Arquivo de 5 de Julho de 2008

Britânicos punem neoliberalismo adotado pelo “novo trabalhismo”

TIRO NO PÉ Ken Livingstone, chamado de “Ken, o Vermelho”, poderia ter sido eleito prefeito de Londres pela terceira vez consecutiva no dia 5 de maio se não tivesse cometido o erro de se juntar novamente a Tony Blair e a Gordon Brown

Achille Lollo

A DERROTA dos trabalhistas britânicos finaliza os péssimos resultados que a esquerda reformista européia registrou, em abril, na Itália, e, antes, na Espanha, com a desastrosa campanha da Izquerda Unida, sem esquecer a queda na França do PS e do PCF, em 2007, quando Sarkozy se elegeu inaugurando o novo curso político da direita na Europa.
De fato, na Inglaterra — como nos outros países europeus — aumentou a desconfiança dos eleitores com os partidos de centro-esquerda, em função do profundo mergulho que eles deram no neoliberalismo. Em teoria, os líderes trabalhistas, Giddens e Mandelson, inventaram a “Terceira Via” para se contrapor ao neoliberalismo dos conservadores.
Conseqüentemente, no congresso de Blackpool, em 1997, Tony Blair transformou o Labour Party (Partido Trabalhista) em New Labour, retirando a Clause 4 do estatuto que defi nia a atuação socialista do partido. A partir desse momento, Blair não teve mais dificuldades em desmontar toda a tradição política do Labour Party.
Desde então, Ken Livingstone – conhecido por “Ken, o Vermelho” – liderou a resistência de importantes setores sindicais (trade unions) e da própria esquerda do partido trabalhista. Porém, a brilhante retórica de Tony Blair foi avassaladora, prometendo “um governo capaz de recriar a confiança na política (…) e agora que fomos eleitos como New Labour, vamos governar como New Labour”.
Além disso, para justificar o programa de privatizações – muito semelhantes ao de Margareth Thatcher – o New Labour, inventou uma frase que extrapolou a lógica da Terceira Via, fazendo chorar de felicidade a maior parte dos trabalhadores e da classe média quando Tony Blair, frente aos microfones da BBC, em pleno Parlamento, declarou: “O povo é o dono e nós somos os servidores do povo”. Desta feita, Tony Blair deveria ganhar o Prêmio Nobel pela maior mentira dita nos últimos dez anos.

Luta interna no Labour
Juntando a retórica ao pragmatismo durante quase dez anos, Tony Blair e o New Labour ganharam com facilidade todas as eleições. Além disso, conseguiram isolar os grupos e os movimentos de esquerda ligados ao antigo Labour, obtendo o apoio do histórico líder trabalhista Neil Kinnock para minimizar a força política dos sindicatos.
Para concretizar este nefasto projeto, Tony Blair – já primeiro-ministro – manteve todas as leis anti-sindicais que Margareth Thatcher criou, em 1986, para quebrar os grandes sindicatos (mineração, metalúrgicos, serviço público, correio, transportes) que rejeitavam o programa de privatização.
O único que no New Labour se manteve distante de Tony Blair e da “Terceira Via” foi Ken Livingstone, motivo pelo qual recebeu o nome de “Ken, o Vermelho”. E foi por esta teimosia política que, em 2000, “Ken, o Vermelho” concorreu ao governo de Londres como independente contra o próprio candidato de Tony Blair e dos conservadores.
O resultado é sabido: Ken Livingstone obteve uma extraordinária vitória, tornando- se, de fato, o representante do povo trabalhador (britânico e imigrado) de Londres e de seus numerosos subúrbios. Uma vitória que o consagrou novamente em 2004 e que, no dia 05 de maio, podia ter-lhe dado a terceira vitória eleitoral consecutiva, se ele não tivesse cometido um erro que 300.000 eleitores não lhe perdoaram; isto é, voltar ao New Labour e se juntar, novamente, a Tony Blair e Gordon Brown.
De fato, o candidato conservador Boris Johnson ganhou esta eleição para o governo de Londres com 1.168.000 votos contra os 1.029.000 de Livingstone que, na realidade, perdeu pela abstenção de quase 300 mil eleitores do subúrbio, que não votaram querendo punir o New Labour de Blair.
Para “Ken, o Vermelho”, este é um motivo a mais para continuar a luta interna – ou talvez voltar a atuar como independente – visto que sua derrota não foi por ter feito uma administração ruim, mas, sim, por ter se associado ao New Labour que, recentemente, cometeu uma autêntica covardia contra os pobres da Inglaterra.
De fato, na véspera de eleições, o governo de Gordon Brown se atrapalhou no Parlamento e votou pela anulação da lei que vetava a taxação das rendas baixas. É claro que a working class (classe trabalhadora britânica e estrangeira), espremida pela legislação neoliberal, explorada com a implementação da flexibilização e vítima do trabalho precário, não acreditou mais no New Labour e se vingou ficando em casa no dia das eleições.

Significado da derrota
Os resultados das eleições municipais na Inglaterra e no País de Gales foram um autêntico desastre eleitoral para o New Labour, que perdeu 434 vereadores. Por sua parte, o partido conservador (Tories) elegeu 300 vereadores. Se no próximo mês houvesse eleições políticas para renovar o Parlamento de Westminster, os conservadores alcançariam a maioria absoluta, com 150 parlamentares destroçando o New Labour, depois de 11 anos de governo.
Para os dirigentes do New Labour, o elemento determinante da derrota não foi o absenteísmo da working class – que, segundo o ex-ministro Charles Clarke, “pode ser reconquistada a qualquer momento” – mas sim o retorno da classe média às fileiras do partido conservador.
Para ele, a opção política da classe média foi uma mera traição, visto que o New Labour – na prática – fez tudo aquilo que o capital queria, ao ponto de privatizar muito mais que a própria Margareth Thatcher, reduzindo o serviço público ao mínimo indispensável.
A explicação desta “traição” é a falta de segurança que hoje a classe média sente, após a globalização da força de trabalho. Um processo que começou quando o governo de Tony Blair, para garantir o apoio do capital, abriu as fronteiras para receber mão-deobra barata estrangeira que aceitava trabalhar por salários 40% menores que os dos britânicos. Este fluxo nunca parou, enloquecendo de felicidade comerciantes e pequenos empresários, sobretudo os do terceiro setor. A seguir, veio a onda da flexibilização na indústria, seguida pela introdução do chamado “trabalho precário”, através do qual os empresários estabelecem, livremente, novos ritmos de trabalhos, introduzindo, também, formas de pagamentos semanais baseadas na quantidade de produtos fabricados e não nas horas de trabalho.
Para evitar que este novo exército de trabalho fosse organizado pelos sindicatos, o capital fez com que os fluxos de emigração fossem cada vez maiores. Por isso desapareceu, quase por completo, a estabilidade no trabalho, visto que nas cidades industriais da Inglaterra há cada vez mais trabalhadores estrangeiros e britânicos empobrecidos que aceitam trabalhar em condições cada vez mais precárias. Este contexto de livre exploração da mão-de-obra e de concentração de massas migratórias fez surgir autênticas babilônias nos subúrbios das cidades britânicas, que – como aconteceu em Paris – ameaçam explodir a qualquer momento, pelo fato de os “novos escravos globalizados” viverem em verdadeiros guetos, sem serviços sociais, sem lazer, sem educação e constantemente pressionados pela polícia.

Tolerância Zero
O partido conservador de David Cameron explorou amplamente os temores da classe média prometendo reorganizar a sociedade para conter os fluxos migratórios e reprimir com “Tolerância Zero” tudo que possa alimentar possíveis revoltas populares de pobres e estrangeiros.
Não há dúvida que a classe média e também uma parte de setores populares mais despolitizados ficaram encantados com a promessa de “Tolerância Zero” e votaram nos conservadores convencidos de que terão “mais ordem, mais segurança e menos culturas estrangeiras”.
David Miliband, atual ministro das Relações Exteriores e possível sucessor de Gordon Brown no New Labour, acredita que “a segurança que os moradores dos bairros da Grande Londres requerem e que não encontraram no nosso governo foi o principal argumento de nossa derrota”. O próprio Gordon Brown admite que “foi um dia ruim para o New Labour, um resultado muito fraco. Devemos escutar e aprender esta lição”.
Mas, para os analistas internacionais, as declarações desanimadas de Miliband e do próprio Brown implicam numa possível virada do New Labour em direção à chamada “Tolerância Zero”, com vistas a reconquistar a classe média.
Uma possibilidade que pode tornar-se real com facilidade, visto que, durante os 11 anos de governo, 75% dos parlamentares do New Labour votaram sempre a favor das campanhas militares: Kosovo, Afeganistão e Iraque. E votaram também quando o líder Tony Blair era desmascarado publicamente pelas suas repetidas mentiras. Portanto, após esta derrota, o primeiroministro, Gordon Brown, certamente vai introduzir medidas repressivas que aumentam o poder da polícia. Uma delas é poder prender e segregar nas prisões um suspeito durante 42 dias.
Ninguém no New Labour – excluindo, evidentemente, Ken Livingstone – se levantou para criticar este projeto, que já foi apresentado no Parlamento e rejeitado pelos conservadores.
É bom lembrar que, em 1996, Tony Blair, Mandelson, Giddens e a grande maioria do New Labour – para fi car no poder – não tiveram escrúpulos em sacrificar o movimento sindical, a tradição de lutas operárias e todas as conquistas sociais. Portanto, para continuar no poder, é certo que Gordon Brown, David Miliband e Charles Clarke não hesitarão em aumentar a militarização e a violência policial para mostrar à bem-sucedida pequena burguesia da grande Londres que eles são capazes de garantir a “Tolerância Zero” da mesma forma, ou talvez melhor, que os próprios conservadores.

