Arquivo de 27 de Julho de 2008

Reinações do guerreiro do petróleo

Monteiro Lobato apostava tanto nas jazidas brasileiras que se arruinou por elas

Marco Antonio Villa*

O Brasil é auto-suficiente em petróleo. E novas descobertas não param de acontecer. O petróleo no Brasil tem uma história e um grande lutador: Monteiro Lobato. Mas parece que Lobato não passou de um aventureiro, um sonhador. Está esquecida sua luta em defesa do “ouro negro” e os desafios que teve de enfrentar. Seria recomendável que a Petrobrás fizesse a homenagem devida a esse pioneiro que sempre acreditou na existência de petróleo no Brasil e demonstrou-a.

Desde seu retorno dos Estados Unidos, em 1931, iniciou verdadeira cruzada em defesa da pesquisa e exploração do petróleo. Marcou época a publicação de O Escândalo do Petróleo, em 1936. No livro, identificou no petróleo a “alma da indústria moderna; é a eficiência do poder militar; é a soberania; é a dominação”. Para ele, a base do poder americano estava sobretudo no petróleo. Apontou as grandes empresas estrangeiras - que posteriormente serão chamadas de “sete irmãs” - como um dos grandes obstáculos à exploração de petróleo no Brasil. Para Lobato, não caberia ao governo brasileiro explorar petróleo. Seria tarefa da iniciativa privada. Caberia ao governo proteger o empresário nacional nessa empreitada. O governo era, para Lobato, símbolo da ineficiência: “Depois de haver demonstrado, da maneira mais absoluta, a sua inépcia em dirigir com eficiência as coisas mais elementares, como seja uma simples estrada de ferro, o governo arregaça as mangas para ‘fazer economia dirigida’, isto é, transformar a complexíssima economia da nação numa vasta Central do Brasil”. E arremata: os trustes sabem “que os nossos estadistas dos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro - com o calcanhar, com o cotovelo, com certos penduricalhos -, raramente com os miolos”.

Encontrou entre os dirigentes do Departamento Nacional de Produção Mineral sérios adversários à sua cruzada. Usou a imprensa como instrumento de combate político. Convidou jornalistas para visitar o campo de Araquá e com satisfação mostrava o petróleo bruto: “Petróleo brasileiro. Uma gota do oceano de petróleo que dorme em nosso subsolo e que há de jorrar um dia para inundar de riqueza todo o Brasil”. Para um repórter, mergulhou uma folha de papel no óleo e acendeu-a com um fósforo: “Veja a fumaceira que faz. Sinta bem este cheiro. Cheiro de petróleo! Petróleo arrancado à terra brasileira!”

Através de Ronald de Carvalho, seu amigo e secretário particular de Getúlio Vargas, encaminhou ao presidente longa exposição sobre o petróleo. Sem resultados. Tinha, nessa época, boa relação com Vargas, que, inclusive, convidou-o para chefiar o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Não aceitou. No seu diário, Vargas anotou que Lobato estava “muito absorvido pelas suas sondagens em busca de petróleo”. Desesperançado com o desinteresse do presidente, Lobato comentou com um amigo: “Ele prefere engordar na presidência”.

Começou a percorrer o Brasil fazendo conferências. Desejava obter apoio popular à causa do petróleo. Lembra Edgard Cavalheiro, seu biógrafo, que Lobato “não era chauvinista quanto ao petróleo. Aceitava a participação do capital estrangeiro”. Estava convencido de que os trustes “só tinham, quanto ao nosso óleo, um único objetivo: não tirá-lo e não deixar que outros o tirassem”. Com o advento do Estado Novo, Lobato ficou em situação difícil. O espaço da imprensa estava vedado. No ano seguinte foi criado o Conselho Nacional de Petróleo (CNP). O escritor ironizou: “Conselho Nacional de Petróleo? Que história é essa? Pois se não há petróleo no Brasil, como afirma o governo, para que um Conselho do que não existe?”

Em cartas para o amigo Godofredo Rangel manifestou seu desalento: “Eu apodreço no petróleo; lido com ele há oito anos e nada; não consigo vencer os embaraços oficiais”. Dois anos depois, também para Rangel, escreveu que estava aguardando havia 18 meses uma licença do CNP: “Inda hoje escrevi uma grande carta ao chefe do governo denunciando a patifaria. Dará resultado? Ora, essas coisas me têm aborrecido tanto que passei a estudar o problema da morte como uma aspirina que cura tudo duma vez. Morrer e ir para o Inferno, que delícia! Porque se formos para o Céu, encontraremos lá toda a turba dos sabotadores - tão influente e poderosa ela é”.

Apesar de traduzir, editar, escrever, Lobato passa necessidades financeiras. Como lembra Cavalheiro, aos 60 anos de idade, “verifica que nada possui. Nem sequer a casa onde reside. É um homem pobre, sem empregos ou sinecuras. Seus bens resumem-se aos livros publicados a partir de 1918”. Dizia que o dinheiro que ganhava com os livros perdia nos negócios, especialmente nas companhias de petróleo que fundou. A 5 de maio de 1940 escreveu longa carta a Vargas. Atacou o CNP e pediu ao presidente que “pelo amor de Deus, ponha de lado a sua displicência e ouça a voz de Jeremias. Medite por si mesmo no que está se passando. Tenho a certeza de que se assim o fizer tudo mudará e o pobre Brasil não será crucificado mais uma vez”. Dez meses depois veio a resposta: foi detido e levado para o Presídio Tiradentes. Ironizou: “Atirei no petróleo e acertei na cadeia, o que prova bem má pontaria”. Processado, foi condenado: “Depois que me vi condenado a seis meses de prisão, e posto numa cadeia de assassinos e ladrões, só porque teimei em dar petróleo à minha terra, morri um bom pedaço na alma. Espero que seja esse o meu último desapontamento”.

Noventa dias depois foi indultado pelo presidente, graças às gestões dos amigos, especialmente Fernando Costa. O guerreiro estava estafado. Dois anos depois perdeu mais um filho, Edgard, aos 32 anos - Guilherme tinha falecido com 25 anos. Veio a redemocratização. Continuou escrevendo. Doente, brincou com seu estado: “Meu cavalo está cansado, querendo cova, e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final”. Na antevéspera da morte, numa entrevista radiofônica, dissertou sobre o petróleo. Morreu a 4 de julho de 1948. Cinco anos depois foi criada a Petrobrás.

*Marco Antonio Villa é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Jango, um Perfil (Globo)

“Estado de S. Paulo”

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Grande farra no mercado de arte

Setor vive dias frenéticos com a cobiça de ricaços russos, chineses, até brasileiros. Mas olha a ‘bolha’, pessoal

Lúcia Guimarães

Os números desafiam as previsões mais otimistas. Marchands americanos trabalhando sozinhos já não se surpreendem com um faturamento anual de US$ 30 milhões. Ninguém sabe ao certo quanto é movimentado fora do circuito de leilões, mas, em 2007, estima-se que cerca de US$ 60 bilhões trocaram de mãos no superaquecido mercado da arte. As grandes feiras internacionais, como Basel (Basiléia), geraram tantos filhotes que um maratonista (ou masoquista) arriscaria passar os 365 dias do ano pulando de stand em stand para ver a arte à venda.

Desde que os ventos recessivos começaram a soprar, no final de 2007, os protagonistas do mundo da arte prenderam a respiração e começaram a ter visões bíblicas de Jackson Pollocks sendo trocados por um prato de comida. Exagero, é claro. Afinal, a pintura Nº 5, 1948 da fase de drip painting, o breve período magistral do artista, foi vendida ao financista David Martinez por US$ 140 milhões em 2006 . Mesmo havendo uma desvalorização de 50%, daria para garantir suprimento vitalício de caviar.

Os bilionário russos , os xeques do petróleo, os hedge funders que começaram a fazer a barba há menos de dez anos, os indianos enriquecidos pela tecnologia, os chineses (é preciso qualificar?) e , sim, os brazucas, estão a bordo desse trem da alegria. Na virada do milênio os grandes leilões eram freqüentados por compradores de menos de 30 países. Agora cerca de 60 países exportam vorazes colecionadores que fazem lances audaciosos, em carne e osso, on line e pelo telefone.

Os caprichosos e imperiais russos como Roman Abramovich, o bilionário da metalurgia e da mineração, devem ficar tiriricas porque foram apelidados de “japoneses do novo milênio”. Merecem o epíteto porque estão inflacionando o mercado, mas, ao contrário dos cautelosos japoneses que pipocavam nas manchetes dos anos 80, quebrando os recordes de Van Goghs, atraídos pelo colírio impressionista ou retratos de mulheres, os novos ricos da Rússia têm apetite por arte contemporânea. O tríptico de Francis Bacon que Abramovich arrematou em maio por US$ 86 milhões na Sotheby’s e a felliniana mulher de Lucian Freud (o nome do quadro é Supervisora de Benefícios Dormindo) que ele levou no leilão da Christie’s, na mesma semana, por US$ 34 milhões, são pinturas figurativas, porém longe de ser idílicas. A ironia do comentário da retratada é preciosa. Depois de anos posando para Freud, Sue Tilly, a funcionária pública que ele apelidou de Big Sue, concluiu: “Ele deve ter me escolhido porque conseguiu bom valor pelo que pagou - muita carne”.

Quem imaginava, há uma década, dar de cara com a família real de Qatar na feira de arte de Basel? Pois hoje o xeque Saud al-Thani está comprando arte no atacado para rechear vários museus em construção no pequeno emirado. O Louvre e o Guggenheim vão ter filiais em Abu Dhabi.

Há mais paredes, museus em fase de conclusão e galpões abandonados prontos para se transformar em galerias. Por isso, o recorde de preço para um artista vivo continua a ser superado. O Coração Pendurado (Hanging Heart) de Jeff Koons foi vendido por US$ 17 milhões em janeiro passado, apenas para ser ofuscado pela Big Sue de Freud.

