Adam Smith vai a Pequim estudar o global
Com clareza assombrosa, Giovanni Arrighi mostra que se há um vencedor na guerra contra o terrorismo de Bush, é a China
Ricardo Lísias
Adam Smith em Pequim, o novo livro de Giovanni Arrighi que a editora Boitempo acaba de publicar, deve interessar a dois grupos bem definidos: aos profissionais de ciências sociais e economia, por um lado, para quem Arrighi traz hipóteses preciosas, e aos interessados na estranha dinâmica do mundo contemporâneo, por outro, público que ganha com o volume um pouco de ordem em uma conjuntura que parece, com alguma obviedade, inteiramente caótica.
A propósito, talvez seja produtivo definir os termos com que o livro pode ser tratado: o primeiro deles é ‘reorganização’. Arrighi, na primeira parte do livro, rearranja algumas leituras clássicas e recoloca, em engenhosos movimentos, o lugar dos dois autores decisivos para os estudos sociais e econômicos, Karl Marx e Adam Smith. Os dois tomam conta da primeira parte do livro e Arrighi mapeia, não sem surpreender, os pontos de contato dessas duas obras decisivas.
O reordenamento é sutil, mas aos poucos o autor repõe esses dois pensadores, até transportá-los a lugares onde antes seria difícil encontrá-los: Marx em Detroit, Smith em Pequim. É esse justamente o título do primeiro capítulo da primeira parte, para não deixar suspense. A propósito, o termo ‘reorganização’ persiste não apenas na forma de exposição das idéias, mas como foco de conteúdo propriamente dito: Arrighi quer compreender o que fez a China trazer o eixo da economia mundial, antes inteiramente controlado pelos Estados Unidos, para o seu território. O autor é certeiro, ainda: se há um vencedor na guerra contra o terrorismo que George Bush, pai ou filho, inventou, é a China.
A mudança, porém, como é óbvio e o Iraque nunca nos deixa esquecer, não está ocorrendo sem um enorme choque. O título da segunda parte, A Economia da Turbulência Global dá bem a idéia de como Arrighi enxerga o mundo de hoje. Outro termo para Adam Smith em Pequim é ‘clareza’. O livro não esconde nada (o que é raro hoje em dia, em um mundo de meias palavras e silêncios coniventes) e traça uma pequena história dos últimos anos da economia norte-americana, sempre deixando claro que sua hegemonia entrou em crise e não se sustenta mais. Um exemplo da clareza que identifiquei: ‘A resistência norte-americana ao ajuste e à acomodação concretizou-se, de forma mais extremada do que todos esperavam, no Projeto para um Novo Século Norte-Americano, cuja primeira experiência desastrosa no Iraque precipitou a crise terminal da hegemonia dos Estados Unidos e consolidou ainda mais a transmissão do poder econômico global para a Ásia oriental.’
Reorganização e clareza geram uma análise lúcida. E essa lucidez se traduz em desvendamento: a China atingiu o assombroso crescimento nos últimos anos porque recusou de forma bem pensada e consciente, o ideário neoliberal que afundou parte grande do mundo, muito embora tenha proporcionado, aqui e ali, a compra de alguns jatinhos para seus ideólogos e perpetradores. Enfim, a China não se entregou aos bancos ocidentais. Como diz Arrighi, as privatizações foram seletivas (aqui, no Brasil, foram liquidações) e houve certo rigor na divisão do trabalho. Enfim, o governo chinês compensou a abertura para o mercado com garantias para a população como um todo. Não é muito fácil, ainda, demitir um trabalhador na China e o sistema de saúde é relativamente global.
No entanto, uma palavra que não serve para qualificar Adam Smith em Pequim é ‘deslumbre’. Ora, Arrighi afirma que, apesar dos enormes ganhos, é fácil ver que a China comete inúmeros erros: preocupa-se muito pouco, ou nada, com o meio ambiente e, como depende muito de matéria-prima do exterior, não hesita em fazer comércio com todo tipo de regime. Nunca é demais, aliás, sempre é necessário lembrar que a China mantém altíssima intimidade com o governo do Sudão, responsável pelo massacre de Darfur, talvez o mais grave genocídio contemporâneo. A questão do Tibete, ainda, precisa de fato ser resolvida, se possível com a retirada do invasor.
Enfim, bem pesadas as coisas e americanos arruinados (colhendo os frutos que plantaram), os chineses precisam de um sério ajuste. Resta torcer para que o mundo não assista apático ao surgimento de um novo império desgovernado e violento. Claro, desde o início desta resenha, o leitor deve estar com os jogos olímpicos de Pequim na cabeça. Agora que Arrighi já esclareceu as coisas, vamos nós torcer para que algum atleta com a cabeça no lugar segure na mão esquerda uma placa com a frase Save Darfur (se colocar www, melhor), e levante a direita com o punho cerrado. Não serão muitos, mas eu tenho certeza de que alguns vão fazer isso. Como há uma reorganização em curso, agora os panteras precisam ficar amarelos.
Ricardo Lísias é ficcionista, autor de, entre outros, Anna O e Outras Novelas
“Estado de S. Paulo”
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Peterson disse,
15 de Dezembro de 2008 @ 11h 09m
o que exatamente o autor sugere ao dar o título marx em detroit, smith Pequim