Arquivo de 1 de Julho de 2008

Monarquias européias ainda são tranqüilizadoras e prósperas

José-Alain Fralon*

Os monarcas europeus podem ficar tranqüilos: ainda falta muito para eles sofrerem o mesmo destino que o do seu “primo” nepalês, Gyanendra, que foi obrigado a deixar seu trono. Mais importante ainda, com a exceção de Albert 2º da Bélgica, cuja situação está vinculada ao futuro de um país fragilizado pelos separatistas flamengos, nunca os soberanos do continente europeu haviam parecido tão firmemente instalados. Por onde andam hoje os “Provos” (provocadores) holandeses que, em 1966, gritavam “Viva a República!”, arremessando tomates por ocasião do casamento de Beatrix, a herdeira do trono da Holanda? Que fim levaram os comentaristas que haviam anunciado, depois da morte de Diana, a queda dos Windsor? E o que pensar da profecia do ex-presidente francês François Mitterrand, que escrevera em 1975: “Eu nunca acreditei em Juan Carlos, aquele rei de terceira mão; eu quase lamento por ele de antemão, pensando na enxurrada que o afogará”?

Atualmente, Beatrix reina sobre o país das tulipas, dando a sua opinião, no que ela costuma ser ouvida com atenção, a respeito dos assuntos que agitam o seu reino, cuidando dos interesses de uma das mais sólidas fortunas do mundo e da sua espantosa coleção pessoal de chapéus. Elizabeth 2ª, por sua vez, soube dar tempo ao tempo, dele se valendo para que a recordação do “anjo” Lady Di se apagasse aos poucos. Quanto a Juan Carlos, após ter contribuído para o restabelecimento da democracia na Espanha, ele se permitiu afrontar publicamente o presidente venezuelano Hugo Chávez…

Ao Norte, Margrethe da Dinamarca, sem dúvida a mais popular das soberanas européias, segue defendendo até hoje as suas opiniões feministas e anti-racistas, e se dedica a uma vida cultural ativa. E não é que ela traduziu Simone de Beauvoir? Por sua vez, Harald 5º da Noruega atravessou, em 2002, uma zona de turbulências por conta das travessuras da sua nora; alguns parlamentares até mesmo consideraram durante algum tempo uma possível solução republicana para o problema, mas essas tempestades parecem ter se dissipado. Em contrapartida, o barômetro segue apontando um tempo com céu de brigadeiro para o rei de Suécia, um ecologista emérito, assim como a maioria das cabeças coroadas: ele decidiu mandar apagar todos os dias durante uma hora as luzes de três dos seus castelos para enfatizar o seu engajamento contra o aquecimento climático.

Mesmo se modelos, jogadores de futebol ou apresentadores de televisão lhes roubaram as luzes da ribalta, os monarcas continuam sendo destaques nas manchetes da imprensa de colunas sociais (”people”). Um casamento principesco ou um enterro real são eventos que aumentam as tiragens. Os cerimoniais seguem promovendo bons negócios para o turismo - muitos ainda viajam apenas para assistirem à troca da guarda na frente do palácio de Buckingham! Além disso, do escritor Stefan Zweig aos cineastas Sofia Coppola e Robert Hossein, a inspiração proporcionada pela rainha Maria Antonieta (Maria Antonieta da Áustria, 1755-1793, mulher de Luís 16, morta na guilhotina) parece estar longe de ter se esgotado.

A questão continua inteira: no século 21, como esses anacronismos - aos quais nós poderíamos acrescentar outras altezas européias tais como o grande duque do Luxemburgo, os príncipes do Liechtenstein, de Mônaco ou de Andorra - ainda podem subsistir, e até mesmo prosperar? Como certas personalidades cujo carisma é muito relativo - sobretudo, desde que os paparazzi tomaram o lugar dos pintores de corte -, cuja inteligência revela ser geralmente mediana (de fato, elas nunca precisam se servir dela tanto assim!), e cujas fortunas foram, com freqüência, construídas sem grande moralidade - nesse sentido, a rainha Beatrix acaba de ser surpreendida em flagrante pela imprensa holandesa por conta das suas despesas exorbitantes com transportes aéreos - continuam sendo tão populares?

É sem dúvida porque esses monarcas continuam servindo como referências para súditos preocupados. Eles estão ali porque eles estão ali, sem mais nem menos. Da mesma forma que seria difícil imaginar a França restabelecer no trono o conde de Paris, seria impensável ver a Dinamarca derrubar a sua rainha. Ficamos então com uma piscadela da história: o fato de perguntar para jovens holandeses, dinamarqueses ou espanhóis se eles são republicanos parece atualmente um tanto. . . anacrônico.

* José-Alain Fralon é co-autor, com Thomas Valclaren e Linda Caille, do livro “Les rois ne meurent jamais” (Os reis nunca morrem, editora Fayard, 2006).

“Le Monde”

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Palestinos exilados revelam o outro lado dos 60 anos de Israel

Dezenas de manifestações na Cisjordânia, Gaza, Síria, Jordânia e Líbano, para comemorar a Nakba (Catástrofe), a outra face do aniversário israelense

Juan Miguel Muñoz

“Como vamos esquecer, se Israel nos lembra nossa história com suas matanças de cada dia?” Omar Suleiman Turk, 62 anos, nascido em Haifa e expulso para o Líbano em 1948 ainda bebê, junto com seus pais e uma irmã, faz um resumo superficial de sua vida miserável no campo de refugiados de Chatila, em Beirute: “Nunca conheci vários de meus irmãos maiores. Creio que um deles vive no Egito. Sei que outro morreu lutando com o exército jordaniano. Dos outros, não sei nada”, comenta. Não é uma história excepcional. É fácil escutar narrativas dramáticas em qualquer dos países árabes que cercam Israel, onde na quinta-feira os palestinos comemoraram a Nakba, a “Catástrofe”: o desterro maciço de mais de 700 mil pessoas de sua terra na antiga Palestina e depois no recém-fundado Estado de Israel.

Hoje são 4,5 milhões de refugiados que, divididos como sempre, saíram às ruas em dezenas de manifestações na Cisjordânia, Gaza, várias cidades da Síria, Jordânia e Líbano. Chaves que simbolizam as casas das quais foram expulsos, milhares de bolas pretas -uma para cada dia transcorrido desde 15 de maio de 1948-, sirenes e discursos moderados e incendiários salpicaram os atos em memória de sua tragédia, enquanto o presidente dos EUA, George W. Bush, falava no Parlamento israelense sobre o “terrorismo e a maldade”.

“Passaram 60 anos. Já é hora de acabar com o desastre do povo palestino”, declarou o presidente palestino, Mahmud Abbas, que negocia com o Executivo israelense um acordo de paz emperrado. Os dirigentes do Hamas seguem outro caminho. “Não reconhecemos Israel. Não reconhecemos Israel”, insistiu Mahmud Zahar, um dos líderes islâmicos em Gaza.

Seis décadas depois, o 1,5 milhão de habitantes de Gaza -ocupada pelo Egito até 1967- vivem hoje o assédio brutal de Israel, condenado pela totalidade das organizações de direitos humanos. A Cisjordânia sofre uma ocupação militar que transformou suas cidades e povoados em cárceres submetidas a um regime militar. A radicalização das jovens gerações é palpável. “Eu sou da OLP”, afirma Omar Suleiman, o refugiado de Chatila, “mas a maioria dos jovens segue o Hamas ou a Jihad Islâmica.”

Se os campos de refugiados palestinos da Cisjordânia e de Gaza são miseráveis, os do Líbano são autênticos “lixões”. Chatila, cenário da chacina em setembro de 1982 que horrorizou o mundo, é um espanto. Ain el Helwe, vizinha a Sidon, cidade no sul do Líbano, também é um lugar repugnante. Provavelmente são os refugiados palestinos neste país que mais sofrem. Eles não têm o direito de exercer 73 profissões e, como acontece nos demais países árabes, também não adquirem a cidadania do país de acolhimento. Muitos deles por vontade própria, para resistir à tentação da assimilação.

Alguns milhares, fugidos depois da guerra de junho de 1967, nem sequer podem abandonar os campos porque não têm documentação. Dificilmente pode surgir moderação em semelhante ambiente: um amontoado de barracos fétidos, edifícios separados por ruas de um metro de largura e um desemprego assustador.

“El País”

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Por que as tropas da Otan não conseguem estabelecer a paz no Afeganistão? - parte 4

Ullrich Fichtner

Karzai, o prefeito de Cabul
Cinco dias antes do próximo atentado à vida de Hamid Karzai, autoridades de combate às drogas em Baghlan incineram 300 garrafas de destilados, 94 quilos de ópio, 93 quilos de haxixe e 13 quilos de heroína. Na tarde, o ministro das Relações Exteriores, Rangin Dadfar Spanta, que retornou ao país do exílio na Alemanha, diz que ele considera a falta de fé na democracia em seu país como seu “pesadelo pessoal”. Na mesma tarde, o general Khodaidad, o ministro encarregado das políticas antidrogas do governo, segue de carro para o interior.

