Ullrich Fichtner
Karzai, o prefeito de Cabul
Cinco dias antes do próximo atentado à vida de Hamid Karzai, autoridades de combate às drogas em Baghlan incineram 300 garrafas de destilados, 94 quilos de ópio, 93 quilos de haxixe e 13 quilos de heroína. Na tarde, o ministro das Relações Exteriores, Rangin Dadfar Spanta, que retornou ao país do exílio na Alemanha, diz que ele considera a falta de fé na democracia em seu país como seu “pesadelo pessoal”. Na mesma tarde, o general Khodaidad, o ministro encarregado das políticas antidrogas do governo, segue de carro para o interior.
Khodaidad se empoleira majestosamente em um Toyota Land Cruiser blindado, de quatro toneladas, enquanto embarca em uma laboriosa turnê de dois dias que o conduzirá por milhares de quilômetros de estradas acidentadas e desfiladeiros em montanhas.
O general está visitando os governadores de Sar-e-Pol e Jowzjan no extremo norte, perto da fronteira com o Turcomenistão. Parlamentares de ambas as regiões também o acompanham na viagem, enquanto o Land Cruiser sobe pelo esplendor gelado das Montanhas Salang, atravessa Baghlan, Samangan e Balkh, viajando pela mesma rota tomada pelo exército soviético em retirada após quase 10 anos de combates fúteis.
Khodaidad fazia parte daquele exército, um comandante soviético do Afeganistão, lutando pelo Afeganistão. Ele conhece cada vale e cada esconderijo daqui, e conhece as estradas secundárias que nenhum Humvee americano pegará. Massoud foi seu adversário no Vale de Pandjir, assim como o general Daoud, que lutou pelos mujahedeen e agora é vice-ministro do interior, e com o qual Khodaidad agora coopera em seu esforço para erradicar a produção de ópio. “É difícil para você entender, não é? O fato de agora trabalharmos juntos? Mas a explicação é fácil: Nós arruinamos este país juntos, agora temos que reconstruí-lo juntos.”
O general trouxe consigo muita música. Ele é um homem baixinho e de aspecto travesso, com olhos escondidos por trás de pálpebras gordas. Seus óculos ficam tão tortos em seu rosto que ele espia pelas lentes com um olho e por cima da armação com o outro, enquanto o aparelho de som do carro toca canções de amor da cantora pop afegã Nashena.
Ele usa periodicamente seu walkie-talkie para checar os outros motoristas no comboio de cinco Land Cruisers, que inclui uma guarda armada composta de 22 soldados. Um Afeganistão mais próspero e mais pacífico logo começa a surgir: o norte, onde a terra é cultivada e onde há um ritmo de vida, onde dromedários pastam e crianças brincam -crianças que parecem dispor de tempo para brincar.
Khodaidad está usando a viagem para promover sua agenda política, que consiste principalmente de mostrar sua face. Os governadores com os quais se encontra, com os quais bebe chá, come nozes e kebabs e passa noites inteiras sentado descalço sobre tapetes, dizem que não vêem um ministro do governo em suas províncias em dois anos. “Aqueles que nunca saem de Cabul perdem os contatos”, diz Khodaidad. “Mas o que é a política no Afeganistão? Nada a não ser contatos. Você sabe como Karzai é chamado? As pessoas o chamam de ‘prefeito de Cabul’…”
Em Sar-e-Pol, ao anoitecer, o chefe das operações de Khodaidad, Mohammed Ibrahim Azhar, está sentado no jardim da casa de hóspedes do governador provincial. Um de seus irmãos morreu na luta contra a ocupação soviética e ele perdeu três primos na guerra contra os russos. O próprio Azhar contrabandeou armas e dinheiro do Paquistão para o Afeganistão para os mujahedeen. Antes de assumir sua posição atual no ministério, ele trabalhava para o Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crimes (UNODC). Uma vez por semana, ele se encontra com pessoal da Isaf e americanos para discutir estratégia. Mas ele e seus pares estrangeiros têm pouco a dizer uns aos outros.
Os americanos, segundo Azhar, se recusam a entender que para muitos afegãos, não há alternativa para o cultivo de papoula do ópio. “Não há mercado para trigo, arroz, frutas e legumes. Nós importamos todas estas coisas, do Paquistão, Irã e China. O que você pode dizer a um agricultor que ganha US$ 4 mil por hectare com ópio e apenas US$ 300 com trigo? Por ano!”
Seu telefone toca. O toque de seu aparelho é a marcha triunfante de “Aída” de Verdi. O pessoal de Nangarhar está telefonando de novo. Um homem-bomba explodiu a si mesmo e a 245 policiais em uma plantação de papoula em Nangarhar naquela tarde.
