Arquivo de 7 de Julho de 2008

Uma viagem até o coração da exclusão digital em Burkina Fasso

Bertrand Le Gendre

Em Zorgho, em Burkina Fasso, faltou muito pouco para os habitantes ficarem sem acesso a Internet. Uma enorme caicedra da família dos acajus (mogno) erguia a sua silhueta frondosa ao lado da antena parabólica que capta o sinal de satélite. Finalmente, a árvore, que dificultava a recepção do sinal, foi derrubada. Mas, para alcançar este resultado, quantas negociações foram necessárias!, conta Apollinaire Ouédraogo, o coordenador da associação African Solidarité, um cibercentro comunitário instalado a leste de Uagadugu, a capital deste pequeno Estado da África Ocidental.

Ouédraogo, que vive no coração do Sahel, uma região miserável e fatalista cujo meio ambiente combina calor sufocante, nuvens de poeira ocre, céu leitoso, não é um sujeito que costuma desistir com facilidade. Se fosse diferente, a caicedra ainda estaria no mesmo lugar. Primeiro, ele foi obrigado a negociar com os “sacerdotes” animistas que se dedicam a praticar sacrifícios rituais neste terreno ao lado da associação, e do qual a árvore era parte integrante. Depois, foi preciso convencer a municipalidade, que é proprietária do terreno.

Desde então, até que a modernidade digital e a tradição animista conseguiram conviver em paz em Zorgho, enquanto a utilização da Internet em Burkina Fasso vai conquistando espaços. Só que isso não está acontecendo da forma e no ritmo desejados pelas autoridades locais, cuja ambição declarada é bem maior. De fato, a sua expansão está longe de ser tão rápida quanto esperavam os chefes de Estados quando se reuniram em Genebra (2003), e depois em Tunis (2005) para a Cúpula Mundial sobre a sociedade da informação. E ela não vem se desenvolvendo tão facilmente quanto haviam previsto os profetas do digital. Neste país, um dos mais pobres do mundo (apenas três outros estão em situação pior do que ele), ninguém nunca ouviu falar do famoso projeto de “computador a 100 dólares”, que havia sido prometido às crianças do Terceiro Mundo por Nicholas Negroponte, o guru do Media Lab (do Instituto de Tecnologia do Massachusetts).

Tantas declarações oficiais, tantos discursos, efeitos de retórica, e tanta utopia tecnológica bem que justificavam uma viagem para ir verificar no local a realidade desta “exclusão digital” que resulta das desigualdades entre as populações no que diz respeito ao acesso à Internet. Atualmente, 80% dos habitantes do planeta permanecem excluídos das redes de informação mundiais. Menos de 4% dos africanos estão conectados à Internet, sendo que a maioria deles vive no Magreb (países da África do Norte) e na África do Sul. E apenas 0,5% dos burquinenses são usuários da rede mundial.

Combater este “analfabetismo digital” tornou-se um objetivo imperativo. Um por cento de internautas a mais num país pobre, segundo os especialistas, equivale a 1% de crescimento suplementar. Sem dúvida, esta equação não apresenta o rigor de uma fórmula matemática, mas ela traduz uma realidade que pode ser observada no terreno: o acesso às tecnologias da informação e da comunicação constitui uma poderosa alavanca para o desenvolvimento. E muito mais ainda num país cuja área rural ocupa 80% do território.

Em Zorgho, debaixo do teto de chapa de ferro da associação African Solidarité, estão reunidas mulheres vestidas de tangas multicoloridas que apertam seu corpo. Com o olhar perdido, elas aguardam para serem recebidas por um enfermeiro ou por uma assistente social. Todas elas são portadoras do vírus da Aids e sofrem de alguma doença. Assim como em Uagadugu, em Bobo Dioulasso, Ouahigouya ou Banfora, este centro de medicina dotado de uma estrutura de telecomunicações é o seu único acesso possível aos tratamentos de que elas precisam.

A antena parabólica, que é a “menina dos olhos” de Apollinaire Ouédraogo, conecta este modesto posto de saúde ao restante do mundo. Ela permite a realização de teleconferências com os médicos do hospital universitário de Genebra, a elaboração de diagnósticos à distância, o acompanhamento a partir de qualquer lugar do mundo do estado de saúde dos pacientes, a formação profissional via Internet do pessoal médico local, além da detecção e da prevenção de doenças… Num país que conta seis médicos para cada 100.000 habitantes, o acesso aos bancos de dados do mundo desenvolvido, e, sobretudo, aos seus especialistas, é uma questão de vida ou de morte.

Esta antena parabólica tem valor de um seguro de vida para os habitantes de Zorgho. É como se ela fosse um totem. Ela os tranqüiliza. Eles se sentem menos sozinhos; menos isolados do restante do mundo, do qual, para o seu grande desespero, eles nada percebem, a não ser um eco abafado.

Esta antena conectada com satélites também transmite seus sinais, por meio de uma conexão sem fio Wi-Fi, para um cibercafé situado à proximidade do centro de telemedicina. Diante dos computadores, há crianças risonhas com o nariz grudado na telinha; comerciantes sérios e concentrados, alunos que preparam um trabalho escolar, funcionários que consultam o site da sua administração. . . Atualmente, em Zorgho e em outras localidades da região, os cibercafés já se tornaram parte integrante da paisagem. O Burkina Fasso contaria hoje uma centena desses estabelecimentos.

Neste país onde a taxa de analfabetismo alcança 70%, onde o papel está em falta, onde as bibliotecas dignas deste nome são raras, onde 7% das famílias apenas possuem a televisão, a Internet oferece uma fonte inesgotável de imagens, de textos e de sons. É nela que as multidões carentes de saber e frustradas por terem sido excluídas da rede planetária vêm matar a sua sede.

Sem o Fundo Mundial de Solidariedade Digital, esta fonte jamais teria jorrado. É este organismo que financia o acesso à Internet da associação African Solidarité de Zorgho e de cinco outras associações no Burkina Fasso, todas elas voltadas para a saúde e a educação.

Uma fundação de direito suíço, o Fundo de Solidariedade Digital foi implantado em 2005 por iniciativa do presidente senegalês Abdoulaye Wade, na esteira das decisões da cúpula de Genebra relativa à sociedade da informação. Esta fundação vem travando um combate diário para impor uma idéia a princípio utópica, mas da qual é possível medir a relevância no Burkina Fasso. A sua meta principal consiste em fazer com que os fornecedores de toda empresa pública ou privada que compra equipamentos informáticos recolham 1% do montante da compra para o Fundo de Solidariedade Digital. Com isso, o dinheiro arrecadado lhe permite financiar os seus projetos em Zorgho e em outros lugares.

Esta organização, com os seus promotores do “1% digital”, não é a única que se dedica a favorecer a utilização da Internet em Burkina Fasso. O ministério francês das relações exteriores é outra entidade preocupada com a sua expansão. Ele faz deste país, uma antiga colônia francesa que se chamava República de Alta-Volta até a sua independência, em 1960, a vitrine do seu projeto que visa a reduzir o isolamento digital de diversos países e regiões, um projeto que tem por nome Aden. A este título, a França financia 16 centros de acesso à Internet neste que é um dos territórios mais encravados do continente. Desprovido de todo acesso ao mar, o Burkina Fasso procura depender menos dos países limítrofes: Gana, a Costa do Marfim, o Mali, o Niger, Benin e o Togo.

Por sua vez, a Agência Universitária da Francofonia também busca alcançar objetivos similares de integração digital em Burkina Fasso. O dirigente desta agência, com sede em Bobo Dioulasso, Jean-Baptiste Millogo, conta de que maneira um estudante desta cidade defendeu à distância a sua exposição de segundo ano de mestrado, perante o júri de uma universidade francesa, por meio de um sistema de teleconferência. Entre os seus orientadores estavam dois professores na sede da faculdade, em Nice, e um terceiro no Marrocos. E o estudante, em Bobo Dioulasso, feliz da vida por poder contar com tantos recursos… Sem a Internet, ele teria sido obrigado a viajar para a França para seguir seus estudos. Mas isso não é necessariamente o que mais desejam as autoridades francesas.

