Arquivo de 23 de Julho de 2008

Brasil - Mina subterrânea da Votorantim gera devastação ambiental

Maria Luisa Mendonça*

A estrada que leva à Vazante tem os contornos de Minas. As montanhas onduladas, cobertade cerrado, nem parecem reais. Têm um tom cinematográfico. Por aqui passam os rios Santa Catarina e Paracatu, que são afluentes do São Francisco. A região, rica em minérios, é explorada pela Companhia Mineira de Metais, do Grupo Votorantim.

Em 1992, após o esgotamento da extração mineral na superfície, a empresa passou a explorar uma mina subterrânea na região. A partir daí, aumentou a destruição ambiental. “Essa mina é como a galinha dos ovos de ouro da Votorantim. Mas para os moradores de Vazante, o resultado é a rachadura das casas, a poluição da água e a destruição das grutas naturais”, explica a professora Dolores Solis, que organizou um abaixo-assinado contra a empresa.

Em represália, a mineradora tentou processar Dolores judicialmente. “A Votorantim manda na cidade. A empresa financiou até mesmo a reforma do Fórum e da Prefeitura em Vazante. O prédio da Prefeitura recebeu o nome da mãe do Antônio Ermírio de Moraes! É por isso que não tem justiça” afirma Dolores.

Mesmo sem fundamento legal, o objetivo da empresa é intimidar outras formas de protesto. Através de uma ação judicial, a mineradora conseguiu retirar um sítio da Internet que continha denúncias sobre sua atuação. A solução foi passar a página de um servidor brasileiro para outro internacional, atualmente com o endereço: http://www.ecodenuncia.org

Diversos estudos de impacto ambiental confirmam o desastre ecológico causado pela Votorantim. Em 1992, a FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente) constatou que a exploração subterrânea de minério causaria “subsistência (afundamento) dos terrenos, conflitos por escassez de água e problemas na qualidade dos afluentes”.

Em abril de 1999, ocorreu um grave acidente na mina subterrânea, a 350 metros de profundidade. A escavação atingiu um imenso lençol freático e a água invadiu a mina. Com isso, a empresa passou a realizar o bombeamento contínuo de grande quantidade de água. O relatório da FEAM afirma que a quantidade de água bombeada deveria ser no máximo de 2600 metros cúbicos por hora, mas atualmente essa quantidade é superior a 7500 metros cúbicos por hora. Este é um dos maiores níveis de bombeamento de água subterrânea no mundo e o maior já feito no Brasil. A cada ano, a quantidade de água bombeada equivale ao tamanho da baía da Guanabara.

Um documento elaborado pelo vereador Donizetti Vida para a Promotoria Pública de Vazante alerta que, “o desperdício de água, numa proporção de 180.000 metros cúbicos por dia, seria suficiente para abastecer uma cidade com 360 mil residências com consumo diário de 500 litros cada”.

Desta forma, um dos principais problemas apontados na operação da mina subterrânea é a quantidade de água bombeada do subsolo, que causa o rebaixamento do lençol freático e das reservas de águas subterrâneas. A região, que apresenta sub-solo calcáreo, abriga enormes aqüíferos. O resultado desse desperdício tem sido a drenagem de águas subterrâneas, de córregos, lagoas e açudes. A Lagoa do Sucuri e o Poço Verde, próximos à mina, secaram completamente. Estes eram locais de lazer da população local, onde a água era limpa e havia grande quantidade de peixes. Ocorre também o problema da contaminação dos solos, rios e água pelos rejeitos da mineração, como no Rio Santa Catarina. A contaminação do rio por metais pesados causou a morte de milhares de peixes e destruiu praticamente toda a sua fauna.

Em 25 de outubro de 1999, o editorial da Folha Noroeste (de Paracatu, MG) denuncia que “uma enorme quantidade de rejeitos da mineração está sendo lançada no Santa Catarina, em volume superior a vazão do próprio rio. O que era água límpida e pura se transformou numa corrente de lama que, de tanto material sólido, mal consegue correr pela calha daquele importante manancial d’água”. O jornal noticiou também que uma das substâncias encontradas no rio Santa Catarina foi o cádmio, um subproduto tóxico da refinação do zinco que, mesmo se absorvido pela população em pequenas quantidades, pode causar insuficiência renal e deformação óssea.

Especialistas da Universidade Federal de Uberlândia constataram que o nível zinco no rio era 50 vezes maior do que o limite permitido por lei, o nível de chumbo era 137 vezes maior, o de manganês era 149 vezes maior e o de ferro era 9 vezes maior do que o limite legal. A contaminação com esses metais pode causar desde inflamação gastro-intestinal, toxidez crônica, anorexia, paralisia, distúrbios visuais, anemia e convulsões, até envenenamento e morte.

Estudos mostram que a água subterrânea no local está ligada ao Aqüífero Guarani. Este é o maior manancial subterrâneo do mundo e abrange parte do território do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. No Brasil, o Aqüífero Guarani está localizado nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A mineradora coloca em risco outro importante patrimônio natural, pois em Vazante estão localizadas algumas das maiores grutas de Minas Gerais. O rebaixamento do lençol freático pode causar o desmoronamento dessas grutas. Um laudo elaborado por técnicos da Universidade Federal de Uberlândia constatou ainda que a diminuição do nível do aqüífero pode levar a “destruição de edifícios e equipamentos urbanos. Pessoas podem ser vitimadas pela destruição de suas moradias”.

Com a drenagem da água subterrânea, aumentaram os fenômenos conhecidos como dolinas -enormes crateras que se formam de maneira abrupta, como se fosse uma implosão. Em seu livro “Crateras da Cobiça”, o jornalista J. Carlos de Assis explica como ocorre a formação dessas crateras. “Quando essas águas são bombeadas, no processo de sucção na frente de mineração subterrânea, reduz-se a resistência ao peso da superfície, que é tragada para os bolsões secos, formando as dolinas”.

Mais de 100 agricultores locais, em uma área que abrange um diâmetro de 92 quilômetros, foram afetados pela formação de centenas de dolinas e pela poluição do solo e das águas. Somente em uma dessas fazendas, que faz divisa com a mina, existem hoje mais de 40 dolinas. Cada uma delas tem em média 25 metros de diâmetro e entre 12 e 25 metros de profundidade.

A produção agropecuária se tornou inviável e a secagem de poços gerou um risco de desabastecimento de água para a população. Há também um processo de desertificação dos solos e destruição da biodiversidade. A criação de gado praticamente acabou, pois os animais morrem envenenados quando bebem a água contaminada do rio.

As fazendas Salobo e Olaria, localizadas nas proximidades da mina, eram conhecidos centros de criação de gado da raça Pardo-Suíça. Com a poluição das fontes de água, utilizadas para o consumo animal, todo o rebanho morreu. Estima-se que somente nesta fazenda morreram 493 animais. Atualmente são registrados também altos índices de aborto no gado da região. O Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (CODEMA) atribui este fenômeno à presença de mercúrio, chumbo e zinco na água.

Especialistas advertem que há também risco de aumento de acidentes fatais, como o que ocorreu em 2002, quando o operário Elias Marques Jordão morreu soterrado na mina subterrânea. O jornalista J. Carlos de Assis afirma que “o acidente pode ser descrito como um processo de dolinamento, igual a centenas de outros em Vazante, só que visto de baixo para cima”.

Edgar Lunes, representante do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas de Vazante, conta que os operários precisam cumprir uma meta de produção, que aumenta todos os anos. Isso exige um esforço cada vez maior dos trabalhadores. “Entre 1998 e 2006, a meta de produção aumentou 100%. O salário depende das horas trabalhadas e não há estabilidade no emprego”, explica.

Recentemente, a Votorantim anunciou que pretende aumentar a exploração nesta mina e, consequentemente, a produção na siderúrgica de Três Marias, que é abastecida pelo minério de Vazante (ver matéria sobre desastre ecológico em Três Marias na edição anterior do Brasil de Fato).

Até 2010, a empresa pretende aumentar a produção de zinco de 180 mil para 260 mil toneladas por ano. Para isso, deve pressionar os órgãos ambientais para a liberação de uma outorga de água ainda maior em Vazante. O pedido de outorga mais recente da Votorantim pretendia aumentar o bombeamento de água na mina subterrânea para 16 mil metros cúbicos de água por hora. Essa quantidade seria quase três vezes maior do que a atual.

Os moradores de Vazante, atingidos pela destruição ambiental, parecem perplexos com o poder da empresa. Uma das táticas de chantagem utilizadas pela Votorantim é a ameaça de despedir funcionários e provocar uma crise econômica no município. O problema é que grande parte da população local não percebe que os prejuízos causados pela mineradora são muito maiores do que representaria a interrupção de suas atividades.

Outro mecanismo que a empresa encontrou para conter os protestos e as ações judiciais tem sido a cooptação, através de acordos paliativos, como a entrega de água em carros-pipa, a abertura de poços, o aterramento das dolinas ou até mesmo a compra das fazendas atingidas. Porém, agricultores que decidiram seguir com os processos contra a Votorantim denunciam que a água fornecida pela empresa está contaminada, assim como a terra usada para cobrir as dolinas, pois a vegetação não se recompõe nesses locais.

O que está em jogo em Vazante é, de um lado, o poder de um dos maiores grupos econômicos do país e, de outro, o agravamento de um desastre ecológico irreversível.

*Jornalista e coordenadora da R

“Adital”

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Pedido de desculpas

Caro visitante do Controvérsia, pedimos desculpas pela falta de inserção de materiais no Blog entre 15 e 21 de julho. Nosso espaço no provedor se esgotou, depois de 2 anos de inserções diárias. Tivemos que tomar uma posição radical e cortar vários textos de julho de 2006 a fevereiro de 2007 para poder inserir novos materiais agora.