Três dias antes do próximo atentado à vida de Hamid Karzai, o embaixador William Wood está sentado em seu grande apartamento na embaixada americana, que parece um forte, em Cabul. Ele pede ao fotógrafo que não tire sua foto enquanto fuma um cigarro. Wood chegou da Colômbia no ano passado. Seu conhecimento sobre cultivo de drogas é extenso, mas ele não sabe muito sobre o Afeganistão. Seu apelido é “Bill Químico”, porque ele defende obstinadamente uma política de pulverização aérea dos campos de papoula com pesticidas para destruir as plantações.
Wood diz que a “tragédia das drogas” no Afeganistão também alimenta a tragédia do terror. Os países da Isaf, ele diz, devem perceber que estão perdendo mais de seus cidadãos para a heroína do que no campo de batalha no Afeganistão. Ele acrescenta que 2007 foi um bom ano, levando tudo em conta, com a possível exceção da corrupção. Todos os países vizinhos querem estabilidade regional, ele diz, acrescentando que mais de 6 milhões de crianças agora freqüentam a escola no Afeganistão. Soa como se ele estivesse fazendo um discurso usando as anotações de McNeill.
Dois dias antes do próximo atentado à vida de Hamid Karzai, Najia Zewari, do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), diz que o Afeganistão na verdade parece muito bem no papel. Os direitos da mulher são garantidos pela Constituição, diz Zewari, e elas fazem parte do futuro desenvolvimento do país. Um quarto dos membros do Parlamento são mulheres, mas, ela acrescenta, “a realidade diária é, infelizmente, uma história totalmente diferente”.
Mais meninas de nove e dez anos estão sendo novamente forçadas a casamentos arranjados, ela diz. Fora de Cabul, quase todas as mulheres com mais de 13 anos são obrigadas a vestir a burca. Segundo Zewari, as meninas não vão à escola e ninguém denuncia seqüestros e estupros. “Não me entenda mal”, diz Zewari, “é ótimo que o terror do Taleban tenha acabado. Mas isso não significa que suas regras desapareceram. As regras dele são as regras afegãs.”
Estas regras afegãs são as regras que os estrangeiros têm dificuldade para entender.
A derrubada do Taleban ocorreu há apenas sete anos. Até meados dos anos 90, os senhores da guerra e os mujahedeen estavam constantemente em guerra e constantemente formando novas coalizões. Na área ao redor de Cabul, eles realizaram sua própria versão de guerra total. A retirada das tropas soviéticas ocorreu há menos de 20 anos. Os ferimentos provocados por todas estas guerras ainda estão abertos. O país tem uma grande quantidade de história a superar, uma grande quantidade de sofrimento para digerir e, acima de tudo, uma grande quantidade de luto para compensar.
Mas já há vozes -no Parlamento, no ministério de Karzai e nas províncias remotas- que apontam uma nova rivalidade entre grupos étnicos, grupos disputando poder, influência e as lendas da história.
Antigos guerreiros com nomes mundialmente famosos, como Dostum e Hekmetyar, estão novamente ativos, à medida que antigos rachas são renovados entre povos do sul e norte do país. A suspeita mútua continua crescendo à medida que fica claro que a nova era está fracassando em produzir sucessos. Clãs rivais já estão envolvidos em pequenas guerras e feudos. O Afeganistão permanece um país volátil, um campo de batalha potencial onde a guerra civil ainda é uma opção -uma guerra civil que alguns já estão travando.
No dia do ataque contra Hamid Karzai, o Dia do Mujahedeen, um feriado nacional no Afeganistão e um dia de desfiles, três homens estavam espreitando por pelo menos 36 horas, provavelmente 72, em uma hospedaria a menos de 500 metros da área do desfile de Cabul. Seus cúmplices os trancaram no quarto pelo lado de fora. Um cadeado está na porta para criar a impressão de que o quarto está desocupado. Os assassinos estocaram bebidas energéticas, água e biscoitos. Eles urinam em garrafas e enviam mensagens de texto curtas para números de telefone no Paquistão.
O quarto no quarto andar, que oferece uma linha de fogo desimpedida até a tribuna principal onde o governo do Afeganistão, chefiado pelo presidente Karzai, e os principais generais e líderes religiosos do país, membros do Parlamento e convidados estrangeiros, embaixadores, comandantes da Isaf e diretores da ONU estão prestes a se sentar, foi alugado por 45 dias. Um dos agressores, um turcomano, alegava ser um vendedor de tapetes com negócios em um mercado próximo. As armas estão escondidas em tapetes enrolados.
