Arquivo de 8 de Julho de 2008

A história como arma de resistência

DOCUMENTÁRIO Guerra e Paz no Sertão dos Gerais narra as lutas das comunidades contra a grilagem e o avanço do agronegócio

Aldo Gama

“CAUSOU MUITO espanto às pessoas saber que alguém dali podia realizar esse tipo de trabalho”, conta o geógrafo e cineasta Leandro Caetano de Magalhães ao comentar as reações que seu filme, Guerra e Paz no Sertão dos Gerais, provocou nos moradores de Correntina (BA). “Mas, ao mesmo tempo, refletiu o processo de organização que está acontecendo na região e que busca frear o avanço da monocultura”, continua.
Idealizado como uma ferramenta, um instrumento de defesa das comunidades na luta pelos seus direitos e pela sua dignidade, o filme ultrapassou sua função inicial e atingiu outros públicos. “No começo, eu via no trabalho uma utilidade local bem prática, de função didática. Tanto que o projeto previa a distribuição de 300 cópias para as escolas dos municípios da região”, comenta Leandro. “Mas o filme acabou encontrando outros espaços, como o 5º Festcine Amazônia, onde foi exibido, e o Perro Loco, Festival de Cinema Universitário Latino-americano, para o qual está selecionado”, relata. Exibido em sessão aberta em uma praça da cidade, o documentário recebeu críticas positivas do público que se viu na tela e reconheceu sua história e suas lutas, que vêm desde o século 18.
“O Oeste da Bahia compõe uma região fi lha do bioma Cerrado, conhecido localmente como Gerais”, explica a sinopse, e Correntina fica a 919 quilômetros de Salvador, na fronteira com Goiás. Banhada por vários rios e preservada pelo modo de vida das populações ribeirinhas, a região, conhecida como o cerrado baiano, enfrenta uma série de dificuldades para garantir a sustentabilidade da comunidade.

“Desenvolvimento”
Em meados dos anos de 1970, o “reflorestamento” de grandes áreas para o plantio de pinus e eucalipto resultou na morte de dezenas de pequenos rios. Ao mesmo tempo, a grilagem das terras por parte de grandes fazendeiros e empresas – aproveitando- se da ingenuidade dos ribeirinhos e do fato daquelas serem terras devolutas – avançou e gerou uma série de conflitos violentos.
Nos anos de 1990, novos projetos “desenvolvimentistas” trouxeram a ameaça da monocultura de grãos e frutas, derrubando mais áreas do sintocerrado e desviando o curso de rios para irrigação. A produção ilegal de carvão e o trabalho escravo também fazem parte da realidade da região. Como exemplo, vale citar um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 2007, que aponta a liberação de quase 300 trabalhadores em situações análogas a de escravidão de uma fazenda em Correntina. No mesmo período, em São Desidério, outro município da região, 784 trabalhadores foram libertados de outras duas fazendas.

Gerais
Geógrafo formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), onde cursa licenciatura, Leandro contou com a ajuda dos pais para vencer barreiras como a desconfiança dos moradores mais antigos e “conhecer o universo encantador dos legítimos fi lhos do cerrado baiano”. O filme também destaca a longevidade dos correntinenses, atribuída ao modo de vida local, de hábitos saudáveis e distantes das neuroses urbanas. Para Caetano, esses idosos são “herdeiros de um período histórico especial e constituem um patrimônio imaterial de enorme relevância”, sendo necessário preservar essas memórias, suas manifestações culturais tradicionais, como encomendação de almas, reisados, festas religiosas etc.
Guerra e Paz no Sertão dos Gerais foi selecionado, em 2006, pelo Programa BNB de Cultura, do Banco do Nordeste, cujos projetos devem proporcionar algum retorno social à comunidade. Ligado à Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP) da Diocese de Bom Jesus da Lapa (BA), Leandro contou ainda com a articulação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) na produção do documentário, que passou a ser usado pelos movimentos em trabalhos de base.
O próximo trabalho do autor, Corrente das Águas, que trata dos recursos hídricos do oeste baiano, já está em pré-produção.

Quanto
300 trabalhadores foram liberados de fazenda em Correntina em situação análoga a de escravidão

“Brasil De Fato”

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Sessenta anos após “Bogotazo”, conflito continua na Colômbia

HISTÓRIA Assassinato de Jorge Eliécer Gaitán marca o início da convulsão no país; Farc e outros grupos surgem nesse período

Claudia Jardim

HÁ 60 ANOS, o som de quatro disparos à queima roupa mudaria a história da Colômbia. Era uma sexta-feira, 9 de abril de 1948. Jorge Eliécer Gaitán, líder do Partido Liberal e principal líder da oposição, caminhava no centro de Bogotá acompanhado por três amigos. Um jovem barbudo se aproximou do grupo e sacou um revólver. Gaitán teria recuado, tentado regressar ao edifício de onde havia saído minutos antes. Já era tarde.
“Mataram Gaitán, mataram Gaitán”, começou a gritar um, logo outro, até que a frase se transformou em um coro uníssono na capital do país. Se iniciava a rebelião popular conhecida como “El Bogotazo”.
O assassino, Juan Roa Sierra, não pôde escapar. Foi arrastado pelas ruas enquanto era linchado pela multidão enraivecida e levado ao local em que acreditavam que estaria o autor intelectual da morte do líder opositor: o Palácio de Governo, de onde despachava o presidente do partido Conservador, Mariano Ospina Pérez.
Favorito às eleições presidenciais de 1950, com um programa para “restaurar a moral da República”, Gaitán prometia democratizar a terra, estimular a educação pública, tornar o voto obrigatório, reconhecer a igualdade de direitos à mulher, entre outras reformas.
Era tempo de bipartidarismo, em que os partidos Conservador e Liberal disputavam o controle político do país. “A Colômbia travava uma guerra entre duas tribos, na qual mataram um dos chefes”, sintetizou o historiador Marco Palacios ao diário venezuelano El Nacional.

Fidel Castro
O assassinato de Gaitán impediu um encontro. Gaitán receberia, às duas da tarde deste dia, um dos estudantes latinoamericanos que estava reunido em Bogotá em um evento paralelo à 9ª Conferência Interamericana, que tinha como fi gura central o general estadunidense George Marshall, que pretendia fincar em Bogotá a política estadunidense de combate ao comunismo na América Latina.
Quando o então estudante, Fidel Castro, deixa seu hotel em direção ao local onde encontraria Gaitán, escuta os gritos e o estardalhaço da rebelião que se iniciava. Carros, edifícios, igrejas e tudo o que poderia representar o governo conservador seria destruído ou queimado.
Aquela gente começou a correr em todas as direções e a gritar que haviam matado Gaitán. Gente da rua, do povo, divulgando velozmente a notícia. Em pouco tempo, começaram as manifestações de anarquia, quebrando vidros e saqueando. Se respirava um ambiente de irritação na massa. Não era uma agitação organizada, e sim essas coisas que ocorrem espontaneamente”, relatou Castro anos depois.
A multidão reivindicava a renúncia do presidente. Os “gaitanistas”, uma das correntes do Partido Liberal, pretendiam transformar a revolta em revolução. A resposta foi a repressão. Dezenas de milhares de pessoas seriam mortas a partir desse dia. Iniciava-se uma guerra que, até hoje, não tem data para terminar.

Começa a guerra
Com a iminente derrota nas eleições presidenciais de 1950, o partido Conservador indicava já não acreditar na via eleitoral. A violência, incrementada após o Bogotazo, já marcava a vida dos camponeses no interior do país. “Pedimos que cesse a perseguição das autoridades. Assim o pede esta imensa multidão. Pedimos uma pequena e grande coisa: que as lutas políticas se desenvolvam pelo leito da constitucionalidade”, discursou Gaitán, cercado por milhares de pessoas durante uma manifestação realizada meses antes de seu assassinato.
Em resposta à violência dos latifundiários conservadores, a partir dos anos de 1940 começaram a conformar-se os primeiros núcleos de autodefesas camponesas que anos depois se converteriam em guerrilhas.
As pessoas se armavam com velhas escopetas, revólveres antigos e todos os implementos de guerra que encontrassem. Os trabalhos do campo eram abandonados devido à violência que já não permitia que as pessoas a ele se dedicassem. Surge a solidariedade entre conterrâneos, entre companheiros de luta, entre perseguidos”, descreveu Manuel Marulanda ou “Tirofijo”, o nome de guerra de Pedro Antonio Marín, principal comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), ao relatar o nascimento das autodefesas camponesas em seus Cadernos de Campanha.

Primeira célula das Farc
Levados pela violência a abandonar suas terras, dezenas de camponeses passaram a colonizar a zona selvática colombiana, abrigando o nascimento da primeira célula das Farc, que tinham como braço político o Partido Comunista Colombiano.
De um grupo de autodefesa que contava com umas poucas dezenas de camponeses, a guerrilha se constituiu em uma organização político-militar. Passou a inflar suas fi las com novos recrutas e formá-los na cartilha marxista- leninista, sob a reivindicação da tomada do poder para transformar a então conservadora estrutura em um Estado democrático, orientado pelo resgate das terras para os camponeses, controle dos recursos naturais, educação e saúde universais.
“A origem das Farc é absolutamente camponesa. Marulanda é um velho camponês que não teve nenhum contato com o mundo urbano, é um homem absolutamente rural”, afirma Jorge Luis Botero, jornalista colombiano, autor do livro Últimas notícias da guerra.

ELN e M-19
Paralelamente às Farc, se constituíram o Exército de Libertação Nacional (ELN) e a já extinta guerrilha M-19. Em uma etapa posterior, as Farc se consolidam como a maior guerrilha do país, estruturada como um Exército e autônoma. A chamada economia de guerra, vinculada à produção de cocaína, extorsões, cobrança de impostos e, mais recentemente, aos seqüestros, garantiam à guerrilha a manutenção de um Exército que, na década de 1980, somava 30 mil guerrilheiros, de acordo com dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz).
Este desenvolvimento das Farc culmina com a pior crise do Estado colombiano, que foi a crise da narcopolítica. Nesse ambiente de guerra, as Farc aparecem como uma força militar e uma bandeira política. Esse foi seu ponto máximo”, afirma Camilo González, ex-membro da guerrilha M-19, presidente do Indepaz.

