Arquivo de 15 de Julho de 2008

Abolição tardia e inconclusa

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A 13 de maio de 1888 foi declarada extinta a escravidão no Brasil, revogadas as disposições em contrário. A chamada Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, marcava o tardio fim – em termos oficiais – da escravatura no único país das Américas onde a mesma ainda vigorava. São 120 anos de um ato de justiça que, no entanto, até hoje espera para ser plenamente concretizado.

Após uma longa campanha abolicionista e a assinatura de duas leis prévias à Lei Áurea – a Lei do Ventre Livre e a dos Sexagenários – era declarada extinta a escravidão no Brasil. Mas não se extinguia, assim, a questão, o problema nem o debate que continua tendo pertinência no país aparentemente alforriado. Pois, embora não exista mais escravidão no Brasil, o fato de tê-la tido por tanto tempo e até tão tarde marca sem dúvida o perfil brasileiro em relação à questão racial, fazendo com que o tema não deixe – tristemente – de ser mais do que atual.

O Brasil não é um país racista, mas, sem sombra de dúvida, ainda existe aqui o racismo. Não conhecemos o “apartheid” nos moldes sul-africanos, com guetos explícitos. E, no entanto, como deixar de reconhecer o “apartheid” social que segrega os pobres – dos quais muitos, tantos são afrodescendentes – nas periferias e favelas das grandes cidades, bem distantes da minoria branca, que vive amuralhada nos edifícios e condomínios de classe média?

Não temos nos transportes coletivos e públicos lugares reservados aos brancos nos quais os negros estão impedidos de sentar-se. Em nosso país, Rosa Parks – a corajosa militante negra norte-americana - poderia ter continuado seu trajeto no ônibus até o fim da linha sem ser instada a levantar-se para dar lugar aos brancos que subiam no veículo. E, no entanto, diversas moças como Rosa já passaram muitas vezes pela situação de, ao entrar em um prédio de apartamentos para fazer uma visita, serem conduzidas pelo porteiro à porta de serviço devido ao fato de serem afrodescendentes.

Em quantas batidas policiais – cada vez mais freqüentes em nossas cidades – muitos de nós não presenciaram, chocados, os afrodescendentes sendo brutalmente revistados e os brancos poderem seguir seu caminho tranqüilos? Ou quantas vezes uma mulher negra, ao preencher um cadastro, não é sequer indagada sobre qual é sua profissão, automaticamente registrada como “doméstica”?

Imensa dívida tem o Brasil para com os africanos que aqui aportaram depois de arrancados de suas terras e vendidos como escravos. Em três séculos de trabalho escravo, foram eles que ajudaram a construir as bases do desenvolvimento do país sem receber nada em troca a não ser o alimento para suportar o trabalho, a fadiga, os impiedosos castigos. À sombra da casa grande, a senzala era pasto dos mais diversos abusos, entre os quais talvez um dos mais graves tenha sido o sexual, com as jovens africanas devendo, ademais dos trabalhos domésticos, satisfazer os desejos sexuais do senhor e carregar-lhe a prole no ventre.

Cento e vinte anos depois, é tempo de reconhecer a dívida e lutar por políticas públicas que colaborem com a plena inserção dos afrodescendentes na vida cidadã e na plenitude de seus direitos civis. A abolição aconteceu legalmente em 1988. Hoje, no entanto, a lei assinada em 13 de maio requer um compromisso de todos para que seja efetiva e plena.

Último país das Américas a acabar com a escravidão, recordista mundial do tráfico de escravos africanos (cerca de 3,6 milhões de pessoas compradas e vendidas entre os séculos XVI e XIX), o fato é que nossa dívida para com os africanos e seus filhos e netos ainda não foi paga nem ao menos parcialmente.

A imensa maioria afrodescendente da população de um país onde o sangue africano corre na maioria das veias clama pela efetivação da igualdade anunciada na Lei Áurea. Os atabaques batem pedindo justiça. E a riqueza da cultura afro, presente no samba, na feijoada, na arte, na música, em tudo aquilo, enfim, que é o rosto do Brasil reconhecido no mundo inteiro só reforça essa urgência, que faz parte do verdadeiro “investment grade” ao qual o país deve aspirar.

Maria Clara Bingemer é autora de “Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).

“Correio da Cidadania”

Comentários (1)

Impressões do Vietnã

Cândido Grzybowski*

O Vietnã é um país distante e diferente. Ao mesmo tempo, é um país emblemático que faz parte, de algum modo, da história de muitos(as). A geração de 1968 viveu a Guerra do Vietnã (1959–1973) de forma intensa. Notícias traziam os horrores que aconteciam na guerra na qual os Estados Unidos (EUA) usaram toda a sua máquina destrutiva, mas perderam diante da determinação do povo vietnamita. Os protestos pelo fim da guerra e os movimentos pela paz se irradiaram dos EUA para o mundo todo. Não dava para ficar indiferente.

No fundo, sempre alimentei o desejo de ver de perto tão estranho país, seu povo, sua história. A oportunidade surgiu com a reunião do “Board of Trustees” da ActionAid International (AAI), da qual sou membro independente. A AAI está há 15 anos no Vietnã. Foi uma viagem curta. Como a reunião foi em Hanói, sede da AAI–Vietnã, acabei ficando por ali, com uma breve visita de campo. Um dia, talvez, ainda volte e consiga ver também o Sul, a Ho Chi Minh City (antiga Saigon) e as províncias em volta, onde a guerra foi mais intensa e os EUA usaram o famigerado desfolhante laranja nas florestas para controlar a movimentação dos vietcongues.

A primeira impressão de Hanói, nas margens do Rio Vermelho, é de uma cidade invadida por motos. Com 3,5 milhões de habitantes, Hanói deve ter uma moto para cada duas pessoas. É impressionante, fruto mais visível da adoção da economia de mercado e das taxas chinesas de crescimento. Os carros, aliás carrões, todos novos, são poucos ainda. As motos ocupam todos os lugares e carregam de tudo. Famílias inteiras numa moto só. Muitas mulheres – basicamente elas – com máscaras de proteção contra a poluição. Felizmente, tudo anda a 30 km/h, talvez 40Km/h, com muita buzina. Bicicletas ainda existem, mas são raras, das pessoas mais velhas e pobres.

Regras de trânsito não existem, mas algo organiza tudo. Para atravessar uma rua, você fecha os olhos, de preferência, e deixa as motos desviarem de você. Experiência incrível! Outra coisa que chama a atenção são as casas, estreitas e altas, parecem sobreposição de cômodos. O efeito é muito bonito. Vale a pena andar pelo centro, com seus lagos e prédios lembrando o período de domínio francês, junto com monumentais prédios públicos. A parte velha, com suas ruas estreitas e todo tipo de comércio bem-especializado, é exuberância de vida. E que povo simpático! A gente não entende nada, mas que sorriso encantador e quanta gentileza!

Estive no extremo Norte do Vietnã, na Província de Lai Chau, na fronteira com China e Laos, onde a AAI–Vietnã desenvolve um programa. Fica ao lado de Diem Bien Phu, onde franceses foram finalmente derrotados em 1954. As minorias étnicas – são 55 no Vietnã – são predominantes, com suas próprias línguas e modos de vestir. Os Quines, etnia dominante e base da identidade lingüística e cultural, são só 11% por ali. Mas a estrutura política local – os Comitês do Povo – estão em suas mãos, sem muitos problemas visíveis, ao menos.

Vivem aí minorias Laos, Mongs, Birms. Visitei o distrito de Dong, um vale em meio às enormes montanhas da fronteira Norte. Os morros estão devastados, pelados, resquícios da dominação francesa, que extraiu madeira das florestas nativas e plantou a seringa. As águas ainda são abundantes, mas devem ter sido bem mais. Nos vales, planta-se arroz, milho e mandioca, além de legumes, base da alimentação. Trata-se de uma economia basicamente de subsistência. A população vive em vilas comunitárias, por etnia, conforme a sua tradição, em casas de madeira, normalmente altas, com búfalos, porcos e galinhas. As novas casas já começam a ser de alvenaria. E muitas motos, pelo menos uma em cada casa. Os prédios são equipamentos públicos, em especial escolas.

Fui recebido pelas autoridades locais e visitei comunidades, suas escolas, as classes de alfabetização de adultos(as), centros comunitários, com boa presença de mulheres, e áreas de desenvolvimento de projetos-piloto, para aumento da produtividade agrícola, atividades essas com as quais AAI está envolvida. Vi pobreza, mas, no geral, parece que as pessoas vivem de forma decente. Há visível desigualdade de gênero. Aliás, moradores me contaram que nem vale a pena mandar mulheres para a escola, o que explica o fato de 90% de analfabetos(as) serem mulheres. Existe, também, tráfico (e até rapto) de mulheres por chineses. Os lotes e a produção são individuais, ainda bastante tradicionais. A terra é pública e distribuída para atender todas as famílias. Como por toda parte, o sorriso e o encanto das pessoas é admirável.

Fui da trem de Hanói a Lao Cai, seguindo as margens do Rio Vermelho. Depois, subi a serra de carro, passando por paisagens deslumbrantes. Numa encosta alta está encravada Sapa, hoje o principal ponto turístico da região. É uma bela cidade da época da colonização francesa. Ali, vislumbramos os campos amarelados de arroz em terraços. A estrada depois de Sapa está passando por grandes obras para a criação de um corredor para a região Sudoeste da China até os portos do Vietnã. Aliás, o capitalismo em sua forma selvagem é bem visível, mesmo o Partido Comunista mantendo controle firme.

Desde 1986, o Vietnã adotou a economia de mercado e fez uma grande liberalização econômica, apesar de um terço da economia ainda depender das empresas estatais. O capital estrangeiro, particularmente dos países da região, avança a passos livres e largos. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e das exportações é comemorado, mas a desigualdade já começa a ser notada. De um país faminto após a guerra (1974) e a reunificação (1976), o Vietnã passou a exportar arroz, café, petróleo.

Com população de mais de 80 milhões, território 30 vezes menor que o do Brasil, o Vietnã surpreende de muitos modos. Ao longo dos séculos, o povo lutou bravamente para manter a sua unidade e integridade. Visitei o Museu da Revolução, que lembra a história da luta contra a ocupação francesa até a vitória sobre os EUA, para captar o sentido de tanta força. Há algo que escapa.

O fato é que, hoje, os EUA são referência para jovens, especialmente a música, os filmes, o jeito de vestir, a vontade de ganhar dinheiro. O Vietnã aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC) e já assinou acordos de livre-comércio com Japão e EUA. Parece muito contraditório, ao menos aponta caminho diverso da heróica luta. Para onde vai? Que será amanhã? Andando nas manhãs pelo jardim do hotel onde estive – sede do Comitê Central do Partido Comunista em Hanói –, pensei em tudo isso e não tenho respostas. Só guardo as doces lembranças de um povo incrível.

*Sociólogo, diretor do Ibase

“NovaE”

Comentários

Produtores se agarram aos subsídios após explosão dos preços dos alimentos

Alan Beattie

Costuma-se dizer que toda crise é uma oportunidade. Mas, quando tal crise envolve produtores agrícolas, aparentemente isso não ocorre.

Os líderes de instituições internacionais, incluindo o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, têm pedido aos governos que usem a crise dos alimentos para reformar as políticas que distorcem a produção e o comércio. Eles argumentam que menos subsídios e tarifas de importação incentivariam agricultores de todo o mundo a aumentar a produção e as exportações.

Mas o apelo só fez com que os lobbies do setor agrícola se entrincheirassem ainda mais nas suas atuais posições, defendendo ainda mais aguerridamente os subsídios e a proteção tarifária dos quais seria de se supor que eles agora não necessitassem mais. Conforme diz um ex-funcionário do governo do presidente George W. Bush: “Todo mundo está usando esta situação para fortalecer um interesse existente. Não tem havido mudança de posição”.

Embora os preços mais altos dos alimentos não tenham enriquecido os produtores de lugar nenhum, muitos dos que têm acesso aos grandes mercados certamente saíram ganhando. E, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, estes também tendem a ser os produtores que se beneficiam da proteção tarifária e dos subsídios governamentais.

O exemplo mais óbvio são os Estados Unidos, país no qual o Congresso e a Casa Branca têm sepultado dolorosamente planos para a elaboração de uma lei para o setor agropecuário que estabeleceria subsídios para os próximos cinco anos. O Congresso e Bush estão em um impasse. O presidente ameaça utilizar a sua raramente utilizada caneta para vetos caso as regras dos subsídios não sejam reformadas.

