Arquivo de 12 de Julho de 2008

Uma nova onda de violência e devastação

ANÁLISE Sem alteração de sua gênese colonial, “modernização” do campo brasileiro repete ciclo de exclusão e exploração

Carlos Walter Porto- Gonçalves

A MÁ distribuição da propriedade da terra se constitui num dos pilares da concentração de poder não só no Brasil como em toda a América Latina. Desde o início da invasão dos territórios dos povos originários pelos europeus que o domínio e o controle da terra e de suas riquezas minerais se configuraram como o principal objetivo dos invasores. Para isso, de acordo com o sociólogo peruano Aníbal Quijano, os invasores conformaram um conjunto de justificativas que teve na idéia de raça um elemento central para legitimar esse controle dos recursos e da riqueza por parte dos fidalgos, ou seja, dos “fi´d´alguém”, já que os filhos de ninguém, isto é, os povos originários e os negros, não eram considerados humanos.
Assim, a estrutura assimétrica das relações sociais e de poder tem, no controle dos recursos e da riqueza e nessa distinção/discriminação social fundada na raça, a base da constituição da formação das classes sociais no Brasil e na América Latina.
Por isso, a questão fundiária, associada à questão étnico- racial, se constitui num dos temas mais explosivos de nossa formação social. Até recentemente essas questões se mantiveram dissociadas no debate político em parte graças à eficácia da ideologia da mestiçagem e da democracia racial e, em parte, pela ideologia da vanguarda da classe operária que obscurecia outras formas possíveis de classificação social.
Todavia, nos últimos anos, esse quadro vem se modificando com a emergência de movimentos sociais que trazem para o debate político o elemento étnico-racial constitutivo das nossas relações sociais e de poder desde sempre. Estamos, pois, diante da negação da negação da condição de humanidade por parte dos negros e dos povos originários que, assim, se apresentam afirmando ter direito a instituir direitos.

Duas geografias
Desde o início do período colonial, geografias antagônicas se conformaram no Brasil e na América Latina. Uma primeira por assimétricas relações sociais e de poder étnico- racializadas, seja por meio (1) do cativeiro dos homens (escravidão) e (2) da violência contra as mulheres (haja vista o fato de a maioria dos colonos que vieram para o Brasil não ter vindo para cá com suas esposas e, assim, a violação das mulheres indígenas e negras era prática comum), seja por meio (3) do cativeiro da terra (latifúndio), que destina os nossos melhores recursos, (4) tanto técnicos (dos engenhos dos séculos 16 e 17, aliás, as mais modernas manufaturas que então o mundo conhecia, aos atuais tratorescomputadores com seus plantios diretos de monoculturas transgênicas), (5) como naturais (os melhores solos, nossas energias e águas, nossas matas queimadas para fazer ferro-gusa limpo para o primeiro mundo, e a contaminação e a devastação a isso associado que fica para nós) para a exportação.
E uma geografia da liberdade, que se conformou por meio de quilombos, nos refúgios dos indígenas e no apossamento de terras pelos camponeses (“homens livres”), em que a diversidade dos cultivos e o aproveitamento do potencial que a natureza, com sua produtividade primária (fotossíntese), oferece conformaram modos de vida e de produção marcados por uma riquíssima culinária e uma medicina criativa e eficaz, cujos conhecimentos são, hoje, objeto de intensa luta por apropriação (etnobiopirataria) e que é responsável por grande parte do nosso alimento de cada dia.

Dados da violência
A julgar pelos dados recémdivulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), em seu Conf itos no Campo Brasil 2007, essas duas geografias parecem atualizar a contraditória história de nossa formação territorial. De 2006 para 2007 houve um espraiamento dos assassinatos no campo brasileiro [Mapa 1]: de oito Estados com registro de assassinatos em 2006, passouse para quatorze, ainda que tenha havido um decréscimo no número total de assassinatos no país, de 39 para 28, fruto da expressiva queda dos assassinatos no Pará, que, de 24, em 2006, passou a cinco, em 2007.
De dez Estados com registro de famílias expulsas em 2006, passou-se também a 14, em 2007 [Mapa 2]. O número total de famílias expulsas aumentou 140% de um ano para outro; em 15 unidades da Federação houve aumento do número de pessoas envolvidas em conflitos de 2006 para 2007 [Mapa 3]; aumentou também o número de trabalhadores em situação análoga à de escravo: em 2006 foram 6.930 casos denunciados, com o resgate de 3.633 trabalhadores em 16 Estados; em 2007 foram 8.653 casos, com o resgate de 5.974 em 18 unidades da Federação.
Esses últimos dados são ainda confirmados em matéria publicada pela Folha de S.Paulo no dia 17 de fevereiro. O artigo informa que os grupos móveis do Ministério do Trabalho resgataram em propriedades do setor sucro-alcooleiro 3.117 pessoas submetidas à condição análoga à de escravo, o que correspondia a 53% do total de casos registrados no país. Os demais casos foram registrados, principalmente, nas atividades de carvoejamento e de pecuária.

Expropriação
Observemos que assassinato, expulsão de famílias e trabalho escravo são ações que revelam práticas de fazer justiça com as próprias mãos. Por outro lado, o número de famílias despejadas também aumentou na região Sudeste, ou seja, na região onde estão os Estados de maior desenvolvimento capitalista do país, aqui indicando que, além da violência com as próprias mãos do poder privado acima indicada, o poder público também vem contribuindo com suas ordens de despejo para consagrar a expropriação de muitos e a apropriação concentrada da terra.
Considere-se que, desde 2004, o número de ocupações atingiu seu máximo (508), sendo que este vem caindo, tendo passado para 384, em 2006, e 364, em 2007. O mesmo vem ocorrendo com os acampamentos, que foram 284, em 2003, baixaram para 67, em 2006, e 48, em 2007.
Quando se observa as categorias sociais envolvidas nos conflitos por terra no ano de 2007 [Mapa 4], vemos que os sem-terra correspondem a 44% do total e as populações tradicionais, a 41%! Assim, notamos que os conflitos envolvendo trabalhadores rurais sem-terra e comunidades com terra, mas sem reconhecimento formal da sua condição de apossamento, praticamente se equivalem. Isso porque as populações tradicionais implicam os posseiros, os remanescentes de quilombos, os faxinaleses, os ribeirinhos, os pescadores, os seringueiros, os castanheiros, as mulheres quebradeiras de coco e os geraizeiros. Esses dados indicam que está em curso um intenso processo de expropriação camponesa no Brasil.

Processo histórico
O que estaria engendrando tamanho agravamento da violência no campo brasileiro, sobretudo quando se registra também uma diminuição significativa dos acampamentos, das ocupações e demais ações dos movimentos sociais? Há, de um lado, razões de “longa duração”, como diria o historiador francês Fernand Braudel, haja vista que a violência com as próprias mãos por parte das nossas oligarquias moderno-coloniais – os números confirmam amplamente – sempre aumenta quando existe algum avanço no sentido da democratização da sociedade brasileira, e o poder público passa a agir de modo republicano, ao contrário dos períodos de normalidade patrimonialista, quando impera a vontade dos “donos de poder”, conforme a precisa caracterização de Raimundo Faoro.
Foi assim no período da Constituinte, nos finais dos anos de 1980, quando a sociedade brasileira via avançar um conjunto de movimentos sociais que pautavam o debate da reforma agrária e, com ela, buscavam conformar uma democracia substantiva, democratizando o acesso à terra e demais recursos necessários à saúde, educação, meio ambiente, apoio à infância, à adolescência e à terceira idade. Seringueiros, atingidos por barragem, remanescentes de quilombos, mulheres quebradeiras de coco babaçu, geraizeiros, retireiros, faxinaleses, castanheiros, ribeirinhos, pescadores e demais formações sociais camponesas começaram a constituir um novo léxico político, diversifi cando e complexificando o debate da reforma agrária no país.
As expectativas de democratização que surgiram com a eleição do Senhor Lula da Silva também fizeram aumentar os índices de violência no campo por parte das oligarquias preocupadas com a possibilidade de o governo avançar na política de reforma agrária. O aumento dos assassinatos, do número de famílias expulsas e de famílias despejadas no primeiro ano do governo Lula foi uma clara demonstração de força, por meio da violência, por parte das oligarquias empresariais latifundiárias.

Grandes oportunidades
O fato desse governo não ter avançado, no sentido de mexer na estrutura de poder dos empresários modernos latifundiários, com suas monoculturas históricas de exportação e, ainda, apostar numa nova onda desse avanço moderno-colonial não tem sido suficiente para arrefecer as práticas violentas desse complexo de poder dos agronegociantes.
Hoje, são enormes as oportunidades que se abrem para a exportação de commodities, só comparáveis às oportunidades que se abriram nos séculos 16 e 17, quando também uma verdadeira revolução tecnológica se deu na produção, com os engenhos, e na circulação, com a navegação e no conhecimento em geral (cartografia e outras tecnologias de navegação e guerra).
O capitalismo de Estado monopolista, sob o comando do Partido Comunista Chinês, tem demonstrado sua superioridade sobre o capitalismo monopolista de Estado, sob a hegemonia neoliberal da banca de Wall Street e suas instituições globalitárias (FMI, Banco Mundial, G-7+1, OMC), ativando a demanda de matérias-primas agrícolas, minerais e de energia e oferecendo oportunidades enormes, sobretudo para países que dispõem de amplas reservas de terra e recursos, como é o caso do Brasil.

Dinâmica trágica
O avanço do cultivo da canade-açúcar, sobretudo em Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo, vem se fazendo sobre áreas de pastagens, principalmente, e, assim, o gado vai se deslocando para áreas de cerrado e floresta, seja no Maranhão, no Mato Grosso, no Pará, no Piauí, no Tocantins e oeste baiano. O mesmo vem acontecendo com a ampliação da área de soja, de milho e de monocultivos de madeiras exóticas (eucalipto e pinnus).
Numa espiral ascendente de violência e devastação, esse avanço do gado e desses monocultivos de exportação, ao exercer pressão sobre essas áreas de cerrado e de florestas, oferece oportunidades que viabilizam os grileiros de terras, os madeireiros que se apresentam como modernocolonizadores, as empresas de carvão que fornecem matériaprima para purificar o ferro a ser exportado por modernas e coloniais infra-estruturas de estradas de ferro e portos. Grilada a terra, retirada as madeiras nobres, queimadas as madeiras para fazer o carvão, é chegada a hora dos pecuaristas e de outros agronegociantes completarem esse tragicamente dinâmico Complexo de Violência e Devastação.

