma terra explorada em excesso e habitada por pessoas despreparadas para fazer sacrifícios no quanto a seu “dispendioso estilo de vida”.
Em última instância, eles preferiram devorar uns aos outros.

Este texto foi publicado na Nation.Tradução de Paulo Migliacci.

Jornal Folha de S. Paulo
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Martin Wolf: como desequilíbrios levaram ao arrocho do crédito e inflação

Martin Wolf

A inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário -Milton Friedman.

O que explica a combinação de um “arrocho de crédito” nos Estados Unidos com a alta dos preços das commodities e o aumento da inflação por todo o mundo? Estes são eventos não relacionados ou parte de um quadro maior? A resposta é a segunda. Até o momento não se trata de um retorno aos anos 70. Mas uma ação é necessária para que isto continue verdadeiro.

A inflação é um aumento sustentado nos preços: o resultado é dinheiro (ou poder aquisitivo) demais atrás de bens e serviços insuficientes. Um salto único nos preços das commodities não é inflação. Nem um salto desses causa necessariamente inflação. Mas o aumento contínuo no preço relativo das commodities é um sintoma de um processo inflacionário.

Sempre que ocorre uma demanda excessiva, os bens cujos preços sobem primeiro são aqueles com preços flexíveis, entre os quais as commodities são o principal exemplo. Os preços das commodities então são um medidor de pressão. Se olharmos para o que tem acontecido nos últimos anos, o medidor está apontando para o vermelho. O índice de preços de commodities da Goldman Sachs dobrou desde o início de 2007. Os preços nominais do petróleo aumentaram em 150% ao longo do mesmo período. O movimento para cima nos preços das commodities persiste há 6 anos e meio. Parece que uma demanda extra excessiva está pressionando a pouca habilidade de aumentar a oferta global.

O resultado é um aumento inesperadamente grande da inflação geral: a previsão de consenso de inflação mundial dos preços ao consumidor em 2008 saltou de 2,4% em fevereiro de 2007 para 4,3% em junho de 2008. Estes saltos são modestos, mas não tão modestos. Nem o nível de previsão. Se as pessoas se acostumarem à idéia de que a inflação pode saltar assim, a noção pode muito bem ser incorporada nas expectativas, com péssimas conseqüências.

Mas como podemos ter um processo inflacionário global incipiente no momento em que a economia americana e a de outros países de alta renda significativos estão desacelerando? O motivo aproximado é que o segundo é bem menos importante do que costumava. A explicação por trás está nas forças que impulsionam tanto a demanda quanto a oferta mundial.

Na demanda, duas coisas importantes estão acontecendo: convergência e desequilíbrios. Em convergência estão o crescimento acelerado das economias emergentes, acima de tudo a da China e da Índia. Nos desequilíbrios estão as intervenções nos mercados de câmbio visando a manutenção da competitividade.

Charles Dumas, da Lombard Street Research, com sede em Londres, nota que, em paridade do poder aquisitivo, a China agora gera pouco mais que um quarto do crescimento econômico mundial em um ano normal, enquanto os países emergentes e em desenvolvimento juntos geram 70%. Mesmo em taxas de câmbio do mercado, o crescimento do produto interno bruto da China é tão grande quanto o dos Estados Unidos em anos normais para ambos os países.

Os países emergentes também estão em uma boa posição para continuar crescendo, em grande parte por possuírem fortes posições externas. Muitas economias emergentes intervieram nos mercados de câmbio em grande escala, principalmente para manter a competitividade das exportações e reduzir os déficits em conta corrente. Nos sete anos até março de 2008, as reservas globais de moeda estrangeira saltaram em US$ 4,9 trilhões, com as reservas da China sozinhas aumentando em US$ 1,5 trilhão. De fato, até 70% das reservas atuais foram acumuladas ao longo deste período. “Nunca mais outra vez”, disseram os países emergentes atingidos por crises nos anos 80 e 90; “nem mesmo uma vez”, disse a China.

Políticas intervencionistas visando sustentar a competitividade das exportações expandiram as economias. Os resultados normalmente incluem aumentos rápidos nas exportações líquidas, baixas taxas de juros visando coibir o afluxo de capital, e expansão da base monetária, apesar das tentativas de esterilização. A economia chinesa está superaquecida em conseqüência direta deste trio de efeitos.

Grande parte dessas reservas foram acumuladas pelos países mais ou menos explicitamente visando o dólar americano e acúmulo de obrigações americanas. O fluxo de capital resultante financiou os déficits comerciais e de conta corrente americanos. Mas um déficit comercial é contracionário: para qualquer nível de demanda doméstica, ele reduz a produção doméstica. Logo, os Estados Unidos precisavam expandir a demanda doméstica, visando compensar o efeito contracionário dos déficits externos. Alguns grupos dentro da economia precisavam gastar uma parcela maior de suas rendas. O mais importante destes grupos revelou ser os lares. Assim, o crescimento do endividamento doméstico americano que levou ao atual “arrocho de crédito” é resultado direto dos desequilíbrios globais.

Hoje, o desafortunado Federal Reserve, o banco central americano, está tentando reexpandir a demanda em uma economia americana pós-bolha. Mas o principal impacto de sua política monetária vem do enfraquecimento do dólar americano e uma expansão das economias superaquecidas associadas a isso. Para simplificar, Ben Bernanke está executando uma política monetária do Banco Popular da China. Mas a política apropriada aos Estados Unidos é amplamente imprópria para a China, assim como para quase todos os outros países vinculados na zona informal do dólar ou, como chamam alguns economistas, “Bretton Woods 2º”.

Logo, não apenas os desequilíbrios provaram ser altamente desestabilizadores no passado, mas eles vão provar ser ainda mais desestabilizadores agora que a bolha americana estourou. Quando a maioria das economias emergentes necessita de uma política monetária mais rígida, elas são forçadas a afrouxá-las ainda mais.

Enquanto isso, no lado da oferta da economia mundial, quase todo relato no noticiário é ruim. Independente de qualquer otimismo que alguém possa sentir a respeito das possibilidades a longo prazo de uma maior oferta de energia, é impossível ser otimista a curto prazo.

O que estamos vendo é uma inflação global incipiente. Mas o banco central com maior influência na política monetária global é aquele que está enfrentando o arrocho de crédito pós-bolha. Sua situação difícil pós-bolha é agravada pelo aumento dos preços de energia que resultaram do forte crescimento da economia mundial.

Este é o desafio global. Os países avançados não são mais a força motriz global: eles estão importando inflação. Se o mundo tivesse um banco central único e uma moeda única, o primeiro certamente endureceria sua política monetária, diante da evidência de restrições na taxa de crescimento da oferta global potencial. Na ausência desse banco central, a melhor alternativa seria uma maior flexibilidade na taxa de câmbio e o estabelecimento de uma meta de inflação doméstica.

O mundo como um todo não pode importar inflação: se cada banco central presumir que o aumento dos preços das commodities é produto de políticas adotadas em outro lugar, um superaquecimento geral deverá ser o resultado. Pior, se isto alimentar as expectativas, o mundo se tornará deprimentemente semelhante aos anos 70. Nós ainda não chegamos a isto. Os autores de políticas devem assegurar que nunca cheguemos a isto.

“Financial Times”

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O que está em jogo em Raposa Serra do Sol? Entrevista especial com Paulo Guimarães

Eco Debate

O que está em jogo em Raposa Serra do Sol? Seis arrozeiros se negam a deixar uma área pública, federal e homologada para usufruto de diversas tribos indígenas de Roraima. Os mesmos seis arrozeiros, empresários de grande influência econômica na região, pedem suporte às autoridades políticas e de defesa. Enquanto o governo do Estado e a mídia intervêm a favor deles, as Forças Armadas se negam a participar da operação, e o governo federal protege os índios através da Polícia Federal. Aliciações, ameaças e depredações são feitos por esses arrozeiros tão poderosos contra indígenas que, depois de tantas perdas que tiveram com o desenvolvimento do país, precisam dessa terra para viver.

A IHU On-Line conversou, por telefone, com Paulo Guimarães, advogado e assessor jurídico do CIMI – Conselho Indigenista Missionário, que respondeu nossa pergunta inicial falando sobre as atribuições do Supremo Tribunal Federal nessa questão e apontou as estratégias que esses arrozeiros têm feito para manter-se na área. Para ele, “o que está em jogo é efetivamente o respeito à lei e a Constituição. E poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, ficam usando seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está, verdadeiramente, em jogo em Raposa Serra do Sol?

Paulo Guimarães – Nesse momento, o que está em jogo é a afirmação de que a terra é tradicionalmente ocupada pelos povos indígenas e que um ato do governo deve ser efetivamente respeitado. O presidente da República, em 2005, homologou a demarcação da terra que foi feita pelo governo FHC. Nessas terras, existem várias famílias de não- índios, que estão sendo reassentadas em outras áreas e recebendo indenizações por esse deslocamento. No entanto, existe um grupo pequeno e restrito de arrozeiros que possuem um forte poder econômico, especialmente um deles, que é Paulo Cesar Quartiero, prefeito do município de Pacaraima. Esses arrozeiros não aceitam sair da área e estão aliciando índios para reagirem a isso, mediante o pagamento e disseminação de bebidas alcoólicas entre eles. Com isso, criam obstáculos e praticam ilegalidades, como depredações ao patrimônio público, com a destruição de pontes, na tentativa de obstruir o acesso da polícia à área. Esta é uma situação residual.

Então, nós acreditamos que o que está em jogo é efetivamente o respeito à lei e à Constituição e que esses poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, ficam usando seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação.

IHU On-Line – As terras foram demarcadas e homologadas pelo governo. A Polícia Federal está no local tentando conter e retirar os arrozeiros do local. Quais são as atribuições do Supremo Tribunal Federal neste caso?

Paulo Guimarães – O Supremo Tribunal Federal fixou sua competência para apreciar todas as matérias judiciais que envolvam questionamentos sobre a demarcação. Então, em razão disso, o Supremo Tribunal Federal está processando as ações judiciais propostas pelos senadores, deputados e invasores da terra indígena que questionam a demarcação feita, pois é um direito deles questionar esses atos administrativos. No entanto, isso não implica que eles não sejam retirados dessa área, porque não podem ficar numa terra que é um bem público federal, destinada à posse e permanência exclusiva dos índios. Se o STF entender, futuramente, numa eventual hipótese que me parece absolutamente remota, que a terra não deveria ter sido demarcada, os não-índios desapropriados receberão indenização, porque o ato de demarcação vai se converter em indenização. Então, os elementos que provam que a área é pública são de usufruto dos índios já estão dentro dos processos administrativos e judiciais. Na realidade, o STF exerce, efetivamente, como expressão do poder judiciário, o seu poder de decisão de uma demanda judicial. Então, essa resistência em sair da área é ilegal. As circunstâncias de que levaram os arrozeiros a proporem uma ação judicial não impede a executoriedade do ato administrativo.

IHU On-Line – O que falta para que os arrozeiros sejam, finalmente, retirados do local?

Paulo Guimarães – O que eu entendo é o seguinte: esse movimento final feito por eles mostra que estão esperneando diante do inevitável, que é a saída da área. Suas atividades são ilegais, pois não podem desenvolver atividades econômicas numa área pública e federal. Essa atividade é completamente ilícita. Então, a situação está completamente paralisada. Por isso, eles terão de parar essas atividades definitivamente. Além disso, não conseguirão mais voltar a essa área depois. A Polícia Federal que está mobilizada no local é contra as atividades dos arrozeiros. Esses, por suas atividades ilícitas, vão responder a processos criminais por depredação do patrimônio público, por obstrução, por ameaças, por atentado à vida de lideranças indígenas. Ou seja, irão responder a esses crimes.

IHU On-Line – Quanto tempo você acha que esses arrozeiros vão levar para sair da região?

Paulo Guimarães – Eu acredito que existam terras indígenas, em outras áreas, que também foram homologadas, e estão invadidas ainda hoje. Infelizmente, esse problema acontece também em outras regiões. A atividade permanente de fiscalização e proteção é constante, não começou ontem e nem vai parar amanhã. Essa operação diz respeito fundamentalmente a assegurar que a terra indígena seja ocupada e os índios possam exercer com tranqüilidade o usufruto possível. A proteção sobre essa área vai começar de forma incessante e nem pode acabar, pois os índios não vão conseguir proteger sozinhos sua área.

IHU On-Line – Há chances de o Exército intervir nessa situação?

Paulo Guimarães – Não. Eu não vejo chance, nem necessidade. Isso não é atribuição das Forças Armadas, e sim da Polícia Federal e do Judiciário. São crimes que foram praticados e que terão de ser autuados. As Forças Armadas exercem, sem qualquer restrição, limitação à proteção das fronteiras. Isso está sendo cumprido, dentro das possibilidades materiais que as Forças Armadas têm. Agora, a atividade de contenção e apuração de infrações penais e de crimes é uma atribuição constitucional da Polícia Federal.