Em Burkina Fasso, onde metade da população vive com menos de 1 dólar por dia, acreditar na Internet constitui um ato de fé. Neste sentido, Joachim Tankoano, o ministro das tecnologias da informação e da comunicação, desponta como um homem movido por esta fé no futuro. Em seu escritório equipado com ar-condicionado em Uagadugu, situado a pouca distância do ex-palácio presidencial - onde o “pai” de Burkina Fasso, Thomas Sankara, passou suas últimas horas antes de ser assassinado por homens a serviço do presidente atual, Blaise Compaoré -, o ministro recebe esta reportagem. Ele apresenta com uma satisfação evidente um mapa do “país dos homens íntegros”, o nome que foi dado à antiga Alta-Volta por Sankara, o “Che Guevara africano”.

O seu dedo indicador segue a espinha dorsal (backbone) de uma rede de banda larga que em breve irá inervar as 45 províncias do país. “Daqui a dois anos”, afirma o ministro. A infra-estrutura que cerca este backbone deverá também levar - conforme ele promete - a eletricidade até as regiões onde ela ainda não existe. Assim, essas localidades receberão de uma só vez o ADSL e a lâmpada elétrica. O século 19 e o século 21 com uma tacada só. Tudo o que os burquinenses das campanhas querem é acreditar que isso se tornará realidade. Os das cidades já dispõem deste acesso. A banda larga já tem 7.000 usuários.

Depois da derrubada do capitão Sankara, 37 anos atrás, em 1987, o país passou a atender às exigências do FMI. Ele se liberalizou. Em 2006, o Estado cedeu 51% da operadora histórica burquinense, a Onatel, à companhia Maroc Telecom, uma filial do grupo francês Vivendi. É o produto desta venda que permitirá financiar o ambicioso projeto do ministro.

Para o telefone celular, um importante plano de investimentos permitiu obter avanços consideráveis. O sinal é captado em praticamente todas as regiões, transmitido por uma rede que abrange 86% do país. Um milhão e trezentos mil burquinenses já são usuários de um celular, numa população total de 14 milhões. Um aparelho da marca ZTE, “made in China”, custa 19 euros (cerca de R$ 48). É um dos mais baratos. Os usuários recarregam seu celular comprando dos vendedores ambulantes cartões de cores vivas, entre os quais os mais procurados são os das marcas Le Jus ou Nana (nana quer dizer “é fácil” em língua moré).

A juventude das cidades, como em qualquer outro lugar no mundo, mostra ter uma verdadeira paixão pelo seu celular, e não hesita a estourar seu orçamento ou a se endividar para ter um. O pequeno comerciante e o cultivador às voltas com a fome sabem o quanto ele pode ser útil num país onde não raro é necessário ficar esperando durante horas até conseguir fazer uma ligação para um cliente ou para a cooperativa agrícola a partir de um telefone fixo.

Os outdoors com anúncios chamativos das três operadoras de telefonia móvel, que são vistos às dezenas nos arredores das cidades, não raro transmitem a impressão de que o Burkina Fasso ingressou para valer na modernidade e livrou-se do seu atraso digital. Mas, esta é apenas uma impressão. Neste país, a eletricidade é rara e muito cara. Volta e meia, os jornais anunciam cortes periódicos de energia, provocados pelas fortes ondas de calor que aumentam a demanda, o que cria importantes sobrecargas para as centrais térmicas. Quando a energia é finalmente restabelecida, isso provoca rupturas de carga que podem detonar de maneira fulminante os computadores. Para remediar a este problema, é preciso equipá-los com filtros e estabilizadores próprios. Os quais, por sua vez, também são caríssimos no contexto burquinense.

De qualquer forma, quer ele seja veiculado por cabo, quer por satélite, o custo do sinal digital da Internet continua sendo proibitivo. O Fundo de Solidariedade Digital e o ministério francês das relações exteriores vão parar, ou já pararam de financiar certos projetos, por falta de dinheiro. Isso também está ocorrendo por conta da incapacidade, ou da impossibilidade, por parte das associações beneficiadas, de conseguirem viabilizar os projetos implantados. Com isso, no setor da tecnologia digital, assim como em tantos outros, o “país dos homens íntegros” segue precisando desesperadamente de assistência.

“Le Monde”

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1 Boletim da Conferencia Especial pela Soberania Alimentar: pelos direitos e pela vida

biodiversidadla

Conferência Especial pela Soberania Alimentar abre suas atividades e critica atual modelo de desenvolvimento da América Latina e Caribe.

Conferência Especial vai até domingo (13/04) com o debate de temas como Agrocombustíveis, Reforma Agrária, Pescadores , Mudanças climáticas e Territórios

São 120 delegados e delegadas que representam 33 países da América Latina e Caribe. Camponeses e camponesas, indígenas, pescadores e pescadoras, mulheres, sem-terras, todos e todas reunidos no Itamaraty com um único objetivo: o de discutir as causas e os efeitos do modelo sócio- económico vigente sobre os vários setores da população, vitimas da violência, da desigualdade e da exclusão.

Durante os três próximos dias, a ordem é tirar posicionamentos que balizem um documento que será enviado ao 30° Encontro Regional da FAO, que acontecerá na próxima semana também em Brasília.

A Conferência Especial irá confrontar as propostas dos movimentos sociais sobre o direito à alimentação e a soberania alimentar. Todos os debates vão ao encontro de uma interpelação aos Governos latinos e caribenhos frente aos problemas dos povos tradicionais e camponeses diante da defesa da produção de alimentos, do meio ambiente, de políticas públicas para uma Reforma Agraria ampla e concreta e da soberania dos povos frente às suas nações.

De acordo com o Coordenador do Comitê Internacional de Planejamento das ONG/OSC para a Soberania Alimentar (CIP) para a América Latina e Caribe, Mario Ahumada, a Conferência Especial abre um espaço autônomo para que as organizações possam propor e criar conteúdos para um plano de ação que permita conquistas para a sociedade civil. “Queremos a soberania das mulheres, queremos propor soluções aos Governos e ressaltar a importância das experiências de povos aqui presentes para que a soberania alimentar se realize nos países”, afirma.

O retrato da América Latina e Caribe

A liberação econômica como o único caminho para o desenvolvimento, impulsionado pela agenda corporativa neoliberal, é diretamente proporcional ao crescimento da fome na região da América Latina e Caribe. A debilidade das políticas públicas para atacar frontalmente a pobreza e à fome, para aumentar a democracia e a participação, para deter as tecnologias que atentam à vida, resultam em um sistema social que protege e reproduz o sistema de comércio e desprotege as pessoas, considerando-as como agentes produtivos, sem história e sem rosto.

Enquanto isso, as mudanças climáticas confirmam a falta de responsabilidade das corporações internacionais sob a aceitação e cumplicidade de alguns Governos. O planeta, a terra, os oceanos e os ecossistemas que mantém a vida estão em risco como nunca antes em toda a história da humanidade.

Mulheres reunidas em Conferência debatem feminismo e querem a volta do programa de gênero da FAO

A FAO, em contraposição ao que diz o movimento feminista camponês, retirou de sua estrutura, ainda em 2006, a discussão sobre gênero. Em encontro especial realizado ontem (09/04), as mulheres participantes da Conferência Especial pela Soberania Alimentar (representam 40% dos 120 participantes) tiraram uma Declaração em que afirmam importância da discussão desta temática em meio ao tema principal da Conferência. O documento foi lido durante a abertura do evento como forma de denunciar a exploração de seus trabalhos pelos capitais nacionais e internacionais e pelos Governos que promovem o agronegócio, impondo uma agricultura que hegemoniza os territórios.