Com o setor agrícola cheio de dinheiro, o momento parece propício para reformas. Os produtores reclamam de que o aumento dos insumos, especialmente combustível e fertilizantes, limitou os lucros provocados pela elevação dos preços dos produtos agrícolas. Mas, conforme observa o ex-funcionário do governo, os dados revelam que houve um grande aumento de renda e riqueza.

O Departamento da Agricultura dos Estados Unidos prevê que a renda total do setor agropecuário cresça novamente neste ano, seguindo a tendência de grandes saltos presenciadas nos últimos anos. O crescimento seria de 4,1%, fazendo com que o nível atual ficasse 51% maior do que a média dos últimos dez anos. As dívidas aumentaram, mas não tão rapidamente quanto a renda e o patrimônio: os preços em ascensão da terra significam que o patrimônio líquido do setor agropecuário quase dobrou nos últimos cinco anos, aumentando cerca de US$ 1 trilhão.

Assim, o que poderia acontecer? Os Estados Unidos distribuem benefícios aos seus produtores de duas formas principais: pagamentos vinculados aos preços, que são ativados quando os preços caem, e “pagamentos diretos” que estão relacionados ao tamanho total da terra, mas não à produção atual. Os pagamentos do primeiro tipo caíram rapidamente devido aos preços estratosféricos. Mas os produtores relutam em assimilar a redução desse benefício, e querem um teto mais baixo para que recebam tais pagamentos, desafiando as exigências de parceiros dos Estados Unidos na estremecida Rodada Doha de negociações sobre o comércio global.

Bob Stallman, um rizicultor do Texas e presidente da Federação Americana de Entidades Agrícolas, que representa muitos produtores que recebem subsídios, afirma: “Alguém quer garantir a mim, como fazendeiro, que de agora em diante os preços permanecerão onde estão? Qualquer um que está envolvido com a agropecuária há muito tempo sabe que tudo o que sobe desce”.

Os fazendeiros dos Estados Unidos alegam que os próprios preços estão sujeitos aos caprichos das políticas de Washington. Embora parte da demanda mais elevada por alimentos pareça ser uma tendência baseada em fatos concretos, já que o consumo de carne e laticínios cresceu na Índia e na China - o que, por sua vez, faz aumentar a demanda por grãos para a produção de rações -, há, sem dúvida, alguns elementos artificiais em jogo. A demanda por biocombustíveis, por exemplo, tem aumentado devido ao generoso subsídio de 51 centavos de dólar por galão (cerca de 13 centavos por litro), reforçado por uma tarifa de importação de 54 centavos por galão (cerca de 14 centavos por litro). A redução desse apoio, uma das metas que o governo Bush gostaria de alcançar, poderia resultar na queda dos preços.

Quanto ao efeito no mundo em desenvolvimento, os produtores norte-americanos argumentam - com certa lógica - que o resultado geral dos subsídios é deprimir os preços, ao encorajar os produtores a permanecerem na terra e produzir, de forma que reverter esta política não seria uma resposta coerente para o problema da disparada do preço dos alimentos.

Porém, a resistência delas à reforma do auxílio alimentar é tida pelos especialistas em desenvolvimento como bem menos defensável. Os Estados Unidos são de longe os maiores doadores de auxílio alimentar do mundo, sendo que grande parte desta ajuda é canalizada através do Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas, que administra a assistência humanitária de emergência a comunidades atingidas por desastres e pela fome. Mas a ajuda alimentar norte-americana parece trazer a marca do lobby agrícola: ela precisa ser comprada dos produtores norte-americanos e transportada em navios com bandeira dos Estados Unidos, o que eleva consideravelmente os custos - uma inflação que parece ser cada vez mais indefensável face à disparada dos custos para alimentar os pobres.

A Casa Branca vem fazendo pressões no sentido de alinhar os Estados Unidos com a melhor prática internacional, que consiste em doar verbas para a compra de alimentos perto de onde a comida é necessária. Mas a proposta do governo de que um quarto do auxílio alimentar dos Estados Unidos fosse convertido em dinheiro encontrou uma feroz oposição por parte do lobby dos produtores agrícolas e do Congresso, que só aceitou um pequeno programa piloto.

A legislação do setor agropecuário pouco mudou como resultado da crise dos preços dos alimentos, até porque os principais pontos dela foram aceitos pelo Congresso no outono que antecedeu o período no qual a crise se transformou em uma questão política de alta importância. O Congresso procurou compensar um pouco as famílias pobres dos Estados Unidos ao acrescentar cerca de US$ 10 bilhões para food stamps (vales alimentação) no decorrer de dez anos, uma categoria que já responde pela maior parte do orçamento agrícola. Mas esta é uma pequena mudança em um programa de gastos que chegarão a US$ 300 bilhões no decorrer de cinco anos. De maneira geral, os preços básicos de produtos altamente subsidiados como arroz, algodão, trigo, milho e soja mantiveram-se estáveis ou aumentaram um pouco, e os parlamentares têm resistido à insistência da Casa Branca em cortar os subsídios para os produtores cuja renda anual seja superior a US$ 200 mil.

Há uma ironia aguda nas posições dos adversários da proposta do governo. Uma Câmara dos Deputados liderada por Nancy Pelosi, uma democrata liberal da urbana São Francisco, está pedindo mais dinheiro para os produtores agrícolas ricos, já que os democratas estão desesperados para preservar os seus ganhos políticos nos Estados da região rural do país. Enquanto isso, uma Casa Branca republicana chefiada por um conservador do Texas que não é conhecido por uma retórica niveladora ou por um multilateralismo instintivo investe contra o fato de os subsídios serem fornecidos “às grandes corporações e aos proprietários de terras ricos”, e alerta que tal legislação fará com que os Estados Unidos enfrentem uma onda de litígios no âmbito da Organização Mundial de Comércio.

As tentativas de reforma são complicadas por uma anomalia que faz com que os dois objetivos declarados da Casa Branca, justiça e bom comportamento global, entrem em atrito. Dentre os vários tipos de subsídios, os pagamentos diretos são os mais compatíveis com as regras da Organização Mundial de Comércio, já que eles pelo menos não distorcem a produção, e o governo Bush prefere isso à ajuda baseada nos preços. Mas neste momento fica esquisito fornecer dinheiro devido à disparada dos preços dos produtos agrícolas e da elevação da renda dos produtores.

Em uma entrevista, Susan Schwab, representante de comércio dos Estados Unidos, afirmou: “É difícil explicar politicamente. O que estamos fazendo é um paradoxo”. Ela disse que a forma de ajustar esta equação é considerar os pagamentos diretos como uma rede de segurança que não distorce a produção.

O que quer que surja da luta entre o Congresso e Bush dificilmente gerará uma legislação do setor agropecuário que seja diferente da atual. Do outro lado do Oceano Atlântico as perspectivas de reformas do apoio aos produtores agrícolas parecem também remotas. Aqueles europeus céticos em relação ao comércio liberal aproveitaram a crise para argumentar que não se pode confiar nos mercados mundiais.

A atual encarnação da Política Comum Agrícola da União Européia deverá passar neste ano por uma “avaliação interina de saúde” antes de sofrer uma reforma fundamental em 2013. Grande parte da transferência de dinheiro dos consumidores aos produtores agrícolas europeus promovida pela União Européia se dá através das tarifas sobre as importações, que sustentam os preços domésticos em um patamar elevado.

Alguns países membros da União Européia, como o Reino Unido, que desejam reduzir o protecionismo, afirmam que a crise dos alimentos fez com que reformas antecipadas da Política Agrícola Comum, e especialmente as reduções das tarifas, se tornassem imperativas. Mas aqueles que não desejam que a Comissão Européia ofereça grandes reduções tarifárias na Rodada de Doha, especialmente a França, galvanizaram as suas forças contra uma mudança rápida.

O ministro francês da Agricultura, Michel Bernier, embora negue defender o controle dos preços pelo governo, argumenta que a crise dos alimentos demonstra a necessidade de que regiões específicas mantenham a produção doméstica de comida. “O orçamento da Política Comum Agrícola está em queda, mas ele precisa ser grande o suficiente para manter a infra-estrutura agrícola estratégica na Europa”, disse ele na semana passada. “A segurança alimentar não diz respeito apenas ao comércio - ela tem a ver com uma produção suficiente para que um país alimente a sua população. Se o livre comércio fosse a resposta para a fome mundial, a esta altura já saberíamos disso”. Enquanto isto os produtores irlandeses ameaçam votar contra o tratado de reforma da União Européia, que será submetido a um referendo na Irlanda no mês que vem, caso as tarifas, especialmente sobre a carne bovina, sejam reduzidas drasticamente como parte das negociações de Doha.

Embora a maioria dos economistas argumente que mais políticas comerciais liberais poderiam ajudar a reduzir os preços ao encorajar mais produção nos países exportadores de alimentos, a crise na verdade reduziu as chances de que se chegue a um acordo no âmbito da Rodada Doha.

Até mesmo países como Filipinas e Índia, que reduziram drasticamente as suas tarifas sobre a importação de alimentos, estão exigindo mais vigorosamente do que nunca a preservação do direito de elevarem novamente essas tarifas. Eles aprenderam uma lição similar à de Bernier: não se pode confiar nos mercados mundiais, e, portanto, os países precisam produzir uma parcela maior do seu próprio estoque de alimentos, e isso significa manter a flexibilidade para proteger os produtores da concorrência externa.

Agências como o Banco Mundial defendem uma grande barganha que culmine em um comércio mais livre de alimentos. Se os importadores agrícolas pudessem ter a certeza de que haveria sempre abundância de alimentos para importar, eles poderiam se mostrar mais dispostos a fixar as suas tarifas em valores permanentemente mais baixos. E se os exportadores tivessem a garantia de mercados abertos para os quais pudessem vender, eles poderiam aceitar as restrições à sua capacidade de proibir ou taxar as exportações quando os preços estivessem altos.

Mas tal coordenação pode ser difícil, até mesmo porque as restrições concretas das taxas sobre as exportações não são um tópico central das negociações de Doha. Atualmente não existem restrições às taxas de exportação na legislação da Organização Mundial de Comércio, e até mesmo cotas de exportação ou proibições temporárias são permitidas caso sejam impostas para impedir “falta crítica” de alimentos no país exportador.

Países que importam grande parte dos seus alimentos, como Japão, Coréia do Sul e Suíça, solicitaram diversas vezes leis que controlem as restrições e impostos de exportações. Mas embora alguns exportadores agrícolas, incluindo Nova Zelândia e Austrália, tenham se mostrado dispostos a discutir a questão, os planos para impor novos e mais rígidos controles esbarraram em oposições, especialmente da Argentina, que usou bastante as restrições às exportações durante a crise atual a fim de impedir que os alimentos produzidos no país seguissem para o exterior.

Tudo isso faz com que aqueles que acreditam que a intervenção do governo na agricultura ajudou a provocar a crise atual fiquem com um pé atrás. Para eles, a resposta política de governos de todo o mundo é simples e desencorajante: nada mudou.

Rumo a uma “coalizão dos que se importam”
Os norte-americanos não precisam viajar até às Filipinas ou ao Havaí para perceber como um drama pode se transformar em uma crise de alimentos: eles encontram o problema nos supermercados locais. No mês passado o Costco e a Wal-Mart, duas redes comerciais gigantes dos Estados Unidos, foram obrigadas a limitar a quantidade de arroz basmati comprada por cada cliente nas suas lojas depois que boatos de que haveria falta do produto provocaram um frenesi de compras. Na verdade, não existe falta de arroz nos Estados Unidos. Mas se um círculo vicioso de preços mais elevados e de estoques emergenciais ocorreu na ponta de uma das mais eficientes redes de fornecimento do mundo, isso pode acontecer em qualquer lugar.

Grande parte da reação política à crise global de alimentos tem se concentrado em estimular o aumento do suprimento de comida no médio e no longo prazo, particularmente nos países em desenvolvimento. Mas mesmo um mundo com comida suficiente é vulnerável a pânico em massa. Haveria uma maneira de evitar crises por meio da ruptura deste processo de retro alimentação?

