Arquivo de 2 de Julho de 2008

As ilusões do pós-modernismo – Contradições

Terry Eagleton

A maior contradição do pós-modernismo é um pouco como aquela do velho estruturalismo. O estruturalismo era radical ou conservador? É fácil demais perceber como ele se comportou como uma espécie de tecnocracia do espírito, a penetração final do impulso racionalizante de modernidade no santuário interior do sujeito. Com seus códigos rigorosos, esquemas universais e reducionismo obstinado, ele refletia na esfera do Geist uma materialização já aparente na realidade. Mas isso é só um lado da história. Pois, ao estender à mente a lógica da tecnocracia, o estruturalismo escandalizou o humanismo liberal cuja tarefa era preservar a vida da mente de qualquer redução simplista assim. E esse humanismo liberal foi uma das ideologias dominantes da sociedade tecnocrática em si. Nesse sentido, o estruturalismo era ao mesmo tempo radical e conservador, conspirando com estratégias do capitalismo moderno de uma forma altamente conflitante com seus valores supremos. É como se, ao pressionar até não poder mais um tipo de determinismo tecnológico para a própria mente, ao tratar os indivíduos como meros espaços vazios de códigos impessoais, ele imitasse a maneira com que a sociedade moderna na verdade os trata mas finge que não, dessa forma endossando sua lógica enquanto desmascara seus ideais. “Sistema”, escreve Roland Barthes, “é o inimigo do Homem” ─ querendo dizer com isso, sem dúvida, que para o humanismo o sujeito é sempre aquele que é radicalmente irredutível, aquele que vai infiltrar-se pelas fendas de suas categorias e devastar suas estruturas.

Há um tipo parecido de contradição incorporada ao pós-modernismo, que também é simultaneamente radical e conservadora. Uma característica marcante das sociedades capitalistas avançadas encontra-se no fato de elas serem tanto libertárias como autoritárias, tanto hedonistas como repressoras, tanto múltiplas como monolíticas. E não é difícil descobrir a razão disso. A lógica do mercado é de prazer e pluralidade, do efêmero e descontínuo, de uma grande rede descentrada de desejo da qual os indivíduos surgem como meros reflexos passageiros. Mas manter em ação toda essa anarquia potencial requer bases sólidas e uma estrutura política sólida. Quanto mais as forças de mercado ameaçam subverter toda a estabilidade, mais teremos de insistir nos valores tradicionais. Não é incomum encontrar políticos britânicos que toleram a comercialização do rádio mas ficam horrorizados com poemas sem rima. Todavia, quanto mais esse sistema apela para valores metafísicos para se legitimar, mais suas atividades racionalizantes, secularizantes ameaçam esvaziá-los. Esses regimes não podem nem abandonar o metafísico nem acomodá-lo de modo adequado, e por isso estão sempre potencialmente desconstruindo a si próprios.

As ambivalências políticas do pós-modernismo combinam perfeitamente com essa contradição. Podemos arriscar, numa primeira aproximação por alto, que muito do pós-modernismo é de oposição em termos políticos mas cúmplice em termos econômicos. Isto, entretanto, exige uma boa afinação. O pós-modernismo é radical na medida em que desafia o sistema que ainda precisa de valores absolutos, fundamentos metafísicos e sujeitos auto-idênticos; contra essas coisas ele mobiliza a multiplicidade, a não-identidade, a transgressão, o antifundamentalismo, o relativismo cultural. O resultado, na melhor das hipóteses, é uma subversão engenhosa do sistema de valores dominantes, pelo menos no nível da teoria. Existem executivos que ouviram tudo sobre desconstrução e reagem a ela de forma bem parecida com a que os fundamentalistas reagem ao ateísmo. Na verdade, eles estão certíssimos de agir assim, visto que a desconstrução, em suas formas mais politizadas, representa de fato um assalto contra muito do que a maioria dos profissionais de negócios mais amam. Mas o pós-modernismo costuma deixar de reconhecer que o que funciona no nível da ideologia nem sempre funciona no nível do mercado. Se o sistema necessita de um sujeito autônomo no tribunal de justiça ou na cabine de votação, na mídia e nos shopping centers esse sujeito de quase nada lhe serve. Nesses setores, pluralidade, desejo, fragmentação e congêneres são tão nativos para nosso modo de vida como o carvão o era para Newcastle antes de Margaret Thatcher pôr as mãos nele. Muitos profissionais de negócios são nesse sentido pós-modernos naturais. O capitalismo é a ordem mais pluralista que a história já conheceu, sempre transgredindo limites e desmantelando oposições, misturando formas distintas de vida e sempre excedendo a medida. Toda essa pluralidade, é preciso dizer, opera dentro de limites muito rigorosos; mas isso ajuda a explicar por que alguns pós-modernistas sonham avidamente com um futuro híbrido, enquanto outros estão convencidos de que esse futuro já chegou.

O pós-modernismo, em suma, rouba um pouco da lógica material do capitalismo avançado e a volta agressivamente contra seus fundamentos espirituais. E nisso apresenta mais que uma semelhança passageira com o estruturalismo, que foi uma de suas origens remotas. É como se ele estivesse instando o sistema, como seu grande mentor Friedrich Nietzsche, a esquecer seus fundamentos metafísicos, reconhecer que Deus está morto e simplesmente tornar-se relativista. Então, pelo menos, ele pode trocar um bocado de segurança por um pouco de atualidade. Por que confessar tão-só que seus valores são tão precariamente infundados como os de todo mundo? Isso não o deixaria vulnerável ao ataque, uma vez que você só demoliu astutamente qualquer ponto de vista de onde poderia partir alguma ofensiva. De todo modo, o tipo de valores que tem raízes no que você faz, que reflete a crua realidade social e não o pomposo ideal moral, tende a ser bem mais convincente que muita conversa nebulosa sobre progresso, razão e a especial afeição de Deus pela pátria.

Mas para os filósofos pragmáticos está muito bom argumentar dessa forma. Aqueles que carregam o fardo de conduzir o sistema têm consciência de que as ideologias estão em ação para legitimar, e não só refletir, o que você faz. Eles não podem simplesmente descartar esses fundamentos lógicos fastuosos, sobretudo porque muita gente ainda acredita neles, na verdade aderem a eles com mais tenacidade ainda quando sentem o chão tremer sob os seus pés. A mercadoria, com a devida vênia a Adorno, não pode ser a própria ideologia, pelo menos por enquanto. Poderíamos imaginar uma fase futura do sistema em que isso seria verdade, em que ele fez um curso em alguma universidade norte-americana, livrou-se dos próprios fundamentos e deixou para trás toda essa história de legitimação retórica. Com efeito, existem aqueles que alegam que é precisamente isso que está em marcha hoje: que a “hegemonia” não tem mais relevância, que o sistema não se importa se acreditamos nele ou não, que ele não sente necessidade de garantir nossa cumplicidade espiritual desde que façamos mais ou menos o que ele exige. Ele não tem mais de passar pela consciência humana para se reproduzir, só manter essa consciência em permanente estado de distração e contar, para sua reprodução, com seus mecanismos automatizados. Mas o pós-modernismo pertence nesse aspecto a uma época de transição, em que o metafísico, como um fantasma inquieto, não pode nem ressuscitar nem morrer com dignidade. Se ele pudesse deixar de existir, o pós-modernismo sem dúvida morreria com ele.

Preciso terminar, infelizmente, com uma observação sinistra. O pensamento pós-moderno de fim-da-história não antevê um futuro para nós muito diferente do presente, perspectiva que ele curiosamente vê como motivo de comemoração. Mas há de fato a possibilidade de um futuro desses entre vários, e ele se chama fascismo. O maior teste do pós-modernismo, ou no caso de qualquer outra doutrina política, é como ele poderia chegar a isso. O conjunto da sua obra acerca do racismo e da etnicidade, da paranóia de pensar a identidade, dos perigos da totalidade e do medo da diferença: tudo isso, junto com seus insights aprofundados sobre as artimanhas do poder, sem dúvida revelar-se-ia de considerável valor. Mas seu relativismo cultural e seu convencionalismo moral, seu ceticismo, pragmatismo e bairrismo, seu desagrado com idéias de solidariedade e organização disciplinada, sua falta de qualquer teoria adequada de ação política: tudo isso ia depor muito contra ele. No confronto com seus adversários políticos, a esquerda, hoje, mais que nunca, precisa de sólidos fundamentos éticos e mesmo antropológicos: é provável que nada menos que isso nos possa suprir dos recursos políticos de que necessitamos. E, nessa área, o pós-modernismo acaba sendo mais parte do problema que da solução.

