Arquivo de 25 de Julho de 2008

Quem são estas mulheres?

Personagens de ‘Sex and the City’ surgem articuladas e livres. Mas se submetem a rituais de humilhação pré-feminista

Lúcia Guimarães*

O juiz Antonin Scalia, da Suprema Corte Americana, é um conservador escancarado, um juiz ideólogo, embora proteste contra a militância judiciária. “Get over it!” (“Superem isto!”), ele exclamou, impaciente, quando a repórter do 60 Minutes lhe perguntou recentemente se a decisão de dar a vitória a George Bush em 2000 foi política e não jurídica. O filme Recount, da HBO, que tem sido reprisado nas últimas semanas, reabriu para muitos a ferida da decisão histórica do caso Bush versus Gore que instalou George W. na Casa Banca. O filme inspirou uma recontagem das múltiplas conseqüências do voto da Suprema Corte por 5 a 4.

Guardo a edição amarelada de 25 de dezembro de 2000 da revista New Republic com a manchete em letras garrafais, sobre a fachada da Suprema Corte: “Desgraça”, título do ensaio assinado por Jeffrey Rosen, um dos maiores analistas de lei constitucional do país.

E o que tem em comum o retrocesso político americano e o quarteto de Sex and the City? Um encontro fortuito e furtivo na noite nova-iorquina. A adorável Sarah Jessica Parker acabara de gravar uma entrevista ao canal 13, da rede de TV pública, para promover o filme baseado na série que protagonizou e produziu. Parou no pátio externo para fumar quando, segundo uma testemunha relatou à revista New York, o sujeito corpulento saltou do carro Lincoln Town e aproximou-se da atriz minúscula. Despido da toga, mas munido de múltiplos argumentos, Antonin Scalia deitou sobre a perplexa Sarah Jessica seu arrazoado de loas a Sex and the City. Antes de dar ganho de causa à série e ao filme, o poderoso árbitro, insuspeito groupie e companheiro de caça de Dick Cheney, pediu para filar, não um autógrafo, mas um cigarro da atriz! Ela acatou imediatamente - e quem não faria o mesmo? - ao enfrentar o maquiavélico jurista que articulou a entrega do poder ao futuro responsável pela guerra no Iraque e assassino serial da língua inglesa? Se eu fosse Carrie Bradshaw, passaria a bolsa Vuitton e o relógio também.

Tenho me desviado da ira de mulheres que me insultam porque não coleciono episódios de Sex and the City em DVD e não convidei 12 amigas para ir ao cinema assistir ao filme do mesmo nome (duração: 148 minutos), nem fui tomar cosmopolitans com elas depois da sessão. Na semana de estréia nos Estados Unidos, Sex and the City derrubou Indiana Jones do topo da bilheteria. A série foi um fenômeno quando estreou em 1998. Trouxe uma linguagem inovadora e, pela primeira vez, conferiu narrativa a mulheres solteiras acima de 30 anos que tinham poder aquisitivo, educação e liberdade sexual. O que decidiram fazer com tudo isso é outro papo.

Jamais teria tido o mesmo impacto se fosse Sex and the City of Milwaukee. Acredito que haja intensa atividade sexual no Wisconsin. Mas os mojitos e cosmos lá, além de não custarem US$ 15, não são cercados da mesma energia nervosa nem pedidos pelo elenco de habitantes que continua a fazer de Nova York esta mistura de talento, ambição e, vamos ser francos, voracidade.

Sex and the City foi baseada nas explorações reais e às vezes autobiográficas que Candace Bushnell publicava no semanário socialite The New York Observer e transformou em livro. Ela hoje vive casada, em alguma tranqüilidade idílica fora de Nova York.

A engenhosa campanha de marketing que antecedeu o lançamento encontrou um exército de fãs ansiosas para reviver sua conexão com Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte. Uma profissional inglesa torrou sua poupança para viajar a Nova York e perdeu US$ 22 mil num embuste que lhe daria acesso à estréia no Radio City Music Hall e a ter contato com as atrizes nos bastidores.

Até 2004, quando Sex and the City exibiu seu último episódio inédito, tive que dar satisfações a amigas que se enroscavam com seus travesseiros para assistir aos episódios que, não é surpresa, continuam a ser reprisados. Depois de me divertir inicialmente com a audácia dos temas, hoje completamente superada por outras séries como The L Word (lésbicas com poder aquisitivo) e Mad Men (executivos com poder aquisitivo), passei a trocar de canal para mais escapismo na ficção. Não preciso me identificar literalmente com a governanta Jane Eyre para desfrutar das boas remontagens do clássico de Charlotte Brontë.

Mas quem são estas mulheres de Sex and the City? Certamente não as mulheres que conheci e conheço. Para começo de conversa, comprar sapatos de US$ 1 mil era coisa de perua alienada. Falávamos dos homens com desejo, insegurança, ressentimento e encanto, mas mulheres bem-educadas não confundiam liberação com a crassa descrição cirúrgica de cada encontro sexual. E tínhamos interesses demais para falar de homens sem parar. Conversávamos sobre o mundo ao largo e nos mobilizavam tanto o Oriente Médio quanto a próxima gravação do Caetano Veloso.

As mulheres de Sex and the City têm o poder de articular o mundo à sua volta, podem pagar seu aluguel e sua conta no restaurante, mas se submetem a rituais de humilhação pré-feminista. Suas aventuras, que terminam em rejeição erótica e afetiva, não deixam cicatrizes e essa falsificação da psicologia feminina velejou impune. Não era segredo nenhum, em Manhattan, que Samantha, a mais “liberada” das quatro, era inspirada no clichê de um gay nova-iorquino. Michael Patrick King, diretor do filme e redator da série, é gay. Os gays de fato na história tinham baixa auto-estima.

Disse bem o autor Lee Siegel, entrevistado nestas páginas em fevereiro: “Na América urbana, você não encontra um parceiro romântico tanto quanto herda o resultado dos crimes românticos de alguém. Algum dia, vão televisionar a verdadeira história do sexo e da cidade e vão chamá-la de Julgamento em Nuremberg.” (Ensaio incluído no livro Falling Upwards, de 2006).

O quarteto no filme faz concessões ou consegue o que quer (consumo e estabilidade). É o desfecho temporário para personagens que passaram dez anos oscilando entre a obsessão com o anel - a aceitação social trazida pelo casamento - e a promiscuidade sexual, dois extremos que não reconheço entre mulheres educadas e não psicóticas. Elas celebram a confusão entre o poder de compra com a compra de coisas para tapar o buraco existencial.

O preço de um par de Manolo Blahniks com salto stiletto ainda parece uma pechincha se comparado ao custo emocional da vida em Sex and the City.

*guimaraesml@gmail.com

“Estado de S. Paulo”

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Baruch Espinosa

Uma subversão filosófica: o homem e a liberdade

Marilena Chaui

I. MALEDICTUS

A 27 de julho de 1656, a assembléia dos anciãos que dirige a comunidade judaica de Amsterdã promulga um herem (excomunhão, em hebraico), excluindo e banindo Espinosa, que, nessa época, tem 24 anos.
Em 1670, aos 37 anos, Espinosa publica o Tratado Teológico-Político, impresso sem o nome do autor. A obra se destina à defesa da liberdade de pensamento e de expressão. A 19 de julho de 1674, trazendo o brasão e as armas de Guilherme de Orange III, os Estados Gerais da Holanda, sob orientação e exigência do Sínodo calvinista, promulgam um édito em que declaram o livro pernicioso, venenoso e abominável para a verdadeira religião e para a paz da república, proibindo sua impressão e divulgação.

Em 1678, um ano após a morte de Espinosa, um novo édito do governo da Holanda proíbe a divulgação do conjunto de sua obra, publicada postumamente por seus amigos.

Afinal, o que dissera o jovem Espinosa - em 1656 -, o que escrevera o filósofo - em 1670 - e o que deixara escrito - em 1678 -, para que fosse expulso da comunidade judaica e condenado pelas autoridades cristãs? Por que alguns leitores, seus contemporâneos, afirmam estar diante de “nova encarnação de Satã” e que seu nome, Benedictus em latim, deveria ser mudado para Maledictus?

A filosofia espinosana é a demolição do edifício filosófico-político erguido sobre o fundamento da transcendência de Deus, da Natureza e da Razão, voltando-se também contra o voluntarismo finalista que sustenta o imaginário da contingência nas ações divinas, naturais e humanas. A filosofia de Espinosa demonstra que a imagem de Deus, como intelecto e vontade livre, e a do homem, como animal racional e dotado de livre-arbítrio, agindo segundo fins, são imagens nascidas do desconhecimento das verdadeiras causas e ações de todas as coisas. Essas noções formam um sistema de crenças e de preconceitos gerado pelo medo e pela esperança, sentimentos que dão origem à superstição, alimentando-a com a religião e conservando-a com a teologia, de um lado, e o moralismo normativo dos filósofos, de outro.