Espiões do Ministério da Defesa revistam os arredores da área do desfile há semanas, perguntando aos moradores sobre atividades suspeitas e pessoas estranhas na área. A polícia entra em cada casa, inspecionando quartos e olhando pelas janelas, incluindo a hospedaria onde o aspirantes a assassinos estão entocados, que visitaram um ou dois dias antes do ataque. Mas a porta do quarto está trancada por fora, o proprietário da hospedaria diz à polícia. As pessoas não estão em casa e, ele diz, ele não as vê faz algum tempo. Por que arrombar a porta, ele pergunta?
Um plano contra o presidente
Ninguém tem idéia de que um coronel da polícia faz parte do plano. O Taleban tem um espião infiltrado no coração do aparato de segurança do país. Talvez o homem deles esteja guiando os preparativos para o desfile na direção errada, talvez esteja enviando a polícia atrás de uma pista falsa.
O espião é aquele que fornece as armas para o ataque. Incapaz de obter rifles de atirador, ele consegue com suborno comprar rifles de assalto. Cúmplices corruptos separam as armas em um campo de treinamento do exército afegão, pelas costas dos americanos. Eles conseguem desviar até mesmo uma bazuca e um lançador de granadas.
Os convidados começam a chegar para assistir à parada às 8 horas da manhã de 27 de abril. McNeill está lá, assim como o diretor da ONU, Chris Alexander. O embaixador americano, Wood, e seu par britânico, Sherard Cowper-Coles, estão em pé entre as cadeiras, conversando. O governo do Afeganistão está se reunindo na tribuna central.
A esta altura, Karzai está ao pé da tribuna, em um Humvee, aguardando por sua aparição. Às 9h, o Humvee começa a se mover lentamente ao longo da tribuna, e então se vira na direção de uma guarda de honra em posição de atenção diante da Mesquita Id Gah -uma força de 1.000 homens, treinados pelo Ocidente para assumir a segurança de Cabul a partir de agosto.
Às 9h25, Karzai retornou da guarda de honra e sentou-se em seu lugar na tribuna. Os agressores esperam, a menos de 500 metros, mantendo olho atento em Karzai. Eles planejam abrir fogo durante o hino nacional -para maior efeito.
Às 9h45, o hino nacional começa a tocar pelos alto-falantes. “Esta é a terra do Afeganistão, o orgulho de todos afegãos. Uma terra de paz, uma terra da espada, uma terra de filhos corajosos.” Uma salva é disparado, uma longa série de disparos iniciada com um único disparo de canhão, seguida por dois, três, quatro e cinco salvas de tiros. Os assassinos se posicionam e miram suas armas.
“Este país brilhará para sempre”, prossegue o hino, enquanto disparos de metralhadora repentinamente explodem na parada. Três membros do Parlamento são atingidos na tribuna, a 25 metros abaixo de Karzai à direita. Granadas explodem no asfalto, matando uma criança e um policial na linha de fogo.
As pessoas presentes na parada e na tribuna começam a correr e se acotovelar, seguranças foram círculos ao redor de seus VIPs e a conduzi-los para longe, subindo fileiras de assentos até a área atrás do estádio, mas também há disparos lá, onde um segundo grupo de agressores está disparando a esmo contra os dignitários em fuga. A cena se transforma em um grande número de pessoas se agachando e esperando, correndo e se encolhendo, neste feriado nacional no Afeganistão, um dia que termina ganhando as manchetes mundiais. Neste dia, as notícias do Afeganistão não são boas. Na verdade, neste dia as notícias do Afeganistão são exclusivamente ruins, caóticas e desastrosas.
No dia seguinte, Wood, o embaixador americano, dirá: “A coisa toda terminou em 120 segundos”. Esta é a versão adoçada para o público ocidental. Mas as pessoas no Afeganistão sabem que, na verdade, o tiroteio prosseguiu por 25 ou 30 minutos, e que os agressores usaram bazucas, metralhadoras e granadas. Logo havia helicópteros no ar e a tentativa de assassinato se transformou em uma batalha, com a guarda presidencial retornando fogo, no final matando os três agressores e perseguindo três de seus cúmplices pela cidade.
Estas são as imagens da guerra no centro de Cabul, no coração do Afeganistão, onde metade do mundo passou os últimos sete anos tentando promover a paz em um país oprimido, e onde o combate continua, nos vales, montanhas, cidades e desertos do Afeganistão, em muitas frentes de combates leves e pesados, dia após dia.
“Der Spiegel”