Arquivo de 21 de Julho de 2008

Quem perde e quem ganha com a explosão dos preços do petróleo

Do Serviço de Economia e das Empresas

A explosão dos preços do petróleo está comprometendo gravemente o equilíbrio econômico de numerosos setores de atividades da indústria e dos serviços. Alguns tiram proveito disso e despontam como os beneficiados do novo choque do petrleo; outros estão às voltas com enormes dificuldades para enfrentar as suas conseqüências. São os perdedores.

OS BENEFICIADOS

As companhias petroleiras e as novas energias
As petrolíferas nunca haviam óbtido lucros tão consideráveis. Em 2007, as cinco maiores companhias mundiais do setor (Exxon, Shell, BP, Total, Chevron) totalizaram um lucro líquido superior a US$ 100 bilhões (cerca de R$ 163 bilhões). Mas, quando o petróleo está caro, o nacionalismo petroleiro volta à tona e motiva os países produtores a se fecharem para as companhias privadas. Estas últimas detêm apenas 8% das reservas mundiais e vêm encontrando dificuldades para aumentar a sua produção. Isso explica, segundo avaliação da Total, por que a produção mundial deverá esbarrar num teto de 95 milhões de barris por dia em 2020 (contra 87 atualmente).

As energias “verdes” estão sendo beneficiadas pela conjunção de um petróleo caro, do boom da demanda energética e da mobilização contra o aquecimento climático. Em 2006, elas mobilizaram US$ 100 bilhões (em transações, investimentos e fusões-aquisições…), segundo um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Na França, é o setor da energia eólica que vem se desenvolvendo mais rapidamente. O parque de turbinas de vento alcançou uma produção de 2.455 megawatts (MW) em 2007. Com isso, o país passou para o 3º lugar entre os países europeus, atrás da Alemanha e da Espanha.

Os especuladores
A explosão dos preços do petróleo constitui uma dádiva para os fundos especulativos (hedge funds). Aqueles que se especializaram nas matérias-primas andaram registrando rendimentos anuais de mais de 100%. Por meio de uma mecânica financeira que inclui efeitos de alavanca, os seus lucros disparam toda vez que o barril passa a custar alguns dólares a mais. E quando a crise dos subprimes (créditos hipotecários podres) espalhou a confusão na totalidade dos mercados financeiros, uma multidão de outros fundos se refugiou nos mercados da energia e das matérias-primas. A sua atuação é tão importante atualmente que esses fundos estão sendo acusados de serem em parte responsáveis pela disparada dos preços do “ouro negro”. As suas posições especulativas contribuiriam para encarecer o preço do barril em US$ 15 a US$ 25.

O transporte ferroviário
Guillaume Pepy, o presidente da SNCF (a companhia ferroviária estatal francesa), se mostra particularmente otimista. O encarecimento da gasolina deverá incentivar uma parte dos motoristas a preferirem o trem. Quanto ao transporte de mercadorias, “estamos vivendo um momento histórico e não se pode perder a oportunidade que ele representa”, diz. “Entre as buscas de soluções para o meio ambiente em nível nacional, entre o governo e as empresas, e o aumento das cotações do petróleo, tudo está apontando em favor de um desenvolvimento do frete sobre trilhos”.

AS VÍTIMAS

O transporte rodoviário
Esta atividade tem sido uma das mais atingidas pela crise petroleira. No momento em que as transportadoras rodoviárias já havia sido atingidas pelos sucessivos aumentos dos pedágios de auto-estrada (+ 25% em três anos) e pelo encarecimento crescente dos seus equipamentos, elas foram atingidas em cheio pelo aumento das cotações do petróleo e, portanto, do diesel. Segundo a Federação das Companhias de Transporte e de Logística da França (TLF), em meados de maio, o preço médio do diesel na bomba era de 1,41 euro (R$ 3,55) o litro, ou seja, 1,18 euro fora a TVA (taxa sobre produtos e serviços). Com isso, o litro de diesel aumentou em 16,72% desde o começo do ano, e em 37,64% desde janeiro de 2007.

Daqui para frente, o item “combustíveis” representa 28% dos custos de exploração de um veículo de transporte rodoviário. As federações profissionais buscam obter medidas de emergência por parte do governo, como o adiamento do pagamento de certas contribuições fiscais e sociais (taxa profissional), além do reescalonamento de certos encargos obrigatórios. Mas, o que elas desejam acima de tudo é a implantação de sanções penais que seriam destinadas a obrigar as empresas “cargueiras” - os clientes das transportadoras - a aceitarem a repercussão da evolução do custo do combustível sobre o preço faturado, uma medida que deveria tomar a forma de uma emenda à lei de modernização da economia.

O transporte aéreo
Enquanto os biocombustíveis, a eletricidade ou o hidrogênio representam energias alternativas eventuais para o transporte ferroviário, rodoviário ou marítimo, vai ser muito mais difícil dispensar os derivados do petróleo para fazer os aviões voarem. Em março, baseando-se num preço médio do barril a US$ 86, a Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA) havia previsto que o setor faturaria, no seu conjunto e em todo o mundo, cerca de US$ 4,5 bilhões (R$ 7,33 bilhões) em 2008.