Khodaidad se empoleira majestosamente em um Toyota Land Cruiser blindado, de quatro toneladas, enquanto embarca em uma laboriosa turnê de dois dias que o conduzirá por milhares de quilômetros de estradas acidentadas e desfiladeiros em montanhas.

O general está visitando os governadores de Sar-e-Pol e Jowzjan no extremo norte, perto da fronteira com o Turcomenistão. Parlamentares de ambas as regiões também o acompanham na viagem, enquanto o Land Cruiser sobe pelo esplendor gelado das Montanhas Salang, atravessa Baghlan, Samangan e Balkh, viajando pela mesma rota tomada pelo exército soviético em retirada após quase 10 anos de combates fúteis.

Khodaidad fazia parte daquele exército, um comandante soviético do Afeganistão, lutando pelo Afeganistão. Ele conhece cada vale e cada esconderijo daqui, e conhece as estradas secundárias que nenhum Humvee americano pegará. Massoud foi seu adversário no Vale de Pandjir, assim como o general Daoud, que lutou pelos mujahedeen e agora é vice-ministro do interior, e com o qual Khodaidad agora coopera em seu esforço para erradicar a produção de ópio. “É difícil para você entender, não é? O fato de agora trabalharmos juntos? Mas a explicação é fácil: Nós arruinamos este país juntos, agora temos que reconstruí-lo juntos.”

O general trouxe consigo muita música. Ele é um homem baixinho e de aspecto travesso, com olhos escondidos por trás de pálpebras gordas. Seus óculos ficam tão tortos em seu rosto que ele espia pelas lentes com um olho e por cima da armação com o outro, enquanto o aparelho de som do carro toca canções de amor da cantora pop afegã Nashena.

Ele usa periodicamente seu walkie-talkie para checar os outros motoristas no comboio de cinco Land Cruisers, que inclui uma guarda armada composta de 22 soldados. Um Afeganistão mais próspero e mais pacífico logo começa a surgir: o norte, onde a terra é cultivada e onde há um ritmo de vida, onde dromedários pastam e crianças brincam -crianças que parecem dispor de tempo para brincar.

Khodaidad está usando a viagem para promover sua agenda política, que consiste principalmente de mostrar sua face. Os governadores com os quais se encontra, com os quais bebe chá, come nozes e kebabs e passa noites inteiras sentado descalço sobre tapetes, dizem que não vêem um ministro do governo em suas províncias em dois anos. “Aqueles que nunca saem de Cabul perdem os contatos”, diz Khodaidad. “Mas o que é a política no Afeganistão? Nada a não ser contatos. Você sabe como Karzai é chamado? As pessoas o chamam de ‘prefeito de Cabul’…”

Em Sar-e-Pol, ao anoitecer, o chefe das operações de Khodaidad, Mohammed Ibrahim Azhar, está sentado no jardim da casa de hóspedes do governador provincial. Um de seus irmãos morreu na luta contra a ocupação soviética e ele perdeu três primos na guerra contra os russos. O próprio Azhar contrabandeou armas e dinheiro do Paquistão para o Afeganistão para os mujahedeen. Antes de assumir sua posição atual no ministério, ele trabalhava para o Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crimes (UNODC). Uma vez por semana, ele se encontra com pessoal da Isaf e americanos para discutir estratégia. Mas ele e seus pares estrangeiros têm pouco a dizer uns aos outros.

Os americanos, segundo Azhar, se recusam a entender que para muitos afegãos, não há alternativa para o cultivo de papoula do ópio. “Não há mercado para trigo, arroz, frutas e legumes. Nós importamos todas estas coisas, do Paquistão, Irã e China. O que você pode dizer a um agricultor que ganha US$ 4 mil por hectare com ópio e apenas US$ 300 com trigo? Por ano!”

Seu telefone toca. O toque de seu aparelho é a marcha triunfante de “Aída” de Verdi. O pessoal de Nangarhar está telefonando de novo. Um homem-bomba explodiu a si mesmo e a 245 policiais em uma plantação de papoula em Nangarhar naquela tarde.

Três dias antes do próximo atentado à vida de Hamid Karzai, o embaixador William Wood está sentado em seu grande apartamento na embaixada americana, que parece um forte, em Cabul. Ele pede ao fotógrafo que não tire sua foto enquanto fuma um cigarro. Wood chegou da Colômbia no ano passado. Seu conhecimento sobre cultivo de drogas é extenso, mas ele não sabe muito sobre o Afeganistão. Seu apelido é “Bill Químico”, porque ele defende obstinadamente uma política de pulverização aérea dos campos de papoula com pesticidas para destruir as plantações.

Wood diz que a “tragédia das drogas” no Afeganistão também alimenta a tragédia do terror. Os países da Isaf, ele diz, devem perceber que estão perdendo mais de seus cidadãos para a heroína do que no campo de batalha no Afeganistão. Ele acrescenta que 2007 foi um bom ano, levando tudo em conta, com a possível exceção da corrupção. Todos os países vizinhos querem estabilidade regional, ele diz, acrescentando que mais de 6 milhões de crianças agora freqüentam a escola no Afeganistão. Soa como se ele estivesse fazendo um discurso usando as anotações de McNeill.

Dois dias antes do próximo atentado à vida de Hamid Karzai, Najia Zewari, do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), diz que o Afeganistão na verdade parece muito bem no papel. Os direitos da mulher são garantidos pela Constituição, diz Zewari, e elas fazem parte do futuro desenvolvimento do país. Um quarto dos membros do Parlamento são mulheres, mas, ela acrescenta, “a realidade diária é, infelizmente, uma história totalmente diferente”.

Mais meninas de nove e dez anos estão sendo novamente forçadas a casamentos arranjados, ela diz. Fora de Cabul, quase todas as mulheres com mais de 13 anos são obrigadas a vestir a burca. Segundo Zewari, as meninas não vão à escola e ninguém denuncia seqüestros e estupros. “Não me entenda mal”, diz Zewari, “é ótimo que o terror do Taleban tenha acabado. Mas isso não significa que suas regras desapareceram. As regras dele são as regras afegãs.”

Estas regras afegãs são as regras que os estrangeiros têm dificuldade para entender.

A derrubada do Taleban ocorreu há apenas sete anos. Até meados dos anos 90, os senhores da guerra e os mujahedeen estavam constantemente em guerra e constantemente formando novas coalizões. Na área ao redor de Cabul, eles realizaram sua própria versão de guerra total. A retirada das tropas soviéticas ocorreu há menos de 20 anos. Os ferimentos provocados por todas estas guerras ainda estão abertos. O país tem uma grande quantidade de história a superar, uma grande quantidade de sofrimento para digerir e, acima de tudo, uma grande quantidade de luto para compensar.

Mas já há vozes -no Parlamento, no ministério de Karzai e nas províncias remotas- que apontam uma nova rivalidade entre grupos étnicos, grupos disputando poder, influência e as lendas da história.

Antigos guerreiros com nomes mundialmente famosos, como Dostum e Hekmetyar, estão novamente ativos, à medida que antigos rachas são renovados entre povos do sul e norte do país. A suspeita mútua continua crescendo à medida que fica claro que a nova era está fracassando em produzir sucessos. Clãs rivais já estão envolvidos em pequenas guerras e feudos. O Afeganistão permanece um país volátil, um campo de batalha potencial onde a guerra civil ainda é uma opção -uma guerra civil que alguns já estão travando.

No dia do ataque contra Hamid Karzai, o Dia do Mujahedeen, um feriado nacional no Afeganistão e um dia de desfiles, três homens estavam espreitando por pelo menos 36 horas, provavelmente 72, em uma hospedaria a menos de 500 metros da área do desfile de Cabul. Seus cúmplices os trancaram no quarto pelo lado de fora. Um cadeado está na porta para criar a impressão de que o quarto está desocupado. Os assassinos estocaram bebidas energéticas, água e biscoitos. Eles urinam em garrafas e enviam mensagens de texto curtas para números de telefone no Paquistão.

O quarto no quarto andar, que oferece uma linha de fogo desimpedida até a tribuna principal onde o governo do Afeganistão, chefiado pelo presidente Karzai, e os principais generais e líderes religiosos do país, membros do Parlamento e convidados estrangeiros, embaixadores, comandantes da Isaf e diretores da ONU estão prestes a se sentar, foi alugado por 45 dias. Um dos agressores, um turcomano, alegava ser um vendedor de tapetes com negócios em um mercado próximo. As armas estão escondidas em tapetes enrolados.

Espiões do Ministério da Defesa revistam os arredores da área do desfile há semanas, perguntando aos moradores sobre atividades suspeitas e pessoas estranhas na área. A polícia entra em cada casa, inspecionando quartos e olhando pelas janelas, incluindo a hospedaria onde o aspirantes a assassinos estão entocados, que visitaram um ou dois dias antes do ataque. Mas a porta do quarto está trancada por fora, o proprietário da hospedaria diz à polícia. As pessoas não estão em casa e, ele diz, ele não as vê faz algum tempo. Por que arrombar a porta, ele pergunta?

