Por que as tropas da Otan não conseguem estabelecer a paz no Afeganistão? - parte 2
Ullrich Fichtner
Ataques com bombas, bandidos de estrada e seqüestradores
Em um escritório por trás de portas fechadas, cheio de móveis forrados com motivos florais, o governador relata que metade dos distritos em sua província estão fora de alcance. Alianças formadas pelo Taleban com os barões das drogas, ele diz, governam as aldeias, e nenhuma das estradas está segura contra ataques de bombas, bandidos e seqüestradores. Segundo Mangal, o Paquistão tem um dedo em cada fatia do bolo daqui, expulsando os professores das escolas (aquelas que ainda não foram incendiadas) e forçando os agricultores a plantarem papoula.
Os delegados de Cabul escutam e bebem seu chá. Eles estão escutando palavras familiares, as palavras de relatórios destinados ao público afegão, não ao público ocidental, palavras que são brutalmente realistas e não adoçadas.
McNeill promete ao governador que agora poderá enviar 3.200 marines americanos adicionais a Helmand, e que os britânicos também maximizaram o número de soldados na província. As coisas estão progredindo, insiste o general, e as coisas continuarão progredindo. O pessoal de Karzai promete dinheiro e demonstra boa fé.
Os convidados beliscam nozes e uvas secas, e após duas horas a conversa começa a diminuir. “Se você deseja que as pessoas produzam melões em vez de heroína, é preciso lhes dar um mercado para melões”, diz um homem do grupo do governador. Ninguém nem mesmo tenta responder ao que ele disse. O alimento é servido: sopa, salada, pão e kebabs em longos espetos. Os transportes blindados estão aguardando do lado de fora. É hora dos convidados retornarem a Cabul.
Três milhões de pessoas cujo sustento depende do ópio
Desde a queda do regime do Taleban, há quase sete anos, a produção de ópio no país está mais abundante a cada ano que passa. No ano passado, 93% da heroína comercializada no mundo veio do Afeganistão. Em 2007, as papoulas do ópio foram cultivadas em 193 mil hectares, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, a Isaf observa sem agir. Mas sua inação é uma medida de precaução.
Por temer gerar hostilidade contra os soldados estrangeiros entre a população local, os detentores do poder concordaram desde cedo que os afegãos seriam os únicos responsáveis por travar a guerra das drogas, sem nenhum envolvimento da Otan. Para demonstrar seu suposto compromisso, a polícia e o exército afegão ocasionalmente promovem queimas simbólicas de drogas, e às vezes atravessam um campo cortando algumas plantas. A operação, chamada de “erradicação”, é uma das mais perigosas nesta guerra.
Os policiais de narcóticos rotineiramente enfrentam fogo inimigo. As milícias dos narcotraficantes, do Taleban e da Al-Qaeda, lançam contra-ataques perfeitamente planejados, quase como se alguém tivesse lhes passado antecipadamente os planos das forças do governo por fax. Drogas e corrupção andam de mãos dadas no Afeganistão, onde um policial pode se considerar afortunado se ganhar entre 200 a 300 euros por mês. Quando começa a colheita, até mesmo soldados do exército deixam seus uniformes para trabalhar nos campos como apanhadores. Os professores trabalham à noite como contrabandistas, prefeitos operam laboratórios de heroína e governadores provinciais já foram parados com 150 quilos de heroína pura no porta-malas de seus carros.
“Nós presumimos que 500 mil famílias tenham participação no bolo”, disse o general Mohammed Daoud, antes um jovem comandante sob o lendário líder mujahedeen Ahmed Shah Massoud. Hoje, Daoud é o vice-ministro do interior encarregado de realizar a operação de combate às drogas de Cabul. “E se você considerar que uma família afegã costuma ter seis membros”, disse Daoud, “são 3 milhões de pessoas em nosso país cujo sustento depende da produção de ópio”. Este contingente, 10% da população do país, de 30 milhões, é muito maior do que qualquer exército no Afeganistão.
Daoud tem 2.500 homens sob seu comando para travar sua batalha contra a indústria do ópio. No ano passado, seu departamento prendeu 820 contrabandistas e 20 oficiais corruptos do exército, destruiu 63 laboratórios de heroína e removeu toneladas de heroína do mercado.
Mas quando o pessoal de Daoud captura alguns poucos criminosos, as prisões são apenas simbólicas. O Afeganistão ainda não conta com nada que se aproxime de um sistema judiciário eficaz. Não há mecanismos para assegurar o cumprimento das sentenças, assim como poucos advogados e juizes. Apesar do país supostamente contar com 1.500 promotores, apenas metade deles estudou direito. “Nós já prendemos pessoas e as sentenciamos a 19 anos de prisão”, disse Daoud, “mas todas elas são soltas no dia seguinte”.
Ainda restam 10 dias para o próximo atentado à vida de Hamid Karzai. É quase fim de abril e há boas notícias e muitas notícias ruins. Em Zabul e Ghazni, dezenas de combatentes do Taleban foram mortos em batalhas contra tropas do governo, enquanto a rede de mulheres do Afeganistão expressa sua preocupação com o número crescente de crianças sendo submetidas a casamentos forçados. Em Nimruz, um homem-bomba detona a si mesmo diante de uma mesquita, matando 23 pessoas. A Alemanha promete milhões de euros adicionais para treinamento da polícia. E no distrito de Maiwand, na província de Kandahar, soldados da Companhia B do Terceiro Batalhão do Regimento de Pára-quedistas britânico estão se preparando para uma patrulha.