Não há um suprimento de grandes mestres que possa remotamente dar conta do apetite do mercado. Do final da Idade Média ao Modernismo, o patrimônio que importa está na mão de museus ou grandes colecionadores que, quando envelhecem, fazem acordos com instituições.

A cotação social do patrono das artes está tão alta que Eli Broad, um dos maiores colecionadores do mundo, dono de mais de 2 mil peças de arte moderna e contemporânea, voltou atrás, este ano, na promessa de doar seu acervo a museus. A decisão doeu mais ao Los Angeles County Museum of Art, que inaugurou um prédio - Broad Contemporary Art Museum - projetado por Renzo Piano e financiado pelo bilionário, na esperança de ser o principal beneficiário da coleção. A decisão de Broad reflete o desejo dos colecionadores de influir no destino futuro de suas coleções. A qualquer dado momento, um grande museu exibe apenas uma fração de seu acervo. Broad se diz a favor de obras de arte serem compartilhadas por múltiplas instituições para que não fiquem hibernando em depósitos.

O mundo dos colecionadores contemporâneos não se destaca por egos mais inflados do que os patronos da Renascença. Mas é um mundo globalizado, mais populoso e volátil. Esse mundo pode ter vínculos com os dois incidentes de roubo, no Masp e na Pinacoteca de São Paulo.

A última vez que o mercado de arte passou da euforia, alimentada pelos japoneses, à depressão, em 1991, continua fresca na memória do publisher da revista que é mais do que um termômetro do mercado. A ArtForum International é a bússola crítica da arte contemporânea. O publisher Anthony Korner lembra-se muito bem de quando, da noite para o dia, a revista passou de 100 páginas de anúncios para 45. No verão de 2007, a ArtForum bateu seu recorde de publicidade, com mais de 300 páginas de anúncios, mas Korner nota que houve uma confluência entre a Art Basel de Miami, a Documenta, de Kassel e a Bienal de Veneza. O número que está nas bancas, embora não seja recordista, continua um tijolo pesado.

Korner, que começou a vida no tradicional universo do banco de investimentos Warburg, não vê um crash no horizonte e, sim, uma correção do mercado: “Mesmo o que estamos testemunhando nas bolsas é em parte a chamada profecia que se autoconfirma. De tanto falarem em recessão, o mercado se retraiu”. A boa notícia, segundo Korner, é que quando há um período de disparada de preços seguido por uma retracão sóbria, a arte medíocre, promovida por hype, tende a ser esquecida. “Sabe a minha teoria sobre o mundo da arte?”, pergunta o publisher. “O mundo da arte é como aqueles personagens de desenho animado que vão andando confiantes até que acaba o chão e eles despencam no abismo. Mas eu não acredito que, neste momento, haja um abismo no caminho que vem pela frente.” Korner prefere uma metáfora mais pastoral. As grandes tempestades derrubam árvores fracas. Mas as árvores robustas ficam de pé.

“Estado de S. Paulo”

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Acima de tudo, uma rebeldia política

Assim o sociólogo Francisco de Oliveira define o maio sangrento em que estudantes e operários viveram em perigo

Antonio Gonçalves Filho

O professor de Sociologia pernambucano Francisco de Oliveira estava no México, em 1968, ano em que 300 estudantes foram massacrados por forças policiais numa manifestação política realizada em outubro, em Tlatelolco. Retornando ao Brasil nesse mesmo ano, o autor de Crítica da Razão Dualista (Boitempo), um dos fundadores do PT e hoje um de seus maiores críticos, testemunhou situações piores no País, do qual estava ausente desde sua prisão, em 1964. Na entrevista concedida ao Estado, o sociólogo conta essa experiência e faz um balanço dos movimentos surgidos na esteira do Maio de 1968.

O senhor foi preso em 1964 e voltou ao Brasil justamente em 1968, quando os franceses saíam às ruas para protestar. Que lembranças o senhor tem do período e como o senhor interpreta a palavra de ordem de Sarkozy, de ‘liquidar a herança de 1968′?

Tem certas ondas na história que são de difícil compreensão. Mesmo a posteriori é difícil dizer, porque nós, das ciências humanas, estamos muito presos à causalidade. Houve uma espécie de frisson quase universal em 1968 - mais notável na Alemanha e França. Passei dois anos no México e Guatemala antes de voltar. No México, em 1968, tivemos Tlatelolco (manifestação que terminou no massacre de 300 estudantes na Plaza de las Tres Culturas na cidade, em outubro desse ano). Se as ciências sociais nos ajudassem a prever eventos como esse, eu teria ficado no avião, não no México ou no Brasil. Não fui diretamente personagem de 1968, nem na França nem no Brasil. Acabara de chegar e, portanto, não poderia estar imerso na turbulência brasileira. Seria, então, falso falar sobre esse ano no Brasil. De qualquer modo, a interpretação mais aceita é que 1968 abriu as portas de uma espécie de revolução cultural no Ocidente, na qual se inscreveriam temas como o da sexualidade. Entretanto, dizem Rancière e Zizek que todo mundo esquece que 1968 foi sobretudo uma revolta política. Que ela tenha tido efeitos vagamente culturais nem precisa ser dito, pois toda revolução política tem efeitos culturais. Na França, essa foi marcadamente uma revolta anticapitalista. Os atores centrais não foram os estudantes, mas os operários. Se olharmos para outros panoramas e sociedades, veremos que isso se repete. No Brasil, também, embora o movimento operário estivesse submerso. Havia uma resistência operária muito forte ao regime militar, como provam as greves de Contagem e Osasco. Elas são marcantes nessa espécie de maio de 68 brasileiro, que culmina com a passeata dos 100 mil no Rio (protesto político contra a ditadura militar na Cinelândia, realizado no dia 26 de junho).

O senhor menciona o caráter anticapitalista do movimento de 1968. Seus protagonistas imaginavam mesmo estar fazendo uma revolução marxista? As manifestações não foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade?

Revolução é um fenômeno tão imprevisível que nenhuma ciência social é capaz de dizer o que seus atores queriam. Gosto muito da interpretação do Trotski sobre a Revolução Russa. Ela é tratada como a revolução mais previsível da história, mas Trotski diz, no prefácio de sua História da Revolução Russa, que ela aconteceu sem que nenhuma das suas causas - reconhecidas a posteriori como seus fatores detonantes - houvesse sido prevista. Uma das possíveis interpretações da revolução de 1968 é a de que a euforia do consumo teria levado os estudantes a célebres palavras de ordem como ‘É proibido proibir’ ou ‘Sejamos realistas, peçamos o impossível’. Coloca-se o acento na performance dos atores, o que não descarta o fato de as modificações estruturais na sociedade terem apertado o gatilho de algo que estava embutido nessas transformações. No Brasil, mal se iniciava o chamado período do milagre brasileiro. Portanto, qual era o efeito amortecedor ou detonador na sociedade brasileira? Não se conhece muito das ações clandestinas, sobretudo do Partido Comunista, que era o mais organizado. É possível, sim, dizer que as manifestações de maio de 1968 foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade, mas a relação de causa e efeito mais imediata é difícil de estabelecer. No Brasil, temos modificações importantes, como o sindicalismo que iria crescer no ABC, desconectado das tradições políticas anteriores do operariado, mas, do ponto de vista midiático, a manifestação mais robusta aconteceu mesmo no Rio.

Muitos dizem, como o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que o que sobreviveu dos movimentos de liberação sexual de 1968 foi o hedonismo tolerante, hoje incorporado à ideologia hegemônica de uma sociedade turbocapitalista. Há outra maneira de explicar esse hedonismo sem relacioná-lo ao maio de 1968?

Não sei se eu diria isso tão categoricamente como Zizek. Houve, sem dúvida, uma mudança na família, que todos consideravam o núcleo básico da sociedade - na verdade, não é. Há uma espécie de antecipação do sistema capitalista, capaz de engolir os processos transformadores, de modo que a liberdade sexual virou parte da indústria de entretenimento. Há uma certa forma de capturar o novo, mas mesmo essa captura vai produzindo, no subterrâneo, modificações sociais que perduram. O Brasil é uma sociedade permissiva, que absorve as mudanças com uma velocidade espantosa. A Europa, ao contrário, é sempre mais recatada. A nossa é uma cultura pouco resistente. Ela se deixa penetrar, permear, modificar muito facilmente pelo que vem de fora, especialmente pelo que Gramsci chamava de americanismo. Até a semana passada acompanhava a novela Desejo Proibido, da Globo, em que o autor (Walther Negrão) tratou com delicadeza as transformações sociais do período (anos 1930, em Minas), enquanto na outra novela da mesma emissora, Duas Caras, o autor (Aguinaldo Silva) usou mão pesada e abusou do hiper-realismo sem conseguir o mesmo efeito. Acompanhei com prazer a primeira, justamente a mais doce, que parece mais revolucionária, por tratar com humor dessa revolução de costumes trazida pelo cinema americano.

No ano passado, estudantes brasileiros ocuparam reitorias em várias universidades do País, em atos de oposição ao decreto que alterava a autonomia universitária, indicando que a idéia de alienação dos estudantes no século 21 precisa ser revista. Como o senhor analisa essas ocupações, que ocorreram de forma independente de outras instituições? É possível dizer que elas são uma herança de 1968?

Não. Num ciclo longo à la Braudel, pode ser, mas num ciclo curto, os movimentos sociais não guardam essa memória. Ela é de difícil transmissão. Participei ativamente desses episódios na USP, porque flagramos o completo anacronismo das entidades de representação dos estudantes e professores. O grupo de professores, sem nenhuma representatividade, tentava estabelecer um diálogo entre a reitoria e os estudantes, o que mostra que essas instituições são rapidamente superadas na trajetória da sociedade brasileira. Há uma espécie de permanente obsolescência das instituições, que não conseguem processar os novos conflitos que vão surgindo. Por outro lado, é difícil dizer que o movimento estudantil guardava a memória de 1968. Isso nem passou pela cabeça dos estudantes.