IHU On-Line – Enquanto os arrozeiros usam táticas de guerrilha para manter-se no local, o governo de Roraima pediu que a Polícia Federal suspendesse suas ações na região. Como o senhor vê essas contradições?

Paulo Guimarães – Esse negócio de guerrilha, em minha opinião, é uma propaganda que as pessoas fazem lá, especialmente a imprensa local de Boa Vista, com o intuito de transmitir a falsa impressão de que há um grande conflito na região. E não há. Todo esse alarde se resume a menos de 1% da área indígena. Portanto, a área indígena tem cerca de um milhão e 700 hectares. Portanto, esse episódio diz respeito a 17 hectares. Essa é a questão residual. E, naturalmente, porque foi invadida uma área muito grande, ficam com esse alarde. Existem atividades criminosas contra o poder público federal, mas não são táticas de guerrilha.

(www.ecodebate.com.br) entrevista publicada pelo IHU On-line,
10/04/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos -IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

“Eco Debate”

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Einsteins na adolescência

Os jovens de 12 a 20 anos respiram bits e pixels, questionam a autoridade e encontram respostas imediatas - são a geração mais capacitada da história.

Maruxa Ruiz Del Árbol

A atual fornada de quinze anos tem bons publicitários. Eles a batizaram de Geração Einstein. Seus defensores afirmam que os nascidos a partir de 1988, que agora estão com 12 a 20 anos, trazem um DNA inundado de uns e zeros; é a primeira geração que em vez de receber bons conselhos dos pais, precisou iniciá-los nos segredos do espaço cibernético. Mas será que isso os torna mais preparados que seus pais? São mais capacitados que os jovens das gerações anteriores? Até seu nascimento foi monitorado. Como serão marcados por esse indissolúvel contato com as telas de computadores?

Há quem diga que a obsessão em rotular de forma diferente a esses adolescentes responde apenas à preocupação de seus pais e à pressão de um mercado global que quer converter o setor da informática no seu bezerro de ouro. “Se for propagado o mito de que a cibernética se sai bem, ele será vendido”, afirma Ángel J. Gordo, professor de Ciência Política e Sociologia na Universidade Complutense de Madri.

De norte a sul e pelos séculos e séculos, dirão as avós, simplesmente, essa é a idade da fase de transição. Mas, para muitos teóricos, ser a primeira geração que nasceu com a tecnologia posta pode marcar a diferença. Os adolescentes do século 21á foram rebatizados várias vezes: micreiros, Geração Messenger, Geração 1(de Internet) ou Geração Einstein. Dizem que são especiais. Cresceram na sociedade da informação, acostumados a consumir bits e pixels em qualquer lugar e a qualquer hora.

Serão mais preparados que seus pais? O cientista político neozelandês James Flynn analisou nos anos 1980 os registros históricos do QI (quociente de inteligência) em 20 países e mostrou que o QI médio da população cresce entre cinco e 25 pontos, de uma geração para a seguinte: é o agora chamado efeito Flynn. Na Espanha, por exemplo, o quociente médio de inteligência cresceu 10 pontos entre 1970 e a década atual, segundo um estudo do psicólogo Roberto Colom, da Universidade Autônoma de Madri. Colom afirma que não se trata de um aumento da inteligência em todas as crianças, mas sim nas que a possuíam mais baixa. O que influi não são tanto as condições externas, como o acesso à educação ou às novas tecnologias, mas sim algo mais simples: a alimentação. Uma vez que estejam todos bem alimentados, crescerá o número de preparados, até que todos alcancem o nível dos melhores. Não que cada vez se seja mais preparado, o que é diferente. Na formação da inteligência, pouco podem influir as tecnologias, mas para os mais espertos, uma boa ferramenta é um tesouro.

Jeroen Boschma, um escritor holandês que acaba de publicar um estudo sobre essa geração, relata um exemplo muito significativo: entrevistava um rapaz de 17 anos para um trabalho. Fez a ele uma pergunta técnica muito difícil, simplesmente para ver qual a sua reação. O candidato não sabia a resposta, mas pediu um minuto para averiguar, entrou em um fórum na internet e em poucos segundos tinha mais de 100 respostas corretas, chegadas de todo o mundo.

A partir da observação desses novos jovens, Boschma é capaz de descrever novas características que, em sua opinião, lhes conferem as novas tecnologias: questionam a autoridade e são práticos na hora de conseguir informações: querem receber respostas aqui e agora porque estão acostumados a isso; socializam-se de formas distintas, sempre se baseando nos sistemas coletivos de comunicação e transformaram-se em consumidores influentes que ditam sua lei às grandes empresas.

Boschma, que trabalha na agência de publicidade Keesie, publicou na Espanha um novo estudo sobre eles. O título sintetiza suas conclusões mais otimistas: Geração Einstein: mais espertos, mais rápidos, mais sociáveis. “O digital ressalta uma diferença em relação a qualquer outra geração e tem conseqüências que não são em absoluto desprezíveis”, afirma. Não só se trata da informação à qual conseguem chegar, mas sim dos efeitos do fenômeno sobre as estruturas tradicionais de pensamento. O acesso a infinitas fontes de informação, das quais se pode discordar, desautorizou perante eles, os antigos “monopólios do conhecimento”, ou seja, pais, professores e meios de comunicação tradicionais. “A tecnologia criou uma brecha de incomunicabilidade entre essa geração e as anteriores. Mas dessa vez precisam ser os adultos a ouvir os mais novos porque são eles que conhecem o mundo que vem à frente.” O medo dos professores é que, em novas tecnologias, os mais novos passaram a ser os professores. Por enquanto.

Boschma aconselha que para entendê-los o melhor é perguntar, ser humilde e aprender e colaborar em vez de censurar. Quando seu próprio filho começou a se interessar pelos temas da carne, ele mesmo indicou-lhe três sites da web de referência. “A censura é apenas um caminho para a falta de compreensão. É melhor ajudá-los e deixar que eles nos ensinem.”

Mas Ángel J. Gordo, também expert em ciberjovens alerta que estudos como o da agência Keesie, o de Boschma, caem na armadilha de “homogeneizar todos os jovens”. Gordo publicou em 2006 o informe “Jovens e a cultura Messenger: tecnologia da informação e a comunicação na sociedade interativa.” Os dados desse trabalho contrastam com a otimista tese do holandês.

Afirma que a Espanha é o antepenúltimo país entre os 27 da EU no desenvolvimento da sociedade da informação e que pouco menos da metade da população espanhola tem acesso à Internet - entre 40 e 43%. Segundo esses dados, o usuário de computadores é uma realidade minoritária na Espanha. A tese aponta para o fato de a geração cibernética ser uma invenção do mercado. “É preciso levar em conta as diferenças culturais, o trabalho de seus pais. Aqueles que não fizerem tal exercício estarão negando as diferenças sociais.”

No instituto Montserrat de Madri se pode olhar nos olhos para a origem do debate. Três alunos e cinco alunas de 15 e 16 anos. Discutem as preocupações de seus pais, de sexo na Internet e de sua forma de relacionamento no espaço cibernético. Todos falam do conhecidíssimo Messenger como se fosse de sua própria voz: “Em um dia normal, falo com três ou quatro pessoas ao mesmo tempo, mas já cheguei a falar quase com 20″, conta Elisa.

A brecha de incompreensão se alarga na forma diferente de conceber a comunicação. “Os pais os vêem como não sociáveis,” explica Jeroen Boschma, “mas ao contrário dos mais velhos, suas redes coletivas se estendem também, e principalmente, pelo espaço virtual”, que dá acesso ao mundo inteiro. Algo que a televisão proporcionou em medida muito menor aos pais e com o qual nem sonharam os avós em suas melhores fantasias.

Ninguém se atreve a dizer com segurança quais características de geração lhes proporcionariam essas viagens pelo mundo, a partir das próprias casas. Mas para começar, o que os pais consideram ser um isolamento, diante do computador, para eles é um grande encontro entre amigos, de qualquer parte.

Mas não é só a vida social que se passa pela Internet. Também os estudos. Na Espanha, todas as universidades estão dotadas agora de um “campus virtual” onde os professores colocam suas anotações e respondem às dúvidas de seus estudantes.

Os pais do colégio Montserrat não são exceção e também se preocupam. Nesse reduzido círculo há exemplos de censura ou, ao mesmo, tentativas de controle. Henar não conhece sua senha no Messenger. Seus pais decidiram abrir uma conta para ter a chave de seu acesso a esse chat. Os de Miguel colocaram o computador em uma área de uso comum, “não sei se é por acaso, mas assim podem saber quanto tempo fico conectado e onde me meto.” Clara tem um irmão pequeno e seus pais recorreram a um método mais sofisticado. O programa Canguro.net detecta certas “palavras proibidas” e nega o acesso aos sites nos quais estas aparecem. “Mas nós não conseguíamos entrar em nenhum endereço e faz um mês que o desinstalaram. Por exemplo, eu não podia ver o blog de uma amiga porque se chama A batata quente.”

Mas para os assuntos mais íntimos (sexo, fundamentalmente), em quem eles confiam? O curioso é que para esses temas eles optam pelas vias tradicionais. Continuam pedindo conselhos aos amigos, irmãos e primos.

Mas têm consciência de que a Internet lhes permitirá encontrar respostas adequadas a perguntas que escapem ao conhecimento dos mais próximos. As meninas estão preocupadas com a nova vacina contra o câncer de útero e várias rastrearam a web para se informar, algo que escapa aos seus pais, os tradicionais guardiões de todas as vacinas.

Pura Silgo os conhece bem. É professora de literatura e confessa que os vê “diferentes e iguais” aos jovens que encontrou em 1979, quando começou a dar aulas. “Os adolescentes têm uma constante bem clara no desenvolvimento de sua personalidade: inseguranças ao confrontar o mundo, em sua maneira de ver aos adultos como misteriosos e ou mesmo como exemplo. A etapa da transição é uma pela qual se precisa passar e que, por sorte, sempre passa.” “O alarmante dessa geração é que são os primeiros que passam essa parte crucial da vida estabelecendo suas relações pessoais de uma forma virtual. Geralmente, dizem pelo Messenger coisas que não seriam capazes de dizer uns aos outros pessoalmente, algo que pode ocorrer em todas as idades, mas que preocupa no momento em que se está formando a personalidade, pois alguém pode estar criando um personagem que não seja de todo real”, explica Silgo. “Se quando você é um adolescente já lhe faz mal olhar-se no espelho, imagine se minutos antes você estivesse fantasiando que era alto, loiro e de olhos azuis…”

“El País”

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Crise econômica atinge pubs do Reino Unido

Roger Blitz

As casas de bebida no Reino Unido já foram chamadas de várias coisas -pubs, inns, tavernas, gastropubs, bares, boozers -, mas nunca de espécie ameaçada de extinção. O país no qual os pubs tiveram origem tem tantos estabelecimentos desse tipo que ninguém sabe precisamente quantos existem.

“Nos últimos dez ou 15 anos o número de pubs sempre manteve-se em torno de 60 mil. Mas nos últimos tempos muitos deles têm fechado as portas”, afirma Julian Hough, analista do Campaign for Real Ale (Camra), um grupo de lobby do setor de bebidas alcoólicas.

Esse índice de falência dos pubs está atingindo níveis críticos, segundo especialistas no setor. No ano passado cerca de 1.400 pubs fecharam as portas, e um número similar terá desaparecido até o final deste ano. A firma de serviços profissionais PwC reajustou as suas estimativas quanto aos fechamentos, adotando uma previsão mais pessimista.

Embora ninguém esteja prevendo um declínio terminal do pub britânico, este estabelecimento, que há séculos é o centro da vida social do país, corre risco.

Hoje é o aniversário da proibição do fumo em locais públicos na Inglaterra, um fato que ameaçou a sobrevivência dos pubs, já que eles dependiam daqueles fregueses que vinham regularmente para “tomar uma caneca de cerveja em silêncio” e fumar um cigarro.

Um ano depois, os piores temores dos donos de pubs materializaram-se. Mas o problema não é apenas o resultado da perda direta de fregueses fiéis provocada pela proibição do fumo.

O dano real foi provocado pelo fato de as redes de pubs terem decidido superar a proibição reinventando-se como restaurantes de jantar a fim de atraírem uma nova clientela - especialmente mulheres e famílias, que anteriormente mantinham distância dos pubs, cuja imagem era a de bares enfumaçados, dominados pelos homens e rescendendo a cerveja. As cozinhas foram reformuladas e os menus aperfeiçoados para que se atingisse uma qualidade digna de restaurantes que servem salada, prato principal e sobremesa.

