Uma viagem até o coração da exclusão digital em Burkina Fasso
Bertrand Le Gendre
Em Zorgho, em Burkina Fasso, faltou muito pouco para os habitantes ficarem sem acesso a Internet. Uma enorme caicedra da família dos acajus (mogno) erguia a sua silhueta frondosa ao lado da antena parabólica que capta o sinal de satélite. Finalmente, a árvore, que dificultava a recepção do sinal, foi derrubada. Mas, para alcançar este resultado, quantas negociações foram necessárias!, conta Apollinaire Ouédraogo, o coordenador da associação African Solidarité, um cibercentro comunitário instalado a leste de Uagadugu, a capital deste pequeno Estado da África Ocidental.
Ouédraogo, que vive no coração do Sahel, uma região miserável e fatalista cujo meio ambiente combina calor sufocante, nuvens de poeira ocre, céu leitoso, não é um sujeito que costuma desistir com facilidade. Se fosse diferente, a caicedra ainda estaria no mesmo lugar. Primeiro, ele foi obrigado a negociar com os “sacerdotes” animistas que se dedicam a praticar sacrifícios rituais neste terreno ao lado da associação, e do qual a árvore era parte integrante. Depois, foi preciso convencer a municipalidade, que é proprietária do terreno.
Desde então, até que a modernidade digital e a tradição animista conseguiram conviver em paz em Zorgho, enquanto a utilização da Internet em Burkina Fasso vai conquistando espaços. Só que isso não está acontecendo da forma e no ritmo desejados pelas autoridades locais, cuja ambição declarada é bem maior. De fato, a sua expansão está longe de ser tão rápida quanto esperavam os chefes de Estados quando se reuniram em Genebra (2003), e depois em Tunis (2005) para a Cúpula Mundial sobre a sociedade da informação. E ela não vem se desenvolvendo tão facilmente quanto haviam previsto os profetas do digital. Neste país, um dos mais pobres do mundo (apenas três outros estão em situação pior do que ele), ninguém nunca ouviu falar do famoso projeto de “computador a 100 dólares”, que havia sido prometido às crianças do Terceiro Mundo por Nicholas Negroponte, o guru do Media Lab (do Instituto de Tecnologia do Massachusetts).
Tantas declarações oficiais, tantos discursos, efeitos de retórica, e tanta utopia tecnológica bem que justificavam uma viagem para ir verificar no local a realidade desta “exclusão digital” que resulta das desigualdades entre as populações no que diz respeito ao acesso à Internet. Atualmente, 80% dos habitantes do planeta permanecem excluídos das redes de informação mundiais. Menos de 4% dos africanos estão conectados à Internet, sendo que a maioria deles vive no Magreb (países da África do Norte) e na África do Sul. E apenas 0,5% dos burquinenses são usuários da rede mundial.
Combater este “analfabetismo digital” tornou-se um objetivo imperativo. Um por cento de internautas a mais num país pobre, segundo os especialistas, equivale a 1% de crescimento suplementar. Sem dúvida, esta equação não apresenta o rigor de uma fórmula matemática, mas ela traduz uma realidade que pode ser observada no terreno: o acesso às tecnologias da informação e da comunicação constitui uma poderosa alavanca para o desenvolvimento. E muito mais ainda num país cuja área rural ocupa 80% do território.
Em Zorgho, debaixo do teto de chapa de ferro da associação African Solidarité, estão reunidas mulheres vestidas de tangas multicoloridas que apertam seu corpo. Com o olhar perdido, elas aguardam para serem recebidas por um enfermeiro ou por uma assistente social. Todas elas são portadoras do vírus da Aids e sofrem de alguma doença. Assim como em Uagadugu, em Bobo Dioulasso, Ouahigouya ou Banfora, este centro de medicina dotado de uma estrutura de telecomunicações é o seu único acesso possível aos tratamentos de que elas precisam.
