Arquivo de 10 de Julho de 2008

Uma cidade perdida no tempo

Laurent Vidal relembra a saga de Mazagão, transportada do Marrocos para a Amazônia no século 18

Lilia Moritz Schwarcz

Muito se tem comentado acerca do caráter inusitado da transferência da família real portuguesa ao Brasil. Realezas carregam bagagens pesadas e não se mudam com facilidade. Os súditos é que vêm a elas; não o contrário. Imagine-se, então, a importância do caso que envolveu a dinastia dos Bragança, que em novembro de 1807 resolveu enfrentar o Atlântico e partir para a sua desconhecida colônia tropical. Há algo de insólito na aventura, e não por acaso a bibliografia oscila, mencionando de 500 a 15 mil transladados. Sabe-se hoje que esse número ultrapassa os milhares; isso sem mencionar a imigração acumulada durante os doze anos completos em que a corte permaneceu no Brasil. Mudanças são sempre operações complexas, ainda mais quando envolvem estruturas arraigadas como as monarquias.

É fato que a idéia não era nova e que em momentos espinhosos o governo português pensara em transferir a capital do Império para o Brasil. No entanto, a fuga de 1807 foi mesmo precipitada e apresentou cenas dantescas: de um lado o exército de Junot entrando no território português; de outro, o caos instaurado no porto de Lisboa, com caixotes deixados no cais e nobres jogando-se ao mar. Mas, se essa experiência foi sem dúvida singular, não foi única. Pelo menos em um outro momento o governo português autorizou a mudança não de sua realeza, mas de uma cidade inteira. A fortaleza portuguesa de Mazagão, construída no coração das terras infiéis do Marrocos, teve que ser abandonada em março de 1769, quando seus 2 mil habitantes, que tentavam resistir ao cerco de 120 mil soldados mouros e berberes, finalmente convenceram a família real de que era chegada a hora de partir para um destino incerto e longe da África. Fiéis da coroa, escudeiros desse posto avançado da cristandade, os bravos mazaganenses fecharam as malas para partir. O destino? Portugal ou qualquer outro domínio da coroa. E é sobre essa verdadeira saga que se debruça Laurent Vidal, professor da Universidade de La Rochelle, na França, e especialista em história de cidades e sociedades urbanas no Brasil e no Novo Mundo, em Mazagão - A Cidade Que Atravessou o Atlântico (Martins Editora, 294 págs., R$ 59,80, tradução de Marcos Marcionilo).

Foi em maio de 1760 que o novo governador de Mazagão, José Vasques de Álvares da Cunha, segredou a um amigo: ‘Não tenho estranhado o clima, mas sim os seus habitantes’. Depois de anos de isolamento, Mazagão, filha solitária de Portugal no litoral atlântico do Marrocos, chega a uma situação intolerável. Fruto da política dos Avis na África, a cidade estava instalada desde o século 16 na região de Dukkala, exatamente a meio caminho dos dois extremos do Marrocos lusófono: Tânger e Agadir. Mas a região foi sendo paulatinamente abandonada, de forma a só restar a fortaleza soberba, com suas grossas muralhas de 11 metros de largura e 14 do solo. Ou melhor, a fortaleza e o que ela protegia: 700 casas, com seus terraços, janelas e portais de pedra. Políticas mudam de lugar, e o apoio de Lisboa foi rareando, uma vez que a fronteira da África do Norte não era mais um dos alvos estratégicos de Portugal, nesse momento concentrado na manutenção de sua rica colônia brasileira.

A situação tornava-se cada vez mais tensa com a aproximação do século 19, enquanto os 2 mil habitantes faziam de sua existência uma longa espera - a espera de uma invasão. A degradação do estado material e sanitário não demoraria a se refletir na situação social e moral da população. Tudo lembrava a ficção e não uma situação real. Tanto que a população local vivia de imaginar uma invasão moura, como os personagens de Dino Buzzati, no livro O Deserto dos Tártaros, que também aguardam a ocupação de suas terras, que não chega mas que lhe dá o sentido da existência. Conforme dizia o comandante: ‘São histórias um pouco complicadas (…) Essa é a noção de exílio’.

E na história de verdade tudo se precipita quando, em 1769, a cidade é sitiada por 120 mil soldados mouros. Fala-se em mouros, mas a referência é a grupos étnicos distintos: árabes que habitam as cidades e berberes que vivem em tribos. E a única saída é a porta do mar. Em 11 de março, uma cidade inteira se prepara para bater em retirada, contando com o apoio tático do poderoso ministro de d. José, o marquês de Pombal, e de seu irmão Furtado Mendonça. Depois de 11 dias de travessia, a cidade flutuante entra no Tejo e os barcos são amarrados ao cais de Belém. O destino dos mazaganenses seria fixado antes mesmo da chegada a Portugal. É o próprio Furtado Mendonça quem previne o governador da província do Grão-Pará e Maranhão, na verdade seu sobrinho, da resolução régia de transportar essa população para Belém. Eles seriam agora povoadores do Novo Mundo, como haviam sido mantenedores da Antiga Fé na descampada África. Desbravadores em um novo continente, mais uma vez desconhecido.

A mudança seria para breve, sob o olho vigilante da Coroa. Já em agosto, 371 famílias, que totalizavam 1.523 pessoas, e mais 58 militares, 46 agregados, cinco presos degradados, assim como 163 viúvas, preparam-se para a partida. Todos, incluindo os presos, recebem um soldo ou uma pensão do Tesouro Real. E, uma vez que estavam prontos, só restava à Coroa uma última tarefa: dotar de administradores a futura colônia. Por sinal, seria preciso inventar, literalmente, uma cidade no meio da Amazônia. E é uma cidade guardada em caixotes que o governador se prepara para receber em Belém. Separada como província independente do restante do Brasil desde o tratado de 1750, o Grão-Pará e Maranhão constitui-se em zona da maior importância: é a porta última da Amazônia brasileira. Além do mais, em 1750, a capitania possuía apenas uma cidade - Nossa Senhora de Belém do Pará - e quatro vilas: Souza do Caeté, Gurupá, Vila Viçosa de Santa Cruz de Cametá e Nossa Senhora de Nazaré da Vigia. Dessa maneira, o desafio era acomodar imediatamente 2 mil pessoas, em um local cuja administração lidava apenas com 10 mil habitantes.

PURGATÓRIO

Assim nascia Nova Mazagão, entre muitas incertezas. Era preciso instalar as novas famílias, retirar outras e edificar a cidade com uma câmara, uma igreja, um hospital e uma prisão, instituições necessárias para o seu bom funcionamento. Também ficou definido que os habitantes se dedicariam à agricultura do arroz e do algodão, contando com escravos especialmente trazidos da África (do porto de Bissau) e com a mão de obra indígena local. Os 405 escravos foram divididos entre as 371 residências e iniciou-se a produção e a vida na Nova Mazagão, feita de costumes agora mestiçados.

Mas a transferência fragilizara a maioria das famílias. Nesse meio tempo eles haviam se transformado em pequenos agricultores e a antiga mística que os cercava se perdeu no meio da viagem à Amazônia. Não existia nada de dignificante em sua nova condição e a cidade crescia de maneira desorganizada. Quase como purgatório, a vida na vila não mais se separava do seu clima permanentemente úmido, que dificultava a conservação dos alimentos e arrasava com a auto-estima da população. A promiscuidade e a precariedade da estrutura local eram evidentes, sem falar dos mosquitos, que eram muitos e anunciavam o perigo da malária. Também o alcoolismo, alimentado pelo uso alargado de aguardente, se espalhava como praga nativa. Até o novo pároco se rebelava: dizem que passara a celebrar missa só uma vez ao dia e num ‘altar lateral’, onde ninguém o via ou escutava. Pelo jeito, Deus havia abandonado os mazaganenses: não eram mais soldados da cristandade em luta contra os infiéis, mas pobres agricultores tentando sobreviver em uma região hostil. Mais uma vez a vila vive da realidade de seu abandono, da decadência e das fugas aceleradas. Por isso, os habitantes passam a se alimentar de um discurso identitário saudosista, em que ressurge a linguagem perdida da velha Mazagão, refúgio imaginário de tantos dissabores.

Em 1782, o governador local avisa Lisboa da gravidade da situação, relatando numerosas mortes e a solicitação geral da população para se instalar em Belém e abandonar o ‘terreno infeccioso’. A Coroa demora a se decidir mas, por fim, mais de 15 anos após a medida que levou à transferência dos mazaganenses para a Amazônia, toma consciência do fracasso da operação e concede aos moradores da vila a ‘liberdade’ de se instalarem no interior das fronteiras do Estado do Pará. Doravante, o povoado seria reduzido a uma simples paróquia, e passava a ser juridicamente dependente de Macapá.

Final da história, mas nem tanto. O fracasso não foi tão retumbante e, nessa pesquisa de pedaços cuidadosamente construídos, Laurent Vidal carrega mais uma surpresa no bolso: mostra como após o desastre da empresa nasce a lenda de Mazagão e da praça forte que resistiu aos assaltos das tropas infiéis. Uma nova cidade é construída em 1916 na África, assim como no Brasil a antiga tenta sair das cinzas. A cidade, e sua memória, se multiplicam em muitas. Por aqui se transforma, como num passe de mágica, em cidade de antigos quilombolas, muda de identidade e vegeta à beira de um rio. A cidade parece dotada do dom da ubiqüidade, como diz Vidal, e nada melhor para defini-la do que um cartaz que hoje apresenta o local: ‘bem-vindo em Mazagão Velho, terra de São Tiago’.

Como se vê, Mazagão agora se define evocando um símbolo da luta milenar entre cristãos e mouros: a festa de São Tiago. Aqui ou na África essa sina mais se parece com uma história social da espera; da espera por novos destinos e identidades. O leitor tem, pois, em suas mãos, uma boa narrativa que nada deixa a desejar à imaginação. É bom, porém, que salte alguns excessos próprios do estilo de Vidal, que, não contente com a boa história, por vezes resolve interpretá-la em demasia e mesmo introduzir alguns francesismos barrocos que atestam os ‘não lugares das coisas’. Mazagão teve vários lugares e é dessa multiplicidade que a obra se farta.

As cidades efetivamente se deslocam, na prática ou simbolicamente, e o exemplo de Mazagão parece trazer para a realidade a ficção de José Saramago, que em seu Jangada de Pedra contou a saga de um povoado que navegava pelo mar sem destino certo. Muitas vezes a realidade é mais extraordinária que a ficção. Como diz o literato português: ‘A viagem não teve história, é o que sempre dizem os narradores apressados quando julgam poder nos convencer.’

Lilia Moritz Schwarcz é professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis

Laurent Vidal relembra a saga de Mazagão, transportada do Marrocos para a Amazônia no século 18

Lilia Moritz Schwarcz

Muito se tem comentado acerca do caráter inusitado da transferência da família real portuguesa ao Brasil. Realezas carregam bagagens pesadas e não se mudam com facilidade. Os súditos é que vêm a elas; não o contrário. Imagine-se, então, a importância do caso que envolveu a dinastia dos Bragança, que em novembro de 1807 resolveu enfrentar o Atlântico e partir para a sua desconhecida colônia tropical. Há algo de insólito na aventura, e não por acaso a bibliografia oscila, mencionando de 500 a 15 mil transladados. Sabe-se hoje que esse número ultrapassa os milhares; isso sem mencionar a imigração acumulada durante os doze anos completos em que a corte permaneceu no Brasil. Mudanças são sempre operações complexas, ainda mais quando envolvem estruturas arraigadas como as monarquias.

