Uma cidade perdida no tempo
Laurent Vidal relembra a saga de Mazagão, transportada do Marrocos para a Amazônia no século 18
Lilia Moritz Schwarcz
Muito se tem comentado acerca do caráter inusitado da transferência da família real portuguesa ao Brasil. Realezas carregam bagagens pesadas e não se mudam com facilidade. Os súditos é que vêm a elas; não o contrário. Imagine-se, então, a importância do caso que envolveu a dinastia dos Bragança, que em novembro de 1807 resolveu enfrentar o Atlântico e partir para a sua desconhecida colônia tropical. Há algo de insólito na aventura, e não por acaso a bibliografia oscila, mencionando de 500 a 15 mil transladados. Sabe-se hoje que esse número ultrapassa os milhares; isso sem mencionar a imigração acumulada durante os doze anos completos em que a corte permaneceu no Brasil. Mudanças são sempre operações complexas, ainda mais quando envolvem estruturas arraigadas como as monarquias.
É fato que a idéia não era nova e que em momentos espinhosos o governo português pensara em transferir a capital do Império para o Brasil. No entanto, a fuga de 1807 foi mesmo precipitada e apresentou cenas dantescas: de um lado o exército de Junot entrando no território português; de outro, o caos instaurado no porto de Lisboa, com caixotes deixados no cais e nobres jogando-se ao mar. Mas, se essa experiência foi sem dúvida singular, não foi única. Pelo menos em um outro momento o governo português autorizou a mudança não de sua realeza, mas de uma cidade inteira. A fortaleza portuguesa de Mazagão, construída no coração das terras infiéis do Marrocos, teve que ser abandonada em março de 1769, quando seus 2 mil habitantes, que tentavam resistir ao cerco de 120 mil soldados mouros e berberes, finalmente convenceram a família real de que era chegada a hora de partir para um destino incerto e longe da África. Fiéis da coroa, escudeiros desse posto avançado da cristandade, os bravos mazaganenses fecharam as malas para partir. O destino? Portugal ou qualquer outro domínio da coroa. E é sobre essa verdadeira saga que se debruça Laurent Vidal, professor da Universidade de La Rochelle, na França, e especialista em história de cidades e sociedades urbanas no Brasil e no Novo Mundo, em Mazagão - A Cidade Que Atravessou o Atlântico (Martins Editora, 294 págs., R$ 59,80, tradução de Marcos Marcionilo).
Foi em maio de 1760 que o novo governador de Mazagão, José Vasques de Álvares da Cunha, segredou a um amigo: ‘Não tenho estranhado o clima, mas sim os seus habitantes’. Depois de anos de isolamento, Mazagão, filha solitária de Portugal no litoral atlântico do Marrocos, chega a uma situação intolerável. Fruto da política dos Avis na África, a cidade estava instalada desde o século 16 na região de Dukkala, exatamente a meio caminho dos dois extremos do Marrocos lusófono: Tânger e Agadir. Mas a região foi sendo paulatinamente abandonada, de forma a só restar a fortaleza soberba, com suas grossas muralhas de 11 metros de largura e 14 do solo. Ou melhor, a fortaleza e o que ela protegia: 700 casas, com seus terraços, janelas e portais de pedra. Políticas mudam de lugar, e o apoio de Lisboa foi rareando, uma vez que a fronteira da África do Norte não era mais um dos alvos estratégicos de Portugal, nesse momento concentrado na manutenção de sua rica colônia brasileira.
A situação tornava-se cada vez mais tensa com a aproximação do século 19, enquanto os 2 mil habitantes faziam de sua existência uma longa espera - a espera de uma invasão. A degradação do estado material e sanitário não demoraria a se refletir na situação social e moral da população. Tudo lembrava a ficção e não uma situação real. Tanto que a população local vivia de imaginar uma invasão moura, como os personagens de Dino Buzzati, no livro O Deserto dos Tártaros, que também aguardam a ocupação de suas terras, que não chega mas que lhe dá o sentido da existência. Conforme dizia o comandante: ‘São histórias um pouco complicadas (…) Essa é a noção de exílio’.