Aproveito também para lembrar que neste último dia 17 de julho completamos 2 anos no ar. Obrigado pela audiência.

Estamos nos ajustes finais para o lançamento do site que está funcionando experimentalmente no endereço: www.controversia.com.br . Todo o material postado no Blog também o é no site.

Aguarde que teremos uma surpresa muito grande no lançamento. Temos certeza que você vai gostar.

Ricardo

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A Guerra de Secessão

HISTORIANET

INTRODUÇÃO : A INDEPENDÊNCIA
A criação de uma República Presidencialista e Federalista, pela constituição norte-americana de 1787, concedia autonomia para cada Estado decidir por seu destino em vários aspectos, inclusive no tocante à mão-de-obra. Nesse sentido, nem a independência dos Estados Unidos e nem a Constituição, irão alterar a condição de vida da população negra nos Estados sulistas, que permanece majoritariamente escrava.

Essa estagnação do sul (atual sudeste), representada por uma economia agro-exportadora com base no latifúndio escravista, contrastava-se cada vez mais com o desenvolvimento do norte (atual nordeste), industrial e abolicionista, tornando-se num futuro próximo, um entrave para o desenvolvimento capitalista dos Estados Unidos.

ANTECEDENTES DA GUERRA
O intenso crescimento territorial dos Estados Unidos na primeira metade do século XIX, acompanhado de um rápido aumento da população, com muitos imigrantes europeus atraídos pela facilidade de adquirir terras, tornava ainda mais flagrante, o contraste entre o desenvolvimento do norte e o atraso do sul.

No norte, o capital acumulado durante o período colonial, criou condições favoráveis para o desenvolvimento industrial cuja mão-de-obra e mercado, estavam no trabalho assalariado. A abundância de energia hidráulica, as riquezas minerais e a facilidade dos transportes contribuíram muito para o progresso da região, que defendia uma política econômica protecionista. Já o sul, de clima seco e quente permaneceu atrasado com uma economia agro-exportadora de algodão e de tabaco, baseada no latifúndio escravista. Industrialmente dependente, o sul era franco defensor do livre-cambismo, caracterizando mais um contraponto com a realidade do norte.
O Acordo de Mississipi em 1820 proibia a escravidão acima do paralelo 36o40′. Em conseqüência, o presidente Monroe, que assinara o tratado, foi homenageado com a denominação de “Monróvia”, para capital do Estado da Libéria, fundado na África em 1847, para receber os escravos libertados que quisessem voltar à sua terra. Em 1850 foi firmado o Compromisso Clay, que concedia liberdade para cada Estado da federação decidir quanto ao tipo de mão-de-obra.
Em 1852, Harriet Beecher Stowe publicou a romance abolicionista A Cabana do pai Tomás, que vendeu 300 mil cópias só no ano de sua edição, sensibilizando toda uma geração na luta pelo abolicionismo. Dois anos depois surgia o Partido Republicano, que abraçou a causa do abolicionismo.
Em 1859, um levante de escravos foi reprimido na Virgínia e seu líder John Brow foi enforcado, transformando-se em mártir do movimento abolicionista. No ano seguinte, o ex-lenhador que chegou a advogado, Abraham Lincoln, elegeu-se pelo novo Partido Republicano. O Partido Democrata, apesar de mais poderoso, encontrava-se dividido entre norte e sul, o que facilitou a vitória de Lincoln, um abolicionista bem moderado que estava mais preocupado com a manutenção da unidade do país. Em campanha Lincoln teria afirmado que “Se para defender a União eu precisar abolir a escravidão, ela será abolida, mas se para defender a União eu precisar manter a escravidão, ela será mantida”. Apesar da questão do escravismo ser apenas secundária para Lincoln, o mesmo era visto pelos latifundiários escravistas do sul como um verdadeiro revolucionário.

Sentindo-se ameaçados pelo abolicionismo, em 20 de dezembro de 1860 iniciava-se na Carolina do Sul um movimento separatista, que seguido por outros seis Estados, reuniu-se no Congresso de Montgomery no Alabama, decidindo pela criação dos “Estados Confederados da América”. A secessão estava formalizada com um novo país nascendo no sul. Os estados do norte e do Oeste reagirão dizendo que o sul não tinha o direito de separar-se e formar um outro país. Iniciava-se assim em 1861 a maior guerra civil do século XIX, a Guerra de Secessão, também conhecida como “Guerra Civil dos Estados Unidos” ou ainda como “Segunda Revolução Norte-Americana”, que se estendeu até 1865 deixando um saldo de 600 mil mortos.

A GUERRA
Enquanto o sul possuía apenas 1/3 dos 31 milhões de habitantes do país, dos quais mais de três milhões eram escravos, e contava apenas com uma fábrica de armamentos pesados, o norte já contava com pelo menos três fábricas de armas bem mais modernas, um sólido parque industrial, uma vasta rede ferroviária e uma poderosa esquadra. Mesmo com esse contraste totalmente desfavorável, foi o sul que lançou a ofensiva, criando uma nova capital - Richmond - e elegendo para o governo Jefferson Davis, que a 12 de abril de 1861 atacou o forte de Sunter.
Se inicialmente o conflito mostrava algumas vitórias do Sul, que instituiu o serviço militar obrigatório e convocou toda população para a guerra, com o prolongamento do conflito, o norte ia consolidando sua vitória.

Para fortalecer o norte, Lincoln extinguiu a escravidão nos Estados rebeldes em 1862 e prosseguiu incentivando o expansionismo, através da promulgação do Homestead Act, que fornecia gratuitamente 160 acres a todos aqueles que cultivassem a terra durante cinco anos. No mar o norte também demonstrava toda sua supremacia com os couraçados, modernas embarcações que surgiram nessa guerra e foram responsáveis pelo decisivo bloqueio naval imposto sobre o sul.
A abolição efetiva da escravidão só ocorreu em 31 de janeiro de 1865. Após três meses, o general sulista Robert Lee oficializava o pedido de rendição ao general nortista Ulisses Grant. Alguns dias depois o presidente Abrahan Lincoln era assassinado pelo fanático ator sulista John Wilkes Booth.

A Guerra de Secessão é considerada a primeira guerra moderna da história, fazendo surgir os fuzis de repetição e as trincheiras, que irão marcar de forma mais acentuada, a Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918. As novas técnicas tornam obsoletos o sabre e o mosquete, fazendo da a luta corpo a corpo uma forma de combate cada vez mais inútil.

DESDOBRAMENTOS
Com um saldo de 600 mil mortos e o sul devastado, a guerra radicalizou a segregação racial surgindo associações racistas como Ku-Klux-Klan, fundada por brancos racistas em Nashville no ano de 1867, com o objetivo de impedir a integração dos negros como homens livres com direitos adquiridos e garantidos por lei após a abolição da escravidão. O traço característico de seus membros era o uso de capuzes cônicos e longos mantos brancos, destinados a impedir o reconhecimento de quem os usava. A intimação contra os negros atingia também em menor escala brancos que com eles se simpatizavam, além de judeus, católicos, hispânicos e qualquer indivíduos contrário à segregação racial. A prática de terror dava-se desde desfiles seguidos por paradas com manifestações racistas, até linchamentos, espancamentos e assassinatos, passando ainda por incêndios de imóveis e destruição de colheita.
Com o término da guerra, a recuperação econômica dos Estados Unidos foi fulminante, sendo facilitada pela abundância de recursos naturais e por uma extensa rede de transporte fluvial e ferroviário, já estava presente nos Estados Unidos desde o final do século XIX, quando surgiram gigantescos conglomerados, representando o processo de concentração industrial mais conhecido como truste, que criou verdadeiros oligopólios atuando nos mais variados setores da indústria de bens duráveis de consumo, como aço, petróleo e borracha, destacando-se a Ford, a General Motors e a Chrysler, como também a Firestone e a Goodyear.
O expansionismo da economia norte-americana pelo mundo, tornava-se cada vez mais inevitável sob a ótica da nova etapa que caracterizava o capitalismo no final de século XIX: o imperialismo, que nos Estados Unidos foi evidenciado pela política do Big Stick - “Fale macio, carregue um grande porrete e irá longe” - adotada pelo presidente Theodore Roosevelt em 1901. Na América Central o intervencionismo norte-americano evidenciava-se com construção do canal do Panamá, visando a ligação do Atlântico com o Pacífico, e com uma emenda na constituição de Cuba (emenda Platt), que assegurou aos Estados Unidos o direito de intervir na recém independente nação caribenha. Destacam-se posteriormente outras intervenções, como na República Dominicana (1905), na Nicarágua (1909), no México (1914), no Haiti (1915), além da compra das Ilhas Virgens Ocidentais à Dinamarca em 1916.

Considerada a maior guerra civil do século XIX, a Guerra de Secessão foi vital para o desenvolvimento capitalista dos Estados Unidos, pois somente com o seu término criou-se no país um mercado unificado, baseado no modelo industrial nortista, representando assim, o primeiro grande passo para o avanço capitalista, que levará os Estados Unidos à condição de principal potência hegemônica do mundo no século XX.

“HISTORIANET”

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Fatores transitórios e estruturais na explosão dos preços

Dois elementos caracterizam a atual flutuação de preços: o peso do componente financeiro e a expansão de consumo em países pobres. A primeira característica é transitória, enquanto a segunda pode resultar em uma mudança estrutural no fluxo e na intensidade do comércio dos alimentos e das matérias-primas. A análise é de José Graziano da Silva.