Um plano contra o presidente
Ninguém tem idéia de que um coronel da polícia faz parte do plano. O Taleban tem um espião infiltrado no coração do aparato de segurança do país. Talvez o homem deles esteja guiando os preparativos para o desfile na direção errada, talvez esteja enviando a polícia atrás de uma pista falsa.

O espião é aquele que fornece as armas para o ataque. Incapaz de obter rifles de atirador, ele consegue com suborno comprar rifles de assalto. Cúmplices corruptos separam as armas em um campo de treinamento do exército afegão, pelas costas dos americanos. Eles conseguem desviar até mesmo uma bazuca e um lançador de granadas.

Os convidados começam a chegar para assistir à parada às 8 horas da manhã de 27 de abril. McNeill está lá, assim como o diretor da ONU, Chris Alexander. O embaixador americano, Wood, e seu par britânico, Sherard Cowper-Coles, estão em pé entre as cadeiras, conversando. O governo do Afeganistão está se reunindo na tribuna central.

A esta altura, Karzai está ao pé da tribuna, em um Humvee, aguardando por sua aparição. Às 9h, o Humvee começa a se mover lentamente ao longo da tribuna, e então se vira na direção de uma guarda de honra em posição de atenção diante da Mesquita Id Gah -uma força de 1.000 homens, treinados pelo Ocidente para assumir a segurança de Cabul a partir de agosto.

Às 9h25, Karzai retornou da guarda de honra e sentou-se em seu lugar na tribuna. Os agressores esperam, a menos de 500 metros, mantendo olho atento em Karzai. Eles planejam abrir fogo durante o hino nacional -para maior efeito.

Às 9h45, o hino nacional começa a tocar pelos alto-falantes. “Esta é a terra do Afeganistão, o orgulho de todos afegãos. Uma terra de paz, uma terra da espada, uma terra de filhos corajosos.” Uma salva é disparado, uma longa série de disparos iniciada com um único disparo de canhão, seguida por dois, três, quatro e cinco salvas de tiros. Os assassinos se posicionam e miram suas armas.

“Este país brilhará para sempre”, prossegue o hino, enquanto disparos de metralhadora repentinamente explodem na parada. Três membros do Parlamento são atingidos na tribuna, a 25 metros abaixo de Karzai à direita. Granadas explodem no asfalto, matando uma criança e um policial na linha de fogo.

As pessoas presentes na parada e na tribuna começam a correr e se acotovelar, seguranças foram círculos ao redor de seus VIPs e a conduzi-los para longe, subindo fileiras de assentos até a área atrás do estádio, mas também há disparos lá, onde um segundo grupo de agressores está disparando a esmo contra os dignitários em fuga. A cena se transforma em um grande número de pessoas se agachando e esperando, correndo e se encolhendo, neste feriado nacional no Afeganistão, um dia que termina ganhando as manchetes mundiais. Neste dia, as notícias do Afeganistão não são boas. Na verdade, neste dia as notícias do Afeganistão são exclusivamente ruins, caóticas e desastrosas.

No dia seguinte, Wood, o embaixador americano, dirá: “A coisa toda terminou em 120 segundos”. Esta é a versão adoçada para o público ocidental. Mas as pessoas no Afeganistão sabem que, na verdade, o tiroteio prosseguiu por 25 ou 30 minutos, e que os agressores usaram bazucas, metralhadoras e granadas. Logo havia helicópteros no ar e a tentativa de assassinato se transformou em uma batalha, com a guarda presidencial retornando fogo, no final matando os três agressores e perseguindo três de seus cúmplices pela cidade.

Estas são as imagens da guerra no centro de Cabul, no coração do Afeganistão, onde metade do mundo passou os últimos sete anos tentando promover a paz em um país oprimido, e onde o combate continua, nos vales, montanhas, cidades e desertos do Afeganistão, em muitas frentes de combates leves e pesados, dia após dia.

“Der Spiegel”

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Por que as tropas da Otan não conseguem estabelecer a paz no Afeganistão? - parte 3

Ullrich Fichtner

Bandeiras da Isaf fornecem ilusão de sucesso
Ao anoitecer, os britânicos jogam vôlei em seu campo. A quadra é demarcada por pedaços de corda no chão, enquanto uma pilha de lixo queima em um buraco adjacente no chão. Um dos quatro soldados sofre de diarréia crônica e todos eles apresentam queimaduras de sol. O major McDonald está satisfeito, ele diz, “por estas férias estarem próximas do fim”.

Os soldados estão se preparando para se deslocar para Helmand, onde se juntarão aos marines americanos. Uma companhia portuguesa os substituirá no campo de Hutal. Dois dos oficiais de comando portugueses visitaram o campo ao meio-dia. Desde então, o humor do major McDonald piorou significativamente.

Os portugueses não ficaram satisfeitos com as condições no campo. Eles perguntaram aos seus pares britânicos onde seria possível estabelecer um café de Internet antes da chegada deles. Eles também queriam uma máquina de gelo e um caixa eletrônico. “Um café de Internet”, diz McDonald, “e uma máquina de gelo, isto seria impressionante”.

Ainda restam nove dias até o próximo atentado à vida de Hamid Karzai. Os dias de abril são quentes em Kandahar, enquanto os portugueses ocupam o campo em Hutal. Uma guarda avançada chega nas primeiras horas da madrugada em jipes Humvee com a bandeira portuguesa hasteada na antena, parecendo vitoriosos entrando em território inimigo capturado.

Os soldados portugueses fazem pose diante de seus veículos em grupos, tirando fotos para enviar para casa e se comportando como se estivessem em férias. McDonald, o major britânico, permanece ali, parecendo indignado. Ele entrega o comando do campo ao seu sucessor, o comandante português Antonio Cancelinha. Quando os dois homens apertam as mãos, o aspecto deles é de que esperam que seus caminhos nunca mais se cruzem.

Qualquer um diante de um mapa do Afeganistão, com sombreados delineando os cinco comandos regionais da Isaf, pode concluir que o país está sob controle. Bandeirinhas coloridas identificam a presença de soldados da Otan por todo o país, com as cores da Alemanha presentes no nordeste, da Itália no extremo oeste, a bandeira americana cobrindo o leste, a britânica e canadense cobrindo o sul. Intercaladas entre estas bandeiras estão as da Turquia, Holanda, Lituânia, Austrália, Suécia e Espanha. Mas as bandeiras são uma ilusão.

McNeill, o comandante da Isaf, diz que segundo a doutrina de contraterrorismo vigente, seriam necessários 400 mil soldados para pacificar o Afeganistão a longo prazo. Mas a realidade é que ele só dispõe de 47 mil sob seu comando, juntamente com outros 18 mil soldados que combatem ao lado deles como parte da Operação Liberdade Duradoura, e possivelmente outros 75 mil soldados razoavelmente bem-treinados do exército afegão até o final do ano. Ao todo, ainda faltam 260 mil soldados.

Quadros grandes, complicadamente subdivididos, estão pendurados na parede da sede da Isaf em Cabul. Os quadros indicam quais tropas, de cada país, podem ser usadas para quais operações -ou as que estão proibidas de se envolverem em certas operações. Muito poucas unidades podem ser usadas para tudo, incluindo missões de combate. Em conversas, o general McNeill diz que a Otan está operando “na reserva” no Afeganistão. Fora isso, ele diz, a cooperação está “de forma geral muito boa”.

Boas notícias e muitas más notícias
Ainda restam sete dias até o próximo atentado à vida de Hamid Karzai, e neste dia o Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estão lançando uma campanha de vacinação em Cabul. Em apenas três dias, a meta deles é vacinar 7 milhões de crianças afegãs contra a pólio. Há boas notícias e muitas más notícias.

No Paquistão, o exército começou a demolir o campo de refugiados de Jalozai, em operação há 30 anos, que fornecia abrigo para 80 mil afegãos, que agora serão forçados a voltar para casa, se juntando a uma enxurrada de milhões de outros refugiados. Em Kandahar, cinco policiais são mortos por uma mina improvisada. Em Paktiam, o Taleban seqüestrou dois caminhões carregados com equipamento militar, e em Khost os professores de 15 escolas estão em greve porque não recebem há meses. Uma mulher delicada chamada Habiba Sarabi está sentada na sala de chá do Serena Hotel, em Cabul.

Ela é a governadora da província de Bamyan, a única governadora do país. A região dela é uma das mais pobres em um país pobre. A topografia é montanhosa demais para a agricultura habitual, o clima é frio demais para colheitas decentes, no inverno a região freqüentemente fica isolada do mundo exterior por quatro meses consecutivos e até mesmo no verão ela é relativamente inacessível.

Em algumas partes de Bamyan, 99% dos moradores não sabem ler nem escrever. Um homem é considerado rico se possuir uma mula e qualquer um que adoece seriamente é considerado perdido. Esta é a vida que levam 90 mil pessoas.