A antena parabólica, que é a “menina dos olhos” de Apollinaire Ouédraogo, conecta este modesto posto de saúde ao restante do mundo. Ela permite a realização de teleconferências com os médicos do hospital universitário de Genebra, a elaboração de diagnósticos à distância, o acompanhamento a partir de qualquer lugar do mundo do estado de saúde dos pacientes, a formação profissional via Internet do pessoal médico local, além da detecção e da prevenção de doenças… Num país que conta seis médicos para cada 100.000 habitantes, o acesso aos bancos de dados do mundo desenvolvido, e, sobretudo, aos seus especialistas, é uma questão de vida ou de morte.
Esta antena parabólica tem valor de um seguro de vida para os habitantes de Zorgho. É como se ela fosse um totem. Ela os tranqüiliza. Eles se sentem menos sozinhos; menos isolados do restante do mundo, do qual, para o seu grande desespero, eles nada percebem, a não ser um eco abafado.
Esta antena conectada com satélites também transmite seus sinais, por meio de uma conexão sem fio Wi-Fi, para um cibercafé situado à proximidade do centro de telemedicina. Diante dos computadores, há crianças risonhas com o nariz grudado na telinha; comerciantes sérios e concentrados, alunos que preparam um trabalho escolar, funcionários que consultam o site da sua administração. . . Atualmente, em Zorgho e em outras localidades da região, os cibercafés já se tornaram parte integrante da paisagem. O Burkina Fasso contaria hoje uma centena desses estabelecimentos.
Neste país onde a taxa de analfabetismo alcança 70%, onde o papel está em falta, onde as bibliotecas dignas deste nome são raras, onde 7% das famílias apenas possuem a televisão, a Internet oferece uma fonte inesgotável de imagens, de textos e de sons. É nela que as multidões carentes de saber e frustradas por terem sido excluídas da rede planetária vêm matar a sua sede.
Sem o Fundo Mundial de Solidariedade Digital, esta fonte jamais teria jorrado. É este organismo que financia o acesso à Internet da associação African Solidarité de Zorgho e de cinco outras associações no Burkina Fasso, todas elas voltadas para a saúde e a educação.
Uma fundação de direito suíço, o Fundo de Solidariedade Digital foi implantado em 2005 por iniciativa do presidente senegalês Abdoulaye Wade, na esteira das decisões da cúpula de Genebra relativa à sociedade da informação. Esta fundação vem travando um combate diário para impor uma idéia a princípio utópica, mas da qual é possível medir a relevância no Burkina Fasso. A sua meta principal consiste em fazer com que os fornecedores de toda empresa pública ou privada que compra equipamentos informáticos recolham 1% do montante da compra para o Fundo de Solidariedade Digital. Com isso, o dinheiro arrecadado lhe permite financiar os seus projetos em Zorgho e em outros lugares.
Esta organização, com os seus promotores do “1% digital”, não é a única que se dedica a favorecer a utilização da Internet em Burkina Fasso. O ministério francês das relações exteriores é outra entidade preocupada com a sua expansão. Ele faz deste país, uma antiga colônia francesa que se chamava República de Alta-Volta até a sua independência, em 1960, a vitrine do seu projeto que visa a reduzir o isolamento digital de diversos países e regiões, um projeto que tem por nome Aden. A este título, a França financia 16 centros de acesso à Internet neste que é um dos territórios mais encravados do continente. Desprovido de todo acesso ao mar, o Burkina Fasso procura depender menos dos países limítrofes: Gana, a Costa do Marfim, o Mali, o Niger, Benin e o Togo.
Por sua vez, a Agência Universitária da Francofonia também busca alcançar objetivos similares de integração digital em Burkina Fasso. O dirigente desta agência, com sede em Bobo Dioulasso, Jean-Baptiste Millogo, conta de que maneira um estudante desta cidade defendeu à distância a sua exposição de segundo ano de mestrado, perante o júri de uma universidade francesa, por meio de um sistema de teleconferência. Entre os seus orientadores estavam dois professores na sede da faculdade, em Nice, e um terceiro no Marrocos. E o estudante, em Bobo Dioulasso, feliz da vida por poder contar com tantos recursos… Sem a Internet, ele teria sido obrigado a viajar para a França para seguir seus estudos. Mas isso não é necessariamente o que mais desejam as autoridades francesas.