E na história de verdade tudo se precipita quando, em 1769, a cidade é sitiada por 120 mil soldados mouros. Fala-se em mouros, mas a referência é a grupos étnicos distintos: árabes que habitam as cidades e berberes que vivem em tribos. E a única saída é a porta do mar. Em 11 de março, uma cidade inteira se prepara para bater em retirada, contando com o apoio tático do poderoso ministro de d. José, o marquês de Pombal, e de seu irmão Furtado Mendonça. Depois de 11 dias de travessia, a cidade flutuante entra no Tejo e os barcos são amarrados ao cais de Belém. O destino dos mazaganenses seria fixado antes mesmo da chegada a Portugal. É o próprio Furtado Mendonça quem previne o governador da província do Grão-Pará e Maranhão, na verdade seu sobrinho, da resolução régia de transportar essa população para Belém. Eles seriam agora povoadores do Novo Mundo, como haviam sido mantenedores da Antiga Fé na descampada África. Desbravadores em um novo continente, mais uma vez desconhecido.
A mudança seria para breve, sob o olho vigilante da Coroa. Já em agosto, 371 famílias, que totalizavam 1.523 pessoas, e mais 58 militares, 46 agregados, cinco presos degradados, assim como 163 viúvas, preparam-se para a partida. Todos, incluindo os presos, recebem um soldo ou uma pensão do Tesouro Real. E, uma vez que estavam prontos, só restava à Coroa uma última tarefa: dotar de administradores a futura colônia. Por sinal, seria preciso inventar, literalmente, uma cidade no meio da Amazônia. E é uma cidade guardada em caixotes que o governador se prepara para receber em Belém. Separada como província independente do restante do Brasil desde o tratado de 1750, o Grão-Pará e Maranhão constitui-se em zona da maior importância: é a porta última da Amazônia brasileira. Além do mais, em 1750, a capitania possuía apenas uma cidade - Nossa Senhora de Belém do Pará - e quatro vilas: Souza do Caeté, Gurupá, Vila Viçosa de Santa Cruz de Cametá e Nossa Senhora de Nazaré da Vigia. Dessa maneira, o desafio era acomodar imediatamente 2 mil pessoas, em um local cuja administração lidava apenas com 10 mil habitantes.
PURGATÓRIO
Assim nascia Nova Mazagão, entre muitas incertezas. Era preciso instalar as novas famílias, retirar outras e edificar a cidade com uma câmara, uma igreja, um hospital e uma prisão, instituições necessárias para o seu bom funcionamento. Também ficou definido que os habitantes se dedicariam à agricultura do arroz e do algodão, contando com escravos especialmente trazidos da África (do porto de Bissau) e com a mão de obra indígena local. Os 405 escravos foram divididos entre as 371 residências e iniciou-se a produção e a vida na Nova Mazagão, feita de costumes agora mestiçados.
Mas a transferência fragilizara a maioria das famílias. Nesse meio tempo eles haviam se transformado em pequenos agricultores e a antiga mística que os cercava se perdeu no meio da viagem à Amazônia. Não existia nada de dignificante em sua nova condição e a cidade crescia de maneira desorganizada. Quase como purgatório, a vida na vila não mais se separava do seu clima permanentemente úmido, que dificultava a conservação dos alimentos e arrasava com a auto-estima da população. A promiscuidade e a precariedade da estrutura local eram evidentes, sem falar dos mosquitos, que eram muitos e anunciavam o perigo da malária. Também o alcoolismo, alimentado pelo uso alargado de aguardente, se espalhava como praga nativa. Até o novo pároco se rebelava: dizem que passara a celebrar missa só uma vez ao dia e num ‘altar lateral’, onde ninguém o via ou escutava. Pelo jeito, Deus havia abandonado os mazaganenses: não eram mais soldados da cristandade em luta contra os infiéis, mas pobres agricultores tentando sobreviver em uma região hostil. Mais uma vez a vila vive da realidade de seu abandono, da decadência e das fugas aceleradas. Por isso, os habitantes passam a se alimentar de um discurso identitário saudosista, em que ressurge a linguagem perdida da velha Mazagão, refúgio imaginário de tantos dissabores.
Em 1782, o governador local avisa Lisboa da gravidade da situação, relatando numerosas mortes e a solicitação geral da população para se instalar em Belém e abandonar o ‘terreno infeccioso’. A Coroa demora a se decidir mas, por fim, mais de 15 anos após a medida que levou à transferência dos mazaganenses para a Amazônia, toma consciência do fracasso da operação e concede aos moradores da vila a ‘liberdade’ de se instalarem no interior das fronteiras do Estado do Pará. Doravante, o povoado seria reduzido a uma simples paróquia, e passava a ser juridicamente dependente de Macapá.
