Lugo: “o Paraguai deveria voltar a ocupar seu lugar na história”

20 DE ABRIL Em entrevista, o ex-bispo Fernando Lugo – candidato favorito às eleições – faz uma análise do quadro político e dos desafios sociais para não “decepcionar” a esperança

Claudia Korol

O PARAGUAI atravessa atualmente uma encruzilhada cujo resultado marcará as perspectivas populares não somente nesse país, mas em toda a América Latina. Pela primeira vez em 60 anos, está seriamente ameaçada a hegemonia do Partido Colorado por uma força eleitoral popular, encabeçada pelo ex-bispo Fernando Lugo.
Depois de terminada a ditadura de Stroessner (1954 – 1989), todas as estruturas de controle das instituições políticas, jurídicas, militares e legislativas ficaram nas mãos de seus continuadores. O modelo de acumulação que por muitos anos sustentou a ditadura, baseado no esquema agroexportador, nas grandes contratações do Estado e, sobretudo, o dinheiro que entrou no país pelas grandes construções das usinas hidrelétricas de Itaipu (com Brasil) e Yacyretá (com Argentina) terminou na década de 1980.
A profunda crise foi sorteada com violência política exercida contra o povo e com os ajustes de contas entre as principais facções do poder: os pecuaristas – organizados na Associação Rural do Paraguai–, a União Industrial Paraguaia (UIP) e a Cadelpa (os agroexportadores), todos entrelaçados a narcotraficantes e a grupos que têm feito da política o caminho dos negócios.
É por isso que a possibilidade de que se concretize, no dia 20, o que aparece em todas as pesquisas, está ameaçada. Não somente porque o Partido Colorado é especialista em “megafraudes”, mas também por causa da guerra suja que tem sido desenvolvida contra as forças opositoras.
A força eleitoral que leva Lugo como candidato está composta por uma franja política muito ampla, que vai desde uma parte significativa dos movimentos populares até o tradicional (e conservador) Partido Liberal Radical. Isso gera algumas desconfianças entre os setores que, apesar de o apoiarem, sabem que caso ele vença haverá uma grande disputa interior entre as forças que hoje o apóiam. Esta entrevista foi concedida em um seminário nacional convocado pela juventude de Tekojoja, a força criada recentemente em torno da fi gura de Lugo.

Como o senhor pensa em desafiar o aparato corrupto que hoje controla majoritariamente as estruturas políticas do Paraguai?

Nós temos consciência de que não será fácil, porém, não será impossível. O maior obstáculo será, por um lado, o confronto com um sistema eleitoral de fraude que tem 60 anos. Por outro, há uma estrutura estatal identifi cada com o Partido Colorado. Por isso dizemos que a cidadania será o sujeito dessa mudança real que estamos gerando. O que nós queremos é que o povo tenha o poder, seja protagonista e elabore o programa. Sempre dizemos que o adversário não será Blanca Ovelar (candidata do Partido Colorado) ou Lino Oviedo (candidato de um setor militar). Nosso inimigo será a corrupção. Teremos que vencer a pobreza e a ignorância. No 20 de abril, dia das eleições, o grande desafio será romper 60 anos de fraude eleitoral.

Como se caracterizam as forças que integram a Aliança?
A Aliança Patriótica para a Mudança (APC) aglutina nove partidos políticos e 20 movimentos sociais de camponeses, sindicais, de bairros e de mulheres. O Paraguai é nossa garantia de unidade. Todos nós nos unimos debaixo das cores de nossa bandeira. O vermelho, que simboliza a justiça, o branco, que simboliza a paz e o azul, da liberdade. A Aliança resume o que é o Paraguai, incluindo uma franja colorada que também a integra. Nós unimos diferentes ideologias, tendências, líderes de diferentes extrações, colocando o país em primeiro lugar.
Prometemos que não haverá perseguições. Não haverá exclusão ideológica, religiosa ou étnica. Queremos que se cumpra a Constituição: somos todos iguais perante a lei. Se tiverem que haver privilegiados, serão os esquecidos. A APC se fez para favorecer os mais pobres do país. Eles nos exigem a mudança real do Paraguai. Dessa vez, não se trata de mudar de presidente, mas de fazer um país diferente. Nosso sonho é que o Paraguai abra seus braços, levante vôo e possa acolher, se não a todos – para ser realista –, a grande maioria dos paraguaios.