José Graziano da Silva*

SANTIAGO DO CHILE – A deterioração dos termos de intercâmbio é um dos dentes da engrenagem histórica do subdesenvolvimento, fenômeno que não caracteriza uma fase do desenvolvimento, mas uma forma especifica e distorcida de inserção das economias periféricas no sistema capitalista mundial. Relações coloniais fortemente estruturadas em torno da exportação de produtos primários modelaram originalmente essa característica da maioria das economias surgidas na periferia do sistema internacional.

No século XXI, algumas delas exibem uma margem de maior controle graças à expansão da base industrial em evolução. Algumas exceções apenas reafirmam a regra latino-americana e caribenha pela qual predominam padrões internos de difusão da riqueza majoritariamente circunscritos a núcleos exportadores minerais ou agrícolas. Trata-se de um corolário de concentração de renda em sistemas produtivos que se mantêm vinculados ao humor variável do comércio mundial de matérias-primas.

A trajetória da América Latina e do Caribe está marcada por ciclos tão intensos quanto efêmeros, com aqueles da prata, do ouro, do açúcar e do café, para citar alguns exemplos do passado, ao lado dos atuais da soja, do minério de ferro e do cobre. A natureza cíclica é o fio condutor que os persegue, deixando em evidência a persistência de padrões de intercâmbio que transferem ao exterior as capacidades de tomar decisões relativas ao desenvolvimento.

A repetição das perdas resultantes desse padrão comercial foi analisada originalmente na década de 50, no inicio da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), pelo argentino Raúl Prebish, e posteriormente estudadas pelo brasileiro Celso Furtado, que explicou detalhadamente as limitações estruturais reproduzidas por esse modelo que perpetua condições de subordinação econômica e política ao longo da historia latino-americana e caribenha. Nos últimos cinco anos, a explosão dos preços das matérias-primas abriu uma tendência à alta em um dos dentes dessa engrenagem, mas, ainda insuficiente para alterar a lógica do conjunto dado a conhecer por Celso Furtado.

Desde 2003, segundo o índice do Commodity Research Bureau (CRB), a média dos preços de 24 produtos primários agrícolas registrou alta de 50% de suas cotações mundiais. Mas, ao ampliar o campo de observação a um intervalo maior, entre 1974 e 2004, a revista The Economist constatou um retrocesso acumulado de 75% para esses produtos. Ou seja, apenas uma parte das perdas foi recuperada. É importante avaliar ano a ano os fatores que impulsionaram a alta recente dos preços, de modo que se possa separar aqueles de natureza estrutural e outros de cunho especulativo. Nesse exercício podemos identificar três momentos distintos.

Entre 20002 e 2004 houve aumento no consumo de alimentos com maior valor protéico – principalmente carne e lácteos – por parte de populações pobres em países em desenvolvimento, entre eles, Brasil, China e Índia. Praticamente no mesmo momento, os Estados Unidos aumentaram, de forma explosiva, sua previsão de consumo de etanol, influenciando, assim, a demanda pelo milho. Se esse período foi marcado pelo crescimento da demanda, o seguinte refletiu cerca escassez na oferta.

Entre 2004 e 2006 ocorreram significativas perdas na produção mundial de cereais devido a fenômenos climáticos, como secas na China e na Austrália e furacões na América Central e no Caribe. Isso comprimiu as reservas mundiais de cereais em um momento de crescimento do consumo. A partir de 2007 é basicamente o componente especulativo que influi na alta continuada dos preços: enfrentados com as incertezas econômicas, muitos investimentos buscaram refúgio rentável nos fundos de commodities – agrícolas e não-agrícolas.

Portanto, dois elementos caracterizam o atual ciclo de flutuação de preços: o peso do componente financeiro e a natureza inédita de uma demanda que resulta da expansão de consumo em países pobres. A primeira característica é transitória, enquanto a segunda pode resultar em uma mudança estrutural no fluxo e na intensidade do comércio dos alimentos e das matérias-primas.

São dinâmicas em curso, mas algumas lições já podem ser extraídas desses movimentos. A primeira reafirma os riscos implícitos na dependência das exportações de bens primários, com já advertiam Prebisch e Celso Furtado há décadas. A segunda destaca a necessidade de contrapesos de política econômica para ampliar o leque de produtores beneficiados por ciclos de aumento da demanda por alimentos. O fortalecimento dos pequenos agricultores e de assentamentos organizados em cooperativas, por exemplo, ampliaria o circuito da riqueza proporcionando maior possibilidade de crescimento sustentável.

Nesse sentido, é oportuno recordar que a metade dos mais de 70 milhões de indigentes da América Latina e do Caribe, vivem em áreas rurais. Para eles, a alta dos preços é uma oportunidade de superar a pobreza, sempre que, além das tradicionais políticas de crédito e assistência técnica, tenham garantiras de mercado para seus produtos. Isso pode ser feito, por exemplo, através da compra pelo governo de sua produção para formar reservas e para merenda escolar.

O balanço preliminar da atual crise recomenda uma autocrítica das teses neomalthusianas que atribuíram à agroenergia a principal responsabilidade pelos saltos nas cotações das commodities, dessa forma minimizando o componente fortemente especulativo – reconhecido agora pelo próprio governo norte-americano ao propor uma ação conjunta da Commodity Futures Trading Commission (que fiscaliza os mercados futuros desses produtos) com a Security Exchange Commission (que regulamenta os ativos financeiros).

A agroenergia, ao contrário, emerge da atual crise financeira como um porto seguro de consistência real e continuidade estratégica. Por mais que a demanda mundial por commodities diminua no curto prazo, o desafio de reconstruir a matriz energética do século XXI está apenas começando. A agroenergia pode ajudar a sustentar a expansão dos países pobres inaugurando uma nova dinâmica de independência comercial – com a industrialização das plantações para a produção de combustíveis e assim criar pontes entre a agricultura familiar e um setor de ponta da economia mundial que veio para ficar.

* José Graziano da Silva é representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe.

“Carta Maior”

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“Eu aplico o fascismo e o catolicismo”, afirma “xerife” de Treviso

Miguel Mora

Cordial, gritão e robusto, Giancarlo Gentilini enche seu escritório, que deve medir cerca de 50 metros quadrados. O prefeito mais fascista da Itália inicia aos 78 anos o quarto mandato como xerife de Treviso, uma cidade de 100 mil habitantes que lembra a Holanda: há bicicletas, canais, parques muito bem cuidados, ruas limpíssimas e se vêem muitos imigrantes. Tudo é tão organizado que dá medo atirar uma ponta de cigarro no chão. Em oito anos como prefeito e quatro de vice-prefeito, a política de tolerância de duplo zero de Gentilini se transformou em um modelo que inspira as idéias da Liga Norte e do Partido do Povo de Silvio Berlusconi sobre a imigração. “Eu fiz tudo aplicando os ensinamentos do fascismo e do catolicismo”, ele diz.

El País - O senhor foi novamente eleito. Qual é seu segredo?
Giancarlo Gentilini - Os cidadãos me querem. Sabem que a centro-esquerda fracassou e nessas condições a apatia é impossível. A mim interessa que a maioria silenciosa vote, já que não fala, mas julga.

EP - Foi a vitória da Liga ou de Berlusconi?
Gentilini - Vencemos unidos, mas eu me apresentei com uma chapa pessoal. A soma da Liga e a lista de Gentilini conseguiu 35% dos votos. (Dá um tapa na mesa.) É a quarta vez que ganho! A primeira foi em 1994.

EP - Creio que o senhor foi soldado…
Gentilini - Sim, artilheiro. Passei todas as desgraças da guerra e o fascismo me ensinou ordem e disciplina, que é o que apliquei em meu mandato. Vivi a ocupação nazista, a libertação, fui vendedor de frutas e de peixe, soldado e depois advogado. Em 1994, já aposentado, me perguntaram se queria ser prefeito de Treviso; comecei a rir, mas venci os colossos de aço, bronze e ferro.

EP - Como era Treviso então?
Gentilini - Estava morta, desconhecida, suja, escura, sem cultura. Agora é conhecida em todo o mundo.

EP - Graças ao xerife.
Gentilini - Apliquei o Evangelho segundo Gentilini: tolerância duplo zero e respeito às leis. Em três meses desapareceram os lavadores de carros e os mendigos, e em um ano expulsamos os falsos vendedores ambulantes. Aqui não temos esses personagens que proliferam em Veneza, Pádua ou Vicenza.

EP - Quantos imigrantes vivem aqui?
Gentilini - Cerca de 4 mil. Nós os integramos bem. A imigração é uma riqueza, mas é preciso exigir os mesmos requisitos que pediam a nós: identidade, trabalho, porque não é possível estar no parque com o celular às 11 da manhã sem fazer nada, carteira de saúde e um atestado de antecedentes limpo. Por exigir isso me chamaram de racista, disseram que era igual a Hitler e Mussolini. Por que então me elegeram pela quarta vez? São infâmias dos jornais e das televisões.

EP - Tratar os imigrantes assim não é xenofobia?
Gentilini - Eu não sou xenófobo, mas odeio os traficantes, as prostitutas, o comércio de armas. E não posso tolerar os ciganos, de fato destruí dois acampamentos nômades porque eram um refúgio de gente que roubava noite e dia. Não posso consentir que meninos ciganos de 6 ou 7 anos roubem nossos idosos. Treviso é um oásis e todos querem viver aqui. Estou orgulhoso disso. Minhas mensagens são aplicadas agora por outros prefeitos, inclusive de esquerda. Mas esses são apenas xerifinhos. O xerife da Itália sou eu.