Terry Eagleton é o pseudônimo de Thomas Warton, 65, teórico marxista inglês e professor da Universidade de Oxford.

“www.socialismo.org.br”

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A falência das metas de inflação

Joseph E. Stiglitz

Os bancos centrais formam um fechado clube, dado a manias e modismos. No início dos anos 80 sucumbiram ao encanto do monetarismo, teoria econômica simplista de Milton Friedman. Depois que o monetarismo caiu em descrédito - com elevado custo para os países que o adotaram - começou a busca de um novo mantra.

A resposta veio na forma do regime de metas de inflação, segundo o qual sempre que os preços sobem acima de determinado nível os juros devem ser elevados. A receita se baseia em rala teoria econômica ou evidência empírica; não há razão para esperar que, qualquer que seja a fonte de inflação, a melhor resposta seja elevar os juros. Espera-se que a maioria dos países tenha o bom senso de não implementar esse regime; minha simpatia vai para os infelizes cidadãos daqueles que já o fizeram. Entre eles Brasil, Israel, República Tcheca, Polônia, Chile, Colômbia, África do Sul, Tailândia, Coréia do Sul, México, Hungria, Peru, Filipinas, Eslováquia, Indonésia, Romênia, Nova Zelândia, Canadá, Reino Unido, Suécia, Austrália, Islândia e Noruega.

O regime de metas (inflation targeting) está sendo testado - e quase certamente falhará. Países em desenvolvimento enfrentam taxas mais altas de inflação, não devido a problemas na política macroeconômica, mas porque os preços da energia e dos alimentos estão em alta, e estes itens pesam muito mais no orçamento doméstico do que nos países ricos. Na China, a inflação se aproxima dos 8% ao ano. No Vietnã, deverá chegar a 18,2% este ano, e na Índia está em 5,8%. Em contraste, a inflação nos EUA se mantém em 3%. Isto quer dizer que esses países em desenvolvimento deveriam subir suas taxas de juro muito mais do que os EUA?

A inflação nesses países é, na maior parte, importada. Elevar os juros não terá muito impacto no preço internacional dos grãos ou do combustível. Dado o tamanho da economia americana, uma desaceleração ali teria provavelmente efeito muito maior nos preços globais do que uma num país em desenvolvimento. O que sugere que os juros nos EUA é que deveriam ser elevados.

Enquanto os países em desenvolvimento permanecerem integrados à economia global - e não tomarem medidas para restringir o impacto interno dos preços internacionais - o custo doméstico do arroz e de outros grãos deverá subir sensivelmente quando os preços internacionais o fizerem. Para muitas nações em desenvolvimento, preços elevados de combustíveis e alimentos representam uma ameaça tripla: não só terão de pagar mais pelos grãos, como para levá-los aos portos e depois aos consumidores que vivem no interior.

Elevar as taxas de juros pode reduzir a demanda agregada, o que por sua vez pode desacelerar a economia e domar aumentos de alguns bens e serviços. Mas, a menos que sejam levadas a um nível intolerável, essas medidas não conseguem derrubar a inflação aos níveis projetados. Por exemplo, mesmo se o custo da energia e dos alimentos aumentar a um ritmo mais moderado do que agora - 20% anuais - e isso se refletir nos preços internos, fazer a inflação baixar a, digamos, 3% iria requerer quedas sensíveis em outros itens. Isto certamente levaria a uma desaceleração econômica e a aumento do desemprego. A cura seria pior que a doença.

O que fazer? Precisamos reconhecer que preços elevados podem causar enorme estresse, principalmente para famílias de baixa renda. Revoltas e protestos em países em desenvolvimento são exemplo disso. Partidários da liberalização comercial cantavam suas vantagens, mas nunca eram totalmente honestos sobre os riscos. Há mais de um quarto de século, mostrei que, sob condições plausíveis, liberalização comercial poderia deixar todos em pior situação. Não defendia o protecionismo, mas avisava que devíamos ter em conta os riscos da desaceleração.

Na agricultura, os EUA e a União Européia isolam produtores e consumidores desses riscos. Mas a maioria dos países em desenvolvimento não tem estrutura ou recursos para fazer o mesmo. Muitos estão impondo medidas de emergência, como taxar ou proibir exportações, o que ajuda seus cidadãos, às custas daqueles em outros lugares.

Se quisermos evitar um retrocesso ainda maior da globalização, o Ocidente precisa responder rápida e fortemente. Devem ser repelidos subsídios a biocombustíveis que estimulam o uso da agricultura para fins energéticos. Alguns dos bilhões gastos para subsidiar ruralistas no Ocidente deveriam ser usados para ajudar os países pobres a satisfazerem suas necessidades básicas de alimento e energia.

Tanto nações pobres quanto desenvolvidas devem deixar de lado o regime de metas de inflação. A desaceleração da economia causada por ele apenas tornará mais penoso o desafio de sobreviver nessas condições.

JOSEPH E. STIGLITZ é Prêmio Nobel de Economia.

“Corecon- RJ”

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Século 19 estava prenhe da evolução biológica

GEOLOGIA ITALIANA DO SÉCULO 18 LANÇOU BASE DO EVOLUCIONISMO

NÉLIO BIZZO

Ao remeter para Darwin seu ensaio sobre as variedades de seres vivos, Alfred Russel Wallace pedia que o mostrasse a Sir Charles Lyell, o famoso geólogo, caso nele visse algum valor. O ensaio teve um impacto avassalador sobre Darwin: trazia sentenças inteiras que poderiam ser encontradas em um antigo ensaio de Darwin de 1844.
“Seleção natural” e “sobrevivência do mais apto” apareciam tão articuladas no texto de Wallace quanto estavam na mente de Darwin.
Ao impacto do ensaio de Wallace somou-se um período de muita agitação emocional e Darwin teve de mudar seus planos inteiramente. O impacto de sua teoria sobre as raças do homem, idéia que Darwin vinha desenvolvendo, teria de esperar até 1871.
Malgrado essas mudanças de rota, uma teoria da evolução estava brotando na mente de pensadores em várias partes do mundo e o rebento teórico brotaria em algum lugar. O século 19 estava prenhe da evolução biológica.
Essa prenhez estava anunciada no livro que Darwin lera a bordo do Beagle, “Princípios da Geologia”.
Lyell escrevera que as teorizações inglesas tinham sido refutadas, e até mesmo ridicularizadas, pelos geólogos italianos do Século das Luzes. Eles tinham estendido as bases de Galileu para o estudo do interior da Terra e refutado a idéia de um dilúvio universal.
Lyell defendia o completo abandono da antiga idéia de que os fósseis não são marcas de seres vivos que de fato existiram no passado. Da mesma forma, dizia Lyell, não era razoável invocar os céus ou qualquer divindade para explicar fenômenos naturais à custa de milagres.
Nada além da “pura abominação” dessas visões era o que Lyell pedia a seus colegas iniciados das academias de intelectuais. Para explicar a ocorrência de fósseis marinhos nas alturas das montanhas não era necessário solicitar a intervenção de nenhuma força onipotente.
Até aquela data, muitos viam nos degraus da arena romana de Verona as marcas de Júpiter, cuja imagem os romanos tinham tomado de Amon dos egípcios. Os “cornu Ammonis” que até hoje ornam o rico mármore das calçadas de Verona, seriam simples lembranças espirituosas dos chifres de carneiro de Amon, e não marcas de amonitas (daí a origem do nome), animais reais extintos.
A geologia italiana acabara com o fundamentalismo anglicano naturalista e suas pretensões de sacralizar a ciência nascente.
A física e a mecânica dos céus tinham deixado de depender daquilo que estava nas Escrituras; a química vivia tempos revolucionários.
O estudo da vida seria o próximo campo fértil no qual germinariam as sementes da evolução orgânica, base de uma verdadeira ciência da vida, capaz de explicar as extinções, as “grandes revoluções” da crosta terrestre e o “mistério dos mistérios” -a origem das espécies.
Darwin e Wallace tinham resolvido a questão em 1858.
Darwin já o fizera em 1844 de maneira plenamente aceitável, mas insisitira em colecionar mais fatos e evidências.
Wallace confessava que, embora quisesse se dedicar ao tema de uma forma teórica, os afazeres cotidianos de coletor de espécimes lhe roubavam o tempo necessário.
Com um acesso de malária, ficou preso a uma cama, onde rememorou o que lera de Malthus e teve o “insight” criativo da seleção natural.
Em 1858, enfim, as duas perspectivas se juntaram e a teoria foi finalmente apresentada ao mundo. Passados 150 anos, sabemos que nada na biologia faz sentido sem ela. Há uma única razão para um anfioxo, uma lampréia, um sapo, uma tartaruga, um galo e um elefante terem um desenvolvimento embrionário com características comuns. Essa razão se resume à teoria da evolução, cujas bases foram assentadas pela geologia dos italianos do século 18, entendida e aplicada pelos britânicos que os sucederam, capazes de perceber a distinção básica entre ciência e religião. Ela estava no ar.