União Patriótica
Em 1980, as Farc iniciam um processo de negociação para um acordo de paz com o governo de Belisário Betancour, no qual seria criado um movimento de oposição que permitiria que a guerrilha fosse incorporada paulatinamente à via institucional. As condições que permitiam o trânsito à legalidade era o pleno respeito aos direitos políticos dos integrantes da recémconformada União Patriótica (UP) e a realização de uma série de reformas democráticas, que permitiriam o pleno exercício de seus direitos civis.
Em 1984, se iniciou um processo de perseguição, assassinatos e desaparições forçadas dos membros da UP. Estima-se que 5 mil militantes, entre eles dezenas de dirigentes políticos, foram assassinados ou desaparecidos pelas mãos de paramilitares ou do Exército regular.
O extermínio da UP incide ainda hoje na análise das Farc sobre uma possível saída política para o conflito colombiano. “Símon Trinidad [do secretariado das Farc, condenado a 60 anos de prisão nos EUA] me disse uma vez: ‘Temos dois nuncas: nunca esqueceremos o que aconteceu com a UP e nunca vamos deixar as armas. Isso nunca vai acabar’”, sentenciou Trinidad, de acordo com o jornalista Jorge Botero.
Nesse período, de acordo com Camilo González, o incremento da pobreza nas zonas rurais, provocada pela bancarrota da economia camponesa – que substituiu o milho e o feijão pelo cultivo da coca e da papoula –, tornou as guerrilhas e os grupos paramilitares uma fonte de “emprego” para os jovens do campo. Houve uma ‘mercenalização’, muitos se incorporaram à guerrilha como modo de vida e, com o crescimento militar, a formação política foi fi cando de lado”, afirmou González.

Reféns
Após o ostracismo vivido depois do fracasso das negociações de paz do Caguan (1998 a 2000) e do crescente rechaço dos colombianos a práticas como o seqüestro, em agosto de 2007, as Farc lançam uma nova estratégia para construir uma plataforma política internacional, em uma tentativa de compensar o debilitamento interno dos últimos anos.
A guerrilha abre os canais de diálogo com o governo de Álvaro Uribe para um acordo humanitário intermediado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que prevê a libertação de um grupo de se- qüestrados políticos em troca de 500 guerrilheiros presos. “As Farc precisavam fechar o capítulo desse grupo de reféns. Estavam traçando o caminho, mas Uribe tampouco quer deixar. Uribe os tem encurralados e diz que as coisas são à sua maneira”, avalia Camilo González.
Plano Colômbia O Plano Colômbia, principal instrumento do governo Uribe no combate à guerrilha, deverá alcançar cifras recordes para este ano. Financiado pelos Estados Unidos, o plano deverá alcançar os 9 bilhões de dólares, o equivalente a 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com um estudo realizado pelo pesquisador em Direitos Humanos Ivan Cepeda. O bombardeio realizado pelo Exército colombiano no Equador, dia 1º de março, que resultou na morte de Raúl Reyes, principal interlocutor do acordo humanitário, congelou as possibilidades de novas libertações de reféns. Depois disso, as Farc anunciaram que a entrega unilateral, como a de seis reféns libertadas no início deste ano, não se repetiriam.
Uribe está convencido que pode derrotar militarmente a curto prazo as Farc. Ele acredita que sua estratégia está funcionando e, portanto, não abrirá espaços de diálogo ao acordo nem ao diálogo internacional, porque não convém à sua estratégia”, avalia González.
Mais 60 anos? A guerra, que já dura 60 anos, cobra anualmente a vida de 10 mil pessoas, de acordo com dados do Indepaz. Convencido de que pode derrotar a guerrilha, Uribe insiste na via armada. Além do acordo humanitário, as Farc não indicam um caminho diferente.
O jogo está trancado. Para o jornalista colombiano Jorge Botero, a projeto político defendido pelas Farc, de tomada de poder pela via armada, é “utópico” e “inviável” no atual contexto latino-americano e interno colombiano. “É um caminho absolutamente inviável do ponto de vista militar, não só porque a conjuntura latino- americana é desfavorável a este cenário, mas também porque não há como desequilibrar a balança de tal forma que possam chegar ao poder como chegou Fidel e seus barbudos”, avalia Botero.
Para Camilo González, do Indepaz, a maioria dos colombianos já não entende a razão de ser da guerra e responsabilizam principalmente a guerrilha pelo conflito. A seu ver, as Farc não possuem atualmente uma bandeira programática pela qual lutam.
“O que pensam dos problemas reais do povo colombiano, o que propõem? Ninguém sabe o que pensam sobre nenhum dos temas que inquietam as pessoas no cotidiano. A bandeira deles é de auto-reivindicação, e não deixam ver seu programa político, que, sim, existe, mas ninguém mais recorda quais são as razões da sua luta”, afirma González.

Quanto
10 mil pessoas morrem anualmente em virtude da guerra, que já dura 60 anos

“Brasil De Fato”

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África dos sonhos

PROJETO CONTROVERSO DO ECONOMISTA JEFFREY SACHS TENTA REVERTER SITUAÇÃO DE PENÚRIA DE ALDEIAS DO CONTINENTE

SAM RICH

Sauri deve ser a aldeia mais afortunada da África. O milho cresce mais, a água é mais limpa, e os estudantes da escola local recebem alimentação melhor do que em quase qualquer outra parte da África ao sul do Saara.
Poucos anos atrás, Sauri era só mais uma aldeia queniana para a qual pobreza, fome e doença eram fatos cotidianos.
Agora se tornou sede de uma experiência que fez dela o protótipo para a “aldeia do milênio”. É uma idéia simples: a cada ano, por um prazo de cinco anos, investir um total per capita de cerca de US$ 100 nessa aldeia de 5.000 habitantes, para descobrir o que acontece.
O projeto Aldeias do Milênio foi concebido pelo economista Jeffrey Sachs, principal arquiteto do projeto de transição da economia estatizada para a economia de mercado na Polônia e na Rússia.
Os críticos e os defensores de seu trabalho discordam quanto ao sucesso dessas empreitadas, muitas vezes descritas sob o rótulo “terapia de choque”, mas seu papel na reforma econômica radical de ambos os países o arremessou à fama.
Agora, tem uma nova missão: pôr fim à pobreza na África.

Conta-gotas
Os africanos vêm recebendo assistência em conta-gotas há décadas, alega Sachs em “O Fim da Pobreza” [Companhia das Letras], mas jamais em volume suficiente para que a ajuda faça diferença.
O dinheiro que chega a eles termina desperdiçado em pagamentos a consultores que recebem honorários altos demais ou é usado para custear assistência humanitária e alimentar, o que não ajuda a erradicar a pobreza.
O africano médio, afirma Sachs, está preso na “armadilha da pobreza”. Ele cultiva uma pequena porção de terras para sustentar a família e simplesmente não dispõe dos ativos necessários para gerar lucros.
À medida que a população cresce, as pessoas passam a dispor de menos e menos terra, e isso as torna ainda mais pobres.
Quando o agricultor precisa pagar a escola dos filhos ou comprar remédios, se vê forçado a vender as poucas propriedades de que dispõe ou a se endividar. Mas, se dispusesse de algum capital, poderia investir em sua fazenda, cultivar o bastante para obter um excedente, vender o produto e, assim, começar a ganhar dinheiro.
Não é o diagnóstico que Sachs apresenta quanto aos problemas da África que torna suas teorias controversas, mas a solução que propõe, que poderia ser definida como um “choque de assistência” -grandes e rápidas injeções de capital em áreas pobres.
Ao longo de cinco anos, a aldeia de Sauri receberá, sozinha, US$ 2,75 milhões em investimentos e montantes semelhantes serão investidos nas 11 outras Aldeias do Milênio que estão sendo estabelecidas em dez países africanos.

Visita
Em 2006, visitei Sauri, a aldeia da qual tanto parece depender. Eu havia acabado de ler o livro de Sachs e admito que estava cético quanto à sensatez de investimentos tão elevados em uma única aldeia.
No dia seguinte à minha chegada haveria uma excursão de visitantes partindo na jornada de 50 quilômetros até Sauri.
Nossa primeira parada foi na clínica de saúde, que oferecia lembretes severos sobre a profundidade dos problemas de Sauri e sobre os benefícios que o dinheiro pode propiciar.
A enfermeira de plantão nos informou que, no início do projeto, todos os domicílios receberam redes de proteção contra mosquitos, após testes aleatórios com os moradores revelarem que mais de 40% deles sofriam de malária. Agora, o índice caiu para menos de 20%.
A malária está sendo tratada gratuitamente com Coaterm, um remédio caro e indisponível na maior parte do Quênia.
Minutos mais tarde, chegamos ao pátio verdejante da escola primária. Os edifícios de tijolos vermelhos não estão equipados com portas e janelas e oferecem salas de aula para mais de 600 crianças. Uma das construções não tem teto.
O professor demonstrava entusiasmo com o inovador programa de alimentação adotado na escola. Cerca de 10% dos produtos agrícolas colhidos na aldeia são destinados às refeições escolares das crianças, disse. Além disso, o projeto compra frutas, carne e peixe para prover os estudantes de vitaminas e proteínas.
Voltamos ao Toyota e partimos para mais uma visita, a um novo edifício de tijolos mal acabado, com piso de terra batida.
Lá, os cerca de 12 integrantes do comitê agrícola da aldeia tomam decisões cruciais para o sucesso de todo o projeto. As safras melhoradas podem ajudar a manter o programa de alimentação escolar e a elevar a renda dos agricultores.
O sucesso na agricultura deve permitir que a aldeia mantenha seu crescimento depois que o projeto de cinco anos for encerrado, em 2009.
A maior contribuição do projeto à agricultura foi a aquisição de fertilizantes para elevar a produção de milho. O milho, cultivado na região há mais tempo do que é possível lembrar, é a principal safra de subsistência ali, como em outras partes da África.
Os fertilizantes sintéticos são dispendiosos demais para os agricultores médios, mas em Sauri o projeto investe US$ 50 mil ao ano neles.
Os professores partiram, mas eu decidi ficar. Era evidente que o Projeto Aldeias do Milênio havia conseguido grandes realizações, mas eu não sentia que tivesse contemplado o quadro completo. Cruzei a estrada e fui à aldeia conversar com um dos orientandos de Sachs, um pesquisador da Universidade Columbia. Havíamos nos conhecido algumas horas antes, quando ele se ofereceu para me apresentar a um morador de Sauri, Ben Bunde, na casa deste.
Quando perguntei a Bunde de que maneira a aldeia mudara com o projeto, ele inclinou o corpo para trás, riu e disse que “agora as meninas têm cortes de cabelo melhores”. O número de salões de cabeleireiros aumentou, ele afirmou, entusiástico, e todas as meninas estão fazendo tranças. Pela primeira vez, as pessoas estão vendendo batatas fritas à beira da estrada. Bunde também diz que a preponderância dos clãs fomenta o nepotismo e outras formas de favorecimento indevido.
Segundo ele, os moradores não foram suficientemente instruídos sobre o projeto. Depois de receberem fertilizantes e redes contra mosquitos gratuitamente, alguns dos aldeões os venderam a moradores de comunidades vizinhas já no dia seguinte e começaram a conspirar para conseguir mais fertilizantes e mais redes contra mosquitos.