EP - Fez inclusive uma “limpeza étnica de homossexuais”.
Gentilini - Foi um fato localizado. Diante do hospital há um grande estacionamento e alguns moradores vieram me dizer que ali havia homens e mulheres que se prostituíam de madrugada. As pessoas estavam aterrorizadas. Pedi à comandante da polícia municipal para investigar, me disse que na verdade ali havia homossexuais, lésbicas e outras espécies dessa categoria. Eu disse que em três dias queria esse lugar liberado, os prendemos, identificamos e fizemos a limpeza. Disseram que sou homófobo, mas não é verdade. Cada um é árbitro de seu próprio corpo, sou inclusive a favor da prostituição livre, mas as efusões amorosas não podem se realizar nos espaços municipais. Em clubes e casas, que façam o que quiserem, mas sem penalizar os cidadãos. Me compararam às leis raciais de Hitler. Mais um ardil para vender jornais.

EP - Mas o senhor continua sendo fascista.
Gentilini - Fui educado na mística fascista e apliquei esses ensinamentos. O amor à bandeira, às leis e ao próximo. Depois consolidei essas teorias com nove anos no colégio San Pio XI. E também apliquei as leis do catolicismo.

EP - Em que sentido?
Gentilini - Aplicando a religião de Estado. Por exemplo, eliminando as tentativas de construir mesquitas, porque são lugares de encontro e refúgio de gente que não se sabe sua identidade nem de onde vem. É inútil que me digam que uma mesquita é como uma igreja, porque sabemos que o islã persegue a eliminação do infiel, enquanto o cristianismo se inspira no perdão e na conversão.

EP - Em resumo, o senhor não gosta de integração.
Gentilini - A integração deve vir de baixo, e não de cima. Nos EUA também não é perfeita e estão tentando há anos. O problema é que as populações famintas do mundo não controlam a procriação, e têm massas que nascem e depois bebem e comem. Haverá uma revolução. Essas massas virão, nossos filhos e netos verão. Mas hoje o momento histórico é muito favorável. Treviso e Vicenza são as províncias que puxam a economia nacional, temos obras até o infinito, correm rios de dinheiro, já há 60 ou 70 bancos e trabalho para todos. Um banco espanhol acaba de abrir uma sucursal aqui. “Arriba España!” (Risos)

“El País”

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Ricardo

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Por que os dois maiores bancos centrais tomam posições tão diferentes?

Ralph Atkins e Krishna Guha

Raramente os dois principais bancos centrais do mundo agiram de forma tão contraditória.

Promover o crescimento é o principal objetivo do Federal Reserve (ou Fed, banco central dos Estados Unidos), que cortou sua principal taxa de juros de 3 pontos percentuais para 2,25% desde que a crise financeira global entrou em erupção em agosto último. Mas quando o Banco Central Europeu se reunir hoje, é provável que mantenha sua posição - deixando as taxas de juros em 4%, como tem feito mensalmente desde junho passado, numa atitude que enfatiza o risco de inflação em vez do crescimento.

Numa era em que as economias mundiais estão interligadas pela globalização, uma divergência como essa parece incompreensível à primeira vista - e leva a questionar se uma das duas instituições adotou a estratégia errada.

Será que Ben Bernanke, presidente do Fed, está se arriscando a gerar uma espiral inflacionária nos EUA e espalhando as sementes da próxima bolha dos mercados financeiros? Será que Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, está menosprezando o impacto da crise e arriscando abortar a recuperação da zona do euro que poderia ajudar a equilibrar uma recessão nos EUA? Ou ambos estão agindo com discernimento em resposta a um conjunto diferente de riscos econômicos?

Segundo Thomas Mayer, economista-chefe para assuntos europeus no Deutsche Bank, o risco mais imediato é de que as estratégias discrepantes dos bancos centrais resultem em um choque de moeda, com um crescimento rápido do euro em relação ao dólar, desferindo um “golpe de nocaute na economia européia” e alimentando a inflação nos EUA.

Apesar de os estrategistas do Fed e do BCE afirmarem que as diferenças na situação econômica dos EUA e dos 15 países da zona do euro são responsáveis pelas políticas divergentes, alguns economistas do setor privado apontam para algo mais profundo. “Há uma forma diferente de pensar”, diz Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, e acrescenta que isso reflete a história e os princípios legais dos dois bancos. O Fed tem como missão maximizar o emprego e atingir a estabilidade de preços, enquanto o BCE tem como único objetivo formal evitar a inflação.

De certa forma as diferenças entre as duas políticas diminuíram conforme a crise progrediu. A oferta de liquidez de emergência para mercados financeiros problemáticos por parte dos dois bancos tornou-se cada vez mais parecida, por exemplo. Quando a crise dos mercados emergiu em 9 de agosto do ano passado, com os bancos comerciais se recusando a emprestarem dinheiro entre si como é de costume, o BCE surpreendeu o mundo fornecendo fundos overnight ilimitados. E nos meses seguintes o Fed tomou a direção de um sistema que tem mais semelhança com a prática da zona do euro, permitindo que um grupo maior de instituições financeiras tivesse acesso ao dinheiro em troca de um amplo conjunto de garantias (colateral).

Em temas como a oscilação das moedas, todavia, a diferença entre as políticas permaneceu praticamente constante. O BCE expressou sua preocupação com a rápida valorização do euro em relação ao dólar. No geral, o Fed recebeu bem a depreciação do dólar, vendo isso como um suporte para o crescimento, mas no fundo estava preocupado com a possibilidade do declínio se tornar desordenado.

Todavia, quando chegou o momento dos dois bancos determinarem suas taxas de juros, as diferenças se tornaram mais severas. O Fed se colocou em modo de luta total contra a recessão, enquanto o BCE definitivamente não fez o mesmo - e acabou com as especulações de qualquer corte iminente em sua principal taxa de juros.

Esse contraste reflete em grande parte as diferentes histórias que podem ser abstraídas dos dados econômicos. O Fed começou a cortar as taxas de juros em setembro - quando o cenário dos EUA a curto prazo era tão forte quanto o da zona do euro é hoje - mas acelerou a marcha em janeiro depois que os números do consumo e do emprego caíram abruptamente e a queda da habitação nos EUA se intensificou. Não houve uma quebra de ritmo como essa nos dados da zona do euro.

Os estrategistas americanos estão ansiosos para interceptar a possibilidade de um declínio econômico prolongado, como o que o Japão enfrentou nos anos 90. Mas na zona do euro não há rumores de recessão - há sim a continuação de uma desaceleração gradual que já havia começado bem antes de agosto passado, em parte como resultado do endurecimento do BCE. A economia da Alemanha, a maior da zona do euro, parece robusta e o BCE tem se impressionado com números que mostram que o empréstimo de capital para companhias da zona do euro cresceu nos últimos meses atingindo taxas recordes - o que sugere que a atividade econômica real foi pouco afetada.

O Fundo Monetário Internacional e muitos analistas do setor privado temem que o estreitamento do crédito eventualmente se alastre à medida que os bancos europeus tenham grandes prejuízos com o débito americano. Com a Espanha e a Irlanda enfrentando desacelerações abruptas em seu crescimento econômico e a Itália ainda com um desempenho baixo, O’Neill diz que está preocupado com o modo negligente com que alguns estrategistas do BCE falam.

Todavia, Christian Noyer, dirigente do Banque de France, que faz parte do conselho dirigente do BCE, argumentou durante um discurso na semana passada que um “grande desastre financeiro” é menos provável na zona do euro do que nos EUA. A exposição dos bancos europeus à perda de crédito dos EUA foi “no geral significativamente mais baixa do que a dos bancos americanos, e o modelo europeu de banco universal [diferente do americano, em que há distinção entre bancos comerciais e de investimento] permite que eles reduzam as conseqüências de uma crise em um dos segmentos de atividade”, disse Noyer.

Do outro lado do Atlântico, não somente o setor financeiro acumula perdas mas também a riqueza familiar está decrescendo enquanto os preços do mercado imobiliário caem. Mas na zona do euro o preço dos imóveis não está caindo significativamente, exceto na Irlanda. O FMI está preocupado com o fato de que os preços dos imóveis em todas as grandes economias européias, exceto a Alemanha, parecem estar crescendo mais do que nos EUA. O BCE se conforta com o caráter “equilibrado” da economia da zona do euro como um todo (senão de algumas economias nacionais) - com suas altas taxas de poupança e contas externas equilibradas.

Essas diferenças entre as perspectivas de crescimento e em relação às condições estruturais resultam em cenários diferentes de risco de inflação. A inflação anual é na verdade maior nos EUA do que na zona do euro, está em 4%. Mas o Fed está razoavelmente confiante de que a inflação dos EUA vai cair, dada a flexibilidade da economia americana e o aumento de sua capacidade. O Fed teme que os altos preços de commodities e as notícias de inflação despertem diretamente as expectativas de inflação, mas vê pouca margem para que aconteça uma espiral de aumento salarial ampla nos EUA.

O BCE, por sua vez, tem razões para temer que a inflação, que atingiu 3,5% na maior alta dos últimos 16 anos, continue acima de seu objetivo - uma taxa anual “abaixo, mas próxima” dos 2% - por um longo tempo. Não só há menos abertura econômica, como os preços e salários estão mais fixos - ou mudando mais lentamente - na zona do euro do que nos EUA. A negociação coletiva continua disseminada e entre um terço e metade dos contratos de trabalho estão de alguma forma atrelados às taxas de inflação antigas, aumentando o risco de uma espiral salarial.

Alguns economistas acham que essas diferenças na balança dos riscos explicam totalmente as diferenças de ponto de vista na política dos dois bancos centrais. “Onde há diferenças, elas dizem respeito mais ao ponto em que as economias estão, onde estão mercados financeiros, e como a economia se comporta”, diz Julian Callow do Barclays Capital em Londres. Todavia, parece haver uma diferença importante na forma que o Fed e o BCE pensam sobre a natureza dos riscos de “downsize” do crescimento - e, por extensão, da inflação - conseqüentes da crise financeira.