NÉLIO BIZZO é professor da Faculdade de Educação da USP. Pesquisou os manuscritos e a biblioteca pessoal de Charles Darwin

“Folha de S. Paulo Ciência”

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Por que Darwin rejeitou o design inteligente

BRITÂNICO CHEGOU ÀS GALÁPAGOS IMBUÍDO DA MENTALIDADE CRIACIONISTA, QUE LHE IMPEDIU DE ENXERGAR EVIDÊNCIAS DA EVOLUÇÃO

FRANK J. SULLOWAY

U m dos sinais de uma teoria científica verdadeiramente revolucionária é o fato de demorar muito para ser aceita pela maioria das pessoas. Foi apenas recentemente que o Vaticano admitiu ter errado na infame condenação a Galileu, em 1633, por sua defesa da teoria de que a Terra gira em torno do Sol. Do mesmo modo, hoje, 150 anos após primeiro serem publicadas, as teorias de Charles Darwin continuam a suscitar hostilidade em muitos países, devido à rejeição por Darwin da idéia de que a vida manifesta um propósito inteligente.
É irônico o fato de que o próprio Darwin, em certa época, esteve fascinado pela teoria de que todas as espécies surgem em função de um design inteligente -a mesma teoria que, mais tarde, ele procurou eliminar da ciência em seu livro “A Origem das Espécies” (1859).
Popularizada no século 17, essa doutrina buscava unir uma celebração da obra de Deus com o estudo da ciência. Esses argumentos alcançaram seu ápice nos escritos do reverendo William Paley, que expôs suas idéias em “Teologia Natural” (1802). As muitas provas que ele apresentou em favor do design inteligente fascinaram e convenceram o jovem Darwin.
O que desencadeou a dramática mudança de opinião de Darwin em relação à origem das espécies foi a viagem de cinco anos que ele fez em volta ao mundo no navio “HMS Beagle”, e, especialmente, sua visita de cinco semanas às ilhas Galápagos em setembro e outubro de 1835. Reza a lenda que Darwin converteu-se à teoria da evolução durante essa visita breve, vivendo algo como um momento “eureca!”. A história real da conversão de Darwin, que só se deu um ano e meio mais tarde, após seu retorno à Inglaterra, nos diz muito mais sobre como a ciência é feita de fato, especialmente sobre como a teoria guia a observação e prepara a mente e como é necessária persistência obstinada para transformar teorias controversas em fatos aceitos.
Durante a permanência de Darwin nas Galápagos, a teoria criacionista o preparou para aquilo que ele observou e compreendeu nas ilhas. Essa teoria também ditou o que ele deixou de observar e compreender. Num primeiro momento, ele esforçou-se com diligência para conciliar com o paradigma criacionista as criaturas novas e estranhas que encontrou naquele arquipélago isolado. Segundo essa teoria, diferentes “centros de criação” explicavam por que a flora e a fauna da Terra diferiam de uma região a outra -ou de um continente a outro. Darwin ainda não se dera conta de que uma parcela do planeta tão minúscula quanto o arquipélago de Galápagos poderia ser, ela própria, um “centro de criação”.
Certos fatos inesperados relativos a Galápagos solaparam a credibilidade de qualquer explicação criacionista daquilo que Darwin, mais tarde, descreveria como “o mistério dos mistérios -o primeiro surgimento de novos seres nesta terra”. Em particular, várias espécies distintas evoluíram ao longo do tempo em cada uma das ilhas do grupo das Galápagos, de acordo com o povoamento dessas ilhas por colonos ocasionais que ali conseguiram chegar desde a América Central ou do Sul. Darwin foi alertado para essa possibilidade pelo vice-governador das ilhas, Nicholas Lawson, que insistiu que “as tartarugas das diferentes ilhas diferem entre elas, e que ele poderá perceber com certeza de que ilha qualquer uma for trazida”.
Num primeiro momento, Darwin não deu atenção às observações de Lawson, ainda tendo a mente dominada pela teoria criacionista. Ela dizia que as espécies podem modificar-se, e se modificam, reagindo aos ambientes locais. Como um elástico que resiste ao ser esticado, qualquer modificação do tipo específico e supostamente imutável que fosse verificada entre as variedades era vista como desvio temporário.
Devido à sua visão criacionista, durante sua estadia nas Galápagos, Darwin não coletou um espécime sequer de tartaruga-gigante para finalidades científicas. Em vez disso, as 48 tartarugas capturadas pelo Beagle na ilha de San Cristóbal foram mais tarde comidas por Darwin e seus companheiros de navio, sendo suas carapaças atiradas ao mar.
Essa mesma mentalidade criacionista ajuda a explicar porque, num primeiro momento, Darwin deixou de compreender o mais célebre exemplo das Galápagos da evolução em ação: os famosos tentilhões de Darwin. Quatorze espécies de tentilhões se desenvolveram nas Galápagos a partir da forma ancestral encontrada nas Américas Central e do Sul. Nos últimos 2 milhões de anos, esse processo de evolução resultou numa radiação adaptativa tão impressionante em nichos ecológicos diversos que algumas dessas espécies não se parecem com tentilhões típicos. Num primeiro momento, Darwin pensou que algumas delas nem sequer fossem tentilhões.
O caso dos tentilhões-das-galápagos confundiu Darwin a tal ponto que, no momento em que capturou os pássaros, ele não se deu conta de que todas as espécies eram estreitamente aparentadas ou que o número de espécies em um grupo de aves poderia resultar do fato de elas terem evoluído em ilhas diferentes. Por isso, ele não fez qualquer esforço para classificar suas coleções ornitológicas por ilha -um erro que lamentou sinceramente mais tarde.
Darwin tampouco teve a oportunidade de observar esses tentilhões de maneira suficientemente detalhada para aperceber-se de que os tamanhos e formatos de seus bicos guardavam relação estreita com suas dietas -um “insight” importante que a lenda equivocadamente lhe atribui.
Apesar de ter estado armado de uma teoria inadequada durante sua estadia em Galápagos, Darwin era um naturalista bom demais para não observar que os quatro espécimes de “mockingbirds” que coletou, cada uma de uma ilha diferente, ou eram variedades ou espécies distintas. Não sendo ornitólogo, Darwin não sabia ao certo como interpretar essa anomalia. Em julho de 1836, nove meses após sua visita às Galápagos, ele refletiu sobre o caso dos “mockingbirds” e recordou o que lhe tinha sido dito sobre as tartarugas:
“Quando vejo essas ilhas visíveis umas desde as outras e possuindo apenas uma quantidade escassa de animais, habitadas por essas aves mas ligeiramente distintas em sua estrutura e ocupando o mesmo lugar na natureza, devo suspeitar de que são apenas variedades … Se existe fundamento para essas observações, então a zoologia dos arquipélagos valerá a pena ser examinada, pois tais fatos enfraqueceriam a estabilidade das espécies.”
A chave para interpretar esse trecho célebre -que aventa a revolução darwinista mas em seguida afasta-se dela- está na frase “devo suspeitar de que são apenas variedades”, premissa que Darwin compreendia ser plenamente coerente com a teoria criacionista.
O que o impedia de dar o passo crucial da ortodoxia científica para a heterodoxia era a ausência de informações sobre a classificação ornitológica correta, algo que só lhe estaria disponível após seu retorno à Inglaterra.
Darwin retornou à Inglaterra em 2 de outubro de 1836. Três meses depois, deixou suas coleções de aves com John Gould, ornitólogo da Sociedade Zoológica de Londres. Gould imediatamente se deu conta da natureza extraordinária dos espécimes colhidos por Darwin nas Galápagos. Em março de 1837, Gould informou Darwin de que três de seus quatro espécimes de “mockingbird” eram espécies distintas, até então desconhecidas da ciência. Gould também informou a Darwin que sua coleção incluía 13 ou possivelmente 14 espécies de tentilhões muito incomuns. De repente, após as análises taxonômicas de Gould, as Galápagos se haviam convertido num “centro de criação” distinto.
As conclusões de Gould parecem ter deixado Darwin estarrecido. Ele rapidamente se deu conta de que, se Gould estivesse certo, a barreira entre as espécies distintas tinha sido de alguma maneira rompida por esses pássaros, isolados nas diferentes ilhas. A evolução gradual graças ao isolamento geográfico era a única explicação plausível, a não ser que se pensasse que Deus, como um jardineiro obsessivo-compulsivo, tivesse ido de uma ilha a outra no arquipélago, caprichosamente criando espécies separadas mas estreitamente aliadas, com a intenção de ocupar os mesmos nichos ecológicos.
Reforçado por uma perspectiva evolutiva da natureza, Darwin foi capaz de enxergar os tentilhões sob uma ótica radicalmente nova. Apenas agora ele passou a compreender a extensão de seu descuido anterior, quando deixou de rotular por ilha a maior parte das aves que trouxera das Galápagos.
Felizmente, Darwin sabia que três outros colecionadores que tinham viajado no Beagle (o capitão FitzRoy entre eles) também tinham coletado espécimes. E todos esses espécimes tinham sido rotulados segundo a ilha de sua procedência. É sintomático que tenham sido os não-cientistas do Beagle, que não eram movidos por uma teoria, como Darwin, que registraram as evidências científicas que Darwin, partindo de uma abordagem criacionista, havia visto como sendo supérfluas.
Darwin passou a entender que o isolamento geográfico era uma parte crucial da resposta quanto a como as espécies se transformam no decorrer o tempo. Mas o isolamento, por si só, não bastava para explicar as adaptações das espécies a seus ambientes locais.