Os italianos prometeram construir uma nova estrada até Cabul, cruzando o desfiladeiro de Hajigag até a província de Wardak, mas a obra até agora não foi iniciada. Habiba Sarabi diz: “Nós precisamos de sabedoria para aproveitar esta oportunidade, ou fracassaremos novamente, e desta vez será permanente”.

Esta oportunidade, ela diz, é o atual interesse do mundo no Afeganistão, um interesse que Sarabi está convencida de que não durará. As pessoas estão cansadas, ela diz, e até ex-membros do Taleban baixaram suas armas. “Há um desenvolvimento ocorrendo, mas está na estaca zero”, diz Sarabi.

Natural de Mazar-i-Sharif, ela é da etnia hazara e uma boa mulher que sabe como dar respostas diretas para perguntas simples, e que não adoça nada. Após estudar medicina em Cabul e na Índia, ela fugiu do regime do Taleban em 1996, levando sua família consigo para Peshawar, no vizinho Paquistão. Quando o Taleban posteriormente destruiu os famosos Budas de Bamiyan, ela leu sobre o incidente no jornal.

Quando o presidente Karzai ofereceu a ela o governo há três anos, Sarabi aceitou sem hesitação. Ela não se deixa abalar pelas ameaças de morte que agora fazem parte de sua vida, e com o fato de outros governadores se recusarem a interagir com ela por ser uma mulher. “Nós também mudaremos os cérebros dos homens no Afeganistão”, ela diz. “Demorará muito tempo, mas acontecerá.”

Pequenos cantos alegres em uma cidade devastada
Restando seis dias para o próximo atentado à vida de Hamid Karzai, dois caminhões militares americanos são alvo de foguetes em Khost e, em Faizabad, um caminhão de entregas contendo 9 livros escolares mergulha no Rio Kokcha. A polícia desarma um carro-bomba em Paktia e, em Cabul, Chris Alexander, diretor político da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama), cruza o mercado para jantar no restaurante Boccaccio.

Alexander é um canadense de 39 anos, com aparência de garoto, e analistas em seu país prevêem que ele terá uma importante carreira política no futuro. Ele já foi embaixador de seu país em Cabul e trabalhou em Moscou por vários anos. O Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, o escolheu como um “Líder Jovem Global”, uma distinção que ele reconhece com um sorriso tímido. Ele pede um carpaccio de carne e pizza, enquanto ele e seus amigos à mesa discutem a situação.

Bebendo um chianti, os quatro amigos, jovens empresários e diplomatas, ocasionalmente olham para o lado para cumprimentar ministros que também gostam de jantar no Boccaccio. Nas mesas vizinhas, agentes da inteligência americana cortam seus filés, funcionários da embaixada sueca enrolam espaguete em seus garfos e guarda-costas da Nova Zelândia bebem cerveja Corona. É uma coleção dos membros do mundo paralelo de Cabul, emissários de um exército de muitos milhares de ajudantes e mercenários. Após o jantar, eles vão para o La Cantina para um coquetel ou para o Bella Italia para a sobremesa. Cabul, uma cidade fora isso devastada, tem seus pequenos cantos alegres, habitados quase que exclusivamente por estrangeiros de todas as partes do mundo.

Alexander conta a história de como 40 comboios do Programa Mundial de Alimentos desapareceram no ano passado, de alguma forma, em algum lugar, colunas inteiras de caminhões carregados com alimentos e medicamentos. Quarenta trabalhadores de ajuda humanitária civis foram mortos e 89 foram seqüestrados, ele diz.

Sim, diz Alexander, há muitas notícias ruins, mas também há boas notícias a relatar. “Nós tínhamos menos de 1.000 escolas aqui em 2001. Hoje há 9 mil, o que é algo impressionante.”

A conversa à mesa logo se volta ao governo de Karzai. Ele está no governo há seis anos, mas fracassou em produzir qualquer sucesso apresentável. Dois terços dos ministros são irremediavelmente corruptos, eles dizem, e o ministério é dividido segundo linhas étnicas. E quanto a Karzai? A simples menção de seu nome é fonte de diversão. Ele é visto apenas como um líder fraco e paranóide.

“Der Spiegel”

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Por que as tropas da Otan não conseguem estabelecer a paz no Afeganistão? - parte 2

Ullrich Fichtner

Ataques com bombas, bandidos de estrada e seqüestradores
Em um escritório por trás de portas fechadas, cheio de móveis forrados com motivos florais, o governador relata que metade dos distritos em sua província estão fora de alcance. Alianças formadas pelo Taleban com os barões das drogas, ele diz, governam as aldeias, e nenhuma das estradas está segura contra ataques de bombas, bandidos e seqüestradores. Segundo Mangal, o Paquistão tem um dedo em cada fatia do bolo daqui, expulsando os professores das escolas (aquelas que ainda não foram incendiadas) e forçando os agricultores a plantarem papoula.

Os delegados de Cabul escutam e bebem seu chá. Eles estão escutando palavras familiares, as palavras de relatórios destinados ao público afegão, não ao público ocidental, palavras que são brutalmente realistas e não adoçadas.

McNeill promete ao governador que agora poderá enviar 3.200 marines americanos adicionais a Helmand, e que os britânicos também maximizaram o número de soldados na província. As coisas estão progredindo, insiste o general, e as coisas continuarão progredindo. O pessoal de Karzai promete dinheiro e demonstra boa fé.

Os convidados beliscam nozes e uvas secas, e após duas horas a conversa começa a diminuir. “Se você deseja que as pessoas produzam melões em vez de heroína, é preciso lhes dar um mercado para melões”, diz um homem do grupo do governador. Ninguém nem mesmo tenta responder ao que ele disse. O alimento é servido: sopa, salada, pão e kebabs em longos espetos. Os transportes blindados estão aguardando do lado de fora. É hora dos convidados retornarem a Cabul.

Três milhões de pessoas cujo sustento depende do ópio
Desde a queda do regime do Taleban, há quase sete anos, a produção de ópio no país está mais abundante a cada ano que passa. No ano passado, 93% da heroína comercializada no mundo veio do Afeganistão. Em 2007, as papoulas do ópio foram cultivadas em 193 mil hectares, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, a Isaf observa sem agir. Mas sua inação é uma medida de precaução.

Por temer gerar hostilidade contra os soldados estrangeiros entre a população local, os detentores do poder concordaram desde cedo que os afegãos seriam os únicos responsáveis por travar a guerra das drogas, sem nenhum envolvimento da Otan. Para demonstrar seu suposto compromisso, a polícia e o exército afegão ocasionalmente promovem queimas simbólicas de drogas, e às vezes atravessam um campo cortando algumas plantas. A operação, chamada de “erradicação”, é uma das mais perigosas nesta guerra.

Os policiais de narcóticos rotineiramente enfrentam fogo inimigo. As milícias dos narcotraficantes, do Taleban e da Al-Qaeda, lançam contra-ataques perfeitamente planejados, quase como se alguém tivesse lhes passado antecipadamente os planos das forças do governo por fax. Drogas e corrupção andam de mãos dadas no Afeganistão, onde um policial pode se considerar afortunado se ganhar entre 200 a 300 euros por mês. Quando começa a colheita, até mesmo soldados do exército deixam seus uniformes para trabalhar nos campos como apanhadores. Os professores trabalham à noite como contrabandistas, prefeitos operam laboratórios de heroína e governadores provinciais já foram parados com 150 quilos de heroína pura no porta-malas de seus carros.

“Nós presumimos que 500 mil famílias tenham participação no bolo”, disse o general Mohammed Daoud, antes um jovem comandante sob o lendário líder mujahedeen Ahmed Shah Massoud. Hoje, Daoud é o vice-ministro do interior encarregado de realizar a operação de combate às drogas de Cabul. “E se você considerar que uma família afegã costuma ter seis membros”, disse Daoud, “são 3 milhões de pessoas em nosso país cujo sustento depende da produção de ópio”. Este contingente, 10% da população do país, de 30 milhões, é muito maior do que qualquer exército no Afeganistão.

Daoud tem 2.500 homens sob seu comando para travar sua batalha contra a indústria do ópio. No ano passado, seu departamento prendeu 820 contrabandistas e 20 oficiais corruptos do exército, destruiu 63 laboratórios de heroína e removeu toneladas de heroína do mercado.

Mas quando o pessoal de Daoud captura alguns poucos criminosos, as prisões são apenas simbólicas. O Afeganistão ainda não conta com nada que se aproxime de um sistema judiciário eficaz. Não há mecanismos para assegurar o cumprimento das sentenças, assim como poucos advogados e juizes. Apesar do país supostamente contar com 1.500 promotores, apenas metade deles estudou direito. “Nós já prendemos pessoas e as sentenciamos a 19 anos de prisão”, disse Daoud, “mas todas elas são soltas no dia seguinte”.