Bloco da colonização
São essas amplas expectativas de negócios que estão subjacentes às ações de violência que aumentam no país. Os dados dessa geografia da violência permanecem incontestados pelas entidades do bloco de poder técnico-científico-agroindustrial-financeiro-midiático diretamente ligado a essa problemática. Bloco de poder esse conformado por entidades como a Associação Brasileira de Agrobusiness(Abag), a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), a Associação da Indústria de Açúcar e Álcool (Aiaa), a Rede Globo Comunicações e Participações, a Agência Estado, entre outras, conforme se pode consultar no sítio da própria Abag (www.abag.com.br).
A violência se mostra, assim, como componente estruturante das relações sociais e de poder de nossa história territorial de ontem e de hoje e, tal como ontem e hoje, sempre esteve associada ao avanço do que havia de mais moderno nos colonizando.

Carlos Walter Porto-Gonçalves é doutor em Geografia, professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Grupo Hegemonia e Emancipações de Clacso. Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira.

“Brasil De Fato”

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Um instrumento lendário, suprimido no Iraque, prospera no exílio

Erica Goode*

Dhia Jabbar esconde seu oud em uma sacola quando caminha pela rua em seu bairro em Bagdá.

Ele costumava ensinar estudantes em um quarto dos fundos de uma loja de fotos, onde o som não podia ser ouvido. Mas na semana passada, milicianos armados invadiram sua loja, destruíram seu instrumento e ordenaram que ele parasse de ensinar. Ele sonhava com uma carreira de músico, mas agora ele perdeu a esperança.

“O Iraque está morto”, ele disse.

A 11 mil quilômetros de distância, Rahim Alhaj, que fugiu do Iraque em 1991, carrega seu oud sem se preocupar pelas ruas de Albuquerque, Novo México, onde vive atualmente. Em Nova York, Washington e outras cidades, ele toca para platéias de centenas. Um álbum que ele gravou foi recentemente indicado ao Prêmio Grammy.

Os dois músicos estão ligados por sua paixão pelo oud, um instrumento em forma de pêra cujas raízes são profundas na história do Iraque. Alguns dizem que em sua música se encontra a alma do país.

Ambos estudaram no mesmo conservatório de prestígio de Bagdá. Ambos têm um amor profundo pelas melodias tradicionais iraquianas.

Mas Jabbar, 29 anos, e Alhaj, 40 anos, também estão ligados por terem assistido -um de perto, o outro de longe- o mergulho de seu país na violência sectária.

Alhaj teme constantemente por sua mãe e irmão, que ainda moram no perigoso bairro de Sadr City de Bagdá, em uma casa sem eletricidade ou água corrente. Quando há luta entre os milicianos do Exército Mahdi e as forças americanas ou iraquianas ali, como tem ocorrido virtualmente todos os dias nas últimas semanas, ele telefona freneticamente para sua família.

“É difícil, porque estou muito longe deles e muito longe das dificuldades deles, de forma que me sinto impotente”, ele disse.

A violência sobre a qual ele lê no jornal provoca sonhos ruins: imagens de ser torturado, como ocorreu nos anos 80 sob o governo de Saddam Hussein, ou de pessoas sendo executadas.

Em 2004, ele voltou para Bagdá para dar um concerto na casa de sua família. Os amigos com os quais cresceu, ele disse, estavam barbados e se sentiam desconfortáveis escutando ele tocar; música secular é considerada “haram”, proibida. Um fabricante de oud que ele conhecia foi forçado a produzir seus instrumentos secretamente em uma minúscula oficina em seu telhado.

Certa manhã, Alhaj acordou na casa de sua família ouvindo sua sobrinha cantando uma famosa canção de amor iraquiana. Mas a letra tinha mudado; ela agora não mais falava de amor romântico, mas apenas de Deus, do céu e de danação.

“O que aconteceu?”, perguntou Alhaj. “O que aconteceu?”

Jabbar assistiu à transformação de Bagdá em tempo real. Ele viu o fervor religioso envolver a rua em que fica a casa de sua família, no bairro de Shaab, onde costumava sentar do lado de fora para tocar para os transeuntes. Salões e concertos casuais -antes comuns- se tornaram raros e clandestinos. Os empregos para tocar e ensinar que costumam aguardar pelos músicos talentosos, quando concluíam seus estudos, desapareceram.

“Eu perdi 10 anos da minha vida”, ele disse, “os anos em que estudei para ser capaz de tocar para as pessoas”.

O Iraque já foi famoso pelos seus tocadores de oud. O instrumento era uma vista comum nos lares iraquianos, assim como uma guitarra ou violão nos Estados Unidos. Segundo uma lenda descrita no Grove Music Online, uma referência padrão, o oud foi inventado por Lamak, um descendente do Caim bíblico. Quando seu filho morreu, Lamak teria pendurado seus restos mortais em uma árvore e visto no esqueleto o corpo arredondado e o braço elegante.

Um jurista do século 9 em Bagdá exaltou as propriedades curativas do oud, assim como Muhammad Shihab Al Din, um escritor do século 19. “Ele coloca o temperamento em equilíbrio”, ele escreveu. “Ele acalma e revive corações.”

Até mesmo Saddam Hussein não era imune aos encantos do instrumento. Foi relatado que ele recebeu um oud, feito de madeiras raras e incrustado de marfim, de um fabricante famoso, Mohammed Fadhel. Saddam ordenou que um tocador renomado de oud o ensinasse a tocar, mas ao ficar na presença do ditador, o homem ficou tão assustado que não conseguia falar. Outro tocador de oud foi convocado para substituí-lo e deu a Saddam duas aulas, prossegue a história.

Na infância, Jabbar dormia ouvindo música no gravador de seu pai. Posteriormente, ele passou a cantar canções nacionais no coro do colégio. Aos 18 anos, tardiamente para um músico profissional, ele passou a tocar o oud, estudando os mistérios do maqam iraquiano, o sistema complexo de seqüências tonais e improvisos passados de mestre a estudante.

“Eu nasci para aprendê-lo”, ele disse.

Quando tanques americanos entraram em Bagdá em 2003, Jabbar ficou empolgado.

“Eu costumava me sentar com meus amigos e conversar sobre nossos sonhos, sobre como seria Bagdá após a invasão”, ele disse. “Eu esperava que Bagdá seria como Hollywood. Nós podíamos circular livremente. Às vezes voltávamos para casa às 2 horas da manhã.”

Mas a nova liberdade não durou. Ele ouviu histórias sussurradas de músicos que eram ameaçados pelos extremistas religiosos. Um de seus professores foi atacado enquanto dirigia da Síria para Bagdá. Homens armados destruíram o oud do homem e disseram que o matariam se continuasse a tocar. Um mês depois, o professor fugiu do Iraque.

“Eu passei a ser mais cuidadoso e a não falar sobre meus estudos”, disse Jabbar. “Eu costumava dizer que estava estudando pintura ou história ou que me tornaria professor de inglês.”

Em alguns bairros, ele podia carregar seu oud sem muito medo. Em outros, ele dizia, “seria suicídio carregá-lo comigo”.

Ele toca onde pode, em festivais ocasionais, em encontros secretos com amigos. De vez em quando ele pára na oficina de um fabricante de oud, Ahmad Al Abdalli, na rua sinuosa de um bairro comercial no centro de Bagdá.

“Antes, muitos músicos vinha aqui, se reuniam, tocavam e cantavam, e quando iam para casa, estavam aliviados e felizes”, disse Abdalli. “Mas agora eles não vêm, ou quando vêm, há apenas um ou dois e eles tocam apenas por poucos minutos, para não chamar atenção dos fanáticos.”

Jabbar é dono de um oud valioso, feito, como o de Saddam, por Mohammed Fadhel, um instrumento tão precioso que nem mesmo sua esposa pode tocá-lo. Mas ele pensa em vender o instrumento.

Alhaj também foi dono de um Mohammed Fadhel, que ganhou de seu professor décadas atrás em Bagdá. Ele costumava dormir com o instrumento ao seu lado. Ele até mesmo conversava com ele, o que chegava a preocupar seus pais.

Mas em 1991, quando partiu do Iraque, fugindo para a Jordânia, um guarda de fronteira confiscou o oud. Ao vê-lo desaparecer, lembrou Alhaj, ele começou a tremer e adoeceu. “Foi o momento mais triste de toda minha vida”, ele disse.

Ele chegou aos Estados Unidos em 2000, após anos na Síria, e um funcionário que cuidava de refugiados encontrou um emprego para ele no McDonald’s. “Que tipo de instituição é esta?”, Alhaj disse ter perguntado. “Ela ensina música clássica árabe?”

No final ele voltou a tocar. Ele faz o que pode para manter a música de oud iraquiana viva, dando concertos em prol das crianças iraquianas e conversando com a platéia sobre o oud e sua história.

Ele sabe que tem sorte por poder tocar livremente, por poder falar sem medo. “Eu tive minha chance de erguer minha voz aqui”, ele disse.

Ele vibrou quando o regime de Saddam caiu, ele disse, mas foi contrário à invasão americana. Às vezes passa pela sua mente a idéia de que “há um soldado lá, e não sei se ele está matando meu irmão”.

Jabbar, por sua vez, brinca que nutre uma fantasia secreta.

“Eu vou dar um golpe de Estado e fazer com que todos em todos os bairros toquem o oud”, ele disse. “Será uma revolução.”

*Qais Mizher, Anwar J. Ali e Ali Hameed contribuíram com reportagem.

“The New York Times”

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Big-Bang: Veja redescobre a qualidade

Alberto Dines

Ao aproximar-se dos 40 anos de idade, o semanário de notícias da Editora Abril – o mais antigo do gênero no país – resolveu presentear-se e promoveu um benfazejo reencontro consigo mesmo.

A matéria de capa da edição nº 2066 sobre a origem do universo é, entre outras coisas, uma sutil homenagem ao patriarca do jornalismo brasileiro, Hipólito da Costa, também nosso primeiro jornalista científico (e primeiro jornalista econômico e primeiro jornalista político e primeiro crítico da imprensa e primeiro paladino da liberdade de expressão etc., etc; só não foi nosso primeiro jornalista desportivo porque o título deve pertencer a alguém da família de Nelson Rodrigues).

A esmerada investigação do repórter Rafael Corrêa, primorosamente editada e ilustrada pela designer Andréia Caires, resultou num caderno de 55 páginas onde um assunto impenetrável, até então reservado aos cosmólogos, astrofísicos, físicos, filósofos e teólogos torna-se fascinante leitura.

Tudo começa com o acelerador de partículas (LHC) que está sendo instalado em Genebra para “brincar de Deus”: fantástica máquina de 12.500 toneladas que deverá custar 8 bilhões de dólares para reproduzir as especialíssimas circunstâncias que se seguiram ao Big Bang e permitiram o início da vida.

A revista informa que o repórter visitou dez instituições científicas nos dois lados do Atlântico, entrevistou 28 cientistas, inclusive brasileiros, e que o trabalho final foi submetido a uma equipe de sete consultores científicos.

