Arquivo de 11 de Julho de 2008

Como nos afeta a crise alimentaria mundial?

Esther Vivas*

Adital- As conseqüências da crise alimentar mundial, com revoltas e protestos em todo o mundo, também se deixaram escutar nos países do Norte. No dia 30 de maio passado, cerca de sete mil pescadores se concentraram diante da sede do Ministério do Meio Ambiente e Meio Rural e Marinho em Madrid em protesto pela crise que vive o setor devido ao aumento dos preços dos combustíveis e pela falta de ajudas (o preço do petróleo aumentou mais de 320% em cinco anos e o preço do pescado se mantém igual há 20 anos). Os transportadores também aderiram aos protestos, bloqueando as estradas, devido à subida do preço da gasolina, que já se supõe uns 50% de seus custos.
No começo de maio, milhares de criadores de gado se manifestaram em Madrid para exigir do Governo uma nova lei de margens comerciais que limitasse a diferença entre o preço pago na origem e o preço de venda ao público, que chega hoje há 400% em média. A grande distribuição: supermercados, grandes superfícies, cadernos de desconto são quem mais se beneficiam a custa do produtor e do consumidor.

Nos últimos anos, os preços dos produtos que fazem parte de nossa dieta alimentar não têm parado de crescer. No percurso de 2007, o preço do leite aumentou cerca de 26%, as cebolas 20%, o azeite de girassol 34%, a carne de frango 16%. E esta tem sido a tendência da maioria dos alimentos, segundo dados divulgados pelo Ministério de Industria, Turismo e Comércio ao final de 2007, mesmo que o Índice de Preços ao Consumo (IPC) tenha somente refletido uma subida de 4,1% naquele mesmo ano.

Pelo contrário e segundo indicava a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), no período 1995-2005, o Estado espanhol havia sido o único país da União Européia com uma queda salarial de média, evidenciando uma crescente medida de poder aquisitivo dos trabalhadores e das trabalhadoras. Uma situação que contrastava com as ganâncias das empresas espanholas, neste mesmo período, com um aumento de 73%, mais do que o dobro que a média da União Européia.

É obvio que os efeitos da crise alimentar em ambos extremos do planeta são dificilmente comparados. No Norte, tem somente destinado entre 10 e 20% da renda à compra de alimentos, mesmo que no Sul esta cifra se eleva a 50-60% e pode chegar inclusive a 80%. Porém, isso não retira a importância de ressaltar também o impacto desta subida dos preços entre as populações daqui, mesmo que os lucros das multinacionais sigam aumentando e os governos defendam uma maior liberação econômica.

Causas estruturais

Podemos indicar uma série de razões conjunturais que tem produzido esta subida espetacular dos preços dos alimentos, como o aumento das importações de cereais por parte de países até pouco auto-suficientes, a perda de colheitas devido a fenômenos meteorológicos, o aumento do consumo de carne em países como América Latina e Ásia e principalmente a subida do preço do petróleo, o aumento da produção de agrocombustiveis e as crescentes inversões especulativas em matérias-primas, não podemos esquecer as causas estruturais desta crise. As políticas neoliberais aplicadas indiscriminadamente no transcurso dos últimos trinta anos em escala planetária são as responsáveis pela situação atual.

Instituições como a Organização Mundial do Comercio (OMC), no Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, com os Estados Unidos e a União Européia à frente, têm sido seus maiores promotores. A aplicação sistemática nos países do Sul de políticas de ajuste estrutural, a cobrança da dívida externa e a privatização dos serviços e bens públicos têm sido uma constante neste período, junto com a liberação comercial, fruto das negociações na OMC e os tratados de livre comércio com Estados Unidos e a União Européia.

Agricultura e alimentação monocolor

Estas políticas neoliberais têm tido uma dimensão global e têm generalizado um modelo de agricultura e de alimentação, tanto no Sul como no Norte, a serviço dos interesses do capital. A função primordial dos alimentos, alimentar as pessoas, tem ficado sujeita aos objetivos econômicos de umas poucas empresas multinacionais que monopolizam a cadeia de produção, desde as sementes, e têm sido estas as maiores beneficiárias da situação de crise.

Olhando as cifras: o final de 2007, quando começavam as crises mundiais de alimentos, corporações como Monsanto e Cargill, que controlam o mercado dos cereais, aumentaram seus lucros em 45 e 60% respectivamente. As principais empresas de fertilizantes químicos como Mosaic Corporation, pertencente a Cargill, dobrou seus lucros em apenas um ano. E assim poderíamos colocar exemplos de outras multinacionais que monopolizam cada um dos trechos da cadeia alimentar desde as processadoras até as grandes cadeias de distribuição, todas elas com ambições crescentes ano a ano.

No campo, a situação também é difícil. Na Catalunha, somente 1,2% da população ativa se dedica à agricultura e a maior parte desta se conformam por pessoas idosas. No Estado espanhol, esta cifra sobe para 5,6%. A renda agrária dos camponeses diminui anualmente e hoje se situa somente 58% da renda geral. Já as grandes exportações são as que recebem a maior parte das subvenções dadas à agricultura. Como dado: no ano de 2005 seis famílias da oligarquia andaluza receberam quase 12 milhões de euros em ajudas ao setor.

A globalização capitalista tem posto fim à agricultura familiar, vital para o cuidado do território e a alimentação das comunidades; tem aniquilado o comércio local, causando graves danos as economias locais; tem deslocado a produção de alimentos, gerando uma crescente insegurança alimentar com uma dieta que se baseia em uma comida que percorre milhares de quilômetros antes de chegar a nossa mesa; e tem promovido uma agricultura e um rebanho industrial, intensivo, baseada no uso de pesticidas e produtos químicos. Este é o modelo de agricultura e de alimentação global existente, as pessoas e o meio ambiente temos ficado em segundo plano.

*Red de Consumo Solidario

“Adital”

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Assassinatos de povos indígenas aumentam

TERRA Bispo de Xingu critica decisão do STF de paralisar retirada de fazendeiros de terras indígenas

Dafne Melo

“ENQUANTO EU falo aqui com você, tem três seguranças lá fora”, conta dom Erwim Kräutler ao Brasil de Fato. Nas palavras do bispo de Xingu (PA), o motivo das ameaças de morte que recebe são claros: “há muitas pessoas que não gostam de ouvir isso que eu falei aqui, pois há grandes fortunas em jogo”. Defensor dos direitos dos povos indígenas, Kräutler afirma que o aumento da violência está vinculado à falta de vontade política do governo – em todas suas esferas de poder – de regularizar as terras indígenas. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista com o bispo que trabalhou ao lado da Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005, a mando de um grileiro.

Por que o número de assassinatos de indígenas subiu tanto em todo o país? No Mato Grosso do Sul, por exemplo, ele dobrou.
O Mato Grosso do Sul é emblemático, pois ali podemos provar que os assassinatos, conflitos e suicídios dos índios estão relacionados à falta de acesso à terra. Onde a regularização de terras indígenas não caminha, é onde temos mais mortes. No caso desse Estado, os índios estão encurralados, cercados por fazendeiros e não têm condição de sobreviver física e culturalmente. Isso gera os assassinatos, manifestações racistas, agressões e despejos. Muitos índios que se vêem nessa situação optam pelo suicídio, especialmente os mais jovens. Segundo os antropólogos, os índios guarani- kaiowá têm uma fé profunda na vida após a morte e entendem que depois de mortos poderão viver realmente como guarani, uma vez que, infelizmente, aqui nesta Terra são impedidos de viver como tal.

Os suicídios mostram que as condições de vida são difíceis. Como são essas condições?
Devemos distinguir indígenas aldeados ou não. Os que estão em aldeia têm sua formação comunitária, seguem suas tradições, mantêm sua língua – é bom lembrar que não existe apenas o português no Brasil, temos em torno de 160 línguas distintas aqui. Quando estão na aldeia, continuam com seus ritos e danças religiosas. Os que moram fora delas estão em uma posição mais delicada: vivem nas periferias das grandes cidades e não têm mais esse relacionamento com seu povo. São indígenas, mas não sobra muita coisa de sua cultura. Vivem marginalizados e descaracterizados. A luta é essa: respeitar os direitos indígenas, suas terras, cultura e língua.

Para isso, qual a importância do reconhecimento de suas terras?
Não se pode questionar uma terra que desde os tempos mais remotos já pertencia a esses povos. A mídia e a sociedade não são favoráveis à regularização dos territórios a que os índios têm direito. Fazem comparações descabidas com Estados europeus, como “tal povo tem área equivalente à da Bélgica”, e por aí vai…

Como funcionam as demarcações?
São quatro etapas: a identificação, feita por estudos científicos; a delimitação da área habitada pelos povos; a demarcação, que é feita inclusive com placas e sinais que informam que aquela área pertence a determinado povo; e, finalmente, a homologação, assinada pelo presidente. A partir daí, o povo tem todos os direitos garantidos. Se alguém invade e se estabelece, deve ser expulso. Mas as demarcações nunca ocorreram como deveriam. Já em 1972, foi estabelecido um prazo de cinco anos para demarcar todas as áreas. Até hoje isso não aconteceu. Nossa última Constituição, de 1988, nas disposições transitórias, prevê um prazo de mais cinco anos. Já se passaram 20. Essa situação é que abre espaço para invasões e conflitos. Não só os índios são prejudicados, mas o meio ambiente também. Os povos originários têm uma relação de preservação que o agronegócio não tem.

Como o senhor avalia o conflito na Raposa Serra do Sol?
Nesse caso, foram cumpridos todos os quatro passos: identificação, delimitação, demarcação e homologação. Esta última ocorreu há três anos. Os rizicultores que estão lá são invasores. O Estado, esgotada todas as possibilidades, deve usar a força coercitiva para retirá-los de lá. Se o Estado tiver assentado algum camponês, por engano, em terras indígenas, deve indenizar esse agricultor. Mas não é esse o caso de Raposa Serra do Sol. Lá, os arrozeiros querem se manter nas terras como proprietários. E o maior absurdo é que o Supremo Tribunal Federal se tornou “coresponsável”, como disse o próprio ministro da Justiça (Tarso Genro), da ilegalidade que se criou. Não posso conceber que seis rizicultores de grande porte se coloquem acima da Constituição.

Quando são os semterra ou povos indígenas que ocupam, as forças repressivas agem rapidamente e, não raro, de forma violenta…
Fico pensando que existem dois pesos e duas medidas. Se os índios tivessem entrado em uma área urbana, por exemplo, as forças reagiriam na hora. Quando o MST ocupa uma fazenda, é retirado à força. E agora o STF solta essa liminar suspendendo todo processo de regularização. Na minha opinião, é uma Justiça classista, que favorece aos ricos.

Como a ação do agronegócio e das transnacionais atinge a regularização de terras indígenas? O Governo Lula editou no fim de março uma medida provisória que legaliza a grilagem na Amazônia, por exemplo. Como isso afeta esse processo?
Essa MP é outro absurdo, vai ser um golpe fatal para a Amazônia. Prejudica a reforma agrária e o pequeno agricultor. Agora tudo é soja e etanol. Vemos que a proposta de desenvolvimento deles, a exemplo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), visa o desenvolvimento do capital, do agronegócio. Historicamente, pouco mudou: nunca se olha para o povo. Estou aqui no Pará, por exemplo. Tenho segurança ao afirmar que é o Estado mais rico em recursos naturais e em biodiversidade do país. Carajás tem tanto ferro que já se fala em uma anomalia geológica. Quantos vagões de ferro são levados diariamente para São Luís (MA) para exportação? E qual é a situação do povo daqui? Onde estão os investimentos em saúde, segurança e educação? O governo só visa a economia e esquece do social. O povo paraense deveria estar no centro, mas nem é lembrado.