Ainda restam 10 dias para o próximo atentado à vida de Hamid Karzai. É quase fim de abril e há boas notícias e muitas notícias ruins. Em Zabul e Ghazni, dezenas de combatentes do Taleban foram mortos em batalhas contra tropas do governo, enquanto a rede de mulheres do Afeganistão expressa sua preocupação com o número crescente de crianças sendo submetidas a casamentos forçados. Em Nimruz, um homem-bomba detona a si mesmo diante de uma mesquita, matando 23 pessoas. A Alemanha promete milhões de euros adicionais para treinamento da polícia. E no distrito de Maiwand, na província de Kandahar, soldados da Companhia B do Terceiro Batalhão do Regimento de Pára-quedistas britânico estão se preparando para uma patrulha.

A unidade recebeu alertas de que o inimigo plantou bombas detonáveis por controle remoto a nordeste de Hutal, no quadrante 9951. Hutal é uma pequena capital distrital com cerca de 7 mil moradores que vivem em cabanas de barro, sem eletricidade ou água corrente. A cidade conta com um mercado ao longo da rua principal, uma escola, um veterinário e, no norte, um velho forte que os britânicos certa vez tentaram capturar, apesar de sem sucesso, no século 19.

‘Nós sabemos que eles estão lá fora em algum lugar’
Eles chegaram aqui no final de março, os primeiros soldados ocidentais a colocarem o pé nesta área. Os canadenses, que são os responsáveis por Kandahar, careciam de pessoal suficiente para distribuir os soldados por todos os distritos da província. Quando os britânicos chegaram, eles esperavam encontrar resistência. Eles trouxeram 500 soldados, veículos e equipamento, e em 26 de março eles se estabeleceram no amplo deserto ao norte de Hutal e passaram a marchar na direção oeste, para zonas de operações identificadas em seus mapas com nomes como “Birmingham”,”Camberley” e “Tailândia”. Mas nada aconteceu.

Eles dirigiram e marcharam por quatro dias, esperando revelar o inimigo, mas tudo o que encontraram foram geradores na “Birmânia”, que apreenderam, e uma estação de rádio inimiga na “Malásia”. Mas os combatentes em si, seja do Taleban ou de outros grupos, não foram encontrados em lugar nenhum. Eles se voltaram para Hutal, onde queriam estabelecer uma base, e lhes foi entregue três prédios de concreto dilapidados da polícia. É um posto avançado frio e arenoso, onde os homens não fazem a barba há cinco semanas e têm pouca oportunidade de tomar banho ou mesmo se lavarem, e onde passam grande parte do tempo ociosos, bebendo chá instantâneo em garrafas de plástico.

“Eles estão escondidos”, diz o major Stuart McDonald, um comandante de 35 anos da companhia com um rosto que lembra o de Jesus. Em casa, a filha dele celebrou seu terceiro aniversário há três dias, “o que parte meu coração”. Ele e seus oficiais estão em uma varanda improvisada cercada por sacos de areia, planejando uma patrulha na direção nordeste, onde pode haver bombas, e onde esperam finalmente conseguir revelar o inimigo.

“Nós sabemos que eles estão lá fora em algum lugar”, diz McDonald. “Eles estão nos observando, mas estão escondidos. É patético.” Sua unidade, conhecida no Reino Unido apenas como “3 Para”, faz parte de uma força de elite dentro do Exército Britânico.

No início da semana, seus homens abriram fogo contra um adolescente em uma bicicleta motorizada que, com seu irmão sentado na garupa, tolamente dirigia na direção deles. Eles só podiam concluir que se tratava de um homem-bomba, porque ele ignorou todos os gestos e todos os alertas, e simplesmente continuou dirigindo na direção deles. O médico da companhia posteriormente cuidou de seus ferimentos e agora o garoto está em pé e caminhando novamente em sua aldeia, mas o clima se deteriorou desde então. Os moradores locais dizem que os soldados estrangeiros estão disparando contra seus filhos.

O 6º Pelotão da companhia, um grupo de 30 a 35 homens, sai em patrulha, deixando o campo em formação, com armas em prontidão, e segue para o nordeste. Desde o incidente com a bicicleta motorizada, os moradores locais sabem que é melhor parar sempre que vêem os soldados. Agora a vida pára repentinamente assim que os britânicos aparecem. Carros param e pedestres congelam. Apenas na estrada os caminhões e ônibus continuam viajando. Os ônibus levam trabalhadores migrantes de todas as partes do país para trabalharem na colheita da papoula. Há centenas de ônibus, viajando 24 horas, muitos deles com inscrições em alemão nas laterais: “Prima Tours Günther” ou “Alpina Express”.

Os soldados cruzam um amplo leito seco de rio, onde há sepulturas recém cavadas marcadas por bandeiras de luto e a cor verde do profeta. O ar é quente e pesado com o fedor de decomposição. Crianças, mulheres e idosos se reúnem diante das moradias ao longo da rota, imóveis e observando os soldados. Os estrangeiros ocasionalmente atiram goma de mascar ou chocolate para as crianças. Toda criança aqui sabe uma frase em inglês de cor: “Moço, me dê um dólar”.

Os soldados logo chegam ao deserto, uma paisagem de areia e pedra que se estende até o horizonte, que faz parte do território inimigo perto da estrada e pode estar minado. Eles estão em pleno quadrante 9951. Os soldados param para descansar. Está quente e cada um deles está carregando 27 quilos de equipamento. Eles se ajoelham na areia e bebem de seus cantis. Então continuam marchando, sem fazer contato com o inimigo, em um amplo arco de volta até o campo.

O Taleban e seus aliados aprenderam que não vale a pena o combate homem a homem com os soldados da Otan. Qualquer um que atacar um pelotão americano ou uma unidade britânica de forma direta provavelmente enfrentará o poder de fogo devastador de helicópteros Apache em questão de minutos. Este entendimento levou ao desenvolvimento de uma guerra fantasma indireta, uma guerra por controle remoto, conduzida com armadilhas, minas terrestres, explosivos caseiros e carros transformados em bombas. É uma disputa desigual.

As tropas ocidentais, a maioria ainda treinada para conduzir guerras baseadas em terra da forma como eram travadas no início do século 20, se vêem diante de um adversário que emprega táticas de guerrilha ao extremo. Os talebans, quem quer que sejam, não estão limitados por qualquer doutrina da Otan, e certamente não pela Convenção de Genebra. Segundo a lógica deles, o assassinato em massa de civis pode ser contado como uma vitória. Explodir os convidados em um casamento pode fornecer vantagens estratégicas, com as imagens de televisão de crianças mortas se transformando em uma bomba suja na batalha pela opinião pública.

“Der Spiegel”

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Por que as tropas da Otan não conseguem estabelecer a paz no Afeganistão? - parte 1

Quarenta países estão envolvidos em uma guerra impossível de ser vencida no Afeganistão. Qualquer um que viaje pelo país com as tropas ocidentais logo percebe que as forças da Otan teriam que ser aumentadas em dez vezes para que a paz possa parecer uma possibilidade remota

Ullrich Fichtner

Treze dias antes do próximo atentado contra sua vida, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, chega a um encontro ministerial cercado por um enxame de guarda-costas. Ele mantém o colarinho de sua camisa fechado contra o clima frio e chuvoso de Cabul. É uma manhã de meados de abril -e apesar de haver algumas boas notícias nesta manhã, a maioria é ruim. Os canadenses querem que Karzai demita o governador de Kandahar, o contingente da ONU está perdendo 50 mil toneladas de alimentos e o embaixador cazaque está prometendo dinheiro para um hospital em Bamyan. Um homem-bomba detonou a si mesmo em Helmand, o ministro da defesa norueguês está visitando Cabul e a colheita da papoula para ópio teve início no sul do Afeganistão. Uma reunião ministerial está prestes a começar no palácio presidencial.

Karzai é o último a chegar, muito depois de seus ministros se reunirem no palácio. Os visitantes devem passar por quatro barreiras de segurança, passar três vezes por detectores de metal e entregar suas bolsas e pastas para serem farejadas por cães. Leva uma hora para chegar ao pátio mais interno, onde fica situado o palácio de Karzai -a alegre vila Gul Khana, situada em um jardim plantado com cedros. Quando o presidente entra na sala às 9 horas da manhã, todos sentados em volta da longa mesa de conferência se levantam, 28 homens e uma mulher. Este é o grupo que governa o Afeganistão -ao menos oficialmente.

Para iniciar a reunião, um imã canta longas suras do Alcorão. Então Karzai escuta um relatório de seu ministro da defesa, que acabou de retornar de uma viagem à Índia. O comportamento do presidente é o de um líder régio. Em vez de fazer muitas perguntas, ele simplesmente dá ordens. Ele não está usando seu característico chapéu de feltro e casaco colorido. Em vez deles, ele preside a reunião vestindo apenas camisa social e as exigências que impõe ao gabinete são impossíveis. Ele deseja que os ministros ajam de forma imediata contra os altos preços dos alimentos, ele ordena que o ministro dos transportes promova a segurança na estrada entre Cabul e Kandahar e diz: “Está chovendo no norte; pelo menos é uma boa notícia”.

Às 10h15, um secretário vestindo um terno listrado entra discretamente na sala, se aproxima da mesa e entrega ao presidente um pedaço de papel. Karzai lê a nota e balança a cabeça positivamente. O assessor deixa a sala e retorna com um telefone.