Malthus explica
Depois de estudar e rejeitar uma série de hipóteses, Darwin, em setembro de 1838, leu por acaso a edição de 1826 de “Ensaio sobre o Princípio da População”, de Thomas Malthus. Este argumentava que as populações têm a tendência inata a crescer geometricamente. Na natureza, porém, a oferta de alimentos é limitada, de modo que a maioria da prole não sobrevive, sendo morta por predadores, fome e doenças.
Ao ler o livro de Malthus, Darwin se deu conta imediatamente de que, na eterna luta pela sobrevivência, variações ligeiras benéficas tenderiam a ser naturalmente selecionadas, levando à sobrevivência maior e, com isso, a um aumento nas características adaptativas, do mesmo modo em que o criador de animais domesticados obtém características desejadas selecionando as qualidades valorizadas nos animais. “Aqui, então, finalmente encontrei uma teoria com a qual trabalhar”, observou Darwin em sua “Autobiografia”. Ali, também, estava uma resposta digna de crédito a William Paley. Darwin percebeu que a seleção natural não era outra coisa senão o “projetista” de Paley.
Olhando através da lente poderosa da evolução pela seleção natural, Darwin então começou a reexaminar as premissas básicas do criacionismo e a comparar as previsões que se fariam com base nessas duas teorias radicalmente distintas.
Quanto mais extenso se tornava seu reestudo, mais ele foi compreendendo que o design inteligente era contradito de maneira avassaladora pelas evidências disponíveis. A reavaliação feita por Darwin atingiu seu ápice 22 anos mais tarde com “Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural”, livro que o próprio Darwin descreveu, corretamente, perto de seu final, como “um só longo argumento”. Era igualmente um argumento contra o criacionismo e, especialmente, contra o design inteligente.
As evidências relativas à distribuição geográfica, especialmente das ilhas oceânicas e suas relações biológicas com os continentes mais próximos, desempenham papel substancial no argumento de Darwin.
As ilhas Galápagos, por exemplo, abrigam várias espécies de animais e plantas estreitamente aparentadas com as do vizinho continente americano; no entanto, as características ambientais dessas ilhas não se assemelham em nada às das partes mais próximas do continente, que são tropicais.
Contrastando com isso, o árido ambiente vulcânico das Galápagos se assemelha estreitamente ao das ilhas de Cabo Verde, a 650 km da África. No entanto, a flora e a fauna de Cabo Verde guardam mais semelhança com espécies que vivem no continente africano, não com as das Galápagos. Por que um possível projetista inteligente, indagou Darwin, colocaria dois carimbos criativos completamente diferentes -um africano e outro americano- sobre espécies que vivem em ambientes quase idênticos e ocupam nichos ecológicos semelhantes? Não fazia sentido.
Como Darwin trabalhou durante 20 anos sobre rascunhos da obra que acabaria virando “A Origem das Espécies”, ele conseguiu explicar o mundo natural de uma maneira como ninguém nunca fizera antes. Em última análise, o que sua transformação de criacionista em evolucionista revela sobre ela -e sobre a ciência, de modo mais geral- é que a melhor ciência é feita a serviço de uma teoria realmente boa.

FRANK J. SULLOWAY é historiador da ciência, estudioso de Darwin e professor visitante do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em 1968, refez a viagem do Beagle para produzir um documentário. Este texto foi primeiro publicado, em formato diferente, pela Vintage Books em “Intelligent Thought”, editado por John Brockman

“Folha de S. Paulo Ciência”

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Teoria está mais jovem do que nunca

PRECEITOS CENTRAIS DO DARWINISMO TORNARAM-SE O EIXO DE TODA A PESQUISA BIOMÉDICA MODERNA

MARCELO NÓBREGA

Diz-se que, ao ouvir sobre a teoria de Darwin, uma senhora da sociedade vitoriana resumiu assim seu desconforto: “Vamos torcer para que o Sr. Darwin esteja errado. Mas, se estiver certo, vamos torcer para que essas idéias não se espalhem muito”.
Darwin, mais do que ninguém, entendia as implicações desalentadoras de sua teoria para a noção de que os humanos ocupam uma posição especial na natureza. “É como confessar um crime” dizia.
Foram necessários 70 anos para provar que Darwin estivera certo desde o início.Vários remendos foram necessários à teoria evolutiva original. O mais importante deles foi o reconhecimento de outras forças evolutivas além da seleção natural. No que é conhecido como “deriva genética”, é amplamente aceito que várias características genéticas podem se disseminar em uma população puramente ao acaso, sem que a seleção natural precise ficar “escrutinando dia e noite cada variação”, como escreveu Darwin na “Origem das Espécies”.
Curiosamente, há um recente clamor, especialmente nas ciências sociais, de que uma mudança radical nas nossas idéias sobre hereditariedade e evolução se faz mister, frente a supostas descobertas bombásticas na biologia molecular que traem os preceitos “genocêntricos” do darwinismo.
Entre estas, a descrição de que certos traços podem ser herdados de uma geração para outra sem correspondente variação no DNA -fenômeno chamado de “epigenética”-, ou que modificações ou surgimento de certos traços às vezes precedem variação genética nessas populações, violando o preceito de que evolução se dá exclusivamente em variações genéticas preexistentes, randômicas. Acredita-se, por exemplo, que variações genéticas que tornaram humanos adultos tolerantes à lactose podem ter aparecido somente depois de estes terem instituído o consumo de leite, há cerca de 10 mil anos.
Se esses são os melhores argumentos justificando tal revolução conceitual, a cruzada é quixotesca, e o exército, maltrapilho. Esses novos mecanismos e conceitos vêm simplesmente agregar-se a um sem número de outras descobertas, que se tornaram possíveis nas últimas quatro décadas com o advento da biologia molecular.
O verdadeiro testemunho da herança de Charles Darwin pode ser aferido ao andar-se pelos corredores de qualquer departamento de biologia moderno.
Rapidamente se verá que o anseio da senhora inglesa de abafar as idéias sobre evolução não se concretizou. Os preceitos centrais de teoria evolutiva tornaram-se o eixo de virtualmente toda a pesquisa biomédica.
Graças às teorias de genética e evolução de populações, uma nova forma de medicina, chamada farmacogenética ou “medicina individualizada”, tem rapidamente se desenvolvido nos últimos anos. Hoje já é possível analisar diferenças genéticas entre pessoas e usar essa informação para escolher que remédios serão mais eficazes e terão menos efeitos colaterais para cada paciente em uma série de doenças.
Evolução e seleção natural são o motivo pelo qual ainda não existe uma cura para a Aids e pelo qual estamos perdendo a guerra contra bactérias resistentes a antibióticos. Mas são também os conceitos que têm nos permitido procurar novas formas de combater essas doenças -por exemplo, tentando entender o que na genética faz com que algumas pessoas que são verdadeiras cartilhas ambulantes de fatores de risco nunca adoecem. Desvendados esses mecanismos, novas estratégias terapêuticas poderão ser desenvolvidas.
A procura das causas genéticas de doenças é hoje pesquisada usando os genomas de múltiplas espécies e procurando trechos de DNA que foram mantidos intactos durante longos períodos evolutivos.
O entendimento de como as proteínas -os produtos dos genes- interagem em redes complexas para desenvolver uma função biológica é também amplamente sustentado pela teoria evolutiva. São novos rearranjos e interações entre proteínas que promovem o aparecimento de “novidades” evolutivas em espécies. Assim, uma esponja-do-mar já tem a maioria dos genes que são responsáveis pela organização do plano corporal humano. Os genes que são usados para formar dentes em peixes foram recrutados para funções diferentes quando nossos ancestrais saíram da água. Esses mesmos genes hoje coordenam a formação de estruturas aparentemente distintas como pele, glândulas mamárias e penas em aves.
Tentar descrever qualquer fenômeno biológico fora da esfera conceitual de evolução de Darwin equivale a conceber personagens sem um enredo que os contextualize e una.