Em 2 de junho, por ocasião da sua assembléia geral, o discurso mudou da água para o vinho: baseando-se numa cotação média de US$ 106,5, o transporte aéreo deverá registrar uma perda anual de US$ 2,3 bilhões (R$ 3,75 bilhões). Para Giovanni Bisignani, o diretor geral da IATA, o cálculo é simples: “Toda vez que o preço do petróleo aumenta em US$ 1, os custos operacionais das companhias aumentam em US$ 1,6 bilhão [R$ 2,61 bilhões]”. Em 2002, o total da fatura que as companhias tiveram de pagar era de US$ 40 bilhões (13% dos custos). Em 2008 (com base numa cotação de US$ 106,5 o barril), esta mesma faturar deverá somar US$ 176 bilhões (cerca de R$ 287 bilhões, o que representa 34% dos custos operacionais).

O automóvel
“Durante muito tempo, nós vivemos num mundo em que o petróleo não era caro. E quando o preço do barril subia um pouco, nós achávamos que isso não iria durar e optávamos por não investir em projetos próprios para superar eventuais rupturas tecnológicas”, reconhece Carlos Ghosn, o patrão do grupo Renault-Nissan. Atualmente, com um petróleo que deverá permanecer caro de maneira duradoura, a indústria automobilística não pode mais apostar apenas no motor térmico. No curto prazo e no médio prazo, o aumento do petróleo terá um impacto negativo sobre os objetivos de rentabilidade e as margens das montadoras. Uma vez que a indústria utiliza um grande número de peças de plástico, os custos de fabricação se tornaram logicamente mais elevados. As montadoras também estão à mercê de uma modificação dos comportamentos dos automobilistas. No espaço de um ano, o consumo de gasolina diminuiu de 7% nos Estados Unidos. As montadoras estão tentando preservar as suas vendas comercializando uma maior quantidade de carros pequenos e que consomem menos combustível, mas cujas margens de lucro também são menos elevadas. “Todas as montadoras estão condenadas a sofrerem muito, pois elas serão obrigadas a gastar bilhões de euros com pesquisas, de modo a comercializarem veículos dotados de novas tecnologias”, avisa Remi Cornubert, um diretor associado na consultora em estratégias de mercados Oliver Wyman.

O turismo
Os turistas serão forçados a modificarem seus projetos? A organização Europe Assistance, com a ajuda do instituto de pesquisas Ipsos, tentou responder a esta pergunta. Segundo esta firma especializada na assistência aos viajantes, o aumento dos preços dos combustíveis tem uma repercussão direta sobre o orçamento de férias de mais de um terço (38%) dos europeus que costumam viajar durante as férias. O aumento dos preços do petróleo teria uma influência direta para 34% dos turistas europeus no que diz respeito ao seu modo de transporte, para 29% dentre eles em relação ao seu destino, e para 23% dentre eles no que se refere à duração das suas férias. Um grande número de agências de viagens se verá obrigado a repercutir as conseqüências do aumento dos preços da energia sobre as tarifas das suas prestações de serviços.

A química
Para a indústria química francesa, toda vez que o preço do barril de petróleo aumenta em US$ 10, isso se traduz por um aumento de 2 bilhões de euros (cerca de R$ 5 bilhões) das suas despesas com matéria-prima e pesquisas. O montante total desses custos era de 81 bilhões de euros (cerca de R$ 200 bilhões) em 2007. O problema das companhias químicas é poderem repercutir esses aumentos de preços para os seus clientes. O grupo americano Dow Chemical anunciou, em 28 de maio, que ele iria aumentar os preços de “todos os seus produtos em 20% no máximo”. Em sua maioria, os grupos especializados na petroquímica conseguiram aumentar suas tarifas.

No curto prazo e no médio prazo, os consumidores de produtos industriais (carros, telefones, computadores…) fabricados por meio de pinturas e de plásticos deverão se preparar para um aumento dos preços. Num prazo mais longo, os grupos químicos deverão priorizar nos seus investimentos o desenvolvimento de materiais que consumirão menos energia. No setor da construção civil, desde já as novas qualidades de cimentos, colas, argamassas, entre outros, dividiram o consumo por quatro.

A agricultura
Segundo o ministério (francês) da agricultura, o óleo combustível representa 20% dos custos totais das firmas agrícolas. Muito mecanizada, a profissão vem consumindo cada vez mais combustível. Além disso, uma fazenda de grande porte utiliza importantes quantidades de produtos derivados do petróleo: há aqueles que incluem plástico em sua composição, como o barbante para amarrar os feixes de palha, ou ainda as lonas para cobrir os silos, mas também os adubos e os produtos fitossanitários. Os agricultores que trabalham com estufas são os mais atingidos, pois eles consomem quantidades enormes de combustíveis para a calefação. Os aumentos das cotações dos grãos estão fazendo com que os produtores de cereais possam compensar suas perdas, o que é impossível para os criadores de porcos ou de aves, os quais são também vítimas do aumento dos preços das rações para os animais.

As soluções se concentram principalmente na limitação do consumo, por meio dos avanços oferecidos pela agricultura de alta precisão, que permite evitar passar com os tratores várias vezes no mesmo lugar, além de utilizar de maneira mais eficiente os produtos químicos. Existe uma outra saída a respeito da qual a profissão está refletindo, relativa à produção de energia nas diversas áreas da fazenda, com a utilização de painéis fotovoltaicos (energia solar), além da transformação dos resíduos, ou ainda a produção caseira… de combustível agrícola.