É fato que a idéia não era nova e que em momentos espinhosos o governo português pensara em transferir a capital do Império para o Brasil. No entanto, a fuga de 1807 foi mesmo precipitada e apresentou cenas dantescas: de um lado o exército de Junot entrando no território português; de outro, o caos instaurado no porto de Lisboa, com caixotes deixados no cais e nobres jogando-se ao mar. Mas, se essa experiência foi sem dúvida singular, não foi única. Pelo menos em um outro momento o governo português autorizou a mudança não de sua realeza, mas de uma cidade inteira. A fortaleza portuguesa de Mazagão, construída no coração das terras infiéis do Marrocos, teve que ser abandonada em março de 1769, quando seus 2 mil habitantes, que tentavam resistir ao cerco de 120 mil soldados mouros e berberes, finalmente convenceram a família real de que era chegada a hora de partir para um destino incerto e longe da África. Fiéis da coroa, escudeiros desse posto avançado da cristandade, os bravos mazaganenses fecharam as malas para partir. O destino? Portugal ou qualquer outro domínio da coroa. E é sobre essa verdadeira saga que se debruça Laurent Vidal, professor da Universidade de La Rochelle, na França, e especialista em história de cidades e sociedades urbanas no Brasil e no Novo Mundo, em Mazagão - A Cidade Que Atravessou o Atlântico (Martins Editora, 294 págs., R$ 59,80, tradução de Marcos Marcionilo).

Foi em maio de 1760 que o novo governador de Mazagão, José Vasques de Álvares da Cunha, segredou a um amigo: ‘Não tenho estranhado o clima, mas sim os seus habitantes’. Depois de anos de isolamento, Mazagão, filha solitária de Portugal no litoral atlântico do Marrocos, chega a uma situação intolerável. Fruto da política dos Avis na África, a cidade estava instalada desde o século 16 na região de Dukkala, exatamente a meio caminho dos dois extremos do Marrocos lusófono: Tânger e Agadir. Mas a região foi sendo paulatinamente abandonada, de forma a só restar a fortaleza soberba, com suas grossas muralhas de 11 metros de largura e 14 do solo. Ou melhor, a fortaleza e o que ela protegia: 700 casas, com seus terraços, janelas e portais de pedra. Políticas mudam de lugar, e o apoio de Lisboa foi rareando, uma vez que a fronteira da África do Norte não era mais um dos alvos estratégicos de Portugal, nesse momento concentrado na manutenção de sua rica colônia brasileira.

A situação tornava-se cada vez mais tensa com a aproximação do século 19, enquanto os 2 mil habitantes faziam de sua existência uma longa espera - a espera de uma invasão. A degradação do estado material e sanitário não demoraria a se refletir na situação social e moral da população. Tudo lembrava a ficção e não uma situação real. Tanto que a população local vivia de imaginar uma invasão moura, como os personagens de Dino Buzzati, no livro O Deserto dos Tártaros, que também aguardam a ocupação de suas terras, que não chega mas que lhe dá o sentido da existência. Conforme dizia o comandante: ‘São histórias um pouco complicadas (…) Essa é a noção de exílio’.

E na história de verdade tudo se precipita quando, em 1769, a cidade é sitiada por 120 mil soldados mouros. Fala-se em mouros, mas a referência é a grupos étnicos distintos: árabes que habitam as cidades e berberes que vivem em tribos. E a única saída é a porta do mar. Em 11 de março, uma cidade inteira se prepara para bater em retirada, contando com o apoio tático do poderoso ministro de d. José, o marquês de Pombal, e de seu irmão Furtado Mendonça. Depois de 11 dias de travessia, a cidade flutuante entra no Tejo e os barcos são amarrados ao cais de Belém. O destino dos mazaganenses seria fixado antes mesmo da chegada a Portugal. É o próprio Furtado Mendonça quem previne o governador da província do Grão-Pará e Maranhão, na verdade seu sobrinho, da resolução régia de transportar essa população para Belém. Eles seriam agora povoadores do Novo Mundo, como haviam sido mantenedores da Antiga Fé na descampada África. Desbravadores em um novo continente, mais uma vez desconhecido.

A mudança seria para breve, sob o olho vigilante da Coroa. Já em agosto, 371 famílias, que totalizavam 1.523 pessoas, e mais 58 militares, 46 agregados, cinco presos degradados, assim como 163 viúvas, preparam-se para a partida. Todos, incluindo os presos, recebem um soldo ou uma pensão do Tesouro Real. E, uma vez que estavam prontos, só restava à Coroa uma última tarefa: dotar de administradores a futura colônia. Por sinal, seria preciso inventar, literalmente, uma cidade no meio da Amazônia. E é uma cidade guardada em caixotes que o governador se prepara para receber em Belém. Separada como província independente do restante do Brasil desde o tratado de 1750, o Grão-Pará e Maranhão constitui-se em zona da maior importância: é a porta última da Amazônia brasileira. Além do mais, em 1750, a capitania possuía apenas uma cidade - Nossa Senhora de Belém do Pará - e quatro vilas: Souza do Caeté, Gurupá, Vila Viçosa de Santa Cruz de Cametá e Nossa Senhora de Nazaré da Vigia. Dessa maneira, o desafio era acomodar imediatamente 2 mil pessoas, em um local cuja administração lidava apenas com 10 mil habitantes.

PURGATÓRIO

Assim nascia Nova Mazagão, entre muitas incertezas. Era preciso instalar as novas famílias, retirar outras e edificar a cidade com uma câmara, uma igreja, um hospital e uma prisão, instituições necessárias para o seu bom funcionamento. Também ficou definido que os habitantes se dedicariam à agricultura do arroz e do algodão, contando com escravos especialmente trazidos da África (do porto de Bissau) e com a mão de obra indígena local. Os 405 escravos foram divididos entre as 371 residências e iniciou-se a produção e a vida na Nova Mazagão, feita de costumes agora mestiçados.

Mas a transferência fragilizara a maioria das famílias. Nesse meio tempo eles haviam se transformado em pequenos agricultores e a antiga mística que os cercava se perdeu no meio da viagem à Amazônia. Não existia nada de dignificante em sua nova condição e a cidade crescia de maneira desorganizada. Quase como purgatório, a vida na vila não mais se separava do seu clima permanentemente úmido, que dificultava a conservação dos alimentos e arrasava com a auto-estima da população. A promiscuidade e a precariedade da estrutura local eram evidentes, sem falar dos mosquitos, que eram muitos e anunciavam o perigo da malária. Também o alcoolismo, alimentado pelo uso alargado de aguardente, se espalhava como praga nativa. Até o novo pároco se rebelava: dizem que passara a celebrar missa só uma vez ao dia e num ‘altar lateral’, onde ninguém o via ou escutava. Pelo jeito, Deus havia abandonado os mazaganenses: não eram mais soldados da cristandade em luta contra os infiéis, mas pobres agricultores tentando sobreviver em uma região hostil. Mais uma vez a vila vive da realidade de seu abandono, da decadência e das fugas aceleradas. Por isso, os habitantes passam a se alimentar de um discurso identitário saudosista, em que ressurge a linguagem perdida da velha Mazagão, refúgio imaginário de tantos dissabores.

Em 1782, o governador local avisa Lisboa da gravidade da situação, relatando numerosas mortes e a solicitação geral da população para se instalar em Belém e abandonar o ‘terreno infeccioso’. A Coroa demora a se decidir mas, por fim, mais de 15 anos após a medida que levou à transferência dos mazaganenses para a Amazônia, toma consciência do fracasso da operação e concede aos moradores da vila a ‘liberdade’ de se instalarem no interior das fronteiras do Estado do Pará. Doravante, o povoado seria reduzido a uma simples paróquia, e passava a ser juridicamente dependente de Macapá.

Final da história, mas nem tanto. O fracasso não foi tão retumbante e, nessa pesquisa de pedaços cuidadosamente construídos, Laurent Vidal carrega mais uma surpresa no bolso: mostra como após o desastre da empresa nasce a lenda de Mazagão e da praça forte que resistiu aos assaltos das tropas infiéis. Uma nova cidade é construída em 1916 na África, assim como no Brasil a antiga tenta sair das cinzas. A cidade, e sua memória, se multiplicam em muitas. Por aqui se transforma, como num passe de mágica, em cidade de antigos quilombolas, muda de identidade e vegeta à beira de um rio. A cidade parece dotada do dom da ubiqüidade, como diz Vidal, e nada melhor para defini-la do que um cartaz que hoje apresenta o local: ‘bem-vindo em Mazagão Velho, terra de São Tiago’.

Como se vê, Mazagão agora se define evocando um símbolo da luta milenar entre cristãos e mouros: a festa de São Tiago. Aqui ou na África essa sina mais se parece com uma história social da espera; da espera por novos destinos e identidades. O leitor tem, pois, em suas mãos, uma boa narrativa que nada deixa a desejar à imaginação. É bom, porém, que salte alguns excessos próprios do estilo de Vidal, que, não contente com a boa história, por vezes resolve interpretá-la em demasia e mesmo introduzir alguns francesismos barrocos que atestam os ‘não lugares das coisas’. Mazagão teve vários lugares e é dessa multiplicidade que a obra se farta.

As cidades efetivamente se deslocam, na prática ou simbolicamente, e o exemplo de Mazagão parece trazer para a realidade a ficção de José Saramago, que em seu Jangada de Pedra contou a saga de um povoado que navegava pelo mar sem destino certo. Muitas vezes a realidade é mais extraordinária que a ficção. Como diz o literato português: ‘A viagem não teve história, é o que sempre dizem os narradores apressados quando julgam poder nos convencer.’

Lilia Moritz Schwarcz é professora do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis

“Estado de S. Paulo”

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A ascensão dos nerds na América moderna

David Brooks

Em 1950, o Dr. Seuss publicou um livro chamado “If I Ran the Zoo” (Se eu dirigisse o zoológico), que continha este trecho: “Eu navegaria para Ka-Troo, e traria um It-Kutch, um Preep, e um Proo, e também um Nerkle, um Nerd e um Seersucker!” Segundo o psicólogo David Anderegg, este deve ser o primeiro uso impresso da palavra “nerd” no inglês moderno.

No ano seguinte, a “Newsweek” noticiou que “nerd” estava sendo usado em Detroit como substituto para “quadrado”. Mas, como Anderegg escreve em seu livro, “Nerds”, o termo só floresceria na consciência popular após Fonz usá-lo no seriado “Happy Days”, em meados dos anos 70. E assim começou o que se poderia chamar de ascensão do nerdismo na América moderna.

Inicialmente, um nerd era um geek (ou pessoa muito hábil ou viciada em computadores ou tecnologia) com notas melhores. A palavra descrevia um pária colegial ou universitário que era perseguido pelos atletas, veteranos, membros de fraternidades e irmandades. Os nerds tinham seus próprios heróis (Stan Lee, o roteirista de histórias em quadrinhos), suas vocações próprias (Dungeons & Dragons), sua própria religião (fornecida por George Lucas e “Star Wars”) e seus próprios conhecimentos (suporte técnico). Mas mesmo enquanto “A Vingança dos Nerds” despontava nas telas de cinema do país, uma versão diferente de reino nerd se infiltrava na cultura popular. Elvis Costello e David Byrne do Talking Heads popularizaram um estilo geek cool que levou a Moby, Weezer, Vampire Weekend e até mesmo ao auto-intitulado rock “nerdcore” e os geeksta rappers.

Os historiadores do futuro do predomínio nerd provavelmente notarão que a fase de conquista de poder teve início nos anos 80, com a ascensão da Microsoft e da economia digital. Os nerds começaram a ganhar grandes somas de dinheiro e adquiriram credibilidade econômica, a base para o prestígio social. A revolução da informação produziu um desfile de magnatas nerds altamente confiantes -Bill Gates e Paul Allen, Larry Page e Sergey Brin e assim por diante.

Entre os adultos, as palavras “geek” e “nerd” trocaram de posição de status. Um nerd ainda era socialmente manchado, mas o reino geek adquiriu sua própria contracultura bacana. Um geek possuía uma certa paixão por conhecimento especializado, mas também um alto grau de consciência cultural e segurança que um nerd carecia.