II. DEUS, OU SEJA, A NATUREZA:
A FILOSOFIA DA IMANÊNCIA

A tradição teológica e metafísica ergueu-se sobre uma imagem de Deus, forjando a divindade como pessoa transcendente (isso é, separada do mundo), dotada de vontade onipotente e entendimento onisciente. Criadora de todas as coisas a partir do nada (confundindo Deus e a ação dos artífices e artesãos), legisladora e monarca do universo, que pode - à maneira de um príncipe que governa segundo seu arbítrio e capricho - suspender as leis naturais por atos extraordinários de sua vontade (os milagres). Essa imagem faz de Deus um super-homem, que cria e governa todos os seres de acordo com os desígnios ocultos de Sua vontade, a qual opera segundo fins inalcançáveis por nosso entendimento.

Incompreensível, Deus se apresenta com qualidades humanas: bom, justo, misericordioso, colérico, amoroso, vingador, que pune ou recompensa o homem, conforme este transgrida ou obedeça aos decretos divinos, pois é dotado de livre-arbítrio ou de livre vontade para escolher entre o bem e o mal.

Identificando liberdade e escolha voluntária e imaginando os objetos da escolha como contingentes (isto é, como podendo ser ou não ser, serem estes ou outros, serem como são ou serem de outra maneira), a tradição teológico-metafísica afirma que o mundo existe simplesmente porque Deus assim o quis ou porque Sua vontade assim decidiu e escolheu, e poderia não existir ou ser diferente do que é, se Deus assim houvesse escolhido.

Se o mundo é contingente, porque fruto de uma escolha contingente de Deus, então as leis da Natureza e as verdades (como as da matemática) são, em si mesmas, contingentes, só se tornando necessárias por um decreto de Deus que as conserva imutáveis. Assim, a necessidade (isso é, o que só pode ser exatamente tal como é, sendo impossível que seja diferente do que é) identifica-se com o ato divino de decretar leis, ou seja, a necessidade nada mais é senão a autoridade de Deus. Compreende-se, então, porque tradicionalmente liberdade e necessidade foram consideradas opostas e contrárias, pois a primeira é imaginada como escolha contingente de alternativas também contingentes e a segunda, como decreto de uma autoridade absoluta. Donde o mito do pecado original, quando o primeiro homem teria usado a liberdade (entendida como o poder de escolha) para desobedecer aos mandamentos ou leis de Deus. Com esse mito, ergue-se a imagem da liberdade humana como um poder para escolher o mal, porta aberta para nossa perdição. A um Deus autoritário corresponde um homem decaído e desobediente, por culpa da liberdade. Como, indaga Espinosa, foi possível tanta ignorância e superstição para transformar o que temos de mais precioso - a liberdade - em culpa, perversidade e perigo?

Essa imagem de Deus, demonstra Espinosa em sua obra magna, a Ética, não é senão a projeção antropomórfica de uma imagem do homem, confundindo propriedades humanas imaginárias com a essência divina. Porque os homens se imaginam dotados de vontade livre ou livre-arbítrio (imaginando que ser livre é poder escolher entre coisas ou situações opostas e agir segundo fins escolhidos pela vontade). Porque imaginam que o verdadeiro poder é aquele que se separa dos que a ele estão submetidos, dominando-os do alto e de fora. Porque imaginam a Natureza agindo segundo fins e para servi-los, os homens imaginam Deus como arquiteto que constrói o mundo e como príncipe que o governa. Se, portanto, quisermos alcançar o conhecimento verdadeiro da essência e da potência divinas, precisamos ultrapassar esse imaginário e, ultrapassando a imagem, chegar à idéia de Deus.

Espinosa parte de um conceito muito preciso, o de substância, isso é, de um ser que existe em si e por si mesmo, que pode ser concebido em si e por si mesmo e sem o qual nada existe nem pode ser concebido. Toda substância é substância por ser causa de si mesma (causa de sua essência, de sua existência e da inteligibilidade de ambas) e, ao causar-se a si mesma, causa a existência e a essência de todos os seres do universo. A substância é, pois, o absoluto ou uma realidade absolutamente complexa, constituída de infinitas qualidades infinitas, cada uma das quais é uma potência produtora ou agente que engendra por si mesma e de si mesma as múltiplas ordens de realidade que formam o universo. A substância é a potência causal ou produtiva absolutamente infinita de auto-produção e de produção de todas as coisas. É o que chamamos de Deus.

Ao causar-se a si mesmo, fazendo existir sua própria essência, Deus faz existir todas coisas singulares que O exprimem, porque são efeitos de Sua potência infinita. Em outras palavras, a potência produtora infinita é imanente aos seres produzidos, a causa é imanente ao efeito, porque se exprime nele e ele a exprime. Deus não é uma causa transcendente, separada dos seres singulares, mas é imanente a eles, pois eles são modos ou expressões do ser absoluto. À substância e suas infinitas qualidades infinitas, enquanto atividade infinita que produz a totalidade do real, Espinosa dá o nome de Natureza Naturante. O conjunto de todos os modos produzidos pela substância Espinosa designa com o nome de Natureza Naturada. A totalidade constituída pela Natureza Naturante e pela Natureza Naturada é Deus. Donde a célebre expressão espinosana: Deus sive Natura. Deus, ou seja, a Natureza.

Das infinitas qualidades ou potências produtivas da substância, conhecemos duas: o Pensamento e a Extensão. A atividade da potência do Pensamento produz idéias; a da Extensão, corpos. Idéias e corpos são modos finitos imanentes à substância infinitamente infinita, exprimindo-a de maneira determinada, segundo a ordem necessária que rege as relações entre todos os seres do universo. Os seres humanos, constituídos pela união de um corpo e uma mente (ou uma idéia), são modos finitos de Deus ou partes da natureza infinita de Deus.

Marilena Chaui
é filósofa e professora livre-docente da Universidade de São Paulo (USP)

“CULT”

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Inocentado após passar 12 anos na prisão

As acusações referentes a um caso de estupro ocorrido em 1996 foram retiradas devido a novos resultados de exames de DNA.

George Hunter e Edward L. Cardenas

Três dias atrás, Nathaniel Hatchett tinha medo de ter esperança.

Embora houvesse uma chance de ele ser inocentado após passar 12 anos na prisão por um estupro que não cometeu, ele disse, em uma sala de visita na penitenciária: “Estou tirando a esperança da minha cabeça”.

Mas na segunda-feira (14), os promotores do condado de Macomb decidiram inesperadamente retirar as acusações contra Hatchett devido a provas baseadas em DNA que demonstram que não foi ele o estuprador - e Hatchett tornou-se um homem livre pela primeira vez desde que tinha 17 anos de idade.

Hatchett deixou a sala do tribunal às 12h37, com roupas normais e abraçado a familiares. Usando camisa e calça marrons, ele abraçou a mãe e a avó enquanto os mais de 20 parentes aplaudiam, saudavam-no e cantavam a música “Celebration” da banda Kool and the Gang.

“Estou feliz por estar livre”, declarou Hatchett ao deixar o prédio do tribunal do condado de Macomb. Ele acrescentou que achava que a sua chance de ser solto era de “uma em um milhão”.

Porém, para a família da vítima a decisão de retirar as acusações contra Hatchett reabriu velhas feridas - e também fez surgir a possibilidade de que o verdadeiro estuprador ainda esteja solto.

“Se Hatchett realmente é inocente, sinto muito por ele ter passado tanto tempo na prisão por algo que não fez”, afirmou o irmão mais velho da vítima, Mark Matuszczyk. “Mas isso significa que a minha irmã terá que passar por toda essa história novamente. Ou este cara (Hatchett) cometeu o crime e conseguiu se safar, ou a pessoa que estuprou a minha irmã ainda está andando pelas ruas; isso se não estiver morto”.

Hatchett, 29, foi condenado em 1996, por roubo de carro com uso de violência, e pelo seqüestro e o estupro de uma moça de 22 anos do condado de Macomb. Hatchett foi solto na segunda-feira depois que o promotor Robert Merrelli retirou todas as acusações contra ele.

O promotor que participou do caso original, Eric Kaiser, não mora mais no condado de Macomb. Na segunda-feira, Kaiser não foi localizado para comentar o fato, mas há duas semanas ele declarou ao “The Detroit News” que acha que lidou com o caso da maneira apropriada.

Os advogados do Projeto Inocência da Faculdade de Direito Cooley, em Lansing, buscavam um novo julgamento para Hatchett, que cumpria uma pena de 25 a 40 anos de prisão na Penitenciária Saint Louis, no condado de Gratiot, devido ao estupro que foi cometido em 11 de novembro de 1996.

Durante uma visita feita por um repórter do “The Detroit News” à prisão, no último sábado, Hatchett afirmou que temia ter esperança de que pudesse ser inocentado.