MARCELO NÓBREGA é professor-assistente do Departamento de Genética Humana da Universidade de Chicago, EUA

“Folha de S. Paulo Ciência”

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Um começo tão simples

TEORIA DA EVOLUÇÃO, UMA DAS IDÉIAS MAIS IMPORTANTES DO PENSAMENTO OCIDENTAL, NASCEU HÁ 150 ANOS, MAS SEU REAL IMPACTO PASSOU DESPERCEBIDO NA OCASIÃO

CLAUDIO ANGELO

Quase ninguém notou na hora, mas o mundo mudou no dia 1º de julho de 1858. Há 150 anos, um grupo de naturalistas reunidos na Sociedade Lineana de Londres ouviu a leitura conjunta de três textos. Seus autores eram o galês Alfred Russel Wallace e o inglês Charles Robert Darwin. Os documentos delineavam uma “teoria muito engenhosa” para explicar “o aparecimento e a perpetuação de variedades e formas específicas no nosso planeta”. Nascia a teoria da evolução pela seleção natural. Depois dela, o pensamento ocidental e a biologia nunca mais foram os mesmos.
Os membros do clubinho dos naturalistas não se deram conta do tamanho da revolução que testemunhavam. Estavam assoberbados com cinco outros trabalhos lidos na mesma ocasião, entre eles uma carta “sobre a vegetação em Angola” e a descrição de um novo gênero da família das abobrinhas. Questionado sobre o que havia sido publicado naquele ano, Thomas Bell, presidente da Sociedade Lineana, respondeu: “Nada de revolucionário”.
Bell se arrependeria de seu julgamento no ano seguinte, quando Darwin detalhou a teoria evolutiva no livro “A Origem das Espécies”. Na Inglaterra vitoriana, dominada pelo pensamento cristão, a obra caiu como uma bomba. Nela Darwin sugeria que todos os organismos da Terra, da mais humilde ameba até os seres humanos, descendiam de um único antepassado. Homem e macaco, na imagem mais ilustre, partilhavam um ancestral comum (mais tarde, o bispo de Oxford perguntaria a Thomas Huxley, amigo de Darwin, se ele descendia de um macaco por parte de avô ou de avó).
Mais importante, no entanto, foi a maneira como Darwin e Wallace solucionaram o “problema das espécies”. A teoria postulava que a variedade entre os indivíduos numa população surge ao acaso. Indivíduos possuidores de características que os favoreçam na “luta pela sobrevivência” na natureza tenderão a deixar mais descendentes, modificando uma população. O acúmulo dessas modificações ao longo das eras acaba produzindo novas espécies. Não há, portanto, a necessidade de invocar a atuação divina na criação de todas as espécies. A teoria eliminou o sobrenatural da biologia, criando um cisma que se aprofundaria nas décadas posteriores.
No ano que vem, o mundo comemora o “Ano de Darwin”, com os 150 anos da “Origem” e o bicentenário do nascimento do naturalista (1809-1888). Mas a revolução darwinista teve seu início de forma acanhada, no “não-evento” científico de julho de 1858 -no qual o próprio Darwin foi um mero coadjuvante. Nas próximas páginas, você verá como uma idéia tão poderosa surgiu de um começo tão simples.

“Folha de S. Paulo Ciência”

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Lugo: “o Paraguai deveria voltar a ocupar seu lugar na história”

20 DE ABRIL Em entrevista, o ex-bispo Fernando Lugo – candidato favorito às eleições – faz uma análise do quadro político e dos desafios sociais para não “decepcionar” a esperança

Claudia Korol

O PARAGUAI atravessa atualmente uma encruzilhada cujo resultado marcará as perspectivas populares não somente nesse país, mas em toda a América Latina. Pela primeira vez em 60 anos, está seriamente ameaçada a hegemonia do Partido Colorado por uma força eleitoral popular, encabeçada pelo ex-bispo Fernando Lugo.
Depois de terminada a ditadura de Stroessner (1954 – 1989), todas as estruturas de controle das instituições políticas, jurídicas, militares e legislativas ficaram nas mãos de seus continuadores. O modelo de acumulação que por muitos anos sustentou a ditadura, baseado no esquema agroexportador, nas grandes contratações do Estado e, sobretudo, o dinheiro que entrou no país pelas grandes construções das usinas hidrelétricas de Itaipu (com Brasil) e Yacyretá (com Argentina) terminou na década de 1980.
A profunda crise foi sorteada com violência política exercida contra o povo e com os ajustes de contas entre as principais facções do poder: os pecuaristas – organizados na Associação Rural do Paraguai–, a União Industrial Paraguaia (UIP) e a Cadelpa (os agroexportadores), todos entrelaçados a narcotraficantes e a grupos que têm feito da política o caminho dos negócios.
É por isso que a possibilidade de que se concretize, no dia 20, o que aparece em todas as pesquisas, está ameaçada. Não somente porque o Partido Colorado é especialista em “megafraudes”, mas também por causa da guerra suja que tem sido desenvolvida contra as forças opositoras.
A força eleitoral que leva Lugo como candidato está composta por uma franja política muito ampla, que vai desde uma parte significativa dos movimentos populares até o tradicional (e conservador) Partido Liberal Radical. Isso gera algumas desconfianças entre os setores que, apesar de o apoiarem, sabem que caso ele vença haverá uma grande disputa interior entre as forças que hoje o apóiam. Esta entrevista foi concedida em um seminário nacional convocado pela juventude de Tekojoja, a força criada recentemente em torno da fi gura de Lugo.

Como o senhor pensa em desafiar o aparato corrupto que hoje controla majoritariamente as estruturas políticas do Paraguai?

Nós temos consciência de que não será fácil, porém, não será impossível. O maior obstáculo será, por um lado, o confronto com um sistema eleitoral de fraude que tem 60 anos. Por outro, há uma estrutura estatal identifi cada com o Partido Colorado. Por isso dizemos que a cidadania será o sujeito dessa mudança real que estamos gerando. O que nós queremos é que o povo tenha o poder, seja protagonista e elabore o programa. Sempre dizemos que o adversário não será Blanca Ovelar (candidata do Partido Colorado) ou Lino Oviedo (candidato de um setor militar). Nosso inimigo será a corrupção. Teremos que vencer a pobreza e a ignorância. No 20 de abril, dia das eleições, o grande desafio será romper 60 anos de fraude eleitoral.