Os geeks não apenas se rebelavam contra os atletas, mas se distinguiam dos párias alienados e autocomiserados que choravam com reconhecimento ao lerem “O Apanhador no Campo de Centeio”. Se Holden Caulfield era o solitário sensível de uma era de opressão aos nerds, então Harry Potter foi o líder mágico na era da conquista do poder dos geeks.

Mas a maior mudança não foi o Vale do Silício em si. Em vez disso, a nova tecnologia criou uma série de playgrounds mentais onde os novos geeks podiam exibir seu capital cultural. O atleta pode brilhar no campo de futebol, mas os geeks podem exibir sua sensibilidade suave e emoções bem moduladas em suas páginas do Facebook, blogs, mensagens de texto e Twitter feeds. Agora há exércitos de designers, pesquisadores, especialistas em mídia e outros produtores culturais com talento para autodepreciação bem-humorada, referências sociais obscuras e análises de fim de noite.

Eles podem visitar sites ecléticos como Kottke.org e Cool Hunting, experimentar com fontes, admirar Stewart Brand e Lawrence Lessig e ingressar em redes sociais com nomes irônicos. Eles criaram uma nova definição do que significa ser cool, uma definição que deixa de fora os talentos dos atletas, dos tipos MBA e os menos escolarizados. Em “The Laws of Cool”, Alan Liu escreve: “Cool é um feeling por informação”. Quando alguém tem a habilidade, você sabe.

Tina Fey, que já foi capa da revista “Geek Monthly”, despontou como símbolo de um geek que cresce e se transforma em um cisne. Agora há um estilo de moda cool geek, que pode ser encontrado em sites de compras por toda a Internet (pense em tênis japoneses e camisetas cheias de texto). A Schwinn agora faz uma bicicleta com aspecto retrô Sid/Nancy, que é doce e desajeitada apesar de seu nome evocar falsa raiva. Atualmente há milhões de pessoas de alta escolaridade guiadas por modos geek e regras de status.

A notícia de que ser geek é bacana aparentemente não chegou aos colégios ou ao Partido Republicano. George Bush exerce um papel interessante na história da ascensão nerd. Com seu professo desdém por coisas intelectuais, ele energizou e alienou toda a legião geek, e com isso grande parte dos americanos com nível superior com menos de 30 anos. Agora militantes, os geeks estão mais coerentes e ativos do que no passado.

Barack Obama se tornou o Príncipe Caspian das hordas de iPhone. Eles o homenageiam com vídeos e cartazes que combinam domínio estético com despudorada adulação de herói. As pessoas nos anos 50 costumava debater seriamente o papel do intelectual na política moderna, mas a figura de autoridade de Lionel Trilling foi removida pela classe de massa dos produtores culturais escritores de blogs.

Então, em um período relativamente curto de tempo, a estrutura social virou de cabeça para baixo. Pois como está escrito, os últimos serão os primeiros e os geeks herdarão a terra.

“The New York Times”

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Capitalismo é, em grande parte, responsável pela infelicidade

“CULT”

Gianni Vattimo nasceu em Turim, no norte da Itália, em 1936. Formou-se em Filosofia na universidade local e nela ensina até hoje (pretende aposentar-se em 2009). Fez especialização na Universidade de Heidelberg, Alemanha, e passou por universidades norte-americanas como professor visitante. Autor de O fim da modernidade (ed. Martins Fontes) e organizador, com Derrida, da coletânea A religião (Estação Liberdade), publicou também A sociedade transparente (Relógio D’Água), entre outras obras, algumas inéditas no Brasil. Vattimo foi deputado no Parlamento Europeu, viaja pelo mundo proferindo palestas, sempre para grandes platéias, lotadas, e escreve em jorn ais e revistas. Gosta do contato com estudantes, é generoso e encantador. Um homem brilhante, com um currículo extenso, que entretanto não o torna inacessível. Está sempre disposto a atender às inúmeras solicitações.

Em junho, passou por São Paulo e encontrou-se com colegas como Marcia Tiburi, Vladimir Safatle, Juvenal Savian, Ruy Braga e Nello Barille, entre outros. Na visita ao Brasil, foi acompanhado pelo professor italiano Massimo Di Felice, da ECA/USP. Nesta entrevista exclusiva, Vattimo fala sobre pensamento fraco ( pensiere debole), filosofia, religião e política, além da militância homossexual, iniciada nos anos 1950, quando tal atitude era muito mais que arriscada.

CULT - Seus escritos afirmam que, no debate atual, não é mais aceitável a idéia de que o pensamento filosófico seja o da procura da fundação normativa da realidade. Pode nos falar sobre isso?
G. V. - Até agora, no pensamento metafísico (como Martin Heidegger o define, o pensamento que identifica, de uma vez por todas, o ser com uma estrutura objetiva), as normas do agir são modos-de-ser buscados na essência das coisas: você é um homem, um animal racional, logo, DEVE fazer isto ou aquilo. Tudo isso lembra um pouco a essência natural, segundo Aristóteles: se o fogo tende para cima, a pedra para baixo etc. Se o ser não é estrutura dada de uma vez por todas, mas evento, entende-se que a essência das coisas é determinada no ser em um certo horizonte histórico que é um evento interpretativo. Se as coisas são de um modo, isso não quer dizer que devam ser sempre desse modo. (É um pouco como a crítica marxista da ideologia.) Em suma, a idéia de tirar da essência das coisas a norma para a prática é uma idéia da classe dominante, para a qual a presente ordem vai bem. Mas quem não está bem na ordem atual, não tem razão para crer que as normas provenham das coisas, tal como elas são de fato. De onde, então, tomar as normas? Por um niilismo consciente, a partir unicamente da negociação e do acordo entre indivíduo e grupo social, sem nenhuma pretensão de fundamentar-se sobre a “natureza” das coisas. Se não fosse assim, a democracia também não faria o menor sentido e seria necessário confiar sempre nos “peritos”: prêmio Nobel, Comitê Central, Papa…

CULT - Quais são as implicações do pensamento fraco (pensiero debole)? Quais seus contrapontos em relação ao pensamento forte, ou seja, o da metafísica clássica?
G. V. - Libertação das pretensas essências naturais, que são sempre autoritárias. Redução da ética a um único ponto ligado à libertação de cada um: não cometer violência, no sentido de não impor a ninguém o que esse não deseja. Pode-se, no máximo, tentar persuadi-lo, mas nunca com o argumento de que a “natureza” impõe certa solução. Tomemos o clássico exemplo da eutanásia: neste caso, a violência não é ajudar alguém, que o deseja, a morrer, mas lhe impor que viva ainda que, depois de uma madura discussão, ainda prefira a morte. Em linguagem cristã, eu digo sempre que os códigos possam se tornar unicamente “mais caridosos regulando as relações”. Há um único imperativo absoluto, o respeito ao outro em sua liberdade; o resto são convenções que nos servem para que exercitemos este único dever de base.

CULT - Fale sobre a passagem do pensamento fraco para o pensamento dos fracos? ( pensiero debole al pensiere dei deboli?)
G. V. - Trata-se de uma passagem que tem se tornado para mim muito cara, quanto mais medito sobre a relação entre a metafísica e o poder. É uma tese das classes dominantes segundo a qual haveria uma ordem objetiva das coisas à qual deve-se conformar. De resto, Platão não era um proletário, como se sabe. A luta contra a metafísica é a luta contra o autoritarismo e o privilégio de que as coisas “são” como “estão” e que, na realidade, quer que permaneçam assim. O pensamento fraco é, por isso, o pensamento de todo aquele que não está em sua comodidade na (de)sordem presente. (Como ficará entendido, uma das minhas principais inspirações vem da Tese sobre filosofia da história, de Walter Benjamim). É indiscutível que quem não está em sua comodidade é antes a maioria da humanidade: a hierarquia social e o exercício do poder sempre vencem, assegurando o domínio de poucos sobre muitos. O pensamento fraco é também, um pensamento que respeita a esperança da maioria; no fundo, um pensamento autenticamente democrático. Eu estou com os fracos porque, em muitos sentidos, sou um deles, e não porque haja para mim uma razão metafísica para preferi-los.

CULT - Quais são as conseqüências da angústia e da solidão? A humanidade está desiludida?
G. V. - Não saberia dizê-lo sem incertezas. Hoje nós falamos da humanidade de maneira muito mais fundamentada do que foi possível falar no passado; conhecemos mais culturas, tipos de sociedade, ética. E, pelo que sabemos, a modernização tem produzido mais dificuldades do que tem trazido soluções em muitas áreas do planeta. Assim, a globalização, sobre a qual se gasta tanta retórica, tem, na realidade, aumentado a distância entre o rico e o pobre, e parece dar razão a Karl Marx sobre a difusão da pobreza e a progressiva proletarização. Um ditado, que não sei bem de onde vem, ressoa: os Estados Unidos têm exportado a infelicidade em todo o mundo. Quando se pensa no custo-benefício da competitividade e no desfrute que comporta o desenvolvimento, devemos reconhecer que este ditado é verdadeiro. O capitalismo é, em grande parte, responsável por esta montanha de infelicidade.

CULT - Como a filosofia auxilia a compreensão da sexualidade na época contemporânea?
G. V. - Esta é uma questão muito difícil, porque não conseguimos considerar “objetivamente” pois estamos imersos na situação problemática que se deveria resolver na resposta. Talvez o apóstolo São Paulo, com todas as culpas com as quais tenha marcado a ética cristã, não tenha errado em falar de um “espinho na carne”. Quem pode dizer, filósofo ou não, que tenha resolvido, de modo satisfatório, o problema da sensualidade? E, por outro lado, será verdade que não haveria ninguém que preferisse não ser atormentado por esse espinho? A filosofia talvez nos ajude a entender que a sexualidade, com todas as suas complicações, é um aspecto, talvez, antes, o aspecto essencial da nossa finitude. O fato de eu, como filósofo, nunca ter me preocupado a fundo com este problema (de resto, como tantos filósofos meus mestres, inclusive Martin Heidegger) é só um sinal de que eu pertenço a um mundo ainda caracterizado pela repressão.

CULT - O senhor foi um ativista importante pelos direitos dos homossexuais quando a maioria dos intelectuais não se manifestava. Quais as conseqüências que essa coragem acarretou para sua carreira universitária e política?
G. V. - Confesso que ter manifestado a minha preferência homossexual não tem me criado muitos problemas. Talvez porque quando eu estive em minha outing (não por minha decisão, mas por causa dos meus amigos da Libertação Gay, que vieram a mim para que eu os representasse em um partido italiano, isso já há mais de trinta anos) eu já era um reconhecido jovem filósofo, autor de livros e professor universitário. Vale dizer que eu estou consciente de que os problemas acerca da orientação sexual estão profundamente ligados à estrutura de classes. Se eu fosse um operário, teria, provavelmente, me deparado com muito mais dificuldades. Fato significativo é que, poucos meses depois de minha outing, a faculdade elegeu-me presidente. Um milagre? Talvez não. Só a vontade dos meus colegas de parecerem progressistas, ainda que, na realidade, não o fossem. Eu certamente considero toda a angústia que, como cristão praticante, este problema me criou desde aquele primeiro momento. E provo um certo ressentimento por ter sido obrigado a viver minha primeira experiência erótica e de namoro como um excluído; meus amigos namoravam livremente, e eu nunca estava preparado para cortejar as pessoas pelas quais demonstrava um início de amor. Também sobre este plano, muitas coisas têm mudado. Mas devo dizer que, sobre as questões sociais e profissionais, não sou obrigado a pagar nenhum preço por ser gay. Talvez eu tenha tirado alguma vantagem em termos de visibilidade e respeito público. Hoje é moda declarar-se homossexual, tanto que, volta e meia, me sinto tentado a ir para o outro lado. Mas, como me disse um amigo, agora não haveria sentido em me declarar heterossexual, mas, antes, VETEROsexual.