“Ficamos dependentes”
Em última análise, questiona se os especialistas estrangeiros realmente compreendem os problemas de Sauri. Embora a vida tenha melhorado nos anos desde que a experiência do projeto foi iniciada, Bunde especula de maneira temerosa sobre o que acontecerá quando for encerrado, “porque nos tornamos totalmente dependentes”.
Dois dias depois, me encontrei com um dos dirigentes do projeto, que pediu para não ter seu nome divulgado. Segundo ele, “foram cometidos todos os erros clássicos de projetos de desenvolvimento…
Se você fornece toneladas de fertilizante, é previsível que boa parte do material termine no mercado aberto. Se você investe milhões [de dólares] em um lugar pequeno, vai enfrentar problemas”. Cultivar milho anos após ano desgasta a terra, segundo ele.
Além disso, alegou o funcionário, seu preço não é alto o bastante para fazer dele um produto lucrativo. Na opinião desse funcionário, o projeto seria mais efetivo se pressionasse por algumas mudanças macroeconômicas, em lugar de concentrar todos os seus esforços na aldeia.
Por exemplo, os agricultores do Quênia não compram fertilizante porque o produto custa três vezes mais no país do que na Europa, ele afirmou. Caso o governo queniano reduzisse os impostos e tarifas de importação sobre os fertilizantes, “muito mais agricultores comprariam o produto”. Sauri realizou mais do que projetos como esses poderiam, mas não se transformou ainda em aldeia-modelo.

África em microcosmo
Em lugar disso, continua a ser uma África em microcosmo. Todos os problemas fundamentais do continente continuam a existir em Sauri; e, em alguns casos, foram ampliados.
A estrutura política da aldeia é confusa. Sauri agora tem dois governos em conflito: os comitês e o governo local existente. Os comitês do projeto introduziram um novo escalão de burocratas, e seus recursos superiores solaparam o poder do governo local.
Além disso, os comitês foram acusados de trabalhar uns contra os outros, e de corrupção, lentidão e falta de praticidade. Os representantes que os integram foram escolhidos por motivos de origem étnica e posição social, e não por sua habilidade política. Como em muitas partes da África, não está claro que decisões foram tomadas pelo governo e que decisões vieram dos doadores.
Sauri continua a enfrentar os desafios econômicos do passado. A maioria dos agricultores produz safras de subsistência e desgasta a terra. O crescimento é lento por conta da tributação, das más estradas e da falta de eletricidade -que terá de ser resolvida em nível nacional.
As aldeias estão claramente desfrutando de melhor saúde em razão do projeto. Mas, encerrados os cinco anos, o governo do Quênia terá de enfrentar a difícil escolha entre continuar a bancar os custos de uma clínica-modelo em Sauri ou reduzir o orçamento da instituição de maneira considerável.
E Sauri ainda precisa resolver as divisões que são típicas do Quênia: entre grupos étnicos, homens e mulheres, jovens e velhos -legar mulheres como herança é uma prática que continua em uso. Essas formas de problemas culturais não podem ser resolvidas por doações; é preciso que as intervenções sejam mais sutis.
Isso não equivale a dizer que Sauri não pode mudar ou que é desperdício investir na aldeia. Mas mudanças duradouras só acontecerão por meio da educação de crianças e treinamento de adultos, e não pela distribuição de mercadorias.
Para expressar o dilema de outro modo, quando alguém dá a uma pessoa uma rede contra mosquitos, a pessoa procurará o doador para obter uma rede nova quando a antiga se rasgar.
Mas, se lhe for demonstrado de que maneira a rede contra mosquitos beneficia sua saúde e como isso pode resultar em economia com a compra de remédios, em longo prazo, é provável que a pessoa opte por comprar a rede sem ajuda.

“Folha de S. Paulo”

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Decadência armada

Autor de estudo sobre as Farc, Pascal Drouhaud diz ser precipitado prever o declínio da guerrilha após libertação de Ingrid

MARIE SIMON

As condições da libertação de Ingrid Betancourt revelam a existência de graves erros de funcionamento” no interior da guerrilha colombiana, explica Pascal Drouhaud, autor de “Les Farc - Confessions d’un Guérillero” (As Farc - Confissões de um Guerrilheiro, ed. Choiseul, 20) e especialista na situação colombiana. “A Colômbia vive um momento histórico.”

PERGUNTA - Qual foi sua primeira reação à libertação de Ingrid?
PASCAL DROUHAUD - Antes de mais nada, é claro, sinto uma alegria imensa. Ingrid Betancourt passou mais de seis anos prisioneira. Seis anos de sofrimento e angústia.

PERGUNTA - Ingrid Betancourt se converteu em uma espécie de ícone. O que sua perda representa para as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)?
DROUHAUD - Os guerrilheiros perderam uma refém emblemática, que lhes proporcionava visibilidade internacional.

PERGUNTA - O interesse nacional e a pressão decorrente dele, de certa maneira, irão diminuir?
DROUHAUD - Creio que não. A situação colombiana não interessa apenas pelo caso de Ingrid Betancourt. As Farc ainda mantêm cerca de 800 reféns e integram a lista internacional de movimentos terroristas. Acredito que a comunidade internacional compreendeu que, para conseguir uma paz durável na região, é indispensável solucionar o conflito interno colombiano.

PERGUNTA - Vários dos líderes das Farc caíram nos últimos meses. É o anúncio crônico de seu fim?
DROUHAUD - A fase ruim continua, de fato. As condições da libertação de Ingrid Betancourt traem a existência de graves erros de funcionamento interno [um agente infiltrado conseguiu agrupar 15 reféns e levá-los para fora, fazendo os guerrilheiros acreditar que se tratava de uma simples transferência de prisioneiros de um local para outro]. As tropas e o comando têm dificuldade de se comunicarem, e essa dificuldade tem conseqüências operacionais.
E o movimento está infiltrado em seu mais alto nível, como mostraram as operações que custaram a vida a Ivan Rios e Raúl Reyes [líderes das Farc mortos neste ano].
A guerrilha corre grande risco de se desarticular sob a pressão acentuada e muito precisa do Exército colombiano. Vemos aqui os resultados da política de segurança e de reforço do Exército implantada pelo presidente Álvaro Uribe a partir de 2002. Portanto, o momento é difícil para as Farc, mas é preciso prudência, pois o grupo ainda conta com vários milhares de homens armados e habituados a viver na clandestinidade.

PERGUNTA - Uribe conquista uma vantagem após outra. Ele vai seguir adiante com essa política?
DROUHAUD - Ele pode levar sua vantagem adiante, em vista do sucesso de sua política. Com uma vantagem tão grande, também pode se permitir o luxo de não responder à reivindicação das Farc de obterem o estatuto de beligerantes, de não figurarem na lista dos movimentos terroristas. Acho que o governo colombiano está muito longe de reconhecer a dimensão política das Farc.

PERGUNTA - Uribe pediu às Farc que libertem os outros reféns e aceitem fazer a paz. Como elas podem reagir, enfraquecidas que estão no momento atual?
DROUHAUD - Caberá a Alfonso Cano, o novo e muito pragmático chefe do grupo, responder a esse golpe enorme sofrido. Em todo caso, a libertação desses 15 reféns abre o caminho para um processo que pode levar à região uma paz durável. Estamos vivendo um momento histórico e inédito para a Colômbia.

“Folha de S. Paulo”

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“EUA insistem em manter sua atitude de Estado fora da lei”

Os assuntos internacionais são, em grande medida, como os assuntos da máfia: um padrinho não pode tolerar a desobediência, nem sequer a de um pequeno lojista que se recuse a pagar pela proteção, porque a maçã podre poderia fazer apodrecer o barril inteiro. A comparação é de Noam Chomsky, ao analisar a política externa dos EUA, em entrevista ao ensaísta Wajahat Ali.

Wajahat Ali - Counterpunch

“Neste momento, estou completamente sobrecarregado por demandas, mas realmente gostaria de realizar esta entrevista, só que não sei quando poderá ser”, respondeu Noam Chomsky - 79 anos, prolífico autor, lingüista, acadêmico e ativista – na primeira de muitas mensagens trocadas ao longo de seis meses. É o mais citado e, provavelmente, o mais controverso intelectual vivo, segundo Global Intellectuals Poll. Embora os meios de comunicação dominantes lhe neguem espaço, o New York Times garante que Chomsky continue sendo um dos intelectuais vivos mais influentes e mais solicitados por estudantes, universidades, ativistas, simpósios acadêmicos e, inclusive, por líderes mundiais, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Meu primeiro encontro com este ativista, acadêmico, polemista e de má reputação para alguns remonta ao ano 2002, quando fui moderador em uma sessão de perguntas e respostas na qual ele participou, celebrada no meu antigo programa na Universidade da Califórnia (Berkeley). (O encontro seria, posteriormente, incluído no livro Power and Terror: Post 9-11 Talks and Interviews). Antes do programa, tivemos uma longa conversa de uma hora e fiquei impressionado com sua inesgotável memória, sua falta de afetação e o brilhante resumo de dados, nomes e datas que ele utilizou em resposta às minhas intermináveis perguntas. Quando perguntei qual era sua faceta dominante, se acadêmico ou ativista, respondeu que nenhuma das duas de modo exclusivo, e disse que a dissidência sempre tem sido parte dele, desde o primeiro artigo que escreveu, aos dez anos de idade, no qual condenava o triunfo do fascismo durante a Guerra Civil espanhola. Apesar de que a arrogância de muitos intelectuais e acadêmicos só é superada por sua própria insegurança, o que dá como resultado um elitismo frio e egoísta, sempre vi em Chomsky alguém generoso, adaptável e disposto a compartilhar seu tempo e seus conhecimentos.