Que lugar têm os movimentos populares no projeto da APC?
Os movimentos populares estão na dianteira. Aqui também está o maior partido de oposição, o Partido Liberal, as forças sociais, camponesas, sindicais, que fazem um grande contrapeso. O movimento Tekojoja nasce quando os movimentos sociais se dão conta de que suas revindicações, desde o ponto de vista social, não são atendidas, não avançam. Quando os sem-terra vêem que sua luta social está sendo criminalizada a partir do momento em que processam mais de 4 mil camponeses, esses grupos começam a pensar em formar um movimento político. Em Tekojoja, a grande maioria é composta por líderes sociais jovens, estudantes, artistas e políticos que não surgem dos partidos tradicionais. Estamos convencidos que os movimentos populares hoje têm um grande protagonismo político. Um grande passo é pensar politicamente os problemas sociais e, também, responder politicamente. Esse protagonismo é o que marca a diferença e a identidade da Aliança.

Que mudanças esse governo espera realizar? Nossa visão é de mudar a história. É romper com mais de 60 anos de um partido hegemônico que nem sequer representa seus princípios. Há muitos colorados que estão também na Aliança Patriótica para a Mudança, porque a política atual não os representa. O que vai mudar? Vai terminar o roubo ao erário público. Nós não vamos roubar, como escandalosamente se faz em nosso país. A maneira mais rápida de fazer fortuna no Paraguai é fazer política. Que outras coisas vão mudar? Estarão na administração pública os melhores homens.
Na Aliança Patriótica para a mudança, há seis eixos que ocupam o mesmo nível de importância: a reforma agrária, a reativação econômica, a recuperação da institucionalidade da República, a justiça independente, o plano de emergência nacional e a recuperação da soberania, especialmente da soberania energética. Os seis eixos programáticos recolhidos em todo o país têm o mesmo peso, a mesma importância. A reforma agrária nunca foi feita. Há um programa elaborado pelos próprios camponeses. Não se trata somente de distribuir algumas terras. Reforma agrária é possibilitar cidadania, que as 300 mil famílias sem-terra possam ter uma vida digna, com terra, crédito, assistência técnica, cultivo adequado, mercado justo e com todos os serviços.

De onde sairá o dinheiro?
Das reservas do Estado. O Estado paraguaio tem uma reserva de 2,5 bilhões de dólares neste momento. O programa de reforma agrária apresentado pelo movimento camponês requer 150 milhões de dólares. Outro tema importante é que vamos apoiar as pequenas empresas formadas de maneira cooperativa. Temos energia sufi ciente para fazer um país industrial.
No nosso plano de governo, propomos uma justiça soberana, independente e autônoma. Hoje não a temos. A Justiça soberana e independente não é resultado de um pacto político dos partidos para eleger os juízes membros das cortes, mas sim que estes sejam os mais idôneos, os mais capazes. Eu acredito que os organismos internacionais estão dispostos a nos ajudar para que possamos avançar nisso.

Um tema fundamental é a recuperação da soberania energética; isso põe a necessidade de reconsiderar os tratados das usinas de Yacyretá (com a Argentina) e de Itaipu (com o Brasil). O que vocês estão propondo a respeito?
Os tratados de Itaipu e Yacyretá são leoninos, injustos, que quase não beneficiam o Paraguai. Vamos exigir uma renegociação para dispor livremente de nossos excedentes hidrelétricos e receber um preço justo por eles. Exigiremos acesso técnico, sem custo adicional, da totalidade da energia que nos é correspondente de Itaipu e de Yacyretá – segundo estabelecem os respectivos tratados – e a eliminação de todas as dívidas espúrias. Vamos discutir que o preço da energia seja o do mercado, e não o de custo, como se faz até agora.
A Aliança Patriótica para a Mudança demandará, além disso, a redução das taxas de interesse usurárias, a co-gestão efetiva na administração dos entes binacionais e a transparência na gestão, com livre acesso público à informação e o controle por parte dos entes de fiscalização pública dos países involucrados. Incentivaremos a construção de redes de transmissão de grande tamanho, para assegurar o abastecimento interno do país, estimular o uso produtivo de nossa hidroeletricidade e possibilitar que seja o centro de interconexão elétrica do Mercosul, exportando-a a preços de mercado. De todas as formas, eu penso que esse tema não pode ser visto apenas do ponto de vista econômico, mas é necessário também incluir no debate a questão ambiental. Como garantir que o desenvolvimento econômico não se faça em detrimento do meio ambiente? No Paraguai, somente a partir de 1996, as leis contemplam delitos sobre o meio ambiente. O desafio é como garantir o respeito ao ambiente.