Um ano após a proibição do cigarro, os modelos empresariais e os preços das ações estão sem dúvida alguma vivendo um mau momento no Reino Unido. Uma economia britânica em desaceleração está fazendo com que os consumidores reduzam os seus gastos. A disparada dos preços dos alimentos também prejudicou as vendas.

“O índice de fechamento de pubs atingiu níveis recordes”, afirma Mark Hastings, da Associação Britânica de Pubs e Cerveja.

E os desafios também vêm de outras partes. Os supermercados estão prejudicando os negócios dos pubs com a venda de bebidas alcoólicas baratas, fazendo com que uma noite em um pub seja um programa menos tentador. Os parlamentares desejam investigar se as companhias de pubs não passaram a exercer um poder excessivo sobre gerentes independentes que alugam as instalações de grandes operadores.

E, em março passado, um governo carente de verbas aumentou o imposto sobre a cerveja, aumentando em 15 pennies o preço do pint (568 ml) da bebida, segundo Camra.

Nos estabelecimentos mais sofisticados de Londres, um pint de cerveja da variedade lager é vendido a £ 4. Até mesmo nas regiões mais pobres do Reino Unido, um pint da ale real, uma bebida cujo sabor morno e não gasoso há muito atrai os turistas, custa impalatáveis £ 2,40.

Não é de se admirar que as companhias de pubs estejam prevendo que o declínio do consumo de cerveja diminuirá, seguindo a tendência dos últimos anos.

Mas nem todos estão totalmente pessimistas. A Wetherspoon, que vende café da manhã e café nos seus pubs, informa que está se saindo bem com a sua oferta diversificada, embora admita que a proibição do fumo acabou com uma fatia da sua clientela.

Hough adota uma visão otimista quanto à possibilidade de alguns estabelecimentos britânicos antigos se recuperarem, sugerindo que já passou da hora de aplicar princípios econômicos isentos de sentimentalismo à indústria dos pubs.

“No passado a indústria resistiu bastante a fechar pubs que não apresentavam um bom desempenho”, diz ele.

“Financial Times”

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A ditadura das trevas

Juan Jesús Aznárez

Um pequeno barco de tripulação pirata atracou, no final de janeiro, junto ao quebra-mar de Bata, bem perto de um banco na segunda maior cidade da Guiné Equatorial, o novo centro petrolífero da África. Dez homens fortemente armados desceram à terra, correram até o banco com manobras de comandos e dominaram os vigilantes e os clientes sem encontrar resistência. Tudo aconteceu no meio da manhã. “Foram atraídos pelo dinheiro do petróleo,” imagina um comerciante, que soube da evolução do assalto por um amigo que ficou refém.

Um helicóptero do Exército perseguiu os atacantes, mas foi obrigado a retroceder, ao receber uma rajada de tiros vinda do pequeno barco, e não pôde responder, pois os policiais com metralhadoras tinham esquecido de colocar munição. Nada se publicou sobre aquele audacioso assalto e nada se sabe sobre o quanto foi roubado.

A agreste ex-colônia espanhola (1778-1968) foi cobiçada por piratas, mercenários, comerciantes e governos, desde que os barcos negreiros do século XVI zarparam de seus portos com os bantos acorrentados uns aos outros, escravos nas plantações americanas das potências coloniais. A Guiné Equatorial perdeu então boa parte de sua população, abasteceu de madeira, cacau e palmeiras a Espanha e, desde os descobrimentos da Exxon Móbil em 1999, o petróleo bruto flui graças aos cargueiros das multinacionais, que o transporta às suas refinarias do Texas ou da China. Terceiro produtor africano depois da Nigéria e de Angola, o antigo porto escravista tem uma arrecadação de 3 bilhões de euros anuais, cerca de 25% dos lucros petrolíferos, e sua economia cresce no vertiginoso ritmo de 20%.

O PIB per capita, que passou dos 430 euros anuais para 17.000 euros, esconde a dramática realidade: 80% dos 600 mil habitantes da Guiné Equatorial vivem com menos de 200 euros mensais, e sofre com as pandemias, insalubridade, favelas e frustração. A oligarquia dominante controla a riqueza de um país coberto de florestas ricas em matérias-primas, estuários e praias fantásticas e minas ainda não exploradas.

“O petróleo fez com que os países que antes nos apoiavam agora se esqueçam de nós, mas enquanto isso a ditadura se consolida e a família presidencial continua na opulência,” denuncia o deputado da Convergência para a Democracia Social (CDS), Plácido Micó, simbólico opositor em um país sem democracia nem justiça eqüitativa em vigor, desde 3 de agosto de 1979, dominado por Teodoro Obiang, de 66 anos. Foi nessa ocasião que o ex-tenente-coronel, formado na Academia de Zaragoza, derrotou seu tio, o ditador Francisco Macías, posteriormente fuzilado, e ocupou seu trono na capital, Malabo.

A Espanha e outros países aplaudiram o desaparecimento do primeiro tirano da independência, protestaram contra as arbitrariedades do novo ditador, mas não tardaram em baixar o tom, quase emudecendo, quando seus poços começaram a bombear e o preço do barril explodiu nos mercados internacionais. Temeroso dos apetites territoriais dos vizinhos Gabão e Camarões, e dos ataques inesperados de mercenários, Teodoro Obiang comprou a proteção dos Estados Unidos em troca da parte do leão na exploração dos multibilionários hidrocarbonetos. O Terceiro Mundo costumava exigir 50% dos lucros de seus recursos naturais, mas os guinéus-equatorianos conformaram-se com 25%, segundo os dados disponíveis. Houston assinou embaixo.

As espanholas Repsol e Unión Fenosa brigam agora por um mercado de 810 mil barris diários, 2 bilhões mais em reservas comprovadas, e ricas jazidas de gás. As norte-americanas Exxon - com 70% da produção total, Maratón, Amerada Hess, Chevron, Vanco, Noble, Tritón e Ocean exploram os melhores poços do Eldorado africano, enquanto companhias da França, Reino Unido, Malásia, África do Sul, Japão ou China completam a relação de convidados ao bacanal de perfuração. “Obiang não precisa preocupar-se muito com os direitos humanos, tendo amigos tão influentes,” ironiza um empresário argentino em um dos bares da tórrida capital africana. Não lhe falta razão: os Estados Unidos receberão do Golfo da Guiné, em 2015, 25% do óleo bruto do qual necessitam, contra os 15% importados atualmente, segundo cálculos do Pentágono. Como o portenho defensor dos direitos humanos é um homem irritável, reage diante da tranqüilidade do camareiro: “Estão começando a parecer os venezuelanos. Esperam que o petróleo lhes solucione a vida sem trabalhar.”

Os contratos associados aos hidrocarbonetos e à infra-estrutura atraíram técnicos franceses, alemães, japoneses, portugueses, russos, chineses ou espanhóis, que se instalam nas limitadas acomodações de hotéis de uma cidade de 70 mil habitantes, decadente e plana, colonial na arquitetura de seu centro histórico. As estropiadas frotas de táxis das principais cidades da Guiné, sem símbolos que as identifiquem como tais, e o esquadrão de particulares ao volante de veículos de turismo japoneses da década de 1980 convivem com as modernas vans da nova plutocracia em uma agitada anarquia na circulação.

Numerosos veículos não têm placas e ninguém usa cintos de segurança. Isso não tem grande importância. O que chama atenção é a maciça entrada de financiamentos e o “boom” de construção, com as misturadoras de cimento e guindastes, que restauram os edifícios coloniais, levantam blocos de apartamentos nos bairros emergentes ou embelezam o cais de Bata. Os trabalhadores da construção civil abrem sulcos e canalizações, entram na selva para a construção de pontes e asfaltamento das estradas e abrem caminhos até os campos florestais e os trabalhos de mineração.

A más línguas atribuem o bom traçado da rodovia que vai de Bata a Mongomo ao seu caráter de cidade originária do clã esangui, que detém o aparato estatal, da etnia fang, à qual pertencem o presidente e 72% dos habitantes. A etnia agrupa 67 clãs. Quase tudo é desconcertante no tropical enclave negro: 45% dos habitantes de um país abençoado e também castigado pela descoberta do petróleo têm menos de 15 anos, e a expectativa de vida está em torno dos 50 anos.

“O governo está gastando bastante em construção, embora a saúde, a educação e a atenção social sejam um desastre”, observa um empresário espanhol que há mais de dez anos está no país. As centenas de engenheiros, executivos e técnicos norte-americanos que trabalham nas plataformas marítimas vivem alheias a essa precariedade nacional, de 50% da população sem água corrente, 19% de crianças desnutridas, de 3,2% de pessoas infectadas pelo vírus da aids, ao maciço abandono escolar e outros indicadores destacados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

O regimento de perfuradores norte-americanos está cumprindo as ordens do subsecretário de Assuntos Africanos, Walter Kansteiner, pouco depois dos atentados de 11 de setembro do ano de 2001, durante a ofensiva da guerra do Iraque e do súbito encarecimento do óleo bruto. “Tragam esse petróleo (o da Guiné) para casa”, disse supostamente o alto funcionário.

O petróleo bruto já viajava para o Texas desde a primeira perfuração no poço Zafiro, situado em alto mar, a 20 minutos por helicóptero, desde Malabo, na ilha de Bioko. Os outros barris são levados diariamente do território continental. As remessas da encomenda patriótica viajam regularmente para casa no Houston Express, um vôo de 15 horas entre Malabo e a metrópole da petroquímica. “Isso é muito fatigante e é preciso ter muito cuidado com as farras e as mulheres, porque há muita aids”, diz um norte-americano de origem filipina.

Mais de 3.000 trabalhadores petroleiros moram em uma espécie de fortaleza na península de Punta Europa, abastecida por modernos supermercados, lojas, wi-fi e serviços próprios. As residências dos diplomatas e da burguesia local evitam casas pobres e os quiosques dos arredores, que oferecem as quinquilharias próprias do subdesenvolvimento: peças de reposição, pilhas, brincos, sapatos, camisetas, ventiladores, ou Rolex a dez euros.

Mas algo respinga sobre o maná negro. Os operários locais ou imigrantes das plataformas recebem salários que oscilam entre os 500 e 700 euros mensais, e outros trabalhadores desfrutam dos negócios relacionados com a extração de petróleo. Esse pelotão compra nos supermercados Martinez Hermanos, espanhóis, e nas lojas de empreendedores libaneses, importadores de produtos de primeira necessidade a preços que aqui são elevados: o litro de leite e a cerveja, um euro e a pasta dental a 2,50.

A carestia, os exíguos salários, o déficit habitacional e hospitalar, a lamentável qualidade da educação, o abandono social, no geral, continuam presentes, apesar dos multimilionários lucros e a histórica cooperação da Espanha. O trabalho dos claretianos sempre foi abnegado e o Centro Cultural Espanhol de Bata é um oásis, mas a pobreza aflige, no porto de Malabo, aos estivadores dos navios mercantes carregados em atracadores europeus ou asiáticos. Ter mais de um emprego é quase obrigatório, apesar do discurso triunfalista do governo, cuja retórica menospreza os compromissos com a modernização e o bem-estar. O progresso avança a passo de tartaruga, enquanto a corrupção, galopante, se abate como a peste sobre o Kuait africano e sobre todo o continente negro.

A Transparência Internacional colocou a Guiné Equatorial em 151º lugar na lista negra dos 163 países mais corruptos, ao lado da Costa do Marfim, Camboja, Belarus e Uzbequistão. Mas a lamentável estatística não interessa a todos.

- Por favor, onde posso comprar uma camisa como a sua?

O senhor da camisa estampada com os retratos do presidente Teodoro Obiang e de sua esposa, em tamanho gigante, responde de mau humor da cadeira onde está, na entrada de uma loja onde se faz alisamento de cabelos e manicure. O cidadão, partidário do governo, coloca os pés em uma bacia, enquanto uma jovem realiza uma cuidadosa pedicura. Isso lhe custará meio euro.

- Comprei o tecido e mandei imprimir as fotografias. Você pode fazer o mesmo.

- O senhor deve admirar muito o presidente.

- Sim. Ele trouxe muita prosperidade.

- Mas dizem que ele é muito rico e que o dinheiro do petróleo não chega até as pessoas.

- Quem foi que lhe disse isso?

- Por aí, mas estou certo de que mentiram para mim.

- Tudo isso é mentira. E você, o que veio fazer em nosso país?

O transeunte suspeito chegou à Guiné Equatorial com o visto de turista e o interesse pessoal e profissional pela história e pela revolução petrolífera de um país onde há abundância de metais preciosos e madeiras nobres, coberto por 2.200.000 hectares de densas florestas, das quais foram exploradas apenas 400 mil. O intrometido branco visitou cidades extremamente quentes, sem bancas de jornal, nem livrarias, nem debates; sem sindicatos, nem poderes independentes: um país católico e de religiões tribais, anestesiado por uma publicação mensal, três emissoras de FM estatais e um canal de televisão que se limita a transmitir propaganda do governo e programas folclóricos ou sobre temas agropecuários. Reinam nas telas Pipi Calzaslargas e Heidi, a menina dos Alpes suíços. Os vizinhos com parabólicas livram-se da desgraça.