A pesca
Logo no outono de 2007, os pescadores já pediram ajuda. O “diesel para a pesca”, totalmente livre de taxas, custava então 50 centavos de euro; desde então, ela já superou os 70 centavos de euro. Segundo o Comitê Nacional das Pescas, o óleo combustível representava 15% dos custos de produção de barco pesqueiro em 2004, 30% há seis meses, e mais de 50% atualmente. Os marinheiros pescadores enfrentam uma dupla dificuldade: o seu pagamento vem sendo diretamente reduzido pelo aumento dos preços dos combustíveis, no quadro do sistema de salário compartilhado (uma partilha entre os membros da tripulação não só do produto da venda, como também das despesas do barco). Ora, o seu patrão não pode aumentar o preço do peixe, porque este é vendido em leilão.

“Le Monde”

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Pedido de desculpas

Caro visitante do Controvérsia, pedimos desculpas pela falta de inserção de materiais no Blog entre 15 e 18 de julho. Nosso espaço no provedor se esgotou, depois de 2 anos de inserções diárias. Tivemos que tomar uma posição radical e cortar vários textos de julho de 2006 a fevereiro de 2007 para poder inserir novos materiais agora.

Aproveito também para lembrar que neste último dia 17 de julho completamos 2 anos no ar. Obrigado pela audiência.

Estamos nos ajustes finais para o lançamento do site que está funcionando experimentalmente no endereço: www.controversia.com.br . Todo o material postado no Blog também o é no site.

Aguarde que teremos uma surpresa muito grande no lançamento. Temos certeza que você vai gostar.

Ricardo

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Reino Unido adota nova moeda com desenho excêntrico

O Reino Unido está recebendo novas moedas na primeira modernização de seu dinheiro em meio século. O desenho excêntrico de quebra-cabeças deve confundir os turistas e reafirmar a determinação do país de não adotar a moeda única do euro tão cedo

Stefan Marx

A Britânia adorna a libra esterlina há mais de 300 anos. Com seu olhar estóico, sua postura majestosa e a Union Jack, ela é o rosto feminino para tudo que é britânico. Ainda assim, a personificação nacional desta nação orgulhosa insular está prestes a desaparecer da moeda de 50 centavos.

O Reino Unido está introduzindo novas moedas neste verão. Os tradicionalistas, entretanto, não estão tão infelizes com a mudança quanto se poderia pensar. Afinal, o novo dinheiro é um sinal que a introdução do euro é uma perspectiva distante, na melhor das hipóteses.

Em geral, as moedas britânicas recebem um novo desenho toda vez que um novo monarca assume o trono. É verdade que novas moedas foram introduzidas em 1971, mas apenas porque o Reino Unido decimalizou a libra naquele ano, livrando-se do sistema de séculos de 12 “pennies” para o xelim e 20 xelins para a libra. Mas, mesmo assim, os antigos motivos dos anos 50 sobreviveram. Houve ajustes desde então, com a introdução da moeda de uma libra e moedas menores de 50 centavos e 5 centavos, por exemplo.

A Rainha Elizabeth 2ª está no trono há 56 anos e ninguém ousaria questionar a presença de seu perfil em todas as moedas britânicas. Entretanto, o primeiro-ministro Gordon Brown decidiu há três anos, quando era ministro das finanças, que era hora de pelo menos modernizar a parte da frente da moeda, para que o rosto multicultural e progressivo do Reino Unido fosse refletido em bronze e níquel.

A Casa da Moeda Real lançou um concurso aberto e recebeu cerca de 4.000 projetos, incluindo prédios modernos, tipos de pássaros e até peixe com fritas. No final, o designer gráfico de 26 anos Matthew Dent, do País de Gales, venceu a competição com um projeto que bane a Britânia e faz das moedas um quebra-cabeças que forma o Escudo e as Armas Reais.

O símbolo heráldico foi dividido entre seis denominações de moedas de 1 centavo a 50 centavos, e a moeda de 1 libra apresenta o escudo inteiro. “É fácil imaginar as crianças brincando com as moedas em uma sala de aula ou as pessoas se divertindo em um bar. Elas podem ser montadas como um quebra-cabeça ou simplesmente servirem de diversão”, disse Dent em uma declaração publicada no portal da Casa da Moeda. Ele quer que o desenho entretenha as pessoas e as faça rir.

Tradicionalistas revoltados
O desenho, entretanto, foi controverso. O principal elemento das moedas talvez seja convencional, mas Dent quebrou uma série de regras não escritas. O galês removeu o dragão, símbolo heráldico de seu próprio país, das moedas britânicas. E a retirada da Britânia provou-se especialmente impopular. Afinal, ela aparecia nas moedas desde o segundo século d.C., quando os ocupantes romanos cunharam sua imagem nas moedas.

O Rei Charles II a trouxe de volta no século 17. Ela é a perfeita personificação da nação britânica: orgulhosa, rígida e acima de críticas em público -mas desinibida e atrevida em particular. Afinal, o modelo para a imagem da Britânia usado nas moedas foi nada menos do que Frances Teresa Stuart, a amante do rei.

Talvez, entretanto, a remoção da concubina dos 50 centavos seja apenas temporária. O tablóide “Mail on Sunday”, que expressa o orgulho nacional coletivo britânico, está revoltado com sua ausência nas novas moedas. O jornal enviou uma Britânia em carne e osso, usando um vestido de batalha, para visitar o chefe da comissão de projeto de moedas na Casa da Moeda, John Porteous. Ele convidou a visitante para tomar chá e foi marretado até prometer aos leitores do “Mail” que a Britânia, em breve, seria cunhada em uma moeda especial de 2 libras.