O Fed vê isso principalmente em termos de interação entre o sistema financeiro e a economia real: ele se preocupa com a possibilidade de que as perdas no setor bancário e o declínio do valor das garantias de pagamento (collateral) - como, por exemplo, as casas sobre as quais são feitos os financiamentos imobiliários - poderiam transformar o estreitamento de crédito numa quebra ainda mais brutal.

O BCE pensa nos riscos de “downsize” como estando em grande parte dentro das perspectivas para um rápido desvencilhar do desequilíbrio da economia doméstica dos EUA - principalmente uma taxa de poupança familiar muito baixa - que representa a contraparte dos desequilíbrios do comércio mundial.

Se o BCE estiver certo em relação à natureza do risco, não se trata de algo que possa se materializar em sua economia doméstica. Mas se o Fed estiver certo, o risco de que a Europa possa experimentar uma dificuldade similar é real, mesmo que a zona do euro esteja protegida em grande extensão enquanto o valor das garantias de pagamento domésticos - por exemplo, as casas - não sofrer nenhuma queda.

Além disso, alguns analistas, apesar de reconhecerem as variações nas condições estruturais e cíclicas, ainda vêem diferenças de filosofia. Marco Annunziata, economista-chefe da Unicredit, diz: “Minha impressão é de que a diferença da perspectiva macro e dos elementos estruturais das economias explicam no máximo 40 a 50% da diferença entre as políticas”. Ele compara a tendência do Fed e agir proativamente com o instinto mais cuidadoso do BCE.

Influências culturais e históricas também podem estar em jogo. Na consciência do Fed estão profundamente arraigadas as memórias da Grande Depressão e de sua própria culpa por não fazer o suficiente para reduzir os riscos do crescimento econômico daquela época. Por outro lado, o BCE, sediado em Frankfurt, herdou o medo ancestral de hiperinflação, profundamente enraizado na Alemanha mas que se estende para a maior parte do resto da Europa.

Em qualquer caso, parece haver uma diferença de abordagem no que diz respeito a administrar as ameaças do crescimento e da inflação. O Fed fala abertamente sobre sua abordagem de “administração de riscos” em relação à política monetária, que coloca muita ênfase em eliminar os riscos de resultados econômicos muito ruins - como uma nova Depressão ou uma estagnação como a que o Japão viveu nos anos 1990. Na zona do euro, Trichet e seus colegas parecem cautelosos em relação às técnicas de administração de riscos. Isso reflete em parte a grande inércia da economia da zona do euro, que faz com que uma ação defensiva menos urgente. Mas os estrategistas também suspeitam de que sempre haverá mais pressão sobre o BCE para “comprar seguros” contra o baixo crescimento em vez de contra a alta inflação.

Como resultado, o Fed está assumindo a maior parte da responsabilidade para administrar os riscos do crescimento global. Por um lado, o BCE está até certo ponto pegando carona nos esforços do Fed. Mas a explicação - européia - alternativa é de que o papel do BCE é apropriado, dado que os problemas surgiram nos EUA. Além do mais, a moderação do BCE também está ajudando a conter os riscos inflacionários globais causados pela facilitação agressiva do Fed. “A diferença entre as atitudes fundamentais dos bancos dá a medida de sua diversidade de políticas - o que pode de certa forma reduzir o risco de erro de uma grande política adotada em nível global”, argumenta Annunziata.

Outros, entretanto, se preocupam com a falta de coordenação das políticas frente ao que vêem como uma crise global. “Sem dúvida, os bancos centrais individuais têm de suprir a necessidade de suas respectivas economias, mas ao mesmo tempo devem fazê-lo de forma que suas políticas se somem coletivamente, contribuindo para a estabilidade internacional como base para o crescimento global sustentável”, diz Charles Dallara, diretor-administrativo do Instituto Internacional de Finanças, uma associação industrial que representa os bancos. Se, por exemplo, a taxa de juros sobre a poupança nos EUA aumentar rapidamente, será a zona do euro capaz de ajudar a preencher a rápida queda na demanda global?

Alguns chegam até a dizer que o BCE deveria cortar as taxas de juros, para ajudar a reduzir os ricos econômicos globais, mesmo que as condições domésticas não justifiquem muito essa ação.

Pedir aos bancos centrais que ajam dessa forma é problemático, até mesmo por causa dos termos estreitos de seus mandatos legais. Mas ainda assim há um precedente: a decisão do Fed de cortar as taxas duas vezes em 1998, o que muitos acreditam ter sido influenciada pelas considerações globais na época da crise asiática e da inadimplência russa.

O dilema que as duas instituições enfrentam mostra o quão sutil é o equilíbrio entre os dois riscos que a economia corre hoje: recessão e inflação. Qualquer dos perigos que acabe dominando, tanto o BCE quanto o Fed terão de ser rápidos em sua resposta.

Sadismo cresce na Alemanha em recuperação
Talvez em Nova York ou Washington pareça ser apenas uma questão de tempo antes que a tempestade financeira global chegue à costa de países como a Alemanha. Mas na maior economia da Europa, ainda parece seguro entrar no mar.

O diálogo entre os economistas e no Bundesbank é de uma desaceleração gradual na Alemanha esse ano - certamente nada dramático. Ela era esperada como resultado de um fraco crescimento global, aumento nos preços do petróleo e fortalecimento do euro, em vez de uma conseqüência direta da crise hipotecária dos EUA. Mesmo assim, Angel Gurría, secretário-geral da Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômicos, disse ontem que tais fatores não tiveram tanto efeito “até agora”. O último relatório da OCDE sobre a economia alemã notou sua recuperação.

Enquanto isso, os políticos de Berlim discutem se o retorno ao emprego total é possível; enquanto o desemprego aumenta nos EUA, os últimos números mostraram que na Alemanha ele caiu para sua menor taxa desde 1992.

Essa confiança ajuda a explicar porque o BCE continua relativamente otimista em relação às perspectivas gerais para a zona do euro. De fato, a história econômica recente da Alemanha tem sido uma imagem espelhada dos EUA. Em vez de experimentar um boom de consumo e moradia na década passada, a Alemanha passou por um período de ajustes dolorosos como resultado da unificação no começo dos anos 90 e dos efeitos da globalização numa economia de altos salários.

No momento em que a crise financeira global emergiu, o reestruturamento extensivo do setor privado já havia restaurado a competitividade dos preços, enquanto os consumidores haviam reduzido seus gastos - com o custo dos imóveis sem nenhum crescimento ou até mesmo em queda.

O boom de investimento que a Alemanha teve nos últimos dois anos provavelmente encontrou um caminho - e o crescimento do consumo é conseqüência lógica, alavancando ainda mais a performance econômica geral do país, diz Dirk Schumacher, economista da Goldman Sachs em Frankfurt. Nesse cenário, “o tumulto financeiro global vai deixar suas marcas - mas há uma diferença entre ser o país foco da crise e simplesmente sofrer os seus danos colaterais”, diz ele.

Uma recessão americana atingiria as vendas de bens alemães, mas a exportação para outras regiões - especialmente para o grupo chamado “Bric”: Brasil, Índia e China - estão se sustentando bem. Tampouco parecem haver muitos sinais de estreitamento de crédito sufocando o crescimento. Por toda a zona do euro, o empréstimo para empresas está crescendo para números recordes, com as companhias alemãs alavancando boa parte do crescimento.

Isso sugere poucos problemas de oferta de crédito local. A demanda alemã por empréstimos para financiar os gastos de capital continua próxima de níveis recorde, escreveu Jacques Cailloux, economista do Royal Bank da Escócia, em uma recente nota de pesquisa - “provavelmente um sinal de que os negócios na Alemanha permanecem bastante positivos em relação às expectativas econômicas”.

Os bancos alemães foram alguns dos primeiros a serem atingidos no ano passado pelo desenrolar da crise financeira; IKB e Sachsen LB, dois bancos público pequenos, passaram por medidas emergenciais de resgate. Mas em relação a isso, surgiu uma confiança oficial, fruto do fato de que os demais bancos foram mais rápidos do que seus rivais internacionais em responder ao problema dos investimentos podres; a grande e rápida injeção de liquidez do BCE provavelmente ajudou os outros bancos por toda a zona do euro. Ao mesmo tempo, grande parte do sistema bancário alemão teve pouca ou nenhuma exposição aos produtos financeiros que se mostraram os mais perigosos - já que os bancos competem ferozmente por clientes corporativos.

Por toda a Alemanha, um senso de “schadenfreude”, ou sadismo, começou a emergir. O ministro das finanças Peer Steinbrück sustenta há tempos que uma corrida aos bancos, como aconteceu com o Northern Rock no Reino Unido, não vai acontecer na Alemanha. Siegfried Jaschinski, presidente do LBBW, um dos maiores bancos do setor público, argumentou recentemente no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung que o sistema bancário tradicional alemão - baseado em relações pessoais próximas com as “Mittelstand”, companhias de médio porte normalmente familiares - pode esperar um “renascimento” como resultado dos eventos nos mercados de capital. “As companhias querem ter uma âncora estável no lado financeiro; uma forma moderna de ‘banco doméstico’”, escreveu.

A performance aparentemente forte dos EUA durante os últimos anos pode parecer menos impressionante aos historiadores futuros, sugere Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos de Política Européia em Bruxelas. “O sistema dos EUA era visto como mais eficiente para
angariar capital. Mas esse não é mais o caso.”