“Depois da decisão da FAO, houve uma mobilização criativa das mulheres em torno da responsabilidade deste órgão diante deste tema”, afirma Juana Ferrer, da Confederação Nacional de Mulheres Camponesas/ Via Campesina da República Dominicana. “As mulheres, como as principais guardiãs do patrimônio natural e cultural, vemos como nossa água, nossa terra, nossas sementes, nosso conhecimento e nossa biodiversidade estão sendo ameaçadas pelas políticas privatizadoras e mercantilizadoras. É preciso que se reconheça o trabalho reprodutivo das mulheres e que se questione a atual divisão sexual o trabalho, que nos impõe a responsabilidade pela sustentabilidade da vida”, diz a declaração.

A situação da pesca na América Latina e Caribe

A pesca artesanal é responsável por 19% de total de proteínas que anualmente consomem a população da América Latina. Especialmente, os setores mais vulneráveis da população. A privatização, a concentração dos direitos da pesca impactam diretamente à soberania alimentar.

“O Fórum Mundial de Pescadores e Trabalhadores da Pesca assinaram que 90% da pesca continental se encontra em crise devido às operações industriais que, por sua facilidade tecnológica, retiram s recursos dos pequenos pescadores”, explica Pedro Avendaño, diretor executivo do Fórum Mundial de Pescadores.

Governo Brasileiro e ONU presentes na abertura da Conferência Esecial pela Soberania Alimentar

O Governo brasileiro e a Organização das Nações Unidas (ONU) se fizeram presentes, durante a abertura dos trabalhos, através do ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel e do representante da FAO Brasil, José Tubino respectivamente. Para Cassel, a construção de novas possibilidades de luta é o que justifica o encontro. “Persistem feridas: a ferida do latifúndio, do trabalho escravo, da monocultura, da imposição da transgenia, da especulação com os preços dos alimentos, do desmatamento e da conseqüente degradação ambiental, do desrespeito com as populações tradicionais, da discriminação de gênero”, declarou.

Já o representante da FAO no Brasil, José Tubino trouxe dados preocupantes. FAO estima que 30% dos camponeses da América Latina são considerados pessoas em situação de fome, ou seja, mais da metade dos 79 milhões que vivem em situação de fome da região vivem em áreas rurais. Além disso, na América Central, o número de pessoas que não se alimentam corretamente subiu de 5 milhões para 7,5 milhões.

A solução, segundo Tubino, está na agricultura alimentar. “Não se terá segurança alimentar enquanto não apoiarmos sua produção. É um direito de todos e todas”, disse.

“biodiversidadla”

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Dengue se espalha rapidamente nos países tropicais de todo o mundo

Jane E. Brody

Em uma recente visita ao Camboja, do lado de fora de um hospital infantil a um quarteirão do meu hotel, eu vi um grande aviso vermelho e branco que alertava sobre uma epidemia severa de dengue hemorrágica. Anos atrás, a doença matou o irmão de 5 anos de nosso guia de turismo.

Meus colegas de viagem e eu conseguimos escapar até mesmo da forma mais branda da infecção viral transmitida por mosquito -nós todos dormimos em um hotel com ar condicionado e todo dia aplicávamos repelente com 30% de DEET em nossa pele exposta. Mas fiquei sabendo que podia ter sido infectada em várias viagens anteriores ao exterior e até mesmo em partes dos Estados Unidos.

A dengue está crescendo rapidamente nas áreas tropicais e subtropicais de todo o mundo nos últimos anos, graças a fatores tanto naturais quanto causados pelo homem.

Entre os países que experimentaram epidemias recentes estão Camboja, Costa Rica, Índia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã. No Hemisfério Ocidental, surtos também ocorreram em algumas ilhas do Caribe, Cuba, norte do México, Nicarágua, Panamá, Porto Rico e Venezuela.

Neste ano, a dengue atacou o Rio de Janeiro, infectando mais de 75 mil pessoas no Estado brasileiro, incluindo Diego Hypólito, um ginasta campeão mundial e favorito à medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim deste ano. Mais de 80 pessoas no Rio morreram por causa da dengue.

Apesar da maioria dos norte-americanos que foram diagnosticados com dengue ter se infectado enquanto viajava para países onde a doença é endêmica, incluindo o México, ela também atingiu moradores do Havaí e Texas que nunca deixaram o território americano. E no ano passado uma doença transmitida por mosquito, a febre chikungunya, atingiu mais de 100 moradores de uma aldeia na Itália, Castiglione di Cervia.

A doença não é contagiosa; ela é transmitida de uma pessoa para outra pela picada do mosquito portador do vírus.

Epidemiologistas dizem que o aquecimento global está permitindo que o mosquito tigre-asiático, Aedes albopictus, um vetor tanto da chikungunya quanto da dengue, sobreviva em áreas que antes eram frias para ele. Este mosquito agora prolifera no sul da Europa e até mesmo na França e na Suíça. Basta que um viajante infectado traga o vírus da dengue para casa, onde uma picada de um mosquito tigre-asiático local possa transmiti-lo para outros.

O principal vetor da dengue é o Aedes aegypti, um mosquito que pica durante o dia e que é particularmente ativo durante o amanhecer e o entardecer. (Diferente do mosquito Anopheles, que transmite a malária, ele não é ativo à noite.)

Apesar da dengue não ser uma ameaça tão grave quanto a malária, que aflige até 500 milhões de pessoas e mata 1 milhão a cada ano, ambas as doenças aumentaram desde que o DDT, o pesticida que controlava os mosquitos de forma mais eficaz e barata do que qualquer outro, passou a ser repudiado nos anos 60. A urbanização descontrolada e o crescimento populacional que a acompanhou, juntamente com sistemas de gestão de águas inadequados, também tiveram um papel na disseminação da dengue.

A dengue é causada por qualquer uma das quatro variantes de um flavivirus, DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. Outros flavivirus causam a febre do Nilo Ocidental, febre amarela e a encefalite japonesa. Apesar da infecção por uma das variantes da dengue conferir imunidade por toda a vida a ela, a pessoa ainda pode ser infectada por qualquer uma das outras três.

A evidência indica fortemente que é a segunda infecção (apesar de não a terceira e a quarta) que pode levar à forma mais séria, a dengue hemorrágica, na qual há rompimento de vasos capilares. Se não tratada rapidamente, a forma hemorrágica pode resultar na perda de um volume fatal de sangue, choque e morte.

Não há vacina para dengue e dificilmente alguma surgirá tão cedo. Em 2003, a Fundação Bill e Melinda Gates dedicou US$ 55 milhões ao longo de seis anos para estimular o desenvolvimento de uma vacina para dengue e impedir sua proliferação global. Testes de vacinas estão em andamento em várias áreas tropicais, mas espera-se que a aprovação de uma vacina eficaz ainda demore cerca de uma década.

A picada de um mosquito infectado é seguida por um período de incubação de 3 a 14 dias, mais normalmente de 4 a 7 dias, antes de surgirem os sintomas.

Muitas pessoas experimentam apenas sintomas brandos como de gripe, ou nenhum. Em outras, os sintomas característicos da dengue são ataques repentinos de febre alta, dor de cabeça severa na testa e dores excruciantes nas juntas e músculos.

A febre geralmente cede em três a cinco dias, mas em 1% dos pacientes a doença progride para a forma hemorrágica. Mesmo se a primeira infecção causar pouco ou nenhum sintoma, uma segunda infecção pode aumentar o risco da forma hemorrágica.