O pânico espalha-se facilmente porque a realidade da distribuição de alimentos está muitas vezes distante dos mercados eficientes e flexíveis dos livros de microeconomia. O comércio de alimentos, especialmente o arroz, atende de fato a uma parte relativamente pequena da demanda global, e é vulnerável à falta súbita de grãos. Os países pobres e sem litoral, que têm estradas ruins e infra-estrutura de comunicações sucateada, são os que correm mais risco, especialmente aqueles que dependem de uma grande nação vizinha para o suprimento de comida - casos típicos de dependência são o Níger em relação à Nigéria, e o Afeganistão em relação ao Paquistão.

Alguns países reagiram fazendo estoques, como Omã, que recentemente anunciou que deseja contar com reservas de arroz suficientes para dois anos. Coletivamente, o mundo costumava manter muito mais reservas de alimentos do que mantém hoje, muitas vezes por acidente. Os grandes estoques eram um subproduto das políticas agrícolas domésticas da União Européia e dos Estados Unidos, que costumavam confiar bastante nas “compras intervencionistas” segundo as quais os governos apoiavam os produtores intervindo e comprando alimentos caso o preço caísse abaixo de determinado nível. À medida que os subsídios agrícolas, particularmente na Europa, foram reformados e os governos reduziram a intervenção, as montanhas de grãos encolheram.

Os assessores de políticas alimentares dizem que a crise apontou para um pilar ausente na arquitetura da governança global. Mas um desses especialistas, Joachim von Braun, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisas sobre Política Alimentar, em Washington, diz que adotar novamente esta prática de cada nação manter o seu próprio estoque, não é a solução - especialmente em países que possuem governos fracos e corruptos. Ele observa que há vários anos as autoridades de Malaui venderam o estoque nacional de grãos enquanto uma crise de alimentos se aproximava. “Não creio que queiramos que esta história se repita. Nos países que têm problemas de governança, sempre haverá um grande incentivo para a venda dos estoques em tempos difíceis. E é nesses momentos que tais reservas valem o seu peso em ouro”.

E tampouco se encontrará uma solução na Organização Mundial de Comércio, que, segundo ele, ficaria sobrecarregada com questões referentes à carência de curto prazo de alimentos. A solução de von Braun é uma “coalizão dos que se importam” - o Grupo dos Oito e mais alguns dos grandes exportadores agrícolas, como o Brasil - para criar um banco global de alimentos ao qual o mundo pudesse recorrer em momentos de crise, segundo critérios estritamente pré-determinados. Como um passo interino, a Ásia poderia dar início a uma redistribuição dos estoques de arroz - embora de uma forma bem diferente do plano de fixação de preço “Opep do arroz”, proposto recentemente, e a seguir retirado, pela Tailândia.

“Não haveria burocracia e nem uma estrutura física, mas sim uma nota promissória entre governos que pudessem confiar uns nos outros”, diz von Braun. “Da mesma forma que um banco tradicional exige garantias, o banco global de alimentos necessitaria de bens que cobrissem de 5% a 10% das promessas. A simples existência de tal mecanismo de segurança, análogo a um fornecedor de empréstimos como último recurso no sistema financeiro, deveria ser suficiente para trazer uma certa calma aos mercados de commodities”.

Uma coisa está clara: sem um mecanismo coletivo, os países continuarão tomando as suas próprias ações - e isso poderia piorar o círculo vicioso de carência de alimentos de curto prazo e aumento dos preços.

“Financial Times”

Comentários

A dominação transforma o mundo em um manicômio

Em seu novo livro, “Espelhos: uma história quase universal”, o escritor conta 600 histórias curtas, “que recolhem uma experiência de toda a vida, muitas leituras e muitas perguntas”. Relatos que falam dos esquecidos pela história oficial, uma história, diz Galeano que sacrificou e mutilou o arco-íris terrestre. Relatos de um mundo que está enlouquecendo.

Armando G. Tejeda

MADRI - Aos 63 anos, Eduardo Galeano dedica-se diariamente a tentar resolver o maior desafio da linguagem, sabendo que isso é “impossível”: utilizar em seus textos apenas palavras que sejam melhores do que o silêncio.

Foi com esse desejo de depuração do idioma que o escritor uruguaio escreveu seu livro mais recente, Espelhos: uma história quase universal (Editora Siglo XXI), no qual, por meio de 600 histórias breves, oferece um panorama inquietante sobre o devir do mundo e da história da humanidade.

Em entrevista a La Jornada, Galeano levanta a voz frente ao “sistema mundial de dominação que está levando todos nós para o matadouro ou para o hospício”. E critica a obstinação do ser humano em “mutilar” o arco-íris terrestre com “o racismo, o machismo, o elitismo e o militarismo”.

Todos somos africanos emigrados
La Jornada: Dá a impressão que com este livro você se esvaziou, que colocou nele o conhecimento, as leituras e os aprendizados acumulados ao longo de sua vida.

Galeano: Acho que sim. A idéia era reunir em um único livro estas 600 histórias ou relatos que viajam pelo mundo e pelo tempo, sem limites, sem fronteiras. E eles vão e vêm pelo mapa do mundo e do tempo. E é verdade que recolhem uma experiência de toda a vida, muitas leituras e muitas perguntas.

Sobretudo recolhe as perguntas que tenho me formulando ao longo da minha própria vida. Desde que eu era pequenininho e ia para a escola e a professora me dizia que o basco Núñez de Balboa foi o primeiro homem que viu os dois oceanos, do alto de um monte do Panamá. E eu levantava a mão e dizia: ‘Senhorita, senhorita, então os que viviam aí eram cegos’. E ela me expulsava da aula por ser atrevido.

E as perguntas que depois fui me fazendo que foram ficando e esperando respostas que fossem, por sua vez, novas perguntas. Por exemplo, esta outra, que abre o livro, quando pergunto se Adão e Eva eram negros, porque se a viagem humana começou na África, de lá partiram nossos avós para a conquista do planeta e foi o Sol que repartiu todas as cores, porque somos todos africanos e somos todos emigrados. É bom lembrar agora que todos somos africanos emigrados, diante de tanta demonização que se faz da emigração, como se fosse um crime.

Mas sim, também é um livro de perguntas incômodas. Eu sempre digo que uma boa resposta é uma fonte de novas perguntas, ou seja que o livro está escrito por um ‘perguntão’, por um curioso que quer despertar a curiosidade de quem ler.

La Jornada: Essas 600 histórias, contadas assim, de maneira aparentemente desconexa, é porque você também pretendia chamar a atenção para a anarquia que há no mundo e na história da própria humanidade?

Galeano: Sim, mas que estão atadas por fios invisíveis, que fazem com que essa aparente desconexão não seja mais do que uma expressão da diversidade da vida humana, da história e da presença dominante, nessa diversidade, dos esquecidos pela história oficial. Que é uma história que sacrificou, que mutilou o arco-íris terrestre.

Sempre digo que o arco-íris terrestre tem mais cores do que o celeste. É muito mais belo, mais fulgurante, mas tem sido mutilado pelo racismo, pelo machismo, o elitismo, o militarismo… Então, não somos capazes de ver a nós mesmos em toda a nossa plenitude assombrosa, em toda a nossa prodigiosa capacidade de beleza.

O livro rende homenagem à diversidade humana e à diversidade da natureza, da qual também fazemos parte.

Então, na aparência pode parecer desconexo, mas quando a gente entra para lê-lo está armado de tal maneira que há muitíssimo trabalho por trás. É como um rio que às vezes corre por baixo da terra, outras por cima, mas que nunca deixa de correr. É um único fluxo de um rio, de muitos rios.

Discípulo de Juan Rulfo

La Jornada: Como uma sinfonia.

Galeano:A literatura e a música são muito parecidas. Por isso é bom ler em voz alta. Quando a gente escreve, quando termina um texto, a gente lê em voz alta, porque essa leitura nos dá a música das palavras. E a música manda. Tem que haver uma continuidade da música.

La Jornada: Depois de tantos livros e, principalmente, aprendizados, você acha que chegou ao máximo de depuração da sua própria linguagem literária?

Galeano: Acho que sim. A linguagem que eu utilizo, não quero que apareça, mas cada um destes relatos teve 15 ou 20 tentativas. Como dizia um escritor chileno quando reeditava seus contos: edição corrigida e diminuída. Eu também vou diminuindo; é um trabalho de tirar a gordura, para que só fique a carne e o osso daquilo que se quer contar. É um trabalho de despir e purificar a linguagem.

La Jornada: Uma linguagem pouco freqüente nas letras latino-americanas, que às vezes tendem a exagerar na verborréia, você não acha?

Galeano: Pode ser, mas eu não acho que a literatura latino-americana deva ser isto ou aquilo, porque o melhor desta nossa região é que ela é tão diversa. Ou seja, que contém todas as cores, os cheiros, os sabores do mundo.

Se o melhor que o mundo tem está na quantidade de mundos que o mundo contém, poucas regiões do mundo contêm tantos mundos como a nossa. E, portanto, há uma diversidade de linguagens e essa é a nossa riqueza. Eu escrevo do meu jeito, o que sinto e como sai, mas há muitas outras formas de escrever. Toda linguagem é legítima, na medida em que as palavras nasçam da necessidade de dizer.

La Jornada: Mas há influências, gerações literárias.

Galeano: Sim, eu escrevo do meu jeito, que por sua vez é um jeito muito influenciado pelo meu mestre Juan Rulfo. Em uma entrevista, já faz algum tempo, pediram que eu escolhesse os escritores mais importantes na minha formação literária. Eu respondi: Juan Rulfo, Juan Rulfo e Juan Rulfo.

Histórias sentipensantes

La Jornada: Em sua busca por novas linguagens, suponho que também está à par da evolução do nosso idioma na sociedade atual.

Galeano: Sim, é um aprendizado cotidiano. Recebo muitas vozes da rua, que são as que mais me alimentam. E é um trabalho de recriação das vozes que a gente recebe. Quando Rulfo me dizia que se escreve mais com a borracha do que com o lápis, isso é verdade, mas não toda. Porque também é preciso ver quais são as palavras.

Outro de meus mestres, Juan Carlos Onetti, com quem compartilhei poucas palavras e muitos silêncios, sempre dizia que havia um provérbio chinês que dizia que as únicas palavras que merecem existir são as palavras melhores que o silêncio.

É uma idéia muito linda, porque o silêncio é uma linguagem muito funda e profunda; então, é muito difícil que as palavras sejam melhores que o silêncio. Na verdade, isso é impossível, mas a gente tem que tentar esses impossíveis. É o maior desafio da linguagem.

La Jornada: Justamente. Seu livro “Espelhos” tem muitos silêncios e muita calma em sua leitura.

Galeano: O livro pede lentidão, como o amor. E silêncio, para que as palavras tenham sonoridade realmente.

La Jornada: Você também assume a literatura como esse saltimbanco que vai de vilarejo em vilarejo contando histórias, declamando, lendo em voz alta essas histórias?

Galeano: Sim, mas se são só conhecimentos, ou seja, mensagens da razão, terão curto percurso. Precisam ser histórias sentipensantes, para que cheguem a quem as lê; elas têm que vir da razão e do coração. Têm que unir o que foi desvinculado pela cultura do desvínculo, que é a cultura dominante. Que, entre outras coisas, desvinculou a razão da emoção, assim como desvinculou o passado do presente.

Por isso, no livro misturo muitíssimo o passado e o presente; o extermínio do Iraque pelas mãos de um senhor que acredita que a escritura foi inventada no Texas e, ao mesmo tempo, o nascimento do primeiro poema de amor da história humana, que é um poema escrito no Iraque, quando ainda não tinha esse nome, em língua suméria e em tabuletas de barro.

La Jornada: Uma dessas linhas invisíveis que dão sentido às 600 histórias de “Espelhos”, é a vocação do homem pela guerra, por essa tendência de destruir a si mesmo?

Galeano: Acho que aqueles que acreditaram que a contradição é o motor da vida humana não erraram. Somos uma contradição incessante. E isso ajuda você a sobreviver em um mundo difícil; a certeza de que não existe horror que não implique alguma maravilha. A certeza de que somos metade lixo e metade beleza. Então, o livro alimenta-se dessa contradição incessantemente. Não só do horror, mas também do amor.

La Jornada: Com especial foco nas guerras, você não acha?