Parabéns, o Todo-Poderoso agradece o empenho e aproveita para lembrar uma frase de Samuel Wainer: “Deus só ajuda os bons jornalistas”. Em miúdos: um mau jornalista certamente estaria de costas na hora do Big Bang.

Dilema existencial

Todo jornalismo é científico, empirismo só vale para palpites. Tudo é Big Bang, inclusive os sussurros soprados por fontes secretas ou captados em grampos. Tudo o que acontece, transforma.

E o que acontece (fato ou fenômeno) deve ser zelosamente reconstituído, responsavelmente investigado e apresentado seja no vazio cósmico, no Éden, no morro da Providência, em Roraima ou Navarra (onde o jornalismo virou picadinho).

Sem apuração, checagem e contra-checagem só se produz “cascata” ou sacadas tipo “boimate” que a mesma Veja publicou há um quarto de século e pela qual até hoje não pediu desculpas aos leitores.

O aparato empregado para produzir um dossiê de meia centena de páginas é necessariamente maior e mais sofisticado, porém uma matéria de apenas uma página na seção de Cultura deve ser escrita com igual rigor e probidade.

Se o presidente Lula ou a ministra Dilma Rousseff tivessem algo a ver com o Big Bang ou com as experiências que ocorrerão no acelerador de partículas de Genebra, dificilmente teríamos um relato tão isento e didático. Este é o dilema existencial de Veja: para fidelizar o leitorado optou por transformar-se num periódico político, jornalisticamente incorreto. Parcial: da primeira à última página. Ops, erramos: da primeira à penúltima página, já que a última é ocupada por um ensaísta sereno.

Função do jornalismo

O portentoso Big Bang de Veja tem tudo para transformar-se em marco. Mostrou que jornalismo e esmero não são incompatíveis, exibiu um caminho novo para agarrar o leitor: tratando-o como um ser inteligente.

O ressentimento que a revista tem destilado nos últimos tempos infiltrou-se tanto no ânimo de seus admiradores como nos detratores. O “estilo Veja de enxovalhar” transbordou, tornou-se endêmico: está nos comentários de blogueiros delirantes e de críticos de mídia que jamais pisaram numa redação. A eqüidistância “científica” deste material deveria ser adotada como padrão. Dificilmente incomodará os crentes ou agnósticos, criacionistas ou evolucionistas, apocalípticos ou místicos. Fará pensar – esta é a função do jornalismo.

O que distingue o jornalista não é o diploma, é a capacidade de estimular o intelecto da sua audiência. O resto é almanaque ou espetáculo.

“Observatório da Imprensa”

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Brasil - Etanol e segurança hídrica nacional

Carlos Tautz*

Sem qualquer regulação pública que resguarde os interesses de longo curso do Brasil, o mercado vai expandindo para o sul do Mato Grosso do Sul e para o sul de Goiás a indústria do etanol. Parece que ninguém lembrou que propor a transformação do etanol em commodity internacional, para muito além do atendimento ao mercado interno, significa detonar pelo menos três grandes problemas: a especialização produtiva; a posse de vastas porções do território por empresas, nacionais e internacionais, que definem a utilização de recursos segundo sua própria lógica e interesse; e a utilização em larguíssima escala das águas nacionais sem uma estratégia de segurança hídrica que garanta o fornecimento ao próprio Brasil pelos próximos anos.

Ainda por cima, há outro grave problema na tendência de expansão da indústria do etanol para o Mato Grosso do Sul, Goiás, e também o Mato Grosso. Esses estados são reconhecidos pela fragilidade dos seus sistemas de licenciamento ambiental, principalmente em relação a recursos hídricos. E etanol é basicamente água, misturada a outros componentes químicos. Torná-lo o combustível substituto do petróleo, na escala global com que sonha o presidente Lula, é o mesmo que amarrar ao mercado internacional a capacidade de a natureza brasileira produzir água pelas próximas décadas, independentemente das necessidades da população - que, aliás, não pára de crescer.

Para apostar na hipótese etanol internacional, se é que o Brasil precisa fazê-lo, seriam necessários estudos conclusivos prévios, sobre a capacidade de o País fornecer ao mercado global tamanho volume de água, via etanol, sem arriscar a segurança hídrica nacional.

Além disso, há o tal problema do licenciamento frouxo na maioria dos estados, algo que já preocupa quadros do governo responsáveis por regular o acesso aos recursos hídricos. Um dos que têm alertado para o problema é o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), José Machado, que em pelo menos uma vez tornou pública a sua preocupação.

Durante reunião sobre biocombustíveis no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), realizada em 20 de abril, em São Paulo, Machado afirmou que está tranqüilo quanto à capacidade de a ANA e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizarem o licenciamento ambiental de empreendimentos de etanol que demandem água de rios federais.

Os dois órgãos têm, segundo Machado, conhecimento teórico, segurança institucional e quadros técnicos suficientes para licenciar empreendimentos que demandem água de rios federais. O mesmo não poderia ser garantido, observou, em relação aos afluentes desses rios e aos afluentes dos afluentes. Em sua maioria, eles são rios estaduais sob responsabilidade dos sistemas de licenciamento estaduais.

Especialistas, como a doutora em química Sônia Hess, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, vêm alertando que a situação é ainda pior naque estado, onde a exigência de grandes quantidades de água para produção de etanol se soma à vasta poluição atmosférica gerada pela queima da cana. O MS recebe quatro projetos de cana financiados pelo BNDES, incluindo o maior de todos - o da LDC Bio, no município de Rio Brilhante, que sozinho levará mais de 10% de todos os desembolsos do Banco para o setor sucro-alcooleiro.

Foi o Banco quem identificou o caminho que o etanol vai traçando em direção ao centro-oeste. Transformado pelo governo em agente financeiro viabilizador do setor sucro-alcooleiro, e encarregado de subsidiar as posições que o Brasil defenderá na conferência internacional sobre biocombustíveis (São Paulo, novembro de 2008), o BNDES constatou uma disparada na demanda por seus financiamentos para o etanol, por parte de investidores nacionais e internacionais.

Eles são atraídos pela relativa fartura e baixo custo no Brasil dos insumos estratégicos para essa atividade. Aqui, há simultaneamente terra agricultável, recursos hídricos, mão-de-obra, amplo domínio do ciclo e da cadeia de produção do etanol. E, ainda por cima, o território brasileiro tem uma das cinco maiores insolações do planeta, o que potencializa a produção do álcool combustível.

Dadas estas facilidades, os financiamentos do BNDES para o setor representaram mais de 5% dos desembolsos totais do Banco em 2007. Em 2004, atingiram 1,2%. O valor médio dos projetos subiu de R$ 80 milhões para R$ 300 milhões (leia uma análise completa do perfil destas operações em www.ibase.br/dvdn).

É urgente a elaboração de um amplo plano diretor para orientar a indústria do etanol - e isso nem de longe se esgota com o prometido zoneamento econômico ecológico da cana, até agora não apresentado pelo Ministério da Agricultura. É preciso muito mais.

Por exemplo, necessitamos de mecanismos para impedir o financiamento público a projetos que provoquem o deslocamento de culturas de alimentos em direção a biomas sensíveis - em especial o pantanal, a floresta amazônica e o cerrado. Em verdade, o governo já deveria ter elaborado tal planejamento antes de iniciar sua cruzada pelos combustíveis agrícolas mundo afora. Mas, ainda há tempo de fazê-lo, para depois não termos de chorar sobre o etanol derramado.

*Jornalista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)

“Adital”

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Coloque um pouco de ciência em sua vida

Brian Greene*

Há dois anos atrás, recebi uma carta do Iraque. A carta começava dizendo que, como descobrimos dolorosamente, servir na linha de frente é fisicamente exaustivo e emocionalmente debilitante. O soldado escrevia, contudo, para dizer que, naquele ambiente inóspito e solitário, um livro que eu havia escrito tornou-se uma espécie de salva-vida. Como o livro é sobre ciência -traça a busca dos físicos pelas leis mais profundas na natureza- a carta do soldado pode parecer, bem, estranha.

Mas não é. Em vez disso, fala do papel poderoso que a ciência pode ter em dar contexto e significado à vida. Ao mesmo tempo, a carta do soldado enfatizava algo que passei a acreditar cada vez mais: nosso sistema educacional não ensina ciências de uma forma que permita que os estudantes a integrem em suas vidas.

Deixe-me explicar.

Quando consideramos a ubiqüidade dos telefones celulares, iPods, computadores e Internet, é fácil ver como a ciência (ou a tecnologia que gera) faz parte do tecido de nossas atividades diárias. Quando nos beneficiamos da tomografia computadorizada, aparelhos de ressonância magnética, marca-passos e “stents” arteriais, podemos apreciar imediatamente como a ciência afeta a qualidade de nossas vidas.

Quando avaliamos o estado do mundo e explicamos os desafios adiante como mudança climática, pandemias globais, ameaças de segurança e recursos reduzidos, não hesitamos em nos voltar para a ciência para avaliar os problemas encontrar soluções.

Quando olhamos para a riqueza de oportunidades no horizonte - células tronco, seqüenciamento genômico, medicina personalizada, pesquisa de longevidade, nanociência, interface cérebro-máquina, computadores quânticos, tecnologia espacial - entendemos como é crucial cultivar um público geral que possa se envolver em questões científicas; simplesmente não há outra forma para, como sociedade, estarmos preparados para fazer decisões informadas sobre uma série de questões que formularão o futuro.

Essas são as razões padrão -e enormemente importantes- que muitos dariam para explicar porque a ciência é importante.

Mas há outra coisa. A razão pela qual a ciência realmente importa é ainda mais profunda. A ciência é uma forma de vida. A ciência é uma perspectiva. A ciência é um processo que nos leva da confusão para a compreensão de uma forma precisa, previsível e confiável -é uma transformação para aqueles que têm a sorte de vivenciá-la, que dá poder e emociona. Ser capaz de pensar e compreender explicações -desde porque o céu é azul até como a vida formou-se na terra- não porque são dogmas, mas porque revelam padrões confirmados por experimentos e observação, é uma das experiências humanas mais preciosas.

Como cientista praticante, sei disso por meu próprio trabalho e estudo. Mas também vi que não é preciso ser cientista para a ciência ser transformadora. Eu vi os olhos das crianças se iluminarem enquanto eu falava de buracos negros e do big bang. Conversei com adolescentes que deixaram os estudos, depois encontraram livros de ciência populares sobre o projeto genoma e voltaram ao colégio com um novo propósito. E naquela carta do Iraque, o soldado me contou como aprender sobre a relatividade e a física quântica nos ambientes perigosos e empoeirados de Bagdá o deixaram mais resistente, porque revelaram uma realidade bem mais profunda da qual todos nós participamos.