Assim, não foi surpresa que, depois de seis meses de mensagens eletrônicas, o professor Chomsky pudesse dispor de um pouco de tempo para responder minhas perguntas, segundo suas próprias palavras. Nesta entrevista exclusiva, Chomsky discute acerca da ameaça do Irã, dos paralelismos e diferenças entre Vietnã e Iraque, dos meios de comunicação nos Estados Unidos, de seus críticos e detratores, Paquistão e a negação do título de professor para Norman Finkelstein.

Ali: Em 1969 o senhor publicou seu primeiro trabalho político de importância, “American Power and the New Mandarins” (O poder norte-americano e os novos mandarins) uma acerada crítica à intervenção dos Estados Unidos no Vietnã e no Sudeste asiático. Como sabe, muitos estabelecem paralelos entre a atual guerra do Iraque e a do Vietnã. Outros, é claro, rejeitam esta comparação. O senhor, como pessoa com grande experiência no estudo de ambos os momentos, tão significativos historicamente, considera que esse paralelismo é prematuro e ousado? Ou acredita que podem ser estabelecidas semelhanças importantes entre ambas as guerras no que se refere à intervenção norte-americana?

Chomsky: A primeira semelhança guarda relação com o modo de considerar as guerras nos Estados Unidos e no Ocidente em geral. Marginais a parte, as opiniões oscilam entre o que se conhece como falcões e pombas. Em ambos os casos, os falcões garantiam que uma intervenção maior dos Estados Unidos poderia levar à vitória. As pombas, também nos dois casos, participam da opinião expressa por Barack Obama sobre o Iraque (trata-se de uma gafe estratégica, que está saindo cara demais para nós) ou pelo destacado historiador de centro-esquerda e assessor de Kennedy, Arthur Schlesinger, em 1966, quando o Vietnã já aparecia como uma aventura custosa demais para os Estados Unidos. Schlesinger afirmou na época: todos rezamos para que os falcões tenham razão e que um número maior de tropas nos traga a vitória. E, se no fim, resultar que temos razão – dizia – todos elogiaremos a sabedoria e a liderança do governo norte-americano, que conseguiu uma vitória deixando para atrás esse trágico país destripado e devastado pelas bombas, queimado pelo napalm e desertificado pela defoliação química, um país de ruína e escombros, com seu tecido político e institucional totalmente destruído.

Mas Schlesinger não acreditava que a escalada teria sucesso, e sim, pelo contrário, que poderia nos custar caro demais, o que parecia indicar a necessidade de pensar novamente toda a estratégia. A posição das pombas em relação ao Iraque é bastante parecida. Se, por exemplo, o general Petraeus pudesse conseguir algo parecido ao que Putin conseguiu na Chechênia, seria elevado aos altares, com o aplauso das pombas progressistas.

É quase inconcebível, dentro dos rumos estabelecidos da cultura intelectual ocidental, a possibilidade de se fazer uma crítica da guerra baseada em questões de princípio, ou seja, o tipo de crítica que fazemos, reflexiva e adequadamente, quando algum país inimigo comete uma agressão: por exemplo, quando a Rússia invadiu a Checoslováquia, o Afeganistão ou a Chechênia. Não criticamos estas ações por razões de custo, erro, por terem sido uma grande gafe ou por estancamento. Em vez disso, condenamos essas ações como horrendos crimes de guerra, tanto se elas são bem-sucedidas quanto se não.

Em si mesmas, as guerras do Vietnã e do Iraque, contudo, são muito diferentes por seus motivos e caráter. O Vietnã não tinha, por si mesmo, nenhum valor para os Estados Unidos, embora o presidente Eisenhower tenha tentado conseguir apoio para a sua violação dos acordos de paz de Genebra recorrendo aos recursos, de estanho e borracha disponíveis naquele país. Se o Vietnã tivesse desaparecido do mapa, afundado no mar, isso não teria significado grande coisa para os planejadores norte-americanos. O Iraque é uma coisa totalmente diferente. Tem, provavelmente, as segundas maiores reservas petrolíferas do mundo, com a particularidade extra de que são de fácil extração. E, além disso, está exatamente no centro geográfico mundial dos maiores recursos energéticos mundiais, facilmente exploráveis.

No caso do Vietnã, a preocupação consistia em que um desenvolvimento independente e bem-sucedido desse país podia ser um vírus que poderia estender o contágio para outros, se aceitarmos a retórica de Henry Kissinger em relação ao socialismo democrático no Chile. Este raciocínio tem sido o motivo primordial de intervenção militar e de subversão em todo o mundo a partir da II Guerra Mundial, é a versão racional da teoria do dominó. O contágio consiste em que outros que sofrem dos mesmos males possam ver em um desenvolvimento independente e exitoso um modelo, e possam tentar seguir por esta mesma via, o que provocaria a erosão do sistema de dominação. Por isso, até o mais pequeno e débil país representa uma ameaça extrema à ordem.

Os assuntos internacionais são, em grande medida, como os assuntos da máfia: um Padrinho não pode tolerar a desobediência, nem sequer a de um pequeno lojista que se recuse a pagar pela proteção, porque a maçã podre poderia fazer apodrecer o barril inteiro, na terminologia dos planejadores norte-americanos: aqui, a podridão consiste em um desenvolvimento independente exitoso, à margem do controle norte-americano. Temia-se que o Vietnã pudesse infectar seus vizinhos, como a Indonésia, com seus ricos recursos. E que o Japão – que o destacado historiador da Ásia John Dower chamava de superdominó– pudesse acomodar-se a uma Ásia Oriental independente, transformando-se, com isso, em seu centro industrial e tecnológico, tornando realidade a nova ordem que o Japão fascista havia tentado construir pela força durante a II Guerra Mundial. Os Estados Unidos não estavam dispostos a perder a fase do Pacífico da II Guerra Mundial apenas poucos anos depois.

Quando se teme que o contágio possa se estender é preciso destruir o vírus e inocular aqueles que poderiam se infectar. E esta operação foi feita. O Vietnã sofreu uma quase total destruição (assim como toda a Indochina, quando os EUA estenderam sua guerra para o Laos e a Camboja). No fim de 1960, era evidente que nunca poderia ser modelo para ninguém e que a mera sobrevivência seria obra da providência. E a região foi inoculada por meio da imposição de tiranos assassinos: Suharto na Indonésia, Marcos nas Filipinas, etc. O golpe militar de Suharto, em 1965, foi particularmente importante, e foi descrito com toda precisão: o New York Times afirmou que se tratava de um “assassinato massivo horripilante” –e também como “um raio de luz na Ásia”–, em momentos em que o exército do ditador assassinava um número estimado em um milhão de pessoas, em sua maior parte camponeses sem terras; destruía o único partido político popular de massas do país, um partido dos pobres, como foi descrito pelo especialista australiano Harold Crouch, e abria a porta dos ricos recursos do país para sua exploração pelas corporações ocidentais. A euforia nem sequer foi dissimulada. Retrospectivamente, o assessor de segurança nacional de Kennedy e Johnson, McGeorge Bundy, afirmou que os Estados Unidos poderiam ter posto fim à guerra do Vietnã em 1965, depois desta grande vitória da liberdade e da justiça.

Os Estados Unidos conseguiram uma significativa vitória na Indochina, apesar de não terem conseguido seu objetivo máximo: instalar um Estado satélite. Por conseguinte, para a consciência imperial a guerra do Vietnã foi um desastre.

Como já disse, o Iraque é outra coisa. É valioso demais para ser destruído. É fundamental que permaneça sob o controle dos EUA, na medida de tudo o que for possível, em forma de Estado satélite obediente que abrigue importantes bases militares norte-americanas. Sempre foi evidente que este era o objetivo primordial da invasão, mas agora isso não precisa sequer ser discutido. Estes planos foram explicitados pelo governo Bush com sua declaração de novembro de 2007 e por afirmações posteriores, acompanhadas da descarada exigência de que as grandes corporações norte-americanas do petróleo tenham acesso privilegiado às enormes reservas de cru do Iraque.

Ali: Parece que o público norte-americano finalmente descobriu, depois de 60 anos, a existência do Paquistão. O general Musharraf é sincero quando afirma querer reconstituir a democracia em seu país? Concretamente, por que os Estados Unidos confiam em Musharraf mais do que em outros rivais potenciais, como Bhutto e Zardari, do PPP, Nawaaz Sharif, etc., em sua guerra contra o terrorismo e sua busca e captura de Bin Laden?

Chomsky: Não devemos perder tempo valorando as intenções de Musharraf de reconstituir a democracia. Os Estados Unidos apoiaram-no tanto tempo quanto possível, do mesmo modo que apoiaram outros tiranos, como Zia ul-Haq. A escolha de um determinado aliado é feita seguindo um critério muito simples: trata-se de buscar o satélite mais leal, aquele que mais nos garanta que vai obedecer ordens. Apesar de alguma exceção ocasional, a uniformidade é impressionante.