Karzai pega o aparelho e, quando fala, todos na sala podem ouvi-lo. “O quê? Tropas paquistanesas cruzaram a fronteira? Onde exatamente? Estão disparando foguetes? Há combates?” A notícia cai como uma bomba sobre o humor de Karzai. Ele desliga o telefone, passa a mão por sua cabeça calva e diz: “Ontem eu entreguei os diplomas aos estudantes da universidade. Ontem foi um bom dia”.

Bons dias são escassos no Afeganistão, um país em guerra -ou envolvido em várias guerras, para ser exato. Há combates constantes em muitas frentes, tanto leves quanto pesados. Os jornais, e há muitos deles em Cabul agora, oferecem diariamente páginas de imagens caóticas. Suas reportagens são sobre bombas e água potável, guerreiros santos e preço do trigo, ataques aéreos da Otan e livros escolares, crianças seqüestradas, refugiados e bandidos.

Quase sete anos se passaram desde a derrubada do regime Taleban e nestes setes anos metade do mundo tentou promover um futuro melhor e, acima de tudo, a paz neste novo país, a República Islâmica do Afeganistão. Como parte da operação militar da Otan conhecida como Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf, na sigla em inglês), 40 países contam com 60 mil soldados no país. Há 26 organizações da ONU no Afeganistão, e centenas de agências governamentais e privadas estão injetando dinheiro, materiais e know-how nas 34 províncias do país. Mas qualquer um à procura de histórias de sucesso ou que pergunte sobre os fracassos encontrará relatos que não parecem vir do mesmo país.

Segundo discursos e declarações que os oficiais militares, diplomatas e políticos ocidentais fazem constantemente, a situação da segurança melhorou substancialmente, os sucessos militares são óbvios e o Taleban está praticamente derrotado. Mas paz e Afeganistão, segundo os afegãos que falam para uma platéia doméstica, ainda são duas palavras incompatíveis.

No ano passado, 1.469 bombas explodiram ao longo das estradas afegãs, um número quase cinco vezes maior do que em 2004. Ocorreram 8.950 ataques armados contra tropas e equipes de apoio civis, 10 vezes mais do que há três anos. Em 2007, 130 homens-bomba suicidas explodiram a si mesmos. Ocorreram três atentados suicidas em 2004.

Não há paz em parte alguma no Afeganistão, nem mesmo no norte, que as autoridades repetidamente insistem ter sido pacificado. Qualquer um que viaja pelo país -fazendo as visitas obrigatórias a seus ministros, falando com os embaixadores ocidentais, diretores da ONU, comandantes da Isaf e governadores provinciais, assim como ativistas de direitos das mulheres, policiais de narcóticos e chefes de polícia- voltará com muitas questões sombrias e um sentimento pessimista de que esta não é uma missão para ser medida em anos, mas em décadas, muitas décadas.

Um capítulo dramático na história do mundo está sendo escrito no processo, neste país dominado pelas montanhas do Hindu Kush e pela formidável cordilheira Safed Koh, e os intermináveis desertos de Kandahar e Helmand. Os Estados Unidos e a Europa entraram aos tropeços em um novo tipo de guerra internacional, uma na qual todas as potências mundiais e regionais da atualidade estão envolvidas. O que acontecerá com a Otan se ela fracassar na primeira missão fora de sua área em sua história? E como ficará a ONU se este projeto ambicioso de construção de país no final for uma decepção?

O país está sob domínio de políticas motivadas por interesses globais. Ele é, como ocorreu com tanta freqüência em sua história, um peão em um tabuleiro de xadrez cercado por muito mais do que dois jogadores. Se os esforços orquestrados da comunidade Ocidental não apresentarem resultados tão rapidamente quanto o esperado, isto poderá ser atribuído em parte ao fato de que os esforços de uma metade do mundo estão constantemente sendo minados pelos da outra metade.

Enquanto a ONU tenta desarmar a população, o ingresso de armas e bazucas no país, vindas do Paquistão, continua sem pausa. O governo iraniano é acusado de promover o comércio de ópio e heroína afegãos para causar mal ao Ocidente. Enquanto isso, a Rússia é acusada de usar sua influência da era soviética para enfraquecer a Otan, sua velha rival, em solo afegão.

A China, a vizinha mais ao leste do Afeganistão, espera explorar recursos minerais inexplorados nas montanhas próximas. Dubai, a Liechtenstein do Oriente Médio, oferece um local para lavar e depositar dinheiro sujo. É como se a primeira guerra mundial crua do século 21 estivesse ocorrendo em solo afegão, uma guerra que permanece não declarada e não reconhecida.

“Por que estamos combatendo”
“Olhe para isto”, diz o comandante da Isaf, Dan McNeill, usando óculos escuros enquanto permanece ao lado de um avião de transporte C-130 canadense, prestes a decolar do aeroporto militar de Cabul. “Veja, tire uma foto disto. Este é o motivo para estarmos combatendo.”

O general atravessa a delegação que está acompanhando até Helmand, no sul. Ele afasta Zalmai Rassoul, o conselheiro de segurança nacional do presidente Karzai, os vice-ministros do Interior e até mesmo o general Karimi, o chefe de operações do exército nacional afegão. Neste dia nebuloso, McNeill finalmente chega até a mulher solitária que se encontra no fim do grupo, uma mulher afegã, usando maquiagem e não vestindo véu.

McNeill a apresenta com um troféu e diz: “Aqui está”. A mulher, uma funcionária do governo que parece ter cerca de 40 anos, sorri timidamente e dá a impressão de querer estar em outro lugar. O general de quatro estrelas, usando seu uniforme de combate, posa para uma foto com a mulher. McNeill, em seus últimos dias como comandante da Isaf e acostumado a dar ordens, diz: “Escreva a respeito disso. Este é o motivo para estarmos aqui”.

O vôo para Helmand passa pela cadeia de montanhas ao sul de Cabul. Em cerca de uma hora, o avião pousa no Campo Bastion (baluarte), pouco mais que uma pista de pouso empoeirada em um vasto deserto vazio. A delegação de Cabul precisa se transferir para um helicóptero para chegar a Lashkar Gah, a capital da província de Helmand. Lá ela se encontrará com o novo governador, Gulab Mangal, que a convidou para participar da grande shura, ou conselho dos anciãos, líderes e figuras religiosas.

Os viajantes embarcam em dois helicópteros Sea Knight, que os conduz em um vôo de alta velocidade e baixa altitude na direção oeste, por sobre um mar de campos de papoula.

No local de pouso, um campo de futebol, os convidados embarcam em veículos de transporte blindados em grupos de três e vestindo coletes à prova de bala. No final, o comboio parte em uma jornada breve. O destino, a residência oficial do governador, fica a menos de 300 metros do campo de futebol, passando por soldados afegãos que margeiam à rua, saudando os dignitários visitantes. Durante a viagem a Helmand, McNeill contou muitas histórias de sucesso e apresentou análises cor-de-rosa. Ele disse: “Todos os países vizinhos estão interessados na estabilidade regional”. E ele disse que nenhuma criança podia freqüentar a escola antes do início da operação da Isaf, e que agora há 6 milhões de crianças na escola no país. É claro, acrescentou o general, ainda há “áreas voláteis” ao longo da fronteira com o Paquistão. Mas a situação da segurança, ele insistiu, “melhorou significativamente”.

Ele diz que os terroristas são, na maioria, pouco mais que um bando dividido, não mais capaz de lançar ataques substanciais. Estas foram as palavras de Dan McNeill, as palavras que ele usou em suas mensagens destinadas a uma audiência ocidental, as palavras usadas em seu discurso padrão, escrito para chanceleres e primeiros-ministros. Mas pouco do que o general disse condiz com os relatórios que ele está recebendo durante sua visita a Helmand.

“Der Spiegel”

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Krugman: esforços do Fed lembram a série “MacGyver”

Paul Krugman

Cruze os dedos, bata na madeira: é possível, mas de modo algum garantido, que o pior da crise financeira tenha passado. Essa é a boa notícia.

A má notícia é que enquanto os mercados se estabilizam as oportunidades para reformas financeiras fundamentais podem estar escapando. Em conseqüência, a próxima crise provavelmente será pior do que esta.

Vamos examinar a história até agora.

Depois da crise financeira que trouxe a Grande Depressão, os reformadores do New Deal regulamentaram o sistema bancário, com o objetivo de proteger a economia de futuras crises. O novo sistema funcionou bem por meio século.

Com o tempo, porém, Wall Street contornou a regulamentação, usando complexos arranjos financeiros para colocar a maior parte dos negócios bancários fora do alcance dos reguladores. Washington poderia ter revisado as regras para abranger esse novo “sistema bancário à sombra” -mas isso teria ido contra a ideologia adoradora do mercado destes tempos.

Em vez disso, importantes autoridades, de Alan Greenspan para baixo, cantaram elogios à inovação financeira e desprezaram as advertências sobre os riscos crescentes.