É impressionante que a ciência ainda é amplamente vista como meramente um assunto que a pessoa estuda na sala de aula ou um corpo de conhecimento altamente esotérico e isolado, que algumas vezes aparece “no mundo real” na forma de avanços tecnológicos e médicos. Na realidade, a ciência é uma linguagem de esperança e inspiração, fornecendo descobertas que acendem a imaginação e instilam um sentido de conexão com nossas vidas e nosso mundo.

Se a ciência não for o seu forte -e para muitos não é- esse lado da ciência é algo que talvez você não tenha vivenciado. Conversei com muitas pessoas assim durante os anos, cujos encontros com a ciência na escola fizeram-nas pensar que era fria, distante e intimidante. Elas usam com alegria as inovações que a ciência torna possível, mas acham que a própria ciência não é relevante para suas vidas. Que pena.

Assim como uma vida sem música, arte ou literatura, a vida sem ciência perde uma dimensão rica, de outra forma inacessível.

Uma coisa é sair em uma noite clara e se maravilhar com o céu cheio de estrelas. Outra coisa é se maravilhar não só com o espetáculo, mas reconhecer que essas estrelas são o resultado de condições extremamente ordenadas há 13,7 bilhões de anos, no momento do big bang. E outra ainda é compreender como essas estrelas agem como fornos nucleares que fornecem carbono, oxigênio e nitrogênio universo, a matéria-prima da vida como a conhecemos.

É ainda outro nível de experiência compreender que essas estrelas são menos de 4% do que está aí fora -o resto, de composição desconhecida, é chamado de matéria e energia negra, e os pesquisadores estão vigorosamente tentando entender.

Como todo pai sabe, as crianças começam a vida como exploradores desinibidos do desconhecido. Assim que aprendemos andar e falar, queremos saber o que são as coisas e como funcionam -começamos a vida como pequenos cientistas. A maior parte de nós, contudo, rapidamente perde essa paixão científica intrínseca. E é uma perda profunda.

Muitos estudos se concentraram nesse problema, identificando oportunidades importantes para melhorar a educação científica. As recomendações variaram desde aumentar o nível do treinamento para os professores até reformas curriculares.

A maior parte desses estudos (e suas sugestões), contudo, evita uma questão sistêmica ampla: ao ensinar, desperdiçamos oportunidades ricas de revelar os horizontes assombrosos abertos pela ciência e, em vez disso, nos concentramos na necessidade de ganhar competência nos detalhes técnicos subjacentes à ciência.

De fato, muitos estudantes com quem conversei têm pouca noção das grandes questões que esses detalhes técnicos coletivamente tentam responder: de onde veio universo? Como a vida se originou? Como o cérebro faz nascer a consciência?

Como um currículo para música que exige que os alunos pratiquem escalas mas quase nunca os faz tocar grandes obras, essa forma de ensinar a ciência atrapalha a possibilidade de fazer os alunos se sentarem na cadeira e dizerem: “Uau, isso é ciência?”

Para ilustrar como há matéria-prima disponível para promover a educação, os avanços mais revolucionários da física aconteceram nos últimos 100 anos -relatividade especial, relatividade geral, mecânica quântica- uma sinfonia de descobertas que mudou nosso conceito de realidade. Os últimos dez anos viram uma revolução na nossa compreensão da composição do universo, gerando uma previsão totalmente nova para o que será o cosmo no futuro longínquo.

Esses são desdobramentos que abalam paradigmas. Entretanto, rara é a sala de aula na qual esses avanços são introduzidos. O mesmo acontece nas turmas de biologia, química e matemática.

Na raiz dessa abordagem pedagógica está uma crença na natureza vertical da ciência: primeiro você tem que dominar A, antes de entrar em B. Quando A aconteceu há algumas centenas de anos atrás, é uma longa subida até a era moderna. Certamente, para ensinar tecnicalidades -resolver uma equação, equilibrar uma reação, aprender as partes da célula- a verticalidade da ciência é inquestionável.

A ciência, entretanto, é muito mais do que seus detalhes técnicos. E com uma apresentação cuidadosa, as visões e descobertas modernas podem ser comunicadas clara e fielmente aos alunos, independentemente desses detalhes; de fato, essas visões e descobertas são precisamente as que podem mover um jovem a querer estudar os detalhes. Roubamos da educação da ciência da vida quando nos concentramos somente nos resultados e procuramos treinar os alunos para resolver problemas e recitar fatos, sem uma ênfase em levá-los para além das estrelas.

A ciência é a maior de todas as histórias de aventura que vem se desdobrando há milhares de anos enquanto procuramos compreender a nós mesmos e nosso entorno. A ciência precisa ser ensinada aos jovens e comunicada aos adultos de uma forma que capture esse drama. Precisamos embarcar em uma mudança cultural que coloque a ciência em seu local de direito, ao lado da música, arte e literatura, como uma parte indispensável daquilo que faz a vida valer a pena.

É direito de nascença de toda criança e uma necessidade de cada adulto olhar para o mundo, como fez o soldado no Iraque, e ver que a maravilha do cosmo transcende tudo aquilo que nos divide.

*Brian Green é professor de física em Columbia e autor de “The Elegant Universe” e “The Fabric of the Cosmos”.

“The New York Times”

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Para enganar a fome, haitianos se alimentam com bolachas de terra

RECEITA INDIGESTA Antes utilizadas para conter o desejo das mulheres grávidas, as bolachas feitas de argila, água, sal e margarina têm servido de alimento à população

Claudia Jardim

EM FRENTE ao Fort Dimanche, antigo centro de tortura do ex-ditador Jean-Claude Duvalier, um grupo de mulheres haitianas iniciam mais um dia de trabalho. Sob um forte calor, estendem no meio da quadra de basquete vários tecidos que serão utilizados como bandejas. Duas mulheres mesclam juntas, com as mãos em um balde, uma massa: argila, água, sal e margarina. Outras se ocupam de dar-lhes uma forma arredondada.
Essa é a receita das bolachas de terra, antes utilizadas para conter o desejo das mulheres grávidas. Mas a história da bolacha e dos haitianos mudou. Há algum tempo, as bolachas estão sendo consumidas para enganar a fome. “ Nós vendemos a bolacha, mas quando não temos dinheiro para comprar comida, também comemos isso, não tem jeito”, conta Rosemary Paul, enquanto esperava que o sol secasse a produção do dia.
Rosemary vive, há três anos, em Fort Dimanche, umas das favelas mais pobres da capital Porto-Príncipe. Optou por deixar os dois filhos com a mãe no campo, nutrida pela esperança de conseguir um trabalho na cidade para poder pagar a escola para as crianças.
“Lá pelo menos a escola é mais barata”, afirma a mulher, para logo acrescentar: “Mas tá difícil, nem isso conseguimos pagar”.
No Haiti, 82% das escolas são privadas e 42% da população é analfabeta. É comum escutar famílias que no final do mês têm que decidir se pagam a escola ou compram comida. Muitas vezes não podem optar nem por uma uma coisa nem outra.

Saciedade
No Haiti, tradicionalmente, algunas mulheres grávidas consomem as bolachas de argila como fonte de cálcio e minerais encontrados na terra. Outras comem por desejo, relatam os haitianos. Mas quando a panela está vazia, Rosemary diz que a bolacha de terra é a opção de muitas famílias. “No centro da cidade, onde vendemos, muitos compram por fome também, não é só para mulher grávida”, relata.
No Haiti, 47% da população sofre de desnutrição crônica, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A bolacha de terra é salgada e absorve toda a umidade da boca, provocando sede. O barro e a água juntos produzem uma sensação de saciedade. “Não faz mal nenhum”, afirma Rosemary. A argila utilizada na produção das bolachas é trazida do Estado de Hinche, centro do Haiti, e é vendida a 5 dólares, uma quantia equivalente a 100 bolachas.
No mercado, Rosemary e outras dezenas de haitianos vendem cada bolacha a 5 gourdes (moeda local), que valem 0,13 centavos de dólar, enquanto um quilo de arroz é vendido a 2,50 dólares, 50% mais caro que há um ano. Os haitianos que trabalham (70% dos trabalhadores estão desempregados) sobrevivem com menos de 2 dólares diários.
A poucos metros de onde as mulheres preparavam o barro, um grupo de jovens jogava dominó. As crianças, umas descalças, outras nuas, brincavam com o que encontravam em meio ao lixo e ao esgoto que corre a céu aberto.

Tabu
A bolacha de terra também é o passatempo das crianças que chupam pequenos pedaços da bolacha como se fossem um doce. No canto da boca escorre a argila. “Eu como quando dá fome”, disse, envergonhado, Wilgens, de 11 anos.
Admitir que se come a bolacha por fome também é um tabu. No bairro La Salines, ao lado do Fort Dimanche, uma família inteira participava da produção das bolachas. Secavam o produto nos tetos das casas. “Fazemos isso há oito anos”, contou Emma Pierre.
Acompanhada pelo esposo e três filhos, Emma nega que os haitianos estejam comendo a bolacha por fome. “Ninguém come isso. Nós vendemos para comerciantes na República Dominicana, que usam o lodo em clínicas de estética. Uma pessoa que come isso todos os dias vai morrer”, afirmou Emma. Atrás dela, a filha menor mostrava a língua tingida pelo barro.
Evangélica, Emma acredita que a miséria do povo haitiano é uma profecia escrita na Bíblia e se resigna. “Não é o presidente que vai mudar isso. É com Jesus que falamos quando temos fome”, disse.

14 toneladas de comida
Os haitianos são fanáticos por futebol, em especial pelo brasileiro. Um grupo de meninos disputavam entusiasmados quem seria o Ronaldinho ou o Kaká naquela tarde. Fort Dimanche está ao lado da maior favela de Porto Príncipe, Cité Soleil, área sob controle militar das tropas brasileiras que pertencem à Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti ( Minustah).
Mepri, de seis anos, um dos tantos que se diz Ronaldinho em Fort Dimanche, falava dos gols que faria no jogo do próximo domingo, mas de repente, sem avisar, mudou de assunto. “ O Brasil nos mandou comida e (René) Preval vendeu e não nos deu”, disse.
Essa é a percepção de muitos haitianos sobre a ajuda alimentar enviada pelos demais países. Além de ser insuficiente para alimentar a todos, muitas vezes a comida se perde no caminho, desviada pela corrupção. “Nós preferimos entregar nas mãos das pessoas a bolsa de alimento, assim sabemos que está chegando para quem necessita realmente”, disse o embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman.
Na última crise, desencadeada pelo aumento dos preços dos alimentos, o Brasil enviou 14 toneladas de alimentos ao país. De acordo com o governo brasileiro, mil familias foram beneficiadas com uma bolsa de alimento. O envio de alimentos foi questionado por analistas que consideram que somente a ajuda alimentar aumenta a dependência e não soluciona o problema.
“A ajuda deveria estar direcionada para incentivar a produção nacional e solucionar os problemas de fundo que geram a pobreza e a fome”, avaliou Marc-Arthur Fils Aimé, analista político, diretor do Centro Cultural Karl Lévêque.