O senhor é ameaçado de morte há anos, assim como outros bispos e lideranças no Pará. O que o senhor defende para a região?
Enquanto estou falando aqui, tem três seguranças na porta. Há muitas pessoas que não gostam de ouvir o que eu falei, pois há grandes fortunas em jogo. Quando você se coloca ao lado dos indígenas, colonos, sem-terra e outros setores marginalizados, você se coloca imediatamente contra quem tem poder econômico e político: madeireiros, grandes mineradoras, grileiros e grandes produtores. E aí eles mostram suas presas. Primeiro, é velado, mais uma vez que insistimos em nosso posicionamento, partem para a irracionalidade, ameaças. Porque ninguém pode vencer nossos argumentos. Qualquer pessoa em sã consciência nos apóia, pois colocamos o povo e a família no centro da atenção, e não o capital estrangeiro.

STF reforça ilegalidade na Raposa Serra do Sol

No início deste mês, o Supremo Tribunal Federal decidiu suspender a operação da Polícia Federal, batizada de Upatakon 3, que faria a retirada dos arrozeiros da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. O ministro da Justiça, Tarso Genro, criticou a decisão do STF e afi rmou que o Poder Judiciário se tornou “co-responsável” pela resolução do impasse. “Há mais de 30 anos, sofremos com um doloroso processo de reconquista das nossas terras, que acreditávamos seria concretizado pelo Estado Brasileiro”, manifestaram os povos indígenas em nota ofi cial, emitida no dia 9. A terra foi homologada pelo presidente Lula há três anos, mas os fazendeiros se recusam a sair do local.

“Brasil De Fato”

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Patriotismo versus cegueira

Nos dias que antecederam ao feriado da independência dos EUA, o candidato democrata, Barack Obama, falou sobre um tema caro aos norte-americanos: o patriotismo. Obama desabafou que tem sido acusado de anti-patriota e acusou a campanha do republicano John McCain de querer amedrontar os eleitores, usando uma “espada política tão antiga quanto a República.

Lis Paz Godinho

NOVA YORK - Quatro de julho é o dia em que melhor se pode perceber o orgulho que os estadonidenses têm de seu país. Durante todo o ano pode-se ouvir que “a América é um país livre”, como se apenas aqui houvesse real liberdade. Se perguntado sobre os valores desta nação, um cidadão americano certamente resumirá sua resposta à “liberdade”, e a filosofia que embasa o dia-a-dia de cada um: livre comércio, sexo livre, liberdade de culto. Até por ali!

Após a queda das torres gêmeas, o pânico tomou conta de grande parte da população e todos defendem a liberdade, desde que dentro dos moldes “judaico-cristãos”. Ser muçulmado, por exemplo, deveria ser sinônimo de honestidade e moral, mas hoje em dia significa uma possível ameaça (na mente dos sobrinhos do Tio Sam).

Nos dias que antecederam ao feriado da independência, o candidato à presidência pelo Partido Democrata, Barack Obama, pronunciou-se sobre patriotismo: “Está nas minhas entranhas”, declarou no dia 30 de junho na cidade de Independence, Missouri.

O discurso teve início com uma referência aos rebeldes que, apesar dos riscos, lutaram contra o Imperio Britânico no seculo XVIII e instauraram a democracia. Da revolução para a guerra dos dias atuais, e a afirmação de que as eleições de novembro definirão os rumos do país pelas próximas decadas.

Certamente, a grande resposta que virá das urnas será se a população apóia a permanência das tropas no Iraque ou não. Economia, preço dos combustíveis, crise no mercado imobiliário etc, serão discutidos durante a campanha; novas propostas, comparação de experiências, mas a maior diferençaa entre os dois candidatos e o posicionamento frente à guerra no Oriente Medio (a menos que Obama, após a visita que pretende fazer ao Iraque durante este verão, volte atras em sua promessa de retirar as tropas do território iraquiano em dezesseis meses).

Obama desabafou que tem sido acusado de anti-patriota, e defendeu-se dizendo que patriotismo lhe é instintivo, um sentimento tão natural desde a infância que nunca pensou em sair vangloriando-se de tal condição. “(Amor profundo ao país) é o motivo pelo qual estou concorrendo a presidência”.

Barack acusou a campanha do republicano John McCain de querer amedrontar os eleitores com relação ao democrata, usando-se de uma “espada política tão antiga quanto a República”, e declarou: “Não questionarei o patriotismo de ninguem durante esta campanha… E nao ficarei calado quando questionarem o meu”.

Michelle Obama, esposa do candidato, recentemente foi execrada na mídia por dizer que, pela primeira vez em sua vida adulta, estava realmente orgulhosa de seu país. Ao explicar o contexto da declaração no programa “The View” (veiculado pela ABC), Michelle ressaltou que tal orgulho vinha da participação da população de maneira mais engajada no processo eleitoral. Disse que tem muito orgulho de seu país por ser o único lugar no mundo onde foi possível que seu pai, um operário assalariado, tenha dado acesso ao Ensino Superior (Universidade de Princeton) a ela e seu irmão.

A apresentadora/ mediadora do programa, Whoopi Goldberg, frisou que Michelle estava “realmente” orgulhosa, e criticou a imprensa pela ausência de tal advérbio todas as vezes em que se reproduziu a frase.

Ainda em seu discurso pre 4 de julho, Barack Obama frisou que divergência não é sinonimo de anti-patriotismo. “É o que define quem somos como país, ou quem deveríamos ser”, e logo emendou que “nenhum partido tem o monopólio do patriotismo”.

Seu discurso teria sido de muito mais impacto, nao fosse a declaração do General Wesley Clark, consultor do Partido Democrata para assuntos de Seguranca Nacional, de que é necessario mais do que ter tido seu avião derrubado em combate para tornar-se presidente, em uma referência a McCain. Apesar de o proprio candidato republicano ter declarado que precisa ser educado em assuntos de economia, pois sua experiência é principalmente militar, a declaração foi encarada como um desrespeito à memória dos milhares de veteranos que não foram ao Vietnã a turismo, mas arriscaram (ou perderam) suas vidas “em nome da liberdade”.

“Carta Maior”

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SEMENTES DO PODER

Christina Palmeira

A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.

Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional.

O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.

Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.

A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa.

Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.

Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.

A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.

Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960).

Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.

Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.

Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.

Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.

Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.

Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.

A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”. Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.

Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.

Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.

Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).

De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.

Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados. Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.

A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.

Os cientistas, conta o livro, são freqüentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian revelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.

O livro e o documentário de Marie-Monique Robin são apresentados como a conclusão de uma “investigação magistral e alarmante” que revelaria um “projeto hegemônico a ameaçar a segurança alimentar no mundo e o equilíbrio do planeta”. Considero ser nossa responsabilidade alertar os leitores e espectadores sobre as alegações pouca fundamentadas da autora.

As linhas gerais do trabalho da jornalista podem ser sintetizadas da seguinte maneira: a) As biotecnologias são intrinsecamente perigosas. b) Os riscos não são avaliados como deveriam ser. c) Esta insuficiência é creditada à influência da Monsanto nas fases de avaliação.

Um dos exemplos dessa pressão seria a punição a Arpad Pusztai, por conta de seus alertas sobre os perigos dos organismos geneticamente modificados. Em 10 de agosto de 1998, Pusztai anunciou na televisão britânica que estava prestes a provar que as plantas transgênicas poderiam provocar efeitos inesperados.

Tratava-se de um tipo de batata experimental que não pertencia à Monsanto. Que o anúncio tenha provocado excitação na mídia é surpreendente porque, em passado recente, três variedades de batata convencional não puderam ser comercializadas por conta da presença de substâncias tóxicas, sem que isso tenha despertado a atenção da imprensa.

Além disso, se uma variedade de transgênico revela-se, durante o estudo, imprópria para consumo, ela não seria comercializada, sem que isso prejudicasse outros organismos modificados: as avaliações são feitas e devem ser feitas caso a caso.

Ao contrário do que diz o filme, o diretor do instituto de pesquisa não estava informado sobre os resultados do seu pesquisador. Mergulhado nos telefonemas da imprensa no dia seguinte à entrevista, incapaz de responder, ele faz uma investigação que lhe sugere que nenhum dado confiável encontrava-se nas mãos de Pusztai. O pesquisador, aliás, nunca publicou em um jornal científico suas afirmações midiáticas.

Este é só um ponto a ser questionado. Em resumo, o filme apresenta cenas e eventos dramáticos, realiza uma seleção parcial da informação e designa um culpado: os transgênicos. Está recheado de alegações pseudocientíficas. A jornalista, sem instrumentos para fazer a triagem entre o verdadeiro e o falso no plano científico, mostra-se permeável apenas aos argumentos contrários aos organismos geneticamente modificados e expõe aos telespectadores a imagem de um mundo binário, com bons e maus.

Texto extraído de artigo publicado no site da Associação Francesa de Informação Científica (original)

Segundo biólogo, pesticida Roundup provoca abortos e nascimentos prematuros
Gilles-Éric Séralini, professor de biologia molecular da Universidade de Caen, fala dos efeitos dos pesticidas e dos transgênicos. E diz ter sido pressionado a não continuar com os estudos sobre os produtos da Monsanto.

CartaCapital: O senhor realizou uma série de estudos para avaliar o impacto do Roundup na saúde. Por que o senhor decidiu estudar o produto da Monsanto?
Gilles-Éric Séralini: Meu trabalho é sobre os efeitos dos pesticidas na saúde e entre os pesticidas, o Roundup é o mais utilizado no mundo. Seus resíduos (ou os produtos concorrentes que lhe copiam) transformaram-se nos principais poluidores das águas dos rios e da superfície. Além disso, ele entra na composição da maioria das sementes transgênicas, como a da soja, e isso o transforma em um poluente alimentar corrente.

CC: Quais as principais conclusões de suas pesquisas com o Roundup?
GES: Casais de agricultores que utilizaram o produto na América do Norte apresentaram problemas de abortos naturais ou de nascimento de prematuros. Então, testamos o Roundup com diluições infinitesimais (de 100 mil vezes do produto vendido no comércio) sobre as células da placenta humana, embriões humanos e de células do cordão umbilical do recém-nascido. Em todos os casos, aparecem efeitos tóxicos em dois ou três dias. Em períodos mais curtos, a formação dos hormônios sexuais úteis para a formação do bebê foi reduzida.

CC: Quais os principais riscos do Roundup?
GES: Acredito que ele pode, talvez, ser um perturbador hormonal, mesmo que isso ainda não esteja totalmente provado no indivíduo adulto. E é muito mais tóxico do que imaginávamos.

CC: O senhor enfrentou problemas durante suas pesquisas?
GES: As pesquisas estavam inscritas no programa do Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica(Inra), agora não estão mais. A Monsanto diz que não contesta as nossas publicações (que estão em revistas científicas de alto nível), mas a interpretação.