Ao mesmo tempo, a maior parte do crescimento produtivo dos EUA, comparado ao da Alemanha, foi em serviços financeiros e revenda - setores que agora enfrentam queda. “Parte do valor agregado aos serviços financeiros não era valor agregado nenhum”, diz Gros.

Mas isso não é o mesmo que dizer que a Alemanha tem melhores perspectivas a longo prazo. Enquanto o sistema financeiro americano e os mercados de trabalho mais flexíveis parecem amplificar os booms e os colapsos econômicos, as taxas de crescimento da economia alemã se mantêm tradicionalmente estáveis - porém mais baixas.

“Financial Times”

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BELEZA ENCLAUSURADA

Leandro Uchoas

A entrada é arborizada, ampla, organizada. Um restaurante colorido e aconchegante precede o estacionamento e a atmosfera de ordem e paz. Enquanto alguns namorados se beijam nos bancos, ainda lá fora, curiosos observadores erguem o corpo tentando enxergar, de longe, as infindáveis belezas do lado de dentro.

Passada a roleta, são as aves o que primeiro se vê no zoológico do Rio. Lindas, coloridas e inquietas, são as primeiras das cerca de 400 espécies, dos mais de 2 mil animais que vivem nesse endereço. Mescladas ao ambiente ordenado e limpo, cheio de cores e indicações por todos os seus 138 mil metros de extensão, dão a impressão a muitos de que estão protegidas e em paz. De que são parte de um dos raros pedacinhos do sufocante ambiente urbano destinados à casa humana original, a natureza.

Seria verdade não fosse uma constatação tão óbvia quanto sua beleza: estão presas. Numa gaiola grande, mas não o suficiente, seguem seus repetitivos dias privadas da simples liberdade com que contava a esmagadora maioria de seus antepassados. E as cerca de 70 mil pessoas que, a cada mês, visitam esses animais, não se dão conta de seu drama. Movidos pela incrível capacidade humana de não questionar tudo o que é socialmente considerado “normal”, os visitantes nunca se perguntam o que faz um pingüim trancado numa bacia de cimento no calor do Rio de Janeiro.

Na entrada, muito próximo às aves, estão os macacos. Macaco-verde, macaco-de-cauda-longa, macaco-rabo-de-porco, mandril, babuíno-sagrado, e diversos outros. São talvez os animais em cuja face se vê mais claramente a tristeza, seja porque podemos ler melhor seus sentimentos, dada a proximidade biológica entre nossas espécies, ou porque os geralmente alegres e saltitantes bichinhos carecem mais de liberdade. Ao ver o macaco-rhesus, a menininha Isis de 4 anos pergunta a seu pai, intrigada: “porque o macaquinho não está brincando no pneu? Tá com preguiça?”. O pai responde que é por causa do horário de almoço.

O imponente tigre-de-bengala é outro que parece velho e lento, assim como o jacaré-coroa e a onça pintada, que no zoológico do Rio, curiosamente, é negra. Acusar de covardia a administração do lugar só não seria mais criminoso do que privar inocentes de liberdade. Não são culpados. São apenas outras vítimas de uma cultura segundo a qual os animais são como um quadro que anda.

Os administradores do zoológico ainda são parte dos que mais se preocupam com esse animal cruelmente enclausurado. Além de abrigar animais que poderiam, não fosse o zôo, estar engrossando a lista dos cerca de 8 mil bichos que vivem em abrigo no Rio de Janeiro, a administração criou o programa Bem-Estar Animal. Através dele se pretende diminuir o estresse dos animais com uso de brinquedos, bolas, espelhos, alimentos escondidos, etc.

Quem visita o local, entretanto, percebe o quão apertadas são as jaulas, as gaiolas, os pastos, e quão raros os brinquedos. Em meio à alegria das crianças e o colorido das placas, revelam-se animais visivelmente tristes, condenados a uma rotina de angústia e prisão. Questionado se não se importava com a situação dos animais, o taxista André de Souza que visitava o zôo pela primeira vez deu uma resposta muito comum. “Eles foram feitos pra isso.”

O morador mais ilustre que o zoológico já teve confirma o estresse dos animais pelo avesso. Macaco Tião foi o animal mais alegre dali até 1996, quando morreu. Não por acaso, foi um dos poucos a andar com liberdade pelos espaços, visitando quase sempre a sala de administração. O famoso símio que, em 1988, chegou a ganhar quase 10% dos votos nas eleições municipais, graças à campanha dos humoristas do Casseta, era conhecido pela irreverência, pelo carinho e pela malandragem. Seria exagero associar essas características à sua liberdade?

Além de dar nome à principal via, a Alameda Macaco Tião, ele também foi homenageado com uma estátua no zôo, ao lado da qual as crianças adoram ser fotografadas. Aliás, essas são, sem dúvida, as grandes personalidades do zoológico. Na sociedade moderna, é em ambientes como esse que as crianças têm seu primeiro, e muitas vezes único, contato com a natureza.

Tudo remete ao universo infantil. Desde os parquinhos aos desenhos que enfeitam todos os recantos do lugar. A cada mês, cerca de 110 turmas escolares visitam o zoológico. “É uma festa. Eles adoram vir. Criança adora bicho” comenta a professora Tatiana de Campos. De fato, é visível o encantamento dos garotos com tudo.

Lamentável que, como aconteceu com os pais deles, e com os pais dos pais deles, estão aprendendo a considerar “normal” o aprisionamento injustificável dos animais. É como se desde a escola, o cidadão aprendesse a aceitar o fetichismo de prender bichos que nasceram livres para exibição gratuita.

Há no zoológico, inclusive, algo chamado minifazenda. Nesse local foi construída, em miniatura, a simulação de todos os estereótipos daquele tipo de fazenda de antigamente. As vacas no pasto, o cavalo no estábulo, as galinhas soltas. Como era comum no Brasil antes da indústria inserir os animais na lógica da cadeia de produção (galinhas enclausuradas em salas iluminadas 24 horas, vacas com espaço restrito pela lógica de engorda, etc).

Embora considere realmente negativo a existência de animais em zoológico, Isabel Cristina Nascimento, presidente da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais (Suipa), lembra que as unidades reproduzem animais em extinção e servem de casa aos que, não fosse o zôo, estariam isolados em abrigos. “Mas claro que não deveria ter um camelo, um elefante. São animais que não estão em nossa fauna”, adverte Isabel.

Natural da Índia, o elefante mora em um Taj Mahal próprio. É a única construção diferente no minúsculo espaço onde vive. O camelo já não tem tanta sorte. Divide com o dromedário não apenas as semelhanças biológicas, mas também a simplicidade da tenda de palha que têm como casa. Sua vida no zôo é certamente mais monótona do que seria nos desertos do norte da África, de onde vem.

Entretanto, ao se deixar de lado qualquer revolta com o cerceamento gratuito de liberdade, não há como não se encantar com a beleza desses animais. Seja aves como o gavião e o tucano, répteis como o iguana e o cágado, ou mamíferos como o leão. Estão todos ali, a nos relembrar o quão magnífica era a natureza original, onde o homem viveu durante quase toda a sua trajetória por esse planeta, com a exceção única de um breve período histórico conhecido pela alcunha de modernidade.

As placas de recados do zoológico mais antigo do Brasil, seguindo o discurso politicamente correto que incrivelmente as marca (jogue lixo na lixeira, não dê comida aos animais, etc), pede aos jornalistas que registrem as novidades e acontecimentos. Novidades? Acontecimentos? Por ora, vem à memória apenas uma velha frase certa vez encontrada num artigo de jornal: “como é que tantas espécies podem ser afetadas pela vaidade de uma única?”

“Fazendo Media”

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A luta contra o apartheid recomeçou na África do Sul

John Pilger

Quando voltei à África do Sul após a queda do apartheid, pedi a Ahmed Kathrada para levar-se a Robben Island. Conhecido afectuosamente como Kathy, ele usava óculos escuros para encobrir os olhos danificados pelo brilho da pedra calcária que ele e Nelson Mandela aguentaram durante décadas. Ele mostrou-me a sua cela, de um metro e meio por um metro e meio, onde “a luz era sempre brilhante, dia e noite”. Admirei-me como foi possível sair de um quarto de século de encarceramento como um ser humano são, equilibrado, tolerante e simpático. Suas razões incluíram os ensinamento de Gandhi e o apoio dos seus seres amados, mas, acima de tudo, “havia a luta, sem a qual nada muda”.

Este sentido de luta está de volta na África do Sul. No outro dia encontrei-me com o escritor Breyten Breytenbach, que passou oito anos na prisão sob o regime do apartheid. Ao falar no festival “Time of the Writer”, em Durban, evocou os “sonhos” dos grandes combatentes da libertação Steve Biko e Robert Sobukwe. “Como iremos travar este ‘progresso’ aparentemente irreversível da África do Sul para um Estado totalitário de um partido?”, perguntou.

É uma pergunta que muitos se fazem num país que agora tipifica um apartheid económico imposto por todo o mundo sob a cobertura do “crescimento económico” e liberal, no jargão corporativo. Por “democracia”, leia-se socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres. “Por “governação” e “modernidade”, leia-se um sistema de divisão e pilhagem concebido e aprovado em Washington, Bruxelas e Davos — um sistema no qual, diz o ministro sul-africanos das Finanças, Trevor Manuel, “os vencedores florescem”. E ele fala de um país onde a desigualdade e a pobreza são descritas como “desesperadas”, onde o governo do ANC permitiu às mais vorazes companhias do mundo que escapassem a reparações pelo envenenamento da terra e do seu povo, e que foi induzida pelas companhias britânicas de armamento à compra de 24 jactos de combate Hawk, cada um deles a 17 milhões de libras (21,4 milhões de euros), “de longe a opção mais cara”, segundo um relatório da Câmara dos Comuns.