30% chega ao país
De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Haiti recebe 314 milhões de dólares de ajuda internacional, que são destinados às despesas. No entanto, de acordo com o senador da base governista, Jean Hector Annacacis, apenas 30% deste total anunciado realmente chega ao país, muitas vezes, com destino já definido.
“E na maioria das vezes esse dinheiro vem condicionado a projetos de ONGs que são pouco eficientes. Não nos perguntam o que necessitamos ou para onde pensamos que deveria ir esse recurso, o que torna a ajuda pouco efetiva”, critica.
Em Fort Dimanche, já era final da tarde e ameaçava chover. “Estamos em época de chuva, chove todos os dias”, disse Rosemary, apressada para recolher as bolachas já secas. Desanimada, a mulher não vê solução para a crise de seu país.
“A situação está cada vez pior e não temos um governo que se preocupe com os nossos problemas. Eu não vejo como isso pode mudar”, afirmou. Olhando as crianças ao lado, acrescentou: “Para elas tampouco há saída, se nem direito de ir à escola têm, como vamos mudar essa situação?”, lamentou.

“Brasil De Fato”

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A política de destruição da floresta

AMAZÔNIA Pesquisador e ativista do Greenpeace critica MP que legaliza grilagem e denuncia descaso com a questão ambiental

Dafne Melo

ATUALMENTE, calcula-se que 18% da floresta amazônica esteja devastada. Até 2050, se o atual ritmo persistir, metade da área original desaparecerá. Em abril, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que detecta a devastação em tempo real, informou que 72,4 mil hectares foram devastados em fevereiro, 12% a mais que em janeiro.
Esse quadro tende apenas a piorar com as pretensões do governo federal para a Amazônia: transformá-la numa área de expansão do agronegócio e de atuação de transnacionais para garantir o crescimento econômico, mesmo que às custas da destruição da floresta e do aprofundamento da concentração fundiária no Brasil.
Conforme matéria publicada na edição 266 do Brasil de Fato, a medida provisória 422 – que legaliza a grilagem de terras públicas na Amazônia – sacraliza uma outra série de práticas ilegais na região. Em entrevista, Sérgio Leitão, do Greenpeace, analisa as conseqüências da MP, critica a visão que os sucessivos governos brasileiros têm da região e descreve o ciclo da destruição na floresta.

Brasil de Fato – Como o senhor vê a edição da medida provisória 422?
Sérgio Leitão – Essa MP legaliza todo o processo de invasão de terras públicas feito na Amazônia; usa como justificativa o argumento de que é para beneficiar pequenos posseiros e ocupantes, ou seja, setores sociais que não são proprietários de terras. Isso não é verdade, pois, se olharmos o volume de área legalizada por essa MP – 1.500 hectares para cada dono –, essa afirmação não faz sentido. Alguém que tem 1.500 hectares não é um pequeno proprietário. Não há dúvidas de que a MP foi feita para beneficiar o processo de ocupação ilegal da Amazônia por grandes transnacionais. Isso já estava sendo reivindicado pela bancada ruralista, por meio de projeto de lei do deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB-RS). A MP é uma cópia dessa proposta. Quando o governo topa editar uma MP idêntica ao PL do Asdrúbal Bentes, é sinal de que atendeu à reivindicação ruralista. Isso mostra que ele não está disposto a criar restrições, proibições e ações efetivas que dêem conta da grilagem, pelo contrário, estimula o oposto disso. A mensagem é: quem invadiu e grilou está perdoado, quem não invadiu fica estimulado a fazê-lo. Há um duplo efeito nocivo: perdoar a ilegalidade e incentivar novas grilagens. Agora estamos vendo a questão da Raposa Serra do Sol, em Roraima. Uma parte do governo até quer resolver a questão da regularização das terras; outra parte cobra a desocupação pelos povos indígenas. A MP é parte desse pacote de desrespeito às posses de populações tradicionais.

Historicamente, nenhum governo tem mostrado vontade política de resolver a grilagem de terras públicas na Amazônia, certo?
A visão dos governos sobre a Amazônia, principalmente de 1964 para cá, é a de que ela deve ser uma área de expansão de atividades econômicas que interessam ao país – ou o que os governantes acham que interessam ao país. Também é usada como “válvula de escape” da reforma agrária, já que ela não é feita. Então, dois terços da reforma agrária no período militar foi feita na Amazônia; dois terços dos assentamentos no governo Fernando Henrique Cardoso também; e dois terços dos assentamentos no governo Lula estão sendo feitos lá. Ou seja, não se resolve o que deve ser resolvido – a distribuição de terras – e a Amazônia vira um quarto de despejo dos conflitos agrários nacionais. O que se faz lá, aliás, é colonização agrária, que não mexe na expropriação e distribuição de terras, mas regulariza.

A violência no campo pode ser vista como uma conseqüência do que você descreveu?
O mapa da violência de 2006 mostra que entre as 10 cidades mais violentas, em números relativos, quatro delas estão na zona de expansão da fronteira agrícola da Amazônia. Toda vez que há processos de invasões intensos no campo, há explosão da violência, pois todos começam a disputar o espaço, aparentemente sem dono. E como não há regularização de terras e uma ausência completa do Estado – não há polícia, Judiciário, Ministério Público – a solução dos conflitos é a bala. O município de Colniza, no Mato Grosso, fronteira com Rondônia, é emblemático. Há uma explosão da violência porque há todos esses elementos: madeireiras, frentes de grilagem, assentamentos do Incra. A terra pública não é vista como terra controlada pelo Estado, mas um espaço aberto para ser tomado pela grilagem que depois se legaliza com medidas como essa. Isso é o que no Greenpeace nós chamamos de plano de aceleração da grilagem.

Existe preocupação ambiental por parte do governo? Há pouco tempo houve debate sobre o aumento de desmatamentos e promessas de diminuí-lo. O que tem sido feito concretamente?
Não existe preocupação ambiental. Parte pequena e sem poder até tem interesse em conter os desmatamentos. É algo assim: quem quer combater o desmatamento, não pode, não tem condição para isso. Já a parte que pode, não quer. Se compararmos o andamento do programa de combate ao desmatamento – uma ação que reúne vários ministérios sob a coordenação da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef – com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), também sob coordenação da Dilma, vemos uma clara distinção. Ela inaugura obras pelo Brasil, fala todo o tempo disso, mas nunca fala da necessidade de se conter a devastação da Amazônia. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) até quer fazer, mas não pode. A Dilma pode, mas não quer, pois não está na prioridade de sua linha de ação.
As medidas de combate ao desmatamento são apenas para compensar aquilo que o governo faz para estimular a política de ocupação e desmatamento da Amazônia. As ações funcionam mais como uma espécie de satisfação à opinião pública do que uma política séria. O grosso dos recursos governamentais são para fomentar atividades econômicas na região. Não há recursos para atividades sustentáveis. Não é dado crédito para agricultores que querem fazer plano de manejo na área de floresta, nem mesmo recurso para a área de pesquisa, ciência e tecnologia que ajude a pensar a questão do manejo das florestas, pois é um tema em que não há consenso científi co de que é possível regenerá-las, por exemplo. Os recursos só vão para o lado da destruição. Enquanto não mudar isso, os índices de desmatamento vão continuar altos. Quando essas taxas caem, é porque há uma queda dos preços dos produtos agrícolas. A ação do Estado nesse meio é residual.

A região é vista pelo Estado, então, unicamente como uma área de expansão agrícola?
Nessa visão de crescimento econômico a qualquer preço, a região é tida como o espaço que vai permitir ao país manter a posição de grande exportador de produtos agrícolas e minerais, local disponível para a construção de grandes obras de infra- estrutura. Essa visão da Amazônia é um intransitivo da ação de governo, seja PT, PSDB, DEM/PFL ou militares. Não adianta nenhum ministro ou ministra se demonstrar bem intencionado, porque sua ação sempre será residual diante do restante do governo que vê a Amazônia como espaço a ser explorado para garantir o crescimento do país.

Como as atividades econômicas hoje realizadas afetam o meio ambiente?
As forças econômicas da Amazônia funcionam quase como uma linha de montagem. No modelo clássico da fábrica de automóveis, cada um faz sua parte, e lá na frente você tem um carro pronto. Na Amazônia, há a linha de montagem da destruição. A primeira que chega é a madeireira, que abre a estrada, rasga a floresta e retira a madeira. Em seguida, queima-se o que sobrou e põe-se o gado. Depois, vem a monocultura da soja. Essas atividades econômicas não são isoladas, estão relacionadas entre si e operam hoje como uma frente de ocupação da região.
A última etapa é a ida de transnacionais que vão para a região produzir a preços mais baixos do que obteriam em qualquer outro lugar, pois lá há abundância de terra e água, além de um clima regular e estável. As condições são imbatíveis. No final dessa linha de montagem temos grandes transnacionais instaladas, a floresta destruída e a região sendo mudada de forma radical.
O prejuízo disso para o Brasil e para o mundo, do ponto de vista ambiental, é imenso, pois a Amazônia é uma região fundamental para o equilíbrio climático do planeta. A chuva que cai nas áreas agrícolas do país, inclusive no Centro- Sul e Sudeste, e também em toda região da Bacia do Rio da Prata tem relação com o regime de chuvas amazônico. O Inpe já comprovou que quando chove menos lá, chove menos nas áreas agrícolas do país, por exemplo.

Essas queimadas anunciadas nos jornais são feitas após a ação das madeireiras?
Exato. Às vezes, dependendo do interesse econômico, já queimam direto. A voracidade e a velocidade com que agem as frentes de ocupação é brutal. Isso explica porque, hoje, já se tem 18% da floresta destruída. E isso só tende a crescer, pois todas as empresas estão indo para a Amazônia, quem não foi, está indo, comprando terra. Isso se reflete, por exemplo, nos projetos de lei, na pressão dos ruralistas para flexibilizar a legislação. Há, por exemplo, o PL 6424/2005, do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que altera o código florestal para permitir o plantio de cana-de-açúcar para a produção de agrocombustíveis. Já passou no Senado e agora está na Comissão de Meio Ambiente da Câmara de Deputados. Na prática, o proprietário de terras, ao invés de recuperar a floresta derrubada, poderá cultivar “plantas exóticas” [plantas não originárias da Amazônia] como dendê, eucalipto e cana, com a desculpa de que isso ajudará o país na área de agrocombustíveis. Isso consolidaria o que já foi destruído e diminui a proteção. E a cana já está lá: no Pará, Mato Grosso, Acre, e vai crescer mais.