Como nenhuma das drogas antivirais conhecidas é eficaz, o tratamento é sintomático. Paracetamol é dado para reduzir a febre e a dor. Mas drogas como a aspirina, incluindo o ibuprofeno, devem ser evitadas porque podem causar sangramento e piorar ainda mais as coisas. Assim como outras doenças virais, as crianças com dengue que tomam aspirina podem desenvolver síndrome de Reye.

Os pacientes devem descansar e tomar muito líquido. Na maioria dos casos, os sintomas passam em uma semana ou duas. A doença provavelmente progrediu para sua forma mais perigosa quando a febre é seguida por baixa temperatura do corpo, dor abdominal severa, vômitos prolongados e estados mentais como confusão, irritabilidade e letargia. Hospitalização imediata e tratamento com fluidos intravenosos são então essenciais. A recuperação ao estado normal pode levar meses.

Com base nos estudos das forças armadas e de grupos de ajuda humanitária, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) estima que o risco para aqueles que visitam uma área de dengue endêmica é de um doente para cada 1.000 viajantes. Isto provavelmente é uma estimativa exagerada para os viajantes comuns, já que a maioria deles permanece apenas poucos dias em hotéis com ar condicionado e em propriedades bem cuidadas.

Apesar de muitas viagens ao Brasil terem sido canceladas neste ano durante a epidemia no Rio, os viajantes não precisam evitar as áreas de dengue endêmica se estiverem dispostos a tomar as precauções para evitar picadas de mosquito.

Os CDC recomendam permanecer em áreas com telas ou ar condicionado sempre que possível (uma opção não realista para excursionistas e viajantes aventureiros como eu); vestir roupa que cubra todo o corpo, incluindo mangas longas e calças com punhos e bainhas fechadas; e cobrir a pele exposta com repelente de inseto contendo DEET em concentração de 20% ou 30%, aplicado três vezes ao dia. Apesar de nem eu e nem meus colegas de viagem termos tolerado roupa que cobrisse todo o corpo durante os dias úmidos e de mais de 30ºC do Camboja, nós todos nos cobríamos diariamente de repelente.

Em lugares bastante ensolarados o filtro solar deve ser aplicado primeiro, seguido pelo repelente. Também ajuda borrifar a roupa com repelente.

Como o mosquito procria em pequenas quantidades de água limpa, eliminar água parada em lugares como vasos de flores e pneus velhos pode reduzir a exposição ao transmissor da dengue.

“The New York Times”

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O preço da liberdade

Ainda é difícil saber o que de fato aconteceu na selva colombiana no episódio da libertação de Ingrid Betancourt. Mas uma coisa é certa: a versão oficial é inverossímil. E as FARC estão pagando o preço do caminho que escolheram: o isolamento.

Flávio Aguiar

“Um grupo revolucionário que depende de assaltos a bancos para sobreviver, termina virando um grupo de assaltantes de banco”.

Quem disse isso, ou mais ou menos isso, não foi um ideólogo de direita. Foi Ernesto Che Guevara.

Infelizmente a frase se aplica às FARC colombianas, para quem, ao que tudo indica, o seqüestro virou uma indústria, e a extorsão, uma prática corrente.

Escrevo “ao que tudo indica” porque uma espessa cortina de fumaça cobre o perfil das FARC, e o que está acontecendo no seu interior, com as mortes de alguns de seus principais próceres. Um morreu de morte natural; dois foram assassinados, um pelo ataque do Exército colombiano em território equatoriano, o outro, com a companheira, pelo chefe de seus guarda-costas, numa operação mercenária.

Entretanto, deve-se dizer, essa cortina de fumaça não é apenas da responsabilidade de uma imprensa conservadora em escala mundial, ou das campanhas orquestradas a partir de Washington ou Bogotá. É conseqüência também do próprio caminho que as FARC percorreram, o de um crescente isolamento no plano continental.

Apesar dos esforços mais recentes do presidente Hugo Chavez que, ao contrário do que se propaga na imprensa conservadora, não é um “falcão” de lutas armadas, mas um presidente a quem não interessa um clima de guerra nas vizinhanças de seu país, as FARC não saíram de sua política ou condição de isolamento, pelo menos no que toca aos países da América do Sul.

Também não propiciaram uma resposta convincente à acusação freqüente de envolvimento com o narcotráfico. A política de seqüestros, herdeira dos movimentos desesperados dos anos sessenta para libertação de prisioneiros das ditaduras do continente, ameaçados de morte e torturados sistematicamente, tornou-se uma indústria de objetivos turvos, a não ser os de demonstração de poder e força sobre um território e pessoas, além de se presumir que seja rentável do ponto de vista de manter a sobrevivência dos mais ou menos 10 mil guerrilheiros que devem compor as suas forças.

Esse é o maior problema das FARC: nada é claro a seu respeito, exceto o fato de que sua trajetória é de imersão na falta de clareza política. Oriunda da junção de bases camponesas com egressos do Partido Comunista Colombiano e da Juventude Comunista em épocas de duríssima repressão, ainda nos anos sessenta, e depois de algumas tentativas infrutíferas de retornar à vida política tradicional, que provocaram também dissidências e divisões, as FARC deixaram-se envolver pela perda de nitidez de seus propósitos políticos.

O grupo está longe da desarticulação. Mas há sinais de desagregação. É tão difícil acreditar ao pé da letra na versão oficial apresentada pelo governo de Uribe, esse sim um “falcão” da guerra, sobre a libertação de Ingrid Betancourt, quanto acreditar que os últimos sucessos ou insucessos que atingiram as FARC foram possíveis sem algum tipo de infiltração ou, no mínimo, desagregação interna.

Em 1° de março pp., Raul Reyes, definido como o segundo homem das FARC, e seu “negociador” maior, foi assassinado no ataque que violou o território equatoriano. A seguir, outro alto dirigente, Ivan Rios, e sua companheira, foram assassinados pelo chefe de seus guarda-costas, numa operação que rendeu ao traidor 2,5 milhões de dólares (Cf. Libération, 04/07/2008). No mês de março morreu, ao que parece de morte natural, pois nem isso ficou completamente claro devido ao silêncio do organismo guerrilheiro, seu líder e fundador Pedro Antonio Marin, ou Manuel Marulanda, apelidado de “Tirofijo”, aos 80 anos de idade. Seu “sucessor” foi Alfonso Cano. Na versão oficial, alguém, se fazendo passar por Cano, telefonou para o Comandante César, no campo onde estavam Ingrid Bentancour e outros prisioneiros, “informando” que helicópteros de “uma ONG” iriam até lá para transportar os seqüestrados para outro lugar. A hipótese é muito estranha, para dizer o mínimo.

No mesmo dia da reportagem do Libération, uma rádio suíça anunciou a possibilidade de que um resgate teria sido pago pela libertação de Betancourt e dos outros, hipótese logo negada pelo governo francês e, é óbvio, pelo governo colombiano. Apesar das negativas, não se pode descartar essa hipótese, não só pelo que tem de plausível em si mesma, como também pelo fato de que, como a morte de Rios mostra, a infiltração de dinheiro para obter atitudes convenientes ao governo colombiano dentro da organização não é novidade. E a julgar pelo preço pago pelo assassinato do líder das FARC, 2,5 milhões de dólares, o caixa dessa movimentação não é pequeno.

O que vai acontecer a seguir vai depender de vários fatores. Um deles é a verificação sobre esse suposto pagamento. No caso dele ter ocorrido mesmo, numa operação nos bastidores da operação de fachada, deve-se perguntar: quem pagou, quem recebeu? Foi uma negociação com o próprio comando das FARC ou com algum setor? Qual será o efeito disso, se for real, dentro da organização? Se não houve esse pagamento, ou se ele tiver sido feito à revelia do comando, então o nível de desagregação das FARC pode ser maior do que o que aparenta ser.