“Estou tentando não pensar sobre isso”, disse ele na sala de visita da prisão, falando com um tom de voz suave e cauteloso. “Não quero ficar desapontado, de forma que estou tirando essa idéia da minha cabeça”.

O estupro ocorreu quando a vítima deixava o trabalho em uma loja Super Kmart em Sterling Heights. Um homem encapuzado aproximou-se por trás, no pátio de estacionamento da loja, quando ela estava entrando no carro. Ele disse que estava armado, e ordenou que ela entrasse no seu Dodge Spirit 1990.

O suspeito assumiu a direção do carro e dirigiu até uma rua escura, onde, segundo os relatórios da polícia, estuprou a mulher. A vítima disse aos investigadores que depois disso o estuprador a deixou no acostamento de uma estrada próxima à Interstate 696. Ela correu até uma lanchonete de donuts e telefonou para a polícia.

Hatchett, que cresceu na zona leste de Detroit, foi preso pela Força Tarefa de Combate a Roubos de Carro da Polícia de Detroit quatro dias depois, quando dirigia o carro da vítima. Quatro passageiros estavam com ele no automóvel.

“Eu roubei o carro. Admito isto”, disse Hatchett ao “The Detroit News” durante a entrevista na prisão. “Foi uma coisa estúpida que fiz. O carro estava estacionado perto da minha casa havia dois dias, e achei que seria legal roubar um automóvel”. Antes de ser preso, Hatchett não tinha antecedentes criminais.

Depois que investigadores de Detroit prenderam Hatchett, eles ligaram para a polícia de Sterling Heights, que recolheu o suspeito, levou-o para o condado de Macomb e interrogou-o. Após sete horas de interrogatório, Hatchett confessou o estupro - mas, de acordo com a co-diretora do Projeto Inocência, Donna McKneelen, havia inconsistências entre a história dele e aquilo que a vítima contou à polícia.

“Hatchett forneceu à polícia a data errada do crime, e disse ainda que houve uma luta, embora a vítima tivesse afirmado que não houve luta alguma”. Houve também discrepâncias entre os atos sexuais descritos pela vítima e por Hatchett, segundo McKneelen.

Hatchett afirmou ter sido enganado pela polícia no sentido de confessar. “Foi pura artimanha”, disse ele. “Eles não paravam de me dizer o que eu deveria declarar, e fiquei confuso. Eu lhes disse que não estuprei ninguém, mas eles não me escutaram. Eu tinha 17 anos de idade, estava assustado, e não sabia o que pensar. Comecei a ficar cansado, e acabei dizendo-lhes o que eles queriam ouvir”.

Mas a polícia de Sterling Heights se defende. “Fizemos uma investigação sólida”, disse o porta-voz do departamento, o tenente Michael Reese. “Apresentamos o caso aos promotores. O caso era suficientemente embasado para que eles o levassem adiante. Depois disso, a questão saiu da nossa alçada”.

A polícia encontrou fluidos corporais no carro e na roupa da vítima. O exame de DNA feito com um kit para identificação de estupradores à época do julgamento demonstrou que os fluidos não pertenciam a Hatchett. Mas os promotores mantiveram o caso, alegando que o fato de Hatchett ter sido excluído pelo exame era insignificante, já que o material biológico encontrado poderia ter vindo do marido da vítima.

No entanto, um exame avançado de DNA realizado durante o julgamento pelo Laboratório Judicial da Polícia do Estado de Michigan, em Lansing, confirmou que o DNA também não pertencia ao marido da vítima. Mas, segundo McKneelen, essa informação não foi revelada durante o julgamento.

Antes do julgamento, Hatchett não foi colocado em um grupo para identificação, e não foi identificado pela vítima até o julgamento, disse McKneelen.

“A minha advogada não fez o trabalho dela”, criticou Hatchett, referindo-se à advogada Jacqueline Theisz, que não foi localizada na segunda-feira para tecer comentários. Uma secretária do escritório de advocacia de Theisz disse que ela nunca trabalhou no caso de Hatchett.

Na segunda-feira, o advogado civil de Hatchett, Chris Kokkinakos, estava na sala de tribunal do condado de Macomb. Ele disse que entrará com uma ação na justiça federal em nome de Hatchett dentro de uma semana.

“A acusação sonegou provas de DNA”, disse Kokkinakos. “Isso custou a Hatchett 12 anos da sua vida. Quanto vale 12 anos de vida?”.

Hatchett disse ter ouvido falar sobre o Projeto Inocência quando a organização foi mencionada durante um programa na TV judicial quando ele estava na prisão, e que fez contato com a instituição a respeito do seu caso.

“Eles são os melhores naquilo que fazem”, afirmou ele. “Eu sou-lhes grato; é bom saber que alguém luta por você”.

O Projeto Inocência realizou cerca de 3.700 investigações e inocentou Kenneth Wyniemko e Eddie Joe Lloyd depois que exames de DNA feitos após a condenação provaram que eles não cometeram os crimes pelos quais foram condenados.

“É duro ficar trancafiado por algo que você sabe que não fez”, disse Hatchett durante a visita que recebeu na prisão no sábado. “Aqui a gente simplesmente tenta sobreviver. Se a pessoa cuida da sua vida, não há problemas”.

Quando perguntaram a Hatchett se ele tinha raiva de alguém devido àquilo pelo qual passou, ele respondeu rapidamente.

“Tenho raiva de mim”, disse ele. “É verdade que fui injustiçado, mas também fiz besteira quando roubei aquele carro”.

“The NYT News Service”

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Desiludido, Israel discute como celebrar o 60º aniversário da fundação do Estado

Isabel Kershner

Quando o governo de Israel destinou cerca de US$ 28 milhões para a comemoração do 60º aniversário da fundação do Estado, ele provavelmente esperava que seus cidadãos rebeldes deixariam de lado seus problemas e seu uniriam em uma demonstração de orgulho nacional.

Em vez disso, um mês antes do Dia da Independência, os israelenses estão discutindo sobre quão extravagantemente o país deve comemorar e a que custo.

Muitos reconhecem os feitos notáveis do Estado, apontando para a absorção dos imigrantes, o boom de alta tecnologia e a própria sobrevivência de Israel contra chances desfavoráveis.

Mas a década parece estar chegando ao fim com um sentimento nebuloso não característico, com mais e mais israelenses manifestando uma profunda desilusão com sua liderança e a forma como o país é conduzido.

“Nosso protesto é contra a problemática ordem de prioridades do governo”, disse Ron Avni, líder de uma campanha contra comemorações excessivas. “Eles primeiro precisam encontrar o orçamento para todas as coisas que o país precisa.”

No final de janeiro, Avni, um especialista em terremotos e superintendente fiscal de universidade, lançou uma petição online juntamente com outro acadêmico proeminente pedindo que os gastos públicos no 60º aniversário se limitassem aos das comemorações em um ano normal. Eles argumentavam que o dinheiro não deveria ser desperdiçado em “festividades cuja principal finalidade é propiciar um palco para os políticos”.

Inicialmente eles visavam 10 mil assinaturas; no início deste mês, mais de 90 mil israelenses já tinham assinado.

Pesquisas de opinião recentes apóiam a idéia de que a maioria dos israelenses prefere uma celebração mais modesta, com o dinheiro adicional gasto em áreas como educação e saúde.

Ciente do sentimento popular, quando a equipe do 60º aniversário apresentou suas propostas no domingo, ela disse que pelo menos 35% da verba seria gasta em projetos educacionais, de infra-estrutura e memoriais.

Os planos incluem a criação de 60 áreas de piquenique com acesso para deficientes, a conclusão de uma trilha ao redor do Mar da Galiléia e a inauguração de uma ciclovia trans-Israel. Os alunos das escolas caminharão até Jerusalém seguindo os passos dos combatentes de 1948, e 60 memoriais da guerra serão construídos por todo o país e serão adotados e mantidos pelos jovens locais.

As festividades de fato, de 7 a 9 de maio, que usarão cerca de 20% da verba, deverão incluir um show de sons e luzes de vasta proporção a ser realizado simultaneamente em oito locais, de Tiberias, no norte, a Eilat, no sul; festas de praia gratuitas; e uma exibição aérea e naval maior do que a habitual.

De certa forma, o 60º aniversário, cujo tema oficial é “Fortalecendo as Crianças de Israel”, ocorre em um momento desafortunado. Um relatório de fevereiro do Instituto Nacional de Seguridade Social indicou que uma em cada três crianças israelenses trabalha, com algumas delas ainda assim continuando pobres. O ano letivo começou com os professores colegiais em greve por dois meses por causa dos baixos salários e más condições das salas de aula. Para aumentar a aversão nacional, casos extremos de abuso de crianças recentemente foram destaque nos noticiários.