Além da pecuária de corte, há interesses das transnacionais em produzir leite também na região, não?
A Amazônia estaria no plano de várias empresas que querem torná-la a maior bacia leiteira do mundo. Ali seria possível vender o litro de leite a 11 centavos de real. Se isso for verdade, essas condições de produção não se repetem em nenhum lugar no mundo. E parece algo plausível, porque hoje a Amazônia já é a maior produtora de carne do Brasil, e o Brasil, o maior produtor de carne do mundo. No resto do país, o rebanho cresce negativamente, ou seja, aumenta- se a atividade pecuária na Amazônia e diminui em outros lugares. Para ilustrar isso, em 1964, havia 1 milhão de cabeças de gado e hoje existem 80 milhões. Esse gado não nasceu todo lá, a maior parte foi levada; e continua sendo levada.

Qual é a visão que devemos ter da Amazônia?
A visão de que a floresta pode prestar serviços econômicos e ambientais ao Brasil e à humanidade, sem ser derrubada. A visão, hoje, é que ela só serve se estiver no chão. O volume de área que já se desmatou é sufi ciente para manter todas as atividades agrícolas que se quer para a Amazônia. Mas param de cortar? Não, as pessoas querem terra nova, não uma que já foi desmatada, para, assim, cortar a floresta e entrar na dinâmica da linha de montagem. Até 2050, calcula-se que mais 25 ou 30% de seu território serão devastados, ou seja, até lá, metade da área original será destruída. Certamente haverá aumento de secas, queimadas e diminuição das chuvas. E aí podemos ver as confirmações dos cenários mais catastróficos.

Quanto
1 hectare corresponde a 10 mil metros quadrados, o equivalente a um campo de futebol

“Brasil De Fato”

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A saga do abecedário

Herbert E. Brekle

O alfabeto latino é o ponto culminante da evolução de uma escrita que começou há 3.500 anos na península do Sinai. Descobertas recentes revelam os princípios que conduziram à mudança na forma das letras do alfabeto, de suas origens ideográficas aos atuais traços abstratos.
Este texto semita do século X a.C. facilmente decifrado é um calendário de agricultores , que indica, a cada mês, a melhor forma de cultivo.

Como seria nosso mundo sem escrita? Não existiriam jornais, livros e cadernos escolares, assim como não existiriam anúncios luminosos de néon - e se fosse assim, teríamos de nos conformar. Experiências de vida não poderiam ser registradas, e as tradições só poderiam ser passadas para gerações futuras de forma oral. Sem o advento da escrita é quase impossível imaginar a civilização.

O alfabeto é para nós algo natural. Por isso, quase ninguém pensa de onde vieram realmente as letras do alfabeto que hoje utilizamos. No entanto, a invenção do alfabeto não foi algo espontâneo e está marcada por um longo processo de desenvolvimento.

Nosso alfabeto começou sua viagem através do tempo e do espaço há três milênios e meio, no Egito. Lá os semitas criaram, com base, em parte, nos hieróglifos, as formas das letras do chamado alfabeto proto-sinático.

Dessa escrita arcaica e ainda muito pictorial, desenvolveu-se posteriormente o alfabeto fenício. Exportado por comerciantes e navegantes para a Grécia, esse alfabeto continuou a modificar-se, passando pelos etruscos e romanos até chegar ao nosso alfabeto atual.

Há muito tempo os lingüistas descrevem as constantes mudanças presentes no processo de configuração das letras do alfabeto, mas é difícil entender suas razões e causas. Apesar da notável tendência à simplificação e à abstração dos signos da escrita, muitas das mudanças parecem até hoje casuais aos olhos dos lingüistas.

Sem dúvida, o acaso sempre fez parte do desenvolvimento de nossa escrita - do mesmo modo que também exerceu influência sobre a evolução biológica: ele cria variantes, cujas utilidades precisam ser comprovadas de acordo com as demandas cotidianas. Na verdade, atrás das mudanças na forma das letras esconde-se a capacidade do ser vivo em se adaptar às particularidades do ambiente - no caso do alfabeto, isso pode ser percebido na utilização de diferentes materiais escriturários.

Assim, efetivam-se critérios de seleção que controlam o processo de desenvolvimento e, especialmente, as condições da escrita motora e a vantagem de uma capacidade de reconhecimento visual, rápida e inequívoca. Desde a era do bronze, esses critérios de seleção atuaram no sentido de modificar e simplificar constantemente a forma das letras, e com isso otimizaram-na passo a passo.

Como descobri e gostaria de demonstrar aqui, uma das estruturações introduzidas pelos fenícios desempenhou um papel importante nesse processo. Essa estrutura, a qual batizei de hasta+coda, está presente em grande parte dos signos da escrita. Em conjunto com propriedades de simetria, ela produz alguns princípios fundamentais e simples, a partir dos quais podemos compreender o desenvolvimento da forma das letras latinas, não apenas como adequado empiricamente, mas também como algo que se explica teoricamente.

Raízes Semitas
Voltemos à origem do nosso alfabeto. Por volta de 1.500 a.C. havia na península do Sinai, que pertencia ao território egípcio, trabalhadores semitas “convidados”. Provavelmente com base em seu conhecimento dos hieróglifos egípcios, eles desenvolveram uma escrita alfabética pura, na qual um signo representava apenas um som específico. Os hieróglifos, diferentemente, eram a mistura de uma escrita de palavras e consoantes, na qual alguns símbolos correspondiam a uma consoante, e outros, a uma palavra inteira.

As letras do alfabeto, que os semitas criaram na península do Sinai, correspondiam apenas às consoantes do dialeto falado por seus inventores - algo como se em vez de “gramática” escrevêssemos “grmtc”. Tal escrita era adequada à estrutura da língua dos semitas e até hoje é usada no hebraico e no árabe. Os primeiros textos escritos com essas letras, gravados em pedra, registravam invocações divinas e outros assuntos religiosos.

A forma das letras proto-sináticas era ainda muito pictorial: uma cabeça de boi asimbolizava, por exemplo, o aproximante lateral alveolar semita / b/, que aparece também no alemão em vogais tônicas, no início das palavras. Uma cobra c correspondia a /n/, a planta de uma casa d a /b/ e assim por diante. (Os lingüistas anotam entre barras os tipos de som de uma língua, os chamados fonemas.)

A letra representa aqui o primeiro som da palavra semita para o objeto representado. Uma cabeça de boi a significa “boi” - o correspondente semita é balep - e também o som de obstrução da glote no início dessa palavra / b/. Analogamente, /b/ é derivado de bet, palavra usada para designar “casa”. A letra inicial de kap (”mão”) representa /k/ e a inicial de mem (”água”) representa /m/. Suas formas em letras proto-sináticas são e e f. O primeiro signo representa uma mão humana com polegar recolhido.
A água é representada como uma superfície ondulada.

Partindo do mote “tudo é uma questão de costume”, os escritores semitas, com crescente prática, acabaram simplificando, ao longo do tempo (até aproximadamente 1100 a.C.), o inventário das formas de seu primeiro alfabeto. Eles queriam que as letras pudessem ser escritas com mais fluência, com o auxílio de uma cunha ou de um cálamo. Essas letras foram configuradas com base nos antigos signos pictoriais, porém de forma mais abstrata e simples. Os símbolos se tornaram assim, ao mesmo tempo, mais inequívocos e fáceis de decorar. Porém, perderam gradativamente a semelhança com a imagem, que servia como suporte imediato da memória.

No decorrer desses ajustes o e kap foi simplificado, por exemplo, por g, perdendo assim uma das pontas semelhantes às de um garfo. Os fenícios, ao adotar e continuar o processo de desenvolvimento do alfabeto semita por 3 mil anos, deram um passo à frente: deram à letra kap a forma h.

Como se explica tal transformação? Os escritos semitas eram lidos e também escritos da direita para a esquerda - o que afeta a seqüência das letras. Porém, ao desenhar as letras - como os três traços de g - os escribas semitas muito provavelmente moviam a mão da esquerda para a direita.

Traço Final
Pode-se facilmente imaginar a maneira com que a terceira ponta da letra, num impulso motor da mão, prolongava-se para baixo, transformando-se em um traço final. Essa inovação foi aperfeiçoada pelos fenícios, que uniram as duas primeiras pontas da letra g em um ângulo, voltado para a esquerda. Assim, a letra era composta então por dois elementos, que deixavam a escrita mais rápida: um gancho curto i e um traço final, que servia de apoio ao vértice do ângulo - daí dá-se h.

Essa divisão em duas partes pode ser observada em cerca de metade das 22 letras do alfabeto fenício. Dei a cada elemento estrutural uma identificação própria. Chamo o primeiro, o elemento da esquerda, de coda (”cauda” em italiano, do latim cauda), e o segundo, o elemento da direita, de hasta (”haste” ou “lança” em latim). Como traço final, a hasta parece-se com uma “haste” vertical. A coda, por outro lado, é formada de acordo com a direção da leitura, que vai da direita para a esquerda, como se fosse a “cauda” da letra - mesmo se ela for escrita em primeiro lugar.

Com essa divisão em duas partes, pode-se explicar também, sem muito esforço, como mem f (”água”) e nun c (cobra) adquiriram depois as formas de k e l. Pode-se perceber claramente que ambos os signos - mais uma vez por causa da escrita - contêm, da mesma maneira, um traço final vertical.

Em waw m (”martelo”) e rosch n (”cabeça”) a estrutura hasta+coda é aplicada já nas primeiras formas pictoriais das letras. O primeiro signo desenvolveu-se, depois passou por o e posteriormente pela forma p, na qual o arco da coda está posicionado acima e à esquerda. De maneira análoga, rosch n foi também simplificado, assumindo a forma r. O traço final origina-se da nuca e da parte posterior da cabeça; na porção mais alta à esquerda, o perfil estilizado transformou-se em um ângulo, que representa a coda.

A estrutura hasta+coda alimenta-se de duas fontes. A primeira origina-se de um impulso do ato de escrever, gerando traços mais ou menos verticais. Na outra, a direção da linha, presente já nos primeiros signos pictoriais, converte-se, como que por si própria, numa estrutura hasta+coda, através de simplificações motoras da escrita.

Dessa forma pode-se dizer que as letras possuem uma direção: elas transformam-se em vetores, que apontam para a esquerda. Assim, garantem que a direção da leitura e da escrita siga da direita para a esquerda (o que afeta a seqüên-cia das letras). O resultado é a criação de um padrão, tanto ao se escrever um texto, quanto na apreensão e decodificação das letras, que faz com que o leitor assimile o texto da direita para a esquerda. Assim, por um lado, a escrita ficou mais fluente, enquanto, por outro, o reconhecimento e a compreensão se tornaram mais fáceis - uma dupla vantagem relacionada ao advento do alfabeto fenício.