A unidade recebeu alertas de que o inimigo plantou bombas detonáveis por controle remoto a nordeste de Hutal, no quadrante 9951. Hutal é uma pequena capital distrital com cerca de 7 mil moradores que vivem em cabanas de barro, sem eletricidade ou água corrente. A cidade conta com um mercado ao longo da rua principal, uma escola, um veterinário e, no norte, um velho forte que os britânicos certa vez tentaram capturar, apesar de sem sucesso, no século 19.
‘Nós sabemos que eles estão lá fora em algum lugar’
Eles chegaram aqui no final de março, os primeiros soldados ocidentais a colocarem o pé nesta área. Os canadenses, que são os responsáveis por Kandahar, careciam de pessoal suficiente para distribuir os soldados por todos os distritos da província. Quando os britânicos chegaram, eles esperavam encontrar resistência. Eles trouxeram 500 soldados, veículos e equipamento, e em 26 de março eles se estabeleceram no amplo deserto ao norte de Hutal e passaram a marchar na direção oeste, para zonas de operações identificadas em seus mapas com nomes como “Birmingham”,”Camberley” e “Tailândia”. Mas nada aconteceu.
Eles dirigiram e marcharam por quatro dias, esperando revelar o inimigo, mas tudo o que encontraram foram geradores na “Birmânia”, que apreenderam, e uma estação de rádio inimiga na “Malásia”. Mas os combatentes em si, seja do Taleban ou de outros grupos, não foram encontrados em lugar nenhum. Eles se voltaram para Hutal, onde queriam estabelecer uma base, e lhes foi entregue três prédios de concreto dilapidados da polícia. É um posto avançado frio e arenoso, onde os homens não fazem a barba há cinco semanas e têm pouca oportunidade de tomar banho ou mesmo se lavarem, e onde passam grande parte do tempo ociosos, bebendo chá instantâneo em garrafas de plástico.
“Eles estão escondidos”, diz o major Stuart McDonald, um comandante de 35 anos da companhia com um rosto que lembra o de Jesus. Em casa, a filha dele celebrou seu terceiro aniversário há três dias, “o que parte meu coração”. Ele e seus oficiais estão em uma varanda improvisada cercada por sacos de areia, planejando uma patrulha na direção nordeste, onde pode haver bombas, e onde esperam finalmente conseguir revelar o inimigo.
“Nós sabemos que eles estão lá fora em algum lugar”, diz McDonald. “Eles estão nos observando, mas estão escondidos. É patético.” Sua unidade, conhecida no Reino Unido apenas como “3 Para”, faz parte de uma força de elite dentro do Exército Britânico.
No início da semana, seus homens abriram fogo contra um adolescente em uma bicicleta motorizada que, com seu irmão sentado na garupa, tolamente dirigia na direção deles. Eles só podiam concluir que se tratava de um homem-bomba, porque ele ignorou todos os gestos e todos os alertas, e simplesmente continuou dirigindo na direção deles. O médico da companhia posteriormente cuidou de seus ferimentos e agora o garoto está em pé e caminhando novamente em sua aldeia, mas o clima se deteriorou desde então. Os moradores locais dizem que os soldados estrangeiros estão disparando contra seus filhos.
O 6º Pelotão da companhia, um grupo de 30 a 35 homens, sai em patrulha, deixando o campo em formação, com armas em prontidão, e segue para o nordeste. Desde o incidente com a bicicleta motorizada, os moradores locais sabem que é melhor parar sempre que vêem os soldados. Agora a vida pára repentinamente assim que os britânicos aparecem. Carros param e pedestres congelam. Apenas na estrada os caminhões e ônibus continuam viajando. Os ônibus levam trabalhadores migrantes de todas as partes do país para trabalharem na colheita da papoula. Há centenas de ônibus, viajando 24 horas, muitos deles com inscrições em alemão nas laterais: “Prima Tours Günther” ou “Alpina Express”.
Os soldados cruzam um amplo leito seco de rio, onde há sepulturas recém cavadas marcadas por bandeiras de luto e a cor verde do profeta. O ar é quente e pesado com o fedor de decomposição. Crianças, mulheres e idosos se reúnem diante das moradias ao longo da rota, imóveis e observando os soldados. Os estrangeiros ocasionalmente atiram goma de mascar ou chocolate para as crianças. Toda criança aqui sabe uma frase em inglês de cor: “Moço, me dê um dólar”.
Os soldados logo chegam ao deserto, uma paisagem de areia e pedra que se estende até o horizonte, que faz parte do território inimigo perto da estrada e pode estar minado. Eles estão em pleno quadrante 9951. Os soldados param para descansar. Está quente e cada um deles está carregando 27 quilos de equipamento. Eles se ajoelham na areia e bebem de seus cantis. Então continuam marchando, sem fazer contato com o inimigo, em um amplo arco de volta até o campo.
O Taleban e seus aliados aprenderam que não vale a pena o combate homem a homem com os soldados da Otan. Qualquer um que atacar um pelotão americano ou uma unidade britânica de forma direta provavelmente enfrentará o poder de fogo devastador de helicópteros Apache em questão de minutos. Este entendimento levou ao desenvolvimento de uma guerra fantasma indireta, uma guerra por controle remoto, conduzida com armadilhas, minas terrestres, explosivos caseiros e carros transformados em bombas. É uma disputa desigual.
As tropas ocidentais, a maioria ainda treinada para conduzir guerras baseadas em terra da forma como eram travadas no início do século 20, se vêem diante de um adversário que emprega táticas de guerrilha ao extremo. Os talebans, quem quer que sejam, não estão limitados por qualquer doutrina da Otan, e certamente não pela Convenção de Genebra. Segundo a lógica deles, o assassinato em massa de civis pode ser contado como uma vitória. Explodir os convidados em um casamento pode fornecer vantagens estratégicas, com as imagens de televisão de crianças mortas se transformando em uma bomba suja na batalha pela opinião pública.
“Der Spiegel”
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