Galeano: Sim, porque a guerra é parte do horror. Não penso que a guerra seja um destino humano, mas é verdade que continua sendo uma realidade do nosso tempo. A cada minuto morrem de fome ou de doença curável 10 crianças no mundo. A cada minuto! E a cada minuto os Estados Unidos gastam meio milhão de dólares matando inocentes no Iraque!

La Jornada: Também o machismo é uma constante da história da humanidade…

Galeano: Sim, por isso menciono o paradoxo das vidas de Santa Teresa e de Joana Inés de la Cruz. As duas perseguidas pela Inquisição, pelos setores mais dogmáticos e ferozes da Igreja católica e suas verdades únicas. Suspeitas por serem mulheres inteligentes, criativas, por terem tanto ou mais talento que os homens. E, portanto, culpadas do imperdoável delito de serem elas mesmas.

O caso de Santa Teresa é o mais trágico. Penso que um braço de Santa Teresa acompanha Francisco Franco em sua longuíssima agonia, porque foi esquartejada e mandaram os pedaços para todas partes; e o braço incorruptível – como é chamado –, na mesinha de cabeceira de Franco. É uma piada de mau gosto da história. Ela, que tinha sido vítima dos equivalentes de Franco do seu tempo.

La Jornada: Como Eduardo Galeano vê o que ocorreu recentemente na África do Sul, que desconcertou o mundo: a explosão xenófoba no país que sofreu durante tantas décadas com o apartheid?

Galeano: Acho que há um sistema mundial de dominação que está transformando o mundo em um matadouro, e também em um manicômio. Está enlouquecendo a todos nós e a prova de que isto está se transformando em uma loucura total é que esse sistema de dominação mundial conseguiu que os negros se matem entre si, como está ocorrendo na África do Sul, ou que os iraquianos se matem entre si, como ocorre no Iraque, ou que os palestinos se matem entre si. Enlouquecem-nos. Já não sabemos quem é quem, nem por quê, nem para quê.

Agora o mundo entrou em um período de crise muito perigoso e isto vai gerar explosões de racismo por todas partes. O imigrante, o que vem de fora, principalmente se for de pele escura, será o bode expiatório do desemprego, da desocupação.

La Jornada: Dá a impressão que o mundo não pensa nem guarda silêncio para analisar isto desse jeito, como podemos fazer com seu livro, por exemplo…

Galeano: Sim, porque vivemos em uma vertigem incessante. Somos presos. Instrumentos dos nossos instrumentos. Máquinas das nossas máquinas. E a vertigem da vida urbana impede que disponhamos do tempo necessário para recuperar a memória perdida e para lembrar das coisas mais óbvias: que ninguém pediu passaporte para Colombo, que ninguém exigiu contrato de trabalho para Hernán Cortés, que ninguém exigiu certificado de boa conduta para Francisco Pizarro —que, por outro lado, ele não teria obtido, porque era um cara com péssimos antecedentes.

Como dizia no começo, somos todos africanos emigrados. São coisas elementares que esquecemos completamente e que devemos recuperar para fazer perguntas como as seguintes: este mundo é um destino? Será que ele não está grávido de outro?

La Jornada: No livro você também reflete sobre a conquista, depois de cinco séculos. Como você vê a situação dos povos indígenas?

Galeano: Acho admirável a capacidade que tiveram os indígenas das Américas de perpetuar uma memória que foi queimada, castigada, enforcada, desprezada durante cinco séculos. E a humanidade inteira tem que estar muito agradecida a eles, porque graças a essa obstinada memória sabemos que a terra pode ser sagrada, que somos parte da natureza, que a natureza não termina em nós. Que há possibilidades de organizar a vida coletiva, formas comunitárias que não estão baseadas no dinheiro. Que competir com o próximo não é inevitável e que o próximo pode ser algo muito mais do que um competidor.

Todas estas coisas que foram herdadas das culturas originais e que tiveram uma persistência admirável, porque sobreviveram a tudo, e que agora se manifestam. Por exemplo, a nova Constituição do Equador, que tem nome indígena, pela primeira vez na história da humanidade consagra a natureza como sujeito de direito. Nunca ninguém tinha pensado nisso.

No Equador, apesar de ser um país muito infectado pelo racismo, como o México e todos na América Latina, conseguiu perpetuar-se uma memória subterrânea que torna possível esta recuperação de verdades pronunciadas por vozes do passado mais remoto, mas que falam para o futuro.

Troca de senhor

La Jornada: E o fato de que agora estejamos em plena “comemoração” do bicentenário das independências, o que você acha disso?

Galeano: As independências foram, em geral, as certidões de nascimento das nações, mentira nestas que vivemos. Porque todas as constituições das nossas repúblicas independentes negaram os direitos para aqueles que derramaram seu sangue para conseguir essas independências. Foram emboscadas feitas contra os filhos mais pobres das Américas. Isso foi unânime e sempre foi assim.

Foram repúblicas nascidas para a negação de direitos, para a maldição e para o desprezo da maioria de seus habitantes, muitos dos quais passaram a ter uma vida pior da que tinham sob a dominação colonial. Ou, em todo caso, limitaram-se a trocar de senhores. Como dizia uma pichação anônima em uma parede de Quito, quando foi promulgada a independência do Equador: ‘Último dia do despotismo e primeiro da mesma coisa’.

“Carta Maior”

Comentários

Petróleo: o poder mudou de lado

Jean-Michel Bezat

No início dos anos 1970, quando o barril de “ouro negro” valia menos de US$ 2, ninguém jamais iria imaginar que um presidente americano se encontraria um dia na situação de ser obrigado a implorar perante o rei da Arábia Saudita por um aumento da produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com o objetivo de forçar uma redução dos preços. O Ocidente, entretanto, chegou a este ponto. Depois de esbarrar numa primeira recusa grosseira, em meados de janeiro, George W. Bush voltou a insistir neste pedido, na sexta-feira (16/05), por ocasião do seu encontro em Riad com o rei Abdala. A tentativa fracassou mais uma vez, pois tudo o que o presidente americano conseguiu foi um aumento limitado e temporário.

Já vai longe a época em que a Standard Oil of New Jersey, a Anglo-Persian, a Gulf Oil e suas quatro outras “irmãs” dominavam o mercado mundial. O tempo em que o presidente Roosevelt conseguiu obter do então rei Ibn Saud a abertura dos poços sauditas para as companhias estrangeiras em troca da proteção militar americana (1945). A época em que era possível derrubar impunemente o primeiro-ministro iraniano Mossadegh (1953), culpado de ter nacionalizado os hidrocarbonetos. O tempo em que fingiam acreditar que o petróleo era uma riqueza inesgotável.

Técnico trabalha em reserva de petróleo
PETRÓLEO: O PODER MUDOU DE LADO
‘ORÁCULO’ PREVÊ BARRIL A US$ 200
O poder de mercado mudou de lado. Ele escapou dos países consumidores e das grandes multinacionais do setor (Exxon, Chevron, Shell, BP. . .). A evolução do preço de referência do barril (que se aproxima atualmente de US$ 130) está sendo decidida nos bastidores do Kremlin e nas obscuras ante-salas do poder iraniano, no meio dos manguezais nigerianos e nas ribanceiras do Orenoco venezuelano, nos corredores vienenses da Opep e nas agitadas salas da New York Mercantile Exchange (NYMEX, a bolsa especializada na energia e nos metais). E, sobretudo, nos palácios sauditas.

O mundo está vivendo um terceiro choque do petróleo - mais lento do que os anteriores, de 1973 e de 1980. O preço do barril, cujo montante foi multiplicado por seis no espaço de seis anos, é hoje mais elevado em dólares constantes do que era no início de 1981. O seu preço poderá eventualmente refluir de dez ou vinte dólares dentro dos próximos meses, mas nada é menos certo. Alguns analistas tão influentes como os do banco de negócios Goldman Sachs prevêem a manutenção da sua cotação em US$ 141 em média no decorrer do segundo semestre, e em US$ 148 em 2009. A OPEP, por sua vez, não exclui mais que ele venha a alcançar US$ 200. . .

A Arábia Saudita, o único país capaz de liberar a injeção de um milhão de barris suplementares no mercado, está relutando a proceder desta forma. Ele até mesmo modificou a orientação do seu discurso, recentemente, anunciando que iria limitar o teto da sua produção cotidiana a 12,5 milhões de barris entre 2009 e 2020, de maneira a preservar as suas reservas e, junto com elas, os interesses das gerações futuras. “Toda vez que vocês descobrirem novas jazidas, deixem-nas no solo, pois os nossos filhos delas irão precisar”, decidiu o rei.

Nada consegue convencer os sauditas a abrirem as comportas. Eles avaliam que o mercado está suficientemente abastecido e que os estoques de petróleo bruto e de gasolina se mantêm em níveis satisfatórios. Eles estão preocupados, acima de tudo, com a política energética dos Estados Unidos, que visa a reduzir a sua “dependência petroleira” em relação ao Oriente Médio - uma palavra de ordem que foi lançada pelo presidente Bush e retomada em coro pelos pré-candidatos à eleição presidencial John McCain e Barack Obama. Basta ouvir os inflamados discursos acusatórios do ministro saudita da energia contra os biocombustíveis que vêm sendo desenvolvidos no continente americano, para compreender os interesses que estão em jogo. A isso, deve ser acrescentada a vontade de alguns parlamentares americanos de submeter o mercado petroleiro às regras anticartéis do comércio internacional, e até mesmo de suspender as vendas de armas se Riad continuar se recusando a aumentar a sua produção de petróleo.

Essas iniciativas preocupam e irritam os dirigentes da Opep. A estratégia do cartel de Viena, que renunciou desde 2003 a determinar um valor máximo e outro mínimo para o preço do petróleo, parece simples: seguir abastecendo o mercado para evitar toda ruptura, reduzir o “colchão de segurança” ao mínimo (2 milhões de barris por dia) e manter desta forma os preços tão elevados quanto possível, sem comprometer o crescimento econômico. Por serem proprietários dos três quartos das reservas mundiais, os treze Estados membros da Opep detêm todo o poder de barganha necessário para imporem a política que eles bem entendem.

Explosão dos preços
A dependência dos países consumidores está vinculada à fragilidade das multinacionais. Os Estados petrolíferos e as suas companhias públicas nacionais compartilham entre si 85% das reservas mundiais. Com isso, os gigantes multinacionais hoje não detêm mais do que 15% dessas reservas e enfrentam problemas para reconstituí-las à medida que elas vão extraindo a matéria-prima.

Qual será o peso real do “gigante” ExxonMobil, a maior companhia cotada, se comparado com a Gazprom ou a Saudi Aramco? O acesso das grandes companhias ocidentais aos campos petrolíferos - após se verem “barrados” na Arábia Saudita, no Kuwait e no México, a sua penetração está cada vez mais difícil na Rússia, na Venezuela e na Argélia - implicaria “no retorno ao período anterior ao das nacionalizações realizadas nos anos 1970″, avalia Nicolas Sarkis, o diretor da revista especializada “Pétrole et gaz arabes”.

Será preciso travar uma guerra para reconquistar o precioso líquido? Esta opção é inimaginável, mesmo se a necessidade de petróleo veio a ser um dos motivos da invasão americana do Iraque em 2003, conforme reconheceu o antigo presidente do Fed (o banco central americano), Alan Greenspan. Além disso, esta guerra permitiria obter qual benefício? Ao atiçar as tensões no Oriente Médio e ao reduzir a oferta, a guerra no Iraque contribuiu para a explosão dos preços. A luta para tomar posse dessas reservas por meio da força não passaria de “uma batalha de retaguarda”, uma vez que os países petroleiros se encontram atualmente “numa posição de força”, comenta Nicolas Sarkis. Eles podem vender as suas enormes reservas em dólares e impedir que os beligerantes do petróleo dele se apoderem, oferecendo-as a países mais pacíficos. Antes para a China do que para a América!

Um bom número de países industrializados tirou as lições das crises de 1973 e 1980 e optou por reduzir a sua dependência. Hoje, eles precisam de menos “ouro negro” para criarem a mesma riqueza. Nos Estados Unidos, as administrações sucessivas tomaram decisões que foram na contramão desta tendência, valendo-se de argumentos do tipo: “O modo de vida americano não é negociável”. Por conta disso, a sua taxa de dependência em relação ao petróleo importado acabou passando de 60% para 80%.