Outro fator importante é o que vai acontecer nas eleições norte-americanas. A eventual eleição de Barack Obama pode não significar uma interrupção ou freio nessa política agressiva para consolidar a Colômbia como a cabeça-de-ponte de Washington no continente sul-americano; mas a eventual eleição de McCain certamente vai significar seu aprofundamento, como sua recente visita a Bogotá confirma.

Resta saber também qual será o efeito dessas operações agressivas, de sucesso no momento, para o governo de Uribe. Se no momento ele quer desfrutar das glórias da operação sem dividi-las com ninguém, e se isso o aproxima mais ainda de Washington, Uribe está muito isolado na América do Sul, e isso também o deixa numa posição incômoda e politicamente mais frágil do que seria conveniente. Seu contencioso com a Venezuela e com o Equador não é desprezível, e pode ter reflexos indesejáveis na sua relação com o Brasil.

Uma coisa é certa: o clima de enfrentamento e de impasse, que parece se aprofundar, na selva colombiana, numa guerra sem perspectiva de negociação, não tem nada de positivo para as forças populares e progressistas na América do Sul, só fortalecendo o ar guerreiro dos falcões norte-americanos e seus aliados e reforçando sua retórica belicista para se opor e criar empecilhos às políticas democráticas ligadas àqueles setores e suas aspirações.

“Carta Maior”

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Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina

No dia 3 de julho, os países do Mercosul concederam a Eduardo Galeano o título de primeiro Cidadão Ilustre da região. Estas foram suas palavras de agradecimento.

Carta Maior

Colar de histórias

Nossa região é o reino dos paradoxos.
Tomemos o caso do Brasil, por exemplo:

paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;

paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;

e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, que já completou cem anos de idade, é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.

***
Ou, por exemplo, a Bolívia: em 1978, cinco mulheres derrubaram uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia zombou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.

Eu conheci uma dessas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela levantou e fez todos calarem a boca.

— Quero dizer só uma coisinha —disse—. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e nós carregamos ele dentro.

E, anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Havia sido expulsa da Bolívia e ela tinha marchado para o exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava a liberdade deles; mas tinha pena deles, tão sozinhos que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:

— Não sejam bobos –dizia-. Fiquem juntos. Nós, lá na Bolívia, ficamos juntos. Mesmo que seja para brigar, ficamos juntos.

***
E como tinha razão.

Porque, digo eu: existem os dentes, se não ficarem juntos na boca? Existem os dedos, se não ficarem juntos na mão?
Estarmos juntos: e não só para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, mesmo que de vez em quando simulem brigas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os outros. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Bem pouquinho tempo atrás, por exemplo, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo de paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta no nariz dos invadidos, quando eles querem retribuir a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não gostar de nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.

***
Ao longo da primeira metade do século dezenove, um venezuelano chamado Simón Rodríguez caminhou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os novos donos do poder:

— Vocês —clamava o sr. Simón-, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, não era ouvido por ninguém este homem que tanto merecia ser ouvido. Paradoxalmente, chamavam-no louco, porque cometia a sensatez de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça, porque cometia a sensatez de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que a quem não sabe, qualquer um engana e a quem não tem, qualquer um compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência dos nossos países recém-nascidos:

— Não somos donos de nós mesmos —dizia. Somos independentes, mas não somos livres.

***
Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi, paradoxalmente, assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia nem um centavo para ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.

Paradoxalmente, depois de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani falam ainda hoje os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

Em guarani, ñe´é significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.

Se dou minha palavra, estou me dando.

***
Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:

— Daqui eu não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para continuar pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos verdugos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por simples senso comum: não seria hora de mudar-lhe o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?

***
E atravessando a cordilheira, pergunto-me: por que será que o Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?

Paradoxalmente, quanto mais é manipulado, quanto mais é traído, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.

E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que ele continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito rara vez se encontram, e quando se encontram não se cumprimentam, porque não se reconhecem?

***
Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar este viagenzinha pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui pertinho.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar do Uruguai não conseguiu encontrar nem uma única frase sua que não fosse subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.

A ele, que se recusou a aceitar que nossa pátria grande se quebrasse em pedaços; a ele, que se recusou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico este título, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que escrevi para ele algum tempo atrás:

1820, Paso del Boquerón. Sem virar a cabeça, você afunda no exílio. Estou vendo, estou vendo você: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e ao longe se afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você não diz adeus à sua terra. Ela não iria acreditar. Ou talvez você não sabe, ainda, que está indo para sempre.

Acinzenta-se a paisagem. Você está indo, vencido, e sua terra fica sem alento. Irão devolver-lhe a respiração os filhos que nasçam dela, os amantes que a ela chegarem? Aqueles que dessa terra brotem, aqueles que nela entrem, far-se-ão dignos de tristeza tão funda?

Sua terra. Nossa terra do sul. Você será muito necessário para esta terra, Dom José. Cada vez que os cobiçosos a firam e humilhem, cada vez que os tolos acreditem que está muda ou estéril, você fará falta. Porque você, Dom José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela já disse.

“Carta Maior”

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Santo grão

A FILÓSOFA MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO ATACA POLÍTICA DO GOVERNO LULA PARA A ÁREA AGRÍCOLA

ERNANE GUIMARÃES NETO

A alta dos preços dos alimentos no Brasil não é uma contingência, mas uma conseqüência da estrutura produtiva brasileira que só tende a piorar, diz Maria Sylvia Carvalho Franco.
Ao mesmo tempo em que confessa seu pessimismo, a professora titular de filosofia da USP e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) diz à Folha que o processo só pode ser revertido com força política, algo que ela não vê no governo federal.
Mas a autora de “Homens Livres na Ordem Escravocrata” (ed. Unesp) admite que, enquanto esse processo não gerar níveis extremos de pobreza e fome, dificilmente terá conseqüências na eleição dos próximos governantes.

FOLHA - A inflação dos alimentos é o principal revés do governo Lula?
MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO - Do ponto de vista mais aparente, poderia dizer que sim. Mas revés mesmo são os bilhões sendo usados para pagar especuladores. São bilhões que não são aplicados na produção.

FOLHA - O governo mantém as políticas agrícolas e aumentou os créditos do agronegócio em 12% em relação à última safra. Isso é suficiente para evitar uma crise?
CARVALHO FRANCO - Não. É um complexo de elementos interligados: há favorecimento ao agronegócio, uma política constante que beneficia uma agricultura expansiva, de grandes espaços de terra -como aconteceu com o café, que esgotou grandes regiões.
Essa tem sido a história do Brasil, a de uma monocultura atrás da outra. A terra é finita, a água é finita, os recursos marinhos também. O Brasil quer um lucro infinito a partir de recursos finitos. Além das crises periódicas, isso acaba se tornando inviável.

FOLHA - A limitação do espaço, em um cenário de alta demanda da produção de biocombustíveis, é apontada como um fator de pressão sobre os preços de alimentos. Essa é uma condição inevitável?
CARVALHO FRANCO - Não deveria ser. Num país do tamanho do Brasil, bastaria uma utilização mais racional da terra, não depositar o destino do país na monocultura. Mas nunca tivemos ocupação racional da terra.
A agricultura em larga escala tem efeitos colaterais de outras coisas em grande escala. [O economista, 1907-1990] Caio Prado Jr. mostra bem como a produção de cana na região Norte levou à produção, também em grande escala, de gado, de modo a suprir a necessidade da escravaria. E novamente temos a produção concentrada em um ponto só e o desleixo com o resto. O resultado é a fome.
E o que o Fome Zero resolve? Nada. É solução popularesca, que não leva em conta diversos elementos de ordem interna e externa: os países europeus estão se protegendo, lançando mão de tarifas.