Ali: Recentemente, um relatório dos serviços secretos dos EUA afirmava que o Irã tinha finalizado com sucesso um programa de armas nucleares há quatro anos. O Irã afirma que, na verdade, nunca teve um programa deste tipo. Contudo, o presidente Bush, o presidente israelense Olmert e altos cargos de Washington garantem que o Irã continua sendo uma grande ameaça e que persegue a obtenção de armas nucleares. São sustentáveis estas opiniões dos EUA e Israel? E se não são, qual é a razão da retórica de enfrentamento com o Irã, e de que modo favorece a política exterior dos EUA na região do Oriente Próximo?

Chomsky: Estas afirmações deveriam ser avaliadas pela Agência Internacional de Energia Atômica. Eu, é claro, não tenho nenhum conhecimento especial. Não seria tão surpreendente que descobrissem que o Irã tem algum tipo de programa de armas nucleares, junto, talvez, com planos de emergência. As razões foram expostas por um dos mais importantes historiadores de Israel, Martin van Creveld, quando disse que o Irã estaria completamente louco se não desenvolvesse uma arma de dissuasão nuclear nas atuais circunstâncias: com as forças hostis de uma superpotência violenta em duas de suas fronteiras e uma potência regional hostil (Israel) que dispõe de centenas de armas nucleares clamando por uma mudança de regime no Irã. Contudo, as provas disponíveis indicam que se esse país já teve um programa assim, ele foi encerrado há alguns anos.

Da perspectiva norte-americana, o Irã cometeu um grave crime em 1979. Como é sabido, em 1953, os Estados Unidos e o Reino Unido desmantelaram a democracia parlamentar iraniana e instalaram um brutal tirano, o Xá, que foi um baluarte do controle norte-americano na rica região petrolífera até 1979, quando foi deposto após um levantamento popular. Tratava-se de um caso bastante parecido ao da derrocada do ditador Batista em Cuba, em 1959, e de outros atos de desafio exitoso aos princípios de Washington, segundo o termo cunhado em seus documentos internos. O Padrinho não pode tolerar um desafio exitoso. É uma ameaça grande demais ao que chamam de estabilidade, ou seja, à obediência aos senhores.

A independência iraniana não é um problema menor. Ameaça o controle norte-americano de um dos butins mais valiosos do mundo, o petróleo do Oriente Próximo. Como conseqüência, desde 1979 os Estados Unidos têm sido duramente hostis com o Irã. Washington respaldou o feroz e mortífero ataque de Sadam Hussein contra o Irã e, inclusive, uma vez terminada a guerra continuou apoiando esse aliado até o ponto de convidar engenheiros nucleares iraquianos para receberem formação avançada para o desenvolvimento de armas nucleares, em 1989. Mais tarde, promulgou graves sanções contra o Irã, ao mesmo tempo que lançava freqüentes ameaças de atacar esse país e derrocar seu governo.

E assim até hoje. Atualmente, 15 de junho de 2008, a agência de notícias Reuters informa o seguinte: “Os analistas estimam que se forem oferecidas ao Irã garantias de segurança –uma idéia lançada pela Rússia– seria possível sair do ponto morto atual, considerando que estas garantias constituem o objetivo fundamental do Irã, dada a política de Bush de mudança de regime referente a esse país. Mas os Estados Unidos afirmaram, no mês passado, que as grandes potências não tinham planos de compromisso em matéria de segurança com Teerã.”

Em poucas palavras, os EUA insistem em manter sua atitude de Estado fora da lei, rejeitando os princípios fundamentais do Direito Internacional, entre outros a Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força nos assuntos internacionais. Bush conta com o apoio dos dois principais candidatos presidenciais de 2008 e com o das elites dos EUA e da Europa, ainda que não com o da opinião pública norte-americana, que apóia com grande margem a diplomacia e opõe-se às ameaças de guerra. Mas a opinião pública é, em grande medida, irrelevante na hora de elaborar as políticas, e não apenas neste caso.

A classe política, em toda sua amplitude e com raras exceções, está comprometida com a manutenção do controle norte-americano dos principais recursos energéticos do mundo, e com o castigo dos desafios exitosos. Por conseguinte, os EUA têm feito grandes esforços para mobilizar uma aliança contra o Irã entre os Estados sunitas da região, embora sem muito sucesso. As duas viagens de Bush para a Arábia Saudita, no início de 2008, foram, neste sentido, fracassos sem paliativos.

A imprensa saudita, normalmente muito comedida com os visitantes importantes, condenou as políticas propostas por Bush e pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, como “não uma diplomacia em busca da paz, mas uma loucura em busca da guerra.” As monarquias do Golfo Pérsico não são amigas do Irã, mas aparentemente preferem acomodar-se e não entrar em confronto, o que constitui um duro golpe para as políticas norte-americanas. Washington está diante de problemas similares no Iraque e no Líbano. Em um segundo plano, existe uma preocupação mais profunda: que os países produtores de energia da região possam voltar-se para o Leste e, inclusive, que sigam o exemplo do Irã de estabelecer vínculos com a Organização de Cooperação de Shanghai (1), na qual a Índia, Paquistão e Irã participam como observadores, participação que foi negada a Washington.

Ali: O conflito entre sunitas e xiitas tem se agravado sensivelmente nestes últimos anos, especialmente no Iraque, devido à crescente insurgência e à guerra civil desatada pela queda de Sadam Hussein e o vazio de poder que seguiu. O senhor acha que esse conflito sunita-xiita pode se estender para todo o Oriente Próximo. Em caso afirmativo, como isso ocorreria, especialmente em países como Iraque, Irã e Líbano e em relação à guerra contra o terrorismo? Vamos testemunhar mais atos terroristas, mais extremismo e mais antiamericanismo, ou será que este “divide e vencerás” pode ajudar as forças norte-americanas e as políticas estrangeiras a pacificarem a região?

Chomsky: Segundo estudos sobre a opinião pública iraquiana, realizados pelo Pentágono, os conflitos sectários do Iraque não foram causados “pela queda de Sadam Hussein e o vazio de poder que seguiu”, senão pela agressão norte-americana. Se você me permite citar o resumo, publicado pelo Washington Post, dos documentos do Pentágono publicados em dezembro de 2007, ele afirma: “Iraquianos de todos os grupos sectários e étnicos acreditam que a invasão militar norte-americana é a raiz primordial das violentas diferenças entre eles e consideram que a saída das forças de ocupação é fundamental para a reconciliação nacional.”

Como eu já disse, os Estados Unidos não tiveram muito sucesso em sua inspiração de um conflito regional entre sunitas e xiitas, mesmo que as tensões entre eles sejam bem reais e inquietantes. A invasão do Iraque potencializou os atos de terrorismo muito mais do que teria sido possível pensar de antemão, ao ponto de que algumas estimativas, como as realizadas pelos especialistas em terrorismo Peter Bergen e Paul Cruickshank após a análise de cifras semi-oficiais, chegam a considerar que se multiplicaram por sete. O que vai acontecer a seguir depende, em larga medida, de quais sejam as políticas norte-americanas, apesar de que também há muitos fatores internos próprios desta complexa região.

Ali: No dia 20 de setembro de 2006, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, promoveu seu livro “Hegemony or Survival: America’s Quest for Global Dominance” (2) na Assembléia Geral das Nações Unidas, e elogiou o senhor por demostrar que o maior perigo para a paz mundial, nestes momentos, são os Estados Unidos. Imediatamente, houve um grande alvoroço nos meios de comunicação. O senhor, por sua vez, recusou os pedidos de entrevistas porque, na sua opinião, os entrevistadores nem sequer haviam se incomodado em ler o livro e discutir seu conteúdo e estavam, em vez disso, à procura de sensacionalismo. Existe nos meios de comunicação norte-americanos um lugar para o jornalismo informativo e educativo e para a informação contrastada que não esteja tingida de sensacionalismo ou retórica promocional? O surgimento da Internet –os blogs, YouTube, os webzines, etc.– permite contrabalançar o que o senhor tem chamado de fabricação do consenso, consistente em que organismos poderosos, como as grandes corporações e o governo norte-americano, forneçam à mídia e ao público informação preparada, propaganda e meias-verdades adequadas?

Chomsky: Se eu tivesse que me limitar a um único jornal, escolheria o New York Times, apesar de já ter escrito centenas de páginas nas quais documento em detalhe suas falsas representações, distorções e cruciais omissões à serviço do poder. E faria essa escolha por sua importância e recursos superiores aos demais. Aprende-se muito com uma leitura atenta e crítica dos meios de comunicação dominantes, apesar de que existem outras fontes também valiosas. A Internet permite ter acesso a uma grande variedade de informação, opinião e interpretação. Mas, como qualquer outra fonte, é útil só com a condição de que seja utilizada de um modo discriminado e reflexivo. Os melhores biólogos não são aqueles que leram mais publicações técnicas de seu âmbito, mas aqueles que dispõem de um marco de compreensão que lhes permite selecionar o que pode ser significativo, mesmo que de resto um determinado documento tenha pouco valor. Este mesmo tipo de discernimento é necessário no estudo dos assuntos humanos.

Ali: Seus críticos –e há muitos deles– afirmam que sua retórica e ideologia parece um disco riscado: uma interminável ladainha e um monte de ataques repetitivos à política exterior norte-americana e às suas ações militares. Como o senhor responde aos críticos que afirmam que sua descrição da política exterior dos EUA é simplista e cínica? Os Estados Unidos são, realmente, um império do mal? Não existem casos em que a intervenção norte-americana ou a ajuda desse país tenha respondido a critérios altruístas, seguindo os ideais da Constituição?

Chomsky: Este tipo de crítica de que você fala tem sido feita aos dissidentes de quase todas as sociedades na história da Humanidade, ou seja, não se deve dar a mínima para elas. Se os críticos têm argumentos e provas, vou estudá-los com prazer, neste âmbito assim como em qualquer outro. Quando o único que há são crises de birra do tipo que você menciona, podemos descartá-las como novos exemplos daquilo que o criador da teoria das relações internacionais realistas, Hans Morgenthau, chamou “nossa conformista obediência àqueles que têm o poder”, referindo-se aos intelectuais norte-americanos –e aos ocidentais em geral–, apesar das eventuais excepções. Eu não respondo a estas acusações de que descrevo os Estados Unidos como um império do mal, porque esta acusação é uma montagem infantil feita por apologistas desesperados do poder estatal.