Achille Lollo é jornalista italiano, diretor do documentário América Latina: Desenvolvimento ou Mercado, disponível no www.portalpopular.org.br

“Brasil De Fato”

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Com os olhos secos diante dos miseráveis

Mário Maestri

Em ‘A destruição da razão’, de 1953, escrita após a hecatombe da grande guerra inter-imperialista de 1939-45, com seus talvez cinqüenta milhões de mortos, George Lukács traçou magnífica crítica da gênese e do desenvolvimento do pensamento irracionalista moderno, de candente vigência nos dias de hoje. Lamentavelmente, como tantos outros trabalhos desse importante filósofo marxista húngaro, esse livro também não se encontra disponível no Brasil.

Naquele trabalho, Lukács lembrava que o irracionalismo moderno assumiu faces diversas nos dois últimos séculos, sendo, porém os nexos fundamentais dessa vertente filosófica a incessante desvalorização do intelecto e da razão em prol da intuição; a refutação da objetividade das leis históricas e da possibilidade de conhecê-las; a subjetivação da história e a negação da idéia da possibilidade de progresso.

Lukács assinala que, nesse contexto geral, a defesa da ordem capitalista dá-se através da apologia direta e indireta. A primeira louva aquela sociedade e nega e dissimula seus aspectos mais negativos. A segunda, quando o mundo real começa a horrorizar até mesmo os insensíveis, defende o caráter incompreensível da história; a desigualdade, a agressividade, o egoísmo etc. como atributos da natureza humana e próprios a todas as ordens sociais.

O objetivo último dessa apologia é fortalecer as tendências à destruição da confiança na práxis social como fator de progresso social; a passividade e o imobilismo como comportamentos políticos gerais; o cinismo e o pessimismo como estados psicológicos diante das mazelas da sociedade que avançam a galope desenfreado.

George Lukács lembrava que as interpretações irracionalistas do mundo assumem singular importância em épocas de transição e quando de graves crises sociais, como a que vivemos atualmente. Então, diante das novas demandas postas pela história, a razão irracional transforma os problemas em respostas, nega ao pensamento materialista dialético a capacidade de desvelar os nexos fundamentais do mundo social, transforma a maior riqueza do fenômeno em relação a sua representação teórica, em desvalorização da capacidade de compreendê-lo teoricamente.

Hoje, as novas tendências neo-irracionalistas apresentam-se sob aparências diversas. Pensadores partidários das concepções do ingresso da humanidade em idade pós-industrial e pós-moderna defendem o fim da credibilidade nos “grandes relatos” sobre a necessidade e possibilidade da superação das contradições sociais; sugerem a definitiva subjunção do homem aos processos tecnológicos; proclamam o fim da objetividade e da unidade da vida social.

Na aparente contramão, defensores de retorno aos valores superiores, intemporais e ideais do Século das Luzes criticam a atual barbarização da cultura impulsionada pelos pós-modernos. Todos convergem na proclamação do fim da “radicalidade” de toda e qualquer interpretação social a partir das oposições interclassistas e proclamam a morte do marxismo, do socialismo, do terceiro-mundismo.

Neo-iluministas e pós-modernistas predizem que o desnível abismal e crescente entre países ricos e pobres “não cessará de alargar-se”, sendo os próprios miseráveis culpados pela miséria que vivem. Convergem em apreciação filosófica da história e da sociedade atual que incentiva e justifica o cinismo e o elitismo dos privilegiados, o pessimismo e a inatividade dos explorados. Sobretudo nos últimos vinte anos, após a maré neoliberal que açoitou o mundo, para número crescente de pensadores, a história apresentar-se-ia finalmente em sua natureza: processo eminentemente ininteligível e filha do absoluto caos.

Como resultado do crescente prestígio intelectual do irracionalismo, cresce igualmente em forma frenética o interesse pelos pais do moderno irracionalismo – Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, Spengler, Heidegger etc. Para a razão irracional, a consciência da agonia final das ilusões sociais de redenção e uma existência cruel que escapa à compreensão humana aconselhariam o refúgio no imóvel, contemplativo e desesperado eticismo kierkegaardiano ou, talvez, no imperativo nietzschiano de ficar de olhos secos diante dos miseráveis.

Mário Maestri, 59, rio-grandense, historiador, é professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF.

“Correio da Cidadania”

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Coreanos lembram uma era de batalha de propaganda

Choe Sang-Hun

No início de abril, quando a Coréia do Norte chamou o presidente da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, de um “impostor” e “servil aos americano”, as farpas verbais soavam familiares demais para Jin Yong-seon. Ele tem um museu cheio delas.

Em seu Museu da Lembrança nesta ex-cidade mineradora a cerca de 145 quilômetros ao leste de Seul, Jin está exibindo 700 exemplos do que chama de “bombas de papel”, os panfletos que a Coréia do Norte e do Sul disparavam uma contra a outra da Guerra da Coréia até 2000, quando os esforços de reconciliação levaram a um cessar-fogo na batalha de propaganda.

Em um panfleto exibido no museu de Jin, uma montagem fotográfica reunia o ex-presidente sul-coreano na cama com uma atriz sedutora com a legenda: “Kim Young-sam, o libertino”. Outro panfleto exibe uma charge do antecessor de Kim, Roh Tae-woo, se ajoelhando para receber ordens de James R. Lilley, o embaixador americano de 1986 a 1989.

“Quando era garoto, nós encontrávamos estes panfletos caindo como garoa nas colinas ao redor daqui”, disse Jin, 44 anos. “Se os encontrássemos, nós devíamos entregá-los na delegacia de polícia. Nós recebíamos revistas em quadrinhos, lápis ou guloseimas como recompensa.”

Em uma era em que não havia Internet e ambos os lados interferiam nos sinais de rádio um do outro, os panfletos jogados por avião ou balão para o outro lado da fronteira eram a forma mais certa de lançar bombas de pensamento no território inimigo. Os panfletos da Coréia do Sul divulgavam sua crescente riqueza, enquanto o Norte alfinetava o Sul como buscando proteção das forças armadas americanas “imperialistas”.

Ambos os lados prometiam aos desertores dinheiro, casas, medalhas e mulheres.

Jin, um ex-professor de inglês, abriu seu museu de 200 metros quadrados em uma escola abandonada em 2005 para ajudar a atrair turistas para sua cidade, Chongson, antes um importante centro de mineração, mas agora praticamente esquecida. Dentro do espírito do declínio da cidade, Jin coleciona e exibe diariamente itens do passado recente que agora está desaparecendo da memória das pessoas: brinquedos à moda antiga, baralhos, discos -e panfletos de propaganda.

Ele comprou os panfletos de ex-policiais -entre as poucas pessoas autorizadas a mantê-los durante a Guerra Fria- assim como de coletores de ervas que às vezes ainda encontram velhos panfletos enterrados sob as folhas e de outros colecionadores que os anunciam na Internet.

Jin chamou a exposição de panfletos, que foi aberta em abril, de “Memórias da Propaganda”. Ela também inclui alguns panfletos lançados pelos Estados Unidos durante a guerra. Historiadores estimam que aviões americanos espalharam 2,5 bilhões de panfletos.

A Coréia do Norte acabou fornecendo um exemplo oportuno do que a exposição se trata. No momento em que Jim abria sua exposição de três meses, a Coréia do Norte encerrou uma suspensão de oito anos de seus ataques verbais, disparando contra o recém empossado presidente Lee, que prometeu assumir uma posição mais dura contra a Coréia do Norte.

“Até mesmo a cabeça cozida de uma vaca morta cairia na gargalhada contra ele -riria tanto que seu focinho quebraria”, disse o jornal estatal do Norte, “Rodong Sinmun”, desdenhando a promessa do presidente Lee de não fornecer ajuda econômica ao Norte até que o país abandone suas armas nucleares. “Ele precisa assoar seu próprio nariz sujo antes de se preocupar com os problemas dos outros.

Os propagandistas norte-coreanos freqüentemente usam provérbios coreanos ou personagens folclóricos quando zombam do inimigo; o comentário da vaca é baseado em um antigo ditado coreano. Há poucos anos, quando Washington criticou seu programa de armas nucleares, a Coréia do Norte desdenhou a queixa como sem conseqüências com outro velho ditado: “Os cães latem, mas a caravana prossegue”.

Quando os líderes das duas Coréias realizaram seu primeiro encontro de cúpula em 2000, eles concordaram em suspender os ataques. O Norte continuou criticando o Sul, mas em termos relativamente brandos. Ainda não se sabe se os recentes ataques estridentes contra o presidente Lee representam uma acesso de fúria isolado ou a retomada da guerra de palavras.

Durante uma recente visita ao museu, Jim disse que os panfletos mostravam como a Coréia do Norte usava a linguagem como “instrumento de violência”, acrescentando: “Eles capturam a Guerra Fria muito bem”.