A relação do Paraguai com o Brasil, a Argentina e o Uruguai está marcada por uma dívida histórica que significou a Guerra da Tríplice Aliança [Guerra do Paraguai, para os brasileiros]. O que significa essa carga histórica em relação à integração de nossos povos?
Acredito que há uma releitura e uma reinterpretação da história. Há um reconhecimento da dívida histórica com o Paraguai. Acreditamos na Justiça, o Paraguai deveria voltar a ocupar o lugar que ocupava: o país mais desenvolvido, o mais unido, que tinha um projeto econômico diferenciado. Acreditamos que o Paraguai tem um potencial humano, econômico e riquezas naturais para voltar a ocupar o lugar que possuía. O reconhecimento que os países vizinhos podem dar a essa dívida histórica é simplesmente o que, por uma questão de justiça, corresponde ao país. Faremos um governo aberto ao continente e ao mundo. Aberto às novas tendências, mas com nossa identidade bem marcada. Abertos ao Mercosul, a uma integração com mais eqüidade social, com mais simetria. Os homens e mulheres paraguaios nos ensinaram muito nestes últimos meses. Nos ensinaram que temos uma identidade própria fortalecida, e, sobretudo, que o Paraguai não se ajoelhará diante de ninguém. Recuperaremos nossa dignidade como nação. Nossas pequenas grandes diferenças, conversaremos como vizinhos, com amizade, solidariedade. Nos uniremos com alegria aos governos progressistas da América Latina. Temos muito que aprender com nossos irmãos. É muito o que temos para aprender com a Bolívia. É um país que criativamente está fazendo um novo caminho.

O que signifi caria um triunfo de Fernando Lugo para o cenário político latino-americano?
O Paraguai vai mudar de imagem. Em primeiro lugar, não será o país mais corrupto da América Latina. Será o país mais honesto. Com uma administração transparente, um governo de credibilidade e legitimidade, pluralista, popular, com participação cidadã. Isto permitirá ao país cobrar o lugar que lhe pertence. Um lugar que o coloque em igualdade de condições para conversar com todos; e ser protagonista no processo de integração latino- americano. Temos um elemento de desenvolvimento para a integração que não se deve descartar: a energia. O Paraguai é o único país que tem reservas de energia e que tem superavit de energia na região. Acredito que isso nos dá potencial para negociar com os países vizinhos e, ao mesmo tempo, ser escutado no concerto das nações como um país que pode aglutinar, unir e ter um espaço preponderante no desenvolvimento e na integração do continente.

Uma jovem militante de Tekojoja expressou que ainda existe medo entre os jovens para participar. Como se dá essa batalha entre o medo e a esperança nos setores populares?
Há medos distintos. Como na Aliança há setores tão diversos – o que torna ainda mais rica a experiência – há medo que interesses prevaleçam. O governo será muito equilibrado em um primeiro momento, levando em conta as prioridades de todos os setores. Nos camponeses, o medo que existe é que suas reivindicações não sejam cumpridas e que haja um aparato repressor forte, como o que ocorreu em San Pedro, em 2005, e criminalizou a luta agrária com 4 mil camponeses processados e casas queimadas. É certo que há um grande medo. Mas também há uma grande esperança posta em marcha. Não vamos decepcionar essa esperança. Será um processo difícil e longo, mas prometemos à cidadania não renunciar aos direitos de todos os paraguaios. Acredito que a governabilidade tem que ser assegurada através de um grande pacto social que envolva os mais diversos setores.
(Jornal Punto Final)

Quem é
Nascido em 1951, em uma comunidade rural, Fernando Lugo viveu desde pequeno a repressão da ditadura. Seu pai foi preso mais de 20 vezes. Três de seus irmãos foram torturados e expulsos do país. Aos 19 anos, entrou no seminário e se identificou com a perspectiva da Teologia da Libertação. Em 1983, foi expulso do Paraguai por seus sermões “subversivos”. Depois de um tempo em Roma, voltou em 1987, e em 1994 foi ordenado bispo. Durante dez anos foi bispo em San Pedro, uma das regiões mais pobres do Paraguai e mais castigadas pela repressão. Ao final de 2006, renunciou ao sacerdócio e aceitou a candidatura para presidente, depois de receber mais de 100 mil assinaturas que lhe pediam para que contribuísse com seu prestígio e se empenhasse em conseguir a unidade das forças paraguaias opositoras ao Partido Colorado.

“Brasil De Fato”

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