Final da história, mas nem tanto. O fracasso não foi tão retumbante e, nessa pesquisa de pedaços cuidadosamente construídos, Laurent Vidal carrega mais uma surpresa no bolso: mostra como após o desastre da empresa nasce a lenda de Mazagão e da praça forte que resistiu aos assaltos das tropas infiéis. Uma nova cidade é construída em 1916 na África, assim como no Brasil a antiga tenta sair das cinzas. A cidade, e sua memória, se multiplicam em muitas. Por aqui se transforma, como num passe de mágica, em cidade de antigos quilombolas, muda de identidade e vegeta à beira de um rio. A cidade parece dotada do dom da ubiqüidade, como diz Vidal, e nada melhor para defini-la do que um cartaz que hoje apresenta o local: ‘bem-vindo em Mazagão Velho, terra de São Tiago’.
Como se vê, Mazagão agora se define evocando um símbolo da luta milenar entre cristãos e mouros: a festa de São Tiago. Aqui ou na África essa sina mais se parece com uma história social da espera; da espera por novos destinos e identidades. O leitor tem, pois, em suas mãos, uma boa narrativa que nada deixa a desejar à imaginação. É bom, porém, que salte alguns excessos próprios do estilo de Vidal, que, não contente com a boa história, por vezes resolve interpretá-la em demasia e mesmo introduzir alguns francesismos barrocos que atestam os ‘não lugares das coisas’. Mazagão teve vários lugares e é dessa multiplicidade que a obra se farta.
As cidades efetivamente se deslocam, na prática ou simbolicamente, e o exemplo de Mazagão parece trazer para a realidade a ficção de José Saramago, que em seu Jangada de Pedra contou a saga de um povoado que navegava pelo mar sem destino certo. Muitas vezes a realidade é mais extraordinária que a ficção. Como diz o literato português: ‘A viagem não teve história, é o que sempre dizem os narradores apressados quando julgam poder nos convencer.’
Lilia Moritz Schwarcz é professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis
Laurent Vidal relembra a saga de Mazagão, transportada do Marrocos para a Amazônia no século 18
Lilia Moritz Schwarcz
Muito se tem comentado acerca do caráter inusitado da transferência da família real portuguesa ao Brasil. Realezas carregam bagagens pesadas e não se mudam com facilidade. Os súditos é que vêm a elas; não o contrário. Imagine-se, então, a importância do caso que envolveu a dinastia dos Bragança, que em novembro de 1807 resolveu enfrentar o Atlântico e partir para a sua desconhecida colônia tropical. Há algo de insólito na aventura, e não por acaso a bibliografia oscila, mencionando de 500 a 15 mil transladados. Sabe-se hoje que esse número ultrapassa os milhares; isso sem mencionar a imigração acumulada durante os doze anos completos em que a corte permaneceu no Brasil. Mudanças são sempre operações complexas, ainda mais quando envolvem estruturas arraigadas como as monarquias.
É fato que a idéia não era nova e que em momentos espinhosos o governo português pensara em transferir a capital do Império para o Brasil. No entanto, a fuga de 1807 foi mesmo precipitada e apresentou cenas dantescas: de um lado o exército de Junot entrando no território português; de outro, o caos instaurado no porto de Lisboa, com caixotes deixados no cais e nobres jogando-se ao mar. Mas, se essa experiência foi sem dúvida singular, não foi única. Pelo menos em um outro momento o governo português autorizou a mudança não de sua realeza, mas de uma cidade inteira. A fortaleza portuguesa de Mazagão, construída no coração das terras infiéis do Marrocos, teve que ser abandonada em março de 1769, quando seus 2 mil habitantes, que tentavam resistir ao cerco de 120 mil soldados mouros e berberes, finalmente convenceram a família real de que era chegada a hora de partir para um destino incerto e longe da África. Fiéis da coroa, escudeiros desse posto avançado da cristandade, os bravos mazaganenses fecharam as malas para partir. O destino? Portugal ou qualquer outro domínio da coroa. E é sobre essa verdadeira saga que se debruça Laurent Vidal, professor da Universidade de La Rochelle, na França, e especialista em história de cidades e sociedades urbanas no Brasil e no Novo Mundo, em Mazagão - A Cidade Que Atravessou o Atlântico (Martins Editora, 294 págs., R$ 59,80, tradução de Marcos Marcionilo).