CC: No livro, Marie-Monique Robin revela que nenhum dos seus alunos quis aparecer ao seu lado durante as filmagens. É verdade?
GES: Meus estudantes são orgulhosos de trabalhar ao meu lado. Mas se expor na mídia no momento em que eles ainda não têm um cargo definitivo lhes parecia arriscado. Principalmente por se tratar de assunto controverso, que incomoda os poderes públicos, os organismos de pesquisa. Muitos pesquisadores têm medo da polêmica em torno desses assuntos e se protegem. (original)

“Fazendo Media”

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A infância de um chefe

Em “O Jovem Stálin”, que sai nesta semana, Simon Montefiore mostra os anos de formação do futuro líder soviético, marcados pelo domínio do grego clássico e o interesse por história e literatura

RUY FAUSTO

Simon Sebag Montefiore que, com “A Corte do Czar Vermelho” [Cia. das Letras], espécie de análise histórico-etnológica de Stálin, havia provocado uma pequena revolução na “stalinologia” e, em certa medida, na sovietologia em geral, lança agora este “Jovem Stálin”, que se ocupa da vida do “pai dos povos” até a sua participação no primeiro governo bolchevique, em novembro de 1917.
Como o livro anterior, este é o resultado de um longo trabalho: quase dez anos de investigação em 23 cidades e nove países, incluindo pesquisas em arquivos recém-abertos em Moscou e nas cidades georgianas de Tbilisi e Batumi, além da utilização de memórias, em boa parte inéditas, de contemporâneos mais ou menos obscuros.
A primeira reação diante de tal tipo de trabalho é de ceticismo. Esse mergulho na vida do tirano poderia levar a resultados históricos de alguma relevância? Na realidade, o livro é importante.
Sem dúvida, pode-se dizer que ele não inova propriamente, “apenas” radicaliza o que já fora revelado pelo livro anterior e por textos de outros autores. Só que essa radicalização vai longe. Há nele três elementos, de interesse crescente.
Em primeiro lugar, para além do que já se sabia por meio de “A Corte do Czar Vermelho”, o leitor descobre um Stálin com qualidades intelectuais-artísticas bem superiores às que poderia sugerir o retrato que dele faz Trótski.
O jovem Stálin não só canta bem e é um grande leitor, principalmente de literatura e história, mas é um poeta georgiano de qualidade apreciável (os poemas em tradução, que o volume traz, parecem confirmar esse julgamento).
O Stálin poeta foi incluído em antologias da poesia georgiana do início do século e, segundo Montefiore, ele é um “clássico georgiano menor”. O futuro “pai dos povos” “foi admirado na Geórgia como poeta antes de ser conhecido como revolucionário”.
Montefiore diz também, “en passant”, que Stálin lia Platão no original grego (língua que deve ter aprendido no seminário). Ele não foi um indivíduo inculto; mesmo o epíteto de semiculto talvez seja insuficiente. Stálin foi um intelectual de estilo provinciano (não conseguiu dominar as línguas modernas fora o russo, tinha gostos muito convencionais em arte etc.).
Porém, se Stálin foi mais intelectual do que se supunha, ele também foi mais bandido… Suas atividades de “expropriador” são conhecidas, principalmente o famoso ataque às “carruagens pagadoras” do Banco do Estado em Tiflis, em junho de 1907, fato noticiado com destaque pela imprensa mundial da época.
O assalto de Tiflis, planejado por Stálin, mas do qual ele provavelmente não participou de forma direta, foi executada por um grupo de homens e mulheres dirigido por Kamo, um bandido sanguinário e psicopata, totalmente fiel a Stálin. Segundo os arquivos da polícia secreta czarista, nele morreram mais ou menos 40 pessoas.
Stálin se comportava como um verdadeiro chefe de bando, mesmo se só guardasse para si a glória e o poder (que sempre foram seus maiores objetivos): o dinheiro ia para os cofres da organização bolchevista.
Stálin planejou e dirigiu outras ações violentas, incluindo talvez um ato de pirataria contra um navio no mar Negro, arrancou dinheiro de comerciantes e industriais, sob ameaça de morte ou de incêndio de propriedades, e mandou matar espiões (segundo alguns, liqüidou também gente que simplesmente não lhe inspirava confiança). Assim, nas palavras do autor, “Stálin era uma rara combinação: ao mesmo tempo intelectual e assassino”.
É por causa dessa dupla condição -esse é o ponto importante- que ele caiu nas boas graças de Lênin. Também aqui os fatos, em grande parte pelo menos, já eram conhecidos, mas Montefiore mostra bem o quanto Lênin apreciava Stálin, e como iria promover sua ascensão na hierarquia, depois da cisão formal do partido bolchevique (1912).
“Esse é exatamente o tipo de pessoa de que necessitamos”, diz Lênin sobre Stálin, nos anos 1910, respondendo às objeções de um menchevique. Numa carta a Gorki -esta bem conhecida-, Lênin se refere a Stálin como o seu “maravilhoso georgiano”. Às vésperas do quinto Congresso da Social-Democracia russa, em Londres, em abril-maio de 1907, Lênin encontra Stálin em Berlim.
Lá, eles conversam sobre a iminente operação de Tiflis (!) e sobre os meios para remeter o dinheiro. No congresso, onde, por proposta dos mencheviques, as expropriações são proibidas pelo partido, sob pena de expulsão, Lênin afirma não conhecer Stálin.
Em 1912, junto com Zinoviev, Lênin propõe que Stálin seja cooptado para o Comitê Central bolchevique. E, em 1922, assegura, com Kamenev, a nomeação de Stálin como secretário-geral do Comitê Central.
Se as coisas se passaram assim, é preciso concluir -não, como pretende o autor, que o stalinismo é simples continuação do leninismo: as diferenças entre os dois não desaparecem apesar de tudo isso- que o leninismo “preparou a cama” para o stalinismo.

Meios e fins
Lênin sempre deixou claro que não tinha maiores problemas com o uso dos meios, desde que os objetivos fossem revolucionários. E, assim, não hesitou em apelar para o banditismo como força auxiliar. E, até mais do que isso, a serviço do grupo e, depois, do partido bolchevique.
Quando se tenta idealizar “o último combate de Lênin” -a ruptura com Stálin, em 1923, e a tentativa de afastá-lo da Secretaria Geral-, é impossível não comentar: pois fora ele mesmo, Lênin, que introduzira o lobo (não propriamente entre “cordeiros”, mas…).
A refletir. Quando jovem, Fidel Castro foi uma espécie de gângster, e a última biografia de Mao Tse-tung revela um personagem que tem muito a ver com o banditismo. Que o stalinismo tenha certa afinidade com o gangsterismo não é muito surpreendente nem representa, a rigor, uma informação nova, nos dias de hoje.
Mas o que, sim, deveria ser matéria de reflexão é o uso que o leninismo fez das práticas do gangsterismo. Essa atitude não foi acidental. Ela estava enraizada nessa mistura de neojacobinismo, neonarodnikismo e fria racionalidade capitalista, que é o leninismo. Os resultados, conhecemos.
Infelizmente, como os stalinistas outrora, os nossos neoleninistas preferem não enxergar o que é desagradável. A confusão teórica é o preço dessa política de avestruz.

RUY FAUSTO é filósofo, professor emérito da USP e lecionou na Universidade de Paris 8. É autor de “Marx - Lógica e Política” (ed. 34).

“Folha de S. Paulo”

Comentários (1)

Para aquele que vive nas trevas

Mark Twain [*]

William McKinley, candidato republicano às eleições presidenciais de 1900, baseou grande parte de sua plataforma na idéia da responsabilidade dos Estados Unidos pelos territórios então tomados à Espanha. Alegando a necessidade da defesa desses novos territórios, McKinley alertava para a urgência de se acabar com as insurreições armadas nesses locais e, assim, conferir as “bênçãos” da civilização aos povos libertados.

Twain tratou do assunto neste que é um de seus mais importantes e controvertidos ensaios sobre o imperialismo. Ironizando a idéia da civilização como “bênção” oferecida aos que “vivem na escuridão”, ele trata de questões diversas relacionadas ao tema do antiimperialismo: as agressões cometidas na cidade de Nova York sob os auspícios do chefe político de Tammany Hall, Richard Croker, as indenizações cobradas pelos missionários mortos logo após a Rebelião dos Boxers, a política repressora designada como “luva de aço” aplicada pelo kaiser alemão contra a China e as atrocidades cometidas pelos ingleses na África do Sul e pelo Exército dos Estados Unidos nas Filipinas.

A crítica dirigida por ele aos missionários era constante e cerrada; apesar disso, a estratégia dos missionários de responder apenas aos comentários que lhes diziam respeito contribuiu para que questões como a Guerra das Filipinas e as atividades missionárias na China fossem tratadas como aspectos totalmente diferenciados, o que evidentemente dificultava a percepção crítica do processo imperialista nelas implícito.

Para Twain tratava-se de problemas análogos. No artigo intitulado “A causa do reverendo doutor Ament, missionário”, de 1901, ele afirma não haver diferença entre o missionário, que impõe multas 13 vezes superiores ao preço de uma propriedade danificada pelos boxers, e McKinley, autor de um projeto de “Assimilação benevolente dos filipinos”.

Aqui, como em muitos outros de seus escritos antiimperialistas, a mordacidade e a veia satírica de Twain são responsáveis pela extraordinária eficácia crítica do documento.

A CAUSA DO REVERENDO DOUTOR AMENT
Nos Estados Unidos, o Natal vai descer sobre um povo alegre, cheio de esperanças e sonhos. Uma condição que significa satisfação e felicidade. Um ou outro queixoso rabugento talvez encontre uns poucos ouvintes. A maioria vai se perguntar se ele está doente e passar adiante. – New York Tribune, sobre o Natal.

De The Sun, de Nova York

Este artigo não pretende descrever as terríveis agressões contra a humanidade cometidas em nome da política em alguns dos distritos mais mal-afamados do East Side. Seria impossível descrevê-las, não há palavras. Mas ele pretende dar à massa de cidadãos mais ou menos despreocupados desta bela metrópole de Nova York uma concepção do caos e da ruína impostos a todo homem, toda mulher e toda criança na mais densamente populosa e menos conhecida das áreas da cidade. Nome, data e local serão fornecidos aos que têm um pouco de fé – ou a qualquer um que se sinta agredido. É simplesmente uma declaração do que foi visto e observado, escrita com total liberdade e sem adornos.

Tente imaginar, se conseguir, uma área da cidade completamente dominada por um homem, sem cuja permissão não se fazem negócios legítimos nem ilegítimos; onde se incentiva a atividade ilícita e se desencoraja a lícita; onde residentes respeitáveis se trancam à noite atrás de portas e janelas em quartos abafados, num calor de 40ºC, deixando de sair para o lugar onde se pode respirar naturalmente, a varanda; onde mulheres nuas dançam à noite nas ruas e homens carentes de sexo cortam a noite como abutres, em “negócios” que não são apenas tolerados, mas até incentivados pela polícia; onde a educação das crianças se inicia pelo conhecimento da prostituição e as meninas são treinadas apenas nas artes de Frinéia [3] ; para onde se importam meninas educadas com o refinamento do lar americano em pequenas cidades do norte do estado, de Massachusetts, Connecticut e de Nova Jersey, que são mantidas prisioneiras, quase como se trancadas atrás das grades até perderem toda a aparência de mulheres; onde os meninos aprendem a agenciar clientes para as mulheres das casas de má fama; onde existe uma sociedade organizada de homens jovens cujo único fim é corromper moças e oferecê-las aos prostíbulos; onde homens que passam com as esposas pelas ruas são abertamente insultados; onde crianças contraem doenças de adultos e são os principais clientes dos hospitais e dispensários; onde a regra, e não a exceção, é não se punir o assassinato, o estupro, o assalto e o roubo – em resumo, onde o prêmio das formas mais terríveis de vício é o lucro dos políticos.

A notícia que se segue vem da China e foi publicada no The Sun de Nova York, no último dia de Natal. Os itálicos são meus:

O reverendo Sr. Ament, da Câmara Americana de Missões no Estrangeiro, acaba de retornar de uma viagem que fez com o fim de cobrar indenizações por danos provocados pelos boxers. Em todos os lugares por onde passou, os chineses foram obrigados a pagar. Segundo ele, todos os nativos cristãos das missões já estão bem providos. Havia 700 sob seus cuidados, mas 300 foram mortos. Cobrou 300 taels por cada um dos assassinados, mais o pagamento de indenizações por toda a propriedade pertencente a cristãos que foi destruída. E multas que chegaram a 13 VEZES o valor a ser indenizado. Esse dinheiro vai ser usado para a propagação da Palavra de Deus.