De fato, costumo insistir em que os Estados Unidos são como qualquer outro sistema de poder. É verdade que esta afirmação é intolerável para nossos nacionalistas, que insistem no excepcionalismo dos EUA, assim como é para os líderes políticos e as classes intelectuais em outros Estados poderosos, passados e presentes, com muita freqüência. Quanto ao caráter genuinamente altruísta das nossas intervenções, é difícil encontrar exemplos no passado, tal como a pesquisa histórica demonstra, mesmo que, é claro, cada intervenção seja apresentada como altruísta por parte de seus perpetradores, por mais monstruosas que sejam. A imagem é mais ambígua no que se refere à ajuda, mas não muito diferente quando observamos em detalhe, e se ajusta também a um universal histórico, como eu tenho dito.

Ali: Na sua opinião, o veto que a Universidade DePaul impôs à nomeação do professor Norman Finkelstein, devido à sua mordaz crítica e refutação do livro de Alan Dershowitz, “Case for Israel” é indicativa do clima de probidade e integridade intelectual nos Estados Unidos? Será que é um aviso aos acadêmicos e intelectuais que não se ajustam às consignas e questionam abertamente a ideologia que defendem os poderosos grupos de interesses e os lobbies? Ou será que é só um incidente isolado, que não tem outras implicações em relação ao ambiente intelectual pós 11 de setembro?

Chomsky: O comportamento da Universidade DePaul ao rejeitar a recomendação dos professores para a nomeação de Finkelstein foi, sem dúvida, deplorável, mas este caso não pode ser generalizado. Tem características específicas, especialmente o papel do desesperado e fanático professor da Faculdade de Direito de Harvard, Alan Dershowitz. Finkelstein demonstrou com impecável rigor acadêmico que Dershowitz é um difamador, um mentiroso e um vulgar apologista dos crimes do Estado que defende. Em um primeiro momento, Dershowitz removeu céu e terra para impedir a publicação do escrito de Finkelstein; após fracassar nisso, lançou uma cruzada histérica para tentar suprimir seu conteúdo. Não é um idiota e sabe que não pode responder em termos de fatos e argumentos, ou seja que recorreu àquilo que é habitual nele: uma seqüência de ataques e insultos e uma extraordinária campanha de intimidação, à qual, finalmente, sucumbiu a direção da Universidade, aparentemente por temor a uma eventual mobilização de seus patrocinadores.

Esta depravada atuação tem sido analisada com muito detalhe em publicações apropriadas, como Chronicle of Higher Education , e não vou me estender mais aqui.

É verdade que há iniciativas importantes para impedir um debate honesto e independente dos assuntos do Oriente Próximo, especialmente os relativos a Israel. Não obstante, este é um caso especial, que não tem nenhuma relação com o ambiente intelectual posterior ao 11 de setembro.

* Wajahat Ali é cidadão paquistanês e norte-americano, muçulmano, autor teatral, ensaísta, humorista e advogado, cuja obra “The Domestic Crusaders” (Os cruzados do interior) é a primeira obra teatral que trata dos muçulmanos norte-americanos no período posterior ao 11 de Setembro.

Notas:

(1) A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) é um organismo intergovernamental fundado em 14 de Junho de 2001 pela R.P. da China, Rússia, Kazaquistão, Kirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, dedicado a assuntos de cooperação econômica, cultural e de segurança. (N. do T.)

(2) Hegemonia ou sobrevivência : Estats Units a la recerca do domini global, Editorial Empuries, 2004 (em catalão); Hegemonia ou sobrevivência: a estratégia imperialista dos Estados Unidos, Edições B, 2005 (em espanhol).

“Carta Maior”

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Colecionadores ignoram crise e obras alcançam preços recordes

Deborah Brewster

Nesta semana, os colecionadores de arte ignoraram a desaceleração econômica americana e a turbulência financeira global ao comprarem solidamente em grandes leilões em Nova York, apesar de haver alguns sinais de infiltração de um sentimento mais cauteloso no mercado.

A Sotheby’s e a Christie’s apostaram que os preços recordes prevaleceriam em suas vendas de arte impressionista e moderna e em grande parte acertaram, apesar de ambas as casas de leilão terem moderado suas esperanças ao reduzirem o número de lotes em comparação ao ano passado.

A Christie’s, em seu leilão na noite de terça-feira, vendeu seu lote de maior destaque, “Ponte Ferroviária em Argenteuil” de Claude Monet, por US$ 41,4 milhões, acima de sua avaliação do quadro. Os preços finais incluem a comissão dos compradores de cerca de 12%, mas as avaliações não incluem a comissão.

A obra superou facilmente o recorde anterior de US$ 35 milhões para um Monet, estabelecido no ano passado e que foi um bom investimento para a família Nahmad de marchands, que o comprou em 1988 por US$ 12,5 milhões.

Mas 14 dos 58 lotes da Christie’s não conseguiram ser vendidos e a receita total de US$ 277 milhões ficou ligeiramente abaixo das estimativas.

Na Sotheby’s na noite de quarta-feira, uma obra cubista de 1912 de Léger, “Estudo para a Mulher em Azul”, foi vendida por US$ 39,2 milhões, na faixa intermediária de sua avaliação e estabelecendo um recorde para o artista. A obra era incomumente grande -daí seu alto valor- mas apenas dois interessados deram lances. Outra obra de Léger, “Festa no Campo”, não conseguiu ser vendida.

A escultura de Picasso, “O Grou”, foi vendida por US$ 19,1 milhões. Esculturas, que recentemente foram ofuscadas pela alta acentuada dos preços em outros setores no mercado de arte, em geral foram bem vendidas tanto na Christie’s quanto na Sotheby’s. Uma obra de Giacometti de 2,75 metros, “Mulher em Pé II”, foi vendida na Christie’s por US$ 27,4 milhões, bem acima de sua avaliação e um preço recorde para o artista.

Outra obra de destaque da Sotheby’s, “Meninas em uma Ponte” (1902) de Edvard Munch, atraiu mais lances e foi vendida por US$ 30,8 milhões, bem acima de sua avaliação. Ela foi vendida por Graham Kirkham, o fundador da DFS Furniture, e valorizou substancialmente desde que foi vendida em um leilão em 1980 por US$ 2,8 milhões. Kirkham a comprou por US$ 7,2 milhões em 1996.

A Sotheby’s teve menos lotes que a Christie’s e mais sucesso em vendê-los, com 90% vendido pelo valor.

Mas Ian Peck, o presidente-executivo do banco de financiamento de investidores em arte, Art Capital Group, alertou que não houve grande profundidade nos lances nas vendas.

“Houve um recuo nas avaliações (…) Apenas um punhado de colecionadores ricos deram lances. Em um mercado saudável de arte, você vê um grupo maior e mais diverso de interessados”, ele disse.

Na próxima semana, o mercado de arte contemporânea mais volátil será testado com a Sotheby’s, Christie’s e Phillips realizando leilões.

A Christie’s planeja vender na noite de terça-feira uma obra de Lucian Freud, “Benefits Supervisor Sleeping, 1995″, mostrando Sue Tilley, uma funcionária pública britânica nua, cuja avaliação é de que será vendida por um valor entre US$ 25 milhões e US$ 35 milhões.

O leilão de arte contemporânea da Sotheby’s na noite de quarta-feira contará com a obra mais cara da temporada -”Tríptico, 1976″, de Francis Bacon, que está avaliada em US$ 70 milhões. Ela também leiloará “Laranja, Vermelho, Amarelo”, obra de Mark Rothko de 1956, avaliada em US$ 35 milhões ou mais.

Em poucas semanas, leilões cada vez importantes de asiáticos ocorrerão em Hong Kong, com a Christie’s realizando pela primeira vez um leilão de arte contemporânea asiática. Em novembro passado, seu leilão de arte contemporânea asiática ultrapassou pela primeira vez US$ 100 milhões.

Enquanto isso, a Sotheby’s disse na sexta-feira que aumentaria suas comissões -em média 2% na maioria das vendas- em um esforço para aumentar os lucros diante de uma recente queda nas margens e maiores despesas operacionais.

A casa de leilão disse que teve um prejuízo de US$ 12,4 milhões no primeiro trimestre, em comparação a um lucro de US$ 24,3 milhões no ano passado. É mais comum para ela ter um prejuízo no primeiro trimestre, já que há menos grandes leilões no início do ano.

Entretanto, ela disse que suas margens de comissão caíram, de 16,6% para 13,6%. Ela reduziu a quantidade de garantias que oferecia aos vendedores, de forma que teve que oferecer outros incentivos para obter consignações, resultando em margens menores, ela disse. Suas ações caíram 9%.

Bill Ruprecht, o presidente-executivo, disse que o mercado permanece forte e que o grupo teve um aumento de 11% nas vendas no ano até o momento, incluindo a venda de arte impressionista desta semana.

“Financial Times”

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O crime narrado por Kerouac e Burroughs

O assassinato cometido por seu amigo Lucien Carr inspirou um romance inédito redigido pelos dois autores

Joseba Elola

Três amigos, uma vítima e um canivete de escoteiro. Esta é uma história real protagonizada por dois ícones da geração beat, William Burroughs e Jack Kerouac, e um homicida, seu amigo Lucien Carr, que matou David Kammerer, um monitor de escoteiros homossexual que estava obcecado por ele. O trágico acontecimento, que dinamitou aquele grupo de jovens aloucados que iriam revolucionar o panorama literário norte-americano, foi a base sobre a qual Burroughs e Kerouac escreveram uma novela de ficção. Isso faz 63 anos. Será publicada no próximo 6 de novembro, agora que os protagonistas da história passaram para uma vida melhor e foram removidas as pendências em torno do legado de Kerouac.

O assassinato de Kammerer representou um brusco despertar para o mundo real de um grupo de jovens de 20 anos apreciadores de farras e bebidas, entre os quais também se encontrava o terceiro membro da santíssima trindade beat, Allen Ginsberg, com o qual Carr dividia um apartamento. A espontaneidade, agir sem pensar muito, viver o momento, sim, tudo isso estava no espírito do grupo. Mas naquela fatídica noite de agosto de 1944 as coisas escaparam do controle e Carr, Kerouac e Burroughs acabaram na cadeia. Embora por pouco tempo.

