Monarquias européias ainda são tranqüilizadoras e prósperas
José-Alain Fralon*
Os monarcas europeus podem ficar tranqüilos: ainda falta muito para eles sofrerem o mesmo destino que o do seu “primo” nepalês, Gyanendra, que foi obrigado a deixar seu trono. Mais importante ainda, com a exceção de Albert 2º da Bélgica, cuja situação está vinculada ao futuro de um país fragilizado pelos separatistas flamengos, nunca os soberanos do continente europeu haviam parecido tão firmemente instalados. Por onde andam hoje os “Provos” (provocadores) holandeses que, em 1966, gritavam “Viva a República!”, arremessando tomates por ocasião do casamento de Beatrix, a herdeira do trono da Holanda? Que fim levaram os comentaristas que haviam anunciado, depois da morte de Diana, a queda dos Windsor? E o que pensar da profecia do ex-presidente francês François Mitterrand, que escrevera em 1975: “Eu nunca acreditei em Juan Carlos, aquele rei de terceira mão; eu quase lamento por ele de antemão, pensando na enxurrada que o afogará”?
Atualmente, Beatrix reina sobre o país das tulipas, dando a sua opinião, no que ela costuma ser ouvida com atenção, a respeito dos assuntos que agitam o seu reino, cuidando dos interesses de uma das mais sólidas fortunas do mundo e da sua espantosa coleção pessoal de chapéus. Elizabeth 2ª, por sua vez, soube dar tempo ao tempo, dele se valendo para que a recordação do “anjo” Lady Di se apagasse aos poucos. Quanto a Juan Carlos, após ter contribuído para o restabelecimento da democracia na Espanha, ele se permitiu afrontar publicamente o presidente venezuelano Hugo Chávez…
Ao Norte, Margrethe da Dinamarca, sem dúvida a mais popular das soberanas européias, segue defendendo até hoje as suas opiniões feministas e anti-racistas, e se dedica a uma vida cultural ativa. E não é que ela traduziu Simone de Beauvoir? Por sua vez, Harald 5º da Noruega atravessou, em 2002, uma zona de turbulências por conta das travessuras da sua nora; alguns parlamentares até mesmo consideraram durante algum tempo uma possível solução republicana para o problema, mas essas tempestades parecem ter se dissipado. Em contrapartida, o barômetro segue apontando um tempo com céu de brigadeiro para o rei de Suécia, um ecologista emérito, assim como a maioria das cabeças coroadas: ele decidiu mandar apagar todos os dias durante uma hora as luzes de três dos seus castelos para enfatizar o seu engajamento contra o aquecimento climático.
Mesmo se modelos, jogadores de futebol ou apresentadores de televisão lhes roubaram as luzes da ribalta, os monarcas continuam sendo destaques nas manchetes da imprensa de colunas sociais (”people”). Um casamento principesco ou um enterro real são eventos que aumentam as tiragens. Os cerimoniais seguem promovendo bons negócios para o turismo - muitos ainda viajam apenas para assistirem à troca da guarda na frente do palácio de Buckingham! Além disso, do escritor Stefan Zweig aos cineastas Sofia Coppola e Robert Hossein, a inspiração proporcionada pela rainha Maria Antonieta (Maria Antonieta da Áustria, 1755-1793, mulher de Luís 16, morta na guilhotina) parece estar longe de ter se esgotado.
A questão continua inteira: no século 21, como esses anacronismos - aos quais nós poderíamos acrescentar outras altezas européias tais como o grande duque do Luxemburgo, os príncipes do Liechtenstein, de Mônaco ou de Andorra - ainda podem subsistir, e até mesmo prosperar? Como certas personalidades cujo carisma é muito relativo - sobretudo, desde que os paparazzi tomaram o lugar dos pintores de corte -, cuja inteligência revela ser geralmente mediana (de fato, elas nunca precisam se servir dela tanto assim!), e cujas fortunas foram, com freqüência, construídas sem grande moralidade - nesse sentido, a rainha Beatrix acaba de ser surpreendida em flagrante pela imprensa holandesa por conta das suas despesas exorbitantes com transportes aéreos - continuam sendo tão populares?
É sem dúvida porque esses monarcas continuam servindo como referências para súditos preocupados. Eles estão ali porque eles estão ali, sem mais nem menos. Da mesma forma que seria difícil imaginar a França restabelecer no trono o conde de Paris, seria impensável ver a Dinamarca derrubar a sua rainha. Ficamos então com uma piscadela da história: o fato de perguntar para jovens holandeses, dinamarqueses ou espanhóis se eles são republicanos parece atualmente um tanto. . . anacrônico.
* José-Alain Fralon é co-autor, com Thomas Valclaren e Linda Caille, do livro “Les rois ne meurent jamais” (Os reis nunca morrem, editora Fayard, 2006).
“Le Monde”
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