O Sr. Ament declara que as indenizações que cobrou são moderadas, se comparadas com o valor recebido pelos católicos, que exigem, além do dinheiro, cabeça por cabeça. Cobram 500 taels por cada católico assassinado. Na região de Wenchiu, 680 católicos foram mortos, e por eles os católicos europeus cobraram 750 mil colares de cobre [4] e 680 cabeças. Durante a conversa, o Sr. Ament se referiu à atitude dos missionários em relação aos chineses. Disse ele:

“Nego enfaticamente que os missionários sejam vingativos, que eles tenham em geral feito saques, ou que desde o cerco eles tenham feito qualquer coisa que as circunstâncias não tenham determinado. Eu critico os americanos. A luva de pelica dos americanos não é tão boa quanto a luva de aço dos alemães. Trate os chineses com luvas de pelica e eles se aproveitam”.

A declaração de que os franceses vão devolver o que foi saqueado pelos soldados franceses provocou muito riso por aqui. Os soldados franceses foram saqueadores mais sistemáticos que os alemães, e a verdade é que mesmo hoje cristãos católicos portando bandeiras francesas e armas modernas estão saqueando aldeias na província de Chili.

Por sorte, notícias tão alvissareiras nos chegam na véspera do Natal – bem em tempo para que possamos comemorar o dia com alegria e entusiasmo adequados. Nossos espíritos se elevam e inventamos novas brincadeiras: taels ganho eu, cabeça você perde [5] .

O nosso querido reverendo Ament é o homem certo no lugar certo. O que esperamos de nossos missionários no estrangeiro não é apenas representar por seus atos e pessoas a graça, a bondade, a caridade e o amor de nossa religião, mas que também representem o espírito americano. Os mais antigos americanos são os pawnees . A História de Macallum nos informa que:

Quando um boxer branco mata um pawnee e destrói sua propriedade, os outros pawnees não se preocupam em caçar aquele, matam qualquer branco que aparecer; também fazem que alguma aldeia branca pague aos herdeiros do pawnee o valor integral do falecido, mais o valor integral da propriedade destruída; e fazem a aldeia pagar, além de tudo isso, 13 vezes [6] o valor da propriedade para constituir um fundo para disseminação da religião pawnee, considerada por eles a melhor de todas para enternecer e humanizar o coração do homem. Consideram também que é verdadeiramente digno e justo que os inocentes paguem pelos culpados, e que é preferível fazer noventa e nove sofrerem a deixar um único culpado sem castigo.

É explicável a inveja do Sr. Ament em relação a católicos tão empreendedores, que não apenas ganham muito dinheiro por convertido que perdem, mas que, além disso, recebem “cabeça por cabeça”. Mas ele deveria se consolar pensando que tudo o que eles coletam se destina aos seus próprios bolsos, ao passo que ele, desprendido, separa míseros 300 taels para tal fim e destina a totalidade das 13 repetições da indenização por perdas de propriedade ao serviço de propagação da Palavra de Deus. Sua magnanimidade conquistou-lhe a aprovação de toda esta nação e há de lhe assegurar a ereção de um monumento. Que ele se satisfaça com tais recompensas. Todos nós o respeitamos por defender corajosamente os colegas missionários dessas acusações exageradas que já começavam a nos inquietar, mas que seu testemunho tanto modificou que já somos capazes de enfrentá-las sem sofrimento. Por ora, sabemos que, mesmo antes do cerco, os missionários não se dedicavam de modo geral aos saques e que, desde o cerco, eles agiram com toda lisura, exceto quando foram pressionados pelas circunstâncias. Proponho-me a organizar a construção do monumento. As contribuições podem ser enviadas para a Câmara Americana; os desenhos devem ser enviados a mim. Os projetos devem enfatizar as 13 reduplicações da indenização e o objeto que justificou sua cobrança; como ornamento, os projetos devem exibir 680 cabeças, dispostas de forma a dar um efeito agradável e belo; quanto aos católicos, sua grande realização merece menção no movimento. Aceito sugestões de lemas, se houver algum que seja pertinente.

O feito financeiro de extorquir de camponeses miseráveis uma indenização multiplicada por 13 para expiar as culpas de outros, condenando-os assim, e às suas mulheres e aos seus filhos inocentes, à certeza da fome e de uma morte lenta a fim de que o dinheiro arrecadado pudesse ser “usado para a propagação da Palavra de Deus”, não perturba minha serenidade, embora o ato e as palavras, em conjunto, concretizem uma blasfêmia tão horrível e colossal que, não tenho dúvidas, jamais se encontrará igual na história desta ou de qualquer outra era. Ainda assim, se algum leigo tivesse realizado o mesmo feito e o justificado com as mesmas palavras, sei que teria tido calafrios. O que também teria ocorrido se eu tivesse realizado o feito e pronunciado eu mesmo as palavras, apesar de o pensamento ser impensável, por mais que pessoas desinformadas me considerem irreverente. Às vezes um pastor ordenado se torna blasfemo. Quando tal acontece, o leigo deixa de competir; não tem a menor chance.

Temos ainda a garantia emocionada do Sr. Ament de que os missionários não são “vingativos”. Vamos esperar e orar para que nunca o sejam, mas guardem a mesma índole quase morbidamente justa e tranqüila que hoje dá tanta satisfação a seu irmão e defensor.

O trecho que se segue é da edição do New York Tribune da véspera do Natal. Foi escrito pelo correspondente do jornal em Tóquio. Soa estranho e impudente, mas os japoneses ainda são apenas parcialmente civilizados. Quando se tornarem completamente civilizados, não falarão como falam hoje:

A questão missionária ocupa, evidentemente, lugar de destaque nessa discussão. Entende-se hoje que é essencial que as potências ocidentais reconheçam o sentimento de que invasões religiosas de países orientais por poderosas organizações ocidentais equivalem a expedições de pirataria, que não merecem apenas condenação, mas que exigem medidas enérgicas para serem suprimidas. O sentimento predominante aqui é o de que as organizações missionárias constituem uma ameaça constante às relações internacionais pacíficas.

Devemos? Ou melhor, devemos continuar a impor nossa civilização aos povos que vivem na escuridão, ou devemos dar um descanso a esses infelizes? Vamos continuar a avançar, no nosso passo antigo, piedoso e ruidoso, e comprometer o novo século com o mesmo jogo, ou vamos antes nos recompor, sentar e repensar? Não seria prudente reunir nossos instrumentos civilizadores e avaliar o estoque que ainda temos, coisas como contas de vidro, teologia, metralhadoras Maxim, hinários, gim e tochas de progresso e luz (ajustáveis, ótimas para incendiar aldeias sem necessidade de preparação), fechar os livros, calcular lucro ou prejuízo para poder decidir racionalmente entre continuar no negócio ou vender os ativos e usar o resultado dessa venda para fundar um novo sistema civilizador?

Levar as bênçãos da civilização ao nosso irmão que vive na escuridão já foi um bom negócio e rendia bons lucros; ainda hoje é possível ganhar dinheiro, desde que se trabalhe bem – mas não o suficiente, a meu ver, para justificar maiores riscos. Os povos que vivem na escuridão estão ficando raros – raros e retraídos. E a escuridão que ainda existe não é realmente de boa qualidade, pouco escura para essa atividade. Em sua maioria aqueles que vivem nas trevas já receberam mais luz do que precisam e do que é lucrativo para nós. Fomos injudiciosos.

A Companhia Bênçãos da Civilização, desde que administrada com inteligência e cuidado, é uma bênção. É possível obter ganhos, expressos em dinheiro, territórios, soberania e outros tipos de emolumentos, superiores aos oferecidos por qualquer outro jogo. Mas, na minha opinião, a cristandade não tem jogado bem ultimamente, e com certeza passará a ter prejuízo com ele. Repica com tanta ânsia toda aposta sobre a mesa que aqueles que vivem nas trevas já estão notando; notam e começam a se alarmar. Têm dúvidas quanto às bênçãos da civilização. Mais que isso, passaram a examiná-las cuidadosamente. E isso não é bom. Bênçãos da Civilização é uma boa marca, uma boa propriedade comercial; sob luz mortiça, talvez não haja outra tão boa. Sob a luz correta, e a uma distância adequada, com o produto ligeiramente fora de foco, ela oferece àqueles que vivem nas trevas esta imagem desejável:

AMOR, ORDEM E DIREITO,
JUSTIÇA, LIBERDADE,
BONDADE, IGUALDADE,
CRISTIANISMO, VIDA COM HONRA,
PROTEÇÃO PARA OS FRACOS, CARIDADE,
TEMPERANÇA, EDUCAÇÃO,
e muitas outras.

E este produto é bom? Meu amigo, é uma maravilha. Há de trazer para a luz qualquer idiota na escuridão em qualquer lugar do mundo. Mas não se o adulterarmos. É preciso enfatizar essa questão. Esta marca destina-se exclusivamente à exportação – aparentemente. Aparentemente. Aqui entre nós, em confiança, não é nada disso. Aqui entre nós e em confiança, isso não passa de uma cobertura, alegre, bonita e atraente, que expõe os padrões especiais de nossa civilização que reservamos para consumo doméstico, ao passo que oferecemos realmente o que há no interior do fardo, e que o cliente que vive na escuridão compra com seu próprio sangue. O que há dentro do fardo [7] é realmente civilização, mas apenas para exportação. Existe alguma diferença entre as duas? Em alguns detalhes, certamente há.

Sabemos todos que este negócio está sendo arruinado. Não é tão difícil perceber as razões. Tudo porque o Sr. McKinley, o Sr. Chamberlain [8] , o kaiser e o czar começaram a exportar o que há no interior do fardo, sem a embalagem. E isso perturba o jogo. Mostra que estes novos jogadores não o dominam suficientemente bem.

É triste observar e ver os movimentos errados, tão estranhos e desajeitados. O Sr. Chamberlain fabrica uma guerra usando materiais tão inadequados que os camarotes sofrem e a platéia ri, e ele tenta se convencer de que não se trata meramente de uma excursão à caça de dinheiro, mas de algo dotado de uma espécie de respeitabilidade obscura e vaga que ele não consegue perceber, e de que mais tarde ele será capaz de limpar outra vez a bandeira, quando tiver acabado de arrastá-la na lama, capaz de fazer que ela volte a brilhar na abóbada do céu, como brilhou ao longo de mil anos no respeito do mundo, até ele lançar sobre ela sua mão infiel. Isso é jogar mal, muito mal. Pois se expõe o que se esconde no interior da embalagem aos que vivem na escuridão, e eles dizem: “O quê! Cristão contra cristão? E só por dinheiro? Será isso um exemplo de paciência, amor, magnanimidade, bondade, caridade, proteção dos fracos – esse ataque estranho e exagerado de um elefante a um ninho de ratos do campo, sob o pretexto de que os ratinhos o insultaram – uma conduta que ‘nenhum governo digno de respeito deixaria passar sem punição’, como disse o Sr. Chamberlain? Seria o caso de um bom pretexto para uma causa sem importância, sem ser um bom pretexto para uma grande causa? – pois recentemente a Rússia afrontou o elefante três vezes e sobreviveu sem ferimentos. Será isso a civilização e o progresso? Isso será melhor do que o que já temos? Toda essa destruição, incêndios, desertos criados no Transvaal9 – seria um aperfeiçoamento de nossa escuridão? Seria possível haver dois tipos de civilização, um para consumo doméstico e outro para o mercado pagão?”.

Então aquele que vive nas trevas fica em dúvida, balança a cabeça e lê esse trecho da carta de um soldado britânico, em que ele conta suas aventuras em uma das vitórias de Methuen, alguns dias antes da derrota em Magersfontein , e fica mais uma vez em dúvida:

Avançamos colina acima e invadimos as trincheiras, e os bôeres viram que estavam perdidos; então eles largaram as armas, caíram de joelhos, levantaram as mãos e pediram clemência. E clemência nós demos a eles. Com as colheres longas.