Os israelenses falam de uma sensação arrepiante de desmoralização. A guerra de 2006 no Líbano foi amplamente considerada um fracasso e, por sete anos, Israel, com todo seu poderio militar, foi incapaz de impedir que os foguetes rudimentares feitos em Gaza atingissem a cidade de Sderot.

Os críticos do movimento de austeridade o acusam de populismo, derrotismo e demagogia.

“Nós enlouquecemos?”, escreveu um jornalista, Sever Plocker, questionando a campanha antifestividade no “Yediot Aharonot”, o popular jornal hebraico. “O que há de errado com nossa mente coletiva? O Estado de Israel está prestes a comemorar 60 anos de independência em um clima de amargura, depressão e relutância pública em ‘desperdiçar dinheiro em comemorações’.”

Shalom Kital, outro jornalista israelense veterano e membro do comitê consultivo do governo para os eventos do 60º aniversário, comparou o país a um homem que teve um ano ruim. “Quando chega seu aniversário, ainda assim a família se reúne para celebrar”, ele disse em uma entrevista. “A solução não é se enfiar em um bunker e chorar.”

Ambos os lados concordam que realmente não se trata do dinheiro. A verba de US$ 28 milhões representa uma fração minúscula do orçamento anual do governo e faria muito pouco para consertar os males sociais do país. As autoridades também notaram que a soma é bem menor do que os quase US$ 70 milhões gastos no 50º aniversário em 1998 e enfatizaram que grande parte do dinheiro não será gasto em fogos, mas em projetos educativos e de infra-estrutura que terão um efeito mais duradouro.

Mesmo assim, os sentimentos ambíguos da população refletem um amplo desprezo pelo governo e uma profunda desconfiança em relação aos políticos. Uma pesquisa publicada no final de março no jornal hebreu “Maariv” perguntava qual dos cinco candidatos potenciais, incluindo líderes do governo e da oposição, era o mais adequado para o cargo de primeiro-ministro. A maioria dos entrevistados, quase 31%, optou por “nenhum dos citados acima”. (Não foi fornecido o tamanho da amostragem e nem a margem de erro.)

Sucessivos governos israelenses foram amplamente criticados por “ziguezaguearem”, carecerem de uma agenda clara e de uma estratégia a longo prazo. Por causa da instabilidade crônica das coalizões de governo, os ministros freqüentemente não permanecem tempo suficiente em seus cargos para realizarem um projeto até o fim.

As comemorações do 60º aniversário são um exemplo. A verba especial foi aprovada há dois anos, mas foi apenas no domingo que Ruhama Avraham Balila, a ministra encarregada dos eventos do aniversário, revelou os detalhes do plano, deixando a maioria dos israelenses se perguntando por meses como o dinheiro seria gasto.

Avraham Balila insistiu em uma coletiva de imprensa que ela e uma pequena equipe de quatro pessoas estavam trabalhando em um ritmo “vertiginoso”. O problema, ela disse, foi o fato dela ter sido nomeada para o cargo apenas em agosto passado. Um predecessor deixou o governo em protesto após a guerra no Líbano, e outro trocou de cargo em uma reforma ministerial. Aparentemente, nada tinha sido feito.

“Nós tivemos que começar do zero”, disse Ilan Marciano, um porta-voz de Avraham Balila.

Após a apresentação dos planos, a petição de Avni continuou crescendo, em cerca de 1.000 assinaturas por dia. Um comentarista de rádio se queixou que os muitos projetos devem de qualquer forma se enquadrar dentro dos orçamentos normais dos ministérios do governo. Outros israelenses permaneceram céticos sobre quem se beneficiaria com eles.

“Eu estou relativamente certo de que a verba imensa não vai resultar em nada de bom”, disse Cindy Shulkin, uma assistente social de Jerusalém cuja filha Liron, 15 anos, dançará no principal evento de abertura do Dia da Independência. “Apesar de que acho que há um valor em celebrar. As pessoas se tornaram cínicas demais.”

“The New York Times”

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Da Abertura dos Portos ao Tratado de 1810 (parte II)

Educaterra

Em apenas dois anos, de 1808 a 1810, o Príncipe Regente da Coroa dos Bragança foi constrangido pelos britânicos e alguns brasileiros a desmontar o Pacto Colonial. Acerto que desde 1500 amarrava o Brasil a Portugal. Com apenas um par de autógrafos a velha política mercantilista mantida por Lisboa,vigente desde os tempos de D.Manuel o Venturoso, foi-se abaixo, abrindo caminho para a gradativa emancipação econômica da maior colônia lusitana nos trópicos.

Os artefatos feitos em Manchester ou Liverpool até então represados pelo Bloqueio de Napoleão, afluíram em massa para os portos do Brasil. Os armazéns e depósitos espalhados pelos cais de Salvador e do Rio de Janeiro ficaram repletos de bens de consumo como das coisas mais estranhas possíveis (vieram até patins para gelo e sobretudos de lã).

O excesso disso tornou letra morta o alvará real de 1º de abril de 1808 que legalizava a implantação de fábricas no Brasil. Qualquer coisa que saísse de uma oficina brasileira seria esmagada pela presença ostensiva do seu equivalente inglês.(*)

Um pouco antes, D.João – um tanto como se fora um marquês do Pombal redivivo - não se furtara em animar os inventos e as artes mecânicas, estimulando-as por um outro alvará, datado de 28 de abril de 1809, que isentava certas matérias primas necessárias à composição de manufaturas, como por igual abstinha-se de exigir impostos por aquilo que por elas era exportado, além de outorgas de privilégios exclusivos aos inventores de novas máquinas.

Chegou até a autorizar uma loteria especial para angariar amparo às fabricas que precisassem de auxilio extra. Tudo aquilo enfim que desse ânimo ao espírito de um capitalista ou de um empreendedor.

E isso seria feito, segundo Silva Lisboa, o visconde do Cairu, o maior mentor intelectual da política econômica do trono, sem prejudicar a vocação básica da colônia que era a agricultura (centrada basicamente na exportação do açúcar, tabaco, algodão e café). O crescimento da lavoura deste último, do café, ao longo do século XIX, veio acentuar ainda mais o desdém pelas possibilidades da indústria local.

Todavia, foi inegável o impacto positivo da Abertura dos Portos e dos Tratados de 1810 na economia colonial, não apenas por rebaixar o custo de vida, mas por dinamizar uma sociedade que se via estagnada desde a acentuada queda do vigor extrativo das Minas Gerais e dos efeitos negativos do Bloqueio Continental. A relação da chegada de barcos na baia da Guanabara entre 1805 e 1810 claramente mostra a evidência disto:

Ano - nº de embarcações

1805 - 810

1806 - 642

1807 - 777

1808 - 765

1810 - 1.214

Fonte: Oliveira Lima – D.João VI no Brasil. Cap. IX: Relações comerciais do Brasil. Os tratados de 1810
(*) Para os historiadores nacionalistas a Abertura dos Portos e o Tratado de 1810 impediram a formação de um embrião fabril no Brasil, visto que era impossível competir com o produto inglês, melhor e mais barato. Somente uma política protecionista poderia ambicionar sucesso. Todavia, outros apontam que a existência do eito era um empecilho maior visto que os escravos não faziam parte do consumo, não compondo renda interna suficiente para a absorção do produzido.Era uma ironia constatar que o maior mercado escravista do mundo ocidental estava longe formar um mercado consumidor razoável.

É importante por igual considerar a pouca disposição dos portugueses e dos reinóis que aqui estavam estabelecidos para os trabalhos técnicos e mecânicos. Habilidade em que os ingleses então eram imbatíveis (ver Nícia Vilela Luz - “A Luta pela Industrialização no Brasil” . Editora Alfa-Omega, 1975).

Da Liberdade Econômica

Com o Brasil sucedeu pois um fato curioso. Enquanto a maioria dos Movimentos de Independência da América Espanhola teve que antes conquistar sua liberdade política para depois alcançar sua liberdade econômica, no Brasil se deu ao revés.

A Abertura dos Portos e os Tratados de 1810 assinados por D.João tornaram irreversíveis as conquistas econômicas, fazendo do Brasil o “mercado mais livre do mundo”, permitindo grande autonomia local, deste modo, quando D.Pedro I declarou-se pela independência em 1822, o país de fato já não estava mais atrelado a Portugal. Em nada mais dependia do antigo reino.

Bibliografia

Lima, Oliveira – D.João VI no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006.

Luz, Nícia Vilela - “A Luta pela Industrialização no Brasil . São Paulo”, São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1975.

Simonsen – História Econômica do Brasil.São Paulo: Editora Nacional

Vicente, Antônio Pedro – Política exterior de D.João VI no Brasil, in Estudos Avançados vol.7 no.19 São Paulo Dec. 1993

“Educaterra”

Comentários

Da Abertura dos Portos ao Tratado de 1810

Educaterra

Em apenas dois anos, de 1808 a 1810, o Príncipe Regente da Coroa dos Bragança foi constrangido pelos britânicos e alguns brasileiros a desmontar o Pacto Colonial. Acerto que desde 1500 amarrava o Brasil a Portugal. Com apenas um par de autógrafos a velha política mercantilista mantida por Lisboa,vigente desde os tempos de D.Manuel o Venturoso, foi-se abaixo, abrindo caminho para a gradativa emancipação econômica da maior colônia lusitana nos trópicos.