Virginia Ironside, filha do desenhista da atual cunhagem, Christopher Ironside, escreveu uma coluna no jornal “Independent”: “Não vejo nada nos novos desenhos que agrade e só o que ouço é o som do meu pai dando voltas no túmulo.”

“Os desenhos são novos, engraçados, estranhos, excêntricos -mas não são funcionais como moedas de fato”, continua. “Parece um estudante de paisagismo fazendo um jardim no formato de um besouro e esperando que todos o percebam no chão.”

Sem números
Virginia Ironside tem um ponto: as moedas de euro, por exemplo, têm grandes números, de forma a tornar a denominação facilmente visível. Dent, entretanto retirou totalmente os números. O valor de cada nova moeda britânica está escrito em pequenas letras. O desenho divertido conseguiu uma vitória sobre a facilidade de uso.

De fato, a nova libra é virtualmente um anti-euro. Turistas visitando o Reino Unido a partir deste verão estarão maldizendo o desenho inteligente, especialmente se não estiverem equipados com óculos de leitura. Talvez, contudo, seja esta precisamente a razão pela qual todas as críticas se dissiparam depois de apenas uma semana. Enquanto os turistas remexerão suas bolsas nervosamente, os britânicos terão certa segurança de que a introdução do euro no Reino Unido está muito distante.

De fato, atualmente, parece extremamente improvável que o Reino Unido introduza a moeda. O primeiro-ministro Gordon Brown vai levar o tratado de reforma da União Européia ao parlamento, livrando-se dos pedidos para um referendo. Mas, quando o tratado impopular estiver aprovado, a questão da Europa estará terminada para o governo, e nenhum outro grande projeto da União Européia se seguirá, conforme uma promessa do governo aos opositores do tratado.

De qualquer forma, a adoção do euro requereria um referendo nacional. E, mesmo nos melhores tempos do ex-primeiro-ministro Tony Blair, que era pró-Europa, o apoio à moeda única nunca subiu acima de 30%. A oposição conservadora duvida fortemente do euro.

A rainha deu sua bênção à nova cunhagem. Seu retrato aparecerá na parte posterior. E as antigas moedas continuarão em circulação, provavelmente até o dia em que o Reino Unido finalmente diga sim ao euro. Antes disso, porém, é provável que a Britânia retome seu lugar de direito, na face das moedas britânicas.

“Der Spiegel”

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Ditadura kafkiana

Autor tcheco foi lido como escritor que poderia lançar luzes sobre a vida nacional durante o regime militar

Gonçalo Junior

Pesquisa FAPESP - Franz Kafka (1883-1924) foi, provavelmente, o escritor mais influente do mundo no século XX. Mesmo que nem todos confessem ou percebam a inspiração, que pode ter vindo por meio de terceiros. Embora ainda considerado de leitura “difícil”, o escritor tcheco até poderia ser chamado de ícone pop. Nos EUA, ainda na década de 1960, por exemplo, Kafka teve sua estampa difundida pelo pai da pop art, Andy Warhol. O episódio “Little Girl in the Big Ten”, do desenho The Simpsons, exibido em 2002, mostrava Lisa Simpson freqüentando um bar de intelectuais chamado Café Kafka – quase o mesmo nome que Erico Verissimo deu ao seu bar no romance Incidente em Antares: Kafé Kafka. Quem passar numa livraria encontrará adaptações nacionais e estrangeiras de seus contos e romances para os quadrinhos. Um dos grandes sucessos da década de 1980 foi a música Uma barata chamada Kafka, do grupo Inimigos do Rei.

No caso do Brasil, essa popularidade, no entanto, é um fenômeno relativamente recente. Basta considerar que somente três décadas depois da morte de Kafka seus livros começaram a ser discretamente publicados aqui. Exatamente no momento em que o país entrava numa ditadura, Kafka ganhou mais espaço nas livrarias. Teria sido mera coincidência? Talvez. Eduardo Manoel de Brito, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e doutor em letras, língua e literatura alemã, investigou essa relação em seu doutorado “Quando a ficção se confunde com a realidade: as obras A colônia penal e O processo como filtros receptivos da ditadura civil-militar brasileira”, orientado por Celeste H. M. Ribeiro de Sousa. Conclui que Kafka foi lido, apesar de não exclusivamente, mas de fato, como um escritor que poderia lançar luzes sobre a situação política vivida pelos brasileiros durante os anos da ditadura. Outros também o consumiram porque sua obra refletia sobre questões existenciais fundamentais – o ser lançado no mundo, o vazio da existência, o sentimento de uma culpa adâmica nunca superado.

Contudo, explica ele, os textos O processo e A colônia penal tiveram como uma de suas razões de recepção mais fortes o fato de que mostravam literariamente o que vários brasileiros viviam e sentiam na pele. “Não por acaso, a tortura está presente em ambos os textos kaf­kia­nos”, observa. De acordo com Brito, a junção das fontes comprovadoras da tese, como artigos de jornais e revistas (acadêmicos e não-acadêmicos), as entrevistas e a análise da propriedade mesma do texto ser interpretável como uma espécie de crítica à violência, mostra que críticos intelectuais brasileiros leram e divulgaram textos kafkianos como formas de refletir e criticar a política repressora da época.