O atrevimento do senhor da camisa, os silêncios e os esquivos raciocínios ouvidos nas ruas, lojas e mercados de Malabo e Bata atestam o temor de falar mal do regime e o compreensível analfabetismo político de uma sociedade distanciada do mundo da informação e da liberdade. As suculentas vantagens petrolíferas atiçaram a corrupção e o desencanto em uma população onde tanto abundam os telefones celulares, quanto é primitiva a vida nas comunidades de pescadores e caçadores que moram ao lado de veios de mercúrio e urânio, dos gorilas, crocodilos e do morcego da língua comprida.

Os tesouros naturais de um país onerado pelas imoralidades próprias da descolonização explicam a atitude dos Estados Unidos, França ou Espanha, e o golpe em 2004 dos 60 mercenários sul-africanos financiados por negociantes e políticos, vários deles britânicos, interessados todos nos lucros do petróleo. A fracassada tentativa de golpe demonstrou que o monopólio norte-americano estava sendo ameaçado. A Casa Branca apressou-se em fazer uma advertência contra novas aventuras. “Daí vêm a acolhida, há dois anos, do presidente Bush a Obiang, a quem chamou de amigo dos EUA”, segundo destacou o professor suíço Max Lininger-Goumaz.

E a fortuna do presidente Obiang, será tão valiosa como publicou a revista Forbes há dois anos, 600 milhões de euros? Os desafetos de Obiang a multiplicaram ao infinito. “Tudo é dele. Esse bloco de apartamentos é de um filho; essa granja, de sua nora; esse hotel, de um cunhado e Teodorín passeava com uma Ferrari… Por favor, fale baixo e não tire fotografias”, ele suplica ao acompanhante que teme acabar com seu esqueleto na prisão de Black Beach, na capital, da qual Obiang foi diretor quando conspirava contra seu tio Papá Macías. O executado antecessor do atual ditador espantou o mundo ao assassinar ou enviar para o exílio dezenas de milhares de pessoas da etnia bubi e crucificar vários opositores. O rude sanguinário, bem conhecido pelos espiões do almirante Carrero Blanco, glorificava Hitler, “o salvador da África”, ante o corpo diplomático.

O patrimônio de Teodoro Obiang, protegido por uma força de guarda-costas marroquinos, recomendada pela monarquia de Rabat, não foi tema apenas da revista norte-americana que publica a lista dos homens mais ricos do mundo. O Sub-comitê Permanente de Investigações do Senado dos Estados Unidos rastreou mais a fundo as contas familiares, quando foi alertado sobre a maciça lavagem de dinheiro no setor de serviços financeiros. Os guardiões do sub-comitê demonstraram há quatro anos que o Banco Riggs permitiu que Teodoro Obiang e seus familiares exercessem o nebuloso manejo de mais de US$ 600 milhões, depositados em 60 contas e depósitos em dinheiro vivo. Quase todos correspondiam a pagamentos da Exxon Móbil e da Maratón, que depois foram transferidos para contas do banco dos Países da África Central.

Pelo menos metade dessas contas funcionavam como contas de pessoas física em nome do presidente, sua esposa, seu irmão, seu cunhado, seus filhos homens ou sua filha. A família comprou casas nos Estados Unidos, na Espanha e em outros países e seus gastos foram muito elevados. O banco os ajudou a criar empresas, fantasmas ou reais, e a construtora Abayak, importadora de materiais de construção e sócia de operações imobiliárias, respondia diretamente ao casal presidencial. “Essa empresa entrou com 15% em uma filial da Exxon Móbil denominada Móbil Oil Ecuatorial Guinea,” revelou o informe.

Outras revelações saíram em jornais e confirmaram a inclinação de Teodoro Nguema Obiang, Teodorin, filho do presidente, à prodigalidade, às marcas de moda e aos carros de luxo. O jovem, ministro da Agricultura e Bosques, gastou cerca de 1,25 milhão de euros em hotéis, automóveis e festas, durante um fim de semana na Cidade do Cabo, segundo o jornal sul-africano The Star. No dia 20 de julho de 2005, o jornal Cape Times revelou outras das aquisições do presidente da Associação Filho de Obiang: um Lamborghini esportivo de 380.000 euros, e dois Bentley,modelos Arnage e Mulliner,por 800.000 euros. O hedonismo do filho preferido, dono da Televisão Aponga, continuou um ano mais tarde, com o desembolso de 600.000 euros, pelo aluguel do soberbo iate do então quinto homem mais rico do mundo, Paul Allen, co-fundador da Microsoft. Os gastos em bens de consumo foram tão difíceis de ocultar como as tramóias que engordaram as contas bancárias.

Uma empresa de equipamentos controlada pelo ditador e dois de seus filhos, Otong AS, recebeu US$ 11 milhões em dinheiro vivo. Funcionários de confiança de Obiang entregavam o dinheiro em maletas, ao gestor norte-americano das contas. O grosso vinha em pacotes plastificados, que não eram abertos, e o resto era contado em máquinas de alta velocidade. Para simplificar o processo de entrada, recorreu-se à pesagem dos pacotes. Um milhão de dólares em notas de cem dólares? Nove quilos e 700 gramas. Ninguém indagava qual a origem dos dólares porque isso era conhecido de todos. As pesquisas norte-americanas chegaram ao Santander que recebeu, entre 2000 e 2003, 60 transferências do Banco Riggs, no valor de US$ 26,4 milhões. Isso foi parar na conta da entidade espanhola da empresa Kalunga, do presidente. O Senado dos Estados Unidos pediu informações ao Santander, mas o banco se negou a dá-las, escudando-se na legislação espanhola.

Tampouco Obiang quis informar ao sub-comitê sobre a procedência de seus lucros, títulos e movimentação contábil. O Riggs encerrou todas as suas contas para evitar males maiores. Nada que não se pudesse contornar, pois seu principal cliente abriu novas contas no Banco dos Países da África Central, “de onde controla seus vastos bens”, segundo fontes bancárias espanholas. O regime manipulou “cerca de 16 bilhões de euros, 80% dos quais vindos do petróleo, mas 80% da população vive na miséria e apenas 5% desfrutam de um nível de vida superior ao dos suíços”, segundo afirma Armengol Engonga, porta-voz do denominado Governo da Guiné Equatorial no Exílio, com sede em Madri, na ausência de Severo Moto, preso da Espanha por sua suposta participação no golpe contra Obiang. O ex-embaixador norte-americano em Malabo (2004-2006), R. Niels Marquardt, não conseguiu esconder a verdade sobre a ex-colônia,em declarações à Gaceta de Guinea Ecuatorial, pró-governo, editada na capital espanhola: passou de pobre a rico, disse o diplomata, “mas muitos habitantes do país não têm mudanças em sua vida cotidiana, como nos setores de educação e de saúde.”

Quando a Guiné era pobre, mas potencialmente milionária, espanhóis madrugadores urdiram uma trama para fazer negócios. “A assinatura de todos os contratos passava por ele, assinava tudo e diziam que era preciso tomar cuidado com as mulheres porque ele gostava de todas”, lembra uma pessoa que viveu aqueles tempos. “Então, alguns empresários viajavam com prostitutas. Imagine-se o restante.” O protagonista de uma das armações comentou com Armengol Engonga, há uns 15 anos, que “conhecendo-se o personagem, no final já levávamos profissionais e quanto mais bonitas, melhor. Nos bailes e nas festas que dava, Obiang se interessava por todas. E assim eram firmados os contratos e as concessões”.

- Quantos filhos tem o presidente?

- Sessenta ou setenta.

- Estou falando sério.

- E eu também. Ele se considera proprietário do país e portanto, todas as mulheres lhe pertencem, todas as propriedades lhe pertencem e todos os recursos naturais lhe pertencem.

- E como governo?

- Ele tem a noção de Estado. É uma tribo que governa na Guiné, e com os mecanismos da tribo, em uma sociedade de analfabetos funcionais. E depois chegam os deputados espanhóis saudando-o ou rindo de suas gracinhas, querendo que acreditemos que é dia quando é noite. Seu comportamento hipoteca todo o futuro de um povo.

Os exilados mencionam com críticas a visita à Guiné Equatorial dos parlamentares do PSOE, Fátima Aburto; do Partido Popular, Francesc Ricomá e da Convergência e União, Jordi Xuclá,em uma representação de seus respectivos grupos,para observar as eleições legislativas e municipais do dia 4 de maio passado. Em um comunicado conjunto afirmam que sua presença representou “um novo passo no processo de democratização da Guiné Equatorial e um avanço em matéria de garantias eleitorais quanto às eleições realizadas em 2004, que deverá ser melhorado e completado em datas futuras.” A iniciativa da viagem foi do Ministério das Relações Exteriores, cuja embaixada em Malabo, chefiada por Javier Sangro de Liniers, parece estar em sintonia com a desfaçatez de muitos guinéus-equatorianos. “O embaixador, que precisou sair para um jantar, estará encantado em recebê-lo, mas não faremos declarações,” reitera o conselheiro, Javier Irazoqui. “Não quero declarações,” expliquei. “Quero que conversemos um pouco, totalmente “off the record” (confidencialmente), sobre como está o país.” A resposta do jovem e obediente diplomático foi patética: “Você pode se informar na internet da embaixada.”

A conciliadora aproximação da Espanha com a ditadura, obviamente encaminhada para facilitar os negócios espanhóis, deixa assombrado o diretor da Associação para a Solidariedade Democrática com a Guiné Equatorial (ASODEGUE), o espanhol Adolfo Fernández Marugan. “Os três deputados reproduzem a opinião do Ministério das Relações Exteriores, que há anos diz que a Guiné está mudando. O que aconteceu no dia 4 foi uma encenação. Os três observaram as eleições sob a ótica do partido oficial, afirma o especialista. “A situação da Espanha é um mistério. Não fez nada em relação ao petróleo. Não tem nada. Não houve nem uma única concessão para a Repsol e a Unión Fenosa só firmou algo para participar da ampliação de uma fábrica de gás natural. Mas sim, a Espanha compra petróleo do país.” “Eu me pergunto,” disse Fernández Marugán: será que o petróleo da Guiné é tão imprescindível para a economia espanhola a ponto de transtornar a política da Espanha em relação a esse país? Isso é o que se deve avaliar.”

A Repsol ambiciona por novas participações em prospecção, e a Unión Fenosa participará, junto do grupo alemão EON, da construção de uma segunda usina de liquefação em Bioko, e em três gasodutos, com um investimento de 2,035 bilhões de euros. A boa condução de tais projetos passa pela amistosa saudação a Teodoro Obiang, que sempre ganha as eleições por desistência do adversário. Seu movimento, o Partido Democrático da Guiné Equatorial (PDGE) tem coligações com nove outras formações amigas, e venceu nas eleições de 4 de maio com 99% dos votos. Ficou com 99 dos 100 assentos na Câmara dos Representantes do povo, as 36 prefeituras em jogo e com quase todos os cargos de vereador, menos três. “O PDGE ganhou de forma tão esmagadora porque é a única alternativa que resolve os problemas do país”, segundo seu secretário geral, Filiberto Ntutumu. Para o porta-voz governamental, “o pluralismo nacional é válido, já que não existe um modelo único de democracia.”

Obiang é mais taxativo: “O ensaio democrático da Guiné Equatorial, teoria que eu inventei, é uma realidade.” O historiador Iñaki Gorozpe também é: o ditador “age como amo e senhor do país” e as eleições não passaram de uma paródia. “Aqui não há democracia, mas sim o contrário. E aqueles que qualificam as eleições de “avanço democrático” (referindo-se aos três parlamentares espanhóis) estão enganando a si mesmos,” ressalta o unido deputado da oposição, Plácido Micó. “Houve mais intimidações, mais violência e mais violações das normas eleitorais que nunca.”

Engendrando suas artimanhas desde 1979, incluindo a Embaixada e os jornalistas espanhóis que quiseram cobrir as eleições de 4 de maio, aos quais se prometeu um visto que nunca chegou, a Guiné Equatorial permanece ancorada ao totalitarismo e repressão, segundo a Anistia Internacional. Tudo indica que o “leopardismo” do dia 4 de maio, o formato da campanha e dos colégios eleitorais, as aparências, em resumo, são concessões aos governos ocidentais que precisam de avanços para poder defender a moralidade de suas políticas de Estado. O discurso de campanha de Teodoro Obiang estabeleceu os limites de sua democracia: “Pluralismo sim, mas sempre dentro do programa político do PDGE.” Plácido Micó admite sua impotência: “É preciso viver aqui para compreender isso. Um pobre jovem interventor de meu partido pode assistir ao escrutínio, mas depois não recebe o registro das votações,” explica. “Se ele fica com o presidente da mesa, do partido no poder, ele faz o que quiser com o registro. E se apresentamos um recurso, responde o ministro, porque ele não se reporta à Junta Eleitoral Nacional. E outras artimanhas. Manipulam à sua livre vontade. Essas foram as piores eleições.”