Assim como os panfletos sul-coreanos, que apresentam termos claros. Uma mostra soldados comunistas sendo baleados ao tentarem invadir o Sul. Outros se gabam dos milagres do capitalismo, mostrando sul-coreanos passando férias nas praias e anunciando o número de carros produzidos no Sul.

Mas os panfletos nem sempre produziram o efeito desejado.

“No meu caso, a linguagem violenta dos panfletos norte-coreanos me tornou um verdadeiro anticomunista”, disse Jin.

Lee Min-bok, um cientista norte-coreano que desertou para o Sul em 1995, disse que ficou chocado com a imagem de uma mulher nua em um panfleto sul-coreano que ele viu enquanto estava no Norte.

“Eu fiquei corado”, disse Lee. “Você nunca veria uma coisa dessas na Coréia do Norte. Mas também reforçava nossa doutrinação de que os sul-coreanos eram capitalistas depravados.” Ainda assim, o choque não foi suficiente para impedi-lo de seguir para o sul com milhares de outros norte-coreanos que fugiam da fome e da repressão política.

Quando os dois governos concordaram em parar com a propaganda por rádio e manter seus balões em terra em 2000, a Coréia do Sul tinha mudado significativamente; então autoconfiante, ela já tinha desistido de outras práticas da Guerra Fria. Enquanto a Coréia do Norte ainda mexe em todos os rádios para que as pessoas só recebam as transmissões do governo, o Sul suspendeu sua proibição de escutar as transmissões comunistas no final dos anos 90.

Os lançamentos de panfletos do Sul continuam, mas agora são obras de indivíduos. Jin disse que os panfletos de propaganda dos velhos tempos se tornaram itens de colecionador, sendo negociados por até US$ 200 cada. Como era ilegal possuí-los, eles são escassos.

“Eles estão para os coreanos como pedaços do demolido Muro de Berlim estão para os alemães”, ele disse. “São escombros da Guerra Fria.”

“The NYT News Service”

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Os órfãos da barbárie nazista

José Luis Barbería

Pelas mãos da Cruz Vermelha Internacional, 200 crianças polonesas roubadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial chegaram a Barcelona em 1946, vindas do campo de refugiados de Salzburgo (Áustria). Algumas tinham sido escolhidas por seus traços físicos pretensamente arianos e foram arrancadas de seus pais; outras eram filhas dos trabalhadores escravos utilizados até a exaustão na indústria de guerra alemã. Também havia crianças geradas no diabólico projeto Lebensborn (”a fonte da vida”)- granjas de procriação e educação nazistas destinadas a criar a super-raça, nas quais mulheres selecionadas eram obrigadas a ter relações com oficiais alemães.

Até agora desconhecida, a história dessas crianças polonesas revolve cruelmente a ferida moral da humanidade, porque foram despojadas de seu nome, de sua memória e sua língua, germanizadas e, às vezes, entregues a famílias alemãs e novamente arrancadas desses lares ao fim da guerra.

Muitas perderam irremediavelmente a possibilidade de recuperar sua identidade e família na fogueira onde os nazistas em retirada destruíram os arquivos que registravam o delírio da recriação da raça ariana. Como constatou este jornal, seis décadas depois, a ferida do limbo da identidade continua supurando na alma dos sobreviventes, “espanhóis de coração”, e palpita dolorosamente com a recordação das experiências traumáticas. Tiveram de se resignar a não saber quem são seus pais e irmãos, a desistir para sempre de seu afeto e a viver com esse vazio dilacerante, alguns na suspeita de que seus pais podem ter sido soldados alemães.

Todas chegaram a Barcelona com o enigma de sua origem, mas só as que haviam guardado na memória uma recordação nítida - “mamãe usava um casaco marrom e chorava, mas a cerca de arame nos separava” - ou possuíam um objeto - a fotografia dobrada que a mãe lhe deu às escondidas na despedida, a medalha da Virgem… - tinham a prova de uma identidade perdida.

Escutar seus sofrimentos durante a guerra é assomar-se a um abismo de angústias e terrores, de fome e violência. Compreende-se que os órfãos poloneses desnutridos ou doentes tenham encontrado na pobre Espanha do pós-guerra o paraíso inesperado que ainda buscam 62 anos depois.

O tempo acabara por sepultar aqueles fatos sob uma capa de esquecimento tão compacta que a mera confirmação jornalística da chegada dessas crianças a Barcelona parecia uma empreitada impossível. Os dados transmitidos na época por pessoas já falecidas logo se revelaram insuficientes ou imprecisos. E buscar nos arquivos da Cruz Vermelha em Madri e Barcelona, consultar a embaixada e os consulados de Varsóvia e indagar na comunidade polonesa mostrou-se um exercício infrutífero. Ninguém tinha notícia dessas crianças.

Quando o panorama convidava à desistência e a história parecia destinada a engrossar a pasta de iniciativas fracassadas, um arquivista diligente da Cruz Vermelha em Genebra, que se dispôs a procurar além das datas estipuladas, exumou a lista de um dos grupos que chegaram à cidade. Era verdade! A consulta a hemerotecas, agora no ano e nas datas corretas, mostrou que essas crianças entre 2 e 12 anos também tinham rosto e saudaram disciplinadas, com vivas à Espanha, do convés do navio mercante JJ Sister, que atracou em Barcelona no dia 24 de abril de 1946.

Foram alojadas inicialmente no número 49 da rua Angli, uma antiga delegacia da Frente Popular que o Auxílio Social franquista (organização beneficente) havia habilitado como residência infantil, e depois na residência Vallcarca, também no bairro da Bonanova. Os jornais espanhóis da época apresentaram a chegada dos “órfãos de guerra poloneses” como prova do caráter humanitário do regime de Franco, quando na verdade o gesto correspondeu à necessidade do governo de se congraçar com os aliados vitoriosos e fazê-los esquecer suas simpatias pelos alemães derrotados. Nas negociações diplomáticas promovidas pelo Vaticano, a ditadura franquista assumiu o compromisso de facilitar o alojamento e os cuidados necessários, enquanto o governo polonês no exílio, estabelecido em Londres, que não reconhecia o poder comunista estabelecido em Varsóvia, se encarregaria da educação e “polonização” das crianças.

A experiência se estendeu por dez anos, período em que a maioria das crianças, já adolescentes ou jovens, foi devolvida à Polônia, muitas vezes contra sua vontade, e entregue a parentes que haviam sobrevivido. O que aconteceu com aqueles cujas origens não puderam ser estabelecidas? E o que terá acontecido com essa menina loura de olhos azuis, Teresa Lindner, que segundo o jornal “Pueblo” estava noiva de um espanhol estudante de engenharia?

Seguir o rastro dos órfãos poloneses não devolvidos a seu país era como perseguir a sombra de nuvens caprichosas que tanto se dirigiam para a Polônia como à França, EUA ou Reino Unido. Da lista de nomes colocados em busca sistemática na Internet, somente o de Aleksandra Gruzinska obteve uma resposta positiva no Google. Havia uma Aleksandra Gruzinska professora de francês na Universidade Estadual do Arizona (EUA), e na página figurava seu endereço eletrônico. Era a última oportunidade, e era preciso acreditar na sorte, por mais improvável que parecesse que uma pessoa de 75 anos continuasse profissionalmente ativa. O fato de manter seu sobrenome de solteira nos EUA também significava que não havia se casado, suposição que reduzia ainda mais as probabilidades.

“A senhora é a Aleksandra Gruzinska que chegou a Barcelona em 1946 por intermédio da Cruz Vermelha?” Como ocorreria depois com os demais interlocutores, a mensagem produziu um efeito devastador e um turbilhão emocional. Lembrar o passado nesses casos é abrir a caixa de Pandora das dores e traumas sofridos, dar rédea solta a recordações amargas e secretas que haviam sido convenientemente domadas e guardadas sob sete chaves. Ela tomou um tempo, avaliando se estava disposta a deixar-se envolver pela onda gigante que se formara em seu interior, mas cinco dias depois respondeu: “Sim, sou uma das meninas de Vallcarca”. E deve-se dizer que poucas vezes no exercício desta profissão se reage a uma mensagem com tal exclamação de alegria.

Aleksandra não pôde ou não quis então ir além (”Me despeço com muita emoção”, disse), mas depois encaminhou o jornalista para um manancial de informações, o tesouro documental dos “órfãos poloneses de Barcelona”, poderíamos dizer, que Cristina Tozer, filha da chanceler do consulado polonês em Barcelona, Wanda Tozer, guarda em sua casa em Madri. Ativista da resistência aos nazistas, perseguida pela Gestapo, Wanda Tozer hospedou em sua casa em Barcelona os pilotos poloneses derrubados na França e os soldados perdidos que tentavam chegar a Gibraltar ou Portugal para dali regressar a suas bases na Inglaterra.

“Às vezes eu encontrava a sala forrada de corpos”, lembra sua filha Cristina. “Minha mãe lhes dava documentos falsificados e dinheiro para que pudessem atravessar a Espanha.” A senhora Wanda foi a mãe espiritual das crianças roubadas pelos nazistas que chegaram à Espanha, além de sua professora de literatura e de polonês. Era a ligação entre as autoridades espanholas e o governo polonês no exílio.