Foi em maio de 1760 que o novo governador de Mazagão, José Vasques de Álvares da Cunha, segredou a um amigo: ‘Não tenho estranhado o clima, mas sim os seus habitantes’. Depois de anos de isolamento, Mazagão, filha solitária de Portugal no litoral atlântico do Marrocos, chega a uma situação intolerável. Fruto da política dos Avis na África, a cidade estava instalada desde o século 16 na região de Dukkala, exatamente a meio caminho dos dois extremos do Marrocos lusófono: Tânger e Agadir. Mas a região foi sendo paulatinamente abandonada, de forma a só restar a fortaleza soberba, com suas grossas muralhas de 11 metros de largura e 14 do solo. Ou melhor, a fortaleza e o que ela protegia: 700 casas, com seus terraços, janelas e portais de pedra. Políticas mudam de lugar, e o apoio de Lisboa foi rareando, uma vez que a fronteira da África do Norte não era mais um dos alvos estratégicos de Portugal, nesse momento concentrado na manutenção de sua rica colônia brasileira.
A situação tornava-se cada vez mais tensa com a aproximação do século 19, enquanto os 2 mil habitantes faziam de sua existência uma longa espera - a espera de uma invasão. A degradação do estado material e sanitário não demoraria a se refletir na situação social e moral da população. Tudo lembrava a ficção e não uma situação real. Tanto que a população local vivia de imaginar uma invasão moura, como os personagens de Dino Buzzati, no livro O Deserto dos Tártaros, que também aguardam a ocupação de suas terras, que não chega mas que lhe dá o sentido da existência. Conforme dizia o comandante: ‘São histórias um pouco complicadas (…) Essa é a noção de exílio’.
E na história de verdade tudo se precipita quando, em 1769, a cidade é sitiada por 120 mil soldados mouros. Fala-se em mouros, mas a referência é a grupos étnicos distintos: árabes que habitam as cidades e berberes que vivem em tribos. E a única saída é a porta do mar. Em 11 de março, uma cidade inteira se prepara para bater em retirada, contando com o apoio tático do poderoso ministro de d. José, o marquês de Pombal, e de seu irmão Furtado Mendonça. Depois de 11 dias de travessia, a cidade flutuante entra no Tejo e os barcos são amarrados ao cais de Belém. O destino dos mazaganenses seria fixado antes mesmo da chegada a Portugal. É o próprio Furtado Mendonça quem previne o governador da província do Grão-Pará e Maranhão, na verdade seu sobrinho, da resolução régia de transportar essa população para Belém. Eles seriam agora povoadores do Novo Mundo, como haviam sido mantenedores da Antiga Fé na descampada África. Desbravadores em um novo continente, mais uma vez desconhecido.
A mudança seria para breve, sob o olho vigilante da Coroa. Já em agosto, 371 famílias, que totalizavam 1.523 pessoas, e mais 58 militares, 46 agregados, cinco presos degradados, assim como 163 viúvas, preparam-se para a partida. Todos, incluindo os presos, recebem um soldo ou uma pensão do Tesouro Real. E, uma vez que estavam prontos, só restava à Coroa uma última tarefa: dotar de administradores a futura colônia. Por sinal, seria preciso inventar, literalmente, uma cidade no meio da Amazônia. E é uma cidade guardada em caixotes que o governador se prepara para receber em Belém. Separada como província independente do restante do Brasil desde o tratado de 1750, o Grão-Pará e Maranhão constitui-se em zona da maior importância: é a porta última da Amazônia brasileira. Além do mais, em 1750, a capitania possuía apenas uma cidade - Nossa Senhora de Belém do Pará - e quatro vilas: Souza do Caeté, Gurupá, Vila Viçosa de Santa Cruz de Cametá e Nossa Senhora de Nazaré da Vigia. Dessa maneira, o desafio era acomodar imediatamente 2 mil pessoas, em um local cuja administração lidava apenas com 10 mil habitantes.