Primárias - A demora para Kafka ser traduzido no Brasil, revela o pesquisador, aconteceu porque havia informações primárias ou desconhecimento sobre o escritor que poderiam criar a idéia de que ele seria um autor quase intraduzível. O tradutor Modesto Carone chegou a mencionar em entrevista a Brito que leu em algum lugar que Kafka teria escrito suas obras em tcheco. “O mercado parece que não estava muito animado a traduzi-lo, visto ser ele considerado complexo. Mas, na década de 1960, havia já bastante informação sobre o autor. Ajudou nesse sentido a publicação de A metamorfose nos anos de 1950. Portanto, era possível um risco calculado para sua publicação mais sistemática.” A motivação inicial que veio depois, acredita Brito, foi mercadológica.

Sua pesquisa, porém, é uma tentativa de mostrar o uso possível da literatura estrangeira como um instrumento capaz de varar o “silêncio” instaurado pela Censura. “Naturalmente, a ditadura impunha um silenciamento à crítica, em especial depois de 1969, com o AI-5. Assim, ler situações de tortura, perseguições sem sentido, mortes praticadas por um sistema político na obra de Kafka eram formas de superar o silenciamento imposto pelo regime e levar as pessoas a encontrarem no texto literário aquilo que era proibido de ser discutido abertamente.” Desse modo, acrescenta, quando alguns críticos falavam da ditadura soviética, relacionando textos kafkianos com o ambiente ditatorial brasileiro, eles varavam o silêncio imposto, driblavam o regime de perseguição política brasileiro. No fundo, nas entrelinhas, a crítica era ao sistema brasileiro.

Brito afirma que há textos que explicitamente relacionam Kafka com violências praticadas no Brasil. Mesmo quando as palavras “Brasil” e “ditadura civil-militar brasileira” estão ausentes. Um bom exemplo disso é o artigo de Antonio Candido “A verdade da repressão”, de 1972. No ensaio, a questão é apresentar a polícia que tortura. “Não há menção à polícia brasileira, mas, dentro da generalidade do texto, é bem perceptível a crítica à polícia que torturava e tentava criar sua verdade a partir do discurso daquele que era torturado.” Além disso, com a dissolução do regime no final dos anos 1970, surgiram artigos mais explícitos, relacionando Kafka e a ditadura nacional, até chegar aos anos 1990, com a obra Os leopardos de Kafka, de Moacyr Scliar, que trata expli­citamente do assunto.

O pesquisador não encontrou registro que indicasse que tenha havido algum controle sobre a obra de Franz Kaf­ka pelo governo – leia-se, Censura. “Na verdade, o escritor seria hermético demais para ser diretamente relacionado com situações políticas brasileiras.” Moacyr Scliar trata disso no seu livro, quando um policial mostra o quanto podia ser chucro diante de um texto literário de alto nível. O mesmo, contudo, não aconteceu na Europa: Kafka foi censurado na ditadura nazista e foi um problema real na ditadura soviética. “Durante o nazismo, Kafka foi censurado por ser um escritor judeu. Na ditadura soviética, tornou-se um problema diante do realismo soviético, tendo havido, inclusive, congressos para definir como tratá-lo dentro do contexto da literatura a ser apresentada nos países comunistas.”

Violência - O doutorado de Brito foca o tema a partir de três pontos principais: o conceito de violência, literaturidade e função social da literatura. Ele observa que, no primeiro caso, recorreu ao conceito de Hannah Arendt, mas dialoga com Walter Benjamin (Crítica da violência, crítica do poder) e Michel Foucault (Vigiar e punir) e a questão dos micropoderes. “Estes autores possibilitaram uma reflexão sobre a violência e a questão da violência do Estado.” A idéia de literaturidade vem do formalismo rus­so e seria a idéia de buscar o especificamente literário no texto de literatura. “Ou seja, por mais que eu faça uma interpretação social do texto, a fundamentação crítica, a análise profunda do texto é literária.”

Sua preocupação era tratar a crítica da obra kafkiana como um estudioso de literatura, e não como um sociólogo, por exemplo. “A função social da literatura eu a encontrei em estudos de Antonio Candido, com quem eu também mantive uma correspondência breve durante os primeiros anos da escritura do meu trabalho. Era importante para mim a discussão sobre qual a função da literatura – buscando o enfoque social – sem abrir mão da crítica literária específica, daí a fidelidade aos princípios defendidos pelo formalismo russo.” Ele encontrou isso no crítico Antonio Candido, que não instrumentaliza a literatura em favor de outra coisa que não o valor literário estético, mas que parte da obra literária para tocar a vida em sociedade.

“FAPESP”

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Pedido de desculpas

Caro visitante do Controvérsia, pedimos desculpas pela falta de inserção de materiais no Blog entre 15 e 18 de julho. Nosso espaço no provedor se esgotou, depois de 2 anos de inserções diárias. Tivemos que tomar uma posição radical e cortar vários textos de julho de 2006 a fevereiro de 2007 para poder inserir novos materiais agora.

Aproveito também para lembrar que neste último dia 17 de julho completamos 2 anos no ar. Obrigado pela audiência.

Estamos nos ajustes finais para o lançamento do site que está funcionando experimentalmente no endereço: www.controversia.com.br . Todo o material postado no Blog também o é no site.