Durante aqueles anos, a chanceler foi anotando as revelações que extraía de seus contatos com as crianças - “eu também era muito pequena e tinha ciúme dos cuidados que minha mãe lhes dava”, revela Cristina -, até decifrar o segredo que elas guardavam. Descobriu que em sua grande maioria as crianças procediam da Silésia, região que os alemães consideravam germânica e, portanto, potencialmente suscetível de abrigar os genes da raça ariana. Descobriu que muitas das crianças haviam tido seus sobrenomes trocados por outros, às vezes depreciativos, como Koziok (cabrito); que haviam apagado suas lembranças familiares e proibido o uso de sua língua; que tinham sido roubadas e humilhadas; que haviam passado por diversos orfanatos e que as maiores tinham sido abandonadas quando a guerra chegava ao fim e obrigadas a viver como selvagens nas florestas.

Wanda Tozer intuiu então o que os historiadores demorariam muito para comprovar: que na região noroeste da Polônia, incorporada ao Terceiro Reich com o nome de Wartehegau, as crianças de aspecto nórdico eram consideradas de origem alemã e foram germanizadas. Em seu livro “O Trauma alemão”, Gitta Sereny cita a ordem das SS número 67/1, na qual se menciona a “grande quantidade de crianças na Polônia que por seu aspecto são potenciais portadoras de sangue valioso para a Alemanha”. A jornalista austríaca afirma que nos atos punitivos contra a resistência a norma era executar todos os homens e enviar as mulheres para os campos de concentração, enquanto as crianças de seis meses a 2 anos eram enviadas para os lares Lebensborn e as maiores de 12, mandadas a trabalhar.

“A Gestapo levava as crianças à força, principalmente quando correspondiam claramente aos critérios de raça”, escreveu na época Wanda Tozer. “Os seis irmãos Wieczorek foram arrancados brutalmente dos braços de seus pais. Aleksandra Gruzinska, que seus companheiros chamavam de Olga, mal teve tempo de abraçar sua mãe. Bronislaw Zimmy foi tirado de um orfanato para ser germanizado. Jerzy Kaczynski e sua mãe foram levados à Alemanha para trabalhar duramente. Jadwiga Bronowicka viu de seu esconderijo em um palheiro os russos assassinarem seu pai…”

São textos até hoje inéditos, que Cristina Tozer encontrou em sua casa quando sua mãe morreu, em 1990. Em todos eles está latente a sensibilidade de uma mulher polonesa patriota e católica, capaz de compreender a dor da “segunda ruptura” que sofreram as crianças dadas em adoção a famílias alemãs e resgatadas pelos aliados no fim da guerra. “Não queriam ir com esses poloneses dos quais tinham ouvido dizer tantas barbaridades, e era preciso recuperá-las à força; elas mordiam ou davam pontapés em seus libertadores”, anotou Wanda. Às vezes só a música, as canções polonesas de ninar ou os cantos de Natal conseguiam penetrar nos espaços enclausurados da memória e acender a fagulha da recordação.

Apesar da imagem que trazem as fotografias de imprensa da época, as “cabecinhas louras que se espremem umas com as outras, vestem roupa militar e gorros americanos” que chegaram a Barcelona em diversas expedições estavam muito longe de alcançar o estado de felicidade. “Desenvolveram os instintos de sobrevivência próprios dos ambientes hostis e são desconfiadas, ásperas e egoístas. As meninas mais velhas, mais germanizadas, são exigentes, desobedientes e respondonas, um mau exemplo para as menores, que incitam à rebelião”, escreveu Wanda Tozer.

Sua filha lembra que aquelas crianças com as quais compartilhava aulas de polonês tinham sempre fome, mesmo quando acabavam de comer - o apetite insaciável dos que conheceram a fome. “Haviam passado tanta necessidade que guardavam as migalhas de pão embaixo dos colchões para quando chegasse a hora negra do estômago vazio. Além disso, remexiam no lixo da própria residência de Vallcarca e dos arredores, e arrasavam os limoeiros da casa e os pomares vizinhos”, comenta. Sem dúvida, como Wanda Tozer observou assombrada, embora as crianças não dividissem as coisas, também não roubavam entre si. À falta de família, muitas ataram com alguns de seus companheiros uma relação fraterna, que às vezes perdura até hoje.

As anotações de Wanda descrevem um quadro psicológico de pesadelos, angústia e depressão, à altura dos traumas e sofrimentos vividos. Crianças transtornadas, entregues à tarefa de destruir; claustrofóbicas que corriam de pijama da residência, acreditando fugir de um bombardeio; pequenos que só acalmam os nervos fazendo tricô.

Pouco a pouco, o tratamento das cuidadoras espanholas e dos professores e padres poloneses começou a dar frutos. Elas gostavam de Barcelona e desfrutavam da praia e do sol. A vida seguiu seu caminho. Nunca esquecerão a noite de 24 de dezembro. Estavam todas juntas com o olhar fixo no firmamento, esperando que aparecesse a primeira estrela que, na tradição polonesa, inaugura o Natal. Muitos anos depois, já casados e com filhos, continuariam telefonando da América, na hora espanhola, para felicitar a senhora Wanda pelo Natal.

Embora a residência Vallcarca fosse e continue sendo um edifício senhorial, sua vida também foi marcada pelo frio e a pobreza. É o que se depreende dos relatórios sucintos que Wanda Tozer elaborava periodicamente, dominando a duras penas seu desespero: “Não há leite no desjejum por falta de verbas. (…) A rotatividade do pessoal, por falta de pagamento, repercute nas crianças. (…) A falta de roupas e de cobertores é premente. Só têm vestidinhos de percal e adoecem por causa do frio. (…) O sapateiro se recusa a consertar os sapatos por falta de pagamento”.

Mas o verdadeiro drama era a dúvida que consumia vorazmente as crianças quando chegavam à adolescência. “Quem são meus pais?” “Sabe se minha mãe está viva?” Acostumada a resolver situações difíceis - abrandava os corações dos comerciantes barceloneses ou dos integrantes da comunidade judia polonesa e assim obtinha dinheiro para vestimentas, utensílios de higiene e até presentes de Natal - Wanda abrandava a depressão dos adolescentes convidando-os a merendar em sua casa e tocando piano para eles.

Com o tempo, a rede polonesa APWR de localização de desaparecidos obteve resultados e começaram a chegar as primeiras cartas dos parentes sobreviventes: “Procuramos você há dez anos, volte para casa!” O grupo foi diminuindo aos poucos. Sempre conduzidos por Werner, o mais velho, que nunca deixou de exercer o papel de pai responsável, os irmãos Wieczorek voltaram à Polônia. “Já resta só uma centena. (…) Ela encontrou sua mãe na Inglaterra, Mietek vai para a França. (…) Ficam só 80″, escreve Wanda, e começa a se perguntar o que poderá fazer com os demais, na maioria adolescentes e jovens, que ninguém reclama. Sabe que cada beliche desocupado é para eles um novo golpe, um buraco que amplia seu vazio interior, uma nuvem escura que ensombrece seu futuro.

A solução é encontrada nos EUA, na grande colônia polonesa de Buffalo, estado de Nova York. Wanda pensa que apesar de as crianças estarem aprendendo um ofício sempre encontrarão mais possibilidades na América do que na isolada Espanha franquista, que não consegue sair da pobreza. A despedida de Barcelona, a caminho de Madri, de Lisboa e da América, em 6 de julho de 1956, é dilacerante. Choram desconsolados enquanto cantam “Rozproszone polskie dzieci”, a canção “das crianças polonesas desgarradas”.

Muitos anos depois, algumas ainda censuram amargamente Wanda Tozer pelo fato de tê-las arrancado da Espanha. “Barcelona é nosso paraíso perdido”, resume hoje Aleksandra Gruzinska. É o que repetem todas aquelas crianças roubadas que, de Buffalo, do Arizona, da Virgínia, Califórnia ou Queensland (Austrália), aceitaram o convite de “El País” para remexer na memória sob o risco de alvoroçar seus corações. Sim, Barcelona é a palavra mágica, a porta que fechou o inferno de sua infância traumatizada e lhes devolveu o sorriso.

Todos e cada um deles têm um relato extraordinário que não cabe nas páginas de um jornal. Fixemo-nos principalmente naquela menina loura de olhos azuis, Teresa Lindner, que estava noiva de um estudante de engenharia espanhol. Ela vive em Manassas, estado da Virgínia (EUA), casou-se e hoje se chama Teresa Gilbert, tem três filhos e dois netos. Não voltou à Polônia. “Para que voltar se não sei onde procurar? Meu drama é que nunca soube meus sobrenomes. Os alemães me tiraram de casa quando eu devia ter 4 ou 5 anos, e nessa idade os pais não têm outros nomes além de papai e mamãe. Me deram o sobrenome Lindner e sei que no primeiro orfanato estive com minha irmã, que depois nos separaram e nunca mais a vi. Creio que éramos gêmeas, porque tínhamos dois vestidos iguais com um laço azul, que minha mãe nos punha para ir à missa, e nunca sabíamos muito bem qual era de quem, até que manchei o meu com uma maçã. Sei também que tinha um irmão, porque um dia…”

Embora tivesse se preparado animicamente para o encontro, Teresa Lindner explode em soluços, mas continua com a voz entrecortada: “Porque um dia, pouco antes que chegassem os alemães, eu quase cortei um dedo do meu irmão menor e minha mãe ficou muito zangada. Me bateu e perguntou como eu podia fazer diabruras enquanto meu pai estava morrendo. ‘Reze para que seu pai não morra’, foram suas palavras”. Teresa lembra que uma vez foi vê-las no orfanato e se despediu dizendo que voltaria “logo”.