A colher longa é a baioneta. Vejam o último Lloyd’s Weekly, de Londres. A mesma edição – e a mesma coluna – trazia uma sátira inconseqüente sob a forma de censuras amargas e chocadas aos bôeres por suas brutalidades e desumanidades!

Em seguida, para prejuízo nosso, o kaiser começou a praticar o jogo antes de dominá-lo. Perdeu alguns missionários numa agitação de rua em Shantung, e para acertar as contas apresentou uma cobrança absurda por eles. A China teve de pagar 100 mil dólares por cabeça, em dinheiro; 19,3 quilômetros de território, com milhões de habitantes e que valem 20 milhões de dólares; a construção de um monumento e de uma igreja cristã, embora o povo da China com certeza fosse se lembrar desses missionários sem precisar desses memoriais dispendiosos. Está tudo errado. Errado, pois aquele que vive nas trevas jamais se deixará enganar. Ele sabe que foi uma cobrança excessiva. Sabe que um missionário é como qualquer outro homem: vale apenas o custo de um substituto, nada mais. É útil, mas um médico também é útil, um delegado, um editor; mas um imperador justo não cobra indenizações de guerra por eles. Um missionário inteligente, diligente, mas obscuro, assim como um editor inteligente, diligente, mas obscuro, valem muito, todos o sabemos; mas não valem a terra. Estimamos o editor, lamentamos sua perda; mas quando ele morre devemos considerar excessiva uma compensação por sua perda composta de 19,3 quilômetros de território, uma igreja e uma fortuna. Quero dizer, ainda que se tratasse de um editor e tivéssemos que pagar indenização por ele. Não é um valor condizente com um editor ou um missionário; pode-se comprar reis por menos. O kaiser fez uma jogada errada. É verdade que ele ganhou; mas também produziu a revolta dos chineses, a rebelião indignada dos patriotas traídos da China, os boxers. Os resultados foram caros para a Alemanha e para outros disseminadores do progresso e das bênçãos da civilização.

A aposta do kaiser foi paga, mas mesmo assim foi uma jogada errada, pois terá certamente efeito danoso sobre aqueles que vivem nas trevas na China. Eles hão de ponderar o que aconteceu e provavelmente irão dizer: “A civilização é bela e graciosa, pois essa é a sua reputação; mas estará ao nosso alcance? Existem chineses ricos, talvez eles tenham condições; mas essa cobrança não foi apresentada a eles, foi apresentada aos camponeses de Shantung; só eles terão de pagar essa quantia enorme, e eles ganham meros quatro centavos por dia. Será essa civilização melhor que a nossa, mais santa, elevada e nobre? Ou isso seria rapacidade? Quem sabe extorsão? A Alemanha teria cobrado 200 mil dólares aos Estados Unidos por dois missionários, teria brandido a luva de aço na sua cara, enviado navios de guerra e soldados com a ordem: ‘Tomem 19,3 quilômetros de território, no valor de 20 milhões de dólares, como pagamento adicional pelos dois missionários e mandem aqueles camponeses construir um monumento aos missionários e uma custosa igreja cristã para que eles não sejam esquecidos’? E depois a Alemanha teria ordenado aos seus soldados: ‘Marchem através da América e matem, sem perdão; façam lá da máscara alemã o que representa aqui a máscara do huno, um terror de mil anos; marchem através da grande república e matem, rasgando para passagem de nossa religião ofendida uma estrada que lhe corte o coração e as vísceras’? A Alemanha teria feito a mesma coisa com Estados Unidos, Inglaterra, França ou Rússia? Ou somente com a China, a indefesa – repetindo o ataque do elefante contra os ratinhos do campo? Devemos investir nessa civilização – uma civilização que considerou Napoleão um pirata por ter roubado os cavalos de bronze de Veneza, mas que rouba de nossas paredes os antigos instrumentos astronômicos e pilha como bandidos comuns, ou seja, todos os soldados estrangeiros, com exceção dos da América; e que assalta aldeias aterrorizadas e comunica todo dia o resultado para os jornais felizes da pátria: ‘Perdas chinesas, 450 mortos; nossas, um oficial e dois homens feridos. Avançaremos amanhã sobre a próxima aldeia, de onde comunicaremos um massacre ‘. Temos recursos para investir em tal civilização?”.

Depois foi a vez de a Rússia entrar no jogo e jogar insensatamente. Afronta a Inglaterra uma ou duas vezes – observada por aquele que vive nas trevas; com a assistência moral da França e da Alemanha, ela rouba do Japão uma presa de guerra duramente conquistada, encharcada no sangue chinês – Port Arthur –, mais uma vez observada por aquele; então ela toma a Manchúria, ataca suas aldeias e afoga o grande rio com cadáveres inchados de incontáveis camponeses massacrados – ainda observada por aquele assustado. E talvez ele diga para si mesmo: “É mais uma potência civilizada, trazendo numa das mãos a bandeira do Príncipe da Paz e na outra a cesta de pilhagem e uma faca de açougueiro. Existirá outra salvação para nós ou teremos de adotar a civilização e descer até o seu nível?”. Em seguida vêm os Estados Unidos, e o nosso Mestre do Jogo joga mal, como jogou o Sr. Chamberlain na África do Sul. Foi um erro; mais que isso, foi um erro inesperado de um mestre que vinha jogando tão bem em Cuba. Em Cuba ele estava praticando o jogo americano normal e estava ganhando, pois não havia como derrotá-lo. O mestre olhou para Cuba e disse: “Eis uma nação oprimida e sem amigos, disposta a lutar para conquistar a liberdade; vamos nos associar a ela e colocar a força de 70 milhões de simpatizantes e os recursos dos Estados Unidos: jogue!”. Ninguém além da Europa combinada teria condições de repicar, e a Europa não se combina em torno de nada. Em Cuba ele estava seguindo nossas grandes tradições de uma forma que nos enchia de orgulho, dele e da profunda insatisfação que sua jogada provocou na Europa continental. Movido por uma grandiosa inspiração, ele gritou aquelas palavras emocionadas que declaravam ser a anexação forçada uma “agressão criminosa” e, ao dizer isso, “disparou mais um tiro ouvido por todo o mundo”. A lembrança daquela declaração magnífica não será superada por nenhuma outra lembrança de ato seu, a não ser pelo fato de, passados meros 12 meses, ele tê-la esquecido e à promessa solene que a acompanhou.

Pois, logo em seguida, veio a tentação filipina. Era forte; forte demais, e ele cometeu um erro grave: começou a jogar o jogo europeu, o jogo de Chamberlain. Foi uma tristeza; aquele erro foi uma tristeza muito grande; aquele erro terrível, irremediável. Pois aqueles eram a hora e o lugar de jogar mais uma vez o jogo americano. E sem custos: grandes ganhos, ricos e permanentes; indestrutíveis; uma fortuna a ser transmitida para sempre aos filhos da bandeira. Não a terra, não o dinheiro, não a dominação; não, algo que valia muitas vezes mais que essa escória: nossa participação, o espetáculo de uma nação de escravos havia muito perseguidos e atormentados que se libertaria por nossa influência; a cota da nossa posteridade, a lembrança daquele belo feito. O jogo era nosso. Se tivesse sido jogado de acordo com as regras americanas, Dewey [10] teria zarpado de Manila logo depois de derrotar a esquadra espanhola, depois de fincar na praia um sinal de garantia de toda propriedade e toda vida estrangeiras contra agressão pelos filipinos, e um aviso às potências que qualquer interferência com os patriotas emancipados seria considerada um ato hostil aos Estados Unidos. As potências são incapazes de se combinar, nem mesmo em torno de uma causa que não seja boa, e o sinal teria sido respeitado.

Dewey teria ido tratar de outros problemas, deixando ao competente exército filipino a tarefa de liquidar por inanição a pequena guarnição espanhola e mandá-la de volta para casa, e os cidadãos filipinos criariam a forma de governo que preferissem, tratariam os frades e suas aquisições duvidosas de acordo com as idéias filipinas de eqüidade e justiça – idéias que já foram testadas e consideradas de ordem igual às das que predominam na Europa e na América.

Mas jogamos o jogo de Chamberlain, e perdemos a oportunidade de acrescentar outra Cuba e outro feito de honra à nossa história.

Quanto mais estudamos esse erro, mais percebemos suas más conseqüências para os negócios. Aquele que vive nas trevas com certeza há de dizer: “Aqui há algo curioso e inexplicável. Só pode ter havido duas Américas: uma que liberta os cativos e outra que toma dos cativos recém-libertados a sua liberdade, briga com eles sem qualquer razão aparente e depois os mata para lhes tomar a terra”.

Na verdade, aquele que vive nas trevas está realmente dizendo coisas semelhantes; em nome dos negócios, temos de convencê-lo a olhar de maneira mais saudável a questão filipina. Precisamos organizar suas idéias. Acho que isso é possível; pois o Sr. Chamberlain organizou as idéias inglesas sobre a questão sul-africana de uma maneira muito inteligente e bem-sucedida. Apresentou os fatos – alguns deles – e mostrou àquele povo confiante o que significavam. Isso foi feito estatisticamente, a melhor forma de fazê-lo. Ele usou a fórmula “2 X 2 = 14 e 9 – 2 = 35″. Os números não falham; os números convencem os eleitos.

Mas o meu plano é ainda mais ousado que o do Sr. Chamberlain, apesar de parecer uma cópia do dele. Vamos ser mais francos que o Sr. Chamberlain; vamos apresentar todos os fatos, sem ocultar nenhum, e depois os explicamos de acordo com a fórmula do Sr. Chamberlain. Essa sinceridade corajosa há de perturbar aquele que vive nas trevas, e ele vai aceitar a explicação antes que sua visão mental tenha tido tempo de entendê-la. Eis o que lhe diremos:

“Nossa explicação é simples. No dia 1º de maio, Dewey destruiu a frota espanhola. Isto deixou o arquipélago nas mãos de seus proprietários legítimos, a nação filipina. Tinham um exército de 30 mil homens e conseguiriam liquidar a pequena guarnição espanhola, então o povo organizaria um governo criado por ele próprio. Nossas tradições determinavam que Dewey fincasse um sinal de aviso e partisse. Mas o Mestre do Jogo imaginou outro plano – o plano europeu. Agiu de acordo com ele. Era o seguinte: enviar um exército – ostensivamente para ajudar os nativos patriotas a dar o toque final na sua longa e corajosa luta pela independência, mas na verdade para lhes tomar a terra. Ou melhor, em nome do progresso e da civilização. O plano se desenvolveu, estágio por estágio, satisfatoriamente. Fizemos uma aliança militar com os filipinos confiantes e eles cercaram Manila por terra, e com sua valiosa ajuda o lugar, com sua guarnição de 8 mil ou 10 mil espanhóis, foi tomado – o que àquela época não teríamos conseguido sem ajuda. Conquistamos sua ajuda pela esperteza. Sabíamos que eles estavam lutando por sua independência, e já lutavam havia dois anos. Sabíamos que eles acreditavam que estávamos participando de sua honrosa causa – como havíamos ajudado os cubanos a lutar pela independência de Cuba – e deixamos que eles continuassem a acreditar. Até o momento em que Manila se tornou nossa e pudemos prosseguir sem eles. Então abrimos o jogo. É claro que eles ficaram espantados – era natural; surpresos e desapontados; desapontados e magoados. Para eles tudo aquilo era anti-americano, não-característico, contrário às nossas tradições estabelecidas. O que também era natural, pois estávamos jogando o jogo americano apenas para a platéia – na verdade era o jogo europeu. Foi muito bem executado, com perfeição, e eles ficaram perplexos. Não conseguiam entender; tínhamos sido tão amigos – até afetuosos – daqueles patriotas simplórios! Nós próprios havíamos trazido do exílio seu líder, seu herói, sua esperança, seu Washington – Aguinaldo; nós o trouxemos num navio de guerra, com todas as honras, sob o abrigo e a hospitalidade sagrados da bandeira; nós o trouxemos e o devolvemos ao povo, e conquistamos sua gratidão eloqüente e comovida. É verdade, fomos amigos deles, e os encorajamos de tantas formas! Emprestamos armas e munições, oferecemos assessoria; trocamos cortesias com eles; deixamos nossos doentes e feridos sob seus cuidados; confiamos nossos prisioneiros espanhóis às suas mãos honestas e humanas; lutamos com eles ombro a ombro contra o ‘inimigo comum’ (frase nossa); elogiamos sua coragem, elogiamos seu heroísmo; elogiamos sua bondade, sua conduta correta e honrosa; usamos suas trincheiras, suas posições reforçadas, que eles haviam antes tomado aos espanhóis; nós os mimamos, mentimos para eles ao proclamar oficialmente que nossas forças de mar e terra vinham para lhes dar a liberdade e para expulsar o cruel Governo Espanhol; ludibriamo-los, usamo-los até não precisar mais deles; então desprezamos a laranja chupada e a jogamos fora. Mantivemos as posições que lhes tomamos pela trapaça; mais tarde avançamos e anexamos o território dos patriotas – uma idéia inteligente, pois precisávamos de uma revolta, e isso iria gerar uma. Um soldado filipino, cruzando o terreno onde ninguém tinha o direito de o impedir, foi abatido por uma de nossas sentinelas. Os patriotas, confusos, reagiram com armas, sem esperar para saber se Aguinaldo, que estava ausente, teria ou não aprovado. Aguinaldo não aprovou, mas de nada adiantou. O que queríamos, em nome do progresso e da civilização, era o arquipélago, sem o estorvo de patriotas que lutam pela independência; precisávamos da guerra. Agarramos a oportunidade. Foi mais uma vez a história do Sr. Chamberlain – pelo menos na motivação e na intenção; e jogamos tão bem quanto ele”.