Neste exato momento, o problema é de natureza geopolítica: o acesso ao recurso petroleiro está minguando. Num futuro próximo, ele passará a ser geológico. Nas reservas conhecidas, hoje sobra o equivalente a 1,2 trilhão de barris de petróleo, ou seja, o suficiente para quarenta anos de consumo mundial, seguindo-se o ritmo de extração atual. Os mais otimistas multiplicam este número por três, acrescentando os tipos de petróleo bruto chamados de “não-convencionais” (óleos pesados, areias betuminosas). Infelizmente, a extração destes últimos é muito mais cara. Enquanto isso, as reservas dos campos vêm diminuindo inexoravelmente na Arábia Saudita, na Rússia, na Noruega, no México, na Indonésia…

A única resposta prática reside numa diminuição do consumo. Ora, a explosão dos preços não resultou numa redução da demanda, a não ser de maneira marginal, uma vez que os transportes funcionam, numa proporção de 97%, apenas por meio dos derivados do petróleo bruto. Contudo, a redução do consumo nunca foi tão vital, seja para reforçar a segurança energética, seja para lutar contra o aquecimento climático.

O mais barato e o mais limpo de todos os tipos de petróleo continua sendo aquele que não é queimado.

“Le Monde”

Comentários

Previsão aponta para permanência dos preços altos dos alimentos por 10 anos

Javier Blas

Os preços dos alimentos sofreram uma mudança de paradigma e não cairão de volta aos níveis pré-crise por pelo menos os próximos 10 anos, colocando pressões de longo prazo sobre os governos que enfrentam a crise de alimentos, segundo um futuro relatório.

O relatório, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), dirá que os preços dos alimentos se moveram para um “patamar mais alto” por causa da crescente demanda por parte da indústria de biocombustíveis e de países em desenvolvimento como a China.

Mas o Panorama Agrícola 2008-20017, que será publicado na próxima semana, oferece um respiro a curto prazo, prevendo que os preços diminuirão em comparação aos recordes deste ano, segundo um sumário visto pelo “Financial Times”.

“Os preços dos alimentos seriam consideravelmente maiores em termos nominais do que no passado, mas abaixo dos recordes atuais”, disse um funcionário familiarizado com o relatório. Em comparação aos preços médios para 2005-2007, o relatório prevê que em 2017 o preço do trigo, corrigido pela inflação, será 2% mais alto, o do arroz será 1% mais alto e o do milho será 17% mais alto. Os preços das semente oleaginosas deverão subir 33%.

As projeções de preços implicam em quedas em comparação aos recordes atuais, mas sugerem que a inflação nos alimentos continuará sendo um problema de longo prazo, particularmente para os países pobres.

“Sem exceção, os preços médios reais provavelmente permanecerão acima dos observados durante 1985-2007″, disse o sumário do relatório. A OCDE disse que as projeções são números preliminares.

Alexander Müller, um diretor-geral assistente da FAO em Roma, disse que o mundo precisa se acostumar aos preços mais altos dos alimentos. “No futuro próximo, nós teremos que conviver com os preços mais altos das commodities agrícolas.”

As novas estimativas de preços elevados a longo prazo surgem no momento em que o custo dos alimentos exibe os primeiros sinais de estabilização após subirem mais de 50% nos últimos 12 meses. Em abril, o índice de alimentos da FAO registrou a primeira queda em 15 meses e as autoridades disseram que os preços pareciam ter “atingido seu pico”.

Os preços do trigo caíram 40% desde seu recorde em fevereiro, os preços da soja também caíram, e os preços do milho e arroz estabilizaram em torno de seus recordes recentes.

Mas o sumário do relatório elimina as esperanças de uma queda rápida e sustentada, dizendo: “Diferente de outros casos de aumentos acentuados nos preços das commodities agrícolas que se dissiparam rapidamente, nós poderemos enfrentar os preços mais altos por algum tempo”.

Em altas anteriores, como a crise dos alimentos dos anos 70 ou a crise do milho de 1996, os preços retornaram rapidamente aos seus níveis anteriores.

O relatório alertará que a oferta de muitas commodities agrícolas continua limitada, os baixos níveis dos estoques dificilmente serão restaurados rapidamente, de forma que “a possibilidade de novos aumentos acentuados de preços (…) parecem prováveis nas próximas estações”.

O relatório da OCDE/FAO é baseado na suposição de que as condições permanecerão favoráveis para maior cultivo para produção de biocombustíveis.

“Financial Times”

Comentários

Em busca do amor, jovens sauditas desafiam labirinto de regras

Michael Slackman*

Nader al-Mutairi contraiu os ombros, fechou os punhos com força e disse: “vamos cumprir nossa missão”. Então o jovem entrou na sala de espera fria e vazia de uma clínica dentária, com a intenção de pedir o telefone da jovem que trabalhava como recepcionista.

Pedir o telefone de uma mulher é uma situação que pode deixar um homem ansioso em qualquer lugar do mundo. Mas na Arábia Saudita, ser pego com uma mulher que não seja da família pode significar prisão, tortura e desonra, a pior das penas numa sociedade em que preservar a reputação da família depende da adesão fiel a um rígido código de segregação entre os sexos.

Acima de tudo, Nader temia que seu primo Enad al-Mutairi descobrisse que ele estava quebrando as regras. Nader é noivo da irmã de Enad, Sarah, de 17 anos. “Por favor, não conte a Enad sobre isso”, disse. “Ele vai me matar.”

O sol já estava se pondo quando Nader entrou na clínica. Quase instantaneamente, sua determinação se esvaiu. Seus ombros se encolheram, suas mãos se abriram e sua voz começou a tremer. “Não é meu dia de sorte; vamos embora”, disse.

Foi um ímpeto de rebelião, quase que instantaneamente reprimido. No Ocidente, a juventude é uma época típica de rebelar-se contra a autoridade. Mas o que ficou evidente a partir de uma série de entrevistas com os jovens daqui foi que eles aceitam completamente as demandas religiosas e culturais da sociedade mais conservadora do mundo muçulmano. Eles podem se irritar com as regras, e às vezes até mesmo tentar fugir delas, mas ao mesmo tempo são impiedosos ao condenarem aqueles que audaciosamente as desdenham. Além disso, estão comprometidos a perpetuar essas mesmas regras com seus próprios filhos.

Isso sugere que a interpretação rígida do Islã pela Arábia Saudita, que não é contestada na maioria dos lares pelos integrantes da próxima geração e que é disseminada além das fronteiras do país através do dinheiro saudita numa época de resgate da religiosidade, irá cada vez mais moldar a maneira pela qual os muçulmanos em todo o mundo vivem sua fé. Jovens como Nader e Enad aprendem que eles são os guardiões da reputação da família, espera-se que eles protejam as mulheres da família da vergonha e evitem desonrar suas famílias através de seu próprio comportamento. Este é um exemplo clássico de como os sauditas mesclaram sua fé com suas tradições das tribos do deserto.

“Um dos valores mais importantes do mundo árabe é a honra”, diz Enad. “Se minha irmã sai na rua e alguém a atacar, ela não será capaz de se defender. A natureza dos homens é que eles são mais racionais. As mulheres não são racionais. Com umas poucas palavras, um homem pode conseguir o que quiser de uma mulher. Se eu chamar alguém na rua e uma garota responder, eu tenho de pedir desculpas. É uma situação grave. Uma violação do lar.”

Enad é um macho alfa, um policial de 20 anos de idade com um temperamento explosivo e um prazer em zombar dos outros. Nader, 22, tem uma fala suave, um sorriso gentil e uma inclinação para seguir em vez de liderar.

Eles são mais do que primos; são amigos e confidentes desde a infância. Esse é o padrão na Arábia Saudita, onde as famílias com freqüência são grandes e insulares. Enad e Nader estão entre dezenas de primos da família Mutairi que desde a infância passaram quase que todo o seu tempo livre juntos: garotos aprendendo a serem garotos, e agora homens, juntos.

Eles são jovens sauditas de classe média, não são ricos nem pobres, não pertencem ao sul ou ao leste mais liberais, mas moram no coração conservador do país, Riad. É uma cidade plana, limpa, de 5 milhões de habitantes, que brilha com a riqueza do petróleo, tem dois arranha-céus de vidro e ruas obstruídas com gigantes SUVs. A cidade tem muito pouco a oferecer em termos de entretenimento para os homens jovens, sem cinemas e com poucos lugares para praticar esportes. Quando solteiros, os homens não podem nem mesmo entrar nos shoppings onde as mulheres fazem compras.

Guardiões da propriedade
Afundado na cadeira estofada do café de um hotel, Nader tomava goles de suco de laranja natural enquanto brincava com seu telefone celular. Se há algum acessório que permite um pouco de auto-expressão para os homens sauditas, é o telefone celular. O de Nader está cheio de fotos de mulheres bonitas retiradas da Internet, closes de rostos de cantoras e atrizes. O toque de seu celular é uma canção de amor em árabe (um dos toques de celular mais populares entre seus primos é a música tema do filme “Titanic”).

“Sou muito romântico”, diz Nader. “Não gosto dos filmes de ação. Gosto de romance. ‘Titanic’ é o número 1. Também gosto de ‘Head Over Heels’ [”Cinco Evas e um Adão”]. Romance é amor.”

Três dias depois, num restaurante vizinho, Nader e Enad se concentravam em comer com talheres, sentindo-se um pouco constrangidos já que estão acostumados a comer com as mãos.

De repente, os dois jovens pararam de se concentrar na comida. Uma mulher havia entrado no restaurante, sozinha. Ela estava completamente vestida com uma abaya negra (traje típico das mulheres muçulmanas), com o rosto coberto com um véu preto, cabelo e orelhas cobertas por um tecido preto justo. “Olhe só o Batman”, disse Nader zombando, e segurando o riso.

Enad fingiu jogar seu cigarro na mulher, que nesse momento já estava sentada a uma mesa. Ela ficou irritada com os dois jovens, como se tivesse sido pega fazendo algo errado por seus pais.

“Ela está sozinha, sem um homem”, disse Enad, explicando por que eles estavam enojados, não apenas com ela, mas também com os parentes homens da mulher, onde quer que estivessem.

Quando um homem se juntou à ela à mesa - alguém que eles assumiram era o seu marido - ela retirou o véu da face, o que aumentou a hostilidade de Enad e Nader. Eles continuaram a zombar da mulher e a fazer gestos e comentários até que o casal mudasse de mesa. Mesmo assim, a mulher ficou tão nervosa que passou a segurar o véu conscientemente sobre seu rosto durante toda a refeição.

“Graças a Deus nossas mulheres estão em casa”, disse Enad.

Nader e Enad rezam cinco vezes por dia, normalmente abandonam qualquer atividade que estejam fazendo para ir com seus primos à mesquita mais próxima. A oração é obrigatória no reino, e a polícia religiosa obriga todas as lojas a fecharem durante o horário de oração. Mas isso também é levado de forma casual, como uma rotina para Nader e Enad, assim como parar para tomar um café.

Para Nader e Enad, a oração é essencial. Do ponto de vista de Enad, a jihad [guerra santa] também, e não a abordagem mais moderada do tema, que enfatiza os bons atos, mas sim a idéia de pegar uma arma e lutar em lugares como o Iraque e o Afeganistão.

“A jihad não é um crime, é um dever”, disse Enad numa conversa casual.

“Se alguém entra em sua casa, você vai ficar ali parado ou vai lutar contra o invasor?”, disse Enad, inclinando-se para frente, com suas mãos curtas e fortes sobre os joelhos. “As terras árabes ou muçulmanas são como a nossa casa.”

E ele, iria para a guerra?

“Eu precisaria da permissão dos meus pais”, disse.

Nader, por sua vez, respondeu: “Não pergunte para mim, tenho medo do governo.”

O conceito é um princípio tão fundamental, tão enraizado nas suas psiques, que eles não vêem nenhum conflito entre sua crença na jihad armada e seu trabalho como agentes de segurança do Estado. Como policial, Enad ajuda a fazer batidas em supostos esconderijos terroristas. Nader trabalha no exército como oficial de comunicações.

Cada um ganha cerca de 4 mil riais por mês, cerca de US$ 1.200, quantia longe de ser suficiente para se tornarem independentes de seus pais. Mas esta não é uma grande preocupação, porque se espera que os pais sustentem até mesmo os filhos adultos, para assegurar que eles tenham um lugar para viver e os meios para se casarem. Para muitos pais, sustentar os filhos com dinheiro é visto como seu principal dever - sua honra -, mais do que assegurar que eles recebam educação formal.