Há 40 anos ninguém falava em refugiados climáticos ou catástrofes ambientais, mas essa já é a realidade depois de tsunamis, Katrinas e até terremotos no Brasil. Isso reaviva a discussão sobre migrações em massa e discriminação étnica e racial. A agenda libertária de 1968 pode ser afetada pela ameaça de catástrofes ambientais?

Certamente. Há um risco de recrudescimento repressivo dos estados nacionais e também a formação de um racismo sublatente em todas as partes do mundo. Ainda não estamos experimentando isso no Brasil porque, por enquanto, apenas exportamos gente que não satisfaz suas expectativas de realização no próprio país. Como não há um corrida do ouro no Brasil, ainda não testemunhamos movimentos migratórios dessa natureza, mas nossas cidades não passam, hoje, de vastos acampamentos de miseráveis - e aí as formas repressivas surgem para valer. O Rio é um capítulo à parte, por ter uma geografia peculiar, mas, em São Paulo, o problema não é menor. Nos últimos anos, vimos governos rotulados de progressistas tomando medidas repressivas na cidade, o que é espantoso. Construíram muros antimendigos, cercaram parques e desenvolveram projetos ambiciosos de revitalização como esse da ‘Cracolândia’, tudo para separar e excluir. Essas formas de repressão estão aí, à espera. Elas vão se reproduzir silenciosamente, como parte de um movimento malthusiano. Está sobrando gente para o capitalismo.

“Estado de S. Paulo”

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A gastronomia política e o seu crítico

Carlos Alberto Dória

Para o espanhol Rafael Garcia Santos, fundamental é abandonar a neutralidade e apostar no futuro

Desde 2003, quando o “New York Times” publicou um artigo sobre a derrocada da gastronomia francesa e o advento da “nueva nouvelle cuisine”, o mundo que consome este fetiche moderno que é a gastronomia mudou a direção do seu olhar para a Espanha.
Isto, obviamente, significou uma nova orientação nos negócios turísticos e alimentares. Um abalo forte nos pilares daquela atividade que, desde o império napoleônico, parecia alicerçada exclusivamente da França. Era o reconhecimento explícito, ainda que tardio, da multipolaridade da cultura gastronômica moderna.
O autor daquela matéria no “New York Times” foi Arthur Lubow, e ele reproduziu fielmente o que Rafael Garcia Santos vinha dizendo há anos.
Rafael é esse camarada baixinho que tenho diante de mim, atarracado, de seus 50 anos, não sei ao certo se loiro ou ruivo, falante, dono de uma risada sarcástica, envergando um tênis de verniz furta-cor. Bacharel em direito, nascido em Santader, província de Cantábria, Espanha, ele é o principal crítico gastronômico da Espanha e está a nos dizer que não acredita na crítica gastronômica.
Foi também estudante maoísta e participou dos primeiros movimentos estudantis contra a ditadura de Franco. Começou a fazer critica gastronômica quase por acaso, num jornal da esquerda na qual militava, só porque colecionava vinhos. Mas logo foi dispensado, pois constatou que se tratava de um assunto elitista. Na imprensa burguesa, também não encontrou paz.
Rafael Garcia Santos, que acha que a revolução se espraia por todos os domínios da cultura, inclusive a gastronomia, não é o tipo de pessoa diante do qual se fique indiferente.
Dono de um texto de qualidade invejável, ele não encarna qualquer espécie de neutralidade crítica e, assim, coleciona tanto inimigos como amigos. Mas ele consegue ver longe: foi talvez o primeiro a proclamar a genialidade e a revolução empreendida por Ferran Adrià –mesmo que isso tenha lhe custado o emprego de crítico, pois, ao eleger um catalão, os bascos não o perdoaram, segundo seu próprio relato. Isso há 20 anos.
“Fui o primeiro a afirmar que Adrià era o melhor cozinheiro do mundo; honra dividida com Michel Bras. E sou o único que se atreve a afirmar que Adrià é o melhor cozinheiro da história. Descobri também Berasategui, Quique Dacosta…”. E com a mesma desenvoltura é capaz de nos dizer que Bocuse não passa de um impostor (“Me diga uma só criação de Bocuse! A soupe elisé? Mas era preciso ser Paul Bocuse para fazê-la?”) ou que Gualtiero Marchesi é um dos melhores cozinheiros do planeta.
Opiniões seguras permitiram-lhe, nos últimos 20 anos, construir mais do que uma reputação de iracundo: é autor e diretor do guia “Lo Mejor de la Gastronomia”, o mais importante da Espanha, e organizador de famoso congresso anual em Donostia (San Sebastián), no país basco, que já entra em sua Xa. edição1.
Nada de mistificações! Rafael é o primeiro a concordar que Adrià faz uma culinária de desnaturação, isto é, cujas criações se afastam da naturalidade das coisas para se aproximar dos artefatos, que mais e mais dominam a indústria alimentar moderna. Essa diferença, aliás, está na base da divergência pública recente entre o chef Santi Santamaría e Ferran Adrià: um advogando a tradição, outro, a fantasia de fundamentos industriais.
Se cada época histórica gera os seus críticos, Rafael é expressão da nova gastronomia espanhola, que nasce logo após a queda do franquismo e se beneficia, ao mesmo tempo, das influências da nouvelle cuisine sobre a Espanha e dos investimentos pesados que o Estado espanhol passou a fazer para colocar em realce, em todos os campos da cultura, a riqueza e diversidade dos povos espanhóis que a ditadura simplesmente havia sufocado. Dai em diante a Espanha não seria mais apenas o país das paellas.
Rafael também insiste em outra especificidade espanhola: a cozinha de vanguarda não existiria se, na Espanha, se aplicasse, como na França, a jornada de trabalho de 35 horas, imposta pelas leis francesas. Os preços na Espanha também se tornariam astronômicos, levando de roldão a cozinha espanhola de vanguarda. Por trás daquele confronto que Lubow anunciou, havia então uma luta surda entre o mercado formal e o mercado informal de trabalho.
Assim, compreende-se que Garcia Santos não seja muito querido, mas não se compreende que haja atravessado o oceano para vir nos dizer que o poder da crítica é nenhum. Seu niilismo advém da convicção (e da experiência pessoal) de que é impossível ser independente e manter o espírito crítico em um jornal cujo único objetivo é ganhar dinheiro. No primeiro enfrentamento, a cabeça do crítico é posta a prêmio.
“Só acredito na critica organizada empresarialmente, isto é, não assalariada, que corre seus riscos por conta própria”, diz. Isso, porque os grupos jornalísticos querem que o crítico monte negócios que levem dinheiro a eles. “Montar, por exemplo, suplementos que se rentabilizem com a publicidade. Montar programas de rádio e televisão que dêem dinheiro. Não existe futuro para os assalariados na crítica gastronômica.”
É inegável a originalidade dessa postura, pois é contraditório que o capital se volte contra si próprio: afinal, se um jornal pode achar que perde dinheiro com a crítica contra a corrente, como pode alguém organizar-se como empresário de si próprio e ganhar o mesmo dinheiro que parecia irremediavelmente perdido?
De crítico gastronômico, Rafael tornou-se, talvez involuntariamente, um crítico do próprio jornalismo gastronômico. Ele acusa os jornais de praticarem descaradamente o amiguismo: “A manipulação tem seu maior fundamento no fato de que a maioria dos leitores nunca poderá comprovar o que o crítico afirma. Num nível restrito é mais difícil enganar, mas se aumenta o universo, as pessoas não podem conhecer quase nada. Quantos visitam, fora de São Paulo, 25 restaurantes gastronômicos num ano? Provavelmente não haja duas ou três mil pessoas no mundo capazes disso. Daí que se podem montar verdadeiras patranhas midiáticas, dar expressão mundial a um cozinheiro que não a tem.”
Assim, é fundamental que o leitor seja o crítico do crítico, pois quando um chef faz seu prato ele joga com a sua reputação e, quando um crítico o comenta, joga com o seu próprio prestígio.
Também os cozinheiros condicionam a crítica. Fazer crítica é caro, custa muito dinheiro viajar, indagar. Os jornais não estão dispostos a isso. As revistas de crítica são insolventes, como “GaultMillau” ou “Gambero Rosso”. A crítica exige um público, uma massa social, que financie a independência, que simplesmente não existe. Apenas alguns guias sobrevivem.
Eles falam de 5 mil restaurantes, por exemplo. “Você acredita que eles visitaram 5 mil estabelecimentos e pagaram 5 mil refeições? Por isso as pontuações sempre são altas”, afirma. Como no caso dos vinhos. “O grande crítico (Robert Parker? José Peñin?) escreve para os donos de bodegas, não para os apreciadores de vinhos, e suas pontuações começam em 90, entre 90 e 100. O negócio está em escrever para os bodegueiros.”
Assim, conclui, “é dificílimo para o crítico manter o equilíbrio entre o bom trato que está obrigado a dispensar ao cozinheiro e a credibilidade que deve ganhar com o leitor. Por isso há tão poucos bons críticos”.
Mas o pensamento crítico é o capital de Rafael, e ele não está disposto a contemporizar. “É preciso fazer uma Zara (cadeia de loja espanhola que populariza a vestimenta com “estilo”) da gastronomia, compreende?” Com isso quer dizer que a gastronomia, para fecundar a sociedade, precisa descer do pedestal, “deixar de oferecer cardápios seletos a 100 euros, para oferecer muito mais cardápios a 30 euros”.
Sem a crítica ao elitismo, não vê como prosseguirá a revolução gastronômica iniciada por um punhado de chefs talentosos de todos os recantos da Espanha. Os chefs ficarão a quilômetros de distância da população, discutindo técnicas, ingredientes, fazendo e falando o que queiram, sem qualquer eco na sociedade.
Garcia Santos não é ingênuo a ponto de achar que a gastronomia não seja um negócio voltado para o lucro –tanto é que, ele mesmo, é um empresário do setor, com seu guia e com seu congresso anual. E talvez sejam exatamente esses negócios, periféricos ao estrelato dos grandes chefs, o verdadeiro negócio… Enquanto jovens ingênuos, “covers” dos fogões, pensam em ficar ricos imitando Adrià e tantos outros. Quando diz que não se fica rico com gastronomia está atacando o fetiche em que a gastronomia se transformou.