Strangford em ação

Como representante da Sua Majestade Britânica junto à Corte portuguesa no exílio, lorde Strangford agiu por dois anos como se fora um buldogue mordendo a presa. Não havia maneira dele arrefecer no seu intento de arrancar do Príncipe Regente, refugiado no Rio de Janeiro, um tratado que cedesse privilégios de exclusividade ao comércio inglês.

Mal D.João desembarcara na baia da Guanabara e o assedio começou. Depois de descansar em Salvador na Bahia por um mês, eis que sua alteza vindo de uma exaustiva viagem, adentrou na sede do vice-reino do Brasil no dia 7 de março de 1808.

A bordo da nau “Príncipe Real” espremiam-se mais de mil pessoas (104 passageiros e 950 tripulantes) que, em seguida ao desembarque, trataram de se acomodar nas residências previamente selecionadas para acolhe-los.

Recebeu-os o jovem vice-rei, o conde dos Arcos que transladou o príncipe até a rampa do Paço numa galeota de vinte remos, pintada de ouro e de vermelho, protegendo-o do sol forte com um dossel púrpura. Em terra um meio-mundo de fidalgos, magistrados, militares e padres, se perfilava a espera do soberano alinhados e protegidos por um mar de baionetas.

Deu-se então a época do P.R., do “ponha-se na rua” como os cariocas denominaram a perda das suas residências para os fidalgos do além-mar. Foi quase um dilúvio humano que se abateu sobre eles, pois a comitiva era imensa, entre 10 a 15 mil pessoas que arribavam numa cidade que na ocasião mal tinha 60 mil habitantes (a metade deles escrava).(*)

O primeiro ato econômico significativo do príncipe recém-chegado ao Brasil ocorrera semanas antes na Bahia, quando atendendo a demanda direta dos comerciantes locais, levados a presença dele pelo conde da Ponte, e cumprindo com os favores devidos aos britânicos, abrira os portos no dia 28 de janeiro de 1808 às “nações amigas” (basicamente à Grã-Bretanha). Era o tiro de misericórdia disparado pelo próprio Magistrado Maior de Portugal contra uma prática comercial que rendia ao mercador metropolitano lucros ao redor de 150% (Lisboa ficava com 250 libras e cada 100 enviadas para o exterior).

(*) Verificações feitas posteriormente indicaram que o número dos recém chegados era infinitamente menor, calculando-os ao redor de 600 ou 650 fidalgos e funcionários.

Tirar o comércio colonial do aperto

O comércio colonial estava estrangulado. A queda de Lisboa nas mãos de Junot foi o ápice das dificuldades que haviam começado um ano antes com o Bloqueio Continental assinado por Napoleão em Berlim em 21 de novembro de 1806. A clausura era total. Barcos vindos do Brasil não podiam ancorar em nenhum porto europeu, senão que os controlados pelos ingleses . Até o sempre intenso tráfico de escravos com a África viu-se afetado. A salvação dos mercadores da colônia estava pois nas mãos do Príncipe Regente. E ele não os frustrou.

O passo seguinte dado por D.João na sua crescente adesão à política liberal, isso já no Rio de Janeiro, foi a revogação no dia 1º de abril de 1808 do alvará de 5 de janeiro de 1785, assinado por sua mãe, D.Maria I, que proibia a existência de manufaturas no Brasil.(*)

(*) Diga-se que o objetivo de tal medida antimanufatureira não se devia a nenhum preconceito contra a atividade fabril em si, mas sim correspondia a lógica da exploração colonialista. O alvará quanto a isso foi muito claro, determinando que os poucos braços que a colônia dispunha deviam ser concentrados na lavoura, no garimpo e na lavras, e não nas atividades industriais. “Porque – como explicitava o alvará -” havendo uma grande, e conhecida, falta de população, é evidente que, quanto mais se multiplicar o número dos fabricantes, mais diminuirá o dos cultivadores; e menos braços haverá que se possam empregar no descobrimento, e rompimento de uma grande parte daqueles extensos domínios que ainda se acha inculta, e desconhecida.” Talvez, como reação a isso, era projeto dos Inconfidentes de 1789, promoverem a indústria no Brasil a ser libertado por eles.

Os Tratados de 1810

Denominado oficialmente de “Treaty of Cooperation and Friendship”, Tratado de Cooperação e Amizade, de 1810 , assinado pelo conde de Linhares e pelo lorde Strangford, eram compostos por dois acertos: um de aliança e amizade (com 11 artigos e 2 decretos) e o outro de comércio e navegação (com 34 artigos). Passaram como exemplo clássico de uma imposição leonina, e de certo modo como o ápice de uma relação de dependência que Portugal mantinha com a Inglaterra desde que pela Revolta do Porto se emancipara da Espanha em 1640. Fato que se acentuara ainda mais com o Tratado de Methuen, de 1703, o famoso acordo da troca de panos (ingleses) por vinhos (portugueses).

Simultaneamente a isso, o Tratado de 1810 marcou uma retumbante vitória das forças do Liberalismo econômico sobre o Mercantilismo declinante ao tempo em que assinalava a magnitude do poder da Coroa Britânica, senhora de boa parte do mundo, frente a um trono português, fragilíssimo, que praticamente passou a viver de favores.

Um dos exemplos mais gritantes da mercê ofertada era o fato de que as mercadorias vindas de Londres ou de qualquer outro porto britânico somente serem taxadas em 15%, enquanto as que eram embarcadas de locais portugueses tinham que pagar 16% de imposto alfandegário e os outros países ao redor de 24%.

Na prática, a Grã-Bretanha, apesar das suas declarações altissonantes pró livre-cambismo, exerceu por um bom tempo um autentico monopólio comercial sobre o Império Português.

Além disso, no terreno das relações humanas, enquanto os súditos britânicos tinham direito à extraterritorialidade, sendo julgados no Brasil e nas demais possessões portuguesas pelo Tribunal do Almirantado, composto por magistrados ingleses, o mesmo não se aplicava aos portugueses que se encontravam em terras inglesas. Estes, se envolvidos em litígios, deviam confiar na “magnanimidade da justiça britânica.”

“Educaterra”

Comentários

No Líbano, guerra faz florescer plantações de maconha

Patrice Claude

Por mais frágil que ela possa parecer, a paz civil que voltou a reinar entre as diferentes facções no Líbano “de maneira alguma” constitui um bom negócio para Ali Hassan. “Se o exército não estiver ocupado em manter a ordem nas diferentes regiões do país”, desola-se o agricultor, “na certa ele retornará ao vale para destruir as nossas colheitas”. Com as suas mãos poderosas e a sua simpática cara redonda de camponês, rachada pelo sol, Ali Hassan, que é proprietário de várias dezenas de hectares de boas terras férteis situadas aos pés do Monte Líbano, cultiva tomates, cevada e batatas. Para estas culturas em particular, é claro que não há nada a temer por parte dos soldados.

A preocupação de Ali diz respeito ao pequeno campo de um hectare de maconha que ele plantou em março e que está começando, diante dos nossos olhos, a dar lindas folhinhas finas e dentadas.

A plantação se diferencia das demais, com milhares de mudas de cânhamo indiano, meticulosamente alinhadas em fileiras regulares, a 30 cm de distância umas das outras e que já alcançam 25 cm de altura neste final de maio. É a partir dessas mudas que será obtida a maconha -com as suas folhas e flores- e ainda, após processamento das folhas e da resina, o haxixe que é maciçamente consumido tanto no Líbano quanto no Ocidente. Se o exército não tiver intervindo para erradicar tudo isso por meio de possantes buldôzeres, “o que ele costuma fazer geralmente em julho”, as mudas alcançarão cerca de 2 m de altura e estarão maduras para a colheita em meados de agosto.

Com idade de 44 anos, pai de oito filhos, Ali Hassan, não é exatamente um homem muito rico. Assim como muitos dos seus amigos camponeses nos arredores, ele é não passa de um mero amador no que diz respeito a este tipo de cultura. Um hectare por aqui, um outro por ali. A empreitada nada tem de industrial.

“No ano passado”, diz, “eu colhi o suficiente para produzir 15 kg de ‘H’ [haxixe]. A US$ 700 (cerca de R$ 1.140) o quilo vendido, isso me rendeu mais dinheiro do que todos os meus hectares de batatas. Além disso, esta cultura exigiu menos água, nenhum fertilizante e menos mão-de-obra…”

Ao longe, pouco antes da cortina de choupas que beiram os campos, avista-se uma dezena de mulheres que trajam roupas e véus coloridos. Às gargalhadas, elas estão subindo e disputando espaços numa charrete puxada por um trator. “Elas são sírias”, explica Ali. “Elas aparecem a cada temporada para serem contratadas como diaristas e trabalharem em nossas culturas; depois, elas retornam para casa”. Em princípio, elas se dedicam apenas às culturas legais.