Todos os homens jovens têm um bigode e cavanhaque obrigatórios, e na maioria das vezes vestem-se com o robe tradicional. Nader prefere o thobe branco, que vai até o calcanhar; Enad prefere bege.

Mas nos finais de semana, eles adotam um visual louco e transgressor, usando calças esportivas, camisetas agarradas de manga curta, cores vibrantes, listras combinadas com estampas xadrez, um monte de velcro e elásticos nos sapatos. Nas roupas estilo ocidental, ambos parecem menores, e um pouco gordinhos. Nader diz gentilmente, “Eu não faço exercício.”

Vida familiar
Há outras oito crianças na casa em que Enad vive com seu pai, sua mãe e a segunda mulher de seu pai. O apartamento não tem muitos móveis, e nada na parede. Os homens e meninos se reúnem numa sala ao lado do corredor principal, sentados num carpete bege sujo, assistindo a uma televisão equilibrada numa estante torta. As mulheres têm uma sala de estar parecida, quase idêntica, mas as portas fechadas.

A casa ainda é um refúgio para Enad e seus primos, que com freqüência passam o tempo livre dormindo, assistindo Dr. Phil e Oprah legendados na televisão, bebendo café com cardamomo ou chá doce - e fumando.

Enad e Nader sempre foram próximos, mas sua relação mudou quando Nader e Sarah ficaram noivos. O pai de Enad concordou em deixar Nader se casar com uma de suas quatro filhas. Nader escolheu Sarah, apesar de ela não ser a mais velha, em parte porque ele se lembra de ter visto o rosto dela quando criança e achá-la bonita.

Eles logo assinaram um contrato de casamento, que os tornou legalmente casados, mas pela tradição não se consideram comprometidos até a festa de casamento, marcada para essa primavera. Antes disso, eles não podem se ver ou passar nenhum tempo juntos.

Nader disse que espera ver sua nova esposa pela primeira vez depois da cerimônia do casamento - que também será separada por sexo - quando serão fotografados como marido e mulher.

“Se você quiser saber como é o rosto de sua mulher, olhe para o irmão dela”, disse Nader defendendo o costume de casar com alguém que ele só viu uma vez, brevemente, quando era criança.

Esse é o Nader tradicional, que às vezes entra em conflito com o Nader romântico.

Logo seu telefone celular bipou, indicando uma mensagem de texto. Nader ficou ruborizado, mostrou a língua e virou-se para ler a mensagem, que foi enviada por “Meu Amor”. Ele fala por telefone e troca mensagens de texto com Sarah secretamente. Quando ela liga, ou escreve uma mensagem, seu telefone mostra as palavras “Meu Amor” sobre dois corações vermelhos entrelaçados.

“Eu tenho uma conexão”, disse ele, baixinho, enquanto lia a mensagem, explicando como Sarah consegue se comunicar com ele.

Sua conexão é Enad, que secretamente deu a Sarah um telefone celular que Nader havia comprado para ela. Essas conversas são tabu e poderiam causar uma briga entre as duas famílias. Então eles se falam clandestinamente, como se escapassem para um encontro depois que os pais fossem dormir.

Enad guarda o segredo, mas isso aumenta a tensão velada entre os dois primos, conforme Nader tenta desenvolver sua própria identidade como futuro chefe de família, como um homem.

Enad zomba de Nader, dizendo em certo ponto: “Daqui a um ano você vai encontrar minha irmã de bigodes e ele na cozinha.”

“Mentira”, diz Nader, reunindo toda sua força para se defender. “Sou um homem.”

Outro ponto polêmico: a lua-de-mel. Nader está planejando levar Sarah para a Malásia, e Enad quer ir junto. Ele diz que Nader deve um favor a ele. “Me leve”, diz Enad, com um toque de ironia.

Nader não sabe dizer se o primo está brincando ou falando sério. “Sabe, ele é meio louco às vezes”, diz Nader. “Ele está sempre zangado. Não, ele não vai junto. Não é uma boa idéia.”

De volta ao vilarejo
Nader cresceu em Riad, e seus pais, como os de Enad, são primos em primeiro grau. Enad diz que sua forma de pensar foi moldada no vilarejo de Najkh, a 560 quilômetros de Riad, onde ele morou até os 14 anos com seu avô. É lá que ele ainda se sente mais confortável.

Sempre que pode, um primo o leva para a casa do avô, um caixote de concreto no deserto, a seis quilômetros e meio da casa mais próxima. Há um quintal de areia cercado por um muro, com pilhas de madeira usada para aquecer a casa nos meses frios do inverno.

Não há móveis dentro da casa, apenas algumas almofadas no chão e um tapete de oração apontado na direção de Meca. Enad e seus primos jogam o lixo sem pensar para fora da janela da cozinha e pelo quintal, esperando que o “garoto da casa”, um homem indiano chamado Nasreddin, limpe sua sujeira - o que ele faz.

Enad pouco fala e esconde seus cigarros quando o avô aparece. Ele nunca contaria ao pai ou ao avô que fuma. Enad continua sem expressão quando um primo diz que uma de suas primas, uma jovem chamada Al Atti, de 22 anos, está interessada nele. O tópico surgiu porque outro primo, Raed, havia pedido a mão de Al Atti, e ela recusou.

O conflito e o flerte esbarraram em muitos assuntos - masculinidade, amor, relações familiares -, o que gerou uma confusão de cochichos, e até Enad se envolveu.

Al Atti contou a suas irmãs que gostava de Enad, mas deixou claro que nunca iria admitir isso publicamente. Então pediu a uma das irmãs para espalhar a notícia de um primo a outro, até chegar em Enad. “É proibido anunciar o seu amor. Isso é impossível”, disse ela.

A notícia finalmente chegou a Enad, que tentou permanecer frio apesar de estar claramente interessado, e lisonjeado. Nessa altura, o próprio Enad estava cochichando sobre Al Atti, tentando descobrir uma forma de se comunicar com a jovem sem falar pessoalmente com ela. Ele pediu a uma das mulheres que visitavam a casa para telefonar para ela, e então transmitir sua mensagem de interesse.

Enad disse que nunca passou pela sua cabeça ir atrás dela, mas um homem - um homem de verdade - não pode rejeitar uma mulher que esteja interessada nele. Para tirar seu primo Raed fora da jogada, ele sugeriu que o irmão de al Atti levasse Raed para ouvir a recusa de Al Atti pessoalmente, na casa dela.

“Por detrás de uma parede”, disse Enad.

“O amor é perigoso”, disse Al Atti sentada com suas irmãs em sua casa. “Ele pode arruinar sua reputação.”

Uma questão de romance
Foi uma visita breve de dois dias no vilarejo, e então Enad já estava de volta a Riad para trabalhar. Em Riad ele parecia tanto animado quanto atormentado pelo interesse de Al Atti.

Naquele fim de semana, ele e Nader foram para o deserto, nos arredores de Riad, onde os jovens vão para dirigir jipes pela areia e relaxar, longe da fiscalização da polícia religiosa e dos vizinhos. Eles sentaram-se um ao lado do outro sobre um cobertor.

Nader começou falando.

“Sou uma pessoa romântica”, disse. “E não há romance.”

O que Nader quis dizer foi que as tradições sauditas não permitem o romance entre casais jovens e solteiros. Há muitas histórias de jovens que se encontram secretamente, se apaixonam, mas são incapazes de contar a seus pais porque não poderiam nem explicar como se conheceram, antes de mais nada. Um jovem casal disse que depois de dois anos se encontrando secretamente eles contrataram uma pessoa para apresentá-los para que seus pais pensassem que foi assim que se conheceram.

Agora, no deserto, a sinceridade de Nader confronta Enad.

“Ele acha que não existe romance. Como pode não haver romance?”, diz Enad, seus olhos se arregalando conforme sua raiva ia crescendo. “Quando você se casar, seja romântico com sua esposa. Você quer conhecer uma mulher na rua para poder ser romântico?”

Nader ficou intimidado, e amedrontado.

“Não, não”, disse ele.

“Me convença então de que você está certo”, retrucou Enad.

“Estou dizendo que não há romance”, disse Nader, tentando contra-atacar.

Enad não amoleceu, gritando com seu primo.

Na frente dele, Nader disse: “Enad sabe tudo.”

Então se deu por vencido. “Tudo bem, existe romance”, disse, levantou-se e foi embora, envergonhado e ruborizado.

“The New York Times”

Comentários

A rota das especiarias

Livros contam como os temperos aproximaram Oriente e Ocidente

Júlio Pimentel Pinto

Quem percorrer a trilha das especiarias com a ajuda dos livros passará por diversos territórios - histórico, geográfico, mítico, medicinal e gastronômico. Na travessia, o leitor encontrará pistas para pensar sobre as relações entre Ocidente e Oriente, sobre a forma como cada parte do planeta concebeu e nomeou a outra e também sobre suas relações desiguais - às vezes conflituosas, às vezes complementares. Nos dez livros selecionados, alguns caminhos e fronteiras desse diálogo de tantos séculos.

Numa excelente introdução ao estudo da rota das especiarias, A magia das especiarias - a busca de especiarias e a expansão marítima, Janaina Amado insere a ida de europeus ao Oriente nos séculos XV e XVI no contexto mais amplo da expansão marítima. Estabelece conexões com as navegações para a América e explora motivações econômicas e imaginárias da aventura.

Sobre as inúmeras invasões das Molucas, no Sudeste Asiático, há a obra The scents of Eden: a history of the spice trade, de Charles Corn. Em tom de crônica, Corn conta como portugueses, holandeses, britânicos e americanos ocuparam as ilhas, que hoje figuram no imaginário romântico de ocidentais como paradisíacas. Foram, porém, as especiarias que motivaram as disputas por seu controle durante três séculos e a resistência, insuficiente, de seus habitantes.

Ao associar o mundo das especiarias à idéia de “maravilha”, Rosa Nepomuceno, em Viagem ao maravilhoso mundo das especiarias, lembra que as aventuras da busca não significavam apenas a possibilidade de obter sementes, ervas e grãos. Traziam também uma concepção fabulosa do mundo, das lendas e dos mitos de origem, que fascinavam e assustavam ocidentais. Outro livro de Rosa Nepomuceno, O Brasil na rota das especiarias, inclui o país nessa história. A viagem não é mais para o Oriente, mas para o “Extremo Ocidente”: o Novo Mundo e suas pimentas, folhas balsâmicas, cascas e favas, que se combinaram com as especiarias asiáticas, trazidas e aclimatadas no território brasileiro.

Veneza - o encontro do Oriente e do Ocidente, da arqueóloga e historiadora Fernanda de Camargo-Moro, não trata só do caminho percorrido pelas especiarias. Aborda-as no primeiro - e interessantíssimo - capítulo, vendo-as como origem de um movimento que tornou Veneza a fronteira (divisa e encontro) do Ocidente com o Oriente. Com a experiência de quem estudou e realizou a rota das especiarias, Camargo-Moro analisa sua importância histórica e gastronômica.

Em Civilizações e especiarias - Goa, Damão e Diu, o passado e o presente, Oscar Gomes da Silva relembra a história de colonização portuguesa nos territórios de Goa, Damão e Diu e a compara com o presente de fantasia e miséria. No passado e no presente, a contínua importância desse temperos.

O biólogo e ecologista francês Jean-Marie Pelt destaca, em Especiarias e ervas aromáticas, o valor histórico das especiarias, descreve o processo de sua aclimatação ao Ocidente e discute suas características botânicas, farmacológicas e culinárias.

Do século XVI até hoje, as especiarias estão presentes no nosso paladar, servem à saúde e à sexualidade, oferecem caminhos místicos. Em Spice: the history of a temptation, Jack Turner explora a atração e a repulsa que ocidentais sentiram diante delas e de um mundo que lhes era tão estranho.

Acompanhado por fotógrafos, o jornalista John Lawton refaz, em Silk, scents, and spice: retracing the world’s great trade routes, the silk road, the spice route, the incense trail, alguns caminhos dos aventureiros que procuraram, além das especiarias, outros aromas e texturas no Oriente próximo e extremo. Relata a experiência de busca de ervas, seda e incenso, associando economia, religião e política.

Em The spice route: a history, John Keay percorre em detalhes um longo período - 3 mil anos - e recorre a relatos de viajantes, cartógrafos e planos de viagens para extrair a história da rota, sempre envolta em mistérios, e identificar a corrida pelas especiarias como fundadora de um mundo moderno e globalizado.