Então veio a crise. Em agosto passado, enquanto os investidores começavam a perceber o alcance da confusão das hipotecas, a confiança no sistema financeiro desmoronou.

Acredito que tivemos sorte por ter Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve nestes tempos difíceis. Ele pode não ter o talento de Greenspan para personificar o Mágico de Oz, mas é um economista que pensou muito sobre a Grande Depressão e sobre a década perdida do Japão nos anos 1990, e entende o que está em jogo.

Bernanke reconheceu, talvez mais rapidamente do que outros teriam reconhecido, que estávamos em uma situação que tinha uma semelhança familiar com a grande crise bancária dos anos 1930-31. Sua primeira prioridade, superando qualquer outra preocupação, era evitar uma cascata de falências financeiras que paralisariam a economia.

Os esforços do Fed nos últimos nove meses me lembram a antiga série de TV “MacGyver”, cujo herói engenhoso sempre saía das situações difíceis montando dispositivos inteligentes com objetos caseiros e fita adesiva.

Como as instituições em dificuldades não se chamavam bancos, as ferramentas habituais do Fed para lidar com problemas financeiros, criadas para um sistema centrado em bancos tradicionais, eram de modo geral inúteis. Por isso o Federal armou arranjos improvisados para salvar o dia. Houve o TAF e o TSLF (não me perguntem), houve linhas de crédito para bancos de investimento e tudo culminou no resgate inédito e quase ilegal da Bear Stearns em março -um resgate não da Bear em si, mas de suas “contrapartes”, os que estavam do outro lado de suas apostas financeiras.

Ainda está longe de garantido se toda essa improvisação resolveu a crise. Mas foi a coisa certa a fazer, e por enquanto as coisas parecem estar se acalmando.

Então, dois vivas para Bernanke. Infelizmente, seu próprio sucesso -se é que houve- coloca outro problema: dá à indústria financeira a oportunidade de bloquear as reformas.

Agora sabemos que as coisas que não se chamam bancos podem de qualquer modo gerar crises bancárias, e que o Fed precisa executar resgates do tipo bancário em prol delas. Segue-se que os fundos hedge, os veículos de investimento especiais, etc. precisam de regulamentação do tipo bancário. Principalmente, eles precisam ser obrigados a ter o capital adequado.

Se nosso sistema financeiro descontrolado foi ruim para o país, porém, foi muito bom para os especuladores, que ganham taxas enormes quando as coisas parecem ir bem e depois saem andando ilesos -na verdade, muitas vezes com grandes pacotes de demissão- quando as coisas dão errado. Eles não querem regulamentos que estabilizariam a economia mas prejudicariam seu estilo.

E agora que as nuvens financeiras se ergueram um pouco o movimento contra uma regulamentação sensata está em plena ação. Até a proposta muito modesta do Fed de conter os empréstimos de hipotecas abusivos com novos padrões está sendo alvo de críticas e há sinais preocupantes de que o Fed poderá recuar.

Talvez uma vitória democrata em novembro possa reavivar a causa da reforma financeira, mas neste momento parece que logo voltaremos a tudo como era antes.

O paralelo que me preocupa é o que aconteceu uma década atrás, depois que o fundo hedge Long-Term Capital Management faliu, causando um congelamento temporário de todo o sistema financeiro.

Com sorte e capacidade essa crise foi contida -mas em vez de servir como advertência o episódio alimentou a falsa crença de que o Fed tem todas as ferramentas necessárias para lidar com choques financeiros. Então nada se fez para remediar as vulnerabilidades que a crise do LCTM revelou -as mesmas que estão no centro da crise muito maior de hoje.

E se não consertarmos o sistema agora há todos os motivos para se acreditar que a próxima crise será ainda maior -e que o Fed não terá fita adesiva suficiente para juntar as coisas.

“The New York Times”

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Obrigação de ser bonito

Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC investiga como ser magro virou passaporte para a aceitação social

DENISE MOTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A grande passarela em que se transformou a sociedade contemporânea reflete uma realidade não só enferma como moralizadora, em que ser considerado belo se tornou “obrigação”, segundo a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, autora do recém-lançado “O Intolerável Peso da Feiúra” (PUC/ Garamond, R$ 30, 270 págs.).
Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC-Rio, Novaes investigou como o físico se converteu em passaporte para a aceitação.

FOLHA - A associação direta entre extrema magreza e beleza é fenômeno recente. Um símbolo sexual poderoso, Marilyn Monroe, diz-se, vestia 46…
JOANA DE VILHENA NOVAES - O que é próprio da contemporaneidade é a moralização da beleza. De atributo divino ou da natureza, a beleza passou a ser um denotativo de caráter: “só é feio quem quer”. A cultura do “body-building” e do “body-modification” foi maciçamente importada dos EUA. Uma das máximas do “american way of life” que permeia o culto ao corpo é a conhecida “no pain, no gain”: é preciso muito esforço para vencer numa sociedade tão competitiva.

FOLHA - Que conclusões obteve a partir dos depoimentos para o livro?
NOVAES - Se, por um lado, elas se mantêm aprisionadas no ideal de corpo vigente, por outro, não estão tão passivas assim em relação ao desejo de transformação. Para preservar a juventude e conseqüentemente a “boa aparência”, tudo deve ser tentado. Esse “tudo” é que é o problema. O trágico aumento da anorexia e da bulimia comprova a força dessa ditadura. Mas não devemos esquecer a melhora na auto-estima que um novo corpo pode fornecer.
[…] “De atributo divino ou da natureza, a beleza passou a ser um denotativo de caráter: “só é feio quem quer’”

Entre pacientes obesas, a possibilidade de levar uma vida normal basta para inserir essas mulheres em um mundo mais rico em termos de relações pessoais, alterando radicalmente suas formas de sociabilidade.

FOLHA - Em blogs, pessoas gordas se dizem felizes com seus corpos. Isso não desafia a noção de que seja “intolerável” o peso da “feiúra”?
NOVAES - Claro que existem pessoas felizes! Mas isso não quer dizer que não exista preconceito. As pesquisas estão aí mostrando que as empresas não estão contratando pessoas gordas. Mas temos essa tradição de negar nossos preconceitos. Considero positivos esses movimentos de resistência e proponho uma ação afirmativa para os gordos, de modo que a primeira providência para que possamos combater o preconceito seja não negá-lo.

FOLHA - Kate Moss foi a “modelo do ano”. Beleza não só virou sinônimo de magreza como se dissociou da idéia de saúde?
NOVAES - É justamente esse o grande engodo! O pulo-do-gato é a compreensão de que essa associação entre saúde, bem-estar e estética é uma construção contemporânea e nada tem de natural. Aspectos como o aumento significativo dos casos de transtornos alimentares e das cirurgias plásticas apontam para o horror à gordura como um sintoma social -as pessoas estão de fato adoecendo.

Folha de S. Paulo

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A violência no Rio e em SP

Para melhor entender os ataques no Rio e a violência cotidiana no país, é importante relembrar o que ocorreu em São Paulo com o PCC. A facção criminosa, cujo Estatuto reivindicava direitos humanos para os presos, perdeu sua finalidade inicial diante de um Estado fraco e desorganizado.

Ariel de Castro Alves

Novamente a sociedade brasileira está em pânico diante de novos ataques do crime organizado. Desta vez o cenário não é a “terra da garoa” e sim a “cidade maravilhosa” – o principal cartão postal brasileiro, exatamente na alta temporada de verão, gerando graves danos ao turismo. Mais uma vez, alguns políticos, de várias vertentes, lançam suas bravatas e atuam com demagogia para ludibriar a opinião pública. Especialistas de ocasião, sensacionalistas e oportunistas de plantão também aparecem defendendo soluções milagrosas, principalmente pugnando pela elaboração de mais leis que jamais sairão do papel. Certamente, dentro de duas semanas, tudo será esquecido, nenhuma medida será tomada até a chegada de uma nova onda de ataques.

Por outro lado, o crime organizado se aproveita do cenário de desentendimento entre os governantes, da corrupção que toma conta das instituições que deveriam combater o crime, das transições nos governos, da ressaca e do recesso de início de ano e até do turismo do verão para impor o terror e depois negociar uma trégua. Em São Paulo, um dos ingredientes que motivou a atuação do crime organizado, além de alguns dos citados acima, foi o período pré-eleitoral, quando os governos ficam totalmente perdidos e tudo se torna motivo para disputas e ataques recíprocos. No Rio de Janeiro atuam as milícias criminosas com a conivência da polícia. Em São Paulo atuaram os grupos de extermínio, também com a complacência das forças policiais. Para melhor entender os ataques no Rio e a violência cotidiana no país, é importante relembrar o que ocorreu em São Paulo nos últimos anos:

A facção criminosa denominada Primeiro Comando da Capital (PCC) surgiu em 1993, no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo. No início, a idéia originária dos fundadores do grupo era a de, através de uma “entidade” ou um “partido”, organizar os detentos com a finalidade de lutar contra o que chamavam de “opressão carcerária”, torturas, humilhações, ausência de perspectivas e direitos elementares no sistema prisional, e também para que houvesse Justiça no caso do assassinato de 111 presos no epísódio internacionalmente conhecido como “Massacre do Carandiru”, ocorrido em 1992.