FOLHA - Dadas as condições do comércio internacional, é possível a produção local apresentar preços competitivos?
CARVALHO FRANCO - Isso depende do sistema portuário, que no Brasil não é bom. O transporte é caríssimo.
Desde Juscelino [Kubitschek] ocorre a simbiose entre governo e construtoras que liqüidou o sistema ferroviário e estabeleceu a enorme rede rodoviária, o que leva a um transporte caríssimo, altamente sensível a qualquer variação no preço do combustível -isso encarece alimento e tudo o mais.
O desenvolvimento fictício, de vitrine, a partir de Juscelino pede outros investimentos enormes. O que não vai custar o Rodoanel [em torno da cidade de São Paulo]?
E ele é necessário, pois a cidade é abastecida por caminhões. E irá engolir dinheiro de tudo o que é lado do Estado -universidades, saúde, educação em geral. Você tem de um lado o governo dando a mão ao grande capital e, de outro, aos miseráveis que esse capital ajuda a criar.

FOLHA - O governo federal anunciou um pacote nesta semana segundo o qual o agronegócio contará com R$ 65 bilhões em créditos, e a agricultura familiar, com R$ 13 bilhões. Como avalia o investimento na agricultura familiar?
CARVALHO FRANCO - É muito pouco. Ouvimos notícias de pequenos produtores plantando mamona para terem renda familiar. Há, sim, investidores estrangeiros comprando sítio atrás de sítio para produzir combustível no Nordeste.
Lula não tem força política para impor uma mudança de perspectiva nos rumos da economia brasileira.
Ele faz algumas coisas, como o aumento do salário mínimo, nós precisamos reconhecer. Mas não tem força na tal “base”, comprada, e os partidos não assumem uma atitude mais coletiva -essa idéia é muito difícil de aparecer no Brasil. As vidas pública e privada são muito misturadas.

FOLHA - A alta dos alimentos terá influência nas próximas eleições?
CARVALHO FRANCO - Acho que não chega até lá. A máquina de propaganda não deixa. Desde que o mundo é mundo a palavra é uma arma política poderosa. E não tem máquina mais azeitada do que a do governo Lula.
Só chega às eleições se houver fome de verdade. Estamos longe da situação da África, felizmente, por isso o colchão da propaganda deve sustentá-lo.

“Folha de S. Paulo”

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As guerrilhas não são uma moda, são uma resposta à repressão e ao fechamento político

Pedro Echeverría V. [*]

1. Incrível! Será que Hugo Chávez entrou num estado de desespero ou alguém imitou a sua voz para que os meios de informação do mundo, ao serviço do império ianque, divulgassem jubilosamente as suas declarações ? Obviamente, as FARC e as demais guerrilhas do mundo não vão fazer caso desse apelo formulado, aparentemente, domingo passado às guerrilhas colombianas para que libertem, “em troca de nada”, reféns em poder dos rebeldes. Além disso, disse que “a guerra de guerrilhas passou à história… e vocês nas FARC devem saber uma coisa: que se converteram numa desculpa do império (o governo dos Estados Unidos), para ameaçar-nos a todos nós”. Chávez recebeu o aplauso dos governos que estão ao serviço os EUA e, mais ainda, agora exigem que cumpra sua palavra. O passo seguinte dos cães do império será agora exigir-lhe que extermine os terroristas, os lutadores radicais e os rebeldes.

2. Hugo Chávez sabe perfeitamente que os ianques não necessitam de desculpa alguma para ameaçar. O governo dos EUA ameaça e submete a quem lhe dê na gana. Bush dividiu o mundo em aliados e terroristas. Invadiu o Afeganistão porque, segundo disse, ali se ocultava Bin Laden. Depois invadiu o Iraque com o argumento de que escondia um grande armamento, mas os enviados da ONU informaram que este nunca existiu. Chávez sabe que os EUA não precisam qualquer pretexto porque há vários anos seleccionaram os países que fazem parte, segundo seus critérios, do “Eixo do mal” e iniciaram uma série de agressões contra eles e seus vizinhos. Quando os EUA decidem dar um passo, pretextos não lhe faltam. Durante décadas, de modo permanente, disse que suas repetidas intervenções armadas eram para apoiar os interesses dos seus cidadãos e salvar seus investimentos. Chávez sabe-o melhor do que ninguém, por isso parece-me estranha a sua posição e até tive dúvidas que fosse dele.

3. Que corrente de esquerda pode negar ou regatear o enorme papel que Chávez desempenhou nos últimos oito anos na Venezuela e na América Latina frente ao saqueador e assassino governo Bush? Mais ainda, foi considerado o aluno com mais peso e, ao mesmo tempo, o herdeiro das lutas anti-imperialistas de Fidel Castro no continente. O que se passou então na cabeça de Chávez ou na dos seus conselheiros ao pensar que as condições políticas venezuelanas são idênticas às do México, Haiti, Guatemala, El Salvador ou Colômbia? No México, quando se dá esse tipo de mudanças intempestivas ou que não nos damos conta, perguntamos: O que fumaste? Ou advertimos: “estás a urinar fora do bacio”. Chávez sabe muito bem que as guerrilhas e outras formas de luta como os movimentos de massas, as greves gerais, os piquetes bloqueando avenidas e praças, bem como outras mais batalhas dos explorados, não podem estar fora de tempo.

4. Os empresários e governos, em todo o mundo, desejariam controlar absolutamente tudo: monopolizar a economia, a política, a propriedade, a cultura. Assim o fizeram durante séculos apesar das débeis oposições e protestos. Contudo, essa classe social dominante teve de dar passos atrás, fazer concessões e por em prática reformas agrárias, laborais, eleitorais, só devido à pressão das lutas dos trabalhadores. Hoje talvez nuns 20 por cento dos países, sobretudo na Europa, por lutas que duraram séculos, a burguesia teve que ser “inteligente” para respeitar as lutas legais da oposição. Mas nos outros 80 por cento dos países a repressão contra os trabalhadores foi aberta e brutal. Inclusive em países como o México, onde os processos eleitorais foram implantados em 1824, 70 por cento da população continua a viver na pobreza e na miséria. Basta apenas esse dado para demonstrar até que grau a população é exploradas e oprimida.

5. A guerrilha na América Latina não pode sair de moda porque as condições económicas e políticas do continente, prejudiciais à maioria da população, continuam em vigor. Registaram-se enormes mudanças nas cidades, a tecnologia cresceu sem paralelo, os automóveis multiplicaram-se nas cidades e 80 por cento da população tem pelo menos uma televisão, mas para os explorados e oprimidos, para os milhões de desempregados e marginalizados de sempre, parece que não passaram os séculos. Para aproveitar e dar continuidade a este estado de coisas a burguesia submeteu com grande sanha o mais mínimo protesto ou oposição. Se Chávez não houvesse utilizado a força, ou certo grau de força, na Venezuela estariam a governar os partidos burgueses tradicionais, os meios de informação continuariam a idiotizar a população e os ianques continuariam a saquear os recursos naturais. Talvez o próprio Chávez estaria a ser defraudado no aspecto eleitoral.

6. O que fariam as FARC frente a um governo abertamente assassino, como o de Álvaro Uribe (apoiado pelo governo Bush) que se refreia um pouco em bombardear acampamentos pela existência de presos trocáveis? Esquece-se por acaso que muitos desses presos actuaram contra o povo e foram uma moeda necessária de troca com os heróicos presos guerrilheiros detidos pelo governo? É compreensível o desespero de Chávez e a pressão que sofre da parte dos familiares desses presos, mas a guerrilha surgiu há 44 anos para lutar pelos interesses dos explorados e dos mais pobres e é ela que tem de decidir o que fazer. Chávez não pode usar o seu prestígio, a sua grande autoridade, para pedir o desaparecimento da guerrilha. Certamente na Venezuela, na Bolívia e no Equador não é necessária a guerrilha porque os pobres, os explorados, agora estão a experimentar um novo governo que lhes deu espaços para encaminhar as suas petições e as suas lutas, mas não no México, na Guatemala e demais.