“balep”, disse um fenício lentamente. Depois, sob a luz fraca de uma lanterna a óleo, pendurou uma plaquinha em frente a seus alunos gregos, contendo a letra x. Assim continuou, placa após placa, até percorrer todo o alfabeto fenício: s - “balep”, t - “bet”, u - “he”, p - “waw”, v - “yod”, S - “wayin” e assim por diante. A cena não é verdadeira, mas a transmissão do alfabeto poderia ser representada por um fenício que passa seu conhecimento a alunos gregos sedentos de saber, por volta de 800 a.C.

Apropriação Grega
Um problema é posto para o pobre estudante grego: alguns sons iniciais do nome das letras do alfabeto fenício não soam familiares e, principalmente, não há correlato para eles em sua língua indo-européia. Mas o estudante descobre rapidamente a solução: ele procura sons que se assemelhem aos de sua língua e que soem de modo familiar (ver quadro na pág. 41, em cima). Assim, ele substitui o som de bloqueio da glote /b/ de balep, que não existe em sua língua materna, pelo som /a/ que lhe parece semelhante. Esse procedimento possui um efeito reconfortante, e faz com que o novo significado da letra possa ser representado por uma vogal grega; vale lembrar que os fenícios semitas escreviam apenas as consoantes. Assim, os gregos organizaram um alfabeto capaz de representar na escrita grande parte dos sons de sua língua.

As letras das primeiras inscrições gregas ainda apresentam, praticamente, a mesma forma daquelas utilizadas pelos fenícios do mesmo período. As primeiras grandes mudanças se deram nas letras alpha, beta, delta e iota. Assim o x transformou-se em s - a boca do boi não apontava mais para a esquerda e para baixo, mas para a direita e para cima. Com mais um giro no sentido anti-horário a letra ficou de pé: B. Essa transformação adapta-se perfeitamente à estrutura hasta+coda.

Do espelhamento horizontal da letra fenícia t dá-se C, que às vezes também é escrita com dois semicírculos como em D. Observa-se aqui que a estrutura hasta+coda é preservada. O fenício dalet 5 aparece como delta em três variantes: E, F e G. As duas primeiras mostram, mais uma vez, a estrutura hasta+coda típica e a segunda, arredondada para acelerar a escrita, encontra finalmente sua forma canônica no alfabeto romano (espelhada, em função da inversão do sentido da escrita, que agora passa a ser da esquerda para a direita). A terceira, variante axial simétrica, corresponde à forma clássica e moderna da letra delta. O iota arqueado em forma de anzol foi logo substituído por um traço vertical simples j, que corresponde a uma hasta sem coda.

Os gregos diferenciam-se também, em outro ponto, de seus mestres fenícios: eles não se fixam mais estritamente no sentido da escrita e da leitura, que se dá da direita para a esquerda. Assim, parte dos primeiros textos gregos foi escrita também da esquerda para a direita. Mais interessante é perceber que os gregos faziam uso de uma forma mista de escrever e alternavam, linha a linha, a direção da escrita. Os gregos cunharam a expressão boustrophedon, “como os bois aram a terra”. Dessa forma, quando uma linha termina, não é preciso desviar o olhar para o início da próxima linha, basta dar “marcha à ré” e continuar a leitura.

Pode-se dizer então que as letras com estrutura hasta+coda seguem, em sua orientação, a direção da escrita correspondente: a coda olha sempre para a frente, em determinado sentido. Os escritores e leitores da Grécia Antiga não consideravam arbitrária a sucessão de linhas, mas como símbolo direcionado. Isso comprova o quão profundamente a estrutura hasta+coda estava ancorada em seu pensamento.

Como citei anteriormente, as letras indicavam, constantemente, a direção da leitura porém, nos textos boustrophedon, sua orientação mudava de uma linha para a outra: cada par de linhas parecia uma escrita espelhada.

Para seguir corretamente o texto, era necessário que o leitor e o escritor fizessem um considerável esforço de elaboração: a cada linha, ambos precisavam mudar completamente sua programação neuronal, responsável pela produção e reconhecimento de textos. Letras com um eixo de simetria vertical eram como uma bênção, uma vez que permaneciam iguais. No início, porém, apenas algumas poucas letras apresentavam tal simetria, como o H zeta, que mais tarde, devido à motricidade da escrita, foi simplificada na forma de Z, o I (h)eta que mais tarde se tornou H, o J theta, o S omikron, o K tau e as letras adicionais criadas pelos gregos F phi, X chi, Y psi e W omega. Aproximadamente, no século VI a.C., as formas B, L, k, N e O passaram a ser simétricas. O motivo dessa mudança é facilmente explicável: a simetria axial facilitava o reconhecimento das letras numa escrita de direção alternada.

Posteriormente, no século IV d.C., foi estabelecido que a direção da escrita língua grega seria da esquerda para a direita. De certo modo, o princípio hasta+coda foi preservado. O hasta passou, simplesmente, de traço final para inicial. Com isso a função motora da escrita foi modificada: ela não era mais a expressão da energia excedente de movimento ao final da letra, mas o impulso com o qual o escritor começava a escrever um signo.

Provavelmente, esse papel está também no fundo da segunda função do princípio hasta+coda: orientar as letras no sentido da leitura para facilitar o seu reconhecimento pelo sistema visual. De todo modo, esse princípio influenciou também, como se pode perceber, as futuras transformações na forma das letras nos alfabetos grego e latino - provavelmente, como princípio regulador inconsciente. Isso ressalta o fato de que não se trata aqui de uma marca casual das configurações da escrita fenícia, mas de um dispositivo de auxílio à escrita e à leitura, enraizado em processos neuronais.

Foi mencionado que o princípio hasta+coda não exerce um papel no desenvolvimento da escrita proto-sinática no caso das línguas hebraica e árabe. No entanto, podemos apenas especular sobre os motivos desse fato.

Rumo a Oeste
Considera-se, em geral, que os fatores motores da escrita só podem ser operados quando um texto é escrito manualmente, sob uma base, com uma cunha, uma pena ou qualquer outro instrumento. No caso das inscrições talhadas, ao contrário, esses fatores atuariam de forma natural e indireta. No entanto, também aqui os acidentes são muitas vezes assimilados, levando a modificações motoras da escrita. Pode-se dizer que a utilização da escrita cursiva foi o ponto de partida principal para as mudanças na forma das letras. Até os primeiros gregos, era consensual o uso apenas de letras maiúsculas. Porém, essa disposição começou a mudar quando o alfabeto seguiu seu rumo em direção ao oeste.

Ainda no século VIII a.C., o alfabeto da metrópole grega atingiu suas colônias do sul da Itália. De lá, foi apropriado por etruscos e romanos - com pequenas modificações. A célebre inscrição lapis niger, que data aproximadamente do ano de 600 a.C., apresenta uma impressão de tipos romanos arcaicos, inscrita sobre um monumento - usando ainda a escrita de direção alternada, em estilo boustrophedon.

Paralelamente, houve a necessidade crescente de se desenvolver uma escrita cotidiana, que é de fundamental interesse para a temática deste artigo. Porém, esses registros não se conservaram. Eles são encontrados apenas a partir do terceiro século antes de Cristo. Um exemplo especialmente importante provém do século I .É uma carta, escrita com um cálamo sobre papiro, material de escrita mais utilizado pelos antigos.
Nessa carta, as letras ainda eram dispostas separadamente, mas já se podia perceber algumas marcas da nossa escrita cursiva atual. Como é o caso da utilização de letras maiúsculas e minúsculas, observada aqui pela primeira vez. São visíveis as diferenças entre inscrições do mesmo período, gravadas em pedra. Nessas inscrições, as letras preenchiam exatamente os espaços delimitados por linhas inferiores e superiores. Na carta, ao contrário, alguns signos determinados quebravam o sistema clássico de duas linhas, avançando para baixo e/ou para cima. Esse fenômeno pode ser facilmente observado nas letras U, V, W, X, Y, e Z (= r).

O rompimento desses limites e suas causas tornam-se ainda mais fundamentalmente claras no século I d.C. Escavações nas províncias romanas de Pompéia e Herculano, soterradas pelo Vesúvio no ano de 79, propiciaram a descoberta de cem inscrições, que constituem um rico acervo para a reconstrução das mudanças motoras ocorridas na forma das letras do alfabeto. Elas continham, especialmente, informações sobre o cotidiano: os escritores as eternizavam, utilizando cunhas, pincéis ou penas, gravando-as sobre superfícies minerais ou de madeira; o estilo da escrita poderia ser definido como algo entre cuidadoso, dinâmico e solto.

À primeira vista, a forma das letras apresenta um considerável leque de variantes. Porém, analisando-se com atenção, percebe-se que a aparente “orgia” desregrada dos signos, avançando ora para cima, ora para baixo, é determinada estruturalmente. O fator determinante aqui é, mais uma vez, o princípio hasta+coda.

Podemos tomar como exemplo uma confissão de culpa - escrita apressadamente, à tinta, sobre madeira - composta por seis signos, que ultrapassam os limites estabelecidos pelas letras de comprimento médio, como o, n, e v (que na época era idêntico ao u), e se movimentam, então, de acordo com um sistema de quatro linhas. Trata-se aqui do 0 (= h), Z (= r), 1 (= d), 2 (= b), X (= s) e V.

Essas letras se formam da junção de um traço vertical, portanto uma hasta, com apêndices à esquerda ou à direta, que podem ser chamados de codae. Assim, da união entre j e 4 tem-se um 0.

Uma característica decisiva desses seis signos é o fato de que as codae não envolvem completamente nem limitam os dois lados do traço - como ocorre com o T de Sextio na penúltima linha (na imagem, marcado em amarelo). A hasta é livre em pelo menos uma direção, e cabe a quem escreve expandi-la - no caso do 0 para cima, do Z ou do V, ao contrário, para baixo (de acordo com aposição da coda na hasta). O resultado é que as figuras coda permanecem no campo das letras de comprimento médio, as que se prolongam para cima e para baixo têm apenas hasta.

Letras Minúsculas
Para minha convicção, os “exageros de Pompéia” são a fonte para as nossas letras minúsculas, escritas num sistema de quatro linhas. Apenas a partir do século III d.C. os signos dos vários tipos de escrita romana foram padronizados, e os critérios das hastas verticais livres definidos. Eles apresentaram, posteriormente, formas mais rígidas até chegar ao nosso atual inventário de formas: b, d, f, g, h, k, l, p, q, (r) e (=s) (porém, em seu processo de desenvolvimento, essas letras sofreram modificações até o período carolíngio). Todas as letras restantes permaneceram com o comprimento médio do esquema de quatro linhas. Conseqüentemente, é nelas que se encontra a maior densidade de informação óptica - delas fazem parte também as figuras coda das letras que se prolongam para cima ou para baixo.

A uniformidade neste campo tornaria difícil a decodificação pelo sistema visual: não haveria pontos marcantes, com base nos quais o leitor pudesse rapidamente se orientar. Os prolongamentos das letras para cima e para baixo oferecem essa ferramenta. Eles dão às palavras contornos característicos e psicologicamente fazem com que sua leitura seja rápida, e sua assimilação, possível.