A quando remonta a cultura de Cannabis sativa (maconha) no grande vale da Bekaa? “Nós não temos a menor idéia”, diz Issam Abou Maryam. “A milhares de anos, provavelmente. Os fenícios já era consumidores há três mil anos”. Com a sua calça jeans de grife e sua camisa de linho, Issam, por sua vez, é um “profissional” que cultiva seus “contatos e seus compradores” no exterior. Ele conta também ter “amigos” nas altas esferas do poder, além de várias dezenas de homens armados, pistoleiros remunerados da sua tribo, encarregados de proteger suas culturas.

“Este ano”, nos diz Issam, afundado com um copo de uísque na mão numa confortável poltrona de couro em seu imenso salão de recepção em Baalbek, “eu nada plantei. Primeiro, porque eu pensava que um acordo político poderia ser celebrado sem demora entre os partidos corruptos de Beirute, o que acarretaria o risco de “liberar” os soldados para… outras tarefas. Em segundo lugar, porque o custo do óleo combustível necessário para que as nossas bombas de água possam irrigar os campos a cada quinze dias, mais ou menos, foi multiplicado por dez. Por fim, porque as duas colheitas de 2007 foram de tal forma abundantes que os preços desmoronaram. Ainda restam-me alguns quintais para escoar, mas, a US$ 400 (R$ 650) o quilo, eu me recuso a vender. Prefiro aguardar até que as cotações voltem a subir”.

Durante a guerra civil que arrasou o Líbano entre 1975 e 1990, a indústria libanesa do haxixe e do ópio prosperou. Ela se espalhava por cerca de um terço das superfícies aráveis da Bekaa -uma região que corresponde a um quarto da superfície total do país, e onde vivem cerca de 250.000 habitantes-, e representava um volume de transações de cerca de US$ 500 milhões (mais de R$ 810 milhões) por ano, segundo as Nações Unidas. Os lucros, para os camponeses da região, giravam em torno de US$ 80 milhões (R$ 130 milhões) por ano. Cerca de 25.000 famílias dependiam diretamente das colheitas de maconha para viver.

“Nós estávamos prósperos, naquela época”, se recorda Ali Hassan. “Eu tinha dois carros. Agora, só me restou aquela velha caminhonete japonesa detonada que vocês estão vendo ali”.

Inicialmente, as promessas de ajuda financeira feitas pelo Estado numa região que figura, junto com o sul do Líbano, entre as mais pobres do país, além dos programas de substituição que foram implantados a partir de 1991 pelas Nações Unidas com o objetivo de dissuadir a cultura do “H”, obtiveram certo sucesso.

Em 1994, perseguidos pelos soldados da Síria que ocupavam então o país, e cujo governo buscava conquistar uma boa imagem e favores do Ocidente, queimando as plantações de maconha e de ópio, os camponeses, dos quais muitos foram presos e encarcerados, cessaram as suas atividades ilegais. Durante dez anos, mais ou menos, apenas os mais temerários ainda ousaram plantar pequenas superfícies nas alturas de difícil acesso do maciço montanhoso do Monte Líbano. É precisamente nestas áreas que se encontram atualmente as culturas de papoula, a planta da qual é extraída a heroína, desta vez uma droga “dura”. A amplidão da produção local de papoula em nada se compara com as quantidades fenomenais produzidas no Afeganistão, mas ela é tanto mais lucrativa que certos laboratórios de transformação clandestinos foram implantados localmente.

Além disso, as promessas de ajuda financeira aos pequenos agricultores não demoraram a evaporar. O programa da ONU foi encerrado em 1999, e o exército sírio deixou o país em 2005. Só que as culturas clandestinas haviam sido retomadas bem antes da retirada deste último. Em maio de 2005, cerca de 4 toneladas de haxixe foram apreendidas em todo o vale da Bekaa.

“De nada adiantou”, recorda-se Issam, “pois naquele ano, o preço do quilo alcançou US$ 1.200 [cerca de R$ 1.950 em valores atuais]. Ou seja, praticamente três vezes mais de que uma superfície equivalente de batatas que, por sua vez, precisam de adubos e de pesticidas que custam caro. Eu voltei a plantar em 2006, mas, logo após a guerra de julho entre Israel e o Hizbollah, o exército libanês voltou com tudo. Os soldados destruíram a totalidade dos meus 2.000 dunames de plantações [um dunam equivale a 916 m2]. Acabei não indo para a prisão porque paguei um ‘bakchich’ [propina] de US$ 5.000 [R$ 8.130] para a pessoa certa. Mas eu perdi os US$ 32.000 [cerca de R$ 52.000] que eu havia investido nas sementes, na água e na mão-de-obra”.

Teoricamente, os plantadores, da mesma forma que os traficantes locais que compram as colheitas, arriscam serem condenados a penas de cinco anos de prisão, além de pesadas multas. Os mais poderosos e aqueles que estão mais bem organizados sempre conseguem dar um jeitinho para escaparem do calabouço. Os menos poderosos, por sua vez, tentam organizar-se.

“Nós estamos empenhados numa luta com o governo para obter a legalização das nossas culturas”, confidencia Hadj Jaafar Hussein, um primo próspero de Issam, de terno e gravata. “Nós constituímos um discreto lobby junto com alguns dos nossos eleitos”, acrescenta este viajante de cerca de 60 anos que diz estar constantemente “entre dois aviões”.

Os militantes do Hizbollah, o “partido de Deus” que domina esta região de confissão amplamente xiita, não apóiam este grupo de pressão. “Para eles”, explica Hadj Jaafar, que os detesta, “o H é ‘haram’, proibido! Mas eles não nos criam problemas. Eu conheço até mesmo alguns deles que consomem às escondidas. Mas nós já tentamos de tudo para convencê-los a nos ajudarem, em vão. Esses caras são mesmo uns obscurantistas inveterados.”

No total, embora o consumo de maconha seja legal na Holanda, e tolerado em outros países tais como a Espanha, a Suíça, a Itália, o Reino Unido e alguns Estados americanos, a causa da legalização das culturas da Bekaa não parece conseguir grandes avanços. O que não impede nem que o consumo local aumente regularmente, segundo a polícia, nem que as plantações vão ganhando terreno, praticamente diante dos olhares e com o conhecimento de todo mundo.

No campo de Ali Hassan, inundado de sol à beira de uma estrada asfaltada, pouco freqüentada, porém acessível, situada no norte do grande vale, os agricultores estão discutindo animadamente a respeito do que poderia acontecer caso o exército resolver retornar na região.

“No que me diz respeito”, afirma Ahmed, um jovem de cerca de 30 anos e de sangue quente, com um boné de beisebol enfiado sobre a cabeça e um fuzil de combate escondido sob o banco da sua caminhonete, “eu não vou permitir que eles destruam tudo. Nós temos de lutar.”

Ali Hassan sorri, com ar constrangido. Nem todos os plantadores estão dispostos a desenterrar o machado da guerra. Mas, o Estado libanês, do que se pode deduzir do estado das estradas, detonadas, do fornecimento muito esporádico de eletricidade, da inexistência, na maior parte das aldeias, de qualquer estrutura de saneamento ou de outros serviços públicos, está amplamente ausente da região. E, portanto, ele é muito pouco respeitado.

Por ocasião das intervenções militares de 2006, vários destacamentos uniformizados haviam sido forçados a se retirar de certas localidades, após terem sido alvos de rajadas de metralhadoras e até mesmo de alguns obuses de morteiro que não haviam matado ninguém, mas sim impressionado sobremaneira os soldados. Há algumas semanas, Adel Machmouchi, o chefe da brigada antientorpecentes da polícia do Líbano, reconheceu, durante um depoimento para uma jornalista do diário árabe “Al-Hayat”, que o seu trabalho nem sempre era muito simples.

“Nós tínhamos planejado uma campanha de erradicação antes do verão, mas não foi possível garantir a segurança dos nossos agentes”, havia declarado o delegado. “O exército estava ocupado em intervir em outras áreas. Além disso, todos os proprietários dos tratores e dos buldôzeres que nós costumamos alugar na região para proceder às operações de arrancamento haviam cancelado seus compromissos, como que por um efeito de mágica, após terem recebido ameaças por parte dos plantadores. Mas o governo continua determinado a agir”.

Antes da nossa partida, na pequena fazenda de Ali Hassan, do lado do Djabal el-Mekmel, todos estavam rezando a Alá com muito fervor, pedindo-lhe para que a normalização libanesa não seja implantada rápido demais. “Não antes das colheitas, por favor, meu Deus”.