7. Fidel Castro assumiu o poder em Cuba em Janeiro de 1959 depois de encabeçar uma guerrilha e com ela tornar possível o triunfo da Revolução contra o ditador Batista. Depois Castro, como presidente, apoiou mais de cinco movimentos guerrilheiros que lutavam contra governos pro-norteamericanos no continente. Não foram apoios materiais porque Cuba carecia de meios para concedê-los, mas Fidel nunca deixou de analisar nos seus longos discursos a pobreza e o desespero dos povos perante um império ianque associados às burguesias nacionais de cada país. Hugo Chávez não assumiu o poder pela via guerrilheira e sim pelo processo eleitoral; mas teve de enfrentar a violência com o apoio do exército quando se rebelou contra o governo Carlos Andrés Pérez e quando, em 2002, foi “derrubado” por 48 horas. Os explorados nunca foram violentos por gosto, utilizaram a violência para defender-se da classe dominante que nunca os deixou viver em paz.

8. No México os movimentos guerrilheiros estiveram presentes em toda a sua história. Durante o colonialismo espanhol a guerrilha indígena foi permanente. A própria luta de Independência iniciou-se como um levantamento que logo se tornou uma resistência guerrilheira. As invasões ianques e europeias do México no século XIX sofreram os permanentes fustigamentos de guerrilheiros heróicos. Durante o Porfiriato e a Revolução os guerrilheiros, talvez mais que os exércitos formais, desempenharam um papel importantíssimo. O que foram as guerrilhas mexicanas de Ciudad Madera (Chihuahua), de Jenaro Vázquez e Lucio Cabañas do estado de Guerrero, as guerrilhas urbanas de princípios dos 70 e por que são actuais as guerrilhas hoje encabeçadas pelo EPR? Cada guerrilha responde a condições concretas: injustiças, miséria, fechamento, repressão, desespero, perseguição, ameaças. Ninguém poderá exterminar as guerrilhas se não se transformam as relações sociais. Chávez sabe-lo, por isso não creio no que ouvi.

[*] Analista mexicano.

“http://resistir.info/”

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O impacto das correntes marinhas sobre o aquecimento do clima, e vice-versa

Os cientistas descobriram que as mudanças climáticas estão fortemente ligadas às mudanças de intensidade das correntes oceânicas, mas ainda divergem em torno das causas e dos efeitos dos fenômenos observados

Stéphane Foucart

Todos os manuais escolares proclamam o seguinte dado: a suavidade do clima europeu se deve ao Gulf Stream. Sem ele, como explicar que o Reino Unido beneficia de invernos mais clementes do que o Labrador canadense, situado na mesma latitude? De fato, em janeiro e fevereiro, a diferença das temperaturas entre as duas ribanceiras do Atlântico pode superar 15 °C.

Já faz alguns anos, os pesquisadores vêm questionando a real importância deste fenômeno. Aliás, alguns deles estimam que as correntes marinhas do Atlântico Norte exerceriam um papel apenas secundário na regulação do clima. Então, o que estaria ocorrendo na realidade? As discussões dos especialistas em torno deste tema seguem animadíssimas, uma vez que os modelos dos climatologistas parecem mostrar que um aquecimento do planeta vai de par com uma diminuição da intensidade dessas correntes que banham os seis continentes.

Essa hipótese não seria tão importante se ela não tivesse como conseqüência uma possível queda, num futuro próximo, das temperaturas na Europa. Sem o Gulf Stream, adeus o clima temperado das orlas inglesas e bretãs.

O papel climático que essa corrente quente exerce foi descrito pela primeira vez em 1855, por um cientista da marinha americana, Matthew Fontaine Maury. Mas a verdadeira natureza e a trajetória dessa corrente de superfície só vieram a ser descritas com precisão muitos anos mais tarde. Ele tem por origem as águas quentes do golfo do México, e segue então caminho rumo ao norte, seguindo as zonas costeiras norte-americanas antes de se separar em duas vertentes.

A primeira, conhecida pelo nome de “deriva norte-Atlântica”, segue rumo ao nordeste e carreia águas que, depois de uma viagem de vários milhares de quilômetros durante a qual elas esfriam progressivamente, afundam entre a Noruega e a Groenlândia, contribuindo assim para trocas de calor com a atmosfera. A segunda, a “giração subtropical”, gira no sentido das agulhas de um relógio e segue rumo à orla da África do Oeste

Se nos atermos ao sentido estrito do fenômeno, é a deriva norte-Atlântica, e não o Gulf Stream, que tempera a Europa Ocidental. Mas, com o aquecimento climático, as geleiras derretem e água doce se acumula no oceano. A isso deve ser acrescentado um regime de precipitações reforçado no hemisfério Norte. O resultado disso é que as águas de superfície do Atlântico Norte são menos salgadas. Menos pesadas, elas “mergulham”, portanto, menos facilmente, dificultando com isso as transferências de calor para a atmosfera.

Para alguns oceanógrafos, em particular Richard Seager (da Universidade Columbia), a suavidade invernal da Europa deve-se apenas marginalmente ao calor que emana do oceano. As causas desta situação seriam outras e teriam outra origem.

“Com efeito, com base em cálculos, Richard Seager estima que a diferença de temperatura, no inverno, entre as duas ribanceiras do Atlântico nas latitudes da França e do Reino Unido é essencialmente vinculada a dois fenômenos. De um lado, ela se deve aos ventos do oeste que trazem um ar marítimo para a Europa, e restituem o calor estocado pelo oceano durante o verão. De outro, aos meandros da circulação atmosférica, que é dificultada pelas zonas de relevo americanas, em particular as Rochosas”, explica o climatologista Edouard Bard (Collège de France).

Reputadas como grandes reguladoras climáticas, será então que as correntes marinhas não passariam de ilusionistas? Não, garante o professor Bard, “porque em caso de uma interrupção do transporte de calor oceânico, os modelos atmosféricos de Richard Seager sugerem uma diminuição das temperaturas de cerca de 4 °C nas latitudes médias, dos dois lados do Atlântico”. Contudo, o inverno continuaria sendo menos rigoroso em Paris do que em Montreal.

Nível do mar

Edouard Bard acrescenta que “as dados paleoclimáticos [do clima das eras passadas] demonstram de maneira indubitável a existência de uma forte associação entre a temperatura e a intensidade da circulação do Atlântico. Com diminuições de temperatura médias da ordem de 5 °C no Atlântico, de 10 °C na Europa e de 15 °C na Groenlândia”.

Esses fenômenos, muito rápidos, apareceram no espaço de algumas décadas apenas. O mais recente teria ocorrido há cerca de 8.200 anos. A análise de sedimentos marinhos sugere que ele foi provocado por uma contribuição maciça em água doce no Atlântico Norte, o que teria interrompido, ou reduzido fortemente, a circulação oceânica.

Seria o caso então de temer que um esfriamento de grande intensidade ocorra daqui até o final do século? Martin Visbeck, o diretor do departamento de oceanografia física do Instituto Leibniz das Ciências do Mar (em Kiel, na Alemanha), estima que “a redução da intensidade das correntes do Atlântico Norte, que poderia ser da ordem de 30% até o final deste século, não suplantará o aquecimento que vem ocorrendo na Europa Ocidental”.

“Quando muito”, explica Visbeck, “nós poderíamos assistir a avanços moderados das geleiras de mar em toda a região norte da Europa”. Estamos, portanto, muito distantes do cenário catastrófico do filme “O Dia Depois de Amanhã”, de Roland Emmerich (2004), que encenava a irrupção brutal de uma era glacial no hemisfério Norte depois da interrupção do Gulf Stream.