“CULT”

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Não Existe Um Povo Brasileiro

Mário Maestri*

A cultura, língua, história, tradições, etc. luso-brasileiras não podem e não devem ser tidas como as únicas do Brasil. Isso constitui desrespeito e agressão às outras nacionalidades do país, sobretudo porque, sendo essa nação “um país típico de imigração”, “não existe”, no frigir dos ovos, “um povo brasileiro”, mas um “Estado brasileiro, no qual vivem diversos povos”, descendentes de lusitanos, de alemães, de italianos, de africanos, etc. O Brasil deve “servir de pátria” para “todos os povos” de sua terra.

O Estado brasileiro não deve assegurar privilégios, mas garantir a todas os grupos étnicos que constituem a comunidade nacional, “equivalentes e equiparados” direitos de língua, cultura, escola, etc. O reconhecimento ao ensino da história singular de cada comunidade constitui elemento fundamental, “porque somente então” cada uma delas “se reconhecerá como um fator que faz história, e saberá se libertar da sua posição de inferioridade […].”

O monopólio político do “luso-brasileiro” deve dar lugar à representação dos diversos grupos étnicos, já “que nada há, neste mundo, que não tenha sido criado pelos homens – e mesmo que no momento pareça solidamente construído – nada há que não possa ser […] reconstruído pelos mesmos.” “Brasilidade é e somente pode ser o sentimento de profunda união com o solo […] e a nação brasileira, […], sem nenhuma tendência de imperialismo étnico por parte de qualquer etnia isolada”, já que o Brasil deve “servir de pátria” “para todas as raças e todos os povos representados no país” e não apenas ao luso-descendente.

Essa proposta de democratização do Brasil, através de sua racialização, ou seja, do reconhecimento dos direitos de expressão, organização e representação singular dos diversos grupos étnicos que integram a comunidade nacional, que sintetizamos, foi apresentada, em Benneckenstein, em 19-22 de março de 1937, no 3º Congresso Anual do Círculo Teuto-Brasileiro de Trabalho de Berlim, na Alemanha nazista. [1]

Destaque-se que esse programa racista procuravam interpretar direitos democráticos efetivamente desrespeitados, sobretudo das comunidades rurais teuto-brasileiras do sul do Brasil, mantidas, mais ou menos, nos cem anos anteriores, com destaque para o período imperial, em inferioridade lingüística, cultural e política, apesar de importante contribuição à sociedade nacional.

A retórica racial nazista enfatizava, corretamente, o monopólio luso-brasileiro, absolutizando as aparências raciais e desconhecendo as essências sociais. Literalmente soterrava o fato de que o monopólio era exercido prioritariamente por classe dominante com luso-ascendência, e não por aquela comunidade como um todo. Essa interpretação racial da realidade social era imprescindível à conquista nazista do direito de representação dos teuto-brasileiros, no contexto de novas instituições nacionais que mantivessem a velha ordem classista, também em relação à comunidade explorada de origem alemã.

A retórica racista encobriu sempre a militância anti-social nazi-fascista. O poder fora entregue pelo capital, na Itália, ao fascismo, em 1922, e na Alemanha, ao nazismo, em 1933, para jugularem o movimento operário que assaltava a ordem capitalista, restaurando hegemonia e dominação fraturadas. No Brasil e no mundo, as propostas de racialização almejavam substituir os interesses comuns dos explorados por identidades fantasmagóricas de etnia, consolidando e não superando a opressão de classe.

O fato de que essa proposta impugnava a construção-consolidação de Estado-nação brasileiro, mesmo sob hegemonia das classes dominantes nacionais, então em fortalecimento, explica o comportamento contraditório dessas últimas, expresso pela ditadura de Getúlio Vargas – simpatia ideológica ao nazi-fascismo e repressão à sua organização e desenvolvimento no Brasil.

O programa de racialização nazi-fascista foi combatido pela política de nacionalização autoritária do Estado Novo [1937-45] e superadas com a derrota do Eixo, em 1945. Sobretudo, foi ultrapassado pela integração das comunidades de descendentes de italiano e alemães e com o fortalecimento do Estado-nação ensejado pelo empuxe nacional-desenvolvimentista. Nos dias atuais, também no Brasil, a mundialização capitalista enseja a retomada das propostas de racialização, como meio de fragilização do movimento social e dos vínculos nacionais dos Estados periféricos.

* Mário Maestri, 59, é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri@via-rs.net

“NovaE”

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Visão cambaleante

Antigamente os jovens não tinham carro nem dinheiro. Hoje bebem 10 chopes e pegam o volante

Mônica Manir

A lei seca apertou o cinto de quem dirige com álcool no sangue. Agora, quem apresentar 2 decigramas da bebida por litro sanguíneo, o equivalente a uma tulipa de chope, será multado em R$ 955, perderá o direito de dirigir e terá o veículo retido. Passados 6 decigramas - ou duas tulipas -, a pena terá o colarinho da prisão. Do 15º andar do prédio onde clinica, Drauzio Varella sobrevoa o assunto. Começa aprovando a lei. “É perigoso dirigir alcoolizado? Pode-se fazer mal a terceiros? Então o Estado tem de agir com energia.”

A conversa logo atinge o vôo panorâmico a que se propôs: falar de alcoolismo. Com a clareza que lhe é típica, o médico trata do assunto muitas vezes se colocando como personagem. Exemplo: quando soube dos fatores de risco do alcoolismo, redobrou a atenção consigo mesmo. Não tem alcoólatra na família, mas tem tolerância à bebida. E muitas vezes está um copo à frente dos demais.

Prestes a festejar o 29º aniversário de abandono do cigarro, Drauzio não deseja outra dependência. Quer é alertar para a dificuldade de uma política global de combate ao uso nocivo do álcool, já que uma grande massa de pessoas bebe sem causar problema social nem particular. Como acertar o alvo? Como botar freio no consumo? Como evitar moralismos? Primeiro assumindo que alcoolismo, o verdadeiro, é doença. Mas daí até um programa de TV sobre o assunto ainda vai chão.

A punição funciona contra o vício?

Quando tem fiscalização eficiente, funciona. Na Suécia, por exemplo, as festas são absolutamente esquizofrênicas: metade dos convidados ri, brinca, bebe, enquanto a outra metade fica sentada olhando o relógio. Esses últimos são os que vão guiar o carro de volta pra casa. Quando você sabe que vai cair na malha do bafômetro, não bebe na hora de dirigir porque as punições são pesadas. Em Estocolmo, cada cidadão passa pelo teste uma, duas, três vezes ao ano. Em muitas cidades dos EUA é assim também. Em Washington, vi policiais fiscalizando os carros com uma equipe de televisão junto. Colocavam um barbante na rua e faziam o motorista andar sobre ele. Você via o cara alcoolizado na TV. Imagina o que acontece com a sua reputação ao ser visto bêbado na rua. Tem esse viés sério e intimidatório.

Há um viés moralista na lei seca?

Não é função do Estado proteger o cidadão do mal que queira fazer contra si mesmo, senão ele teria de colocar uma tela na janela das pessoas porque elas podem se jogar do prédio a qualquer momento. Se eu quiser pegar uma garrafa de pinga e tomá-la inteira a esta hora da manhã, isso é problema meu. Mas é função do Estado proteger o cidadão contra o mal que terceiros possam fazer contra ele. Dirigir alcoolizado é perigoso? É perigoso. Pode-se fazer mal a terceiros? Muitos fazem. Nisso o Estado tem de agir com energia. É uma política pública de proteção à saúde.

Em todos os dias desta semana as blitze da lei seca prenderam motoristas que ingeriram álcool. Bebe-se mais hoje do que antes?

Acho que sim, e por várias razões. Primeiro porque o número de jovens é bem maior. Em segundo lugar, o poder aquisitivo aumentou. Na minha geração, a gente saía e bebia também, mas não tínhamos dinheiro nem carro. Voltávamos a pé ou de ônibus. Hoje muitos jovens recebem mesada, que dá perfeitamente para tomar dez chopes. Em terceiro lugar, as mulheres mal bebiam, havia uma repressão social forte. Quando saíamos em grupo, nós tomávamos chope e elas, refrigerante. Com a emancipação feminina, criou-se o caminho. E tem a publicidade… Isso de dizerem que quem é contra a publicidade de bebida alcoólica é contra a liberdade de informação é uma vergonha. Se olhar as propagandas de bebidas alcoólicas, especialmente as de cerveja, verá que usam a mesma estratégia que os fabricantes de cigarros utilizaram durante décadas: publicidade voltada para adolescentes; na verdade, para as mulheres adolescentes, porque aí você dobra o mercado. Não foi assim com o cigarro? Anunciavam cigarros teoricamente mais suaves, que na verdade faziam mais mal do que os outros. Com isso conseguiram aumentar muito o consumo.

Na semana passada, a Ambev patrocinou as festas juninas de um colégio particular tradicional em São Paulo, o que gerou protestos. Uma indústria de cerveja em uma festa de escola banaliza o consumo da bebida?

Eu acho que é a mesma coisa que a publicidade de cigarro na escola. Não que cigarro seja a mesma coisa que álcool. As drogas são muito diferentes. Com o álcool, você tem uma grande massa de pessoas que bebe sem causar nenhum tipo de problema social nem individual. Uma porcentagem pequena dessa massa faz uso nocivo do álcool. No cigarro não ocorre isso. Praticamente não existe o fumante ocasional. Você pode dizer: “Ah, conheço uma pessoa que fuma um cigarro por dia, depois do jantar”. Tá, mas quantas você conhece que fumam um cigarro depois do jantar e quantos fumam um maço por dia? Cigarro é uma droga compulsiva. Nesse sentido, é muito pior do que o álcool. O cara começa a fumar e não consegue parar.

A estratégia para coibir o consumo de ambos deve ser diferente?

O álcool não é uma droga para a qual se diga: “Vamos proibir porque, senão, essa pessoa não pára de beber”. Não é assim. Além disso, o uso moderado de álcool, com um ou dois drinques por dia, não faz mal a ninguém, até reduz o número de doenças cardiovasculares. Por outro lado temos o alcoolismo, mas há muito preconceito nessa história. Um cara que passa uns meses bebendo é alcoólatra? Não necessariamente.

O que caracteriza o alcoolismo?

A falta de controle. O alcoólatra é aquele que bebe e não pára de beber. É o cara que vai à festa e diz: “Hoje não vou beber porque, da vez passada, dei vexame”. Na primeira rodada ele não bebe, na segunda ele resiste, na terceira fala: “Uma cervejinha não vai me fazer mal”. Quando vê, tomou uma garrafa de uísque. Não consegue botar um freio diante da bebida.

Quais os fatores de risco?

Há os que bebem pelo prazer de sentir o gosto da bebida e os que bebem para sentir o efeito do álcool. O risco é o cara que toma qualquer coisa, não está interessado em conhecer o sabor do vinho, por exemplo. Outro fator de risco é a velocidade com que se bebe. Tem dez pessoas à mesa: a primeira já está acabando o chope, enquanto a última mal tocou no copo. A primeira está mais propensa. Um quarto fator é a resistência à bebida. Quanto maior a tolerância, maior o risco de alcoolismo.

A tolerância aumenta à medida que se bebe mais?

Sim. Para conseguir o mesmo efeito, você tem que aumentar a dose. Um estudo americano pegou filhos de alcoólatras, estudantes do colegial, que não bebiam nada por causa de dramas familiares terríveis com o alcoolismo. Do outro lado estavam jovens da mesma idade, sem casos de alcoolismo na família, mas que enchiam a cara de vez em quando. Depois de 20 anos, em qual grupo havia o maior número de alcoólatras? Entre os filhos de alcoólatras, aqueles que juravam que não beberiam. Interessante que, na fase inicial, os que bebiam ocasionalmente tinham uma resistência menor à bebida, ou seja, ficavam mais bêbados do que aqueles que não bebiam, mas eram filhos de alcoólatras.