O Department for International Development (DfId) britânico desempenhou um papel destacado. Embora lhe seja exigido por lei não gastar dinheiro senão na redução da pobreza, o DfID é, na realidade, uma agência de privatização que lubrifica o caminho para que multinacionais tomem o comando de serviços públicos. Em 2004 o departamento pagou ao Adam Smith Institute, um think tank de extrema direita, 6,3 milhões de libras (7,9 milhões de euros) para que elaborasse planos de “reforma” do “sector público” na África do Sul, promovendo ligações “business-to-business” entre companhias britânicas e sul-africanas cujo único interesse é o lucro.

Uma vez que o infeliz Robert Mugabe tenha partido, o Zimbabwe obterá o mesmo tratamento. Ao oferecer ajuda no valor de mil milhões de libras, o governo britânico guiará o retorno do capital, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional para restaurar o que, muito antes da ruína de Mugabe, foi uma das mais exploradas e desiguais da África. O novo assalto foi esboçado em 5 de Abril na divertidamente intitulada “Progressive Governance Conference”, na Grã-Bretanha, uma das heranças de Tony Blair, onde líderes “à esquerda do centro” pretendem ser administradores da crise ao invés de, como muitas vezes é o caso, serem a causa da crise. (Em 1999, Blair voou duas vezes à África do Sul para promover o agora escandaloso negócio das armas.)

Dizem que o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, foi recrutado para livrar-se do obstáculo que é Mugabe, mas ele é cauteloso, recordando sem dúvida que Mugabe, na sua última visita à África do Sul, recebeu uma embaraçosa ovação da multidão negra. Isto não foi um endosso ao seu despotismo e sim um recordatório de que a maior parte dos sul-africanos não esqueceu uma das “promessas inquebrantáveis” do ANC — de que quase um terço da terra arável seria redistribuída em 2000. Hoje o número é de menos de 4 por cento.

Enquanto isso, os despejos continuam, juntamente com desapropriação urbana, desconexões de água e a omnipresente indignidade da mendicância. “Nosso país pertence a todos os que nele vivem”, dizem as palavras de abertura da Carta da Liberdade do ANC, declaradas há mais de meio século. Recentemente, a polícia sul-africana calculou que o número de protestos por todo o país duplicou em dois anos, para mais de 10 mil por ano. Isto pode ser a mais elevada taxa de discordância do mundo. Mais uma vez, como Kathy, eles estão conclamando à “luta”.

“http://resistir.info/”

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Pedido de desculpas

Caro visitante do Controvérsia, pedimos desculpas pela falta de inserção de materiais no Blog entre 15 e 21 de julho. Nosso espaço no provedor se esgotou, depois de 2 anos de inserções diárias. Tivemos que tomar uma posição radical e cortar vários textos de julho de 2006 a fevereiro de 2007 para poder inserir novos materiais agora.

Aproveito também para lembrar que neste último dia 17 de julho completamos 2 anos no ar. Obrigado pela audiência.

Estamos nos ajustes finais para o lançamento do site que está funcionando experimentalmente no endereço: www.controversia.com.br . Todo o material postado no Blog também o é no site.

Aguarde que teremos uma surpresa muito grande no lançamento. Temos certeza que você vai gostar.

Ricardo

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Estudo relaciona descrença religiosa a QI alto

Segundo pesquisa, QI médio é mais alto nos países onde há menor crença em Deus.

Estadão

Um artigo de pesquisadores europeus, que será publicado na revista acadêmica Intelligence em setembro, defende a tese de que pessoas com QI (Quociente de Inteligência) mais alto são menos propensas a ter crenças religiosas.

O texto é assinado por Richard Lynn, professor de psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte, em parceria com Helmuth Nyborg, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e John Harvey, sem afiliação universitária.

Lynn é autor de outras pesquisas polêmicas, entre elas uma sugerindo que os homens são mais inteligentes do que as mulheres.

A conclusão é baseada na compilação de pesquisas anteriores que mostram uma relação entre QIs altos e baixa religiosidade e em dois estudos originais.

Em um desses estudos, os autores compararam a média de QI com religiosidade entre países.

No outro estudo, eles cruzaram os resultados de jovens americanos em um teste alternativo de habilidade intelectual (fator g) com o grau de religiosidade deles.

Na pesquisa entre países, os pesquisadores analisaram média de QI com o de religiosidade em 137 países. Os dados foram coletados em levantamentos anteriores.

Os autores concluíram que em apenas 23 dos 137 países a porcentagem da população que não acredita em Deus passa dos 20% e que esses países são, na maioria, os que apresentam índices de QI altos.

Exceções

Os pesquisadores dividiram os países em dois grupos.

No primeiro grupo, foram colocados os países cujas médias de QI são mais baixos, variando de 64 a 86 pontos. Nesse grupo, uma média de apenas 1,95% da população não acredita em Deus.

No segundo grupo, onde a média de QI era de 87 a 108, uma média de 16,99% da população não acredita em Deus.

Os autores argumentam que há algumas exceções para a conclusão de que QI alto equivale a altas taxas de ateísmo.

Eles citam, por exemplo, os casos de Cuba (QI de 85 e cerca de 40% de descrentes) e Vietnã (QI de 94 e taxa de ateísmo de 81%), onde há uma porcentagem de pessoas que não acreditam em Deus maior do que a de países com QI médio semelhante.

Uma possível explicação estaria, segundo os autores, no fato de que “esses países são comunistas nos quais houve uma forte propaganda ateísta contra a crença religiosa”.

Outra exceção seriam os Estados Unidos, onde a média de QI é considerada alta (98), mas apenas 10,5% dizem não acreditar em Deus, uma taxa bem mais baixa do que a registrada no noroeste e na região central da Europa - onde há altos índices médios de QI e de ateísmo.

Lynn diz que uma explicação para o quadro verificado nos Estados Unidos pode estar no fato de que “há um grande influxo de imigrantes de países católicos, como México, o que ajuda a manter índices altos de religiosidade”.

Mas ele reconhece que mesmo grupos que emigraram para os Estados Unidos há muito tempo tendem a ter crenças religiosas fortes e diz que, simplesmente, não consegue explicar a realidade americana.

Generalização

Os autores argumentam que essa relação entre QI e descrença religiosa vem sendo demonstrada em várias pesquisas na Europa e nos Estados Unidos desde a primeira metade do século passado.

Eles citam, também, uma pesquisa de 1998 que mostrou que apenas 7% dos integrantes da Academia Nacional Americana de Ciências acreditavam em Deus, comparados com 90% da população em geral.

Lynn admitiu à BBC Brasil que os resultados apontam para uma “generalização” e que há pessoas com QI alto que têm crenças religiosas fortes.

Segundo ele, há vários fatores, como influência familiar ou pressão social, que influenciam a religiosidade das pessoas.

“Nós temos que diferenciar a situação hoje com outros períodos da história. As pessoas tendem a adotar uma atitude de acordo com a sociedade em que vivem. Hoje em dia, na Grã-Bretanha e em outros países europeus, não há tanta pressão da sociedade para que você acredite em Deus”, afirma.

Uma das hipóteses que o estudo levanta para tentar explicar a correlação entre QI e religiosidade é a teoria de que pessoas mais inteligentes são mais propensas a questionar dogmas religiosos “irracionais”.

Dúvidas

O professor de psicologia da London School of Economics, Andy Wells, porém, levanta questões sobre a tese.

“A conclusão do professor Lynn é de que um QI alto leva à falta de religiosidade, mas eu acredito que é muito difícil ter certeza disso”, afirma.

De acordo com Wells, vários estudos já demonstraram que pessoas com níveis de QI altos tendem a ter níveis de educação mais altos.

“E quanto mais educação as pessoas têm, é mais provável que elas tenham acesso a teorias alternativas de criação do mundo, por exemplo”, afirma Wells.

O jornal de psicologia Intelligence, publicado na Grã-Bretanha, traz pesquisas originais, estudos teóricos e críticas de estudos que “contribuam para o entendimento da inteligência”. Acadêmicos de universidades de vários países fazem parte da diretoria editorial. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

“Estadão”

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Retrato em branco e preto

Imagem do negro no Brasil foi forjada com chegada da fotografia no século XIX

Carlos Haag

O estúdio funcionaria, diz a professora, como um camarim e palco, onde o fotógrafo era o diretor e o cliente, mesmo participando da construção de sua cena, o personagem. Uma foto, mesmo à custa da privação de itens importantes à sobrevivência, era a prova visual para eles, para amigos e parentes de que a sua luta estava valendo a pena. “O momento exigia que, além de ser livre, a pessoa nascida livre ou alforriada parecesse livre para os outros, usando, para tanto, símbolos que indicassem essa sua condição.” Detalhes como estar de sapatos eram indicativos do novo status de liberdade. Gilberto Freyre, em Sobrados e mucambos, conta como os negros, “vestidos à européia”, eram atacados e ridicularizados nas ruas pela “ousadia”. Da mesma forma, muitos escravos eram levados para o estúdio para fazer figuração no retrato de senhores e, com sua humilhação (“mas não com sua atitude”, ressalta a pesquisadora), garantir o registro do poder do senhor. As fotos encenadas, com negros reproduzindo seu labor no estúdio, eram suvenires (cuja organização cênica asséptica, lembra Sandra, servia para tentar passar uma idéia de “escravidão civilizada”) e objetos etnográficos, feitos sob encomenda para sustentar teorias racistas.