EntreLivros

Comentários (1)

A África sonha com a “segunda independência”

Quinze anos após o fim da Guerra Fria, mobilizações importantes e criativas, que se articulam em torno dos Fóruns Sociais, sugerem que o continente pode não estar condenado aos golpes de Estado, “democracias FMI”, emigração e miséria

Anne-Cécile Robert

Se as mudanças que ocorrem na África, freqüentemente sob formas dramáticas (movimentos sociais, golpes de Estado, guerras, epidemias, miséria, etc.), dão a impressão de um grande caos, as coisas nesta região não são menos compreensíveis do que em outros lugares. As simplicações midiáticas e os preconceitos depreciativos são, geralmente, o que cria a “insolúvel complexidade” do continente [1].
Durante os dez anos cruciais entre 1989-1999, a maior parte dos modelos políticos e econômicos que estruturavam o continente foram repensados. O fim do confronto Leste-Oeste pôs fim aos conflitos atiçados do exterior, como em Angola ou Moçambique. Os regimes cripto-comunistas desapareceram ou se converteram em economias de mercado (Benin, Etiópia, por exemplo). O desmonte do apartheid, na África do Sul, selou o fim simbólico dos regimes coloniais. O pluripartidarismo difundiu-se da República Democrática do Congo (RDC) até Cabo Verde, passando pelo Quênia e a África Central…
Essas mudanças podem ser encaradas de duas maneiras. Por um lado, as tensões de todo tipo que as transformações sempre provocam. O continente dá exemplos delas todos os dias. Do outro lado, há o espaço político e social, a margem de manobra que se abre com o repensar de todo o status quo. Ou seja: cada drama ou perigo carrega também uma esperança ou a possibilidade de uma mudança positiva. É assim com golpes de Estado, que servem às vezes para reconduzir à democracia — como em Mali em 1991, quando os militares derrubaram o ditador Mussa Traoré antes de devolver o poder aos civis. Os rebeldes da Mauritânia tiveram a mesma intenção, em 2005.
Três linhas de fratura permitem observar essas ambivalências. A princípio, as terapias neoliberais e seu fracasso, na maioria dos países, destruíram o contrato social vindo das independências. A África subsaariana é a única parte do mundo em desenvolvimento em que a expectativa de vida recuou para o nível registrado no início da década de 1970, e continua abaixo dos 50 anos).

Regressão social e democracia limitada

Este evento desestabilizador constitui um potente motor para os conflitos sociais e tensões armadas. Ao mesmo tempo, provoca um debate, ainda que incipiente, sobre a necessidade de redefinir as políticas econômicas.
Por outro lado, a democratização ampliou o espaço político, mas de modo incompleto. A tutela das instituições financeiras internacionais põe um manto de dúvida sobre a legitimidade das autoridades públicas. O surgimento de novas potências africanas ou estrangeiras redesenha a geopolítica do continente, deixando a esperança de uma possível redistribuição das cartas do jogo.
O fracasso dos planos de ajuste estrutural é hoje comumente reconhecido [2]. Mesmo que os Estados africanos cheguem a atingir taxas de crescimento relativamente elevadas – 5% em média em 2005, com picos nos países de exploração petrolífera como o Chade (7,7%) ou a Guiné Equatorial (9,3%) –, os índices de pobreza não recuam. Obrigados a reconhecer os resultados pífios na região, economistas neoliberais começam a se perguntar sobre as determinantes deste crescimento e sobre seu conteúdo, como atesta um documento do Fundo Monetário Internacional (FMI) expressivamente intitulado “Dores e crescimento”. Segundo o texto, “estudos recentes têm procurado determinar o que caracteriza um crescimento favorável aos pobres, noção para a qual não há definição única. (…) Na África, o papel das desigualdades merece ser examinado, dada a profunda modificação da distribuição da rendas desde 1980 (…). Sabe-se que a evolução das desigualdades pode contribuir para a redução da pobreza, assim como anular parte do recuo desta ocasionado pelo crescimento.” [3]
Diante da amplidão do prejuízo, o Banco Mundial e o FMI decidiram patrocinar novos programas econômicos. Estes têm como objetivo central a luta contra a pobreza e a corrupção, o desenvolvimento dos recursos humanos e da infra-estrutura. Os “Documentos Estratégicos de Redução da Pobreza” (DERP) [4] devem permitir que se atinja os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), fixados pelas Nações Unidas [5].

A recusa solene às alternativas

Com os Acordos de Parceria Econômica (APE), estabelecidos pelas cláusulas do Acordo de Cotonou, em 2000, a União Européia passou a reger este novo concerto. O mesmo com a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (Nepad) [6]. Para financiar o desenvolvimento, também foram anunciadas reduções ou cancelamentos das dívidas públicas, principalmente pelo G-8, por meio da Iniciativa para Países mais Pobres Muito Endividados (PPME) [7]. Os apelos para aumentar a ajuda internacional partiram de diversos órgãos multilaterais [8].
No entanto, apresentadas como reaproveitamento de lições de políticas passadas, essas iniciativas se ativeram a mecanismos ideológicos neoliberais, evitando abordar o “debate proibido” [9] sobre políticas macroeconômicas alternativas. O relatório “Nosso interesse comum”, redigido a pedido de Tony Blair em 2005, é um exemplo típico desses impasses [10]. Por isso, as reduções da dívida estão sempre condicionadas a remédios que matam (liberalização/privatizações/cortes dos gastos públicos e livre comércio/abertura dos mercados à concorrência mundial). A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento sugere, em vão, mudanças mais claras de estratégia, principalmente a reavaliação das regras do comércio mundia [11].
Mas certos politólogos e observadores socorrem os economistas dominantes: o problema não estaria em receitas ruins, mas nos africanos, que não entendem nada. O jornalista francês Stephen Smith tornou-se o principal expoente de uma crítica violenta e arrogante das “mentalidades”, que seriam o verdadeiro obstáculo para o desenvolvimento [12]. Seja qual for o grau de erudição de seus autores, essas críticas comportam um “vício de construção”: elas não são válidas a menos que se considere a economia liberal como o único modelo possível. Em suma, os africanos recusam-se a morrer curados. Uma falta de imaginação da parte deles, sem dúvida… Mas, em sua desgraça, o continente negro tornou-se o símbolo da violência da economia globalizada e, em solidariedade, o Fórum Social Mundial acontecerá em Nairóbi (Quênia) em janeiro de 2007.

Os três motores da devastação africana

Por ora, os danos estruturais causados às sociedades africanas são consideráveis. Três motores de desestabilização social e política foram postos em marcha. Em primeiro lugar, a inserção nos mercados mundiais fragilizou o setor agrícola (dois terços da população subsaariana vive em áreas rurais), devido principalmente a um jogo de concorrência desleal, que favorece a pauperização e êxodo em direção às cidades. Em seguida, a classe média foi achatada. Desde os anos 80, as sociedades africanas polarizaram-se entre muito pobres e muito ricos: os 20% mais ricos da população têm uma renda dez vezes superior à dos 20% na outra ponta da escala [13]. O desenvolvimento de um país depende em grande parte do dinamismo da classe média, cuja ascensão oferece novas perspectivas aos mais desfavorecidos. “Durante a atual fase de expansão do capital, com suas novas formas de acumulação, muita gente, inclusive a classe média, foi privada de seus meios de produção, empobrecida, maltratada e quebrada pelas forças do mercado” [14], nota o politólogo ganês Kwame A. Ninsin.
Por fim, a ideologia liberal demoliu os Estados, ao pregar disciplina orçamentária, liberalização financeira, abertura dos mercados e privatizações. A situação constitui, desde o início, um entrave para o desenvolvimento: a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento mostrou que um impulso público (financiamento da infra-estrutura, instauração de um quadro legislativo favorável aos negócios, etc.) seria indispensável para a chegada de investimentos do setor privado [15]. A África beneficou-se muito pouco do “boom” de investimentos diretos externos nos últimos anos [16].
Mas o enfraquecimento do poder público contribui também para o deslocamento das sociedades. Por um lado, o Estado se encontra privado dos meios para redistribuir a renda, como ilustra o debate sobre a ausência de proteção social ou a degradação do ensino sofrida por Ruanda, República Democrática do Congo, Costa do Marfim… A pauperização favorece a indisposição nos exércitos mal sustentados, criando contextos favoráveis a golpes de Estado (para citar os últimos: Guiné Bissau em 2003, Mauritânia em 2005, etc.). Os funcionários são pagos com meses, às vezes anos, de atraso. Tanto que o primeiro gesto do general golpista François Bozizé, na África Central em 2003, foi anunciar o pagamento dos funcionários.

Perigosa tentação do etnicismo

Por outro lado, não há mais autoridade legítima para firmar uma meta para a sociedade. Com o poder público incapaz de definir o interesse comum, discursos com base étnica ganham força. Defende-se a autenticidade da indentidade “congolesa” na República Democrática do Congo; o nacionalismo exacerba-se também no Togo, na Costa do Marfim… Esses discursos simplicadores lembram a idéia “aos franceses, a França”, tão cara a Jean-Marie Le Pen. “Como a crise inviabiliza o crescimento econômico, que havia permitido o financiamento das políticas multiétnicas do novo Estado, a classe dirigente se dividiu e perdeu toda a legitimidade suscitada pelo desenvolvimento, tendo então de criar ela mesma novas bases, muitas vezes a partir de divisões étnicas” [17], explica o economista egípcio Samir Amin. A idéia de bem público, das elites da independência, seria reconstruída, tendo por motor a redefinição do contrato social.
Típica de crises pós-ajuste estrutural, a situação na Costa do Marfim dá um bom exemplo do que ocorria na região. O conflito iniciado em setembro de 2002 tem como ponto de partida a sucessão catastrófica de Félix Houphouet-Boigny. Este líder histórico havia instaurado um sistema paternalista fundamentado sobre a renda do mercado do cacau e o apoio pouco ativo de Paris. As coisas complicaram com a privatização do setor cacaueiro, a queda na rentabilidade do mercado e também da qualidade de vida da população. A tensão aumenta entre os jovens pauperizados das áreas urbanas, liderados por Laurent Gbagbo, enquanto as populações rurais, antes paparicadas por Houphouet-Boigny, procuram garantir o futuro reavendo as terras entregues a estrangeiros durante o “milagre marfinense”. Daí o discurso nacionalista sobre a “marfinidade” e a divisão do país, pondo em conflito populações urbanas e rurais, estrangeiros e marfinenses, jovens e velhos, etc. – cada um acreditando que o lado oposto se enriquecia às suas custas.
As tensões aumentam na África à medida que a democratização permite a verbalização destas, às vezes com sucesso. Os eleitores mobilizam-se em toda parte: o comparecimento maciço às urnas (70%) nas eleições gerais na República Democrática do Congo, em julho de 2006, é emblemático desse movimento. Novos agentes sociais surgem, como as associações de mulheres, artesãos, pequenos empresários, etc., ou sindicatos que ganham voz em debates públicos. Após grandes manifestações populares, um governo “plural” assume o poder no Togo, em outubro de 2006, sob a presidência de Faure Gnassingbe, filho do ditador falecido Gnassingbe Eyadema.

Sinais animadores (e criativos) de mobilização

Em Madagascar, a mobilização dos habitantes precipitou a saída de Didier Ratsiraka em 2002. Na República Democrática do Congo, manifestações “cidade morta” foram organizadas em protesto contra a lentidão no processo de transição, em 2003 e 2004. Conflitos sociais estouram: greves gerais contra o elevado custo de vida na Guiné, na primavera de 2006; movimento contra a privatização das ferrovias no Mali; lutas contra cortes de eletricidade nas periferias da África do Sul, etc. Repensando a tutela do FMI e do Banco Mundial, fórums sociais são organizados regularmente por todo o continente [18]. Os artistas (cantores, rappers, pintores de rua ou cartunistas de jornal, videoartistas e cineastas), agora muito populares, propagam a contestação.
Ocupando o posto deixado vazio pelo poder público, movimentos religiosos desempenham um papel cada vez mais importante no terreno social. Ao lado das associações muçulmanas, estão também igrejas evangélicas vindas dos Estados Unidos. Na Costa do Marfim, o presidente Gbagbo afiliou-se a uma delas. Elas adotam discursos milenaristas e proféticos [19], mas intervêm também como mediadoras de certos conflitos, como na República Democrática do Congo. O islã africano, tradicionalmente tolerante, sofreu impactos dos acontecimentos no Oriente Médio e abalos com a “guerra contra o terrorismo”. Certa radicalização foi registrada na Nigéria, Sudão e Somália – ainda que estes exemplos sejam deformados com freqüência pela mídia.
Mas é a irrupção dos jovens no cenário social que mais marca as democracias africanas (de 40% a 49% da população, segundo dados dos países da região subsaariana, tem menos de 15 anos [20]). Marcados profundamente pela degradação de uma educação sem qualidade e também por epidemias como a da Aids [21], eles oscilam entre manifestações agressivas, geralmente em zonas urbanas – como mostram os protestos constantes em Abidjan (Costa do Marfim) e a pouca idade dos rebeldes do norte do país –, e ações de bandos mafiosos – como ilustram as sabotagens criminosas nas zonas petrolíferas da Nigéria.