O fator genético pode ter interferido nesse resultado?

O fator genético é inegável. Há estudos feitos com irmãos gêmeos univitelinos que cresceram separadamente, nem se conheceram e, quando um deles virou alcoólatra, o risco de o outro também ter virado foi alta.

Mas existe o fator ambiental.

Sem dúvida. Nenhum gene controla nada, só aumenta a probabilidade de um comportamento. Se você nasce na Arábia Saudita, não pode beber. Não entra em contato com o álcool, não vai ser alcoólatra.

A busca incessante de prazer no mundo moderno incentiva o consumo da bebida?

O mundo moderno acelera. Cada descoberta incorporada ao dia-a-dia é para acelerar o trabalho. Hoje você é obrigado a consultar dez vezes o google para checar a informação, seu celular toca, não tem fim. Você quer uma compensação, uma droga que a relaxe um pouco, que lhe dê mais prazer. Nesse sentido, o álcool é a droga ideal. Você fica mais sociável, sai do inferno para o paraíso em segundos. O problema é a falta de trava por causa da tolerância. A tolerância é o drama de toda droga psicoativa. É por isso que todo maconheiro velho se queixa da qualidade da maconha atual. Mas a atual tem quase o dobro da concentração que tinha há 30 anos! No entanto, o cara não sente mais aquele prazer.

Uma pesquisa recente, feita na Universidade da Califórnia, chegou a uma proteína que teria eliminado o desejo dos ratos de consumir álcool. Além disso, ela evitaria efeitos colaterais típicos dos medicamentos contra o alcoolismo, como a redução de sensação de prazer para outras coisas. Dá para apostar em uma pesquisa assim?

É pouco provável que esses mecanismos que conferem prazer tenham uma via comum. Eles correm por circuitos diferentes, são vários centros. O centro de prazer do paladar não pode ser igual ao do prazer sexual. Como funcionam esses centros? Eles ativam circuitos de neurônios chamados circuitos da busca. Quando você come uma coisa gostosa e passa uns dias sem comê-la, o cérebro manda que busque novamente aquele prazer. Vale para a atividade sexual, para a cocaína, para a compra compulsiva. Você gasta R$ 5 mil em roupas, sofre para pagar o cartão de crédito, mas repete a dose. Por que faz isso? Porque, uma vez ocorrida essa ativação da busca, ela não desativa mais, mesmo que se deixe de ter prazer com a atividade. Você acha que o cara que acorda, vai para a padaria, toma uma cachaça e cai no chão está tendo algum prazer? Prazer nenhum, mas esse freio não existe para ele. Ele tinha muito prazer antes e o busca novamente.

Os rótulos no verso dos maços de cigarros seriam eficazes nos rótulos das garrafas?

Acho que esses rótulos nos maços são legais. Em vez de deixar os fabricantes colocarem passarinhos voando, coloca-se um doente com câncer de laringe respirando com a cânula.

Muitos fumantes criticam essas imagens nos rótulos dizendo ser drásticas demais.

Nada é mais drástico do que o cigarro. É o maior crime da história do capitalismo, que provoca milhões e milhões de mortes todos os anos. Agora, apesar de o cara olhar aquele doente agonizando no rótulo, ele não pára de fumar, porque a dependência química é uma doença, justamente essa doença de buscar um prazer que não existe mais - e a qualquer preço. O fígado está se acabando, tem água juntando na barriga, os pés estão inchados e a pessoa continua a beber mesmo passando mal. Você precisa de muita força para reagir contra ela. Só que a dependência química quebra o caráter do dependente. Ela mina essa força que poderia levar a pessoa a ficar livre da droga.

Como se explica o fato de algumas pessoas largarem o vício de um dia para o outro?

Largam com muito sofrimento e por um processo racional. Fale para um fumante que ele não vai mais fumar: “Mas o cigarro é meu companheiro, meu amigo nas horas incertas”. A mesma coisa com o álcool: “Nunca mais vou poder tomar um chope ou um vinho num restaurante?” É ininteligível para quem não bebe ou não fuma, essa experiência é intransferível. Parei de fumar há 29 anos. Se acender um cigarro aqui, vou provavelmente ficar tonto, mas com certeza vou enlouquecer de vontade de fumar. Você deixa de ser fumante, como deixa de ser alcoólatra. Ex-dependente, jamais! Esses mecanismos cerebrais são muito poderosos.

E o rótulo na garrafa?

Olha, eu acho que deve funcionar, mas o impacto é pequeno. No caso do álcool, você vai mostrar o quê? Como fica o fígado? Tem tanta gente que bebe e não fica com o fígado assim. No caso do cigarro, você começa a fumar, vai ter um encontro marcado com a tragédia. Pode ser o câncer de pulmão, pode ser o enfisema, mas você tem uma deterioração progressiva da sua condição física. Com o álcool, essa linha só é nítida para os que exageram. Não pode tratar todos da mesma forma.

O que pode ser feito, então?

Acho que temos de dar aula de alcoolismo e drogas em geral para as crianças. É a educação que pode estabelecer essa diferença. E tem o exemplo doméstico. Que moral tem um pai que fica bêbado dizer a um filho que não pode beber?

Se tivesse um problema com o alcoolismo, quem procuraria?

Eu procuraria os Alcoólicos Anônimos, não iria ao médico. Os A.A. são a única condição na medicina em que um grupo de auto-ajuda funciona melhor do que tudo o que a medicina tem a oferecer. Essa situação começa a se modificar agora com as novas drogas e os médicos se interessando pelo alcoolismo. Há 10, 20 anos não havia médicos cuidando disso.

Pensa em fazer um programa de TV sobre alcoolismo?

Já pensei várias vezes, mas tenho dificuldade em levar a idéia adiante.

Por quê?

Você convence poucas pessoas com argumentos racionais. Nos programas que faço, tento sempre usar argumentos emocionais. No momento, fazemos uma série sobre transplantes. Uma coisa é dizer que 65 mil pessoas estão nessa agonia de esperar um órgão. O número é alto, mas, diante de 180 milhões de habitantes, fica abstrato. Outra coisa é conhecer as pessoas que estão na fila, o drama que eles e a família vivem. Ao filmar essas pessoas, você não fere nenhum padrão ético. Ao contrário: chama atenção para o problema, e as pessoas que estão na fila se submetem a fazer o papel de personagem porque sabem que estão colaborando para ajudar outros na mesma situação. Se for fazer uma série sobre alcoolismo, tem que pegar gente com problema com o alcoolismo. Os que se livraram do vício podem achar que ajudarão o outro. E os que estão com o problema? Vamos expor essas pessoas para o Brasil inteiro? Que repercussões familiares, sociais e no trabalho isso vai ter? Ainda não encontrei uma fórmula para abordar o tema. Mas acho muito interessante.

“Estado de S. Paulo”

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No Pará, 1 em cada 10 ameaçados de morte tem proteção policial

Entre os 99 que receberam ameaça direta de assassinato no Estado, há religiosos, sindicalistas e membros de movimentos

Projeto que cria programa nacional de proteção aos defensores dos direitos humanos sob risco deve ir para o Congresso neste mês

EDUARDO SCOLESE

No Pará, foco nacional de assassinatos e de impunidade no campo, 1 em cada 10 defensores de direitos humanos ameaçados de morte está hoje sob proteção policial.
No final do ano passado, o governo paraense concluiu uma série de entrevistas em todo o Estado em que identificou 99 pessoas ameaçadas de morte, entre religiosos, sindicalistas e integrantes de movimentos sociais. Dessas 99, apenas 9 estão hoje com proteção policial.
Entre 1971 e 2007, segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra), 819 pessoas foram mortas no Estado em conflitos fundiários, entre as quais a freira norte-americana naturalizada brasileira Dorothy Stang, cujo suposto mandante do crime foi absolvido na última terça.
A identificação dessas 99 pessoas, todas de alguma forma consideradas “defensoras dos direitos humanos”, ocorreu a partir de listas apresentadas ao governo pela CPT e pela Fetagri, braço paraense da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).
Entre os nove protegidos hoje, com escolta policial 24 horas por dia, está dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu e presidente nacional do Cimi (Conselho Indigenista Missionário).
Dos 99 que receberam ameaça direta de morte, 57 solicitaram proteção imediata ao Estado. Além disso, 19 deles foram considerados de proteção prioritária pela coordenação do programa de proteção, formado, entre outros, por movimentos sociais, polícias Civil, Militar e Federal, OAB, Tribunal de Justiça e Pastoral da Terra.

Cartilha
“Todos os ameaçados, principalmente os que não têm a proteção direta, precisam seguir uma cartilha para não se expor. Por exemplo: há todo um procedimento para abrir a porta de casa, não caminhar sozinho na rua, não beber, não sair à noite”, diz o defensor público Antonio Cardoso, coordenador-executivo do programa paraense de proteção a defensores dos direitos humanos ameaçados de morte, criado em 2005 pela Defensoria Pública estadual.
Segundo Cardoso, a falta de recursos e de policiais disponíveis impede que todos os ameaçados estejam sob proteção direta. O programa paraense conta hoje com auxílio do governo federal, como no repasse de verbas para a compra de equipamentos à Polícia Militar.
A “proteção dura”, como é chamada, envolve a presença de dois policiais durante todo o dia ao lado do ameaçado -em casa, na rua, em reuniões e em todos os deslocamentos.
“A crítica não está na falta de proteção, e sim na falta de investigação sobre as ameaças. É preciso investigar e desarticular as quadrilhas do crime organizado do campo”, diz José Batista, da coordenação nacional da CPT e advogado da entidade em Marabá (sudeste do Pará).
O país ainda engatinha nesse tema. Hoje, além do Pará, a União possui convênios com programas semelhantes de proteção a defensores em Pernambuco e no Espírito Santo.
Neste mês, o Planalto deve enviar ao Congresso um projeto de lei que prevê a criação do programa nacional de proteção a defensores de direitos humanos ameaçados de morte. “Com a criação do programa, haverá uma relação direta entre União e Estados, como já existe no Provita [Programa Federal de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas]”, diz Fernando Matos, coordenador-geral do programa nacional de proteção de defensores de direitos humanos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.
“Hoje, mesmo sem a proteção, o fato de Ministério Público, entidades e governos terem o registro das ameaças e dos suspeitos já diminui o índice de vulnerabilidade”, afirma.

“Folha de S. Paulo brasil”

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O ’rastro de sujeira’ chinês

“Bons ares” para setores da esquerda, centro e direita, o crescimento da economia chinesa é proporcional à degradação ambiental do país, cuja situação serve de alerta para outras nações emergentes.

João Reis (*)

A China enfrenta hoje uma grave crise ambiental. Seus dois principais rios - o Azul e o Amarelo -, que cortam boa parte do vasto território chinês, estão poluídos, assim como o ar do país, que chega a afetar nações vizinhas, como as Coréias do Sul e do Norte.

Tais condições vêm provocando uma série de problemas à sociedade chinesa, traduzindo-se em perdas à economia - em 2007, foram gastos 64 bilhões de dólares com problemas decorrentes da degradação de seu meio ambiente, o equivalente a 3% de seu PIB - conseqüentemente, num empecilho ao próprio desenvolvimento da China.

Desde a eclosão do “boom” econômico chinês, há aproximadamente 10 anos, políticos, ambientalistas, entre outros, não deixam calar a pergunta: e se os chineses começarem a consumir na proporção em que crescem? Preocupam-se porque sabem que o mundo não suportaria um novo Estados Unidos. Não há “infra-estrutura natural” para dar conta de mais de 1 bilhão de indivíduos, em apenas um das centenas de países, vivendo como o american way of life designa.