“Le Monde”

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A China moderna busca diretrizes morais no seu antigo passado

Craig Simons
Em Yinchuan, China

Seria difícil visualizar Zhang Xianliang propondo que se lembrasse o passado. Rotulado de inimigo do Partido Comunista Chinês em 1958, ele foi internado em um campo de trabalhos forçados e lá permaneceu durante 22 anos, muitas vezes comendo pouco mais do que grama cozida para sobreviver.

Mas Zhang, que aos 70 anos de idade é um dos mais famosos escritores vivos da China, faz parte do número crescente de chineses proeminentes que pedem que a nação volte a se conectar com a sua história como forma de fortalecer um sistema de valores desvirtuado pelo Partido Comunista e pelo rápido deslocamento da China em direção ao capitalismo.

“Devido aos danos ao nosso legado cultural provocados pelo Partido Comunista e também à invasão da cultura ocidental nas duas últimas décadas, ficamos culturalmente à deriva”, disse Zhang em uma recente entrevista em um estúdio cinematográfico e parque temático que ele administra na província de Ningxia, no norte da China. “Só agora estamos entendendo o quanto é importante cultivar um arcabouço moral comum”.

Para Zhang e vários outros chineses, grande parte da intensificação dos problemas sociais em toda a China, incluindo o aumento da criminalidade e da corrupção, se deve ao enfraquecimento dos valores morais.

“Nos últimos anos houve um grande renascimento do interesse pela história e pelo pensamento da China”, afirma Xia Xueluan, um sociólogo da Universidade de Pequim. “O nosso sistema de valores foi abalado pela modernização, de forma que as pessoas estão em busca de uma base moral”.

Uma interpretação dos Analectos de Confúcio, os ensinamentos do monge chinês que viveu entre 551 e 779 A.C., vendeu 2,3 milhões de cópias entre novembro e fevereiro, e estabeleceu um recorde de 13,6 mil cópias vendidas em um único dia em uma livraria de Pequim.

Um programa de televisão chamado Sala de Leitura se tornou o de maior audiência de um canal da Televisão Central da China no ano passado, após passar a se concentrar em história e filosofia antigas, incluindo os ensinamentos de Zhuangzi e de Lao-Tsé, os mais importantes pensadores taoístas da China.

As universidades estão se beneficiando desse interesse crescente ao oferecerem mais matérias optativas e programas em filosofia tradicional.

A Universidade de Pequim passou a oferecer programas em “cultura chinesa tradicional” em 2005, e faz propagandas desses cursos prometendo: “O conhecimento clássico abrirá novas estratégias para a sua vida”.

Em abril, a universidade lançou a sua nova estratégia ao fazer uma parceria com uma companhia chinesa de telecomunicações para transmitir frases filosóficas tradicionais por telefones celulares mediante o pagamento de uma mensalidade de US$ 1,25.

Um ensinamento confuciano enviado recentemente afirmava que “um cavalheiro deve lutar constantemente para atingir a auto-perfeição”.

O Partido Comunista está também buscando os ensinamentos tradicionais para fortalecer o seu domínio.

Desde 2005, o presidente chinês Hu Jintao clamou repetidamente pela construção de uma “sociedade harmoniosamente socialista” e em pelo menos um discurso enfatizou esta meta ao citar um ensinamento confuciano segundo o qual “a harmonia é algo de precioso”.

Mas a harmonia é uma coisa cada vez mais ausente em certos segmentos da sociedade.

O número de processos criminais na China mais do que dobrou entre 1999 e 2006, chegando a 4,65 milhões, enquanto o número de mortes causadas por acidentes de trabalho subiu para mais de 14 mil no ano passado, já que padrões inferiores de segurança acompanharam a rápida industrialização do país.

Ao mesmo tempo, a venda de produtos falsificados por vezes letais se tornou endêmica. No ano passado 11 pessoas morreram na província de Guangdong, no sul da China, após consumirem um remédio falsificado que, segundo o fabricante, combatia infecções da vesícula biliar.

Tais notícias não chegam a provocar escândalo na China. Entre uma série de casos recentemente expostos houve o da venda de ovos contaminados com um corante carcinogênico e o de um leite para recém-nascidos destituído da maioria dos nutrientes e que custou a vida de pelo menos 12 bebês em 2003 e 2004.

“Muita gente não se sente mais responsável pela sociedade, de forma que não pensa duas vezes na hora de vender produtos falsificados”, afirma Zhang. “Temos milhares de leis, mas ninguém as obedece”.

Assim como Confúcio, cujos Analectos enfatizam os valores da generosidade, da unidade e do respeito pela autoridade, o Partido Comunista publicou no ano passado uma lista de “oito virtudes e oito vícios” - incluindo lembretes para que os cidadãos trabalhem arduamente, amem o país e sirvam ao público - e encorajou os funcionários e cidadãos a aplicarem essas instruções às suas vidas diárias.

“Atualmente pouca gente enfatiza a importância dos ensinamentos morais nas nossas vidas, de forma que o governo está tentando ensinar um conjunto de valores comuns a todos”, explica Xia.

Ao mesmo tempo, os chineses estão em busca de mais diretrizes morais na religião.

Uma pesquisa patrocinada pelo governo e cujos resultados foram divulgados em fevereiro revelou que até 300 milhões de chineses são religiosos, um número bem maior do que a antiga estimativa oficial de 100 milhões de pessoas.

Dentre os entrevistados pelos pesquisadores da Universidade Normal do Leste da China, em Xangai, 66% disseram que praticam religiões chinesas históricas, incluindo o taoísmo e o budismo, enquanto 12% - ou cerca de 40 milhões de pessoas - se identificaram como cristãos.

“A vida das pessoas se tornou materialmente mais rica na China, de forma que um número cada vez maior de gente está buscando uma espiritualidade mais intensa”, explica Tong Shijun, professor de religião da Universidade Normal do Leste da China, em Xangai, e um dos que conduziu a pesquisa.

Com essa nova riqueza, muitos chineses se concentraram na compra de produtos com os quais sequer podiam sonhar sob o governo de Mao Tsé-Tung, o líder que dominou a China durante quase três décadas até a sua morte em 1976, e marcas como Gucci e Ferraris podem ser encontradas no mercado popular.

Segundo os especialistas, não se sabe ao certo se uma maior fundamentação espiritual e cultural implicará em valores morais comunitários mais profundos do que a atual preocupação com o status individual.

Na província de Ningxia, Zhang, que publicou vários livros sobre a sua experiência nos campos chineses de trabalhos forçados, argumenta que para voltar a se conectar com os valores tradicionais a China precisa entender a turbulência das décadas de 60 e 70.

Especialmente importante é compreender por que os chineses perderam o seu senso de valores comunitários durante a Revolução Cultural, que durou uma década, um período durante o qual incontáveis relíquias e templos foram destruídos como parte de uma iniciativa promovida pelo Partido Comunista no sentido de acabar com os remanescentes daquelas que Mao considerava filosofias atrasadas.

“A Revolução Cultural destruiu a nossa cultura e a substituiu pelo culto a Mao”, afirma Zhang. “Quando Mao morreu, ficamos sem nada”.

O Partido Comunista ainda proíbe a maioria das pesquisas sobre o governo de Mao por temer que discussões sobre traumas passados possam enfraquecer o controle partidário, e poucos chineses nascidos após 1976, quando Mao morreu, sabem muita coisa sobre a Revolução Cultural ou o Grande Salto Adiante, um movimento para coletivizar a agricultura no final da década de 50 que provocou uma onda de fome responsável pela morte de cerca de 20 milhões de pessoas.

No parque temático de Zhang, Wang Ying, de 23 anos, dá de ombros quando lhe perguntam o que aconteceu durante o Grande Salto Adiante.

“O meu livro escolar só traz meia página sobre isso, de forma que realmente não sei”, diz ela.

Segundo Zhang, mais cedo ou mais tarde Pequim terá que permitir mais pesquisas sobre aquele período.

Precisamos prestar atenção no nosso passado inteiro para entendermos o que perdemos nos anos 60 e 70″, diz ele. “Somente dessa maneira poderemos saber que temos uma rica tradição cultural”.

Tradução: UOL

Cox Newspapers

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A privatização do Estado

Naomi Klein

Quanto mais piora a situação no Iraque, mais se privatiza a guerra e mais lucros rende.

Clique a imagem para encomendar. Resumo de recente intervenção de Naomi Klein, apresentada por Amy Goodman, de Democracy Now, por ocasião do lançamento em Nova York do primeiro livro de Jeremy Scahill, “Blackwater: A ascensão do mais poderoso exército mercenário do mundo” (Blackwater: The Rise of the World’s Most Powerful Mercenary Army)

AMY GOODMAN: Continuando a analisar a questão do Iraque e da ocupação dos EUA, contamos agora com a presença da prestigiosa escritora e jornalista Naomi Klein. Escreve regularmente para The Nation e The Guardian, é autora do grande êxito de vendas No Logo e mais recentemente, Fences and Windows (em castelhano: Vallas y Ventanas ). Está em Nova Iorque para o lançamento do livro de Jeremy Scahill sobre a empresa Blackwater, e intervém agora na Ethical Culture Society sobre privatização das forças armadas e do Estado, colocando o fenómeno num contexto histórico.