Terminou na Áustria, nas mãos de uma família alemã. “Aquela mulher [Teresa não usa a expressão “mãe adotiva”] veio certa manhã me buscar no colégio. Me assustei e pensei que iam me castigar, mas no caminho me contou que havia uns militares em sua casa e que eu só devia responder ‘não sei, não sei’, em alemão. Não podia fazer outra coisa, porque eu não sabia mais falar polonês, mas como me pareceram simpáticos e me ofereceram um chocolate acabei indo com eles. Terminei no campo de refugiados de Salzburgo, onde havia muitas crianças de todo lugar. Foi muito duro. Afinal nos levaram para a Itália e daí embarcamos para Barcelona. Vallcarca é a residência mais bela que vi em minha vida.”

Pergunto-lhe o que aconteceu com aquele namorado espanhol e me diz que romperam quando ela começou a trabalhar nos EUA, mas que voltou a vê-lo 20 anos depois e que ele ainda deve guardar algum objeto seu.

Maxsymiljan Jadoch também não sabe seu verdadeiro sobrenome, só que as razões pelas quais apagaram seu nome podem ser diferentes das que intervieram no caso de Teresa. Ele não tem recordações anteriores à sua vida em um orfanato da Silésia, mas nunca esqueceu que uma mulher que o visitava de vez em quando lhe havia dito que iria buscá-lo quando acabasse a guerra. “Em Barcelona odiei essa mulher com todas as minhas forças”, ele diz. “Vivi a adolescência angustiado diante do futuro, torturando-me com as perguntas: Onde estão meus pais? Quem sou eu?”

Ele encontrou sua suposta mãe, uma suíça que ainda vive, mas seria mais correto dizer que encontrou um fantasma. “Há 22 anos”, continua Maxsymiljan, “recebi uma carta da Cruz Vermelha alemã com a mensagem de que havia uma pessoa que me procurava. Duas semanas depois me chegou um telegrama de uma mulher que dizia que tinha cuidado de mim no orfanato e que queria me ver. Fui visitá-la na Alemanha, mas essa bruxa não quis me contar a verdade. Tinha medo que se ventilasse o passado e nem sequer quis admitir que era minha mãe. Só me disse que tinham mudado meu sobrenome e que jamais conheceria meu pai. Sei que ela teve um filho com um alemão, e que esse filho, Hans, é extraordinariamente parecido comigo. Não voltarei a vê-la até que me diga quem sou.”

Max continua se sentindo estrangeiro nos EUA, mesmo vivendo ali há 52 anos, depois de ter se casado e tido dois filhos. Diz que pertence à Europa, a Barcelona. “Só de ouvir a palavra Barcelona me desatam todas as emoções, porque ali passei os melhores anos da minha vida depois de meu calvário pela Checoslováquia e a Áustria. Sabe que tive uma namorada catalã?” Esse homem de 72 anos cita de cor o nome, os dois sobrenomes e o endereço exato daquele primeiro amor.

Também Josef Szpaczkek, que vive em Queensland (Austrália), lembra daquela “menina preciosa”, Antoñita, de Pamplona, que conheceu no sanatório em que esteve hospitalizado. “Decidi aperfeiçoar meu espanhol para poder seduzi-la, mas nos levaram para a América.”

Ao contrário de outras crianças roubadas que decidiram negar-se a olhar para o passado, para que a ferida não continuasse sangrando, para que a memória ficasse sepultada sob uma lousa de esquecimento tão pesada que já não pudesse aflorar na consciência, Eric Plocica, que hoje reside em Venice (Califórnia), procurou e continua procurando respostas para suas interrogações. Ele reconstruiu o tortuoso e penoso caminho que seguiu desde seu orfanato em Bielsko (Alta Silésia) até Barcelona; comprovou datas, cidades e países, anotou os bombardeios que sofreram quando as crianças e seus guardiães escapavam dos russos.

Também não negou a seu cérebro as barbaridades que seus olhos de menino contemplaram. “As crianças eram um tesouro nacional e os alemães fizeram o impossível para que não fôssemos parar nas mãos dos russos, até que um dia, ao despertarmos, vimos que nossos cuidadores haviam desaparecido.” Engajado na marinha americana, Eric sempre aproveitou quando a Sexta Frota atracava nos portos espanhóis para visitar a “senhora Wanda” e relembrar sua estada em Vallcarca. “Ao chegar a Barcelona, soube que minha vida estava salva. Não me sinto 100% americano, sou mais espanhol que outra coisa, e apesar de a Espanha ter-se americanizado bastante, me encanta o temperamento, o ambiente, o idioma [fala um bom espanhol], a comida, o sol. Essa foi minha pátria.”

Ele prefere não falar de suas primeiras recordações. Diz somente que seu caso é mais triste que o de outros e que além disso também não sabe muito bem o que aconteceu. “Eu não tinha família.” E como uma infância tão dura afeta a personalidade? Ele responde que as crianças se adaptam melhor que os adultos. “Nunca nos faltaram as lágrimas e sempre nos acompanhou o medo de perder a vida, mas, não sei se por inconsciência ou por quê, confiávamos mais que os maiores em poder sobreviver.”

Sobreviveram, e logo apreenderam a valorizar o que realmente conta na vida, depois de ter conhecido as entranhas do inferno humano. Eles sabem de que pasta suja é feita a humanidade. Que as crianças sem nome de Barcelona, feridas de guerra, encontrem sossego na fraternidade universal e no reconhecimento dos que conhecem sua história.

“El País”

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As veias abertas, a dependência e a geografia da fome na AL

Roberta Traspadini

EM 1970, o uruguaio Eduardo Galeano, terminava de escrever um dos mais deliciosos e profundos livros sobre nosso continente: As veias abertas da América Latina.
Entre as várias argumentações desenvolvidas por ele, estava a constatação de que a América Latina era o território escravizado pelos EUA em seu afã de seguir hegemônico no cenário imperialista mundial.
Galeano explica, como Josué de Castro o havia feito há alguns anos, em seu livro Geografia da Fome, que o subdesenvolvimento não podia ser entendido fora da lógica geral de funcionamento do modo de produção capitalista. Dizia o autor: “nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neo-colonial, o outro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno.”
Contemporâneo de Galeano, Marini, um mestre e tanto, que como os outros não separava teoria de ação revolucionária, nem prática de reflexão concreta sobre o real e o possível dentro do real de ser transformado, escrevia na dialética da dependência, que o resultado do desenvolvimento capitalista seria a miséria de nossos povos.
Nos ensinam esses mestres que a característica histórica da América Latina foi, e é, a de ter suas riquezas naturais, energéticas e vitais (a partir do pulsar da força de trabalho que habita no continente), apropriadas privadamente pelos detentores hegemônicos do modo de produção-acumulação capitalista central. Esse servir, baseado na perda do que é próprio, se sustenta nos históricos vínculos de dependência e subordinação centrados no poder dos países hegemônicos sobre a periferia.
Os dados atuais (CEPAL) da América Latina nos mostram não só o quanto vem sofrendo ao longo da história a maior parte de nossos sujeitos-sujeitados pelo capital, mas, também, o terreno fértil da continuada super exploração do trabalho no continente. Um mecanismo que nos anos de 1940-1960 era particular do continente e que agora evidencia sua projeção global.
A América Latina faz escola na reprodução ampliada da lógica animal do capital, cujos donos irracionais vivem bem porque sujeitam muitos a viverem mal. É do roubo do tempo que falamos. Cada vez mais, o capital global rouba mais tempo, ao pagar menos salários e quebrar todos os direitos trabalhistas, como forma de não romper seu circulo vicioso da riqueza centrado na pobreza da condição humana.
Esse mecanismo de extrair sobretrabalho do mesmo tempo de trabalho de outros sujeitos em outras partes do mundo foi a característica particular encontrada pelo capitalismo periférico para compensar suas perdas nos mercados mundiais, cujo centro de produção de valor e de preço de mercado estava nas mãos de capitalistas centrais mais poderosos que os latinos.
Enquanto os trabalhadores centrais eram considerados consumidores, uma vez que a produção tinha como vínculo o consumo-mercado interno e externo, os da periferia, como nós, os latinos, não eram consumidores diretos dos bens produzidos, uma vez que o objetivo central do capital latino era, e é, produzir para exportar.
Essa diferença do modo de funcionamento da produção e da circulação de mercadorias foi o que permitiu uma forma particular de acumulação privada do capital latino, frente à sua forma geral de funcionamento mundial. É por meio da economia política que Marini nos ensina o quanto a América Latina, por ser rica, tinha sua desgraça centrada na debilidade política.
Elemento que a faria ser pobre nas condições objetivas de realização da sobrevivência de sua população, dado o poder hegemônico dos países centrais em ditar as regras (inter)nacionais das relações econômicas mundiais. Como Galeano e Marini, Josué de Castro também reforçava o fato de que o subdesenvolvimento é o resultado de um processo de desenvolvimento centrado nos grandes, a partir das múltiplas formas de roubo de nossas riquezas; América Latina sem identificação soberana e autônoma consigo mesma, frente à hegemonia dos centros.
Dizia o mestre Josué: “O subdesenvolvimento não é, como muitos pensam equivocadamente, insuficiência ou ausência de desenvolvimento. O subdesenvolvimento é um produto ou um subproduto do desenvolvimento, uma derivação inevitável da exploração econômica colonial ou neocolonial, que continua se exercendo sobre diversas regiões do planeta”.
Essas veias abertas, que fazem com que o capital avance na intensificação da exploração do trabalho e da apropriação privada dos recursos naturais de nossa América, chegam no século 21 com suas marcas visíveis sobre o corpo dos povos latinos.
Atualmente somos 580 milhões de latino-americanos (em 2010, seremos 594 milhões). 79,1% desta população vive nas cidades (458 milhões) e 120 milhões vivem na área rural. Destes, 35,1% vivem em situação de pobreza. Outros 12,7 % vivem em situação de indigência (miséria absoluta). Estamos falando de um total de 203 milhões de pobres e 73 milhões de indigentes.
Um destaque importante é relativo ao nível da pobreza e indigência da população rural latino-americana. Quando comparados os números com a média total da população, vemos que a pobreza chega a 53,6%, e a indigência engloba um total de 28,7% de nossa população camponesa.
Somos um número expressivo de marginais em um território rico. Os condenados da terra, não por desígnios divinos, mas por ordens animalescas advindas de expropriadores privados das riquezas soberanas, autônomas, que por mais que nos pertençam, ainda não são nossas. Falamos de um total de 276 milhões de pessoas vivendo em situações marginais num continente que permanece, após longos séculos de exploração e expropriação, rico em recursos e pobre no poder de distribuição para si mesmo, e seus sujeitos, desta riqueza.
O imperialismo encontra na América Latina um terreno fértil de reprodução de suas mazelas político-econômico- ideológicas: o subimperialismo. A capacidade de reproduzir, a partir do mando dos países centrais, a mesma lógica perversa de apropriação, via Estados soberanos nacionais, das riquezas dos países politicamente mais débeis do continente, a partir do poder das economias mais fortes. Um círculo vicioso da pobreza capitalista, centrada na acumulação da riqueza de nossos bens. Os Estados centrais, em parceria com os Estados latinos, roubando, em nome do capital, os recursos do nosso território e jogando à mendicância parte expressiva de nossos trabalhadores, povos autônomos, seres para si, fora de si mesmos, em seu continente.
Em 2010, 276 milhões constituirão a PEA, distribuída entre 163 milhões de homens e 113 milhões de mulheres em idade produtiva para estar incluída no setor formal da economia. Entre estes, teremos um total de 202 milhões de jovens com 15 a 34 anos de idade. Destes jovens, 100 milhões são homens e outros 102 milhões são mulheres. A população juvenil latina corresponde a 33,9% da população total e 73,9% da população apta a trabalhar.
Ao pensar as características da super exploração na América Latina hoje, temos que ver quanto o capital, a partir dessa expressiva quantidade de jovens (homens e mulheres, e entre eles a distinção de etnias/raças), conta com um terreno fértil de apropriação privada das riquezas a partir da intensificação da exploração do trabalho.

Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES

“Brasil De Fato”

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Quem é Gyanendra, o último monarca hindu que foi deposto no Nepal

Georgina Higueras

Os nepaleses não cabem em si de tanta alegria. Desde que, na noite de quarta-feira (28/05), a Assembléia Constituinte eleita em abril votou quase que por unanimidade pelo fim da monarquia, só um grito tomou conta das ruas: “Viva a República do Nepal”. Gyanendra, o rei destronado, foi expulso à força. Desde o momento em que assumiu o trono da única dinastia hindu do planeta, em 2001, conquistou a animosidade de seu povo, contra o qual se empenhou em governar de forma absolutista.

No sábado (31/05), Gyanendra fez as malas. Seu secretário Pradeep Aryal indicou que o ex-rei “aceita a decisão histórica da Assembléia Constituinte e deixará seu palácio de forma pacífica”. Segundo o acordo, ele tem 15 dias para abandonar sua residência, o Palácio de Narayanthiti, situado no centro de Katmandu, que será aberto imediatamente ao público como museu nacional. Os sete palácios que eram de propriedade da realeza foram nacionalizados no ano passado.

O Nepal é um dos dez países mais pobres do planeta. Cerca de 80% de seus 27 milhões de habitantes são hindus e até a instauração da república democrática, laica e federal, o país era o único Estado hinduísta. Já não poderá mais ser chamado de Reino das Montanhas, mas continuará sendo visto como o país do teto do mundo já que oito dos 14 cumes mais altos do planeta estão nos seus 147.181 quilômetros quadrados de extensão.

Nada parecia indicar que este príncipe, com negócios rentáveis na indústria de tabaco e no turismo, se tornaria o 13º monarca da dinastia Shah, que dirigia o Nepal desde sua reunificação em 1768. Foi a terrível chacina de toda a família real que fez com que ele ficasse com o reino. Supostamente foi o príncipe herdeiro Dipendra que assassinou os pais, a irmã e outros quatro parentes durante um jantar e depois se suicidou, porque a família não aceitava sua namorada. O jovem, que entrou em coma, foi coroado rei em meio à comoção popular, mas morreu três dias depois, enquanto isso se espalhavam pela capital nepalesa os rumores de que ele tinha levado seis tiros nas costas. Todos os familiares foram cremados imediatamente e Gyanendra, que estava fora do Nepal quando ocorreu a tragédia, voltou ao país para tornar-se rei.

Se a alegria dos nepaleses foi notável nesta semana, aqueles dias de junho de 2001 transbordaram tristeza. Centenas de homens e mulheres com a cabeça raspada (sinal de luto para os hindus) percorreram as ruas de Katmandu. “Amamos nosso rei. Enforquem o culpado”, gritavam em coro exigindo que se investigasse a matança no palácio, fato no qual muitos viram a sombra de Gyanendra. Como única resposta, o novo rei, em sua primeira mensagem à nação, instalou-se na mentira e declarou que a tragédia deveu-se a “disparos acidentais de uma arma automática”.

Encarnação do deus Vishnu, o monarca nepalês tinha uma natureza divina e sua mera presença impunha reverência, oração e obediência cega. Mas Birendra era capaz de entender os novos tempos no mundo todo e as demandas populares por democratização. Após as primeiras manifestações exigindo que deixasse o poder, converteu-se num monarca constitucional e abriu a porta para as eleições livres. Seu irmão mais novo, Gyanendra, criticou duramente a decisão e acusou o popular monarca de ser fraco. Seus desejos absolutistas tornaram-se mais intensos depois que uma petição, assinada por 500 mil pessoas, foi enviada ao rei Birendra solicitando ao monarca que revogasse o título de alteza real de Paras, primogênito de Gyanendra, um personagem odiado por seu despotismo e acusado de atropelar e matar um cantor popular.

Se fosse coroado rei, disse que não seria tão passivo quanto seu irmão e que desempenharia um papel mais ativo na vida política do Nepal. Levou apenas alguns meses para mostrar até que ponto ele contrariava os direitos do povo e estava determinado a aniquilar a guerrilha maoísta que desde 1996 lutava contra a monarquia. De fato, os maoístas usaram precisamente a matança na família real para convencer os camponeses mais crentes de que a monarquia não tinha natureza divina.

Depois de alguns meses em estado de emergência e após envolver o exército na luta contra a guerrilha, os maoístas estavam cada dia mais fortes. Foi então que Gyanendra abriu um pouco seu punho de ferro e permitiu que os partidos políticos formassem um governo, ao qual deu como primeira missão conter a insurgência. Mas logo voltou ao seu caráter antigo.

Gyanendra foi o único monarca que deu dois golpes de Estado em um mesmo reinado. Com a desculpa de acabar com a guerra fratricida, em fevereiro de 2005, voltou a destituir totalmente o Governo e o Parlamento, instaurou a censura nos meios de comunicação e prendeu políticos e ativistas. Distante da realidade, pensou que a comunidade internacional aceitaria sua jogada por estar voltada principalmente contra a guerrilha maoísta, que pretendia converter o Nepal numa república comunista.

Desde então governou como um monarca absolutista até que a revolta popular de abril de 2006 convenceu-o de que tinha de devolver o poder ao povo para tratar de salvar a coroa do Nepal e sua própria vida.

O processo de paz iniciado desde então entre o governo e a guerrilha maoísta permitiu a celebração de eleições livres para eleição de uma Assembléia Constituinte, de 601 membros, que fará às vezes de Parlamento até que seja redigida uma nova Carta Magna do país. Além disso, ela escolherá nos próximos dias o governo que vai dirigir o país até a realização de eleições sob a nova Constituição.

À espera do astrólogo
Isolado e trancado no Palácio Rosa de Narayanhiti, no centro de Katmandu, o deposto rei Gyanendra, de 61 anos, recorreu a seus astrólogos para decidir seu futuro. Por enquanto, eles buscam o dia mais propício para o rei sair de sua antiga residência oficial, que já foi nacionalizada e hoje leva a bandeira nacional nepalesa em vez do estandarte real.