Como se caracterizam as forças que integram a Aliança?
A Aliança Patriótica para a Mudança (APC) aglutina nove partidos políticos e 20 movimentos sociais de camponeses, sindicais, de bairros e de mulheres. O Paraguai é nossa garantia de unidade. Todos nós nos unimos debaixo das cores de nossa bandeira. O vermelho, que simboliza a justiça, o branco, que simboliza a paz e o azul, da liberdade. A Aliança resume o que é o Paraguai, incluindo uma franja colorada que também a integra. Nós unimos diferentes ideologias, tendências, líderes de diferentes extrações, colocando o país em primeiro lugar.
Prometemos que não haverá perseguições. Não haverá exclusão ideológica, religiosa ou étnica. Queremos que se cumpra a Constituição: somos todos iguais perante a lei. Se tiverem que haver privilegiados, serão os esquecidos. A APC se fez para favorecer os mais pobres do país. Eles nos exigem a mudança real do Paraguai. Dessa vez, não se trata de mudar de presidente, mas de fazer um país diferente. Nosso sonho é que o Paraguai abra seus braços, levante vôo e possa acolher, se não a todos – para ser realista –, a grande maioria dos paraguaios.

Que lugar têm os movimentos populares no projeto da APC?
Os movimentos populares estão na dianteira. Aqui também está o maior partido de oposição, o Partido Liberal, as forças sociais, camponesas, sindicais, que fazem um grande contrapeso. O movimento Tekojoja nasce quando os movimentos sociais se dão conta de que suas revindicações, desde o ponto de vista social, não são atendidas, não avançam. Quando os sem-terra vêem que sua luta social está sendo criminalizada a partir do momento em que processam mais de 4 mil camponeses, esses grupos começam a pensar em formar um movimento político. Em Tekojoja, a grande maioria é composta por líderes sociais jovens, estudantes, artistas e políticos que não surgem dos partidos tradicionais. Estamos convencidos que os movimentos populares hoje têm um grande protagonismo político. Um grande passo é pensar politicamente os problemas sociais e, também, responder politicamente. Esse protagonismo é o que marca a diferença e a identidade da Aliança.

Que mudanças esse governo espera realizar? Nossa visão é de mudar a história. É romper com mais de 60 anos de um partido hegemônico que nem sequer representa seus princípios. Há muitos colorados que estão também na Aliança Patriótica para a Mudança, porque a política atual não os representa. O que vai mudar? Vai terminar o roubo ao erário público. Nós não vamos roubar, como escandalosamente se faz em nosso país. A maneira mais rápida de fazer fortuna no Paraguai é fazer política. Que outras coisas vão mudar? Estarão na administração pública os melhores homens.
Na Aliança Patriótica para a mudança, há seis eixos que ocupam o mesmo nível de importância: a reforma agrária, a reativação econômica, a recuperação da institucionalidade da República, a justiça independente, o plano de emergência nacional e a recuperação da soberania, especialmente da soberania energética. Os seis eixos programáticos recolhidos em todo o país têm o mesmo peso, a mesma importância. A reforma agrária nunca foi feita. Há um programa elaborado pelos próprios camponeses. Não se trata somente de distribuir algumas terras. Reforma agrária é possibilitar cidadania, que as 300 mil famílias sem-terra possam ter uma vida digna, com terra, crédito, assistência técnica, cultivo adequado, mercado justo e com todos os serviços.

De onde sairá o dinheiro?
Das reservas do Estado. O Estado paraguaio tem uma reserva de 2,5 bilhões de dólares neste momento. O programa de reforma agrária apresentado pelo movimento camponês requer 150 milhões de dólares. Outro tema importante é que vamos apoiar as pequenas empresas formadas de maneira cooperativa. Temos energia sufi ciente para fazer um país industrial.
No nosso plano de governo, propomos uma justiça soberana, independente e autônoma. Hoje não a temos. A Justiça soberana e independente não é resultado de um pacto político dos partidos para eleger os juízes membros das cortes, mas sim que estes sejam os mais idôneos, os mais capazes. Eu acredito que os organismos internacionais estão dispostos a nos ajudar para que possamos avançar nisso.

Um tema fundamental é a recuperação da soberania energética; isso põe a necessidade de reconsiderar os tratados das usinas de Yacyretá (com a Argentina) e de Itaipu (com o Brasil). O que vocês estão propondo a respeito?
Os tratados de Itaipu e Yacyretá são leoninos, injustos, que quase não beneficiam o Paraguai. Vamos exigir uma renegociação para dispor livremente de nossos excedentes hidrelétricos e receber um preço justo por eles. Exigiremos acesso técnico, sem custo adicional, da totalidade da energia que nos é correspondente de Itaipu e de Yacyretá – segundo estabelecem os respectivos tratados – e a eliminação de todas as dívidas espúrias. Vamos discutir que o preço da energia seja o do mercado, e não o de custo, como se faz até agora.
A Aliança Patriótica para a Mudança demandará, além disso, a redução das taxas de interesse usurárias, a co-gestão efetiva na administração dos entes binacionais e a transparência na gestão, com livre acesso público à informação e o controle por parte dos entes de fiscalização pública dos países involucrados. Incentivaremos a construção de redes de transmissão de grande tamanho, para assegurar o abastecimento interno do país, estimular o uso produtivo de nossa hidroeletricidade e possibilitar que seja o centro de interconexão elétrica do Mercosul, exportando-a a preços de mercado. De todas as formas, eu penso que esse tema não pode ser visto apenas do ponto de vista econômico, mas é necessário também incluir no debate a questão ambiental. Como garantir que o desenvolvimento econômico não se faça em detrimento do meio ambiente? No Paraguai, somente a partir de 1996, as leis contemplam delitos sobre o meio ambiente. O desafio é como garantir o respeito ao ambiente.

A relação do Paraguai com o Brasil, a Argentina e o Uruguai está marcada por uma dívida histórica que significou a Guerra da Tríplice Aliança [Guerra do Paraguai, para os brasileiros]. O que significa essa carga histórica em relação à integração de nossos povos?
Acredito que há uma releitura e uma reinterpretação da história. Há um reconhecimento da dívida histórica com o Paraguai. Acreditamos na Justiça, o Paraguai deveria voltar a ocupar o lugar que ocupava: o país mais desenvolvido, o mais unido, que tinha um projeto econômico diferenciado. Acreditamos que o Paraguai tem um potencial humano, econômico e riquezas naturais para voltar a ocupar o lugar que possuía. O reconhecimento que os países vizinhos podem dar a essa dívida histórica é simplesmente o que, por uma questão de justiça, corresponde ao país. Faremos um governo aberto ao continente e ao mundo. Aberto às novas tendências, mas com nossa identidade bem marcada. Abertos ao Mercosul, a uma integração com mais eqüidade social, com mais simetria. Os homens e mulheres paraguaios nos ensinaram muito nestes últimos meses. Nos ensinaram que temos uma identidade própria fortalecida, e, sobretudo, que o Paraguai não se ajoelhará diante de ninguém. Recuperaremos nossa dignidade como nação. Nossas pequenas grandes diferenças, conversaremos como vizinhos, com amizade, solidariedade. Nos uniremos com alegria aos governos progressistas da América Latina. Temos muito que aprender com nossos irmãos. É muito o que temos para aprender com a Bolívia. É um país que criativamente está fazendo um novo caminho.

O que signifi caria um triunfo de Fernando Lugo para o cenário político latino-americano?
O Paraguai vai mudar de imagem. Em primeiro lugar, não será o país mais corrupto da América Latina. Será o país mais honesto. Com uma administração transparente, um governo de credibilidade e legitimidade, pluralista, popular, com participação cidadã. Isto permitirá ao país cobrar o lugar que lhe pertence. Um lugar que o coloque em igualdade de condições para conversar com todos; e ser protagonista no processo de integração latino- americano. Temos um elemento de desenvolvimento para a integração que não se deve descartar: a energia. O Paraguai é o único país que tem reservas de energia e que tem superavit de energia na região. Acredito que isso nos dá potencial para negociar com os países vizinhos e, ao mesmo tempo, ser escutado no concerto das nações como um país que pode aglutinar, unir e ter um espaço preponderante no desenvolvimento e na integração do continente.