Carr era um rapaz muito bonito. “Cheio de energia, falante, entusiástico”, conta por telefone de Nova York Regina Weinreich, especialista na geração beat. Carr era um pólo de atração para todos, incluindo o próprio Kerouac. Mais que fascinado também estava Kammerer, que tinha então 35 anos. Ele deixou sua Saint Louis natal para estar perto daquele rapaz tão bonito de 17 anos e se aproximou do grupo de jovens inquietos e hedonistas que gostavam de sair por Times Square para se misturar aos personagens do subterrâneo nova-iorquino. Mas se transformou em uma presença incômoda.

Naquela fatídica noite nova-iorquina de agosto de 1944, sentado em um banco no Riverside Park, Kammerer se aproximou mais que nunca de Carr: “Se você não pode me querer, me mate”. É a frase que nos círculos da Universidade de Columbia se atribuiu a Kammerer, em sua tentativa desesperada de conquistar o belo adolescente.

Quem conta é Joyce Johnson, 75 anos, ex-companheira de Kerouac que está preparando uma biografia (a ser publicada em 2010) sobre o mítico autor de “On the Road”. “Esse incidente dinamitou o grupo”, diz Johnson por telefone de Nova York. “Foi uma catástrofe, cada um foi para seu lado depois do episódio Kammerer.”

Na novela baseada naquele fato, nenhum dos protagonistas do incidente aparece com seu nome verdadeiro. É uma ficção escrita a quatro mãos em 1945, com 18 capítulos: nove são assinados por um sujeito que naquele tempo assinou como William Lee; outros nove, por outro que estampou a assinatura de John -e não Jack- Kerouac.

Naquela época nenhum dos dois havia escrito nada relevante e nenhuma editora comprou o livro. A Penguin Classics, que o publicará em inglês no Reino Unido, também não quer revelar muitos detalhes. Sabe-se o título: “And the Hippos Were Boiled in Their Tanks” [E os hipopótamos ferveram em seus tanques], em alusão a uma notícia que os dois autores escutaram na rádio sobre um incêndio no zoológico de Saint Louis.
Adam Freudenheim, responsável pela Penguin Classics, reconhece que provavelmente é a primeira pessoa que leu a novela no Reino Unido. Foi há apenas três meses e ele deseja que chegue o momento da publicação: “O mais interessante é o aspecto autobiográfico, comprovar como eles escreveram sobre o crime”, conta por telefone de Londres.

Naquela trágica noite, depois de assassinar Kammerer com seu canivete de escoteiro, Carr encheu de pedras os bolsos do cadáver e o mergulhou no rio Hudson. Desorientado, procurou seus dois amigos para pedir conselho, envolvendo-os sem saber no homicídio. Burroughs lhe sugeriu que se entregasse à polícia, mas não informou às autoridades. Kerouac passou todo o dia seguinte com Carr. “Inclusive foram juntos ao Museu de Arte Moderna de Nova York”, conta Joyce Johnson. Livraram-se do canivete, atirando-o em um bueiro. À tarde foram juntos à delegacia para Lucien se entregar. Os dois ficaram presos; Kerouac como ocultador.

No romance, Burroughs escreve os capítulos ímpares, nos quais o narrador é Will Dennison, um garçom mergulhado no submundo do crime de Nova York. Kerouac assina os pares, narrando como Mike Ryko, um marinheiro mercante beberrão.

Freudenheim envia, a pedido de El País, as primeiras linhas dessa novela:

“Os bares fecham às 3 da madrugada nos sábados à noite, por isso cheguei em casa por volta das 3h45, depois de tomar o desjejum no Riker’s na esquina da Christopher Street com a Sétima Avenida. Deixei o ‘News’ e o ‘Mirror’ sobre o sofá, me livrei do meu paletó listrado e o atirei por cima. Ia direto para a cama” [fragmento enviado pela Penguin e reproduzido por cortesia dos herdeiros de Burroughs e Kerouac].

Fontes da Anagrama, principal editora da obra de Kerouac na Espanha, confessam que estão em negociações com o agente Andrew Wylie para publicar a novela em espanhol. Os escritórios de Wylie em Londres confirmam a existência dessas negociações, mas não revelam se há mais candidatos na disputa.

“A publicação da novela desvaloriza a obra de Kerouac em seu conjunto”, diz de sua casa em Corte Madera, Califórnia, Gerald Nicosia, autor de uma das mais importantes biografias de Kerouac, “Memory Babe”. “Descobriremos que era um grande autor aos 22 anos? Duvido. Essa novela deveria ser depositada em uma biblioteca.” Nicosia, que ainda não a pôde ler, participou da batalha que durante mais de uma década pôs em confronto Jan Kerouac (filha do segundo casamento de Kerouac) e John Sampas (depositário dos direitos e irmão de Stella Sampas, terceira e última mulher do escritor).

O próprio Burroughs, célebre autor de “O Almoço Nu”, declarou no documentário “Burroughs”, realizado em 1983 por Howard Brookner, que “And the hipppos…” não é uma obra muito importante. Opinião que o editor da Penguin Classics não rebate: “Ninguém dirá que é o grande romance inédito desses autores. No entanto, tem grande interesse”.
Freudenheim explica que o processo vivido por esse romance é o de tantas obras póstumas. No início os herdeiros respeitam os desejos dos autores e se negam a publicá-los: “Com o tempo, vão chegando a um ponto de vista diferente e comprovam que os leitores estão muito interessados em conhecer essas primeiras obras”. Nicosia afirma que o objetivo dos herdeiros, além de preservar um legado, é ganhar dinheiro.

Kerouac prometeu a seu amigo Lucien Carr que nunca escreveria sobre aquele trágico episódio. Descumpriu a promessa três vezes -já o mencionara em sua primeira novela, “A Cidade e o Campo”, e na última, “Duluoz, o Vaidoso”. Carr, com quem manteve amizade por toda a sua vida, precisava esquecer, livrar-se do fantasma de Kammerer.

Cometeu o assassinato sendo menor de idade, e seus professores na Universidade de Columbia depuseram a seu favor. Era muito bom aluno, e com isso, entre outras coisas, acabou cumprindo apenas dois anos de condenação. “Mas o episódio descarrilou sua vida”, diz Johnson. “Deixou crescer o bigode para não ficar tão bonito. Não queria atrair nenhum outro gay. Era um homem muito volátil. Podia ser encantador e de repente transformar-se em alguém mau. Além disso, bebia muito, com o que ficava pior”. Sua última mulher, Kathleen Silvassy, não quis dar declarações para este jornal.

Johnson, que foi companheira de Kerouac anos depois do homicídio, lembra perfeitamente da última vez que viu Kerouac e Carr juntos. Foi no apartamento deste último em Nova York, em 1962. “Jack me telefonou para que nos encontrássemos e eu lhe disse que estava com meu marido, ao que ele respondeu: ‘Então traga seu pequeno marido junto’. Quando chegamos estavam bêbados e Jack tinha um aspecto muito deteriorado. Havia se transformado em um bêbado irritado. Estavam se queimando um ao outro com cigarros. Foi muito desagradável, fomos embora em seguida.”

O episódio Kammerer reforçou a relação de Kerouac com Carr, diz John. Encontravam-se com freqüência e Kerouac teve com ele uma amizade muito mais intensa do que com Burroughs, com o qual manteve o relacionamento basicamente por carta. “Burroughs era mais velho, mais sofisticado e, além disso, não estava em Nova York. Mas de toda forma havia algo homoerótico nessas intensas relações entre homens.” Burroughs era bissexual.

Sete anos depois do assassinato de Kammerer, em 1951, Burroughs, grande amante das armas, matou acidentalmente sua mulher. Imitando Guilherme Tell, ela colocou um vaso sobre a cabeça e seu marido errou o tiro. A superação desse episódio, dizia ele, foi o que o levou a escrever. Em 1957 Kerouac encontrou a glória com a publicação de “On the Road”, a obra-prima da literatura beat. Ele morreu de cirrose aos 47 anos.

Carr, grande inspirador dos beatniks, desenvolveu uma carreira jornalística na agência United Press Internacional, onde chegou a ser editor-chefe de notícias nacionais. Manteve o relacionamento com seus amigos escritores e morreu em 2005, aos 79 anos. Sobre seu papel naquele grupo, Allen Ginsberg chegou a dizer: “Lou was the glue” (Lou era a cola).

“El País”

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A vida crua de Jimi Hendrix

Uma biografia minuciosa narra a trajetória arriscada do mito do rock

Diego A. Manrique
Em Madri

Tudo o que se relaciona com Jimi Hendrix (1942-1970) parece descomunal.
Qualquer pessoa interessada por música sabe que sua discografia é oceânica: inclui centenas de lançamentos, algo assombroso para alguém que gravou - com seu nome - somente durante cinco anos. A bibliografia sobre ele também impressiona: músicos, amantes, produtores assinaram livros sobre Hendrix.

Reuters
“Jimi Hendrix: a biografia”, de Charles R. Cross, é obra ortodoxa e minuciosa sobre o astro

Uma pilha à qual se soma agora “Jimi Hendrix: a biografia”, de Charles R. Cross (Robinbook). Trata-se de uma biografia ortodoxa e minuciosa, escrita por um autor que não conheceu Jimi, mas é especializado no rock do noroeste dos EUA (seu volume anterior foi dedicado a Kurt Cobain).

Cross argumenta que a obra de Hendrix ganha sentido quando se conhece sua origem - Seattle, uma cidade multicultural - e seus primeiros anos de vida. Dizer que a família Hendrix era disfuncional parece um eufemismo: seus pais, Al e Lucille, passaram mais tempo separados do que juntos, e ainda assim tiveram seis filhos.

Jimi nunca conheceu um lar convencional. Sua mãe, doente de cirrose, morreu misteriosamente em 1958. Seu pai nunca pôde manter a prole (três dos filhos foram dados em adoção) e Jimi passou fome e frio, literalmente. Foi salvo pela rede informal de solidariedade que existe na comunidade afro-americana.