A data deve ajustar-se ao prazo de duas semanas que o governo lhe concedeu para abandonar Narayanhiti, iniciado na quarta-feira, 28 de maio, quando recebeu a notificação oficial de que havia se tornado um cidadão comum, que deve respeitar as leis e pagar impostos por sua riqueza. Os astrólogos haviam aconselhado que a nova vida civil de Gyanendra começasse em julho, data em que termina sua fase astrológica “sombria”, mas terão de encontrar um dia mais próximo.

Tudo indica que o ex-monarca absolutista, que não fez um comentário público sequer desde que foi deposto, voltará a viver no bairro residencial de Katmandu no qual morava quando era um príncipe dedicado à poesia, aos negócios e, talvez, à confabulação da maior matança palaciana da história do mundo.

“El País”

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A economia da Tunísia: um milagre ou uma miragem?

Florence Beaugé

Na mesma proporção em que a Tunísia apresenta uma imagem negativa em matéria de direitos humanos, ela também goza de uma boa reputação no campo econômico. O “país do Jasmim” - onde o presidente Nicolas Sarkozy fará uma visita oficial de 28 a 30 de abril - é considerado como um Estado modelar pelas instituições multilaterais e pelo Ocidente: ele honra as suas dívidas e vem se mostrando estável, ou seja, o seu comportamento tranqüiliza. Embora ela não disponha das mesmas fabulosas reservas em hidrocarbonetos que os seus vizinhos, a Tunísia desponta em parte como um modelo entre os países da Bacia Mediterrânea. Um país limpo, dotado de infra-estruturas, educado, onde os direitos das mulheres são os mais avançados no mundo árabe-muçulmano. A Tunísia é também um dos destinos prediletos dos franceses. Todos os anos, 1.350.000 deles nela costumam passar as suas férias, a um custo razoável e em segurança. Não há favelas (em francês, bidonvilles), e sim apenas algumas “gourbivilles” (o “gourbi” é uma habitação rudimentar típica dos países do norte da África) em decorrência do êxodo rural, mas não há nenhuma miséria gritante.

Diante da impossibilidade de fazer comércio com os seus vizinhos (a União do Magreb - nome que engloba os países da África do Norte - árabe não consegue decolar), a Tunísia se voltou para a União Européia, no quadro, entre outros, do acordo de associação que desembocou, em janeiro de 2008, na implantação do livre comércio dos bens industriais. “Nós temos a cultura da exportação nos nossos genes desde a Cartago fenícia”, lembram os tunisianos, sorrindo. Os dois principais motores da economia são as exportações e o consumo das famílias. As primeiras são estimuladas pelos investimentos estrangeiros, no quadro do regime conhecido como de “offshore” (espécie de zona franca) para os produtos cuja fabricação é terceirizada (os elementos que entram na fabricação desses produtos e as exportações são livres de direitos e taxas). Este setor fornece empregos pouco remunerados. O consumo é incentivado pelos créditos, cujo montante total duplicou desde 2004, o que tem como conseqüência um pesado endividamento das famílias.

Companhias francesas são as principais empregadoras estrangeiras

A França continua sendo o maior cliente da Tunísia e o seu principal fornecedor, apesar de diminuição da sua parte de mercado. E a Tunísia é o 23º parceiro da França, na frente do Marrocos e da Argélia.

Em 2007, o valor global das transações comerciais entre os dois países alcançou um nível recorde de cerca de 7 bilhões de euros (cerca de R$ 19 bilhões), o que representa um aumento de 14% em relação a 2006, em benefício da Tunísia, pelo terceiro ano consecutivo. A França comprou da Tunísia produtos no valor de 3,8 bilhões de euros (cerca de R$ 10,5 bilhões), mas as suas vendas não ultrapassaram 3,2 bilhões de euros (cerca de R$ 8,5 bilhões). A França se classifica em quarto lugar no ranking dos países que investem na Tunísia (depois da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e da Itália, que investem principalmente no setor energético). O número das companhias francesas que operam na Tunísia é duas vezes maior do que no Marrocos, e três vezes maior do que na Argélia. No total, a França permitiu a criação de mais de 100.000 empregos diretos, o que a coloca no primeiro lugar entre os empregadores estrangeiros na Tunísia, segundo dados da Missão Econômica francesa em Túnis.

Aumentos dos preços
A classe média tunisiana costuma ser considerada como o fator chave do crescimento. Contudo, os detratores do presidente Ben Ali, que está no poder desde 1987, garantem já faz muitos anos que “a classe média vem passando por um processo de erosão”. “Isso não é verdade”, responde o ministro do desenvolvimento e do investimento exterior, Mohamed Nouiri Jouini, para quem, ao contrário, ela não pára de crescer e engloba atualmente 80% da população ativa.

Para quem entende como pertencentes à “classe média” pessoas que têm moradia própria, a estimativa é efetivamente de que mais de 80% da população pertence a esta categoria. Mas, se levarmos em conta a renda e o poder aquisitivo, as dúvidas começam a surgir. “A classe média está encolhendo, mas de maneira imperceptível. Este processo não aparece claramente por duas razões: cada vez mais os tunisianos tendem a multiplicar os pequenos empregos, ainda que isso lhes custe jornadas de condenados, e, além disso, eles vivem a crédito”, sublinha Hacine Dimassi, um professor de economia na universidade de Sousse. Para ele, a classe média está “laminada” não pelo imposto direto, mas sim pelo imposto sobre o consumo. “As pessoas estão vendo o seu orçamento ser corroído aos poucos. Elas percebem muito bem que o seu poder aquisitivo está diminuindo, mas este é um fenômeno pouco claro”, comenta. Exemplos: a água, o telefone e a eletricidade, sobre os quais pesa uma TVA (taxa sobre produtos e serviços) de 16%; a alimentação, cujos preços deram um salto de 10% em um ano. E ainda a gasolina, cujos preços na bomba sofreram aumentos em oito oportunidades no espaço de dois anos, ou seja, de 40%.

Contudo, a Tunísia é um país produtor de petróleo. A exploração das suas pequenas bacias petrolíferas por muito tempo foi considerada cara demais, mas a situação mudou drasticamente com os aumentos vertiginosos das cotações do barril, os quais fizeram com que as receitas das exportações aumentassem nitidamente desde 2006. No presente momento, a Tunísia continua exportando todo o seu petróleo bruto (o qual ela não tem a capacidade de refinar) e importando a totalidade dos combustíveis que ela consome. Com isso, a fatura petroleira continua sendo uma obsessão para as autoridades.

“Diplomados desempregados”
A outra chaga da Tunísia é a questão dos “diplomados desempregados”. Caso eles não tiverem ninguém bem situado entre as suas relações, estes jovens formados na Universidade tunisiana se vêem oferecer, no melhor dos casos, um emprego nos hotéis turísticos ou de telefonista nos call centers. Oficialmente, a porcentagem de diplomados desempregados é de 17%. Mas, na realidade ela seria muito mais elevada.

Muito mais do que as liberdades vilipendiadas, é o desemprego dos jovens que exaspera a população, provocando rancores e desejos de partir em exílio. A isso vem se acrescentar a medíocre qualidade do ensino ministrado nos cursos secundário e superior. “Nós ganhamos a aposta da quantidade: atualmente, 75% dos jovens tunisianos obtêm o seu baccalauréat (diploma de conclusão dos estudos secundários). Agora, nós precisamos ganhar a aposta da qualidade”, admite o ministro do desenvolvimento. Em 2007, foi iniciada uma reforma destinada a reabilitar a formação e o ensino profissionais.

Por enquanto, a frustração é grande. Muitos são os que se sentem preteridos do “milagre” econômico tunisiano, no qual eles não enxergam nada além de uma “miragem”. O avassalador sucesso financeiro dos amigos e familiares do presidente Ben Ali e da sua mulher vem atiçando ressentimentos e rumores. Para os tunisianos, de um lado existe uma turminha de muito ricos que beneficiam da globalização e, sobretudo, do “sistema” implantado por Ben Ali, baseado no clientelismo, conforme descreveu a universitária Béatrice Hibou em seu livro “La Force de l’obéissance” (A força da obediência, publicado na França pela editora La Découverte, 2008); e, de outro, uma massa de quase pobres, condenados aos baixos salários e a se virarem como podem. Na realidade, o verdadeiro problema na Tunísia não é nem tanto a criação da riqueza quanto a justa repartição desta riqueza.

“Le Monde”

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O que é a globalização

Sob o título “O mercado contra o Estado”, Ignacio Ramonet – editor do Le Monde Diplomatique e autor de “Biografia a duas vozes”, entrevista de cem horas com Fidel Castro (Boitempo Editorial) – dá uma sintética e competente definição da globalização neoliberal.

Usemos este texto como tema de discussão, para entender melhor os problemas do nosso tempo, do mundo e do Brasil. É um bom texto para ser reproduzido e utilizado em seminários de debate.

“O que é a globalização? O enfrentamento central do nosso tempo. Aquele do mercado contra o Estado, do steor privado contra os serviços púiblicos, do indivíduo contra a coletividade, dos egoísmos contra as solidariedades.

Por todos os meios, o mercado procura ampliar sua área de intervenção em detrimento do Estado. É por isso que as privatizações se mutliplicam em todos os lados. Elas são, de fato, simplesmente tranferências para os setor privado de fragmentos (empresas, serviços) do patrimônio público. O que era gratuito (ou mais ou menos barato) e à disposiçáo de todos os cidadãos sem distitnção se torna pago ou mais caro. Esta grande regressão social tem sobretudo relação com as camadas mais pobres da população. Porque os serviços públicos são o patrimònio dos que não têm patrimônio.