Neste ponto de nossa declaração franca dos fatos para aquele que vive nas trevas, deveríamos lhe oferecer um brinde sobre o tema das bênçãos da civilização – para variar e para elevação de seu espírito – e depois continuar com nossa história:

Depois que nós e os patriotas capturamos Manila, a propriedade da Espanha sobre o arquipélago e sua soberania sobre ele chegaram ao fim – obliteradas, aniquiladas, nenhum vestígio de qualquer das duas. Foi então que imaginamos essa idéia divinamente engraçada de comprar da Espanha os dois espectros! [Não há risco em confessar este fato àquele que vive nas trevas, pois nem ele, nem ninguém vai acreditar.] Ao comprar os dois espectros por 20 milhões de dólares, assumimos também responsabilidade sobre os frades e seus bens acumulados. Creio que também contratamos a disseminação da lepra e da varíola, mas quanto a isso ainda há dúvidas. Mas não tem importância: pessoas que já sofrem com os frades não se importam com outras doenças. Ratificado o tratado, Manila conquistada e garantidos os nossos espectros, Aguinaldo se tornou inútil, bem como os donos do arquipélago. Forçamos uma guerra e desde então estamos caçando o antigo hóspede e aliado dos Estados Unidos por florestas e pântanos.

Neste ponto da história, seria bom vangloriarmo-nos de nossa guerra e de nossos heroísmos no campo de batalha, para tornar nossos feitos tão belos quanto os dos ingleses na África do Sul; mas acredito que não seja aconselhável exagerar nessa ênfase. É preciso cautela. Evidentemente será necessário ler para o homem os telegramas de guerra, para manter a franqueza do nosso relato; mas seria bom que lhes déssemos um tom bem-humorado, que deverá aliviar um pouco a sua eloqüência soturna e as exibições indiscretas de sangrenta exaltação. Antes de ler para ele os títulos destes despachos de 18 de novembro de 1900, seria bom ensaiar sua leitura, para colocar neles o tom correto de leveza e graça:

ADMINISTRAÇÃO ESGOTADA PELO PROLONGAMENTO DAS HOSTILIDADES!
GUERRA DE VERDADE ESPERA OS REBELDES FILIPINOS!
ADOTADO O PLANO KITCHENER! [11]
Kitchener sabe bem como tratar essa gente desagradável que luta por seus lares e liberdades, e é preciso deixar vazar que estamos apenas imitando Kitchener, e que não temos interesse nacional na questão, além de granjear a admiração da Grande Família de Nações, em cuja augusta companhia o Mestre do Jogo adquiriu para nós um lugar na última fila.

É claro que não podemos esquecer os relatórios do general McArthur – oh! Por que essas coisas embaraçosas sempre são publicadas?

– e deixar escorrer da língua, en passant, e assumir os riscos:

Durante os dez últimos meses, nossas perdas montaram a 268 mortos e 750 feridos; as perdas filipinas, 3.226 mortos, e 694 feridos.

Temos de estar preparados para segurar aquele que vive nas trevas, pois é provável que ele desmaie diante dessa confissão, dizendo: “Meu Deus, aqueles ‘negros’ cuidam dos prisioneiros feridos e os americanos os massacram!”.

Ele deverá ser reanimado, convencido, mimado, e devemos assegurar a ele que os caminhos da Providência são os melhores, e que não ficaria bem para nós proclamar os defeitos deles; e então, para demonstrar que somos apenas imitadores, não os inventores, é preciso ler para ele este trecho da carta de um soldado americano para a mãe, publicada no Public Opinion de Decorah, Iowa, em que ele descreve o fim de uma batalha vitoriosa:

“NÃO SOBROU NENHUM VIVO. SE ALGUM ESTAVA FERIDO, A GENTE LHE ENFIAVA A BAIONETA”.

Depois de relatar para aquele que vive nas trevas os fatos históricos, é preciso reanimá-lo mais uma vez e explicá-los a ele. Devemos dizer-lhe:
Parece mentira, mas na realidade não é. Pode ter havido mentiras, é verdade, mas foram contadas por uma boa causa. Fomos traiçoeiros, mas foi apenas para que o bem emergisse do mal aparente. É verdade que esmagamos um povo iludido e confiante; atacamos os fracos e sem amigos que confiavam em nós; destruímos uma república ordeira, justa e inteligente; apunhalamos um aliado pelas costas e esbofeteamos o rosto de nosso hóspede; compramos uma mentira de um inimigo que nada tinha para vender; roubamos a terra e a liberdade de um amigo confiante; convidamos nossos jovens a apoiar no ombro um fuzil desacreditado e os obrigamos a fazer o trabalho que geralmente é feito por bandidos, sob a proteção de uma bandeira que os bandidos aprenderam a temer, não a seguir; corrompemos a honra americana e maculamos seu rosto perante o mundo, mas cada detalhe visava o bem. Disso temos certeza. Todo chefe de Estado e soberano em toda a cristandade, 90% de todos os corpos legislativos da cristandade, inclusive o nosso Congresso e as assembléias legislativas de 50 estados são membros não apenas da igreja, mas também da Companhia Bênçãos da Civilização. Esta acumulação mundial de moral treinada, de altos princípios e de justiça, não tem capacidade de cometer um único erro, de realizar um ato injusto, uma única coisa não-generosa, uma única coisa que não seja imaculada. Ela sabe do que se trata. Não se apoquente; está tudo bem.

Ora, basta isso para convencer um homem. Os senhores verão. Isto há de recuperar os negócios. Será também suficiente para eleger o Mestre do Jogo para o lugar vago na Trindade de nossos deuses nacionais; e lá, do alto de seus tronos, os três hão de se sentar, era após era, às vistas do povo, cada um trazendo o emblema de seu serviço: Washington, a espada do libertador; Lincoln, as correntes partidas dos escravos; o Mestre, as correntes restauradas.

Tudo isto há de dar um forte impulso aos negócios. Os senhores verão.

Tudo agora é prosperidade; tudo está como sempre quisemos que estivesse. Temos o arquipélago e nunca o perderemos. Temos também razões para esperar que em breve teremos uma oportunidade de nos livrar do contrato congressional com Cuba e de oferecer a ela algo melhor. É um país rico, e muitos de nós já começam a perceber que aquele contrato foi um erro sentimental. Mas é agora – exatamente agora – o momento de iniciar o lucrativo trabalho de reabilitação – trabalho que vai nos enriquecer, facilitar nossa vida e acabar com os boatos. Não podemos esconder de nós mesmos que, no íntimo, nossa farda nos preocupa. É um de nossos orgulhos; está acostumada à honra, aos grandes e nobres feitos e, assim, vê-la envolvida nessa atividade nos desagrada. E nossa bandeira – outro de nossos orgulhos, o principal! Nós a adoramos tanto; e depois de vê-la em terras distantes, vê-la inesperadamente em céus estranhos, ondulando a nos saudar e bendizer, prendemos a respiração, descobrimos a cabeça e ficamos sem fala durante um momento, a pensar no que ela era para nós e nos grandes ideais que representava. É verdade. É preciso resolver essas dificuldades; não podemos manter nossa bandeira no estrangeiro, nem a nossa farda. Elas já não são necessárias lá; vamos trabalhar de outra forma. No que se refere à farda, a Inglaterra já achou uma solução; logo, nós também encontraremos. Teremos de enviar soldados – é inevitável –, mas é possível disfarçá-los. É o que a Inglaterra está fazendo na África do Sul. Até mesmo o Sr. Chamberlain se orgulha do honroso uniforme da Inglaterra; então o exército que está lá usa um disfarce feio e odioso, feito de um tecido amarelo igual ao material das bandeiras de quarentena que são usadas para afastar os sãos das doenças imundas e da morte repulsiva. É um tecido chamado Kakhi. Poderíamos adotá-lo. É leve, confortável, grotesco e engana o inimigo, que não consegue imaginar que um soldado se oculte dentro dele.

Quanto à bandeira da província filipina, é um problema de fácil solução. Faremos uma bandeira especial – como já fazem os estados: será igual à nossa bandeira, com as listas brancas tingidas de preto e as estrelas substituídas pelo crânio e as tíbias cruzadas.

E lá não vamos precisar de uma comissão civil. Como não tem poderes, ela terá de inventá-los, e esse tipo de trabalho não é para qualquer um; é preciso um especialista. Mas não necessariamente o Sr. Croker. Não queremos os Estados Unidos representados lá, somente o jogo.

Com os reparos sugeridos, progresso e civilização terão um boom naquele país capaz de absorver todos aqueles que vivem nas trevas, e poderemos retomar o ritmo normal dos negócios.

Notas

3. Frinéia: bela e audaciosa cortesã grega do século IV a.C.. Levada a julgamento em Atenas por impiedade, foi despida por seu advogado diante dos juízes e, assim, imediatamente absolvida.

4. Havia na China o costume de amarrar moedas de cobre, que eram vazadas, formando colares. Isto facilitava o manuseio do dinheiro, os pagamentos e recebimentos. (N. T.)

5. Em inglês o jogo da cara ou coroa tem o nome heads or tails, efígie ou o reverso, o que permite o trocadilho. (N. T.)

6. O editorial sem título publicado no The Public de 12 de fevereiro de 1901 menciona as críticas feitas pelo Dr.Wyland Spalding a Mark Twain devido às afirmações a respeito deste episódio: segundo Spalding, “13 vezes” teria sido fruto de um equívoco do telegrafista, que teria transmitido esse número em vez de “1/3″ (um terço). Apesar de reconhecer que Twain havia feito posteriormente uma retratação e mencionado o erro, Spalding sentiu-se mais seriamente ofendido pelo fato de Twain, em sua retratação, haver inquirido ainda com maior pertinácia, em nome de que lei ou de que moral o missionário coletou algo de pessoas que não haviam causado qualquer dano a quem quer que fosse, indagando também qual seria a diferença entre uma extorsão doze vezes maior e uma um terço maior. Em claro apoio a Twain, o jornal afirma que o Sr. Spalding poderia ter-lhes dado maior satisfação em responder a essas perguntas do que ao denunciar Twain e acusá-lo de indecente e mal-educado.