Nesse abismo de pobreza, teve dificuldade para conseguir uma guitarra miserável. E não chegou a fazer da música sua profissão. Quando foi preso pela segunda vez, em um carro roubado, lhe ofereceram o tratamento habitual: a prisão ou alistar-se no exército.

Em um gesto de ousadia, preferiu entrar para a famosa Divisão Aerotransportada 101. Mas Jimi não tinha estofo de militar; Cross descobriu que conseguiu a licença declarando-se homossexual. Não é a única revelação que caiu como uma bomba entre os velhos amigos de Hendrix: o livro descreve a dura existência do guitarrista em Nova York, quando dependia do dinheiro de uma prostituta menor de idade, a qual engravidou.

Em Nova York forjou-se a aliança cultural de Hendrix, que pode ser simplificada assim: Harlem mais Greenwich Village. Havia percorrido o circuito negro tocando atrás de Little Richard, Solomon Burke ou os Isley Brothers, mas também se ligava espiritualmente ao rock branco; adorava Bob Dylan, inclusive imitava seu penteado de “Blonde on Blonde”.

Dominava a linguagem dos dois mundos, mas foi alguém do rock que descobriu sua excepcionalidade. Linda Keith, namorada de Keith Richards, divulgou incansavelmente as maravilhas daquele guitarrista canhoto de roupas extravagantes. Finalmente conseguiu que Chas Chandler -ex-baixista dos Animals, transformado em empresário- levasse Hendrix para Londres.

Chegaram em 24 de setembro de 1966 e em menos de 24 horas Jimi já tinha uma namorada e era a novidade do mundo pop depois de participar de uma jam session. A rapidez com que ele tomou de assalto o Reino Unido sugere que apareceu no lugar certo e no momento exato, quando a paixão pelo soul perdia terreno diante da descoberta do blues. Talvez se encaixasse em um estereótipo sonhado pelo público europeu: Johnny Hallyday o levou em turnê pela França antes que tivesse gravado um disco.

A verdade é que mental e musicalmente estava preparado para cavalgar a onda do psicodelismo nascente. Ele e a guitarra formavam um todo; possuía, além disso, um crescente arsenal de efeitos. Sua capacidade de assimilação deixou boquiabertos inclusive os Beatles: três dias depois de seu lançamento, tocou diante deles Sgt. Peppers ao vivo.

Os quatro anos seguintes fazem parte da lenda do rock. A ascensão de um músico prodigiosamente dotado e a queda de uma estrela que se excedeu em tudo: gravações, drogas, turnês. Sem distribuir culpas, Cross enumera os atores secundários do drama: o agente que não o deixava parar, as amantes que também não, os militantes negros que recriminavam seu êxito entre o público do rock. Inútil especular sobre sua evolução musical: sempre complacente, prometia gravar jazz assim como voltar ao rhythm and blues.

Quando Jimi morre em Londres, de uma forma especialmente estúpida, deixa para trás um caos maiúsculo nos campos pessoal e profissional. Seguiram-se mais de 30 anos de litígios que deixaram montanhas de amargura.

Não foram reconhecidos os pelo menos dois filhos que Jimi gerou, e nem mesmo seus irmãos se beneficiaram muito de um legado cujo valor cresceu
exponencialmente: ao morrer em 2002, seu pai deixou a maior parte da herança para uma enteada que antes exprimia ao máximo a abundância da sociedade Experience Hendrix atribuindo-se salários anuais de US$ 800 mil. A pouca distância do imenso panteão que guarda os restos de Al e Jimi, hoje uma das atrações turísticas de Seattle, está o túmulo abandonado de Lucille, respectivamente mulher e mãe. Nem sequer tem uma lápide.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El País

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As faces do sandinismo

ENTREVISTA - ERNESTO CARDENAL

“Ortega é falsamente de esquerda. Tem traído a esquerda, tem traído os princípios da Revolução, tem traído o sandinismo, tem traído o Sandino e o povo da Nicarágua”, desabafa o poeta nicaraguense, um dos pioneiros da Teologia da Libertação.

Ernesto Cardenal, que completa 82 anos no próximo dia 20, intitula-se cristão, marxista, poeta e militante. Desde moço, combateu as ditaduras da família Somoza. Após o fracasso da insurreição de 1954, deixou a Nicarágua para dedicar-se à vida monástica. Tornou-se sacerdote em Manágua, no ano de 1965 e, na década de 70, adotou a linha da Teologia da Libertação. Julgou, em 1976, em Roma, os crimes contra os Direitos Humanos na América Latina. Fundou a Comunidade de Solentiname, na qual se fomentou a criação de cooperativas e diversos espaços culturais. Com o triunfo da revolução de 1979, foi nomeado Ministro da Cultura.

Signatário de vultoso currículo acadêmico nas áreas de filosofia, letras e teologia, que inclui passagens por universidades no México, Nova Iorque, Columbia, Madri e Roma, Cardenal é, além de notório poeta, prosador e escultor.

Carta Maior – Por que o senhor envolveu-se na luta armada contra Somoza?
Ernesto Cardenal - Não me envolvi diretamente na luta armada, envolvi-me na revolução, apoiando-a. Fiz como todo povo da Nicarágua fez. Foi a única maneira de sair de uma ditadura de quase 50 anos dos Somozas. Não permitiam nenhuma outra oposição, nenhuma outra luta cívica. Todo povo da Nicarágua apoiou esta luta e eu também apoiei.

CM – Como nasceu a sua ligação com a Teologia da Libertação?
EC – Eu tenho sido um discípulo da Teologia da Libertação. Não sou teólogo, mas eu posso dizer que sou um poeta da Teologia da Libertação. Ela influenciou definitivamente as minhas poesias. Além disso, para mim, a única maneira de poder entender os dogmas cristãos é por meio da Teologia da Libertação e também por meio do marxismo, porque muito dela também está influenciada pelo marxismo e eu me considero um cristão marxista, que acredita em alguns dogmas cristãos e também na doutrina de Marx.

CM – Por que a Igreja Católica fez aquela crítica que acusava de perigosa a Teologia da Libertação e por que suspenderam o senhor em 1985?
EC – Não é a Igreja. O Papa Pio XII que era conservador e um reacionário, dizia que a Igreja não se envolve em política. O Papa, os bispos e os cardeias condenaram a Teologia da Libertação, isso porque são inimigos de toda libertação, ou seja, de toda revolução. Teologia da Libertação quer dizer teologia da revolução. Quando o Papa João Paulo II veio de viagem de avião à Nicaragua, (em 1983) os jornalistas lhe perguntaram sobre a Teologia da Libertação e ele respondeu que já não era mais um perigo porque o comunismo estava morto. Mas o bispo do Brasil, Monsenhor Casaldaliga, contestou lá do Brasil, dizendo que “enquanto no mundo houver pobres continuará existindo a Teologia da Libertação”.

CM – O senhor foi, em 1976, enviado pela FSLN a Roma para julgar as violações aos direitos humanos na América Latina. Quais foram as violações e qual resultado deste julgamento?
EC – São muito conhecidas todas as violações que praticaram os somozistas: as torturas, os assasinatos, as prisões por muitos anos, crianças degoladas, prisioneiros que denunciaram, por exmplo, que alguns eram levados em helicópteros e jogados lá de cima. Todos esses tipos de coisas, violações a mulheres, crianças e idosos. Todos os tipos de tortura. Já se sabe o que fizeram as ditaduras militares como a da Nicarágua, como a do Uruguai, como a do Chile, como a da Argentina, talvez um pouco pior a da Nicaragua. Foi isso que eu fui denunciar em Roma no Tribunal em que estavam julgando as ditaduras militares na América Latina, inclusive a da Nicarágua.

CM – O processo democrático na América Latina é recente. Por quê? O senhor acredita que os países no continente são realmente democráticos?
EC – Certa democracia sim. Uma democracia, digamos, eleitoral é o que tem ocorrido, a democracia verdadeira não, execeto nos países que tem revolução, como Cuba, como teve a Nicarágua e agora não tem mais. Como a que tem a Venezuela e que, agora, começa a ter a Bolívia.

CM – O que é Utopia para o senhor?
EC – Para alguns, Utopia é algo irrealizável. Para mim é realizável. O que dizem os evangélicos sobre Utopia, poderíamos contestá-los dizendo que simplesmentes eles próprios não acreditam no Evangelho. Porque Cristo veio anunciar o Reino de Deus, o reino do Céu na Terra, ou seja, um reino de justiça, de paz, fraternidade e de amor. O mesmo que o comunismo perfeito de Marx. E se isso é “Utopia”, irrealizável, então não acredito no Evangelho. O que pedimos ao nosso Pai: “que venha a nós o vosso reino”. Creio que virá.

CM – Qual foi a importância do início de um novo processo social na Nicarágua com a criação da Comuna de Solentiname?
EC – Não teve muita importância, Solentiname foi uma pequena experiência modesta, sempre disseram que foi importante, mas para mim foi algo modesto. Simplesmente o que se podia fazer naqueles tempos de ditadura na Nicarágua, e ali foi um espaço bom para os campesinos e também para todos que iam nos visitar e conhecer nosso lugar. Posso dizer que foi um exemplo de algo que foi feito na Revolução e que se poderia fazer depois dela também.

CM – Ernesto Cardenal acredita que Daniel Ortega é de esquerda?
EC – Falsamente de esquerda. Tem traído a esquerda, tem traído os princípios da Revolução, tem traído o sandinismo, tem traído o Sandino e o povo da Nicarágua. Há um sandinismo verdadeiro que está contra o sandinismo oficial imposto pelo partido de Daniel Ortega, este que ganhou a eleição. Eu pertenço ao outro sandinismo, aqule que mantém os princípios e os ideais da Revolução.

CM – O que necessita a esquerda Nicaraguense hoje?
EC – O mesmo de que necessitou antes: de sermos honestos, de realizarmos o poder com o povo… porque o partido que se chama sandinista, e que na realidade não é, é constituído por aqueles que roubaram muito e hoje são milionários. Estes não podem mais construir a Revolução.

Carta Maior

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