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Ricardo

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A atualidade de Max Weber

A noção de “patrimonialismo” continua a orientar parte significativa da reflexão sociológica nacional. No entanto, é preciso fundamentar um novo paradigma à luz da própria crítica weberiana

Jessé de Souza

Max Weber é provavelmente o autor mais influente e conhecido no âmbito das ciências sociais. Não apenas a sociologia e a ciência política modernas o têm como autor central e referência constante, mas também o direito, a economia, a administração de empresas e até a filosofia mobilizam várias de suas interpretações e idéias. É difícil imaginar um pensador contemporâneo que não tenha sido influenciado por suas idéias. Em Pierre Bourdieu e Jürgen Habermas, por exemplo, a influência é decisiva. Mas também no contexto brasileiro, Weber não só é um dos autores mais citados nas teses acadêmicas de ciências sociais entre nós, mas também foi inspiração para a produção do conceito mais influente, ainda hoje, da sociologia e da ciência política brasileiras: a noção - ambígua e equívoca, como teremos, mais adiante, ocasião de explicitar - de patrimonialismo. O que explica tamanha influência?

Sua influência diz respeito à especificidade do que ele denominava de “racionalismo ocidental”. “Racionalismo” significa a forma, culturalmente singular, de como uma civilização específica e, por extensão, também os indivíduos, que constituem sua forma de pensar e agir a partir desses modelos culturais, interpreta o mundo. Isso implica, antes de tudo, que não existe definição “universal” possível acerca do que é “racional” ou do que seja “racionalidade”. A forma como a racionalidade vai ser definida em cada sociedade específica depende, desse modo, da matriz civilizacional a qual essa sociedade particular pertença. Em relação à civilização ocidental moderna, Weber irá definir seu racionalismo específico como sendo o do “racionalismo da dominação do mundo”. Esse racionalismo difere de modo profundo, por exemplo, dos racionalismos não-ocidentais como o da “fuga do mundo”, típico da sociedade de castas hindu, ou do racionalismo da “acomodação ao mundo” típico da sociedade tradicional chinesa. O racionalismo da dominação do mundo vai ser definido por uma “atitude instrumental” em relação a todas as três dimensões possíveis da ação humana: ação no mundo exterior, na natureza; no mundo social; e no próprio mundo subjetivo, como meros “meios” para a consecução de fins heterônomos como poder e dinheiro.

Weber logra transformar a percepção de uma “racionalidade objetiva” que se impõe aos sujeitos de modo independente de sua vontade, no fundamento mesmo de uma “sociologia compreensiva”, toda voltada a captar o “sentido subjetivo” das ações humanas. É que, no “racionalismo moderno”, são os pressupostos da “ação eficaz”, no sentido de efetivamente transformadora da realidade externa, que a tornam “compreensível” para todos, permitindo a “evidência intersubjetiva” que garante a cientificidade de proposições e descrições da realidade.

Mas Weber não formula apenas a possibilidade de junção científica dos aspectos subjetivos e objetivos no contexto do “racionalismo da dominação do mundo”. Ele inspirou também, precisamente por ter captado a “ambigüidade constitutiva” do racionalismo singular ao ocidente, os dois diagnósticos mais importantes para a autocompreensão do ocidente até nossos dias: uma concepção liberal, afirmativa e triunfalista do racionalismo ocidental; e uma concepção crítica desse mesmo racionalismo, que procura mostrar sua unidimensionalidade e superficialidade.

Para a versão liberal e afirmativa, Weber fornece, por um lado, sua análise da “revolução simbólica” do protestantismo ascético, para ele a efetiva revolução moderna, na medida em que transformou a “consciência” dos indivíduos, e a partir daí a realidade externa, e não o contrário, como na Revolução Francesa, que termina em restauração do poder monárquico. É a figura do protestante ascético, dotado de vontade férrea e com as armas da disciplina e do autocontrole, quem cria o fundamento histórico para a noção do “sujeito moderno” e até mesmo para a noção moderna de “personalidade” enquanto entidade percebida como um todo unitário com fins e motivos conscientes e refletidos. Todas as versões apologéticas do “sujeito liberal” (às vezes, com a contribuição de Tocqueville, sujeito também tornado unidimensional e acrítico) nutrem-se, quase sempre com fundamento empírico na história da pujança econômica e política americana, em maior ou menor grau, da figura do pioneiro protestante weberiano. Por outro lado, é Weber quem reconstrói sistematicamente a lógica de funcionamento, tanto do mercado competitivo capitalista, quanto do Estado racional centralizado, de modo a percebê-los como instituições cuja eficiência e “racionalidade” não teriam igual. Ainda que a perspectiva liberal apologética se restrinja ao elogio do mercado, confluem, aqui, os aspectos subjetivos e objetivos (institucionais) que fundamentam, de modo convincente, a afirmação do “dado”, ou seja, do mundo como ele é.

Mas Weber (e nisso reside sua atualidade extraordinária) também percebia o lado sombrio do racionalismo ocidental. Se o pioneiro protestante ainda possuía perspectivas éticas na sua conduta, seu “filho” e, muito especialmente, seu “neto”, habitante do mundo secularizado, é percebido por Weber de modo bastante diferente. Para descrevê-lo, Weber lança mão de dois “tipos ideais”, ou seja, de modelos abstratos, no caso, de modelos abstratos de condução de vida individual, os quais se encontram sempre misturados em proporções diversas na realidade empírica concreta. Esses “tipos ideais”, que explicam o indivíduo típico moderno para Weber, são, por um lado, o “especialista sem espírito”, que tudo sabe acerca do seu pequeno mundo de atividade e nada sabe (nem quer saber) acerca de contextos mais amplos que determinam seu pequeno mundo, e, por outro lado, o “homem do prazer sem coração”, que tende a amesquinhar seu mundo sentimental e emotivo à busca de prazeres momentâneos e imediatos.