Uma jovem militante de Tekojoja expressou que ainda existe medo entre os jovens para participar. Como se dá essa batalha entre o medo e a esperança nos setores populares?
Há medos distintos. Como na Aliança há setores tão diversos – o que torna ainda mais rica a experiência – há medo que interesses prevaleçam. O governo será muito equilibrado em um primeiro momento, levando em conta as prioridades de todos os setores. Nos camponeses, o medo que existe é que suas reivindicações não sejam cumpridas e que haja um aparato repressor forte, como o que ocorreu em San Pedro, em 2005, e criminalizou a luta agrária com 4 mil camponeses processados e casas queimadas. É certo que há um grande medo. Mas também há uma grande esperança posta em marcha. Não vamos decepcionar essa esperança. Será um processo difícil e longo, mas prometemos à cidadania não renunciar aos direitos de todos os paraguaios. Acredito que a governabilidade tem que ser assegurada através de um grande pacto social que envolva os mais diversos setores.
(Jornal Punto Final)

Quem é
Nascido em 1951, em uma comunidade rural, Fernando Lugo viveu desde pequeno a repressão da ditadura. Seu pai foi preso mais de 20 vezes. Três de seus irmãos foram torturados e expulsos do país. Aos 19 anos, entrou no seminário e se identificou com a perspectiva da Teologia da Libertação. Em 1983, foi expulso do Paraguai por seus sermões “subversivos”. Depois de um tempo em Roma, voltou em 1987, e em 1994 foi ordenado bispo. Durante dez anos foi bispo em San Pedro, uma das regiões mais pobres do Paraguai e mais castigadas pela repressão. Ao final de 2006, renunciou ao sacerdócio e aceitou a candidatura para presidente, depois de receber mais de 100 mil assinaturas que lhe pediam para que contribuísse com seu prestígio e se empenhasse em conseguir a unidade das forças paraguaias opositoras ao Partido Colorado.

“Brasil De Fato”

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O IMPÉRIO DO CONSUMO

Eduardo Galeano

A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.

Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.

Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho
tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada à serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Tradução: Verso Tradutores

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Ivana Bentes: o contraditório discurso da TV sobre a periferia

Pesquisadora analisa a contradição do discursos das emissoras de TV sobre a periferia: ou pobre é violento ou é o pacífico criativo

02/02/2007

Dafne Melo
,
da Redação

A periferia está na moda? A julgar pela produção audiovisual, mais do que nunca. Somente a maior emissora do país, a TV Globo, dedicou quatro produções ao cotidiano dos moradores dos grotões das metrópoles nos últimos dois anos: a programa Cidade dos Homens, a série de Regina Cazé para o Fantástico, Central da Periferia e, para o mesmo programa, a exibição do documentário Falcão, Os Meninos do Tráfico. Mais recentemente, houve a exibição do filme Antônia, em forma de minissérie.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Ivana Bentes, professora de Comunicação da UFRJ, analisa o discurso “esquizofrênico” das emissoras de TV: se nos programas jornalísticos o jovem negro continua marginalizado, como o criminoso representado por uma sombra na parede e uma voz metálica, esse mesmo jovem é visto como “o favelado legal” na dramartugia.

O cinema também não fica de fora do que Ivana chama de “cosmética da fome”, ou seja, a glamourização da pobreza e da violência das periferias. Sobre esse tema, a professora dedica um dos ensaios de seu novo projeto, uma pesquisa sobre as periferias – ainda não finalizada – em que busca a análise das imagens produzidas nas últimas décadas sobre o tema, analisando as mudanças tecnológicas e do imaginário da sociedade, nesse processo.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora de Comunicação, cinema e
novas mídias e diretora da Escola de Comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Participa da Rede
Universidade Nômade: www.universidadenomade.org.br.

Brasil de Fato - Ultimamente, a televisão tem mostrado interesse em retratar a periferia não só no jornalismo, mas de forma crescente na dramartugia. Por quê?
Ivana Bentes - As favelas e periferias brasileiras e a pele negra, modeladas por séculos de exclusão e criminalização, vêm se tornando uma “mercadoria quente” na cultura urbana jovem, com a disseminação das expressões urbanas e estilos de vida vindos da pobreza que são um fenômeno global com visibilidade na cena cultural mundial. Como aconteceu com a cultura negra dos guetos nos Estados Unidos, a cultura da pobreza e das favelas no Brasil ganha hoje visibilidade como uma fonte de significado e identidade. A publicidade precisa de “estilos de vida” para se espelhar e vender. Paradoxalmente, comportamentos criminalizados pelo Estado – bailes populares nas favelas, pixação, venda de produtos piratas e apropriação de espaços públicos – se tornam “estilo” de vida passíveis de comercialização. Ao se constituírem como consumidores e produtores, pobres e negros passaram a ser considerados cidadãos, o que tem seu lado evidentemente positivo. Se como “mercadoria nova” ou como consumidores, esses novos sujeitos do discurso, saídos das favelas aparecem na mídia de forma isolada, não se pode neutralizar a sua real força. Trata-se de um processo cultural saído das periferias que apreende de forma privilegiada a dinâmica da sociedade brasileira, profundamente desigual e, ao mesmo tempo, aberta para as “misturas” multiculturais.

BF - Como o morador da periferia está sendo retratado nesses programas?
Ivana - De formas distintas. Existe um discurso celebratório da “periferia legal”, como se aquelas produções culturais fossem geração espontânea do nosso povo criativo. Admiro as propostas sempre à frente e ousadas de um Hermamo Vianna na Globo, que faz antropologia urbana no Central da Periferia, ou a Tata Amaral, que vem do cinema dar sua contribuição a uma visão menos estereotipada da vida na periferia paulista, em Antonia. O perigo é a gente transformar pobreza em folclore ou em gênero cultural, naturalizar isso, achar que “puxa, é legal ser pobre”. Aceitar essa domesticação do racismo, do preconceito, da desigualdade e criar o pobre criativo e feliz, mas fora da universidade, sem disputar emprego com os garotos de classe média. Enfim, o pobre “limpinho” do discurso higienista, pronto para consumo, sem um sobressalto ético, sem perceber a violência física e simbólica a qual esses jovens são submetidos.

Racismo não é um problema individual, de caráter,
um “acidente”, é um dos fundamentos da
desigualdade do Estado, da
sociedade brasileira. Pobreza não é
um acidente, não é uma exceção,
não é um problema
individual, é um problema da sociedade

BF - E no jornalismo?
Ivana - Aí caímos nos discursos mais retrógrado de criminalização dos moradores das favelas e periferias, da relação entre essa cultura e a criminalidade, na idéia que a violência nasce na favela e que os pobres são a causa da violência urbana e da insegurança. Enfim, nos estereótipos, no racismo, em discursos extremamente conservadores.

BF -O que está por trás deste discurso ambivalente?
Ivana - A bipolaridade esquizofrênica é, por exemplo, apresentar na produção ficcional, um mundo folhetinesco, em que os negros e pobres são bons e honestos, em que se faz uma idealização, quase uma santificação da pobreza feliz. Aí, a mesma “emissora da ética e dos bons costumes premiados” faz editorial contra as cotas no Jornal Nacional, ou seja, contribui para barrar os jovens negros na sua entrada urgente e imediata na Universidade. Então, será que o pobre bom é esse folclórico, não-problemático, destituído de discurso político, que não reivindica nada socialmente? Racismo na novela é visto como uma exceção, quando sabemos que no Brasil é a regra. Quem morre violentamente no Brasil são os jovens negros pobres. Racismo não é um problema individual, de caráter, um “acidente”, é um dos fundamentos da desigualdade do Estado, da sociedade brasileira. Pobreza não é um acidente, não é uma exceção, não é um problema individual, é um problema da sociedade. Então, como é que o mesmo jovem negro criminalizado no telejornal - o desordeiro, drogado, traficante, arruaceiro, trabalhador ilegal, invasor - vira o pobre legal da novela? Porque alguns são “bons” e outros “maus”? Ou porque alguns têm “força de vontade” e outros não? Definitivamente não é por ai. Essa ambigüidade reflete e, ao mesmo tempo, produz a violência dos discursos no Brasil, quando a questão são os fenômenos ligados à pobreza.