Anoitece em Malabo e na casa de Antonio, que não se interessa pelas eleições. O gentil guinéu-equatoriano, com esposa e cinco filhos, carrega uma certa visão fatalista da vida. “Não posso me queixar. Ganho para minhas necessidades, mas tenho medo que algum de meus filhos fique doente. Nos hospitais é preciso levar até o travesseiro. E os remédios, é preciso comprá-los nas farmácias, e são muito caros.” As crianças o rodeiam enquanto ele fala, sentado na despojada sala da casa. Antonio mostra o certificado que recebeu por ter votado no dia 4 de maio, com seu nome, sobrenome, endereço e selo oficial. “Eu o levo sempre no carro, porque podem pedi-lo nas barreiras do exército. Quem não o tiver pode levar uma multa, ser repreendido ou será preciso dar dinheiro a eles. Pode-se até perder um documento e se você for funcionário público, o trabalho. Na cidade isso não acontece. Só com quem sai em direção às rodovias.” Seu agonizante Toyota Carina transporta crianças para colégios particulares em uma espécie de acerto de 400 euros. Não é ruim. “O que mais me dá raiva é que o petróleo vai acabar e não receberemos nada. Antes vivíamos melhor. Eu mandava minha mulher ao mercado e ainda sobrava dinheiro. O outro presidente era melhor.” Que outro? Macías? “Sim Macías. Aquele não tocou no petróleo, embora soubesse que havia muito.” O tirano Francisco Macías é a referência de Antonio, porque não existem outras. Nem para ele, nem para seus pais, nem para seus avós. Nunca houve democracia na Guiné Equatorial, que apenas conheceu o primitivismo tribal, o açoite da colônia e dos ditadores da independência. São onze da noite. Uma lona militar cobre o carro de combate estacionado na entrada de um hotel francês com quartos sem luxo, a 300 euros. Coisas do petróleo e do capitalismo selvagem.

“El País”

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A arte na Grécia Antiga

HISTORIANET

As manifestações artísticas no mundo grego alcançaram notável desenvolvimento, refletindo as tradições e as principais transformações que ocorreram nessa sociedade ao longo da antigüidade.

A arte grega è antropocentrica, preocupada com o realismo, procurou exaltar a beleza humana, destacando a perfeição de suas formas, è ainda racionalista, refletindo em suas manifestações as observações concretas dos elementos que envolvem o homem.

A arte Pré Helênica

A arte cretense chegou até nós a partir das ruínas do Palácio de Cnossos, e demonstra a influência das civilizações do Oriente Próximo, como a grandiosidade do próprio palácio, assim como as características da pintura, principalmente as figuras humanas, normalmente caracterizadas pela cabeça em perfil e os olhos de frente; o corpo de frente e as pernas de perfil.

A arte micênica caracterizou-se principalmente pelo desenvolvimento da arquitetura, tendo como modelo o megaron micênico (sala central do palácio de Micenas) e pelo desenvolvimento do artesanato em cerâmica, onde encontramos figuras decorativas, retratando cenas do cotidiano. Apesar da forte influência cretense, a arte micênica tendeu a desenvolver elementos peculiares, iniciando uma distanciação das influências orientais.

Homens e deuses na arte grega

Para compreendermos melhor as manifestações artísticas dos gregos é necessário retomar a importância da religião e de sua manifestação na vida humana.

A MITOLOGIA significa o estudo dos mitos, ou seja , o estudo da história dos deuses. Isso quer dizer que, para os gregos, cada deus nasceu em um certo momento e desenvolveu sua vida com características próprias. Mais, os gregos deram representavam os deuses com a forma humana e principalmente acreditavam que possuíam virtudes e defeitos.

A religião grega dava grande valor aos deuses ao mesmo tempo em que dava grande valor aos homens. Por isso sua cultura é considerada antropocêntrica, individualista e racional; é ainda hedonista, possibilitando ao homem a realização de obras de que reflitam seus sentimentos internos, produzindo por prazer, sem ser utilitarista, como vimos na cultura antiga oriental, pragmática.

A arquitetura grega

A principal manifestação da arquitetura foram os templos gregos.

O fato de serem politeístas e de acreditarem na semelhança entre deuses e homens, criou uma expressão religiosa singular no Mundo Grego, sendo que os templos dos mais variados deuses se espalharam por todas as cidades gregas.

Os templos eram construídos normalmente sobre uma plataforma de um metro de altura chamada estereóbato.

Os edifícios públicos também têm importância arquitetônica e refletem as transformações [políticas vividas pelas principais cidades gregas, como Atenas.

A utilização de colunas de pedra é uma das características marcantes da arquitetura grega, sendo responsável pelo aspecto monumental das construções.

A princípio as colunas obedeceram a dois estilos: o Dórico, mais simples e “mais pesado” , e o Jônico, considerado “mais suave”. No século V surgiu o estilo Coríntio, considerado mais ornamentado, refinado. Foi neste século V , também conhecido como século de ouro ou ainda século de Péricles, que a arquitetura conheceu seu maior desenvolvimento, tendo como grande exemplo o Partenon de Atenas, do arquiteto Ictino.

A escultura grega

Entre os séculos XI e IX a.C. a escultura produziu pequenas obras, representando figuras humanas, em argila ou marfim. Durante o período arcaico a pedra tornou-se o material mais utilizado, comum nas simples estátuas de rapazes ( Kouros) e de moças (Korés) e ainda refletiam a influência externa.

O apogeu da escultura ocorreu no período clássico, durante o século V , quando as obras ganharam maior realismo, procurando refletir a perfeição das formas e a beleza humana, e posteriormente ganharam dinamismo, como se percebe no Discóbolo de Miron.

“HISTORIANET”

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Países pobres são a nova aposta dos laboratórios farmacêuticos

Yves Mamou

Os laboratórios farmacêuticos europeus fazem mais esforços que os americanos para ajudar os países pobres a ter acesso aos medicamentos. É o que se deduz da classificação publicada na última segunda-feira (16) pela fundação holandesa Access to Medicine, em colaboração com o órgão de estudos especializado Innovest.

O laboratório britânico GlaxoSmithKline (GSK, nº 2 mundial) fica no topo, a uma boa distância do dinamarquês Novo Nordisk, um laboratório de porte médio especializado em diabetes. Vêm depois o suíço Novartis (nº 3 mundial) e o francês Sanofi-Aventis (4º lugar). O único americano que entra no jogo é o Merck, terceiro classificado. Mas o primeiro lugar mundial em termos de faturamento, o laboratório Pfizer, fica nas profundezas da classificação, em 17º lugar. Da mesma maneira, o Abbott, que teve freqüentes disputas com associações de doentes de Aids, se classifica em 12º.

Detalhe interessante, três fabricantes de genéricos, os indianos Cipla (14º) e Ranbaxy (16º), assim como o israelense Teva Pharmaceutical (19º), integram a classificação. Por outro lado, laboratórios prestigiosos de biotecnologia como Amgen ou Genentech estão ausentes, enquanto um menor como o Gilead Sciences (inventor do Tamiflu) integra a lista em 15º lugar.

Facilitar o acesso dos países em desenvolvimento aos medicamentos e à saúde nunca fez parte do “core business” (atividade estratégica) das farmacêuticas. Mas o aumento das preocupações humanitárias nos países do norte (desenvolvimento sustentável, antiglobalização, comércio eqüitativo…) e principalmente a onda de choque nascida em 2001 do processo tentado pelos grandes laboratórios contra a África do Sul, para impedi-la de fabricar medicamentos anti-Aids patenteados, mudaram a situação.

Conscientes de que são considerados parcialmente responsáveis pela decadência sanitária de certas regiões do mundo, percebendo -com atraso- que essa percepção pode ter conseqüências nefastas para sua atividade principal nos países desenvolvidos, os laboratórios farmacêuticos repensaram sua atitude em relação aos países em desenvolvimento. Eles não se limitam mais a uma política de caridade (socorro de emergência e doações regulares de medicamentos) como muitos faziam antes. Todos ou quase todos implantaram uma administração ligada à direção geral e estabeleceram uma estratégia específica.

Financiamentos complementares
A classificação levou em conta oito critérios que vão de uma política de preços diferenciados à suspensão provisória das patentes, passando por acordos de licença sem royalties com fabricantes de genéricos, uma pesquisa dedicada a certas doenças tropicais, subvenções dadas a organizações não-governamentais e a associações humanitárias.

É a soma dos pontos obtidos por cada laboratório em cada um desses critérios que leva o inglês GSK a encabeçar a classificação geral. Mas um laboratório como o Eli Lilly, 10º na classificação geral, pode ser o número 1 no critério da transparência de sua política sobre o assunto.

Em todo caso, o estudo mostra que a ação da maioria dos laboratórios em relação aos países pobres deixou a órbita da caridade para integrar uma dimensão maior e mais estratégica. Assim, constata-se que todos os laboratórios da lista, incluindo os fabricantes de genéricos, dedicam orçamentos de pesquisa e desenvolvimento à descoberta de novos tratamentos contra doenças antes negligenciadas, como a dengue, malária, esquistossomose, etc. O interesse dos laboratórios pelas doenças negligenciadas foi dinamizado pelos financiamentos complementares de grandes fundações humanitárias como a de Bill e Melinda Gates. A filantropia de alguns e as capacidades de pesquisa de outros dão uma esperança para as populações deserdadas da África e da Ásia.

GSK, Novartis e Sanofi-Aventis estão empatados em primeiro lugar em termos de pesquisa e desenvolvimento. Em relação às patentes, o GSK é o número 1 juntamente com Merck e Gilead pela qualidade dos acordos de licença feitos com certos fabricantes de genéricos, com o objetivo de melhorar o acesso das populações desfavorecidas aos medicamentos. Os piores classificados nesse sentido são Abbott e Pfizer.

Para enfrentar o flagelo da falsificação de remédios na África e na Ásia, alguns laboratórios ajudam os países em desenvolvimento a fabricar e distribuir medicamentos, assim como a formar pessoal de saúde local. Merck e o alemão Bayer estão no topo nesse critério, seguidos de perto por Eli Lilly e GSK.

“Le Monde”

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‘A mundialização do capital financeiro se tornou irreversível’.

Uma entrevista com François Chesnais

François Chesnais, professor de economia internacional da Universidade de Paris-XIII em entrevista ao Valor, 4-05-2007, afirma que a crescente concentração do capital financeiro tornou a mundialização irreversível. No Brasil, Chesnais é conhecido, sobretudo pelo seu livro A Mundialização do Capital - lançado em 1994 na França e em 1996 no Brasil, pela editora Xamã - um marco na bibliografia antiglobalização. Na entrevista Chesnais fala ainda da crise da esquerda francesa.

Se Ségolène Royal ganhar a eleição, será uma vitória da esquerda francesa?

Não. Vou dar uma resposta um pouco provocativa. A esquerda francesa está em grande crise. Neste instante, ela não existe. Se vai existir de novo um dia, ela deve ser reconstruída completamente. Porque se, por acaso, Ségolène ganhar no domingo, será com a adesão dos eleitores de François Bayrou, que é um conservador católico, embora tenha origem no humanismo da democracia cristã. Ségolène é uma pessoa que vem de uma origem familiar muito próxima da de Bayrou. Parte de sua família é de militares. Não é um produto do Partido Socialista. É um produto do mitterrandismo, um quadro formado na Escola Nacional de Administração, que chega ao partido pelas necessidades de sua carreira política quase por imposição do longo período de 14 anos do governo François Mitterrand. Ela chegou ao Partido Socialista porque precisava integrar o partido dominante.

Ainda não significaria essa retomada da esquerda?

A situação do Partido Socialista é o resultado do esforço de enquadrar a França, de esquecer que ela foi o país da grande revolução. Ségolène Royal é apenas um toque a mais. Sua aproximação com Bayrou não é totalmente contra a natureza.

Por que o país que fez a revolução é hoje tão simpático à direita?

O eleitorado foi posto diante de um cardápio político construído a partir de um mecanismo da oferta. É como no supermercado, onde ninguém verdadeiramente escolhe nada. O comerciante é que decide o que vai lhe oferecer. Há dois anos, a condição do escrutínio foi completamente diferente. O voto negativo à constituição européia terminou exprimindo uma demanda política totalmente diferente. Houve uma falha terrível da esquerda do Partido Socialista. Por isso a oferta agora foi totalmente construída em torno de Nicolas Sarkozy e Ségolène. Jean-Marie Le Pen perdeu grande espaço. Mas muita gente votou em Bayrou. O problema é que, depois do referendo de 2005, houve uma parcela de 35% do eleitorado que ficou sem oferta política, sem um programa político. O drama é esse. Nós veremos rapidamente que seja qual for o resultado da eleição não corresponderá ao clima social.