Se a primeira leitura fornece o estofo para a apologia liberal do mercado e do sujeito percebido como independente da sociedade e de valores supra-individuais, a segunda leitura marcou profundamente toda a reflexão crítica até nossos dias. A percepção do indivíduo moderno como suporte das ilusões da independência absoluta e da própria perfeição narcísica, quando, na verdade, realiza, sem saber, todas as virtualidades de uma razão instrumental que termina em consumismo e conformismo político, está na base de todas as variações influentes do assim chamado “marxismo ocidental”. Esse termo, denominação ampla que se refere às perspectivas intelectuais que procuraram unir o impulso crítico do marxismo com a análise weberiana do racionalismo ocidental enquanto razão instrumental, foi a base de praticamente todas as concepções críticas do século 20.

Weber no Brasil
No Brasil, a influência do pensamento weberiano é dominada pela leitura liberal apologética. É de Weber que se retira a autoridade científica e a “palavra”, no sentido do “nome” e não do “conceito científico”, para a legitimação científica da noção central, ainda hoje, da sociologia e da ciência política brasileira: a noção de “patrimonialismo”, para indicar uma suposta ação parasitária do Estado e de sua “elite” sobre a sociedade. Entre nós, no entanto, esse conceito perde qualquer contextualização histórica, fundamental no seu uso por Max Weber, e passa a designar uma espécie de “mal de origem” da atuação do Estado enquanto tal em qualquer período histórico. Em Raymundo Faoro, por exemplo, que fez dessa noção seu mote investigativo - enquanto na maioria dos intelectuais brasileiros ela é um pressuposto implícito, embora fundamental - a noção de patrimonialismo carece de qualquer precisão histórica e conceitual. Historicamente, na visão de Faoro, existiria patrimonialismo desde o Portugal medieval, onde não havia sequer a noção de “soberania popular” e, portanto, não havia a separação entre bem privado (do rei) e bem público, já que o rei e seus prepostos não podiam “roubar” o que já era dele de direito.

Em segundo lugar, no âmbito de suas generalizações sociológicas, o patrimonialismo acaba se tornando, de forma implícita, em um equivalente funcional para a mera intervenção estatal. No decorrer do livro de Faoro, o conceito de patrimonialismo perde crescentemente qualquer vínculo concreto, passando a ser substitutivo da mera noção de intervenção do Estado, seja quando este é furiosamente tributário e dilapidador, por ocasião da exploração das minas no século 18, seja quando o mesmo é benignamente interventor, quando D. João cria, no início do século 19, as pré-condições para o desenvolvimento do comércio e da economia monetária, quadruplicando a receita estatal e introduzindo inúmeras melhorias públicas.

A imprecisão contamina até a noção central de “estamento”, uma suposta “elite” incrustada no Estado, que seria o suporte social do patrimonialismo. O tal “estamento” é composto, afinal, quem o suporta e fundamenta? Os juízes, o presidente, os burocratas? O que dizer do empresariado brasileiro, especialmente o paulista, que foi, no caso brasileiro, o principal beneficiário do processo de industrialização nacional financiado pelo Estado interventor desde Vargas? Ele também é parte do “estamento” estatal? Deveria ser, pois foi quem econômica e socialmente mais ganhou com o suposto “Estado patrimonial” brasileiro.

A quem interessa a idealização do mercado e a demonização do Estado?
Como fica, em vista disso, a falsa oposição entre mercado “idealizado” e Estado “corrupto”? Ora, trata-se de um conceito que se refere a todos e a ninguém e pouco ou nada esclarece. Se o potencial científico e esclarecedor dessa noção é tendencialmente nulo, o mesmo não pode ser dito de seu potencial ideológico e político. Ela “simplifica” e “distorce” a realidade social de diversas maneiras e sempre em um único sentido: aquele que simplifica e “idealiza” o mercado e subjetiviza e “demoniza” o Estado. De weberiano, pelo menos, esse processo não tem nada. Vimos que a marca da riqueza da reflexão weberiana é precisamente perceber a ambigüidade constitutiva dessas instituições fundamentais do mundo moderno e, com isso, perceber a ambigüidade imanente ao próprio racionalismo ocidental. O mercado cria riquezas com uma eficiência singular, mas produz, simultaneamente, desigualdades e injustiça social de todo tipo. O Estado pode agir das mais diversas maneiras, dependendo da correlação de forças política que esteja no controle do poder de Estado.