A globalização é também, pelo mecanismo das trocas comerciais, a interdependência cada vez mais estreita das economias de numersos países. O fluxo das exportações e das importações aumenta regularmente. Mas a globalização das trocas se refere sobretudo ao setor financeiro, porque a liberdade de circulação dos fluxos de dinheiro é total. E isto faz com que este setor domine, com grande vantagem a esfera da economia.

As pessoas que detêm fortunas se encontram, para mutliplicar seu capital, diante da seguinte alternativa: seja investir seu dinheiro na Bolsa (não importa em que Bolsa do mundo, pois os capitais circulam sem entraves), seja investi-lo em um projeto industrial (criação de uma empresa de fabricação de produtos de consumo). Neste caso, a rentabilidade média é de entre 6 e 8% na Europa. Em compensação, no caso de um investimento na Bolsa, a rentabilidade pode chegar a níveis muito mais altos (na França, em 2006, os mercados bursateis conheceram uma alta de 17,5%, na Alemanha de 22% e na Espanha de 33,6%!)

Diane de diferenças tão grandes, os proprietários de capitais só aceitam investir na indústria (onde são criados empregos) com a condição de que isso lhes renda cerca de 15% ao ano. Mas vimos como a rentabiliade média para esse tipo de investimento na Europa é de entre 6 e 8%. O que fazer? Pois bem, investir na China ou na Tailândia, por exemplo, países nos quais, em razão dos custos muito baixos da mão de obra, o retorno sobre o investimento pode chegar e até superar os 15%. É por isso que tantos investimentos são feitos atualmente, principalmente na China.

E como a finalidade do exercício consiste em fabricar com baixos custos nos países pobres para vender a preços muito altos nos Estados ricos, isso leva a uma avalanche de produtos importador dos países-fábricas e vendidos, por exemplo, na Europa. Aqui eles competem deslealmente com os mesmos produtos fabricados no Velho Continente com custos de mão de obra mais altos porque os direitos sociais dos trabalhadores são aqui – felizmente – mais importantes. Em conseqüência as empresas européias vão à falência e numerosos outras são obrigadas a fechar as portas e a licenciar seus trabalhadores.

Para sobreviver, alguns capitalistas optam por “deslocalizar”, isto é, transferir seu centro de produção para um país com mão de obra barata. O que se traduz, também nesse caso, nos países ricos, em fechamento de empresas e em desemprego.

A globalização atua assim como uma mecânica de triagem permanente sob o efeito de uma concorrência generalizada. Há concorrência entre o capital e o trabalho. E, como os capitais circulam livremente, enquanto os homens são muito menos móveis, quem ganha é o capital.

Da mesma forma que oa grandes bancos ditaram, no século XIX, sua atitude para numerosos países, ou como as empresas multinacionais o fizeram entre os anos 1960 e 1980, os fundos privados dos mercados financeiros têm agora em seu poder o destino de muitos países. E, em certa medida, o destino econômico do mundo.

Os mercados financeiros estão em condições de ditar suas leis aos Estados. Nessa nova paisagem político-econömica, o global se impõe sobre o nacional, a empresa privada sobre o Estado. Náo há praticamente mais distribuição de renda e o único ator do desenvolvimento – nos dizem – é a empresa privada, o único reconhecido como competente em escala internacional. E assim o único motor em torno do qual – nos dizem – é preciso reorganizar tudo.

Em uma economia globalizada, nem o capital, nem o trabalho, nem as matérias primas constituem, em si, o fator econômico determinante. O importante, é a relação ótima entre esses três fatores. Para estabelecer essa relação, uma emrpesa não leva em conta nem as fronteiras, nem as regulamentações, mas apenas a exploração mais rentável que ela possa fazer da informação, da organização do trabalho e da revolução da gestão. Isso produz sistematicamente uma fratura das solidariedades dentro de um mesmo país. Ocorre assim um divórcio entre o interesse das empresas e os interesses da coletividade nacional, entre a lógica do mercado e a lógica da democracia.

As empresas globais fingem que não têm nada com isso: elas sub-contratam e vendem no mundo inteiro; e reivindicam um caráter supra-nacional que lhes permita atuar com uma grande liberdade porque não existe, para dizê-lo de alguma maneira, instituições internacionais com caráter político, econômico ou jurídico em condições de regulamentar eficazmente seu comportamento.

A globalização constitui assim uma imensa ruptura econômica, política e cultural. Ela submete os cidadãos a uma regra única: “adaptar-se”. Abdicar de qualquer vontade, para obedecer mais às injunções anônimas dos mercados. Ela constitui o ponto de chegada final do economicismo: construir um homem “mundial”, esvaziado de cultura, de sentido e de consciência do outro. E impor a ideologia neoliberal em todo o planeta”.

(Publicado em “Les dossiers de la mondialisation”, Manière de voir de Le Monde Diplomatique – janeiro-fevereiro de 1007-
(Tradução de Emir Sader)

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Os conflitos dos últimos 25 anos

Nelson Bacic Olic

Desde a Queda do Muro de Berlim em 1989, o sistema político internacional passou por grandes transformações, sem que isso fosse acompanhado de guerra, pelo menos de conflagrações bélicas de dimensão equiparável aos dois grandes conflitos mundiais que ensangüentaram o século XX.

A desagregação do império soviético e a unificação da Alemanha introduziram alterações profundas no cenário político europeu e mundial sem que houvesse guerra. A antiga Checoslováquia separou-se em dois países sem guerra. Embora a desintegração da Iugoslávia socialista tenha acontecido com grande violência e que conflitos continuem ocorrendo em várias regiões do Cáucaso (Chechênia, Geórgia) e da África subsaariana, mas estas são guerras razoavelmente localizadas, bem diferentes das “guerras globais”.

Há uma certa rarefação do fenômeno guerra, embora isso não queira dizer que o nosso mundo esteja menos afetado pela violência que no passado, mas tornaram-se raras as guerras convencionais que opunham uma nação à outra. O balanço que se pode fazer dos conflitos nos últimos 25 anos mostra como foram escassas as guerras entre dois Estados.

Além disso, numerosos pontos de crise e zonas sensíveis, onde existiria probabilidade de conflito como entre as duas Coréias ou as duas Chinas, não redundaram em guerra. As poucas guerras de conquistas que se verificaram não tiveram resultados positivos, no sentido em que nenhum Estado agressor, nenhum país que teve a iniciativa de desencadear operações militares com intuitos de conquista, salvo uma ou outra exceção pouco significativa, alcançou seus objetivos.

No passado, a maioria das guerras tinha motivações territoriais, fossem litígios fronteiriços, fossem reivindicações de territórios, fossem ambições expansionistas e terminavam muitas vezes pela ocupação e submissão de uns povos a outros. Atualmente, a conquista territorial parece ter caído em desuso e, quem inicia uma guerra de conquista, perde-a.

Isso ocorreu, por exemplo, quando no final da década de 1970, a Somália pretendeu conquistar a região do deserto de Ogaden da Etiópia, ou quando a Argentina tentou recuperar pela força as ilhas Malvinas então sob domínio britânico (1982), ou ainda quando o Iraque atacou o Irã para anexar a outra margem do Shatt-el-Arab (conflito que durou de 1980 a 1988) e, anos mais tarde quando o Iraque invadiu o Kuwait (1991). Mais recentemente, o mesmo aconteceu quando a Eritréia se dispôs a recuperar uma faixa de território dos etíopes (1998/2000). Em todos esses casos, as guerras fracassaram sem a vitória dos agressores.

Por outro lado, desde a China e o Vietnã até a Argélia e as colônias portuguesas da África, passando por Cuba e Nicarágua, as guerrilhas foram somando êxitos, nessa dupla vertente de lutas de libertação e de instauração de regimes revolucionários.

Mas essa promessa deixou de se cumprir a partir da década de 1980. A revolução sandinista da Nicarágua parece ter sido o último episódio de uma “luta popular prolongada” vitoriosa. A partir de 1980 nenhum movimento de guerrilha chegou ao poder pela via armada, com exceção da Frente Popular de Libertação da Eritréia, a qual mesmo assim se submeteu a um referendo de legitimação.

Ao mesmo tempo, um novo fenômeno despontou: a guerrilha passou a ser usada, não mais pelas forças de esquerda como forma libertadora, mas por correntes denominadas contra-revolucionárias, apoiadas pelo governo norte-americano, como foram os casos dos “fedahins” no Afeganistão, da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) em Angola, da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) em Moçambique e dos “contra” na Nicarágua…

Curiosamente, o conjunto destes conflitos armados teve como ponto comum a ausência de uma vitória militar. Eles não terminam graças a um triunfo de um dos lados, mas acabam ou por via de negociação pacífica, por desfecho político, ou simplesmente por um intenso desgaste das partes em luta.

O levantamento de várias dezenas de guerrilhas espalhadas pelos diversos continentes nestas últimas duas décadas prova que a proclamada força das armas não tem sido eficaz para a obtenção de vitórias militares.

Essa conclusão mais o fato da relativa raridade dos conflitos interestatais leva a pensar que estamos diante a uma tendência relevante da conflitualidade em nosso tempo: o desgaste da violência armada tradicional como forma de resolução de conflitos.

Publicado em Revista Pangea

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