NAOMI KLEIN: A tendência de privatizar todos os aspectos do estado, do governo, é um processo que se iniciou há cerca de trinta e cinco anos. Muitas pessoas, muitos historiadores situam o seu inicio em 1973 quando se deu o golpe de estado do Chile, o que, em termos da investigação realizada pelo Jeremy, se torna interessante dado que ele aborda a questão da Blackwater estar agora a contratar chilenos para o Iraque, mas não vou abordar esse aspecto, ele o fará mais tarde. O primeiro exemplo da tentativa de construir uma utopia corporativa deu-se no Chile em 1973 depois do golpe de Pinochet, quando este começou a colaborar com uma equipa de economistas da Universidade de Chicago a fim de implementar aquela experiência.

Trata-se de um tipo diferente de projecto colonial. Na América Latina, este projecto que é chamado frequentemente de neoliberalismo, é conhecido por neocolonialismo. A primeira fase do colonialismo foi a abertura das veias da América Latina, segundo as palavras de Eduardo Galeano, a pilhagem das matérias-primas, a exportação dos recursos brutos. A segunda fase de colonialismo – e, claro que a primeira fase nunca desapareceu completamente – foi a pilhagem do estado. Tudo o que foi construído a partir da Grande Depressão e durante os anos de grande crescimento do pós-guerra – o sistema de segurança social, a educação, estradas, caminhos de ferro – foi vendido, no Chile, com a ajuda dos Chicago Boys: o saque a céu aberto do próprio Estado.

O modo como imagino este projecto corporativo, este projecto de privatização, é como se o estado fosse como uma espécie de polvo com todos os seus braços. Durante os últimos trinta anos, e certamente desde Reagan, aqui nos EUA, que a campanha de privatização o que tem feito é arrancar os membros do estado – o sistema telefónico, as estradas, etc, este tipo de serviços “não essenciais”, se assim quisermos dizer. Depois de arrancar todos os membros do estado, tudo o que resta é aquilo a que eles chamam de núcleo central.

O que a administração Bush tem feito na realidade é liquidar este núcleo central, privatizar esses serviços governamentais essenciais que são parte inerente do que entendemos como estado, e que parece impossível imaginar que pudessem ser privatizados, serviços esses que podem ser o próprio governo, a segurança social, o bem-estar, as prisões, o exército, etc, sendo que é aqui que se encaixa a Blackwater.

O mais extraordinário que sucedeu no Iraque – e a Amy mencionou o meu artigo “Bagdade, ano zero” – é que se verificaram exactamente todas estas camadas de colonialismo e neocolonialismo, este empenho na privatização, o que provocou um tipo de perfeita tempestade naquele país. Por um lado, temos um tipo de pilhagem colonial da velha-escola, que é do género: vamos ao petróleo!. Como muitos de vocês sabem, o Iraque tem uma nova lei do petróleo que foi aprovada pelo governo mas não foi ainda aprovada pelo parlamento. E essa legislação legaliza a pilhagem, legaliza a exportação de 100% dos dividendos da industria petrolífera iraquiana, que foram precisamente as condições que estiveram na base do nacionalismo árabe, assim como a exigência de se dispor dos recursos petrolíferos, isto entre os anos cinquenta e setenta. Está-se então agora no desenvolvimento deste processo da pilhagem dos recursos seguindo as regras do colonialismo da velha-escola.

Por cima disto tudo, temos um tipo de colonialismo 2.1, que está no âmbito do que estive a investigar no Iraque, e que é a pilhagem do Estado iraquiano, Estado esse que foi construído sob as bandeiras do nacionalismo árabe, a industria, as fabricas, etc. Um tipo de privatização acelerada, uma terapia de choque, de saque a céu aberto como aquele que vimos na ex-União Soviética nos anos noventa. Esta era a ideia formulada para o plano A no Iraque, isto é, os EUA entravam lá com a Blackwater, que protegia Paul Bremer, e tratavam de liquidar todas as indústrias do Iraque. Temos então um colonialismo da velha-escola que logo daria lugar a um da nova-escola.

E assim temos a privatização pós-moderna que se baseia na ideia de que o exército dos EUA ia à guerra para pilhar-se a si mesmo, certo? Há dez anos, Thomas Friedman dizia que dois países que possuíssem estabelecimentos McDonald nunca entrariam em guerra. Agora vamos à guerra com a McDonald, a Taco Bell e a Burger King a reboque. Deste modo o processo de realizar a guerra é uma forma de auto-pilhagem. Não só o Iraque é saqueado, como os cofres deste governo dos EUA também estão a ser pilhados. Temos então a convergência destes três elementos numa perfeita tormenta que caiu sobre este país.

Um dos aspectos mais importantes que os progressistas devem questionar é precisamente o discurso de que todo o Iraque é um desastre. Penso que devemos começar a perguntar com insistência, para quem o Iraque representa um desastre? Porque afinal não são todos os que perdem. Certamente que se trata de um desastre para o povo iraquiano. É também um desastre para os contribuintes norte-americanos, mas o que temos visto – e isto está absolutamente claro se tivermos em conta os números que se conhecem – é que quanto mais piorar a situação no Iraque, mais privatizada se tornará a guerra, e mais lucrativa se tornará para empresas como a Lockheed Martin, Bechtel, e certamente a Blackwater. Existe uma deriva persistente no Iraque: quanto mais são os países da coligação invasora que abandonam o Iraque, mais contratados entram em jogo. Trata-se de um aspecto muito bem documentado por Jeremy, mas disso ele nos falará mais tarde.

E realmente muito perigoso. São estes os riscos que considero que temos de entender. E vou tentar ser breve, de modo a que possamos ter depois um debate proveitoso. Afinal o que está aqui em jogo? Os riscos não poderiam ser mais elevados. Na verdade estamos a perder o incentivo, o incentivo económico para a paz, o incentivo económico para a estabilidade. Quando se consegue criar uma economia tão exuberante à custa da guerra e do desastre á custa da destruição e da reconstrução, vezes repetidas, que incentivo existe para a paz?

Existe uma frase pronunciada na conferencia de Davos deste ano. Invariavelmente, todos os anos existe uma grande ideia que emerge da Cimeira Económica Mundial de Davos. Este ano essa grande ideia foi o dilema de Davos. Em que consiste o dilema de Davos? Trata-se do seguinte: durante décadas fazia parte da sabedoria convencional a ideia de que o caos generalizado era um estímulo para a economia global, isto é, que um choque pontual, uma crise ou uma guerra, tudo se poderia aproveitar para incrementar a privatização, mas que no conjunto — e esta era a tese de Thomas Friedman – seria necessário existir uma certa estabilidade para se conseguir um crescimento económico estável. O dilema de Davos diz-nos que isto já não é certo. Podemos estar perante uma desordem generalizada, podemos ter guerra no Iraque, no Afeganistão, uma ameaça de guerra nuclear no Irão, uma ocupação israelense cada vez mais dura, um incremento da violência contra os palestinianos, podemos ter terrorismo em face do efeito de estufa, as repercussões da guerra podem ser cada vez maiores para conseguir recursos, podemos ter os preços energéticos cada vez mais elevados, mas, e aqui é que está o aspecto interessante de tudo isto, a bolsa continua a subir sem parar.

ÍNDICE ARMAS-CAVIAR

De facto existe um índice chamado índice armas-caviar que durante dezassete anos tem medido a relação inversa entre a venda de aviões de combate e a venda de aviões de luxo privados. Durante dezassete anos, este índice, o armas-caviar – em que as armas são os aviões de combate e o caviar são os aviões de luxo privativos – permitiu concluir que quando as vendas de aviões de combate subia, desciam as vendas de aviões de luxo privativos. Mas de repente, ambos os parâmetros sobem, o que significa que se estão a vender muitas armas que dão para comprar muito caviar. E a Blackwater, é claro, que está no centro desta economia.

A única forma de combater uma economia que eliminou o incentivo para a paz é, obviamente, retirar as suas oportunidades de crescimento. E as suas oportunidades de crescimento são as actuais instabilidades climática e geopolítica. Aquilo que representa uma ameaça para este sistema, a única coisa que pode ameaçar esta economia, são, ao invés, a paz e a estabilidade geopolítica, e climática. De maneira que tendo consciência disto, creio que as coisas para nós ficam claras na hora de combater aqueles que se aproveitam da guerra.
O original encontra-se em http://www.democracynow.org/article.pl?sid=07/04/02/1345218&tid=25 .
Tradução de MJS.

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