O “new criticism” em gastronomia
Mas o trabalho crítico de Rafael Garcia Santos está longe de ser uma coleção de frases desconexas, de abordagens que se justifiquem pelo estranhamento que produzem. De forma consciente ou não, ele vem articulando ao longo dos anos um novo discurso crítico em gastronomia, à maneira do que foi o “new criticism” em literatura no início do século 20.
O “new criticism” rompeu com a idéia de que a obra literária só podia ser analisada sob o prisma de outra ciência, preferindo a análise imanente ou os aspectos estritamente literários da narrativa. Também deixou de lado a idéia de que a biografia do autor, assim como a sua intenção, eram chaves de intelecção da sua obra.
Para Rafael, de nada vale a tradição pela tradição, o filho que prossegue a culinária centenária da família. E também não se pode avaliar a justeza de um prato por realizar em maior ou menor grau os cânones da alta gastronomia, como foi no período pós-Escoffier até a nouvelle cuisine, que estabeleceu um novo cânone. Cada época tem o seu cânone, e é em função dele que a crítica se exerce como expediente que “arrasta” o fazer culinário para o campo do que efetivamente importa em termos de modernização do gosto e dos hábitos alimentares.
Assim, Rafael está convicto de que a obra gastronômica participa de seu tempo de uma maneira determinada: ou ela é inovadora, revolucionária, ou mera repetição do passado. E tudo deve ser analisado a partir do grau de ruptura que trás em si – a exemplo do que foi a nouvelle cuisine, firmando, por volta dos anos 1970, uma nova filosofia sobre o sentido do cozinhar, que orientou especialmente as obras de Guérard, Chapel, Troisgros, Bocuse, Senderens, Outhier, Vergé, e Haeberlin. A “atualização” daquela filosofia e o modo como ela influencia a moderna cozinha (espanhola, é claro) é assim apresentada por Rafael Garcia Santos2:
1 - A verdade em cozinha, como na arte, não existe: existem infinitas visões chamadas a enriquecer a cultura culinária.
2 - A única verdade é ser você mesmo, criar um estilo próprio com plenitude.
3 - O chef deve ser considerado pela imaginação e perfeição da sua obra, não por sua fonte de inspiração.
4 - Hoje como ontem é necessário reivindicar as matérias-primas nobres, sem que por isso se negue o laboratório culinário.
5 - Plasmar construções integrais e articular os elementos de um todo.
6 - Perseguir a expressão essencial; quanto maior a diferença que se marque com menos ingredientes ou componentes, ótimo!
7 - Colocar-se a naturalidade gustativa, táctil, olfativa, cromática… Como norma, preservar sabores, texturas, aromas e cores tal qual são.
8 - Há que se aprofundar o desenvolvimento de novas técnicas de cocção que mantenham plenamente a identidade dos ingredientes, acentuando a tendência a ressaltar as virtudes intrínsecas dos mesmos: a integridade, os seus sucos.
9 - Recuperar os molhos e não subordiná-los à estética. É preciso criar novos conceitos, com sabores mais nítidos, mais complexos, inéditos, assim como trazer corpos e texturas desconhecidas. Evitar os arco-íris palatais.
10 - Potencializar o caráter sensorial fazendo intervirem os múltiplos sentidos no desfrute de cada prato.
11 - É preciso conseguir que “o comensal se levante da mesa como se não houvesse comido”.
12 - Há que se assumir a história, questioná-la e questionar-se sempre.
Esta “filosofia” atualizada, essa “tábua da lei” que é um cânone contra qualquer outro cânone, é a chave para se entender a crítica de Rafael Garcia Santos e seu caráter partidário: quem não segue este cânone é contra ele, inimigo da revolução gastronômica e, portanto, um alvo a ser combatido.
Um segundo critério é o que o cozinheiro pretende fazer, o estilo que busca construir, a sua “filosofia pessoal” conforme declarada. É por ela que, dentro da corrente revolucionária, poderá se diferenciar, ser assimilado como um promotor da transformação em curso. Por fim, sua perícia técnica, sua criatividade e inovação pontuais completarão os parâmetros para julgamento da sua gastronomia.

Assim, a força metafísica da revolução em curso irmana, numa só missão, crítico e criticado, ao passo que a própria crítica mergulha na história como promotora do futuro. Nada de neutralidade axiológica! O crítico é um moralizador da história, parteiro da revolução, tendo deixado para trás aquele ponto de vista externo, pretensamente neutro, de que se nutrem os jornais que não querem criar problemas para si a partir de opiniões extremadas ou divergentes.
O crítico é quem aposta e se arrisca, descendo ao chão da história para travar os combates em curso; não o observador do vôo do pássaro de Minerva ao entardecer. Dessa perspectiva, sequer se pode dizer que seja um traidor do leitor, a quem os jornais pensam melhor servir oferecendo uma descrição neutra: “O leitor deve analisar o nível de sintonia que tem com o crítico. Sintonia que pode ser maior ou menor e que é determinada por vários fatores… Cada pessoa é um universo. Um mundo que pode coincidir mais ou menos com um crítico determinado. A mim me fascina a cozinha de vanguarda, se a você não agrada não tenho porque ser o seu crítico favorito”.
Mas uma coisa é certa: não se pode compreender Adrià sem Rafael, nem Rafael sem Adrià. São como uma só pessoa em planos distintos. Como foram, no passado, a culinária de Escoffier e a crítica do gastrônomo que se assinava Curnonsky.
Numa época de tanta mornidão crítica, em qualquer domínio da cultura, não deixa de ser estimulante topar com um baixinho invocado que veio de longe, nos chamando para a briga, bailando em seu tênis furta-cor.

Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de “Ensaios Enveredados”, “Bordado da Fama” e “Os Federais da Cultura”, entre outros livros. Acaba de publicar “Estrelas no Céu da Boca - Escritos Sobre Culinária e Gastronomia” (ed. Senac).

“Trópico”

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Uma aliança sem progressos

Pesquisa mostra as dificuldades das relações entre Brasil e Estados Unidos

Carlos Haag

Pesquisa FAPESP- Causou polêmica um discurso feito recentemente pelo presidente Lula em que ele afirmava: “Eu liguei e disse: ‘Bush, o problema é o seguinte, meu filho, nós ficamos 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar, pô? Resolve a tua crise’”. Apesar do tom casual, a frase revela algumas das muitas complexidades das relações entre Brasil e EUA. Somos, assim, tão próximos do “grande irmão”, como se dizia nos tempos da Guerra Fria? Os EUA tentam mesmo “atrapalhar” o Brasil ou nos vêem com relativa indiferença? “Os dois países são um casal estranho em suas relações bilaterais. Em Brasília ainda há uma enorme resistência a pensar um programa de engajamento cooperativo com Washington. Para grande parte da opinião pública brasileira, o governo Bush tem um projeto imperialista que terminará por limitar a autonomia daqueles países que expressam valores e interesses alternativos”, observa Matias Spektor, professor de relações internacionais da Escola Superior de Ciências Sociais/CPDOC e coordenador do MBA em relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

“Como não há uma visão comum em Brasília e em Washington sobre o valor estratégico do eixo bilateral, suas lideranças não têm um mapa para guiar o relacionamento. O Brasil fica preso à visão de que os EUA são sempre um obstáculo e nunca uma oportunidade e chegamos ao século XXI sem um fórmula satisfatória para conduzir os negócios com a maior potência do planeta”, avisa. Por que os dois maiores países do hemisfério Ocidental não conseguem estabelecer uma cooperação de alto nível no longo prazo?, pergunta-se o pesquisador. De uma coisa Spektor tem certeza: não concorda com a “tese da rivalidade emergente” (a visão de que o Brasil, ao industrializar-se, transformou-se em ameaça ao Norte), que pauta várias das respostas ao dilema do “casal” diplomático. O pesquisador encontrou outra via ao trabalhar em sua tese de doutorado, “Equivocal engagement: Kissinger, Silveira and the politics of US-Brazil relations (1969-1983)”, defendida no ano passado na Universidade de Oxford, Inglaterra. “A relação entre as duas nações foi pautada pela barganha mais do que por uma relação séria e o projeto foi motivado por ambições políticas e sujeito a objetivos que variaram ao longo da interação bilateral”, afirma. “O ponto crucial foi a assimetria entre os dois: se os EUA foram um elemento central na grande estratégia do Brasil, nós só aparecemos tangencialmente na grande narrativa das relações internacionais americanas do período.”

A narrativa a que Spektor se refere inicia-se com a indicação de Henry Kissinger como conselheiro de segurança nacional da administração Nixon, em 1969, e termina com a saída, em 1983, do diplomata brasileiro Azeredo da Silveira do cargo de embaixador brasileiro em Washington, passando por 5 anos como ministro das Relações Exteriores do governo Geisel. O foco nas duas figuras não é casual, pois, para o autor, o ponto “fraco” das tentativas de aproximação entre Brasil e EUA é sua quase total dependência do empenho pessoal desses dois personagens. Com suas saídas de cena, nos governos Carter/Reagan e Figueiredo, as relações bilaterais, observa, se estagnaram. “É verdade que são melhores do que nas décadas de 1970 e 1980, quando os dois países passaram da hostilidade à apatia mútua. Nos anos 1990 teve início um processo de sintonia fina que dura até hoje, mas parece que daí não passa.”