O Estatuto do PCC manifestava idéias inclusive de cunho progressistas e reivindicava direitos humanos previstos na própria legislação brasileira com relação ao tratamento do preso e de seus familiares. Ocorre que com o tempo a organização ganhou complexidade e passou a se desviar das finalidades iniciais traçadas por seus fundadores e no seu Estatuto. O PCC se fortaleceu rapidamente em razão da precariedade das condições no sistema prisional. O crime organizado é forte onde o Estado é fraco e desorganizado! A falta de fiscalização e controle externo nos estabelecimentos penitenciários por parte do próprio Poder Executivo, mas também do Judiciário e do Ministério Público, inclusive contrariando a própria legislação, contribuiu para o fortalecimento do PCC.

No mesmo período, o poder público restringiu a fiscalização que poderia ser realizada por organizações de direitos humanos, impedindo a entrada de muitos de seus representantes nas prisões. Contando com a corrupção corrente nos vários escalões do sistema prisional, a organização de detentos se transformou realmente numa facção criminosa sustentada por crimes e contravenções dentro e fora do sistema penitenciário, explorando presos e seus familiares, fortalecendo e se abastecendo do tráfico de drogas, impondo medo, terror e mortes aos seus desafetos e até para seus próprios seguidores, ganhando alguns adeptos na advocacia, no funcionalismo público do sistema prisional, nas polícias e em variados segmentos da sociedade. Somavam, assim, todos os ingredientes do que podemos definir como crime organizado.

Diante do crescimento da organização criminosa, o Estado se manteve praticamente inoperante e até colaborou indiretamente para o seu fortalecimento instituindo e reconhecendo “líderes”, “vozes” e “faxinas” no sistema prisional. Mantendo um constante diálogo com negociações e acordos recíprocos. Para o próprio Estado sempre interessou que os próprios detentos estabelecessem sistemas de autogestão do controle interno. Isso sempre foi muito mais cômodo. Realmente é mais fácil garantir trabalho, boa alimentação, aparelhos de TV, condições de estudo e assistência judiciária para alguns do que para todos. Quando não, com a corrupção, a entrada de drogas, dinheiro e celulares. E, assim, negociar com esses poucos “privilegiados” para que eles controlassem os demais.

Essa rotina manteve uma aparente calmaria no sistema por alguns anos. Durante esse período, as autoridades divulgavam com orgulho a diminuição de fugas e as poucas rebeliões. Também davam publicidade a desativação de carceragens em delegacias e a inauguração de novos estabelecimentos penitenciários considerados modelos. Porém, o crime organizado nos presídios cresceu rapidamente conforme a ambição das lideranças antigas e emergentes da facção criminosa majoritária, fugindo totalmente do controle do Estado. Vários sinais demonstraram isso antes dos ataques contra as forças policiais em maio de 2006. A principal prova de força do grupo criminoso ocorreu na megarrebelião de fevereiro de 2001, que envolveu 29 presídios no Estado de São Paulo, na qual o centro da articulação foi o complexo penitenciário do Carandiru.

As transferências de presos para outros Estados da Federação naquele período acabaram fazendo com que a facção criasse ramificações e apoios no país todo. Também nos anos de 2001, 2002 e 2003 vários ataques contra policiais e Fóruns da Justiça foram atribuídos ao PCC. Em 2003, o juiz corregedor de Presidente Prudente, Antonio José Machado Dias, foi assassinado a mando da facção. Perante tudo isso, o Estado se manteve praticamente inerte, efetivando poucas ações e medidas eficientes para reestabelecer sua autoridade. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi criada após a megarrebelião de 2001, na Assembléia Legislativa de São Paulo, mas foi inviabilizada pela bancada governista e não acabou chegando a nenhuma conclusão, exatamente quando o foco das investigações era o possível envolvimento de dirigentes do sistema prisional com o crime organizado. A única grande ação de suposto combate à facção não passou de uma armação que gerou a morte de 12 pessoas na rodovia Castelinho em março de 2002.

Tendo em vista que nenhum desses prenúncios citado anteriormente foi observado com a devida atenção e quase nada foi feito para garantir a segurança pública e desmantelar os grupos criminosos através de um trabalho sério de inteligência, organização do sistema prisional, prevalência do cumprimento da lei e estruturação das forças policiais, no dia 12 de maio de 2006 o crime organizado deu início as execuções sumárias de agentes do Estado. Entre maio e agosto, ao todo, a facção teria matado 59 pessoas em suas três ondas de atentados. Foram mortos 25 policiais militares, 4 guardas civis, 7 policiais civis, 14 agentes penitenciários, 6 civis e 3 seguranças. No total, foram 998 ataques no período. Ocorreram rebeliões em praticamente todos os presídios e em algumas unidades da Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor). Alguns movimentos também foram observados em outros Estados, como Espírito Santo, Paraná e Mato Grosso. Mas São Paulo foi o Estado que mais conviveu com dias de pânico e terror.

Após a primeira onda de ataques do dia 12 de maio, o que se viu em seguida foram execuções sumárias e extermínios deliberados também por parte das forças policiais e de grupos de extermínio. No total, 492 pessoas morreram entre os dias 12 e 20 de maio, conforme levantamentos feitos por entidades e pelo Conselho Regional de Medicina junto às sedes do Instituto Médico Legal. Dados da própria Secretaria de Segurança Pública demonstraram que no segundo trimestre de 2006 1.888 pessoas morreram em São Paulo. Esse número corresponde a mais que o dobro de mortes no mesmo período no Iraque, país que está em Estado de Guerra já há algum tempo.

O que não faltaram foram relatos de familiares com relação às mortes e desaparecimentos de jovens, pobres, negros e moradores da periferia. Um verdadeiro massacre. Os 126 casos classificados pela própria Secretaria de Segurança Pública como supostas “resistências seguidas de morte” foram analisados pelo perito criminal Ricardo Molina, que constatou que em 88 casos haviam indícios de execuções sumárias, muitos com tiros de cima para baixo, nas costas e sempre em regiões letais. Pessoas mortas que provavelmente não ofereceram a suposta resistência propalada pelas autoridades da segurança pública.

Alguns casos com investigações em curso estão demonstrando isso, apesar do pouco interesse tem tido o Estado em esclarecer as mortes dos seus próprios agentes, muito menos das vítimas civis, supostamente mortas pelas forças de segurança estatais e por grupos de matadores. A Ouvidoria de Polícia já diagnosticou ao menos 82 casos de atuação de grupos de extermínio, porém nenhum desses casos ainda foi esclarecido pela polícia nem pelas corregedorias. Desde o dia 19 de maio, as entidades de direitos humanos atuam através de uma Comissão Especial Independente, reunindo representantes das organizações não governamentais e de órgãos públicos.

Essa comissão foi constituída pelo Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), após ter sido aprovada em audiência pública realizada na Assembléia Legislativa de São Paulo. No entanto, essa comissão tem tido grande dificuldade de acesso às informações, que são sonegadas pela Secretaria de Segurança Pública. Até o próprio Ministério Público tem enfrentado dificuldades para obter informações oficiais. As testemunhas também temem retaliações e não acreditam nas instituições, até com razões plenamente consideráveis. Esse é mais um ingrediente que favorece a impunidade.

Podemos afirmar que após 7 meses dos ataques do crime organizado em São Paulo e da reação descontrolada das polícias e dos grupos de extermínio, a situação ainda é propícia para novos ataques e outros massacres, gerando um ciclo de violência que precisa ter fim. Até agora sequer sabemos exatamente quantas pessoas morreram no período; o sistema prisional se mantém sem controle; os policiais continuam sem estrutura de trabalho; a maioria das famílias dos agentes do Estado que morreram ainda não receberam indenizações.

A maior homenagem às vítimas civis e militares seriam ações efetivas por parte dos governos federal, estadual e municipais visando ao enfrentamento da violência com medidas preventivas, na área social e repressivas, na área policial, mas preferem não fazer nada apostando no esquecimento da população. Até antigas propostas nacionais, como a reformulação das polícias, a reforma do sistema prisional e a implantação de um Sistema Nacional de Segurança Pública parece que foram deixadas de lado.

Quando ocorrem variações no câmbio, queda nas bolsas de valores, variações nas taxas de juros e pequenos distúrbios na economia, rapidamente os governos atuam e tomam providências urgentes lançando os mais variados pacotes de medidas, mas quando ocorrem mortes de jovens, pobres, moradores da periferia, sendo agentes do Estado ou civis, a inércia é a regra, em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro estado do país.

Ariel de Castro Alves é advogado, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos, presidente do Projeto Meninos e Meninas de Rua, assessor jurídico da Fundação Projeto Travessia, membro da Comissão da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), secretário geral do Condepe (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana – São Paulo) e membro eleito do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda). Correio eletrônico: ariel.alves@uol.com.br.

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