Como uma hipótese tão frágil, pode-se perguntar o leitor atento, conseguiu ser até hoje o conceito central da reflexão brasileira, a tal ponto que é repetido, mesmo hoje, não só pela maioria dos intelectuais, na universidade e fora dela, mas também pela mídia e pelos cidadãos comuns nos bares de esquina do Brasil afora? Se quisermos responder a essa questão “weberianamente” - o Max Weber crítico que sempre se interessou pela forma como indivíduos e classes “legitimam” seus “interesses” materiais e ideais criando “racionalizações convincentes” -, temos que perceber as necessidades e interesses que esse tipo de visão de mundo justifica. A quem interessa “demonizar” o Estado, pleitear o Estado mínimo, criticar a incipiente assistência social estatal, e, em suma, reduzir os interesses da sociedade aos interesses da reprodução do mercado?
Quaisquer que sejam os interesses em jogo, o tema do patrimonialismo, precisamente por sua aparência de “crítica radical”, dramatiza um conflito aparente e falso, aquele entre mercado e Estado, sob o preço de deixar à sombra todas as contradições de uma sociedade que naturaliza desigualdades sociais abissais e um cotidiano de carência e exclusão. Na crítica deste paradigma ultrapassado e superficial, e na construção de outros mais adequados e verdadeiramente críticos, a tradição crítica que Weber também inspirou pode construir, também entre nós, uma alternativa fundamental para a auto-reflexão dos brasileiros. É de se esperar, como vemos, que as tradições que se alimentam da riqueza da obra desse pensador cada vez mais atual, ainda continuem a desempenhar, aqui e alhures, um papel nada desprezível.

Jessé de Souza é professor de sociologia da UFJF e organizador do livro A atualidade de Max Weber (Editora UNB), entre outros

“CULT”

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Anistia denuncia 60 anos de “fracasso” em direitos humanos

O relatório anual da organização denuncia a injustiça e a impunidade

Walter Oppenheimer

A Anistia Internacional (AI) denunciou nesta terça-feira o “fracasso de 60 anos em direitos humanos”. Na apresentação do relatório anual do organismo, que controla e denuncia os abusos de países grandes e pequenos, sua presidente, Irene Khan, afirmou que “a injustiça, a desigualdade e a impunidade são hoje as marcas distintivas de nosso mundo”. “Os governos têm de atuar já para acabar com o abismo que separa o que dizem do que fazem”, acrescentou.

O relatório destaca que em 81 países se infligem torturas ou maus-tratos, em 54 há julgamentos sem as devidas garantias e em 77 não há liberdade de expressão. A Anistia censura à Espanha torturas e maus-tratos policiais, abusos na expulsão de imigrantes, em especial menores desacompanhados, violência contra as mulheres, participação em interrogatórios em Guantánamo entre 2002 e 2005 e o curto alcance, apesar de “algumas características positivas”, da lei da Memória Histórica. E explica que “depois de anunciar o fim do cessar-fogo permanente o ETA retomou os atentados.”

Na opinião de Khan, “2007 se caracterizou pela impotência dos governos ocidentais e a ambigüidade ou renúncia das potências emergentes a enfrentar algumas das piores crises mundiais de direitos humanos, tanto conflitos arraigados como desigualdades crescentes que deixam relegadas milhões de pessoas.”

A presidente da Anistia, que compareceu muito séria ao lançamento do relatório em Londres, salientou que “Darfur, Zimbábue, Gaza, Iraque e Mianmar são pontos quentes que exigem uma atuação imediata em termos de direitos humanos”. E salientou a especial responsabilidade dos grandes países. Sobretudo os EUA, “porque são a grande potência mundial e como tal têm a responsabilidade de definir os padrões”. Alguns padrões estão em nível muito baixo devido à guerra contra o terrorismo, sua defesa da tortura como sistema para obter informação e o campo de detenção de Guantánamo.

Khan aproveitou o compromisso dos três candidatos à presidência dos EUA de fechar Guantánamo para animar o ganhador, seja quem for, a fechar o campo em 10 de dezembro próximo, coincidindo com o 60º aniversário da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Um pedido talvez ingênuo porque, embora as eleições sejam em novembro, o novo presidente só tomará posse em janeiro de 2009.

Exigiu da União Européia “um compromisso para investigar a cumplicidade de seus países membros nas entregas extraordinárias de pessoas suspeitas de terrorismo e aplicar a seus próprios membros os mesmos padrões em matéria de direitos humanos que define para outros países.”

Também houve críticas à China, que deve cumprir “as promessas em termos de direitos humanos que formulou em torno dos Jogos Olímpicos e permitir a liberdade de expressão e imprensa, e acabar com a prática da reeducação pelo trabalho”. “A China deve compreender que a um maior poder global correspondem maiores obrigações”, acrescentou, referindo-se à sua capacidade de influir na resolução de conflitos como Darfur, Zimbábue ou Mianmar.

À Rússia, a organização afirmou que “deve mostrar maior tolerância para com a dissidência política e tolerância zero para a impunidade pelos abusos contra os direitos humanos na Chechênia.”

“El País”

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Pedido de desculpas

Caro visitante do Controvérsia, pedimos desculpas pela falta de inserção de materiais no Blog entre 15 e 21 de julho. Nosso espaço no provedor se esgotou, depois de 2 anos de inserções diárias. Tivemos que tomar uma posição radical e cortar vários textos de julho de 2006 a fevereiro de 2007 para poder inserir novos materiais agora.

Aproveito também para lembrar que neste último dia 17 de julho completamos 2 anos no ar. Obrigado pela audiência.

Estamos nos ajustes finais para o lançamento do site que está funcionando experimentalmente no endereço: www.controversia.com.br. Todo o material postado no Blog também o é no site.

Aguarde que teremos uma surpresa muito grande no lançamento. Temos certeza que você vai gostar.

Ricardo

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