7. A idéia de “fardo” aqui remete ao poema “O fardo do homem branco” (”White man’s Burden”), de Rudyard Kipling, publicado no McClure Magazine no dia 12 de fevereiro de 1899. A guerra filipinoamericana havia começado oito dias antes e o Tratado de Paris seria ratificado dois dias depois da publicação, o que o situa num momento particularmente significativo da expansão imperialista e, ao mesmo tempo, de atuação da Liga Antiimperialista nos Estados Unidos. Embora no poema estivessem mescladas as louvações ao império e as advertências acerca dos custos que ele implicava, os próprios imperialistas interpretaram a expressão “fardo do homem branco” como um eufemismo para o imperialismo e uma justificação implícita da política imperialista como uma empreitada nobre e altruísta. Rapidamente os antiimperialistas responderam por meio de paródias do poema, tendo como foco o novo conflito nas Filipinas e a hipocrisia dos que o defendiam e desejavam ocultar os interesses econômicos, políticos e militares nele envolvidos. Para os antiimperialistas, o “fardo” verdadeiro era o dos trabalhadores dos Estados Unidos. Em 1901, após dois dias de terríveis batalhas nas Filipinas, Twain indagava: “O fardo do homem branco” foi cantado, mas quem cantará o do Homem de Cor?”. O conceito de “fardo do homem branco” se fez presente novamente em período posterior, a propósito das intervenções norte-americanas nas Américas e no decorrer da Primeira Guerra Mundial.

8. Joseph Chamberlain, 1836-1914. Político britânico reformista e membro do Parlamento por Birmingham. Foi secretário de assuntos coloniais durante o governo conservador de Salisbury, sendo responsável pelas relações com as repúblicas bôeres na época em que irrompeu a Guerra dos Bôeres, em 1899. Foi uma das figuras mais representativas da política externa britânica desse período.

9. Região localizada na porção nordeste da África do Sul além do rio Vaal, atualmente faz fronteiras com a Suazilândia, o Zimbábue e Botswana. No século XIX a descoberta de ouro atraiu um grande número de exploradores e aventureiros britânicos. Durante a Guerra dos Bôeres, a estratégia de atear fogo às matas e fazendas difundiu-se como meio de forçar os bôeres a deixar seus refúgios.

10. O comodoro George Dewey é considerado um herói da Guerra Hispano-Americana, por ter derrotado a frota espanhola no Pacífico. Deu início à Batalha de Manila às seis horas da manhã do dia 1º de maio de 1898, e com uma frota de seis navios (onde se incluía a nau capitânia Olympia) em seis horas pôs a pique todos os navios da armada espanhola.

11. Militar inglês, foi comandante em chefe das tropas inglesas durante a Guerra dos Bôeres. Entre suas táticas estava o incêndio de fazendas e a transferência de mulheres e filhos dos bôeres para campos de concentração infectados. (N. T.)

[*] Mark Twain escreveu “Para aquele que vive nas trevas” em 1901. A obra está contida no livro “Patriota e traidores: anti-imperialismo, política e crítica social”, Ed. Fundação Perseu Abramo, S. Paulo, 2003, ISBN 85-86469-81-5. Pode ser descarregada gratuitamente em http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/index.php?storytopic=1706 (PDF, 1988 kB).

” http://resistir.info/”

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Governo reprime nova revolta contra uso de verba pública para educação privada

Folha de S. Paulo mundo

Tarde de Santiago na última quinta-feira. Enquanto no Palácio La Moneda preparavam a abertura da exposição em homenagem ao centenário de Salvador Allende (1908-1973), ouviam-se sirenes de carros da polícia ali perto, onde ficam algumas das principais faculdades e colégios públicos.
Era mais um round dos confrontos entre estudantes universitários e secundaristas contra a lei de reforma educacional proposta pelo governo -e já aprovada na Câmara-, que consideram uma maquiagem na legislação da ditadura.
Os enfrentamentos aconteciam um dia após 4.500 estudantes marcharem na capital, reprimidos pelos truculentos carabineiros, a polícia militarizada, que os dispersava com jato de água e gás lacrimogêneo.
No fim de maio de 2006, menos de dois meses depois do início do governo Bachelet, os secundaristas protagonizaram a maior mobilização desde o fim da ditadura em 1990, imediatamente batizada com simpatia de “rebelião dos pingüins”, por causa da gravata do uniforme.
O governo criou uma comissão, com participação dos alunos, para discutir a nova LGE (Lei Geral de Educação). Os estudantes deixaram a instância alegando não serem ouvidos.
O tema de fundo é o repasse de recursos estatais a administradores privados de colégios, que podem cobrar uma pequena soma ou nada dos alunos que acolhem. Além disso, os colégios possuem critérios próprios de seleção.
Os estudantes, apoiados pelo sindicatos dos professores, exigem que a subvenção seja eliminada e que o país priorize a educação pública.
Com divisões na própria base e sem maioria no Congresso, o governo negociou com a direita, defensora das subvenções, e passou a lei na Câmara. Falta ainda o Senado.
A nova LGE não elimina o repasse, mas aumenta a fiscalização da educação sob gerência privada e acaba com ao processo de seleção nesses colégios.
Segundo o jornal “La Nación”, o governo repassa anualmente US$ 3 bilhões à rede de ensino, US$ 1,1 bilhão às escolas públicas e US$ 1,6 bilhão à rede subvencionada, que atende 500 mil alunos a mais do que a primeira. A diferença equivale a 34% a mais.
“Sabemos que no sistema neoliberal é impossível que a educação seja só pública. Mas o que não aceitamos é dar dinheiro aos privados”, diz Rubén Azócar, 18, que a Folha reencontrou depois depois de dois anos, igualmente participando de uma assembléia estudantil.
Já fora da escola secundária pública e fazendo cursinho pago -”faltaram só cinco pontos para eu entrar em direito”-, cabelo crescido, Azócar tinha aparência abatida.
“Não nos resta opção a não ser continuar mobilizados. O governo fala de melhora do índice de pobreza, do analfabetismo. Mas é só massificação. Queremos qualidade.”

Plebiscito
Alunos e professores preparam um plebiscito como última tentativa de pressionar e parar a tramitação do projeto, já que a volta dos “pingüins” às ruas não tem tanto apelo midiático como ocorreu em 2006.
O senador Juan Pablo Letelier, que pertence à ala à esquerda do Partido Socialista, parou na última quinta-feira para falar com estudantes que protestavam. Depois, falou à Folha. “A lei da ditadura me causa um mal-estar físico. É uma aberração. Mas o que os estudantes não entendem é matemática. Não temos os votos para fazer uma mudança profunda.”
O senador é filho do diplomata Orlando Letelier, assassinado em Washington em 1976 pela polícia política do regime de Augusto Pinochet. (FM)

“Folha De S. Paulo mundo”

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Chile vive dilema com lucro do cobre e pressão das ruas

Principal produto chileno enche cofres públicos, mas Bachelet teme elevar gastos

Volta a debate lei do regime Pinochet que destina 10% do faturamento da Codelco a militares; no 1º trimestre, repasse foi de US$ 422 mil

FLÁVIA MARREIRO

Com os cofres abarrotados de dinheiro por conta do “boom” do cobre e com vários setores de olho na bonança, o governo da presidente Michelle Bachelet enfrenta um dilema no Chile: seguir aumentando o gasto público, com o risco de estimular a inflação que já alcança 8,9%, ou fechar as torneiras e sofrer desgaste popular na reta final do governo.
Os preços do metal, que já haviam dobrado de 2005 para cá, bateram recorde de novo nesta semana. A principal exportadora do cobre, com 20% do negócio, é a estatal Codelco, cuja obrigação de repassar 10% do que obtém com as vendas aos militares voltou ao centro do debate político.
É tanto dinheiro em caixa por conta do cobre que, em nome da austera política econômica, nem o governo nem os militares mantêm todo o dinheiro no Chile. A estimativa da renda do metal é puxada para baixo no Orçamento, e a diferença vai a dois fundos no exterior, a serem resgatados em tempos de vacas magras.
Segundo o Ministério da Fazenda chileno, a bonança permitiu um superávit de 8,7% do Produto Interno Bruto em 2007. Os fundos também servem para tentar evitar a hipervalorização da moeda local, ao manter os dólares fora do mercado. Mas setores sociais alertam para problemas urgentes no Chile -a desigualdade, pelo índice Gini, é a segunda maior da região, só menor que a do Brasil- , enquanto o dinheiro rende lá fora.
E há pressões setoriais. Na última sexta, funcionários do Instituto de Previdência, em greve, faziam piquete, com direito a sucessos de Xuxa em espanhol, pedindo plano de carreira às vesperas da estréia no novo sistema de pensões. Já os caminhoneiros fizeram greve neste mês para exigir que o governo reduza um imposto sobre os combustíveis, também em escalada. A justificativa é sempre que La Moneda -a sede do governo- pode pagar por causa do cobre.
“Não podemos baixar impostos contando com uma renda que não é para sempre”, justificou-se anteontem Bachelet.
Antes, com inflação menor, o governo tinha segurado parte das pressões sociais porque havia aumentado o gasto público em 8% em média ao ano. “Ela fez o que havia prometido. Aumentou gastos com saúde, atenção à infância. Fez a reforma da Previdência, que é sua obra mais importante”, aponta o analista Raúl Sohr.
Mas, com a inflação em alta, consultorias econômicas pedem a Bachelet que reduza a marcha dos gastos em 2009. O problema é que esse é o último ano de governo -as eleições são em dezembro de 2009. “Este é o Orçamento no qual Bachelet pode impor um selo”, disse ao “Diario Financiero” o economista da Universidade do Chile Joseph Ramos.
Ele acha, em termos políticos, ser “pouco realista” pedir ao governo que poupe ainda mais para entregar o caixa cheio ao sucessor. Em termos econômicos, argumenta, essa é uma inflação provocada pelo choque de oferta de energia e alimentos, e seria importante acelerar o crescimento.

Militares e gestão
A alta do metal também renovou as discussões sobre o futuro da Codelco. Há um projeto no Congresso para reformar a direção da companhia -os analistas do setor citam como modelo de profissionalismo a Petrobras, não sem insinuar que a companhia deveria abrir parte do capital na Bolsa.
Está de volta também a grita para que Bachelet envie ao Legislativo, onde não tem maioria, projeto para acabar com uma das principais heranças da ditadura. Por uma lei do regime Pinochet (1973-1990), a Codelco, maior empresa do Chile e maior mineradora de cobre do mundo, responsável por US$ 1 de cada US$ 5 de exportações que entram nos cofres públicos, repassa 10% do que obtém com suas vendas aos militares, que só podem usar o dinheiro para comprar armamento.
Só no primeiro trimestre de 2008 a Codelco destinou US$ 822 milhões ao Fisco e outros US$ 422 milhões aos militares.
Na semana passada, o presidente da estatal, José Pablo Arellano, relançou a controvérsia, dizendo que os 10% engessam a companhia. Com cautela, La Moneda disse que o tema está em estudo, mas que era uma opinião pessoal de Arellano.
Um general da reserva chiou, dizendo que o assunto é de “segurança nacional”, enquanto o comando da ativa também foi conciliador: discutirá, desde que o governo encontre uma alternativa de financiamento a longo prazo para os militares.
“O governo fica com esse blablablá da lei do cobre, mas ele mesmo não quer mexer. E não é para nos agradar, porque podemos nos sublevar. Estamos respeitando a democracia no Chile. O problema é criar mais uma frente de discussão do Orçamento no Parlamento. Para eles, também é melhor deixar como está”, disse um militar de alta patente da Força Aérea sob condição de anonimato.
Mas Raúl Sohr diz que desta vez o projeto pode sair. “Há um consenso. Há gente linha dura no Congresso que se mostra flexível. Os militares não têm mais como justificar essa lei.”