“O Brasil é a chave do futuro”, afirmou, em 1971, Nixon. Um dos primeiros presidentes americanos a “acreditar” nisso, ele, em verdade, seguia o novo ideal de visão global da Casa Branca pregado por Kissinger, que defendia a necessidade de os EUA manterem relações especiais com poderes-chave regionais. “Ele estava preocupado com o desenvolvimento potencial de ruptura do mundo pós-colonial, procurando uma fórmula para lidar com isso que não se baseasse apenas na coerção. Daí o conceito de ‘devolução’, visto como uma hegemonia benigna: devolver poder e responsabilidade para um grupo de Estados regionais influentes, uma transferência de uns EUA fortemente engajados na periferia para um mundo em que a estabilidade não teria que ser mantida por uma intervenção americana direta.” Nações como Brasil, Irã, Turquia, África do Sul, Indonésia, entre outras, foram reconhecidas como parceiras potenciais, capazes de levar à frente essa nova forma de hegemonia em nome da América. Daí, nota Spektor, o interesse inusitado (e problemático, já que boa parte da diplomacia americana discordava da importância brasileira) da administração Nixon pelo Brasil, a ponto de lançar uma nova política para o país. A escolha, diz o pesquisador, também se ligava com a preocupação crescente americana pelo decréscimo de sua influência na América Latina e as prováveis conseqüências disso em tempos de Guerra Fria. Segundo a nova visão da Casa Branca, esse declínio não se explicava apenas em razão da rivalidade com a União Soviética, mas, acima de tudo, pela ascensão de um nacionalismo, de um ativismo econômico em países como o Brasil, bem como pela influência que Europa e Japão passaram a exercer, em detrimento de interesses americanos.

Para Kissinger, ganhar o apoio desses Estados era uma forma de legitimar a hegemonia americana e isso significava fazer concessões, usar a linguagem da ‘igualdade’ e do ‘respeito’, em suma, abrir um canal direto entre Washington e essas nações periféricas para, em troca, consolidar a posição dos EUA no mundo. Daí a atenção dada ao Brasil”, afirma Spektor. Tanto fazia se esses países, entre eles o Brasil, não eram governos democráticos. “Para Nixon e Kissinger, esses regimes eram aliados melhores, pois, pensavam, democracias estavam sujeitas às mudanças da opinião pública. Mas não era apenas o anticomunismo dos tais países-chave que os transformava em alvo de interesse da diplomacia americana; antes, era fundamental sua capacidade em oferecer aos EUA um grau de estabilidade e previsibilidade na conduta cotidiana das relações bilaterais.” Aqui, porém, o tom era outro. “Quando se inicia a aproximação entre os dois países, predominava, entre os brasileiros, a idéia de que era possível ao Brasil ganhar mais poder e influência global com essa relação e, ao mesmo tempo, reafirmar sua autonomia: em troca de pouco, esperávamos conseguir muito.”

Segundo o pesquisador, para apoiar esses cálculos diplomáticos do Brasil havia o fato de que o engajamento com os EUA permitiria aos generais manter controle em casa sem alienar a opinião pública nacionalista. “Nesse sentido, para os brasileiros, essa ligação foi uma ferramenta para construir uma política nacionalista conservadora com apoio dessa suposta relação ‘especial’ entre Brasil e EUA.” A reforçar esse pensamento estava a dificuldade americana em traduzir poder em influência na América Latina, o que levou as administrações a prestar atenção no Brasil por sua geografia, recursos, desenvolvimento industrial, postura anticomunista etc. Já para a liderança brasileira, observa o autor, o crescimento da economia trouxe novas ambições internacionais, o que deu à aproximação americana um interesse renovado. “Em Brasília, passou-se a ver os EUA como instrumental mais do que detrimental para o desenvolvimento nacional e para o objetivo de maior inserção global.” O início foi pouco promissor, no entanto. “A administração Médici aceitou a abertura americana com a intenção de legitimar o acirramento do controle interno. Quando o general visitou a Casa Branca, estava mais interessado em aparecer numa foto com Nixon do que discutir política mundial.”

Apesar da melhoria no nível da interlocução entre os países, a chegada em cena de Geisel e Silveira, em 1974, marcou a consolidação de uma política internacional ativista por parte do Brasil, o que trouxe nova complexidade ao projeto bilateral. “Geisel via a melhoria nas relações entre as duas nações como uma chance de abrir portas para o ativismo brasileiro no mundo”, nota Spektor. Ainda assim, era um momento histórico: “Nunca antes essa dupla tentou coordenar tão estreitamente suas respectivas políticas externas e nunca antes seus diplomatas observaram-se tão mutuamente para acertar o passo”. Tudo, porém, estava centralizado nas figuras de Kissinger e Silveira, ou seja, a aproximação se dava a despeito da burocracia diplomática dos dois países, e não em função dela. “E relações pessoais dificilmente são suficientes para transformar relações entre Estados.” Para piorar, Azeredo, em sintonia com Geisel (que rejeitou vários convites para visitar os EUA), estava “obcecado com a soberania e autonomia nacionais”. Ele acreditava, nota Spektor, que a defesa do interesse nacional estava na entrada do Brasil no clube seleto dos Estados influentes do planeta. “O Brasil, segundo ele, merecia um status especial pelo que era e não pelo que poderia ser para os EUA. Para os brasileiros, o engajamento era também sobre controlar a política doméstica: relações com os EUA era palatável para o nacionalismo, força-motriz da transição lenta e negociada desejada por Geisel.”

Foram anos de protocolos, encontros, agendas, correspondências, negociações difíceis, sem que se chegasse a um consenso de como se estabelecer essa relação bilateral. Não se pode negar o esforço de Kissinger para que ela funcionasse, aceitando muitas exigências brasileiras e “engolindo sapos” diplomáticos, que incluíram a expansão, por parte do Brasil, da agenda bilateral muito além dos seus limites previstos, com a inserção de tópicos espinhosos para a América como as revolucionárias Cuba e Portugal e a independente Angola; proliferação nuclear (com a compra de tecnologia nuclear alemã, apesar de pressões americanas para impedir o acordo entre os dois países); situação no Oriente Médio; direitos humanos etc. “O Brasil resistiu a qualquer discussão sobre questões sul-americanas, rejeitou qualquer comprometimento na luta anticomunista e enfatizou um status de prestígio nas relações internacionais.” Kissinger, em boa parte, observa o autor, aceitou essas novas orientações. O Brasil começava a se aventurar em áreas em que nenhum outro país latino-americano havia ousado, com exceção de Cuba. “Como previu um relatório da CIA: ‘Há uma sensação de que o Brasil ‘chegou’, o que vai levá-lo a diferir mais e mais com os EUA em mais e mais assuntos’.” Isso não ajudou muito a situação já precária de Kissinger, fustigado pela burocracia americana que não concordava com seus esforços em conceder um status privilegiado ao Brasil.

Com o aumento da rejeição da opinião pública e do Congresso americanos a alianças com regimes ditatoriais, continua o pesquisador, caíram as esperanças de consolidar efetivamente uma parceria entre as duas nações. O novo presidente, Jimmy Carter (que assume em 1977), já em sua campanha eleitoral, falou duramente contra um engajamento com o Brasil, quanto mais de dar a ele qualquer privilégio diplomático. Temas como poder nuclear e direitos humanos criaram tensão à incipiente ligação bilateral, que levou as relações entre Brasil e EUA ao seu nível mais baixo. “Os brasileiros se sentiram alienados pela forma e pela substância da política exterior de Carter, transformando as instituições de engajamento em escudo para resistir a pressões americanas. Apenas nos 2 últimos anos da administração Carter é que se retomou o ideal da devolução e se tentou retomar um contato Brasília-Washington.” A chegada de Reagan ao poder colocou uma pá de cal nessa aproximação, já que as prioridades do novo presidente deslocaram-se da América do Sul para a América Central, onde o Brasil tinha pouco a dizer ou fazer.

“Passaram-se décadas desse projeto malfadado, mas muitos dos problemas que afligem a ligação Brasil-EUA permanecem análogos”, observa Spektor. Apesar dos elogios feitos pela administração de George W. Bush ao país, “o gap entre as manifestações oficiais e a realidade das relações bilaterais permanece grande e com muitas dificuldades”. Para Spektor, é possível mesmo se observar hoje nos EUA um tímido reavivar do “devolucionismo”. Mas o Brasil permanece aferrado ao espírito ativista dos tempos da dobradinha Geisel-Silveira, aliás, nota o autor, elogiada pelo atual governo. “É uma pena, pois a noção de autonomia, com sua ênfase no desenvolvimento doméstico mais do que na produção da ordem internacional, permanece hoje como há 30 anos. E apesar das ambições do Brasil de ter status especial, o argumento de que ele tem algo diferente a contribuir para a sociedade internacional nunca é decifrado com clareza.”