BF - Como falar da realidade social brasileira, retratar a periferia, sem fazer “canibalismo dos fracos”? Quais experiências você cita como positivas?
Ivana - Canibalismo dos fracos é a gente se comer entre nós. Canibalismo potente é o que se apropria das forças, dos instrumentos, do corpo e das tecnologias “inimigas” para fazer algo diferente. Acho que temos que entender os fenômenos da pobreza, do racismo e da potência cultural que vêm dos territórios da pobreza, dentro de um contexto global. São fenômenos do capitalismo contemporâneo. Então, para entender a periferia paulista em um filme como O Invasor (Beto Brant), nos é mostrado a relação que ela tem com a cultura empresarial, com a falta de limites de certo capitalismo brutal, com os métodos gerenciais dos executivos. Ou ainda, o [documentarista] Eduardo Coutinho vai à favela e encontra discursos sofisticados e complexos, visões de mundo que não tem nada a ver com os clichês que construímos. Ou então, vemos alguns clipes como os do MV Bill, dos Racionais MCs, falando de violência policial, tráfico de drogas, da vida cotidiana nos presídios, mas de forma renovada. Ou um documentário como Prisioneiros da Grade de Ferro (Paulo Sacramento), que dá uma câmera para os internos do presídio se expressarem, sem demonizá-los. Isso para ficar na produção audiovisual. Outro filme excelente é Sou Feia Mas Estou na Moda, (Denise Garcia), um documentário sobre o funk feminino no Rio de Janeiro e sua renovação das questões de sexualidade, direito reprodutivo, etc. São muitos os exemplos.

A questão da cosmética da fome ,
colocada pelo Glauber
no Cinema Novo,
não foi superada
nem resolvida
no contexto internacional

BF -No cinema, um dos últimos filmes de maior sucesso de público e crítica, no Brasil, “Cidade de Deus”, retrata esse ambiente da favela. Você disse que ele criava uma “cosmética da fome”. Por quê?
Ivana - A expressão “estética da fome” foi proposta por Glauber Rocha, em 1965, justamente para dizer que precisávamos de imagens não estereotipadas da pobreza. Fiz uma paródia, dizendo que Cidade de Deus apontava muito mais para uma “cosmética da fome”, ou seja uma forma esvaziada/estilizada de consumir as imagens da violência e da pobreza. Quase fui linchada publicamente em um debate em São Paulo. Isso piorou quando o filme concorreu ao Oscar. Mas a questão dessa cosmética - a glamourização estética da pobreza - está muito mais presente em outros filmes. Em Abril Despedaçado (Walter Salles), por exemplo. Cidade de Deus é um filme com méritos e também com questões ambivalentes. A que apontei era essa demonização do negro favelado, tornado um “assassino por natureza” e a transformação da guerra do tráfico em “gênero”, como nos filmes norte-americanos de gangues e máfia. Apontei questões éticas e estéticas, mas é um filme que como espetáculo e linguagem cinematográfica é eficiente e criativo. Filmes existem para ser analisados, não julgados. Trato da cosmética da fome nesse ensaio sobre as periferias, pois considero que essa questão, colocada pelo Glauber no Cinema Novo, não foi superada nem resolvida no contexto internacional, é uma questão global super pertinente.

BF - Você acha que iniciativas de se retratar a realidade da periferia “de fora” estão fadadas a traçar um perfil equivocado dessa população?
Ivana - Não. Se fosse assim escritores não escreveriam sobre situações que não viveram, cineastas só falariam de seus grupos sociais, etc. A questão não é essa, a questão é o quão complexa é a visão de mundo possível nesses filmes e programas. Adoro televisão, vejo inúmeros programas na TV aberta, no cabo, em DVD. É muito difícil restituir, entender, expressar alguns fenômenos e idéias sem cair em clichês. Certamente que a entrada de jovens vindos das periferias na TV, na universidade, nas redações de jornal, nos teatros, nas editoras, nos lugares de decisão política e produção cultural muda muita coisa, muda estereótipos, traz discursos que podem disputar e concorrer com o que está ai já dado.

BF -Cidade de Deus originou um programa televisivo, Cidade dos Homens, que agora também vai virar filme. Alguns cineastas como Walter Salles, acusam o Globo de empobrecer a linguagem cinematográfica levando a estética televisiva para o cinema. O que você acha disso?
Ivana - O programa de TV Cidade dos Homens foi muito feliz em justamente tentar fugir de alguns estereótipos do próprio filme Cidade de Deus. É um bom exemplo de que a TV pode apostar na inteligência e ser bem sucedida. A priori, não existe problema em combinar tecnologias e estéticas vindas do cinema e da TV, são linguagens que se aproximam. Mas, infelizmente, historicamente, a TV brasileira nunca foi aliada do cinema brasileiro. Isso está mudando, porque hoje o cinema brasileiro ganhou prestígio, tem apoio político e políticas públicas que o valorizam, têm mais financiamentos no Ministério da Cultura, na Secretaria do Audiovisual, nas leis de renúncia fiscal. A própria sociedade brasileira tem hoje uma outra postura diante de seu cinema. O problema é simplesmente a TV parasitar o circuito de cinema duplicando o que deu certo na TV aberta, sem arriscar, apostando nas fórmulas televisivas que deram certo. O cinema tem que ter sua biodiversidade, e não duplicar a monocultura televisiva.

BF - No Brasil, o cinema considerado popular são filmes da Xuxa, Trapalhões, Angélica, etc. Como fazer um cinema popular no Brasil com qualidade?
Ivana - Não existe nenhuma fórmula, existem muitos mitos do que é popular, do que as pessoas “querem” ver. Não acho que a pesquisa de opinião ou testes de platéia resumam as possibilidades da inteligência popular, subestimada nesse discurso paternalista de que “damos o que o povo gosta”. Com atores conhecidos da TV, campanhas de mídia agressivas, com merchandising na novela, no programa de auditório, no caderno de cultura da empresa, matéria no telejornal, algum público acaba aparecendo. Mas quem tem R$ 15 para pagar no ingresso? Para ter público para o cinema brasileiro tem que passar os filmes brasileiros de graça na televisão aberta, baixar o preço do ingresso, passar filmes nas escolas, criar uma cultura audiovisual.

A TV Digital pode se abrir para os
movimentos sociais, para o cinema
brasileiro, para a produção
independente, para a produção
que vem das periferias. Mas
isso não vai acontecer
sem pressão

BF - Nesse ano, houve a decisão da TV Digital que era visto como um instrumento de grande potencial democratizante, podendo dar vazão à produção independente de audiovisual…
Ivana - Acho que as cartas ainda estão sobre a mesa e se houver pressão e mobilização política, a TV Digital pode se abrir para os movimentos sociais, para o cinema brasileiro, para a produção independente, experimental, universitária, para a produção que vem das periferias. Mas isso não vai acontecer sem pressão. Os interesses são enormes nessa área e vêm de todos os lados. A sociedade tem que intervir e pressionar também, afinal, as TVs são concessões públicas. Nada mais natural que lhe seja restituído o direito de produzir uma comunicação que expresse a sua singularidade e multiplicidade. Se esse governo conseguir mudar a mentalidade corporativa e monopolista dos meios de comunicação, vai ter realizado uma das maiores mudanças na história do país. Mas sem pressão e apoio, nenhum governo faz tamanha mudança.

BF - O que muda com o digital?
Ivana - Com tantas possibilidades tecnológicas de multiplicar os canais de Comunicação com o digital, todos nós nos tornamos potenciais produtores, distribuidores e consumidores de informação, de arte, de linguagem. Isso já está acontecendo com a internet, quebrando consensos, fazendo uma guerrilha semiótica, no campo das idéias. A sociedade tem que estar tecnologicamente equipada para fazer essa que será a grande revolução do capitalismo cognitivo, onde todos nós nos transformamos em unidades móveis de produção e expressão, sem mediadores. Daí a importância hoje de lutar por emissoras de TV públicas – nem privadas e nem estatais – mas da sociedade. Internet pública e gratuita e telefonia também de graça. São as bases da produção contemporânea e da cidadania. Essa cultura da periferia que estamos vendo explodir tem a ver com essa apropriação e subversão da tecnologia. São as tecnologias capazes de criar a “intelectualidade de massas”, como diz Antonio Negri no seu livro Multidão.

Brasil de Fato

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