Em todo caso, a diminuição da intensidade das correntes atlânticas poderia também ter conseqüências sobre o nível do mar. “Em Nova York, ele é superior em cerca de um metro àquele que foi medido nas orlas européias”, explica Martin Visbeck. “Uma redução de 30% das correntes do Atlântico provocaria, por efeito de reequilibração, um aumento do nível do mar na Europa de 10 cm. E isso, sem levar em conta o efeito provocado pelo aquecimento propriamente dito”.

Uma outra preocupação diz respeito ao “mergulho” das águas da deriva norte-Atlântica. Todo ano, elas “absorvem” cerca de 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono atmosférico. Este CO2 que é dissolvido nas águas de superfície é “empurrado” e armazenado de maneira duradoura no fundo dos oceanos.

Mas uma diminuição da intensidade das correntes marinhas poderia frear este fenômeno e aumentar assim a concentração de gases de efeito-estufa na atmosfera. Um tal fenômeno teria como conseqüência um aumento das temperaturas, seguido por um processo de derretimento das geleiras e de aumento do teor de águas doces no oceano. Esta situação, por sua vez, contribuiria para reduzir a intensidade das correntes, e assim por diante.

Um fenômeno variável e mal conhecido

Poderia a circulação das correntes do Atlântico Norte ser interrompida num futuro muito próximo? Já faz um ano, um estudo publicado na revista “Nature” levantava muito seriamente esta questão.

Amplamente citadas e comentadas nos meios de comunicação, as pesquisas de Harry Bryden, do Centro oceanográfico nacional britânico, sugeriam que a corrente norte-atlântica havia perdido cerca de um terço da sua intensidade desde meados dos anos 1950. Esta estimativa havia suscitado muitos questionamentos: cinco medições apenas haviam sido efetuadas (cerca de uma por década), as primeiras por navios que transitavam entre as duas ribanceiras do Atlântico.

Desde a primavera de 2004, uma linha de bóias que foi instalada ao longo do 26º paralelo, entre a África Ocidental e as Bahamas, permite medir de modo continuado as variações da circulação oceânica no Atlântico norte. Os resultados dos dois primeiros anos da exploração realizada por este observatório foram tornados públicos por ocasião de um colóquio que foi realizado no final de outubro em Birmingham (Reino Unido). Eles relativizam as precedentes estimativas de Harry Bryden.

“Por enquanto, o principal ensinamento é que o fenômeno é muito variável”, explica Martin Visbeck (Instituto Leibniz de Kiel, Alemanha). Contudo, nada permite por enquanto concluir que uma diminuição de intensidade de mais de 10% tenha ocorrido durante as últimas décadas”. A variabilidade do fenômeno é tanta que em novembro de 2004 a circulação das correntes no Atlântico diminuiu de modo considerável… até ser restaurada.

“Essas oscilações podem ter atrapalhado as primeiras estimativas”, estima Paul Tréguer, o diretor da Rede de Excelência Européia EUR-Océans. Mas, nada é tão simples assim. “Alguns modelos prevêem a existência de fenômenos de limiar”, explica Edouard Bard, o titular da cátedra de Evolução do clima e dos oceanos no Collège de France. “Com isso, uma vez transposto certo limite, a circulação oceânica poderia ser interrompida bruscamente. Para alguns, nós poderíamos estar próximos deste limiar, enquanto para outros, nós ainda estamos muito distantes dele”.

A variabilidade e o comportamento das correntes marinhas ainda são mal conhecidos. Assim, cientistas do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD) observaram, entre 1999 e 2000, uma reversão das correntes equatoriais que circulam entre a Austrália e a América do Sul. “Esta reversão foi observada no decorrer de uma única campanha, mas nós não temos nenhuma explicação para oferecer no que diz respeito a este fenômeno”, comenta Thierry Delcroix, um co-autor dessas pesquisas. As repercussões climáticas desta reversão tampouco são conhecidas dos cientistas.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Le Monde

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Moratória da pena de morte cresce em Estados dos EUA

Movimento que paralisa execuções aumenta enquanto Justiça e governos debatem métodos e alcance da aplicação da pena capital

Desde 1999, execuções e condenações à morte tem sofrido queda no país; 4 Estados interromperam a prática nos últimos meses

VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
DE NOVA YORK

O enforcamento do ditador iraquiano Saddam Hussein e de seus ex-colaboradores reabriu discussões políticas sobre a aplicação e o futuro da pena de morte nos EUA.
Enquanto a Suprema Corte prepara um debate para decidir sobre a desumanidade dos métodos, como a injeção em dose letal de barbitúricos, o número de condenações à morte e de execuções tem caído sensivelmente desde 1999 (veja quadro nesta página).
Reconhecida por 38 dos 50 Estados norte-americanos, pelo governo federal e pelas Forças Armadas, a pena capital tem sido suspensa em diversas regiões por decisões políticas de governadores ou da Justiça local. Nos últimos meses, Califórnia, Flórida, Nova York e Carolina do Norte interromperam as execuções de condenados no “corredor da morte”.
No dia 5 deste mês, a Suprema Corte declarou inconstitucional a execução de condenados com algum tipo de doença mental e daqueles que tinham menos de 18 anos à época do crime. Em outra decisão, promotores e procuradores tentam convencer o júri a não condenar o réu à morte.
A posição da Justiça é baseada na mudança da opinião pública sobre o tema. Pesquisa nacional conduzida pelo instituto Gallup revela uma queda drástica no apoio popular à pena de morte. Hoje, a maioria dos americanos prefere a prisão perpétua para crimes contra a vida, depois de décadas em que a pena capital aparecia como primeira opção.
No ano passado, o número de execuções caiu para o menor patamar histórico, seguido da decisão política de governadores como Jeb Bush (Flórida), Arnold Schwarzenegger (Califórnia) e George Pataki (Nova York), todos republicanos, de suspender a medida.
Em Nova Jersey, uma comissão legislativa recomendou a abolição da pena de morte no Estado, ao chegar à conclusão de que “não há evidências da eficácia e de que a sentença sirva a causas legítimas”.
Só na semana passada, cinco execuções foram suspensas em diferentes Estados. Segundo dados do Centro de Informações da Pena de Morte, testes de DNA têm livrado ao menos um quinto dos condenados.

Método doloroso
Políticos, juízes, médicos e ativistas de direitos humanos discutem hoje nos EUA se o método da injeção letal realmente produz uma morte indolor ao condenado.
Levemente sedado, o réu tem os músculos paralisados antes de morrer, e testemunhas da execução não relatam sinais de sofrimento. Mas, segundo médicos, trata-se de um dos mais dolorosos meios de matar. Embora o condenado se contraia de dor, externamente vêem-se apenas alguns espasmos.
A composição da injeção letal varia de acordo com o Estado. No Texas, que lidera o número de execuções, é usada uma combinação de tiopentato de sódio, bromuro de pancurônio e cloreto de potássio. As substâncias sedam levemente o condenado e paralisam o diafragma, os pulmões e o coração.
Entre as entidades de direitos humanos que condenam essa prática, a ONG Anistia Internacional prepara, anualmente, um relatório em que identifica os locais onde este tipo de sentença ainda é aplicada. Dados do documento com relação ao ano passado revelam que 94% das execuções de 2005 aconteceram na China (1.770), Irã (94), Arábia Saudita (86) e Estados Unidos (60).
Nas próximas semanas, a Suprema Corte deve definir o grau de insanidade mental para livrar o réu da condenação à morte. Para a Justiça, o acusado não pode ser executado se não tiver capacidade de entender o porquê da sentença.
Na última quinta-feira, um juiz da Carolina do Norte suspendeu duas execuções, uma delas a poucas horas do previsto, depois que médicos do Estado escalados se recusaram a participar do procedimento com a injeção letal.
Na início da semana, 30 congressistas democratas propuseram a abertura de uma comissão para analisar alternativas à injeção letal.

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