Por fim, temos de agradecer aos fenícios por terem desenvolvido um alfabeto que serviu de base para o nosso e facilitou o trabalho do nosso sistema de percepção. Os antigos escritores, ao inventar novas letras usando o traço como elemento final, introduziram um princípio estrutural que até hoje nos beneficia - e não exclui os leitores desta revista.

Se nossa escrita em sua viagem pelo tempo conseguiu alcançar o melhor, no que diz respeito ao seu movimento e à possibilidade de leitura, permanece ainda em aberto. De qualquer modo, hoje as canetas foram substituídas pelas teclas. Além disso, nosso mundo global, composto de estados emaranhados, impede a continuação de um desenvolvimento natural, uma vez que a burocracia cultural desses estados regula todos os interesses da escrita. Não se toca mais na forma fundamental das letras. É apenas na sutileza de profissionais da tipologia (como Times ou Helvetica), que ainda sobrevivem variações e pesquisas que estudam como a forma dos tipos pode se relacionar a uma boa leitura. Mas essa é outra história.

Scientific American Brasil

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Gastronomia, direito humano

O fundador do movimento internacional slow food sustenta: buscar uma alimentação prazerosa e em equilíbrio com a natureza é uma atitude política. O problema é que a velha tradição militante ainda despreza a complexidade e beleza do ato de comer

Carlo Petrini

Minha tese é simples: a gastronomia pertence ao domínio das ciências, da política e da cultura. Contrariamente ao que se acredita, ela pode constituir uma ferramenta política de afirmação das identidades culturais e um projeto virtuoso de confronto com a globalização em curso.

Porque não há nada de mau em apreciar os prazeres da boca, base fundamental do saber gastronômico e elemento essencial da qualidade de vida. O movimento Slow Food foi criado “pela defesa e pelo o direito ao prazer de se alimentar-se. Alguns militantes, freqüentemente os de esquerda, ficam chocados com tais afirmações, que eles associam à “decadência burguesa” ou ao “epicurismo degenerado”. Alguns esclarecimentos são, portanto, necessários.

Primeiro, quando falamos de gastronomia, não há apenas o prazer. Segundo seu principal teórico, Jean-Antelme Brillat-Savarin (1755-1826), autor de La Physiologie du Goût (1826), a gastronomia é o “conhecimento racional de tudo o que é relativo ao homem enquanto ser que se nutre”. A partir desta simples definição, com um pequeno esforço intelectual, podemos compreender que a gastronomia reposiciona a nutrição no centro de interesse de todos.

Brillat-Savarin queria, recorrendo às causas e efeitos, fazer da arte culinária uma ciência exata. Ele se dedicou a uma análise bastante criteriosa do mecanismo do gosto. Analisou a magreza e a obesidade, a influência da dieta sobre o sono, a juventude, o envelhecimento e a morte.
Um saber interdisciplinar

A gastronomia nos conduz a um saber interdisciplinar e complexo. Interessar-se por “tudo aquilo que é relativo ao homem enquanto ser que se nutre” exige conhecimentos nos domínios da antropologia, da sociologia, da economia, a química, a agricultura, a ecologia, a medicina, os saberes tradicionais e as tecnologias modernas.

Tal corpus científico amplia enormemente o papel reservado aos gastrônomos. Ao mesmo tempo, aumenta o círculo de pessoas que deveriam estudá-lo para melhor governar, melhor confrontar os problemas atuais ou, ainda mais simplesmente, melhor compreender nosso mundo. Como defende Wendell Berry, o poeta-camponês do Kentucky, “comer é um ato agrícola”.

Não por acaso que, o movimento altermundialista teve, desde as manifestações de Seattle, contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) participação decisiva dos camponeses, e alguns de seus expoentes mais conhecidos (José Bové, Rafael Alegría, Evo Morales etc.) vêm do mundo rural. Também não é por acaso que a qualidade da alimentação industrializada suscita, em várias cidades, uma grande preocupação. E não é à toa que, segundo o relatório das Nações Unidas, Millenium Ecosystem Assestement (2005), a maioria dos problemas ambientais são conseqüência dos métodos aberrantes de produção de alimentos.

Mais da metade da população mundial vive ainda em zonas rurais. Se somarmos a eles as pessoas que cuidam da produção ou da elaboração da alimentação nas zonas urbanas, podemos nos arriscar a dizer que a maioria dos habitantes da Terra estão envolvidos no setor da alimentação. Infelizmente, a maioria das técnicas utilizadas não são sustentáveis. O desperdício é enorme, devido aos métodos intensivos e produtivistas, que consomem mais recursos do que produzem.

Em alguns países desenvolvidos, os agricultores e operários das fábricas de alimentos representam apenas 2% da população ativa. Tudo foi industrializado. Fabrica-se em série uma alimentação sem sabor, padronizada, anti-ecológica e freqüentemente perigosa para a saúde pública (vários escândalos o provam, entre os quais o da “vaca louca”).
Pesquisar o bom produto, não o que vende mais

O futuro estará garantido apenas para homens e mulheres que produzam a comida por meio de técnicas compatíveis com os ritmos do planeta, revalorizando as técnicas antigas, respeitando a biodiversidade e as tradições gastronômicas estritamente ligadas à cultura e à economia de cada lugar do mundo. A ciência gastronômica – com seu conhecimento, seu respeito pela qualidade de vida e as diferenças culturais – deveria voltar-se a domínios compatíveis com as novas exigências ecológicas.

Colocar a ciência do prazer alimentar ao serviço de uma natureza preservada conduzirá o homem à produção da melhor alimentação possível. É uma aspiração tão legítima quanto natural. Mas não é levada em conta. Criamos uma produção que não pesquisa mais o bom produto, mas o mais comercializável. As características organolépticas dos alimentos foram degradadas, a variedade e a biodiversidade foram reduzidas. Emporcalhamos tudo, matando o solo, poluindo o ar, recorrendo demais aos transportes poluentes. Em lugar de acabar com o drama da fome no mundo, instalamos um sistema global desrespeitoso do trabalho de milhares de pessoas e socialmente criminoso.

Restabelecer os critérios de uma agricultura camponesa, a mais local possível, sazonal, natural, tradicional, constitui o começo de uma solução. Os seres humanos certamente devem nutrir-se, mas não às custas do equilíbrio do planeta. O gastrônomo e o consumidor não podem mais ignorar: mesmo que isso pareça engraçado, a escolha do que comemos orienta o mundo.

O movimento Slow Food baseou suas convicções na filosofia e abriu caminho para a construção de uma nova gastronomia. Propôs um programa de reeducação alimentar do gosto, com novos métodos, adaptados a todas as idades, na escola e no lazer. Organizou manifestações internacionais como o Salão do Gosto [1] de Turim, que luta contra a uniformização da alimentação e apresenta produtores de qualidade. Elaborou cerca de 300 projetos particulares de proteção à biodiversidade e às antigas tradições de produção pelo mundo. Contribuiu, em 2004, na criação da primeira Universidade das Ciências Gastronômicas, situada em Pollenzo e Colorno, na Itália.

Esta nova concepção da gastronomia não é apenas uma idéia. Tornou-se um movimento social, que se associa ao protesto universal contra todas as formas de uniformização induzidas pela globalização e participa de todas as “reivindicações verdes” em prol de um meio-ambiente e uma ecologia preservados.

O verdadeiro motor do movimento são os quase 100 mil adeptos da Slow Food ligados aos produtores, camponeses, artesãos e pescadores que partilham dessas idéias e que trabalham e trocam conhecimentos por um futuro melhor.
Parte de uma nova cultura política

Muitos militantes políticos continuam até agora insensíveis aos conceitos da nova gastronomia. Exceto em eventos como o Fórum Social Mundial, onde os camponeses desempenham um papel crucial, a política em geral insiste em ignorar a complexidade do ato de comer. No entanto, por trás de cada alimento tradicional, saboroso e ecologicamente sustentável, há séculos de saber, de inteligência e de criatividade. Por que correr o risco de apagar tudo isso em nome do produtivismo?

Felizmente, a esperança vem das campanhas. Essa foi a razão da criação da “Terra Madre – encontro mundial de comunidades de alimentação”, uma reunião que aconteceu pela primeira vez em Turim em outubro de 2004. Mais de 5 mil pessoas – entre camponeses, pescadores, nômades e artesãos – participaram, representando 1200 comunidades de alimentação de 130 países do mundo [2]. Uma nova reunião acontecerá de 24 a 26 de outubro de 2006, novamente em Turim.

As comunidades de alimentação são grupos de indivíduos que trabalham em conjunto para produzir comida boa, ecologicamente limpa e respeitosa da justiça social. Sem “militantismo” ou apoio sindical ou partidário: os trabalhadores, portadores de uma experiência de lutas quotidianas, cooperam para sobreviver. A maioria pagou sua própria viagem, e o Slow Food garantiu a hospedagem dos “intelectuais da terra”, que dão um senso novo à produção de comida. Sua reivindicação é extremamente política uma vez que ela remete ao mesmo tempo à dignidade, ao direito à soberania alimentar, e à liberdade de fazer seu próprio trabalho.

O projeto, para outubro de 2006, é de reafirmar estes objetivos. Os “intelectuais da terra” se reunirão com chefs de cozinha, homens e mulheres vindos dos quatro cantos do mundo, decididos a adotar produtos das comunidades de alimentação. Professores e universidades que tratam de assuntos ligados à alimentação, à revalorização dos saberes ancestrais, estarão amplamente representados, numa perspectiva de diálogo com os conhecimentos científicos modernos. A finalidade é valorizar todos os conhecimentos gastronômicos, no seu sentido mais amplo.

Uma vasta rede de produtores, pesquisadores, comerciantes, chefs de cozinha, camponeses e consumidores está prestes a nascer, graças a esta nova gastronomia, que concebe o ato de se alimentar como parte da produção. O consumidor torna-se um co-produtor. Porque de sua exigência gastronômica depende a qualidade do produto camponês.

Com “Terra Madre 2006″, será criado um grupo transversal formado por “gastrônomos de um novo tipo”, vindos de grandes e pequenas comunidades de alimentação, que se situam à margem das organizações políticas tradicionais. Trata-se de uma democracia dos humildes, afirmando-se pela maneira pela qual se alimentam, e que também pensam que um novo desenvolvimento é possível.

Longe de continuar sendo uma prática elitista, a gastronomia pode tornar-se uma ciência mais democrática. Por que a possibilidade de nutrir-se com produtos de qualidade, o prazer de saborear uma boa comida e a defesa da soberania alimentar devem ser direitos de todos.

Tradução: Patrícia Andrade

Jornal Le Monde
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