As autoridades chinesas, aparentemente, já tomam providências, ainda que tais ações reflitam a iminência das olimpíadas de Pequim, em 2008, podendo ser apenas provisórias, sem projeções a longo prazo. Se for o caso, a preocupação persiste: se as atividades chinesas já prejudicam países próximos, dentro de alguns anos poderão ter implicações em todo o ecossistema terrestre.

A situação vivida pela China serve de lição a outros países emergentes, incluindo o Brasil. Regidos ainda por um modelo de desenvolvimento insustentável, por serem utilizados pelas nações mais desenvolvidas como zonas industriais, fazendas, plantações e, atualmente, até como reservas de oxigênio, esses países gabam-se por seus superávits e pelo crescimento na produção e exportação, enquanto superexploram seus recursos naturais. Ao invés de perpetuarem tais condições - quase que de subserviência - os países emergentes deveriam investir em educação, em pesquisas, formalizar patentes e, principalmente, planejar seu desenvolvimento com responsabilidade socioambiental.

Caso não haja uma mudança de paradigma, com a aplicação de modelos que conciliem as necessidades humanas e a preservação ambiental, tanto a China como o Brasil e a Índia poderão seguir o mesmo caminho que os países desenvolvidos já vem trilhando há algum tempo, deixando um ’rastro de sujeira’ que é responsável pelas atuais condições do meio ambiente terrestre.

É preciso, portanto, que os países emergentes se unam para pressionar o resto do mundo a adotar práticas sustentáveis, principalmente os países desenvolvidos. Afinal, num mundo globalizado, em que o fluxo internacional de capitais dita o ritmo de desenvolvimento de países em todo o planeta, aqueles que não adotam estratégias de crescimento agressivas, quase sempre prejudiciais ao meio ambiente, saem perdendo (recebem menos investimentos; são considerados rústicos e obsoletos). Daí a importância de se promover uma transformação radical nos modelos que regem as relações produtivas em escala planetária, a começar pelas principais potências mundiais.

(*) João Reis é estudante de jornalismo e colaborador da Revista Consciência.Net

“NovaE”

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Cinco pães e dois peixes

Como essa pediatra conseguiu multiplicar informação e solidariedade entre os mais pobres dos pobres

Mônica Manir

Nesta semana, Zilda Arns subiu duas vezes ao palco: para receber o prêmio ‘Mulheres Mais Influentes do Brasil’, da Revista Forbes, em nome da ministra Marina Silva, que lá não pôde estar. E para receber a mesma estatueta em nome de si própria. Num vestido verde-água e branco, ela pediu no mesmo tom brando que a sociedade se mostre mais solidária, que todos os pobres sejam incluídos, que cuidemos de nossas crianças e adolescentes e que Deus nos acompanhe a todos.

Nesta mesma semana, a pediatra e sanitarista anunciou que descerá da coordenação da Pastoral da Criança em 2007.

Há 23 anos, ela aceitou a encomenda de Dom Paulo Evaristo, seu irmão, para tocar um projeto da Igreja que guilhotinasse as altíssimas taxas de mortalidade infantil do País. A proposta-piloto nasceu em Florestópolis, no Paraná, onde morriam 127 crianças para cada mil nascidas vivas. Depois de um ano, a Pastoral da Criança derrubava o índice para 28 mortes.

Inspirada na multiplicação de peixes e pães do Evangelho, a Pastoral se proliferou em mais de 42 mil comunidades (as mais pobres das pobres), onde mais de 270 mil voluntários (a maioria tão pobre quanto) orientam gestantes e tiram crianças com menos de 6 anos da desnutrição, da pneumonia, da diarréia. É o maior programa do gênero no mundo - mundo aliás que requisita seus serviços como uma franquia de solidariedade. A Pastoral já atua em 14 países na América Latina, Ásia e África. O próximo na lista de espera é o Haiti.

Antes que alguém peça pelo amor de Deus que ela fique, Zilda Arns avisa que não vai embora de vez. Apenas quer aproveitar, enquanto desfruta de ótima saúde aos 72 anos, para olhar de perto o trabalho da Pastoral da Criança nos bolsões de pobreza e alimentar com sustância a Pastoral da Pessoa Idosa, criada há dois anos. ‘A criança e o idoso são as pontas mais frágeis da sociedade’, diz. No bolsão de riqueza da Daslu, onde ocorreu a entrega dos prêmios das mulheres mais influentes, a médica fez um retrato da obra que marca sua vida e a de milhões de crianças.

Porqueasenhoradeixaráacoordenação da Pastoral da Criança no ano que vem?
Coordeno há 23 anos a Pastoral. Ela já está consolidada, muito organizada. Quero dar oportunidade para outros conduzirem os trabalhos. Além disso, penso em passar o bastão enquanto estiver com força, bem de saúde, para poder visitar as comunidades. Faz um mês fui ao Piauí. Estive em Teresina, Picos, Parnaíba e São Raimundo Nonato. Encontrei as lideranças lá, elas vêm me abraçar, isso anima a pastoral.
Há dois anos também coordeno a Pastoral da Pessoa Idosa, que acompanha 54 mil idosos por mês. Quero que ela se desenvolva tão bem como a Pastoral da Criança.

A Pastoral da Criança já alcançou todos os seus objetivos?
A Pastoral precisa ser aperfeiçoada porque nosso lema é atender os mais pobres dos pobres, entre os quais encontramos todo tipo de problema social. Uma das nossas prioridades é, em 2007 e 2008, concentrar esforços para reduzir ainda mais a mortalidade das crianças abaixo de 28 dias. No Brasil, 50% ou mais vão a óbito antes de completar esse tempo de vida. Entre as crianças atendidas pela Pastoral, a porcentagem é de 36%. Lembro que no começo do nosso trabalho, em 1983, eram 80 mortes por mil. Agora estamos com 15 em mil.

Quais as causas principais de mortalidade entre as crianças atendidas pelo programa?
Várias ainda nascem com traumatismos de parto ou com problemas não tratados durante o pré-natal, pois muitas mães escondem a gravidez ou dão pouca importância aos cuidados durante a gestação. Os bebês nascem prematuros ou com baixo peso. A segunda maior causa de mortalidade, especialmente antes de 1 ano de vida e entre crianças desnutridas, é a pneumonia. As mães nem sempre identificam a doença a tempo e, às vezes, falta penicilina para o tratamento. A terceira causa são as diarréias, que afetam mais a população da Amazônia. Nesse sentido, precisamos implementar a utilização do soro caseiro.

A multimistura continua sendo o carro-chefe da pastoral no combate à desnutrição?
Em 2005, foi realizada uma pesquisa sobre o farelo ‘multimistura’. Ela demonstrou que a alimentação enriquecida com alimentos regionais e frescos é mais nutritiva do que o farelo usado como complemento alimentar. É importante resgatar que, na origem, a multimistura se propunha a ser uma combinação de alimentos com alto valor nutritivo, baixo custo, bom paladar e produção regionalizada. Mas, no paralelo, um grupo se entusiasmou com quatro ingredientes - farelo de arroz, farelo de trigo, pó da casca de ovo e folhas de mandioca - e começou a padronizar a produção. Essa tetramistura não era a ideal e ainda poderia prejudicar a saúde por uma possível contaminação na elaboração do produto. Também não se pôde afirmar que funcionava contra a desnutrição ou contra a anemia.

Há algum trabalho da Pastoral quanto à obesidade?
Estamos estudando o problema, ainda não informatizamos a informação.

Os serviços de saúde são bons parceiros do programa?
Apesar das críticas, o SUS é o melhor serviço de saúde pública do mundo. Ele é universal, está bastante descentralizado.
Só 4% das nossas gestantes encaminhadas ao Sistema não foram atendidas. Mas existem locais, como o Amapá e alguns pontos da Amazônia, em que não há luz elétrica, vacina ou médico. No próximo ano, a Campanha da Fraternidade será sobre a Amazônia. Já estou programando para agosto e setembro visitar os Estados da região. Planejo escutar e abraçar os líderes e os os voluntários, mas também quero encontrar os religiosos e os políticos.

Qual é o perfil dos voluntários?
Contamos com mais de 270 mil voluntários. A maioria (48,5%) tem entre 19 e 39 anos e aproximadamente 90 mil possuem primeiro grau incompleto. São pessoas simples, das próprias comunidades. Só pedimos que tenham o mínimo de tempo disponível, 24 horas por mês, para o trabalho. Cerca de 92% são mulheres, a maioria católica.

Para ser um bom voluntário é preciso ter fé?
Não precisa ter fé, mas boa vontade para melhorar a condição da criança e da pobreza no Brasil. Precisa ter um ideal. O fato de a maioria ser católica se deve ao fato de a Pastoral da Criança ser um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Utilizamos toda a infra-estrutura da Igreja, a paróquia, as capelas, as comunidades. E não temos propriedades - a não ser que nos doem.

De onde vêm os recursos?
Nossos maiores parceiros são os voluntários. Eles não contribuem com dinheiro, mas, se fôssemos contabilizar seu trabalho com base no salário mínimo e em cima de 24 horas mensais, o valor seria de R$ 78 milhões.
Isso significa mais do que o dobro do total de recursos financeiros recebidos de parcerias e convênios com empresas e outras instituições, que, no último ano fiscal, foi de R$ 33 milhões.

Isso é suficiente?
Gastamos cerca de R$ 1,50 por criança ao mês, isso de outubro do ano passado a setembro deste ano. Despendemos pouco em administração e mais em atividades-fim, como capacitação de líderes, visita a famílias, recuperação de desnutridos, transporte de voluntários. Precisamos, na verdade, é de mais voluntários de todas as classes sociais, que possam dar apoio, por exemplo, no Dia da Celebração da Vida, realizado em 42 mil comunidades por mês. É o dia em que pesamos as crianças.

Há entraves culturais ao trabalho da Pastoral?
Muitas vezes o povo se conforma com que as coisas andem mal. Alguns maridos também não permitem que as voluntárias visitem as famílias. Mas, no geral, a diversidade cultural é uma riqueza. No Dia da Celebração da Vida, por exemplo, os índios têm o costume de acompanhar a pesagem. Então, quando se esperam 50 pessoas, aparecem 200 delas, famílias inteiras. Eu acho bonito, mas precisamos estar preparados porque distribuímos um lanche nesse dia, eles vão até lá também esperando comer.

Qualéopapeldaeducaçãona metodologia do programa?
A nossa metodologia é baseada no milagre dos pães e dos peixes, presente no Evangelho de São João. Com dois peixes e cinco pães, ele alimentou mais de 5 mil homens, fora mulheres e crianças. Nosso maior alimento é a informação e a solidariedade. Isso gera autonomia para que os pais possam cuidar dos filhos sem depender do posto de saúde ou de outros recursos. O melhor é atuar na educação para que se possa prevenir a doença. Para isso, a Pastoral visita mais de 1 milhão e 450 mil famílias por mês, famílias com gestantes e crianças menores de 6 anos.

É alto o índice de analfabetos?
Já foi muito maior. Quando comecei a pastoral, o número de analfabetos em certas comunidades era de 80%, 90%. Por isso a Irmã Maria Helena, minha irmã, uma grande pedagoga, criou o curso de alfabetização para jovens e adultos na Pastoral. Eu me lembro de uma comunidade no Pará em que apenas um líder de um grupo de 20 sabia ler, os outros ficavam de olhos fechados quando a gente falava. Perguntei por que não olhavam para mim. ‘É porque, assim, guardam melhor sua fala na memória’, disseram. Os filhos deles, aqueles que já sabiam ler e escrever, pegavam o material que distribuímos - O Guia do Líder, por exemplo - e iam narrando para os pais. Se analisar esse material, verá que tem muita fotografia e textos em letras grandes porque o nosso pessoal também tem dificuldade para comprar óculos.