Nessas, se procuravam “evidências” da inferioridade dos negros e igualmente serviam como base para referendar o ideal da “escravidão civilizada”, nota a pesquisadora. “Apesar da assepsia e da ordem retratadas, a condição de escravo não era mascarada; antes, sua essência era exposta.” Havia também um mercado para fotos de amas, trazendo ao colo a criança branca que amamentara. “Nesse tipo de foto, tentava-se passar uma idéia de harmonia e afeto, num período em que o uso de amas estava sendo condenado pela medicina”, observa Sandra.

Humores – Num anúncio do Jornal do Commercio, de 1875, fazia-se a apologia da Farinha Láctea Nestlé, “a verdadeira ama-de-leite”, que, afirmava o reclame, livrava o filho do contágio de enfermidades enoculadas pelo leite estranho, corrompido pelos maus humores de qualquer ama-de-leite”. A modernidade exigia mudanças, mas as mães relutavam em abrir mão do privilégio de “usar” a negra para alimentar o filho. As fotos foram uma tentativa de “segurar” o relógio dos novos tempos. Nessas fotos, avalia a pesquisadora, é ainda mais gritante a força de expressão no olhar da retratada, obrigada a se vestir com luxo forçado.

“Elas são lembranças de que, para haver uma ama negra, houve um bebê negro que, muitas vezes, era separado da mãe para que ela pudesse criar o filho senhorial.” O invisível se torna visível. “O uso social da servidão dos povos africanos criou no Brasil uma estética da exterioridade útil do corpo do negro. O senhor de escravos, como os profissionais do ramo, conheciam melhor os detalhes dos dentes de seus servos do que os de suas filhas, como acontece com os criadores de cavalo de raça atuais. De certos desvios de olhar não ficamos livres até hoje”, analisa o antropólogo da Unicamp Carlos Rodrigues Brandão, em seu artigo O negro olhar.

“Nos jornais e revistas, negros são mais o corpo do que o rosto, mais o tipo e mais ainda a função do que a pessoa. Num país onde negros ‘puros’ são milhões, é o rosto branco, qualquer que seja, que se dá a ver. Os negros e mestiços são quase todos os criminosos do país, pois eis que quase todas as fotografias de criminosos são de mestiços e negros.” É forte, no Brasil, a imagem do negro como máquina corpórea, algo complexo num país que aprendeu a desprezar o trabalho braçal. Negros são os que trabalham, os que são sensuais (mesmo quando revelados como esportistas), os que adoram festas, observa Paulo Bernardo Vaz, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de um estudo sobre a imagem do negro.

“O fluxo imagético que mostra o negro sofrendo, apanhando, roubando ou exibindo seu corpo sensual reatualiza significados construídos sócio-historicamente e que sugerem cristalizações que tipificam o negro em uma forma que não favorece uma auto-estima positiva. É o olhar externo que in-forma o negro numa representação pejorativa que pode afetar a sua construção identitária. Afinal, quem quer se identificar com um sujeito que vive sofrendo?” Para Vaz, os meios de comunicação oferecem ao negro a oportunidade contraditória de ser outro e não ele mesmo. “O ‘outro’ representa a ameaça fantasmática de dividir o espaço a partir do qual falamos e pensamos, é o medo de perder o espaço próprio. Medo primitivo, análogo ao terror noturno das crianças. O ‘outro’ acaba virando Drácula, sem imagem legítima”, analisa Muniz Sodré. A Transilvânia, como o Haiti, também pode ser aqui. Se, referindo-se à escravidão, Castro Alves pergunta a Deus, em O navio negreiro, “se é verdade tanto horror perante os céus”, não é de se estranhar que o sociólogo Muniz Sodré, no artigo Uma genealogia das imagens do racismo, use um personagem de terror para ilustrar sua visão da visão do negro na nossa sociedade: “Drácula não se reflete no espelho, logo, é sem imagem. Ele é o inverso da identidade normalizada pela cultura pequeno-burguesa. Na sociedade da imagem (anagrama de magia), dos dispositivos de visão, o sujeito só existe se aparece no ‘espelho’, isto é, se tem condições socioculturais de ter imagem publicamente reconhecível”. Vale lembrar que o conde, assim como a fotografia, são “filhos” do século XIX.

“A percepção daquele tempo sobre a fotografia é de que ela não é apenas uma forma de ‘representar’ o mundo, mas de ‘tornar o mundo visível’”, analisa Maurício Lissovsky, historiador da fotografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em meados da década de 1860, no Brasil, o retrato fotográfico se tornara um objeto de desejo para brancos e negros. “No caso destes últimos, se nascidos livres ou libertos, ao se fazerem retratar como os brancos, à moda européia e com códigos e comportamentos emprestados do outro, era uma tentativa de trilhar um caminho dentro de uma sociedade racista e exigente”, observa Sandra Koutsoukos, autora da tese de doutorado “No estúdio do fotógrafo: representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX”, defendida em outubro, na Unicamp, orientada por Iara Lis Schiavinatto.

Revista da FAPESP

A pesquisa “desvela o invisível” presente em imagens de negros com cartolas e suas mulheres com sombrinha, amas e seus “filhos” brancos, assim como os polêmicos “tipos de pretos”, como as imagens do fotógrafo Christiano Júnior, que se anunciava no Almanaque Lammert como dono de “uma variada coleção de costumes e tipos de pretos, cousa muito própria para quem se retira para a Europa”. Exibindo negros e negras seminus (adorados pelos etnólogos racistas), catalogados por sua origem africana, ou em encenações feitas no estúdio de seu trabalho nas ruas e nas fazendas, as imagens chamaram a atenção de Sandra que viu ser “necessário olhar o que estava enquadrado nas fotos, assim como descobrir o que ficara de fora”. Mas “Drácula” não aparece no espelho. Então, ver o quê?

Afinal, como observa a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em Olhar escravo, ser olhado, “num retrato, pode-se ser visto e pode-se dar a ver, alternativas ligadas à relação entre retratado e retratante: se o retrato do senhor é uma forma de cartão de visita, o do escravo é um cartão-postal, onde o escravo é visto, não dá a ver”. Num, se tem a preservação da imagem de uma pessoa digna e singular, alguém que, ao encomendar uma fotografia, dá-se a conhecer, esparrama-se pelo papel como gostaria de ser visto, como se vê a si mesmo no espelho; no outro, um personagem pitoresco e genérico, continua a professora. “Em meu estudo, descobri que, apesar de ser levado ao estúdio do fotógrafo e posar, seja trabalhando, seja como pano de fundo de seu senhor, o escravo e o liberto ‘se davam a ver’, se ‘mostravam’ e que foram, talvez tanto quanto os brancos que posaram para suas fotos em estúdios particulares, os sujeitos daqueles retratos”, analisa Sandra. Para a pesquisadora, em quase todas as imagens há o olhar fixo na objetiva, direto para o fotógrafo, dando voz à imagem. “Muitos não se intimidavam diante da máquina esquisita e davam sua contribuição pessoal por meio da expressão, do olhar sofrido que nos encara e parece contar suas histórias. O luxo ou a encenação não mascaravam a condição do escravo ou do liberto. Se o corpo do escravo era uma propriedade, sua personalidade não era.”

“A fotografia é uma arte maravilhosa, uma arte que excita as mentes mais astutas. E uma arte que pode ser praticada por qualquer imbecil”, reclamou o grande retratista francês Nadar. Sorte da posteridade. Se demorou a ser descoberta (apenas em 1839), chegou rápido ao Brasil, no ano seguinte, trazida pelo abade Compte, aluno de Louis Daguerre, o inventor da fotografia. Antes do Rio, o francês teria passado pela Bahia, cujo pioneirismo está bem apresentado no recém-lançado A fotografia na Bahia, organizado por Aristides Alves, e que traz 215 imagens feitas, de meados do século XIX até 2006, por 107 profissionais baianos e estrangeiros. (Outra fonte excelente é O negro na fotografia brasileira do século XIX, da G. Ermakoff Casa Editorial, 306 págs., R$ 130.) Aliás, até a chegada da fotografia, o olhar oitocentista era um olhar estrangeiro, ligado à tradição de Franz Post, e, mais tarde, de franceses, alemães e suíços que pintaram o cotidiano da corte tropical, preferindo sempre o coté exótico de índios ou de negros em eterna alegria e andanças pelas ruas cariocas, como vemos em Debret e Rugendas. O daguerreótipo era caro e exiga poses demoradas de até 60 minutos.

Analfabetos – Em 1854, o francês André Disdéri criou um processo de retratos de tamanho pequeno (9,5 cm por 6 cm), elaborados sobre papel albuminado, que, baratos e de pose rápida, foram uma revolução num país de analfabetos de poucas posses que gostariam se ver imortalizados como os nobres donos das pinturas. O custo de uma dúzia desses cartes de visite, como eram chamados, era o mesmo de um único daguerreótipo e se podia oferecer como mimo para amigos e parentes, fazer álbuns familiares. “Era a democratização da auto-imagem para grupos sociais menos favorecidos. Com o carte de visite, a fotografia se tornaria uma técnica a serviço de todos, um objeto de desejo e status, uma mercadoria de troca”, lembra Sandra. Os jornais estavam repletos de anúncios de estúdios que disputavam sua clientela nos preços e na capacidade de “dar nobreza” ao retratado, seja pela sua técnica, seja pelos apetrechos que possuíam no salão e que enfeitavam o entorno do fotografado. “A fotografia dá ao negro pobre a oportunidade de se distanciar da realidade, de se projetar segundo uma imagem idealizada, fazer a sua representação. A necessidade de registrar uma ascensão social requer a assimilação dos códigos vigentes. Daí a repetição e a uniformização nas poses e acessórios nos retratos.”

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