“Fapesp”

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A feminilidade como déficit

Maria Cristina Franco Ferraz

Na era dos hormônios, a menopausa deixa de ser vista como etapa natural e passa a ser tratada como doença

Em 15 de abril deste ano, os jornais a “Folha de S. Paulo” e o espanhol “El Mundo” divulgaram uma curiosa pesquisa realizada pela universidade de Cambridge: certos hormônios estariam por trás da tomada de decisões em bolsas de valores, exercendo portanto grande influência sobre a economia mundial.
Um deles, a testosterona, estaria ligado à auto-confiança e à competitividade; outro, o cortisol, exerceria um importante papel nas respostas a situações de estresse e de incerteza. A pesquisa constatou, por exemplo, que níveis mais altos de testosterona em operadores da bolsa de Londres, verificados no início do pregão, levaram a um dia mais produtivo e bem sucedido. Seu excesso, entretanto, à irracionalidade na tomada de decisões e à tendência nociva de correr riscos extremos. Esses esteróides seriam, portanto, uma espécie de “substrato biológico” para os mercados de ações.
Como se pode observar, tendemos atualmente a associar todas as esferas da vida, até mesmo as frenéticas operações do mercado de ações, aos hormônios que circulam em nossos “corpos elétricos” –como já caracterizava, desde o século XIX, o poeta americano Walt Whitman. Nossos prazeres, sucessos, fracassos, incômodos e tensões são crescentemente atribuídos a hormônios que atuam no cérebro, tais como os chamados hormônios do estresse, a endorfina e a serotonina.
Aos poucos, estes termos científicos vão penetrando no vocabulário mais cotidiano. Não é incomum ouvirmos dizer, por exemplo, que malhar libera endorfina, provocando uma agradável sensação de prazer e de bem-estar. Essa nova ênfase atinge, atualmente, tanto homens quanto mulheres, mas é sobre as mulheres que ela tende a recair de modo mais evidente e disseminado.
Isso não ocorre por acaso. Em nossa cultura, a mulher sempre foi mais marcada como gênero e especialmente caracterizada por sua curiosa anatomia. No século XXI, a experiência subjetiva da mulher passa a ser relacionada (por ela mesma, inclusive) cada vez mais à modulação de seus níveis hormonais. Agora, ao que tudo indica, vai saindo de cena a equação mulher-útero, que marcou a modernidade, para dar lugar à associação contemporânea mulher-hormônio.
No livro “Memória”1, o neurocientista Iván Izquierdo explica que a oxitocina, principal hormônio ligado ao parto e às contrações uterinas, afeta neurônios da amígdala, provocando certo efeito amnésico. Segundo alguns neurocientistas, esse hormônio que atua sobre o cérebro seria responsável pelo próprio esquecimento da dor do parto. Ou seja: não seria a rica experiência da maternidade (ou qualquer outro fator de cunho existencial) que faria esquecer a dor do parto, mas a ação da oxitocina sobre os neurônios.
Não se trata nesse caso, como pode parecer à primeira vista, da mera tradução científica do que antes ingenuamente se atribuía à esfera da experiência humana. Trata-se de um novo modo de se pensar e de se experimentar as relações entre o corpo e a subjetividade.
Como a ciência funciona hoje como lugar praticamente exclusivo de produção de verdades, tendemos por isso a acreditar que a oxitocina seria a causa finalmente descoberta do intrigante esquecimento da dor do parto. Talvez valha a pena, entretanto, seguir uma outra pista. Não para explicar esse suposto fenômeno, mas para refletir sobre o que esse tipo de explicação sugere e supõe.
Suspeitando nietzscheanamente das verdades como produções históricas, podemos identificar nessa maneira “fisicalista” de explicar a experiência vivida um dos traços marcantes da cultura contemporânea.
No caso específico da mulher, a tendência a reduzir a experiência aos hormônios parece apontar para uma nova maneira de se entender a feminilidade, que reforça certos valores e termina por estabelecer novos modos de se auto-descrever. Cabe então pensar algumas implicações filosóficas, éticas e culturais dessa visada.
Do século XVIII até mais da metade do século XX, a vida da mulher estava vinculada principalmente às funções de seu útero. Como ressaltou Michel Foucault2, em sua face positiva, destacava-se a figura socialmente ajustada da mãe.
O reverso negativo e patológico da mulher-mãe se evidenciava na figura da mulher “nervosa”, configurada na virada do século XIX ao XX como “histérica”. Não se pode esquecer a importância da noção de histeria para a constituição do próprio campo da psicanálise. Cabe também lembrar que o termo “histeria” é, em grego, etimologicamente ligado a útero. É essa associação predominante mulher-útero, historicamente determinada, que parece ter se alterado a partir da segunda metade do século passado.
Marcando essa mudança, nos anos 60, Robert Wilson divulgou e promoveu intensamente a terapia de reposição hormonal para todas as mulheres, “da menopausa ao túmulo”. O título de seu best-seller de 1966, “Feminine Forever” (Para sempre feminina), lembra curiosamente certos lemas publicitários para a venda de produtos cosméticos.
A terapia de reposição hormonal, a partir de então maciçamente difundida, apóia-se no pressuposto de que o declínio da produção de estrogêneo na menopausa acarreta um progressivo processo de desfeminização.
Feminilidade é tendencialmente reduzida a um efeito de processos hormonais, passando a ser radicalmente anexada ao campo da medicina. Além disso, a menopausa deixa de ser encarada como uma etapa natural no processo de envelhecimento do corpo da mulher. Associa-se à doença, por meio da expressiva noção de “déficit”.
Aliás, o próprio envelhecimento já tangencia o patológico, o que aponta para um dos temores que mais assombram nossa cultura: o horror aos efeitos devastadores da passagem do tempo sobre nossos corpos e cérebros, que devem se manter sempre “fit”, saudáveis, ativos e produtivos (termos praticamente equivalentes).
Obviamente, essa equação mulher-hormônio representa uma grande oportunidade para negócios altamente lucrativos, tanto no campo da medicina mais ortodoxa (terapia de reposição hormonal, por exemplo) quanto nas vias mais alternativas (uso de substâncias fitoterápicas, suplementos vitamínicos etc.).
Como a diminuição hormonal na menopausa atinge mulheres de todas as raças, camadas sociais e continentes, a totalidade das mulheres de meia-idade se transforma em um vasto grupo potencial de tratamento médico ou alternativo. Aquilo que a natureza deixa de produzir como por uma espécie de equívoco se transforma em um imenso nicho de mercado para a poderosa indústria farmacêutica.
A noção de “déficit”, significativamente extraída do campo da economia, sugere que o estrogêneo deveria continuar a ser produzido pelo corpo da mulher até o final de sua vida. Nesse sentido, ter diminuída sua produção representa uma falha a ser minimizada. Notícia bastante alarmante, em uma época em que a saúde se espetaculariza na superfície dos corpos e se espelha na imagem corporal, afetando a tão proclamada auto-estima.
O declínio do estrogêneo tende então a ser vivido de modo muito mais angustiado, alimentando a demanda por soluções medicamentosas ou alternativas, uma vez que afeta a própria feminilidade, remetida tão-somente ao corpo biológico e à imagem de si.
A terapia de reposição hormonal é uma das expressões da lógica do risco que impera em nossa cultura: nesse caso, riscos de osteoporose e de futuras doenças cardiovasculares. Esses riscos de doenças futuras teriam de ser prevenidos desde sempre, ao longo de toda a vida. Idealmente, mesmo antes do nascimento. Essa mentalidade não se restringe ao caso da menopausa, mas se estende às diversas áreas da vida contemporânea. A ênfase na noção de risco também move, por exemplo, projetos de pesquisa genética.
Como acaba de ser divulgado, o recente Projeto Genoma 1000 pretende mapear e catalogar o DNA de mil indivíduos de todas as raças e continentes. Esses catálogos servirão para rastrear e identificar predisposições para certas anomalias e doenças. Ou seja: estar doente é cada vez mais antecipado, solicitando vigilância e atenção permanentes, ao longo de toda a vida, estendida à etapa intra-uterina.
Na lógica do risco, estamos todos virtualmente doentes (e deficitários), do útero ao túmulo. Somos instados a dedicar nosso tempo prevenindo o que certamente está por vir -a menos que não cheguemos a viver até lá. Um dos efeitos dessa crença é, obviamente, a crescente medicalização do corpo tanto de homens quanto de mulheres.
A pesquisadora australiana Jennifer Harding3 observa que embora diversas feministas tenham polemizado sobre os possíveis malefícios (e riscos) da controversa terapia de reposição hormonal e proposto alternativas não medicamentosas (mudança de estilo de vida, caminhadas, “fitness”), elas não deixaram de endossar os pressupostos implicados na terapia de reposição hormonal.
Eis, em síntese, alguns deles: a lógica do risco; a desvalorização do envelhecimento, cada vez mais associado a um estado meramente deficitário, a uma dependência onerosa em todos os sentidos (material e afetivo); a perspectiva de manutenção a todo preço de uma saúde intimamente vinculada à jovialidade e à produtividade; a visão da menopausa como doença ou risco de doenças futuras e, sobretudo, a equação feminilidade/hormônio.
Um dos valores embutidos nessa equação diz respeito à relação entre feminilidade e imagem do corpo jovem, saudável, preferencialmente pouco adiposo. A lógica da produtividade, da performance bem-sucedida e do curtíssimo prazo, própria às empresas, parece se estender a todos os domínios da vida.
Na cultura da performance e da descartabilidade, passa a ser praticamente impossível atribuir valor ao enriquecimento da experiência humana ao longo de uma vida. Nesse contexto, o envelhecimento só pode ser vivido como deficitário e angustiante. Por outro lado, a debilitação do corpo e seu eventual adoecimento tendem a ser experimentados como pesados ônus a serem pagos pelos indivíduos, pelas famílias e pela sociedade.
Essa cultura da prevenção e da seguridade contra riscos embute a idéia de que temos o dever de nos precavermos contra doenças, como se pudéssemos controlar através de nossas escolhas e comportamentos todos os seus vetores. Se formos bons cidadãos, sujeitos moralmente decentes, devemos nos responsabilizar não apenas pelos hábitos que poderiam levar à doença, mas também pela preocupação permanente com a produção da própria saúde. Quem não cuida bem de si, bom sujeito não é: eis o lema implícito em muitas de nossas práticas.
Ora, no caso das mulheres com poder aquisitivo suficiente para “cuidarem de si”, esse cuidado implica manter-se saudavelmente ativa e ser feminina “forever”. O problema, nesse caso, se agrava, pois como a menopausa ocorre relativamente cedo em uma vida que tende a se estender muito além da meia-idade, os cuidados terão de ser intensificados, e a vigilância, reforçada.
A equação feminildade/hormônio alcança igualmente outras etapas de vida da mulher. Esse é o caso das populares TPMs, levadas até mesmo em conta em julgamentos de crimes, na condição de circunstâncias atenuantes.
Um artigo no jornal “O Globo”4 intitulado “O país da TPM”, informa que uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas e pelo Centro de Pesquisa em Saúde Reprodutiva de Campinas revela que 80% das brasileiras entrevistadas são ou foram afetadas pela “Síndrome Disfórica Pré-Menstrual”, comprovando o enraizamento desse modo de lidar com a própria experiência do corpo e de seus afetos.
Nesse caso, podemos salientar que a própria situação da pesquisa, ao colocar o entrevistado diante de perguntas a que deve responder, também colabora para a consolidação de crenças. Pois, como mostraram filósofos, estudiosos da linguagem e da comunicação, ser confrontado a perguntas e respondê-las tem por efeito anexar o sujeito falante a certos horizontes de sentidos.
De nervosa e histérica, a mulher passa a ser mero efeito (sempre instável) de seus hormônios. Evidentemente, essa equação tende a desinvestir o sujeito de sua potência transformadora de mundo e de si. Aliás, o tema do cuidado de si, eticamente tratado por Michel Foucault, foi parcialmente apropriado (à revelia de sua filosofia) pela cultura da performance e da imagem de si. Nessa cultura, o que parece estar em questão é sentir-se bem a todo custo, regulando o corpo e seus hormônios pelo ritmo e pelo compasso adequados a uma gestão otimizada da vida.
Como a curiosa noção de “auto-estima”, cada vez mais ligada à saúde e ao bem-estar, está relacionada à imagem de si, a menopausa se apresenta como um fenômeno orgânico que ameaça a própria felicidade das mulheres.