Em Burkina Fasso, onde metade da população vive com menos de 1 dólar por dia, acreditar na Internet constitui um ato de fé. Neste sentido, Joachim Tankoano, o ministro das tecnologias da informação e da comunicação, desponta como um homem movido por esta fé no futuro. Em seu escritório equipado com ar-condicionado em Uagadugu, situado a pouca distância do ex-palácio presidencial - onde o “pai” de Burkina Fasso, Thomas Sankara, passou suas últimas horas antes de ser assassinado por homens a serviço do presidente atual, Blaise Compaoré -, o ministro recebe esta reportagem. Ele apresenta com uma satisfação evidente um mapa do “país dos homens íntegros”, o nome que foi dado à antiga Alta-Volta por Sankara, o “Che Guevara africano”.
O seu dedo indicador segue a espinha dorsal (backbone) de uma rede de banda larga que em breve irá inervar as 45 províncias do país. “Daqui a dois anos”, afirma o ministro. A infra-estrutura que cerca este backbone deverá também levar - conforme ele promete - a eletricidade até as regiões onde ela ainda não existe. Assim, essas localidades receberão de uma só vez o ADSL e a lâmpada elétrica. O século 19 e o século 21 com uma tacada só. Tudo o que os burquinenses das campanhas querem é acreditar que isso se tornará realidade. Os das cidades já dispõem deste acesso. A banda larga já tem 7.000 usuários.
Depois da derrubada do capitão Sankara, 37 anos atrás, em 1987, o país passou a atender às exigências do FMI. Ele se liberalizou. Em 2006, o Estado cedeu 51% da operadora histórica burquinense, a Onatel, à companhia Maroc Telecom, uma filial do grupo francês Vivendi. É o produto desta venda que permitirá financiar o ambicioso projeto do ministro.
Para o telefone celular, um importante plano de investimentos permitiu obter avanços consideráveis. O sinal é captado em praticamente todas as regiões, transmitido por uma rede que abrange 86% do país. Um milhão e trezentos mil burquinenses já são usuários de um celular, numa população total de 14 milhões. Um aparelho da marca ZTE, “made in China”, custa 19 euros (cerca de R$ 48). É um dos mais baratos. Os usuários recarregam seu celular comprando dos vendedores ambulantes cartões de cores vivas, entre os quais os mais procurados são os das marcas Le Jus ou Nana (nana quer dizer “é fácil” em língua moré).
A juventude das cidades, como em qualquer outro lugar no mundo, mostra ter uma verdadeira paixão pelo seu celular, e não hesita a estourar seu orçamento ou a se endividar para ter um. O pequeno comerciante e o cultivador às voltas com a fome sabem o quanto ele pode ser útil num país onde não raro é necessário ficar esperando durante horas até conseguir fazer uma ligação para um cliente ou para a cooperativa agrícola a partir de um telefone fixo.
Os outdoors com anúncios chamativos das três operadoras de telefonia móvel, que são vistos às dezenas nos arredores das cidades, não raro transmitem a impressão de que o Burkina Fasso ingressou para valer na modernidade e livrou-se do seu atraso digital. Mas, esta é apenas uma impressão. Neste país, a eletricidade é rara e muito cara. Volta e meia, os jornais anunciam cortes periódicos de energia, provocados pelas fortes ondas de calor que aumentam a demanda, o que cria importantes sobrecargas para as centrais térmicas. Quando a energia é finalmente restabelecida, isso provoca rupturas de carga que podem detonar de maneira fulminante os computadores. Para remediar a este problema, é preciso equipá-los com filtros e estabilizadores próprios. Os quais, por sua vez, também são caríssimos no contexto burquinense.
De qualquer forma, quer ele seja veiculado por cabo, quer por satélite, o custo do sinal digital da Internet continua sendo proibitivo. O Fundo de Solidariedade Digital e o ministério francês das relações exteriores vão parar, ou já pararam de financiar certos projetos, por falta de dinheiro. Isso também está ocorrendo por conta da incapacidade, ou da impossibilidade, por parte das associações beneficiadas, de conseguirem viabilizar os projetos implantados. Com isso, no setor da tecnologia digital, assim como em tantos outros, o “país dos homens íntegros” segue precisando desesperadamente de assistência.
“Le Monde”