APastoralsepreocupacom oplanejamento familiar?
A Pastoral ensina os métodos naturais, mas encaminhamos a mulher ou o casal ao posto de saúde para obter mais informação sobre outras possibilidades. Respeitamos a decisão do casal. Agora, o melhor método de planejamento familiar no mundo é a educação. Quanto mais baixa a educação, maior o número de filhos. Na Pastoral, a média de crianças com menos de 6 anos é menor do que a média nacional, que inclui todas as classes sociais. Por quê? Porque as mães são orientadas desde cedo a cuidar dos filhos, vêem que precisam amamentar mais tempo, dar educação e tal. O que se pode esperar de analfabetos sem perspectiva alguma, que vivem amontoados como animais?

Por que focar o trabalho em crianças com menos de 6 anos?
Quando comecei com a Pastoral, as crianças normalmente iam para a escola depois dessa idade. A partir de então, havia uma estrutura social que as acompanhava. Por causa do ensino público de baixa qualidade, as mães pedem para que seus filhos de 7, 8 anos continuem ou entrem para a Pastoral. A gente não proíbe, mas eles não entram na nossa estatística. Temos, no Brasil, 9 milhões de crianças menores de 6 anos que são pobres. Atendemos perto de 2 milhões delas, apenas. Precisamos alcançar os 9 milhões.

Menoresderuafazempartedaestatística da pastoral?
Trabalhamos com prevenção, não com meninos de rua. Não temos uma pesquisa sobre isso, mas sabemos que, nas CPIs que investigaram a prostituição infantil em São Paulo, Brasília e Fortaleza, não constou o nome de nenhuma criança ou adolescente prostituída que fosse ou tivesse sido da Pastoral. O padre Júlio Lancellotti, que cuida da Pastoral do Menor, sempre diz que a melhor prevenção contra a exploração de meninos na rua é a Pastoral da Criança.

A Pastoral da Pessoa Idosa também vai atrás dos mais pobres ?
A metodologia é inspirada no milagre da multiplicação, organizam-se redes comunitárias e de voluntários. Mas também queremos acompanhar idosos de classe média e alta porque abandono e sofrimento não faltam. Crianças e idosos são as pontas mais frágeis da sociedade. Muitos idosos são explorados, quase não ficam com nada do que ganham de aposentadoria ou pensão. Quando a gente visita a família, vê que estão largados, sem banho há uma semana, às vezes com a urina solta, a auto-estima em baixa.

A Pastoral da Criança está presente em 14 países. Pretende expandir mais seus braços?
Em 2007 vamos para o Haiti, que vem pedindo nosso trabalho há três anos. Já estamos na Angola, em Guiné-Bissau, Moçambique, nas Filipinas, no Timor Leste, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, na Colômbia, na Venezuela, no México, na República Dominicana e no Panamá. No Timor, encontrei assustadoramente mais desnutridos que nutridos. Queremos implantar lá um sistema de informação, já que temos o melhor do mundo nesse sentido. Sabemos a cada mês como estão as crianças e devolvemos a avaliação para as comunidades a cada três meses.

O Bolsa-Família fez diferença no combate à pobreza?
Ainda é cedo para avaliar, mas uma coisa tenho notado: as famílias, tendo dinheiro, movimentam o desenvolvimento comunitário. Só que não pode ficar nisso. Tem que abrir portas de saída. É preciso diminuir um pouco a burocracia e fomentar projetos de geração de emprego. O Bolsa-Família quer que a criança vá para a escola, mas a qualidade do ensino tem de melhorar muito. Vale pagar para isso acontecer.

Estado de S. Paulo

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Ele tem o vírus da pressa

À véspera de completar 80 anos, o cientista adianta o relógio: quer ser o primeiro a produzir a vacina contra a dengue, doença que incomoda o País

Aureliano Biancarelli Mônica Manir

Ele está fazendo 80 anos amanhã e já tem uma lista de comemorações para os próximos três anos. Nada de viagens nem atividades de lazer, bem merecidas a essa altura da vida. No lugar, uma ousada agenda de produção de 20 novos medicamentos e vacinas, todos em desenvolvimento na bancada de sua equipe de 25 doutores. Entre as vacinas está a da dengue, prevista para 2009 e que deve ser a primeira do mundo, correndo na frente de multinacionais e dezenas de instituições de vários países. Para o Brasil, não haveria melhor presente: só no ano passado, o vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti fez 50 mil vítimas e matou 14 pessoas no Estado de São Paulo.

Batalhões de agentes sanitários batendo de porta em porta, buscando larvas do mosquito até mesmo em água parada em tampinhas de refrigerante, estão longe de vencer a guerra. ‘Impossível exterminar o mosquito. A solução está na vacina.’ É justamente o que mais fez e melhor sabe fazer o aniversariante desta segunda-feira, o cientista Isaias Raw, presidente da Fundação Butantan.
Desde que retornou ao Brasil em 1980 - depois de cassado pelo regime militar em 1969 -, Raw vem impondo ao Butantan uma política de pesquisa e produção tecnológica com os olhos voltados para o social. ‘Uma vacina que não pode ser comprada pelo Estado e distribuída para a população não serve para nada’, ele diz. Realista, defende que o Brasil forneça vacina de graça para a América Latina, como forma de controlar as epidemias nas suas origens e ganhar mercados futuros. E sugere que se forme um estoque mundial estratégico de vacinas, que seria a ‘primeira ação coletiva da espécie humana’.
Com a fama de briguento e empreendedor, Raw implantou um verdadeiro parque industrial camuflado entre os bosques do Butantan. São seis fábricas que já produzem as vacinas da difteria, tétano, coqueluche, raiva, hepatite, além de soros. Fundado em 1901, e conhecido por gerações como produtor de soro para cobra, o Butantan é hoje um dos maiores fabricantes de vacinas do mundo.
No próximo 26 de abril, o presidente Lula, o governador José Serra e autoridades da saúde estarão no Butantan para homenagear Raw e inaugurar duas novas fábricas, a de vacina para a gripe e a de sulfactante pulmonar, um produto capaz de salvar milhares de bebês prematuros e de baixo peso.
Médico pela Faculdade de Medicina da USP, professor, Isaias Raw tem um extenso currículo nas áreas de educação e ciência. Esteve à frente da Funbec (Fundação Brasileira para o Desenvolvimento e Ensino de Ciências) onde criou, entre outras iniciativas, o kit Os Cientistas, maleta com alça para os alunos carregarem reagentes de experiências que faziam em casa. ‘A escola tem de ensinar o aluno a aprender. O resto ele faz sozinho.’ Raw também esteve à frente da Fundação Carlos Chagas e das editoras da USP e da Universidade de Brasília. Fora do Brasil, pesquisou e ensinou em Israel e nos Estados Unidos, onde hoje se encontram seus três filhos e três netos.
Com tantos projetos, Raw costuma chegar às 6h da manhã ao prédio da Biotecnologia. ‘Velho dorme pouco e, quando chega à noite, se lembra que é preciso fazer isso, decidir aquilo.’ Nos finais de semana, muita gente vai ao Butantan passear por suas alamedas, os prédios centenários, o covil das serpentes, a jaula dos macacos. ‘Eu não caminho. Sempre tive muita pressa’, ele brinca. ‘Enquanto as autoridades falam em fazer no mês que vem, eu já fiz hoje.’ Sua urgência agora está em abater a dengue.

Sóno ano passado, foram 50 mil casos de dengue apenas no Estado de São Paulo, com 14 mortes. Neste ano,até a segunda quinzenade março,dadosoficiais do Estadojá registraramquase 8mil casos e1 óbito. O que é possível fazer?
No Brasil e na África, não é nada fácil controlar os mosquitos.
Se acabarmos com os mosquitos silvestres, matamos os passarinhos, mexemos na cadeia alimentar. A solução é uma vacina. Fui o primeiro a pedir a patente para o produto e, mesmo sem exclusividade, temos tudo para sermos os pioneiros.

Masos Estados Unidos já desenvolveram cepas da vacina, não?
O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos vem trabalhando nisso há 10 anos. Pegaram o microorganismo e por meio da engenharia genética chegaram a um vírus que não causa a doença, mas oferece resposta de defesa imunológica. Fizeram as quatro cepas e testaram em macacos, duas já foram testadas em gente. O Butantan adquiriu a reputação de pegar essa semente e fazer o produto.
Somos os únicos fabricantes de vacina com quem eles vão trabalhar no mundo. Não vamos testar para uma empresa, vamos fazer um ensaio clínico de uma vacina que vai chegar às mãos do Ministério da Saúde a um preço que ele possa pagar.

Como é feito esse ensaio?
Na fase 1, é preciso checar se a vacina não mata a pessoa. Depois observa-se se o corpo desenvolve um anticorpo que mate o vírus. Na fase final, parte-se para a vacinação nas áreas com maior freqüência da doença.

Todasessasfaseslevariamunsquatro anos, ou mais. É a previsão que o senhor faz para que a vacina chegue à população?
Espero conseguir em dois anos, podemos ser os primeiros. O problema da dengue é que ela tem quatro tipos. O mais perigoso para o Brasil, a longo prazo, é o 4. Ele é mais freqüente na Ásia, não existe aqui, portanto ninguém está imunizado. A curto prazo, quem desenvolve um tipo depois de já ter manifestado outro, 2 após o 1 por exemplo, pode ser vítima da dengue hemorrágica.

Então o senhor pularia fases?
Você tem que pular dentro do que é eticamente permitido, claro. Não vou pegar a vacina que funciona em camundongo e aplicar em um monte de gente. Mas a pergunta é: quanto tempo se pode esperar? Hoje já temos quase 60 mil casos notificados.
Se esses 60 mil tiverem outro tipo de dengue, morrem todos da hemorrágica. Outra coisa é quanto custa uma pessoa doente, quantos dias ela fica em casa ou, pior, no hospital. Não é por filantropia que indústrias vacinam de graça contra a gripe. Se metade ficar em casa, a outra metade não trabalha.

Se pegarmos o universo da vacina, o Brasil está em qual posição?
Com exceção do Brasil, ninguém fabrica nada nos países em desenvolvimento. Cerca de 82% de todas as vacinas aplicadas no país são fabricadas no Butantan, o resto se divide entre outras duas instituições, a Fiocruz, no Rio de Janeiro, e a Fundação Ataulpho de Paiva, em Niterói. Nos últimos quatro anos, o País consumiu 1,2 bilhão de doses de vacina, ou 300 milhões de doses por ano. Nós fabricamos 720 milhões, ou quase 200 milhões por ano. Uma pequena parte teve matéria-prima comprada e o produto final elaborado aqui. Nos EUA, a produção vem caindo desde que a China começou a fabricar vacina a preço de banana.

Mas isso não vai acontecer com a gente também?
O Ministério da Saúde definiu 20 anos atrás que todas as vacinas produzidas pelas instituições públicas não serão compradas lá fora. É um mercado cativo, que pode ser questionado pela Organização Mundial do Comércio, mas acho difícil porque não somos uma fábrica que vende para o ministério, somos um contratado do ministério para fazer isso.

Vacina é competência do Estado ou da iniciativa privada?
Depois do Consenso de Washington, em 1990, passou-se a assumir que o Estado não funcionava em lugar nenhum e que a solução era a iniciativa privada. Só que a iniciativa privada raramente é ética. Se estivéssemos falando de caviar, tudo bem, mas vacina é uma demanda da população. Quando você manda seu filho para a escola e o colega dele não está vacinado, seu moleque vai trazer a doença para casa. Ainda que um cidadão diga ‘meu filho está vacinado, portanto está protegido’, vacina é uma questão coletiva, não individual, porque só se controla doença infecciosa se controlar a doença na população.
Agora, se ela é praticamente toda comercializada no País, quem é que toma vacina? Quem pode pagar a conta. Não há uma proteção universal.