Em vez de se alistar nessa batalha inglória contra o tempo, resta identificar e questionar esses valores e –por que não?- inventar outros. Afinal, nosso mundo não parece carecer de mais egos hiperinflados, de imagens plásticas e saradas do corpo.
Nesse sentido, vale a pena reativar o tema do “amor ao mundo” (Hannah Arendt) ou o da “fidelidade à Terra” (Friedrich Nietzsche). Talvez no lugar da auto-estima, resta propor (e efetuar) algo tão raro que nem sequer se encontra expresso: a alter-estima, uma espécie de conversão da estima em direção ao outro.

Maria Cristina Franco Ferraz
É doutora em filosofia (Paris I-Sorbonne), professora titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de “Nietzsche, o Bufão dos Deuses”, “Platão: As Artimanhas do Fingimento” e “Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos” (todos pela Relume Dumará), entre outros. É também organizadora da coleção “Conexões”, da editora Relume Dumará.

1 - Cf. Izquierdo, Iván, “Memória” (Artmed, 2002), p. 66

2 - Cf. Foucault, Michel, “História da Sexualidade I” (Graal, 1980), p. 99.

3 - Cf. Harding, Jennifer. “Bodies at Risk: Sex, Surveillance and Hormone Replacement Therapy’’. In: PETERSEN, A. e BUNTON, R. (orgs.). “Foucault, Health and Medicine” (Routledge, 2000).

4 - “O Globo’’ de 06/04/2008, sessão “Saúde”, p. 44.

“Trópico”

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Estado Policial, o que teme a grande imprensa?

Bastou uma bem sucedida operação da Polícia Federal levar à prisão um banqueiro e outros notáveis do andar de cima, para a grande imprensa, em editoriais e colunas, alertar que” em plena democracia se observam graves agressões a direitos constitucionais por parte do braço armado e jurídico do Estado.”

Gilson Caroni Filho

Virou moeda corrente o emprego do termo “Estado policial” como forma de classificar um conjunto de ações que, como destacou Leandro Fortes, na revista Carta Capital ( edição nª 504, de 16 de julho de 2008) procurava desbaratar um esquema “que concentra a própria alma das relações entre política,altas finanças e interesses privados impublicáveis”. O mundo dá voltas, mas não da forma como deseja o baronato midiático.

Pensar a realidade brasileira à luz da democracia é rever o passado, entender o presente e refletir sobre o futuro, tendo como referência o comportamento da imprensa ante os princípios que, unidos, formam o ordenamento democrático pleno: participação, igualdade, liberdade e solidariedade.

Em algum momento, no atual governo, a Polícia Federal sintetizou substancialmente uma nova ordem que se contrapusesse antiteticamente ao Estado de direito? Apresentou-se como dimensão não só mais limitada, mas também degenerativa em relação a ele? Onde, para justificar a grita, ocorreu revogação de direitos individuais ou supressão de direitos? A resposta é simples. No imaginário de um poder que nunca foi independente dos interesses corporativos e de classe.

Os que hoje se apresentam como fiadores do regime democrático, instâncias de fiscalização dos Poderes, têm uma folha corrida invejável. Sempre que o aparato estatal tentou se constituir como Estado Social, em resposta direta às necessidades substanciais das classes subalternas existentes, o apoio ao retrocesso institucional foi imediato.

Os que hoje se chocam com algemas e supostas pirotecnias nunca hesitaram em legitimar torturas, extermínios e supressões de direitos. Quando foi preciso, não negaram sustentação a que o diálogo democrático fosse substituído pela imposição autocrática. A história da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal do Brasil se confunde com golpes e “liberalizações sobre controle”

O “Clube da Lanterna”, criado por Carlos Lacerda, foi a matriz discursiva de uma imprensa que nunca deu tréguas a governos democraticamente eleitos. Os principais órgãos de imprensa, com honrosas exceções, atuaram de forma decisiva tanto na formação de consensos da inviabilidade moral e política da preservação dos mandatos, quanto nas soluções intra-elites para resolução dos impasses..

Sequer se deram ao trabalho de atualizar métodos. Em março de 1956, o Globo estamparia em manchete que ”A UDN abre fogo contra Juscelino”, reproduzindo discurso proferido na tribuna da Câmara contra o presidente:

“A verdade é que graves escândalos se processam aos olhos do presidente da República, e, ao que tudo indica, com a sua conivência ou, pelo menos, complacência. Suas marchas e contramarchas, afirmações e negativas, estados alternados de euforia e depressão tornaram-no, muito cedo, o mais fraco, hesitante, omisso e desautorizado presidente da República.” *

Transformar intenções em gestos e declarações em fatos faz parte da tradição jornalística brasileira. Importante destacar que o trecho acima foi publicado há 52 anos. Qualquer semelhança com o que é visto nas primeiras páginas da grande imprensa hoje não é coincidência, é método.Uma aula de jornalismo comparado, no tempo e no espaço.

Não muito distinto é o noticiário editorializado do Estado de S. Paulo, em 7 de abril de 1964: “O ex-presidente João Goulart teria sido visto embarcando para o exílio carregando sacos de dinheiro”. Expediente narrativo tão grotesco quanto surrado. O objetivo, como hoje, é claramente golpista. Trata-se de conquistar o apoio da classe média, tradicionalmente mais receptiva aos apelos moralizantes. **

Mas talvez os mais emblemáticos exemplos de como o jornalismo, que hoje se apresenta como ferramenta da soberania popular, “enfrentou” um Estado Policial, venha de O Globo, Folha e Estado, nos anos de chumbo. Defendendo o regime militar de acusações de tortura, o diário da família Marinho, destacou em editorial intitulados “Torturas?”, publicado em 1969.

“‘O Brasil está sendo apresentado em vários países da Europa Ocidental como sede de um regime que colocou a barbárie no Poder, jornais franceses, alemães, belgas, austríacos, ingleses, holandeses, italianos publicam freqüentemente matérias fantasiosas a respeito de ‘banhos de sangue’ que aqui ocorreriam de torturas etc. (…) 0 Governo está no dever de destruir todas as mentiras que se dizem no exterior contra o regime brasileiro, que, aliás, salvou o País dos mais terríveis torturadores’”.

A Folha, da família Frias, no ano seguinte, mostraria toda sua “capacidade de resistência” à ditadura.

“‘O país encontra-se em paz, em calma (…) A economia está revigorada (…) Planos de alto valor social e econômico estão em execução - a Transamazônica, o Programa de Integração Social, a campanha contra o analfabetismo etc. (…) Apesar disso, insiste-se lá fora em denegrir a imagem do Brasil (…) Não há outra explicação para essa campanha: má-fé mesmo, uma espécie de represália por não termos permitido que deitasse raízes aqui uma ideologia totalitária e materialista que acredita encontrar na América Latina campo propício para sua expansão’.”

O Estadão também não negaria munição às práticas dos porões, transformadas em política de Estado.

“‘A opção dos governos que se seguiram à Revolução de 1964 a favor do sistema econômico da livre iniciativa é responsável pelo que hoje já é considerado como o ‘milagre econômico brasileiro’, e o êxito da política econômica brasileira é a principal causa da campanha anti-Brasil, promovida nos países do Ocidente por elementos que, esquecidos das causas de seu progresso econômico e servindo, consciente ou inconscientemente, aos propósitos do comunismo internacional, remendou aos países do ‘Terceiro Mundo’ a receita moscovita do ‘desenvolvimento não capitalista’ tipo nasserista, peruano ou ‘democrata cristão’ chileno”.

São esses mesmos veículos que hoje se apresentam como garantidores da titularidade dos nossos direitos constitucionais. São eles que vêem no governo uma inequívoca inflexão autoritária. Alguém acredita em bruscas rupturas com o passado? Conversões súbitas não merecem melhor análise. Ou, quem sabe, o problema não resida no Estado Policial. Mas em quem o presida.