Juventude, ator social decisivo

Nos subúrbios das grandes cidades como Nairóbi ou Joanesburgo, jovens agrupam-se em pequenas sociedades paralelas, ou, quando chegam à universidade, estudam em situação terrivelmente precária. Movimentos contra altas taxas de matrícula, a ausência de bolsas de estudos ou a má conservação dos alojamentos estudantis e refeitórios universitários abalam regularmente os campi, como em Dacar no último inverno. “A juventude tem sede de justiça (…) Ela quer que façamos as contas. Os jovens querem reaver a dignidade e exigem, ao mesmo tempo, uma explicação para a difícil situação do continente” [22], analisa o cineasta mauritanês Abderrahmane Cissako.
A estes fenômenos junta-se a tentação da emigração – com os dramas humanos associados a ela. Às vezes, a decisão é encorajada pelas famílias e comunidades, que se endividam para permitir a partida de um jovem, na esperança de que este poderá sustentá-los em troca. A emigração se torna um fenômeno paradoxal, porque priva os Estados de suas “forças vivas” enquanto traz, ao mesmo tempo, 17 bilhões de euros por ano às contas do continente, quantia maior que os fundos para o desenvolvimento…
“Nossos dirigentes dão o mau exemplo. Ao enviar seus filhos para estudar ou se enriquecer no hemisfério Norte, eles reafirmam a idéia de que nós não conseguiremos avançar por aqui”, lamenta o historiador senegalês Ibrahima Thioub. Mais do que em qualquer outro lugar, as elites africanas têm uma qualidade de vida muito superior àquela do resto da sociedade. A concomitância da democratização e a expansão da globalização criaram um novo tipo de regime político: o que se poderia chamar de “democracias FMI”. As elites surgem a partir de uma dinâmica dupla: eleições multipartidárias e a bênção de instituições financeiras internacionais, o segundo elemento impondo limites sobre a efetividade do primeiro.
Com os Estados africanos praticamente sob tutela das instituições financeiras internacionais, candidatos aos cargos supremos passam sempre pelo crivo das “casas financiadoras”, cujo apoio ou neutralidade são necessários para o bom governo. O presidente do Mali, Amadu Tumani Turé, admite ter “descoberto muitas injustiças nas relações econômicas internacionais” e sentir não vergonha, mas mal-estar diante desta dependência [23]. Certos dirigentes saíram diretamente do FMI ou do Banco Mundial, como a presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf. Entre os principais atores dos anos recentes, Alassane Dramane Ouattara, ex-diretor de um departamento do FMI, foi primeiro ministro da Costa do Marfim; Nicéphore Soglo, ex-dirigente do FMI, foi presidente do Benin; Ngozi Okonjo-Iweala, ministra das finanças da Nigéria, foi secretária geral do Banco Mundial. Os executivos, como o presidente do Madagascar, Marc Ravalomana, ou os banqueiros, como o primeiro-ministro marfinense Charles Konan Banny, ex-diretor do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), são favorecidos pelas instituições financeiras.

Cenário institucional: corrupção e elitismo

A legitimidade e a representatividade das elites é garantida mais por órgãos internacionais do que pela população. Durante um debate parlamentar, um ministro senegalês calou a oposição com a simples frase: “As instituições financeiras estão de acordo”. O conflito do algodão, em 2003, ilustrou paradoxalmente a conivência das elites com os economistas dominantes: os dirigentes africanos exigiram o respeito às regras do livre-comércio, não uma reavaliação de um jogo mundial pautado pela violência no relacionamento entre os hemisférios Norte e Sul.
Às vezes, no entanto, o candidato do sistema Bretton Woods sofre sanções populares. No Benin, expulso do poder em 1991 por Nicéphore Soglo, o ex-ditador Mathieu Kérékou venceu este último em 1996 (antes de deixar voluntária e definitivamente a presidência em 2006). Mais recentemente, eleita em 2005, Ellen Johnson-Sirleaf teve de lidar com um parlamento hostil.
Além do altruísmo sanguinário da “comunidade internacional”, a questão econômica perturba sem cessar um jogo democrático ainda mais aleatório, com partidos políticos sem militantes, já que estes não conseguem pagar taxas de filiação. Certos candidatos agem de maneira desonesta, enquanto outros chegam a falsificar resultados eleitorais. Paradoxo: regimes estáveis suscitam o surgimento de uma oposição, mas esta serve apenas para melhor dividir seus adversários (Gabão, Burkina Faso, por exemplo). Na maior parte do tempo, os “observadores internacionais” validam os resultados e parecem não fiscalizar nada além de se certificarem de que o partido em questão é um bom aluno em economia (veja o caso do Zimbábue). A cultura democrática demora a se fixar. Alguns governantes modificam as constituições para eliminar barreiras às reeleições (Burkina Faso, Uganda, Chade). A corrupção apodrece as administrações. A oposição, os jornalistas e os juízes são alvos de intimidação. É o caso do Senegal (prisão do ex-primeiro- ministro Idrissa Seck, agressões contra o deputado Talla Sylla…) e também do Níger, onde dois foram julgados no verão de 2006 por “difusão de falsas notícias” sobre o estado do país.
“Por que não surge um Chávez africano?” [24], lamentou recentemente um estudante num campus de Abidjan [25]. Um confronto de peso aconteceu no início de 2006, entre o Chade e o Banco Mundial: uma possível resposta à pergunta do aluno. Alegando a urgência dos problemas sociais a serem resolvidos em seu país, N’Djamena pediu o desbloqueio dos fundos petroleiros reservados pelo banco para “garantir os interesses das gerações futuras”. Se o regime de Idris Deby cuida mais de seu exército (e de seu conflito com o Sudão vizinho) do que de seu povo, o jogo de dependência em que se inscreve a economia do Chade ilustra o que pode ser chamado na África de “maldição do petróleo”. A dependência econômica, a isca das multinacionais que pescam no continente como quem joga num cassino [26] e a corrupção das elites representativas se conjugam para privar os povos de sua riqueza.

Potências regionais e cooperação Sul-Sul

Ao mesmo tempo, a geopolítica do continente está em mutação e pode abrir margens de manobra aos Estados. As antigas dependências foram reavaliadas, principalmente o neocolonialismo francês. Contestado na Costa do Marfim, Togo e Senegal, o fenômeno resiste no Chade, Gabão [27]…. Outras potências estrangeiras entram no jogo, como a China e os Estados Unidos (entre o big business e a guerra ao terrorismo). Parcerias Sul-Sul são firmadas com países como o Brasil ou a Venezuela, que abriu novas embaixadas na África. Para as elites nascidas depois das independências, os laços coloniais são realidade obsoleta e todas as parcerias econômicas são possíveis.
Mesmo no continente, surgem potências regionais, como a África do Sul, a Nigéria [28] e o Sudão. O conflito de Darfur – em parte uma briga entre o Sudão e o Chade pela hegemonia regional – é acompanhado de perto pela União Africana, que participa também dos esforços pela manutenção da paz (Serra Leoa no passado, República Democrática do Congo hoje). Organizações regionais se reforçam e desempenham um papel cada vez mais importante. Em outubro de 2006, o Conselho pela Paz e Segurança da União Africana e a Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental (Cedeao) tentou dar início ao processo de paz na Costa do Marfim. A falta de recursos ainda é um forte limitador das ações dessas organizações.
O potencial libertador do atual período histórico é prejudicado pela dependência “vertical” dos países, a representatividade enviesada dos dirigentes e seus excessos liberais. O momento é condicionado também pelo fortalecimento de uma cultura democrática própria ao continente africano. E ainda paira sobre ele o sonho de uma “segunda independência”, que seria também sinônimo de progresso econômico e social.

Tradução: Silas Martí
[1] Jean-François Dupaquier, “De la françafrique à la maffiafrique”, Mouvements, 17 de maio de 2002
[2] Ler Jean-Pierre Foirry, L’Afrique continent d’avenir, Transversales, coll. Débats, ellipses, Paris, 2006.
[3] “Douleurs et croissance. Afrique: la croissance repart enfin, mais comment accélérer et soutenir la cadence pour réduire la pauvreté”, Finances et développement, FMI, Washington, março de 2006.
[4] Elaborados pelo FMI e o Banco Mundial, os DERPs descrevem as políticas e os programas macroeconômicos, estruturais e sociais de um país por vários anos, assim como necessidades de financiamento do exterior.
[5] Ver link.
[6] Adotado pela União Africana em Lusaka (Zâmbia) em julho de 2001, a Nepad foi concebida por cinco “pesos pesados” da política africana: África do Sul, Nigéria, Argélia, Egito e Senegal.
[7] A iniciatica PPME é um dispositivo global de redução da dívida de países pobres muito endividados, que aplicam os programas de ajuste e de reforma apoiados pelo FMI e o Banco Mundial.
[8] Ler “The 25 billion dollars question”, The Economist, Londres, 2-8 de julho de 2005.
[9] Jean-Pierre Foirry, L’Afrique continent d’avenir, Transversales, coll. Débats”, ellipses, Paris, 2006, página 87.
[10] Ver link.
[11] Unctad, Rapport sur le commerce et le développement, 2006.
[12] Stephen Smith, Negrologie. Pourquoi l’Afrique meurt, Hachette, Paris, 2004.
[13] Ver link.
[14] Ler Kwame A. Ninsin, “Les nouveaux mouvements sociaux africains”, Et si l’Afrique refusait le marché ?, L’Harmattan, Paris, 2001, página 221.
[15] Unctad, Flux de capitaux et croissance en Afrique, Genebra, 2000.
[16] Ao longo do período entre 1975 e 1982, as entradas de capitais estrangeiros representaram 3,9 % do Produto Nacional Bruto (PNB) dos países africanos. Ao curso do perído entre 1983-1998, elas não representavam mais do que 1,8 %. Pior, constata-se uma fuga dos capitais africanos em direção a países estrangeiros.
[17] Samir Amin, “L’économie politique de l’Afrique et la mondialisation”, in Et si l’Afrique refusait le marché, op. cit., 2001, página 45.
[18] Ver link.
[19] Ler Laurent Fouchard, René Otayek, André Mary, “Des imaginaires partagés”, Courrier de la planète, n°79, Montpellier, janeiro-março de 2006.
[20] Contra menos de 30% nos países industrializados. A África do Sul é um país intermediário, situando-se entre 30 e 39%.
[21] Ler Stephen Ellis, “La crise universitaire”, Courrier de la planète, n°79, Montpellier, janeiro-março de 2006.
[22] Le Rideau rouge, TV5, fevereiro de 2003.
[23] Le Rideau rouge, TV5, fevereiro de 2003.
[24] O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aplicou parte da renda petrolífera em projetos sociais.
[25] Deve-se também ter em conta a idade e especificidade das relações de dominação na África, desde o tratado até nossos dias. E recordar que o Chávez africano, Thomas Sankara, de Burkina Fasso, foi assassinado em 1987, provavelmente com o aval de Paris.
[26] A áspera batalha travada, em outubro de 2006, pels presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, para negociar um acordo leonino assinado com o gigante siderúrgico Mittal Steel é outro exemplo.
[27] Ler Delphine Lecoutre et Admore Mupoki Kambudzi, “Um adeus francês à África?”, Le Monde Diplomatique-Brasil, junho de 2006.
[28] Nigéria e África do Sul representam 60% do Produto Interno Bruto da África subsaariana.

Comentários