Mas a vacina, na origem, era uma produção pública.
No começo do século passado, 1920, por aí, era o governo quem fabricava vacinas. Herança do modelo original de Louis Pasteur, que fez a primeira vacina contra a raiva e outras tantas. O modelo era mais ou menos o seguinte: um instituto fabricava o produto, passava para o governo, o dinheiro público voltava para fabricar mais produto e, eventualmente, para pagar pesquisa e desenvolvimento. Com essa idéia, os franceses abriram o Instituto Pasteur, que naquele tempo fabricava vacina, e ensinaram a formar uma série de outros órgãos do gênero.
Mas o Instituto morreu. Por quê? Porque ficou mais complicado fazer vacina e eles não tinham competência para isso.
Vacina exige um cuidado que remédio não exige. Se você toma um medicamento e ele não funciona, você retorna ao médico e muda de remédio. Claro, pode morrer disso também, mas, no caso da vacina, você pega uma população que nasceu saudável e vai imunizá-la. Se a vacina provocar uma doença, é uma desgraça. De repente, 3,5 milhões de crianças nascidas no Brasil ficam doentes. Como esses Institutos Pasteur não tinham nem dinheiro nem competência para evoluir, eles morreram no mundo inteiro. Só não morreram aqui porque o governo brasileiro não sabe fechar coisas que não funcionam.

O Instituto Butantan chegou a perder a função em algum momento?
Por volta de 1983, 1984, o governo passou a checar se o produto que recebia dos institutos prestava. Caso contrário, não fazia o pagamento. Ocorre que o Butantan não sabia mais fazer soro. Só explicando a diferença entre soro e vacina: soro é quando você injeta o veneno, toxina ou micróbio no cavalo, por exemplo, e o animal responde fazendo anticorpo, que você aplica na pessoa. É uma imunidade passiva, ao contrário da vacina, que significa injetar o produto tóxico, o micróbio ou o vírus diretamente na pessoa para que ela produza sua própria defesa.
Bom, esse prédio aqui estava cheio de garrafão de soro contaminado quando eu cheguei.
Houve uma comoção geral. Não existia mais soro no Brasil.

Como a Fundação assumiu o Instituto?
O Instituto produz vacina e soro, a fundação entrega o material para o ministério, que compra o produto. O dinheiro volta para a fundação e é somado ao que dão Fapesp, CNPq e outros auxílios aprovados. É a fundação que levanta os pontos do Instituto que precisam de investimento. Normalmente o grosso vai para investimentos em pesquisa, em desenvolvimento, uma parte vai para o telhado. É literal: cai muito telhado aqui, esses prédios têm 100 anos…

Quais são as vacinas que o governo brasileiro está bancando?
Ele fornece uma leva para crianças de 0 a 2 anos de idade e vacina os maiores de 60 contra a influenza. Aliás, fizemos uma coisa impensável para uma empresa privada: há quatro anos, descobrimos que os idosos estavam morrendo de difteria. A vacina que eles tomaram quando bebês não durava 50 anos. Então vacinamos gente do Brasil inteiro contra a doença. No primeiro ano, precisamos de US$ 20 milhões de vacina. No ano seguinte, de U$ 2 milhões. Qual firma privada abre uma fábrica para fazer 20 milhões sabendo que, no ano seguinte, vai perfazer 2? O Butantan fez vacina para todo mundo.

O Butantan fabrica todas as vacinas distribuídas pelo governo?
Fabricamos todas, com exceção de uma - a da influenza. Mas agora, com a fábrica que será inaugurada em abril, podemos começar a produzir a nossa própria cepa. Não de imediato, somente no ano que vem. A vacina tem de ser dada em abril de cada ano. O atraso da fábrica nos fez perder esse prazo. De qualquer forma, só conseguimos acelerar o processo porque temos tecnologia transferida pela francesa Aventis, uma empresa importante para o Brasil. Quando o governo escondeu a epidemia da meningite durante a ditadura, procuraram quem tinha a vacina de meningite. Ninguém tinha. Demoraria uns três anos para ficar pronta. Morreriam metade do Rio de Janeiro e metade de São Paulo. O sujeito que criou a Aventis - o nome dele era Mérieux, o pai dele trabalhou com o Pasteur - disse ‘eu faço a vacina de meningite’, sem toda a burocracia de hoje.
Fez a vacina, acabou a pandemia. Quando eu entrei no Butantan, ele disse que transferiria a tecnologia da influenza para nós. É o único caso em que temos a tecnologia transferida.
Em geral produzimos do zero ou buscamos a cepa desenvolvida por alguém, como o Instituto de Saúde Pública dos Estados Unidos. A partir dali providenciamos a tecnologia de produção em larga escala.

O senhor diz que a vacina contra a gripe aviária mostrou que os países que não produzem não vão adquirir tecnologia e ficarão sem proteção.
Há países que não vão produzir mesmo. E não é só problema de dinheiro, a Venezuela não produz nada, o México parou, a Argentina também. Antes de produzir, é importante saber controlar a vacina. Certa vez importamos vacina para a coqueluche e, quando a testamos aqui, vimos que não funcionava. O que mudou a situação brasileira foi a montagem de um laboratório na Fiocruz que checa a eficácia das vacinas. País que não tem esse serviço está roubado, não sabe o que está comprando.

Como ficarãoos países quenão produzemvacina diante deuma pandemia como a da gripe aviária? Só se salvarão aquelesque tiverem tecnologia para produzir?
Alguém terá de produzir para os países em desenvolvimento, e serão a Europa, os EUA e o Canadá, que alojam as fábricas de vacina. Mas a posição política desses países é a seguinte: ‘Primeiro os meus, depois o o resto’. É antiético? Não é. Primeiro eles vão cuidar dos seus habitantes, depois dos seus soldados e funcionários no estrangeiro. Se sobrar, venderão para o Terceiro Mundo. Mas existem dois problemas nisso. Numa reunião da Organização Mundial da Saúde, em Genebra, no ano passado, ao ouvir que guardariam a vacina apenas para eles, eu berrei: ‘Nós vamos matar os seus cidadãos nas ruas dos nossos países’. Em segundo lugar, é uma visão torta do mundo. Se o Hemisfério Sul morrer, o Hemisfério Norte não sobrevive. O mundo é integrado, um lado depende do outro. O Primeiro Mundo pode estar protegido da doença, não de suas conseqüências. Se nos matarem, eles não terão fregueses nem fornecedores, e também acabarão doentes.

Que solução o senhor vê para isso?
Não é preciso vacinar o país inteiro. Em epidemias como a da gripe aviária, tem que ser pontual. Se tem um caso num avião, todo mundo que estava nele tem que ser vacinado, o médico que atendeu, enfermeiros, o chofer da ambulância. Basta um estoque para 5% a 10% da população. Já sugeri na OMS fazer um estoque em dez lugares do mundo. Aí, quando surgir um caso, a vacina chega em oito horas de avião. Do ponto de vista do país rico, isso interessa porque fica mais barato e seguro acabar com a pandemia na sua origem. Mas essa idéia de um estoque estratégico não foi aceita porque as companhias preferem continuar a vender a vacina a US$ 100 para quem puder pagar, e pronto. A posição da empresa é puramente capitalista, eu fabrico, eu vendo.

Esse estoque estratégico seria uma ação solidária internacional?
Seria a primeira ação coletiva da espécie humana. Mas não teve repercussão, havia interesses econômicos e políticos maiores. Em escala menor, o Brasil deve fazer isso com a América Latina. O Chávez faz barulho distribuindo dinheiro e fazendo discurso, nós podemos contribuir fazendo a coisa certa.
Além disso, somos o único produtor de vacina da América Latina, podemos entrar no mercado de competição para outras vacinas. Mas ainda há o problema do preço, mesmo as vacinas compradas pelo fundo do Unicef e da Opas estão saindo muito caras. Não adianta você fazer uma vacina contra o HPV que custa US$ 1.500. Quando desenvolvo uma tecnologia para vacina, tenho que lembrar que ela precisa estar ao alcance das pessoas, pouco importa o lucro que você almeja. Há vários estudos mostrando que a indústria farmacêutica é a mais rentável do mundo.

O Butantan conseguiu reduzir os custos de várias vacinas…
Um exemplo foi a vacina múltipla DTP, difteria, tétano e pertussis (coqueluche), desenvolvida ainda em 1930. Os EUA conseguiram reduzir sua toxicidade, mas cobram por ela US$ 8,5.
Quando desenvolvemos a vacina da coqueluche, pegamos uma bactéria pouco tóxica, conseguimos retirar sua toxicidade e vendê-la a US$ 0,15. E ainda convertemos o produto retirado dessa bactéria tóxica num adjuvante que, juntado a outra vacina, faz com que ela funcione melhor. Isso vai abrir um grande mercado e trazer grandes economias. Além de reduzir o preço, minha fábrica, que foi preparada para produzir 20 milhões de vacinas, agora pode chegar a 80 milhões. Também estamos desenvolvendo uma vacina contra a meningite que vai custar US$ 1 por pessoa, contra os US$ 50 atuais.

Para quem vai essa economia?
Uma das coisas que estamos propondo é a seguinte: com a economia feita na aplicação de vacina da gripe para as pessoas além de 60 anos, por exemplo, podemos vacinar todas as crianças que estão no grupo escolar escolar. Com isso, protegemos a família inteira.

Essa preocupação com o social, com a política de preços menoresnão provoca uma concorrência agressiva por parte de outros fabricantes?
Já tentaram impedir nosso trabalho, como já fizeram com fábricas de seringas. A seringa custa mais caro que algumas vacinas. Toda fábrica de agulha que tenta abrir aqui é comprada por um monopólio multinacional. Já tentaram fazer isso com a gente.
Mas o Butantan não é comprável. Enquanto eu estiver sentado aqui, ninguém compra. É fato, porém, que já tentaram impedir que a gente levasse adiante um produto desenvolvido por nós - não só um, vários. E vão continuar tentando. Há 15 anos tento fazer uma fábrica de hemoderivados, mas a máfia dos vampiros vem impedindo. Então jogamos parte do sangue no lixo e compramos hemoderivados lá fora. Só agora consegui um acordo do Butantan com a Hemobrás.Vamos finalmente fazer a fábrica, só aguardo o dinheiro prometido pelo governo.

Durante gerações, a imagem do Butantan sempre esteve ligada a um serpentário que produzia soro de cobra. Qual a imagem do Instituto hoje?
Eu fiz o museu de vacina e micróbio justamente para dar ao público a imagem de um Butantan que não faz só soro de cobra, algo de pouca importância num país onde 80% das pessoas vivem nas cidades. Não há cobra na Avenida Paulista. O Butantan é hoje um dos maiores produtores de vacina do mundo. Só perdemos para as grandes multinacionais e para uma companhia hindu, que vai passar a comprar nosso soro anti-rábico porque na Índia ninguém cuida dos cachorros na rua. Milhares de pessoas são mordidas e pegam a raiva.

Como o senhor acha que o cientista deve trabalhar?
A ciência evolui quando você dá liberdade para o pesquisador inovar. Mas, quando ele só faz o que quer, não resolve os problemas. Aqui trabalhamos assim: são 25 doutores que entraram na condição de atender a necessidades sociais. Eles podem ter dois projetos, o da instituição, que é a prioridade, e aquele com que sonham. Para esse último, têm que levantar dinheiro. Fazemos o que a universidade faz, só que a universidade pára na bancada.
Nós vamos até a produção no laboratório, até conseguir o produto a um preço que o País possa pagar. Esse é a filosofia que implantei quando vim para cá.

Como o senhor vê o debate em torno dos transgênicos?
A biotecnologia agrícola é uma indústria na qual você não precisa importar matéria-prima. Temos as plantas, mas não o aproveitamento esperado na área agrícola porque todo mundo tem medo do transgênico, o que é um besteirol. A vacina da hepatite B é um transgênico, a insulina, tomada por 6% da população do mundo, é transgênica. A comunidade científica não está dividida sobre esse assunto, quem está dividida é a comunidade leiga. A primeira patente de transgênico ocorreu 50 anos atrás, justamente a insulina, e não matou ninguém.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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