Mas não há diferença entre os dois resultados possíveis?

A França é o país da Europa com explosões sociais mais freqüentes. Acho que o resultado das eleições não mudará isso. Se Sarkozy ganhar, teremos um momento de depressão. Acredito que teremos um estado de espírito muito pessimista. É um homem absolutamente sem escrúpulo. É um tipo de político que a França não vê desde a década de 30. É um gênero de político que prefere atirar contra as manifestações. Se houver um caso como a revolta dos jovens dos subúrbios, terminará em muito sangue. Ele não tem nenhum poder, com exceção da repressão. Porque simplesmente não existem respostas mágicas para os problemas da economia francesa. Se Ségolène ganhar, será um alívio. Uma resposta dos movimentos sociais.

Os líderes da América Latina são apontados como populistas, mas adotaram um discurso que definem de esquerda. Como vê esse perfil dos novos líderes latino-americanos?

Antes de tudo, gostaria de explicar que o modo de inserção da América Latina no mercado a faz dependente de um sistema mundial altamente vulnerável. Isso faz a vida política na América do Sul difícil, porque ela não pode fazer nada diante desse quadro. A coisa mais importante na política, num sentido amplo, é manter a consciência, a capacidade de organização política autônoma. Mas a grande novidade na América do Sul não são os políticos. São os movimentos dos campesinos, dos trabalhadores pobres, dos autóctones, que viviam aqui antes dos europeus, que se reafirmam. É simbólico isso no presidente da Bolívia, Evo Morales. Mas é preciso destacar que, neste contexto mundial, esses dirigentes não são totalmente livres.

O mundo está muito preocupado com a questão do aquecimento global. É possível resolver esse problema na conjuntura econômica atual?

O fio condutor para a análise é a noção da reprodução da dominação do sistema capitalista e de classe; a lógica própria do sistema e da concorrência, o mecanismo endógeno da crise. A crise de consciência de que o problema é grave é sempre abordada com a idéia de que tem de ser tratada, mas tratada em benefício da dominação, e que a reprodução se dê na melhor forma possível. Hoje há elementos de verdadeira inquietude no bloco dos países dominantes, preocupados com a possibilidade de as mudanças climáticas criarem uma situação política incontrolável. O grau de mundialização do sistema financeiro seria incapaz de absorver essa crise. Mas a cruzada de Al Gore, por exemplo, é vista de modo bem diferente na Europa.

Qual é essa visão?

Ele é minoria nos Estados Unidos. Nem é o porta-voz da visão da Casa Branca, muito menos dos Estados Unidos. Mas representa outra forma da concepção de dominação, um pouco menos fascista ou um pouco mais democrática. Al Gore não está muito longe de Jack London [escritor].

Como analisa toda a discussão mundial em torno do etanol?

É uma solução que provoca comoção no interior do oligopólio da indústria automobilística, entre os grupos que estão fabricando, ou quase, o motor a etanol. Mas é a solução para que o mundo do automóvel continue, sobreviva; para que o fetichismo do automóvel continue; para que todos os investimentos dessa indústria continuem. Para mim é um exemplo puro de uma solução para ajustar as coisas um pouquinho para que tudo continue como antes, mesmo que certas coisas se agravem.

Diante da crescente concentração do capital financeiro, o sr. crê que ainda seja possível uma reversão da mundialização do capital?

Afirmei nos anos 1990 que isso era possível, quando as coisas não pareciam tão irreversíveis como atualmente. Hoje são irreversíveis porque o que se passou daquela época para hoje foi que os fundos de investimentos modificaram completamente a estrutura de seus portfólios. Primeiro, a prioridade não é mais uma estratégia no longo horizonte, mas o rendimento do acionista. Esse sistema de stock option, as fusões e aquisições e os investimentos estrangeiros diretos modificaram todo o sistema nos anos 1990.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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Biodiesel familiar e agroindústria

Entrevista especial com Francisco Alves

O etanol e o biodiesel são os assuntos em voga quando se trata da economia brasileira atual. E a grande preocupação, em relação à produção de biodiesel, vem dos pequenos agricultores que enxergam, no cultivo das matérias-primas desta fonte alternativa de energia, uma forma de ganhar seu pão diário. Com isso, criou-se um programa que incentiva a produção de diesel a partir de óleos vegetais e que tem sido usado para promover a agricultura familiar. Porém, este programa pode seguir a linha que hoje a produção do etanol vem trilhando, ou seja, sua produção e rumos estão, cada vez mais, passando às mãos dos grandes empresários do agronegócio. No caso do biodiesel, os agroindustriais passam por uma crise na produção e exportação da soja e se organizam para que o Governo opte pela produção do biodiesel por meio do seu produto, a soja, a oleaginosa, que menos produz óleo. Esta mesma preocupação tem o professor Francisco Alves, da Ufscar. Por isso, a IHU On-Line entrevistou-o, por telefone. Já no início da conversa, Francisco avisa que há uma guerra no que envolve o biodiesel familiar e a agroindústria e ressalta “A crise está no interior do governo”.

Francisco Alves formou-se economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em seu mestrado, realizado na mesma universidade, trabalhou questões como fatores do crescimento das cidades. Lidando sempre com temas como relações de trabalho, desenvolvimento sustentável, movimentos sociais e economia solidária, fez seu doutorado, na Unicamp, em ciências econômicas, com foco nas lutas dos trabalhadores assalariados rurais.

Atualmente, Francisco Alves é professor na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os maiores entraves do biodiesel familiar e da agroindústria?

Francisco Alves – Há uma guerra entre o biodiesel pensado pelo Ministério do Desenvolvimento Rural e Reforma Agrária e o biodiesel pensado pelo Ministério da Agricultura. A crise está no interior do governo. O pensado pelo Ministério da Agricultura tem como fundamento fortalecer e arranjar uma alternativa à queda de preço da soja no mercado externo. O outro biodiesel é o que vê a possibilidade do pequeno produtor familiar produzir um produto que tenha mercado garantido. A Abag – Associação Brasileira de Agronegócio, da qual fazia parte o ex-ministro da agricultura, Roberto Rodrigues (1), está interessada em dar uma solução aos sojicultores. A soja vem caindo de preço no mercado externo já faz algum tempo e, portanto, está reduzindo a lucratividade dos sojicultores. Então, uma das possibilidades é, no lugar de se utilizar soja para a venda direta no mercado externo, utilizá-la para produção de biodiesel, que pode ser produzido a partir de qualquer óleo. Basta ter uma fonte de óleo qualquer misturada com álcool na proporção de um litro de óleo para um terço de álcool para se obter biodiesel. O problema é o seguinte: a soja é um dos produtos que têm a mais baixa relação de óleo, produzindo menos óleo do que outras culturas.

Ela produz um terço do que produz a mamona (2) e um quarto do que produz o dendê (3). O dendê e a mamona podem ser produzidos pelos pequenos agricultores. Então, se o Estado passa a assumir a compra pelos menos de parte do excedente de soja para produção de biodiesel, ele perde um mercado que renderia mais. É o mesmo efeito que o Pro-Álcool (4) teve na década de 1970 para a crise de preço do açúcar. Ele foi criado para resolver o problema da queda de preço internacional do açúcar no mercado externo. Então, o açúcar despencou no mercado externo, os usineiros bateram às portas do Estado para arranjar um jeito de resolver o seu problema financeiro. A alternativa foi o Pró-Álcool, ou seja, as usinas, além de produzir açúcar, vão produzir álcool para venda no mercado interno fazendo frente à subida de preço do petróleo. Ele foi vendido como uma alternativa brasileira à crise do petróleo, mas, na verdade, foi o resultado da crise dos preços do açúcar no mercado externo. Os preços do açúcar despencam; você cria o álcool e cria preço para o álcool, cria demandas para o álcool, porque ele vira energia, introduzindo-o na matriz energética, misturando-o à gasolina e, portanto, proporciona preço e demanda para carros que são movidos a álcool. Portanto, as usinas, no lugar de produzirem açúcar, produzem álcool e, para conseguirem isso, conseguem vultosos incentivos do Estado.

O biodiesel de soja é exatamente isso, ou seja, uma forma de resolver os graves problemas de caixa dos produtores de soja provocados pela crise de preço internacional da soja. De um lado, uma parte do Estado deseja que o biodiesel seja fundamentalmente da agricultura familiar no sentido de criar alternativa de produção e mercado para os produtores familiares. Trata-se de uma antiga reivindicação dos defensores da reforma agrária. Por outro lado, os sojicultores, o pessoal do agronegócio, defendem que o biodiesel seja fundamentalmente da soja para resolver o problema de preço dos sojicultores. A Miriam Leitão, dia desses, escreveu um artigo primoroso sobre isso, em que ela dizia que durante muito tempo os sojicultores ganharam uma grana fantástica, desmataram a Amazônia, produziram muita soja e eram principalmente gaúchos. Você encontra gaúchos hoje em qualquer lugar do Brasil, principalmente no Centro Oeste, onde foram levar suas tecnologias de produção. Durante muito tempo, eles ganharam muita grana e agora pararam por causa da crise internacional da soja. Bom, nesse momento eles chamam o Estado para salvá-los, e é nessa história que estamos envolvidos hoje.

IHU On-Line – Qual é a solução do governo?

Francisco Alves – O governo está tentando dar uma no cravo e outra na ferradura, ao afirmar que o biodiesel é um programa fundamentalmente da agricultura familiar. Ele admite que no Nordeste a produção de biodiesel virá fundamentalmente da agricultura familiar e no Sul virá da soja. Eu fico pensando o seguinte: quando você coloca a soja e seus produtores com toda capitalização que eles têm frente aos produtores familiares, quem vai levar vantagem nessa queda de braço? A história tem mostrado que quem sempre tem ganhado nessa queda de braço são os grandes proprietários, mais capitalizados. O Pro-Álcool, quando nasceu, foi pensado também em ser produzido a partir de microdestilarias, inclusive utilizando produtos da agricultura familiar no caso a mandioca. O que se produziu no Brasil de álcool vindo da mandioca? O que se produziu no Brasil de álcool vindo de microdestilarias? Coisa nenhuma. De novo a gente corre o risco de ter os pequenos produtores, os primeiros pensados nessa alternativa do biodiesel, sendo colocados de fora. Eu sou um defensor do biodiesel. Agora, eu acho que o governo tem que deixar claro quem ele pretende beneficiar com o biodiesel. Se ele tentar beneficiar os dois vai fazer a mesma besteira que fez no Pró-Álcool.

IHU On-Line – E como o senhor acha que o governo pode intervir a favor dos produtores de matérias-primas do biodiesel?

Francisco Alves – À medida que esse biocombustível for sendo comprado pela Petrobras , ele pode direcionar isto. Não com certeza, porque o pessoal da soja também quer os mesmo incentivos dados aos pequenos agricultores. Mas não oferece incentivo, não faz as unidades energéticas que o governo quer fazer, o que, no papel, é até interessante. Você pensa numa unidade produtora lá no Centro Oeste numa cidade de gaúchos produtores de soja. Parte dela vai produzir, além de soja, também cana. A cana será exportada, direcionada para produção de álcool, e parte da soja destinada para produção de biodiesel. Parte da produção de álcool produzido pela cana será associada à soja para produzir o biodiesel, ao mesmo tempo que parte do biodiesel, volta para as unidades agrícolas para moverem suas máquinas. E a eletricidade gerada a partir do bagaço de cana volta para as unidades agrícolas e o excedente de biodiesel e álcool é vendido para o mercado externo e interno. No papel é interessantíssimo.

IHU On-Line - Como os produtores de oleaginosas podem manter a competitividade com esses produtores de soja?

Francisco Alves – Esse é um tema muito difícil, porque depende fundamentalmente de uma relação de preço que varia de oleaginosa para oleaginosa e depende de uma relação de preço e produtividade agrícola. Eu acho que a matriz que temos montado no Brasil beneficia os grandes produtores, e, portanto, você expor os pequenos produtores, produzam eles o que for, a competir diretamente com os grandes produtores, vai fazer com que eles “dancem”, como historicamente “dançaram”. Até porque todas as grandes tecnologias foram geradas para o grande e não para o pequeno. O que se tem, do ponto de vista do biodiesel, é que a soja é a pior oleaginosa, perdendo para todas as outras, pela sua baixa capacidade de produção de óleo. Porém, é a oleaginosa que o Brasil produz mais e tem uma enorme capacidade de instalação para produzi-la, provocada pelas duas décadas de expansão da soja Brasil afora.