“Folha de S. Paulo mundo”

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Elogio ao Ócio

Bertrand Russell
1932

Como a maior parte das pessoas de minha geração, eu cresci ouvindo que o ócio é o pai de todos os vícios. Sendo uma criança bastante virtuosa, acreditava em tudo o que me diziam, e minha consciência tem me mantido trabalhando duro até hoje. Mas ainda que a minha consciência tenha controlado as minhas ações, minhas opiniões passaram por uma revolução. Penso que se trabalha demais atualmente, que danos imensos são causados pela crença de que o trabalho é uma virtude, e que nas modernas sociedades industriais devemos defender algo totalmente diferente do que sempre se apregoou. Todos conhecem a estória do viajante que em Nápoles viu doze indigentes deitados ao sol (isto foi antes de Mussolini), e ofereceu uma lira ao mais preguiçoso. Onze deles se levantaram para reivindicá-la, e então ele a dou para o décimo segundo. Foi uma decisão correta. Mas em países que não gozam do do Mediterrâneo o ócio é mais difícil, e uma grande campanha seria necessária para fazê-lo vingar. Espero que, depois de lerem as próximas páginas, os líderes da YMCA comecem uma façam para convencer jovens de bom caráter a não fazer nada. Se isto acontecer, vinha vida não terá sido em vão.
Antes de avançar em minha argumentação a favor da preguiça, devo me desfazer de uma que não posso aceitar. Sempre que uma pessoa que já tem o suficiente para viver dedica-se a um trabalho comum, como dar aulas ou datilografar, dizem-na que esta conduta tira o pão da boca de outras pessoas, e portanto ela é má. Se este argumento fosse válido, seria necessário somento que todos nós não fizéssemos nada para que todas as bocas tivessem pão à disposição. O que pessoas que dizem estas coisas esquecem é que o que um homem ganha ele geralmente gasta, e ao gastar gera empregos. Desde que um homem gaste a sua renda, ele coloca tanto pão na boca das pessoas ao gastar quanto tira ao ganhar. O verdadeiro vilão, deste ponto de vista, é o poupador. Se ele apenas junta o seu dinheiro, é óbvio que não gerará empregos. Se ele investe sua poupança, o caso é menos óbvio, e surgem casos diferentes.
Uma das coisas mais comuns que se faz com a poupança é emprestá-la a algum governo. Considerando-se o fato de que a maior parte das despesas públicas de quase todos os governos civilizados consiste nas dívidas das guerras passadas ou na preparação de guerras futuras, quem empresta seu dinheiro ao governo acha-se na mesma posição do vilão que aluga assassinos de Shakespeare. O resultado líquido de seus hábitos econômicos é aumentar as forças armadas do Estado ao qual ele empresta sua poupança. Obviamente, seria melhor gastar o dinheiro, mesmo que fosse com bebida ou no jogo.
Mas devo dizer que o caso é bastante diferente quando a poupança é investida em empresas industriais. Quando estas empresas prosperam e produzem algo útil, isto pode ser admitido. Mas, atualmente, ninguém negará que a maioria das empresas estão falindo. Isto significa que uma grande quantidade de trabalho humano, que deveria ter sido devotado a produzir algo que pudesse ser aproveitado, foi gasto ao produzir máquinas que, quando produzidas, ficam ociosas e não beneficiam ninguém. Quem investe sua poupança em negócios fracassados está portanto prejudicando a outros tanto quanto a si mesmo. Se ele tivesse gasto o dinheiro, por exemplo, para fazer festas com seus amigos, eles (podemos esperar) teriam prazer, e também todos aqueles com os quais gastamos dinheiro, como o açouguiro, o padeiro e o fornecedor de bebidas. Mas se ele gasta a poupança (digamos) na construção de ferrovias em lugares onde trens não são desejáveis, ele desviou uma massa de trabalho para canais onde não traz benfícios a ninguém. No entanto, quando se trona pobre devido às falhas de seus investimentos será considerado uma vítima de desmerecida má-sorte, enquanto o alegre esbanjador, que gastou o seu dinheiro filantropicamente, será menosprezado como uma pessoa tola e frívola.
Tudo isto é preliminar. Quero dizer, com toda a seriedade, que muitos males estão sendo causados ao mundo moderno pela crença na virtude do trabalho, e que o caminho para a felicidade e prosperidade está em uma diminuição organizada do trabalho.
Antes de mais nada: o que é trabalho? Há dois tipos de trabalho: o primeiro, alterar a posição de um corpo na ou próximo à superfície da Terra relativamente a outro corpo; o segundo, mandar outra pessoa fazê-lo. O primeiro tipo é desagradável e mal pago; o segundo é agradável e muito bem pago. O segundo tipo é capaz de extensão indefinida: há não somente aqueles que dão ordens, mas aqueles que dão conselhos sobre que ordens deveriam ser dadas. Geralmente dois tipos opostos de conselhos são dados simultaneamente por dois grupos organizados; a isto se chama política. A habilidade necessária a este tipo de trabalho não é conhecimento dos assuntos sobre os quais são dados conselhos, mas conhecimento da arte da fala e da escrita persuasiva, isto é, da propaganda.
Na Europa, mas não na América, há uma terceira classe de homens, mais respeitada do que qualquer uma das outras classes de trabalhadores. Há homens que, pela propriedade da terra, podem fazer outros pagarem pelo privilégio de poderem existir e trabalhar. Estes proprietários de terras são ociosos, e portanto se esperaria que eu os elogiasse. Infelizmente, a sua ociosidade se torna possível pelo trabalho de outros; de fato, seu desejo pelo ócio confortável é historicamente a fonte de todo evangelho do trabalho. A última coisa que eles desejariam é que outros seguissem o seu exemplo.
Desde o início da civilização até a Revolução Industrial, um homem podia, como regra geral, produzir com trabalho duro um pouco mais do que o necessário para a subsistência de si próprio e de sua família, ainda que sua mulher trabalhasse pelo menos tanto quanto ele, e seus filhos colaborem assim que tem idade suficiente. O pequeno excedente acima das necessidades básicas não era deixada para aqueles que o produziram, mas era apropriado por guerreiros e sacerdotes. Em tempos de fome não havia excedente; os guerreiros e sacerdotes, entretanto, ainda tinham tanto quanto em outros tempos, e como resultado muitos dos trabalhadores morriam de fome. Este sistema persistiu na Rússia até 1917 [1], e ainda persiste no oriente; na Inglaterra, apesar da Revolução Industrial, ele sobreviveu com pleno vigor através das guerras napoleônicas, e até cem anos atrás, quando a nova classe de manufatureiros chegou ao poder. Na América, o sistema acabou com a revolução, exceto no sul, onde ele persistiu até a Guerra Civil. Um sistema que durou por tanto tempo e acabou tão recentemente naturalmente deixou impressões produndas nas opiniões e mentes dos homens. Muito do que tomamos por certo sobre a desejabilidade do trabalho é derivado deste sistema, que, sendo pré-industrial, não se adeqüa ao mundo moderno. A técnica moderna tornou possível que o lazer, dentro de certos limites, não seja uma prerrogativa de uma pequena classe privilegiada, mas um direito distribuído eqüanimemente pela comunidade. A moral do trabalho é a moral de escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão.
É óbvio que, nas comunidade primitivas, os camponenes, se dependesse de sua vontado, não entregariam o pequeno excedente para a subsistência de guerreiros e sacerdotes, mas teriam produzido menos ou consumido mais. No início, eles eram forçados a produzir mais e entregar o excedente. Gradualmente, entretanto, descobriu-se que era possível induzir muitos deles a aceitar uma ética segundo a qual era sua obrigação trabalhar duro, ainda que parte de seu trabalho fosse para sustentar o ócio de outros. Deste modo, diminuíram a necessidade de coerção e as despesas do governo. Ainda hoje, 99 por cento dos assalariados britânicos ficariam genuinamente chocados se lhes fosse dito que o rei não deveria ter uma renda maior do que a de um trabalhador. A concepção do dever, historicamente falando, foi um meio usado pelos donos do poder para induzir outros a viver pelos interesses de seus senhores e não pelos seus próprios. Claro que os donos do poder escondem isto de si mesmos ao acreditar que seus interesses coincidem com os interesses maiores da humanidade. Às vezes isto é verdae; donos de escravos atenienses, por exemplo, empregaram parte de seu lazer dando contribuições permanentes à civilização que teriam sido impossíveis sob um sistema econômico justo. O lazer é essencial à civilização, e em outros tempos o lazer para uns poucos somente era possível pelo trabalho de muitos. Mas seu trabalho era valioso não porque o trabalho seja bom, mas porque o lazer é bom. E com a técnica moderna seria possível distribuir o lazer de forma justa, sem prejuízos à civilização. A técnica moderna tornou possível diminuir enormemente a quantidade de trabalho necessário para assegurar as necessidades vitais para todos. Isto se tornou óbvio durante a Primeira Guerra Mundial. Naquele tempo todos os homens nas forças armadas, e todos os homens e mulheres envolvidos na produção de munição, e todos os homens e mulheres envolvidos com espionagem, propaganda de guerra ou escritórios governamentais relacionados com a guerra foram tirados de ocupações produtivas. Apesar disto, o nível geral de bem-estar entre assalariados não-qualificados do lado dos aliados era mais alto do que antes ou mesmo depois da Guerra. O significado deste fato era escondido pelas finanças: empréstimos fizeram parecer que o futuro estava nutrindo o presente. Mas isto, é claro, seria impossível; um homem não pode comer um pão que não existe. A guerra mostrou conclusivamente que, através da organização científica da produção, é possível manter as populações modernas em razoável conforto com uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno. Se, ao final da guerra, a organização científica que foi criada para liberar homens para as guerras e produção de munição fosse preservada, e as jornada de trabalho fosse reduzida para quatro horas, tudo teria ficado bem. Aos invés disto, o antigo caos foi restaurado, aqueles cujo trabalho era necessário voltaram às longas horas de trabalho, e o restante foi deixado à mingua no desemprego. Por quê? Porque o trabalho é um dever, e um homem não deveria receber salários proporcionalmente ao que produz, mas proporcionalmente à virtude demonstrada em seu esforço.
Esta é a moral do Estado escravista, aplicada em circunstâncias totalmente diferentes daqueles na qual surgiu. Não é surpresa que o resultado tenha sido desastroso. Façamos uma ilustração. Suponha-se que em um dado momento um certo número de pessoas estajam envolvidas na produção de alfinetes. Elas fazem tantos alfinetes quanto o mundo precisa, trabalhando (digamos) oito horas por dia. Alguém faz uma invenção através da qual o mesmo número de pessoas pode fazer duas vezes o número original de alfinetes. Mas o mundo não precisa mais de alfinetes, dificilmente algum seria comprado por um preço menor. Em um mundo sensato, todos os envolvidos na fabricação de alfinetes passariam a trabalhar quatro horas ao invés de oito, e tudo continuaria como antes. Mas no mundo real, isto seria considerado desmoralizante. Os homens ainda trabalham oito horas, há excesso de alfinetes, alguns empregadores quebram, e metade dos homens previamente ocupados em fabricar alfinetes são despedidos. Há, ao final, exatamente a mesma quantidade de lazer do outro plano, mas a metado dos homens fica totalmente ociosa enquanto a outra metade ainda está sobrecarregada. Deste modo, é assegurado que o lazer inevitável deva causar misério no mundo inteiro ao invés de ser uma fonte universal de felicidade. Pode ser imaginado algo mais insano?