PURGATÓRIO
Assim nascia Nova Mazagão, entre muitas incertezas. Era preciso instalar as novas famílias, retirar outras e edificar a cidade com uma câmara, uma igreja, um hospital e uma prisão, instituições necessárias para o seu bom funcionamento. Também ficou definido que os habitantes se dedicariam à agricultura do arroz e do algodão, contando com escravos especialmente trazidos da África (do porto de Bissau) e com a mão de obra indígena local. Os 405 escravos foram divididos entre as 371 residências e iniciou-se a produção e a vida na Nova Mazagão, feita de costumes agora mestiçados.
Mas a transferência fragilizara a maioria das famílias. Nesse meio tempo eles haviam se transformado em pequenos agricultores e a antiga mística que os cercava se perdeu no meio da viagem à Amazônia. Não existia nada de dignificante em sua nova condição e a cidade crescia de maneira desorganizada. Quase como purgatório, a vida na vila não mais se separava do seu clima permanentemente úmido, que dificultava a conservação dos alimentos e arrasava com a auto-estima da população. A promiscuidade e a precariedade da estrutura local eram evidentes, sem falar dos mosquitos, que eram muitos e anunciavam o perigo da malária. Também o alcoolismo, alimentado pelo uso alargado de aguardente, se espalhava como praga nativa. Até o novo pároco se rebelava: dizem que passara a celebrar missa só uma vez ao dia e num ‘altar lateral’, onde ninguém o via ou escutava. Pelo jeito, Deus havia abandonado os mazaganenses: não eram mais soldados da cristandade em luta contra os infiéis, mas pobres agricultores tentando sobreviver em uma região hostil. Mais uma vez a vila vive da realidade de seu abandono, da decadência e das fugas aceleradas. Por isso, os habitantes passam a se alimentar de um discurso identitário saudosista, em que ressurge a linguagem perdida da velha Mazagão, refúgio imaginário de tantos dissabores.
Em 1782, o governador local avisa Lisboa da gravidade da situação, relatando numerosas mortes e a solicitação geral da população para se instalar em Belém e abandonar o ‘terreno infeccioso’. A Coroa demora a se decidir mas, por fim, mais de 15 anos após a medida que levou à transferência dos mazaganenses para a Amazônia, toma consciência do fracasso da operação e concede aos moradores da vila a ‘liberdade’ de se instalarem no interior das fronteiras do Estado do Pará. Doravante, o povoado seria reduzido a uma simples paróquia, e passava a ser juridicamente dependente de Macapá.
Final da história, mas nem tanto. O fracasso não foi tão retumbante e, nessa pesquisa de pedaços cuidadosamente construídos, Laurent Vidal carrega mais uma surpresa no bolso: mostra como após o desastre da empresa nasce a lenda de Mazagão e da praça forte que resistiu aos assaltos das tropas infiéis. Uma nova cidade é construída em 1916 na África, assim como no Brasil a antiga tenta sair das cinzas. A cidade, e sua memória, se multiplicam em muitas. Por aqui se transforma, como num passe de mágica, em cidade de antigos quilombolas, muda de identidade e vegeta à beira de um rio. A cidade parece dotada do dom da ubiqüidade, como diz Vidal, e nada melhor para defini-la do que um cartaz que hoje apresenta o local: ‘bem-vindo em Mazagão Velho, terra de São Tiago’.
Como se vê, Mazagão agora se define evocando um símbolo da luta milenar entre cristãos e mouros: a festa de São Tiago. Aqui ou na África essa sina mais se parece com uma história social da espera; da espera por novos destinos e identidades. O leitor tem, pois, em suas mãos, uma boa narrativa que nada deixa a desejar à imaginação. É bom, porém, que salte alguns excessos próprios do estilo de Vidal, que, não contente com a boa história, por vezes resolve interpretá-la em demasia e mesmo introduzir alguns francesismos barrocos que atestam os ‘não lugares das coisas’. Mazagão teve vários lugares e é dessa multiplicidade que a obra se farta.
As cidades efetivamente se deslocam, na prática ou simbolicamente, e o exemplo de Mazagão parece trazer para a realidade a ficção de José Saramago, que em seu Jangada de Pedra contou a saga de um povoado que navegava pelo mar sem destino certo. Muitas vezes a realidade é mais extraordinária que a ficção. Como diz o literato português: ‘A viagem não teve história, é o que sempre dizem os narradores apressados quando julgam poder nos convencer.’
Lilia Moritz Schwarcz é professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis
“Estado de S. Paulo”