Isso torna a soja competitiva. Do ponto de vista da produção agrícola e da relação entre soja e óleo, o país perde para vários outros. Sem contar um outro produto que está despontando como como uma possibilidade fantástica, que é o pinhão manso. A Embrapa (5) vem investindo pesado no pinhão manso, na domesticação do pinhão porque ele tem uma produção fantástica de óleo e é um produto praticamente de unidade nacional. Existe o pinhão roxo no Brasil inteiro. É preciso vê-lo com uma grande perspectiva. Isso ainda está em estudo ainda, porque nunca se investiu, no Brasil, nisso, uma vez que aqui pesquisa agronômica é só para produto de ric, como a soja. Investiu-se pesado em novos cultivares, novas tecnologias, para a soja, permitindo sua expansão da região Sul para o Centro Oeste. Quem investiu nessa tecnologia foi o Estado.

IHU On-Line – O que o senhor acha do ciclo do etanol e seus avanços na região Sudeste do Brasil?

Francisco Alves – De um lado, ele é legal, porque o Brasil tem uma enorme tecnologia e capacidade produtiva na produção de álcool, conseguida pelos incentivos fiscais na década de 1970, então não podemos jogar isso fora, pois se tornou uma moeda de troca importante nesse momento. Porém, esse setor sucro-alcooleiro tem um enorme passivo social trabalhista e um enorme passivo ambiental. Portanto, se a sociedade não pressionar nesse momento pode ser que a nossa produção de álcool, que está sendo vendida como a solução para o aquecimento global, se torne num grande problema ambiental e social.

IHU On-Line – Por que um grande problema ambiental?

Francisco Alves – Porque ainda se produz álcool hoje no Brasil com uma devastação fantástica da natureza, queimando palha de cana e causando um problema enorme nas cidades. Portanto, torna-se insustentável a produção de álcool dessa forma no País. Eu acho que a gente devia aproveitar esse momento para exigir melhorias nas condições de produção de álcool. Vai depender de como a sociedade brasileira vai reagir à expansão desse produto. A gente vai querer que se expanda o álcool para atender a demanda internacional da mesma forma como que houve expansão de álcool nos 50 últimos anos? Com mão-de-obra barata, terra barata e um forte impacto ambiental? Ou a gente está querendo uma outra coisa. Eu acho que é hora de a gente colocar a expansão do álcool submetida ao controle social e, portanto, a expansão do álcool que se dê de forma sustentável socialmente, economicamente e ambientalmente. Ou seja, os três pilares do desenvolvimento sustentável.

Notas:

(1) Roberto Rodrigues - Foi ministro da Agricultura durante o governo Lula. Roberto Rodrigues é abertamente favorável à adoção dos transgênicos. Pediu demissão do cargo em junho de 2006. Na época, Rodrigues justificou sua saída devido a problemas de saúde de sua mulher, porém alguns deputados da bancada ruralista argumentaram que o ministro estava desgastado no governo e deveria sair para se preservar.

(2) Mamona – É a semente da mamoneira. Também conhecida no Nordeste brasileiro como carrapateira, uma euforbiácea. O seu principal produto derivado é o óleo de mamona, também chamado óleo de rícino. Possui diversos usos na medicina popular, como purgativo e mesmo em aplicações atuais e tecnológicas, pois o óleo mantém sua viscosidade em uma ampla faixa de temperaturas. É também utilizado como base para o biodiesel.

(3) Dendê – É um azeite popular na culinária brasileira e no candomblé. É produzido a partir do fruto da palmeira conhecida como Dendezeiro. Também é indispensável na cozinha afro-brasileira. O azeite-de-dendê pode também substituir o óleo diesel. Atualmente, é empregado na fabricação de sabão e vela, para proteção de folhas-de-flandres e chapas de aço, fabricação de graxas e lubrificantes e artigos vulcanizados.

(4) Pró-Álcool - Foi um programa de substituição dos derivados de petróleo. Desenvolvido para evitar o aumento da dependência externa de divisas quando dos choques de preço de petróleo. Com isso, de 1975 a 2000, foram produzidos cerca de 5,6 milhões de veículos a álcool hidratado.

(5) Embrapa - A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, foi criada em 26 de abril de 1973. Sua missão é viabilizar soluções para o desenvolvimento sustentável do espaço rural, com foco no agronegócio, por meio da geração, adaptação e transferência de conhecimentos e tecnologias.

IHU On-Line

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Vale do Silício começa a sentir a desaceleração econômica dos EUA

Matt Richtel e Brad Stone

Os preços dos imóveis residenciais no Vale do Silício permanecem desafiadoramente altos. Novos BMWs e Saabs cruzam o corredor da Rodovia 101. Mas pela primeira vez há sinais de que a desaceleração econômica está afetando o berço de tecnologia e inovação do país.

O crescimento do emprego diminuiu, novas empresas estão contratando e gastando com maior cautela e os investidores que nutrem as novas empresas com dinheiro e experiência estão se tornando mais frugais.

A maioria dos investidores, empreendedores e inovadores que montam empresas no Vale o faz na esperança de lançar suas ações no mercado ou vendê-las -as oportunidades que as pessoas aqui chamam de saídas. Mas com o pessimismo que toma conta dos mercados financeiros e o clima de negócios, saídas são difíceis de encontrar.

Durante os primeiros três meses do ano, apenas cinco empresas apoiadas por investidores de capital de risco tiveram ações lançadas em Wall Street, disse a Associação Nacional de Capital de Risco na semana passada, em comparação a 31 no quarto trimestre do ano passado e próximo do ponto mais baixo do estouro da bolha pontocom.

Também há uma queda acentuada na aquisição de novas empresas por corporações maiores. A Microsoft está causando alvoroço com seu esforço para comprar a Yahoo, mas fora isso as coisas estão calmas. Houve apenas 56 aquisições nos primeiros três meses do ano, em comparação a 83 no quarto trimestre.

Com as opções cada vez mais fora da mesa, os investidores devem gastar dinheiro e tempo estimulando -ou salvando- as empresas existentes em vez de construindo novas.

“Nós estamos controlando rigidamente as despesas”, disse Jim Breyer, sócio-diretor da Accel Partners, uma empresa de capital de risco. A firma é uma investidora da Model N, uma empresa de software que recentemente retirou seu registro para abertura de capital por causa das condições de mercado desfavoráveis. Breyer disse que a empresa esperará até o quarto trimestre, no mínimo, para tentar de novo.

“Ninguém sabe por quanto tempo vai durar a desaceleração”, disse Breyer.

Se durar por todo este ano, ele disse, “será bem mais do que uma inconveniência para todas as empresas”. O mercado inóspito para abertura de capital e aquisições está afetando não apenas o ambiente de inovação, mas também o estilo de vida de seus participantes.

“Menos dinheiro ingressando no Vale significa menos dinheiro para compra de imóveis, para ir a restaurantes caros, para gastar em produtos de consumo e férias”, disse Hans Swildens, fundador e presidente da Industry Ventures, uma firma de investimento que compra participações em novas empresas que precisam de injeção de capital.

O sentimento geral no Vale do Silício é de que ainda não chegamos nesse ponto, mas a realidade é que já chegamos”, disse Swildens. “Já começou.”

A região sente como se estivesse à beira de uma mudança de humor. Por um lado, seus cidadãos dizem se sentir afortunados por trabalharem em um segmento da economia e viver em uma região que foram menos atingidos do que outras partes do país. Eles também expressam uma confiança teimosa na migração inexorável para a Internet e o papel que as empresas de tecnologia terão nesta transição.

E eles afirmam que não estão sentindo nada parecido com a dor que se seguiu ao estouro da bolha pontocom, que levou a grandes demissões, um êxodo de talento, um colapso do mercado de imóveis comerciais e uma queda significativa do investimento em novas empresas.

Mas após se reerguer com persistência do estouro da bolha pontocom, o Vale se vê novamente diante de condições adversas. Nas empresas “blue chip” da área, o desempenho das ações está ruim com a desaceleração do crescimento. As ações da Google caíram cerca de 31% neste ano; a Apple teve queda de 21%. O índice composto Nasdaq, com foco em tecnologia, teve queda de 11,4% neste ano.

Entre as ações de empresas apoiadas por capital de risco que abriram o capital no ano passado, apenas 28% estão acima do preço de lançamento, em comparação a cerca de 50% em um ano típico e 70% em boas condições de mercado, segundo a Associação Nacional de Capital de Risco.

Novas empresas estão atingindo obstáculos em seu caminho para os mercados de capital. A Upek, uma empresa em Emeryville, Califórnia, que produz chips de computador e software usado para reconhecimento de impressões digitais, se registrou em maio passado para lançar suas ações no mercado. Ela então começou a estimular o entusiasmo do investidor e estava conseguindo progresso. Mas em 4 de março, ela retirou seu registro.

Em Wall Street “repentinamente não havia mais apetite por empresas em crescimento”, disse Eric Buatois, sócio geral da Sofinnova Ventures, uma firma de investimento em empresas em estágio inicial que financiou a Upek.

A Upek já dá lucro, mas sem a injeção de capital do lançamento das ações, disse Buatois, ela adiará novos produtos, limitará o número de projetos em andamento e contratará menos agressivamente.

“Você encolhe seus planos de expansão”, disse Buatois.

A Upek conta com 30 funcionários na Califórnia e outros 80 ao redor do mundo; seu departamento de manufatura fica em Cingapura, o desenvolvimento de hardware na Itália e o desenvolvimento de software fica em Praga. Ela também realiza 80% de suas vendas no exterior.

A natureza global da Upek, que é compartilhada por um número crescente de novas empresas no Vale do Silício, é uma faca de dois gumes em meio à desaceleração econômica. No lado positivo, as vendas no exterior estão isolando a empresa de algumas das condições econômicas adversas nos Estados Unidos.

Mas por causa de seus funcionários fora do país, ela paga um preço caro e inesperado em conseqüência da desvalorização do dólar.

“O maior impacto é causado pela queda livre do dólar”, disse Buatois. Ele disse que os custos para a empresa aumentaram de 10% a 20% nos últimos três trimestres. “Mas o preço do produto não está subindo.”

O murchar da economia nacional também parece ter um impacto na quantidade de dinheiro que os investidores de risco estão dispostos a aplicar.

Em 2007, os investidores em empresas em estágio inicial -os chamados “anjos”- colocaram US$ 26 bilhões em novas empresas, segundo o Centro de Pesquisa de Capital de Risco da Universidade de New Hampshire. Esse número não apresentou nenhum aumento em relação ao ano anterior, após grandes aumentos anuais desde 2003, quando o Vale começou a se reerguer do estouro da bolha.

“Desde a retomada, este é o primeiro ano sem aumento”, disse Jeffrey Sohl, o diretor do centro. Ele disse que o dinheiro estava sendo disseminado em mais novas empresas, o que significa que o valor médio investido em empresas individuais pelos anjos caiu de cerca de US$ 500 mil para US$ 450 mil.

“Não é uma crise de confiança, mas é mais uma abordagem cautelosa”, disse Sohl sobre o ponto de vista dos investidores, que ele disse que também podem dispor de menos dinheiro para investir em novas empresas, já que a queda do mercado reduziu seu capital.

A cautela provavelmente atrapalhará o crescimento do emprego. O Centro para o Estudo Contínuo da Economia da Califórnia projeta que haverá 10 mil novas vagas de trabalho na região neste ano, em comparação a 17.700 no ano passado e 25 mil em 2006.

Outra questão financeira aparentemente não relacionada mas potencialmente crucial vem da paralisia do mercado para os chamados títulos auction-rate (título de taxa variável com dividendo redefinido por leilão). Estes são investimentos que indivíduos e empresas usavam para aplicar dinheiro por um curto prazo, cientes de que poderiam resgatar rapidamente os fundos. Muitos capitalistas de risco faziam uso desses investimentos, mas agora se vêem incapazes de resgatar seu dinheiro, o que por sua vez está ameaçando a capacidade deles de pagar as contas em suas novas empresas.

Mas o espectro mais problemático para a economia de alta tecnologia é o mercado de ações estagnado e seu impacto na capacidade de investidores e empreendedores de lançarem novas ações, seja para lucro pessoal como para levantar dinheiro para a continuidade do desenvolvimento de seus negócios.

No final do quarto trimestre, havia 60 empresas financiadas por capital de risco registradas para abertura de capital. No final do primeiro trimestre, 38 estavam registradas. E de lá para cá algumas retiraram seu registro, disse Mark G. Heesen, presidente da Associação Nacional de Capital de Risco.

“Foi quão rapidamente a situação mudou”, disse Heesen, acrescentando: “Não são boas notícias e não estamos tentando dourar a pílula”.

Isto causa um impacto, ele disse. “Para o Vale do Silício, significa menos novas empresas financiadas, menos empreendedores financiados, menos empregadores com esperança de se tornarem o próximo grande empregador.”

“The New York Times”

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UE propõe política drástica para expulsar os imigrantes sem documentos

Ricardo M. de Rituerto

Os governos da UE entraram em acordo nesta quinta-feira (22/05) sobre uma harmonização das políticas de expulsão dos cerca de 8 milhões de residentes ilegais não-comunitários que endurece a repressão aos imigrantes: até 18 meses de internação; controle judicial da legalidade dessa detenção sem prazo máximo de intervenção; tratamento de menores conforme sua idade só se for possível e cinco anos de proibição de voltar ao território europeu para os expulsos. O texto deverá agora ser aprovado pelo Parlamento Europeu, onde os socialistas anunciaram na quinta-feira que introduzirão emendas para humanizá-lo.

A proposta de diretriz, que endurece drasticamente a concebida em 2005 pela Comissão Européia, foi aprovada na quinta-feira pelos embaixadores dos 27 países depois de duas semanas de discussões na reta final para acomodar os pedidos de vários países. O último obstáculo, para Alemanha, Áustria e Grécia, era a obrigação de que os países se encarregassem da assistência jurídica aos submetidos a processo de expulsão. Finalmente se concordou que cada país aplicará sua própria legislação para os insolventes.

A diretriz foi pensada para os sem-documentos de terceiros países que tenham entrado na UE ou para quem tenha esgotado sem sucesso seus processos de pedido de asilo ou refúgio. Aos retidos na porta da Europa, como os que chegam em barcos às ilhas Canárias (Espanha), continuará sendo aplicada a legislação nacional.

Com a desculpa de harmonizar as políticas de expulsão e dizendo que se trata de acabar com situações como a retenção indefinida que é aplicada por nove países comunitários, os 27 optaram por um quadro de intervenções muito rígidas, qualificadas de repressivas e desumanas por organizações ligadas aos imigrantes e até por vozes socialistas, apesar da aprovação de governos afins como o espanhol.

A diretriz estipula que os residentes ilegais possam se beneficiar de um período de repatriação voluntária que vai oscilar entre sete e 30 dias. Para os demais casos, mão dura: até seis meses de detenção em centros que, como demonstra a experiência, em geral carecem de um mínimo de condições. Esse prazo poderá ser ampliado para até um ano e meio, caso não haja cooperação do país de acolhida do retornável ou se compliquem os procedimentos burocráticos.

As detenções poderão ser ordenadas por um juiz ou uma simples autoridade administrativa. Nessa circunstância, os governos se comprometem a submeter o caso “a uma rápida revisão judicial”, sem que haja um máximo de dias definido para isso. Aos menores não-acompanhados se deverá proporcionar “na medida do possível” os meios e o tratamento correspondentes a sua idade.

O texto acordado pelos governos passa agora para o Parlamento Europeu, onde se prometem emendas que humanizem as medidas, que caso aprovadas abririam um procedimento de duração incerta. Os socialistas, o segundo grupo da Eurocâmara, anunciaram na quinta-feira que tentarão limitar o tempo de internação, fixar um período máximo de 72 horas para a revisão judicial, garantir um tratamento adequado para os menores e ampliar o período em que o retorno possa ser feito de forma voluntária.

“El País”

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Dubai: uma fantasia árabe

De poeirento posto comercial avançado, o emirado de Dubai transformou-se em líder auto-proclamado de uma ressuscitada civilização árabe. Sem uma democracia, tudo depende do trabalho de imigrantes de origem humilde. Continuará um oásis de tranquilidade no Oriente Médio por muito tempo?

Katharine Quarmby*

Dubai está no Oriente Médio, mas poderia estar em qualquer parte.
Praticamente a única coisa que liga este lugar ao passado são as vestimentas tradicionais, ainda usadas pelas pessoas que vivem lá. Os edifícios são, de maneira geral, de um moderno estilo futurista.

Culturalmente, é uma zona tranqüila em comparação com o austero tradicionalismo que impera na vizinha Arábia Saudita ou no Irã.

A ascensão de Dubai é fenômeno extraordinário. Antes um lugar atrasado, agora se constitui na conurbação de crescimento mais acelerado em todo o mundo, onde se encontra um quinto de todos os guindastes do mundo. É o sonho de um corretor de imóveis, lotada de novos empreendimentos de luxo - e um imã para os novos ricos internacionais.

Comenta-se que diversos jogadores de futebol da Inglaterra, incluindo David Beckham e Michael Owen, têm casa de luxo Palms Islands - as ilhas construídas pelo homem no oceano.

O edifício mais alto do mundo, o Burj Dubai, com mais de 160 andares, aguarda o seu término - embora não possa manter seu recorde por muito mais tempo, pois os planos para a construção da torre Al Burj, que pode chegar a 200 andares, já estão quase terminados. Um hotel sob a água está em construção assim como um novo aeroporto.

Os turistas estão chegando: mais de meio milhão de britânicos todos os anos, quase o mesmo da Arábia Saudita e cerca de 300.000 tanto da Índia quanto do Irã. A cidade espera 10 milhões de visitantes até 2010, mais que os 3,5 milhões do ano passado. Tudo isso apesar de não ter palácios antigos ou ruínas - apenas sol, mar, areia, compras e arranha-céus.

Ao mesmo tempo, Dubailand - a resposta do Oriente Médio à Disneyland - se presta a uma espécie de metáfora para toda a aventura: uma grandiosa importação de coisas sem origem definida em uma confusão de marcas e idéias globais, criadas para transformar a região no potentado do deserto.

A Dubai Inc., o título honorífico escolhido pela dinastia tribal que dirige o país para apresentar a si própria, tem um acordo não oficial - conhecido como “a barganha em vigor” - com os 1,3 milhão de habitantes do país: aceitem a limitação das liberdades que nós forneceremos o trabalho e a renda.

Os nascidos no país, que são 15% da população, recebem moradia e educação gratuita, mas não têm reais direitos democráticos. Os expatriados - 85% da população e 95% da força de trabalho - têm ainda menos direitos.

A liberdade de imprensa é restrita. As mulheres - mais de duas para cada homem - não gozam de igualdade com os homens, embora sua posição seja melhor que em outros países do Oriente Médio. Mesmo assim a maior parte dos moradores aceita isso como condição para se viver em uma das cidades mais vibrantes do mundo.

O sucesso da cidade, como admite a maior parte dos habitantes, deve-se ao espírito visionário da família Maktoum. No final dos anos 1960, partindo do princípio que Dubai tinha poucos recursos naturais, os líderes do emirado adotaram várias decisões que acabaram levando à construção do Jebel Ali, um porto de alto calado, o maior do Oriente Médio, localizado junto a uma grande usina de alumínio. A aposta compensou, uma vez que o porto, o maior do Oriente Médio, ajudou Dubai a se consolidar como o centro comercial indispensável na região.

Hoje em dia o porto e as docas secas estão entre os mais movimentados no mundo. Dubai registrou uma taxa de crescimento mais acelerada que a da China e a da Índia na década passada, e agora tem a renda per capita mais elevada que Cingapura. Sua riqueza, ao contrário de grande parte do resto dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e de outros países do Oriente Médio, não depende do petróleo, que contribui com apenas 5% de sua economia, em comparação com os 36% para o total dos EAU.

Pelo menos três quartos da receita nacional de Dubai vem do setor de serviços (imóveis, turismo e varejo). O setor financeiro responde por 10% da economia, e Dubai está na vanguarda do moderno sistema financeiro islâmico, graças à fundação do Dubai Islamic Bank em 1975, o primeiro banco totalmente comercial a se harmonizar aos princípios da Sharia.

Os Emirados Árabes Unidos - uma federação de sete emirados, entre os quais Dubai e Abu Dhabi são os mais importantes - ficaram independentes em 1971. Até então, os Países da Trégua - Trucial Oman - como os emirados eram conhecidos anteriormente, eram protetorados britânicos.

desde meados do século 19, quando os xeques no poder no Golfo Pérsico firmaram acordos com os britânicos em troca de proteção aos seus serviços de embarque.) Eles agora são governados por um conselho supremo de emires, ou governantes hereditários, que indicam a si próprios para os principais cargos.

Segundo um acordo informal entre os emires, o governante de Abu Dhabi, o maior dos sete emirados e o principal produtor de petróleo dos EAU, é o presidente dos EAU, e o governante de Dubai - atualmente o xeque Mohammed Bin Rashid AL-Maktoum, filho do fundador do país - é vice-presidente e primeiro-ministro. Mas o alcance do governo federal é limitado e os emirados reservam consideráveis poderes para si mesmo, incluindo o controle sobre os direitos de mineração.

Com seus arranha-céus e frenética acumulação de riqueza, emirados tais como Dubai e Abu Dhabi tornaram-se símbolos do tipo de modernidade agressiva que parece tê-los separado do restante da região. Mas no que se refere a um avanço democrático, os EAU se ajustam aos desoladores padrões do Oriente Médio.

Os partidos políticos estão proscritos e não houve eleições de qualquer tipo até dezembro de 2006, quando os sete governantes dos emirados selecionaram 6.595 cidadãos para eleger metade do conselho federal nacional - um “comitê consultor” sem poderes.

Os pedidos de reformas que existem tendem a vir da população de expatriados, entre os quais nem todos participaram dos lucros do crescimento de Dubai. Na verdade, existe uma acentuada divisão entre a força de trabalho de estrangeiros de Dubai na qual se incluem os ricos empresários do Irã, Arábia Saudita, Europa e outros, e os imigrantes pobres que se concentram no setor de construção civil, e vêem principalmente da Índia, Bangladesh e Paquistão.

Esse último grupo - que chega talvez a 250.000 - trabalha por salários miseráveis em condições perigosas e mora em dormitórios apinhados na periferia da cidade. Seu trabalho é o motor da expansão de Dubai e mesmo assim eles não se encaixam na história que Dubai conta sobre sua vertiginosa transformação.

Dubai é a Suíça do Oriente Médio - útil para todos e, portanto intocável. Os americanos precisam de um aliado no Golfo. Os iranianos usam Dubai como paraíso para transações em dinheiro sem registro, assim como, supostamente, a Al Qaeda. B. S. A. Tahir, mão direita de A. Q. Khan - o cientista nuclear paquistanês que durante anos planejou a proliferação de uma rede internacional nuclear clandestina - operava de Dubai. Dubai é aloja de conveniência do Oriente Médio, e quem quer bombardear a loja da esquina?

E mesmo que as forças de segurança de Dubai tenham condições de controlar o fundamentalismo, pelo menos por enquanto, Dubai enfrenta outros perigos. Sua economia não depende diretamente das receitas da produção de petróleo, mas grande parte do dinheiro que flui para a região vem do petróleo. O boom imobiliário deve-se quase inteiramente a entradas de petrodólares sauditas e iranianos, e se o preço do petróleo despencar, Dubai será seriamente afetado.

Outra vulnerabilidade é a dependência de Dubai do gás barato que vem do Qatar, sustentando todo o projeto de desenvolvimento. Finalmente, existem as preocupações com o meio ambiente. Não só Dubai está empregando vastas quantidades de energia para construir seus campos de golfe e pistas de esqui, como também é particularmente vulnerável aos efeitos da alteração climática.

Se as temperaturas se elevarem, Dubai poderá tornar-se quente demais para os mimados e exigentes turistas - mesmo com todo aquele ar-condicionado. Se os níveis do mar aumentarem só mais um pouco, as ilhas artificiais de Dubai e a orla litorânea poderão ser retomadas pelo mar. Os recifes de coral dos EAU, uma das principais atrações, já foram afetados como resultado do aquecimento global.

E cada vez mais surgem alternativas a Dubai. Abu Dhabi abriu setores imobiliários que poderão ser adquiridos por estrangeiros e está gastando bilhões em hotéis de luxo. A Arábia Saudita está no processo de construir um projeto imobiliário de US$ 26 bilhões - a Cidade da Economia do Rei Abdullah.

Na verdade, dificilmente Beckham e Owen levantarão acampamento para o reino de Wahhabi (a Arábia Saudita) mas o Bahrein e o Qatar atraem os ocidentais com seus hotéis de luxo e toleram o álcool e as roupas ocidentais - e também foram mais longe na rota das reformas políticas. Mesmo o Irã faz planos para comercializar sua própria ilha resort, Kish.

Por enquanto, porém, Dubai, com seus hotéis de luxo, mercado em funcionamento e tolerância com os hábitos ocidentais, é o lugar para onde os habitués de praia e os fanáticos por compras querem ir. Lá se vende o estilo árabe-light para aquelas pessoas que gostam de ir às compras, mas se sensibilizam em ver o deserto e também segurar falcões.

*Katharine Quarmby está escrevendo um livro de memórias sobre sua longa busca pela família nascida no Irã.

“Prospect”

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