*http://decadade50.blogspot.com/

** Mar de lama. Retrato do Brasil,v.II,p.389-391,1984.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Carta Maior”

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A mobilidade do capital variável e da força de trabalho

David Harvey

A força de trabalho é uma mercadoria, mas as condições que governam sua mobilidade são muito especiais. É a única mercadoria que pode chegar ao mercado por seus próprios pés. Portanto o termo “mobilidade do trabalho” ocupa uma posição especial no discurso econômico. Na teoria burguesa, e frequentemente na linguagem cotidiana, refere-se à liberdade do trabalhador para vender sua força de trabalho quando e aonde quiser, a quem ele deseja e para os propósitos que lhe convém. Essa liberdade de contrato é crucial para as concepções burguesas dos direitos humanos e das liberdades civis. Marx não nega a importância destas liberdades positivas, mas insiste em que se veja em relação com o lado mais obscuro das coisas. Ou seja, o trabalhador “é livre num duplo sentido, pois de uma parte pode dispor livremente de sua força de trabalho como sua própria mercadoria, e de outra parte, não tem outras mercadorias que oferecer; pode-se dizer que está solto, livre de todos os objetos necessários para realizar por conta sua própria força de trabalho” (O capital, I p.122). “Liberados” pelo processo da acumulação originária do controle sobre os meios de produção (incluindo o acesso à terra), a maioria dos trabalhadores não tem outra opção se não vender sua força de trabalho ao capitalista a fim de sobreviver.

A dualidade desta liberdade se traduz em formas radicalmente diferentes de ver sua mobilidade geográfica (1) . Como sujeitos criativos (veja as pp. 111-119), os trabalhadores vagam perpetuamente pelo mundo tratando de escapar das depredações do capital, evitando os piores aspectos da exploração, sempre lutando, às vezes com algum êxito, para melhorar sua vida. O capital deve necessariamente adaptar-se a este processo, e na medida que isto sucede os trabalhadores dão forma à história e a geografia do capitalismo. No entanto, concebido como um objeto dominado essencialmente pelo capital, o trabalhador não é outra coisa que capital variável, um componente do próprio capital. As leis que governam o movimento do capital variável estão incrustadas dentro das leis que regulam a mobilidade e acumulação do capital em geral.

Marx insiste no segundo destes pontos de vista no livro O Capital. Ao fazê-lo se contrapõe aos mitos burgueses da suposta liberdade do trabalhador. Por conta das condições gerais do trabalho assalariado, a liberdade do trabalhador para mover se converte exatamente no seu contrário. Na busca de emprego e de salário para viver, o trabalhador se vê obrigado a seguir ao capital para onde este vá. Isto implica a “abolição de todas as leis que impedem que os trabalhadores se transfiram de uma esfera da produção a outra e de um centro local de produção a outro”, e a eliminação de “todas as barreiras legais e tradicionais que impediriam que [os capitalistas] comprarão esta ou aquela classe de força de trabalho” (O capital, III, p.189; Resultados imediatos do processo de produção, p. 1013). Igualmente traz consigo a alteração e a destruição das formas de vida e de sustento tradicionais por meio da acumulação originária, um processo que Marx considera extensamente. Também força os capitalistas a adotar processos de trabalho que não dependem das habilidades tradicionais monopolizadas. Isto tem muitas implicações para o trabalhador. A “indiferença” do capital às formas determinadas que toma o processo de trabalho se estende imediatamente ao trabalhador, enquanto que os “trabalhadores livres” devem aceitar que “seu trabalho sempre produz [para eles] o mesmo produto, dinheiro”. “A princípio” sempre devem estar “prontos e dispostos para aceitar qualquer variação possível em… [sua] atividade que promete recompensas mais altas”. Os salários diferenciais proporcionam então os meios para coordenar os movimentos dos trabalhadores aos requerimentos do capital. A versatilidade e mobilidade geográfica da força de trabalho, assim como a “indiferença” dos trabalhadores ao conteúdo do seu trabalho são essenciais para a “fluidez do capital”. Marx opina que o país onde estas condições “aparecem mais viva é os Estados Unidos” (Resultados imediatos do processo de produção, pp. 1014). Sob estas condições, “a liberdade do trabalhador” se vê reduzida, na prática, à “liberdade do capital” (O capital, I, p.610). Quanto mais liberdade o trabalhador tenha, mais facilmente o capital poderá adotar novos processos de trabalho e aproveitar as situações superiores. A livre mobilidade geográfica da força de trabalho parece ser uma condição necessária para a acumulação do capital.

Esta premissa não está livre de contradições. Se a mobilidade geográfica da força de trabalho tem de satisfazer as necessidades do capital, então a liberdade absoluta do trabalhador para se mover deve ficar circunscrita estritamente. Por exemplo, o exército de reserva dos desempregados, a quem a mudança tecnológica “liberou” cerimoniosamente de seus meios de vida, pode criar condições favoráveis para a acumulação posterior só caso se segue estando disponível para o capital. Isto por sua vez significa que deve permanecer em seu lugar. Os requerimentos legais ou outros mecanismos sociais devem bloquear as rotas de escape; por exemplo, a propriedade da terra e a renda impedem aos trabalhadores regressar à terra e assim escapar das garras do capital. Tampouco se pode permitir que se extinga o exército industrial de reserva, a menos que o possa absorver “elementos vitais primigênio do campo” ou mobilizar o exército industrial de reserva latente, em contraste com o ativo (O capital, I, pp.212, 544). Do contrário, o capital deve encontrar a forma de manter vivo e em seu lugar um exército industrial de reserva, por meio de prestações aos desempregados, seguro social, planos de assistência, etc. Os capitalistas individuais não podem assumir facilmente estes encargos, que no geral recai sobre o Estado.

Então surgem vários dilemas. Um sistema de apoio social, como a legislação e regulamentação da jornada de trabalho nas fábricas, é inerentemente algo pelo que vale a pena lutar desde o ponto de vista da classe trabalhadora. As condições em que vive o exército de reserva é um motivo da luta de classes, já que resulta problemático decidir quem vai pagar o custo e como o capital pode manter seu acesso às reservas de trabalho. Os diferentes governos podem discutir este assunto; mas o mais importante de tudo, desde o ponto de vista do presente argumento, é que a “livre” mobilidade da força de trabalho se vê obstaculizada pelo desejo dos capitalistas de manterem em seu lugar reservas de trabalho. Este princípio se torna mais evidente quando os trabalhadores possuem habilidades ou quando os capitalistas investem em educação, entretenimento no trabalho, serviços de saúde, etc. As qualidades da força de trabalho se tornam importantes. Marx menciona, por exemplo, que durante a penúria do algodão da década de 1860 em Lancashire, os “fabricantes fizeram um acordo secreto com o governo para colocar os obstáculos possíveis a imigração, em parte para ter pronto o capital investido na carne e no sangre dos trabalhadores” (O capital, III, p.142). São abundantes as táticas das empresas para manter os trabalhadores preferidos vinculados a elas. As políticas de imigração e emigração podem ser manipuladas ao interesse dos próprios capitalistas, ao mesmo tempo as empresas podem conferir elas mesmas direitos de antiguidade não transferíveis e contratos de pensão que atuam como barreiras ao movimento. Inclusive a mobilidade geográfica pode ser controlada em parte dentro do mercado interno de trabalho das grandes corporações por meio de ascensão e planos de incentivos. Assim, pode-se coordenar mobilidade social e geográfica da força de trabalho de acordo com necessidades particulares. Entretanto, estas necessidades particulares não são necessariamente compatíveis com os requerimentos gerais da acumulação. Os capitalistas individuais ou as frações do capital podem, para favorecer seus próprios interesses, frear a mobilidade da força de trabalho de maneira que seja prejudicial à reprodução do sistema capitalista em geral. Por estas razões, a “livre” mobilidade da força de trabalho fica reduzida a uma reviravolta de requerimentos contraditórios, inclusive quando se vê puramente do ponto de vista do capital.

A mobilidade da força de trabalho também tem que ser entendida no contexto dos processos que governam sua produção e reprodução. Requer muitos anos para formar um trabalhador e as habilidades, atitudes e valores que ele incorporou são difíceis de mudar. Alem do mais, a força de trabalho é a única mercadoria produzida fora das relações de produção diretamente capitalistas. Os trabalhadores criam suas próprias famílias, e mais refinadas que sejam as instituições burguesas que as rodeiam, a reprodução da força de trabalho sempre fica fora do controle direto dos capitalistas. No entanto, é preciso infra-estruturas sociais e físicas de grande duração e às vezes impossíveis de se mover, difíceis de construir e igualmente difíceis de desmantelar ou transformar, para facilitar a produção da força de trabalho de certa qualidade e quantidade (2). Essas infra-estruturas podem também absorver quantidades consideráveis de capital (principalmente em forma de dívida do governo).

A oferta da força de trabalho também mostra necessariamente diferenciações internas. Para começar, a força de trabalho como mercadoria sempre tem um aspecto de “produto conjunto”: homens, mulheres e crianças, velhos e jovens, debilitados e fortes, todos estão disponíveis para a exploração. Em segundo lugar, as infra-estruturas sociais que ajudam a produzir força de trabalho de tipo podem inibir a criação de outro. Esta é a lógica da diferenciação residencial nas metrópoles contemporâneas, posto que as áreas organizadas para a reprodução de profissionais são necessariamente diferentes às que se destinam à reprodução dos operários. Quando se refere às diferenciações históricas, religiosas, raciais e culturais, esta tendência para a especialização geográfica na reprodução social pode tomar uma forma ainda mais enfática. Os processos de reprodução social se cristalizam então dentro de uma espécie de coberta feita de retalhos, dividida pela especialização local, inter- regional e inclusive internacional. Esta coberta de retalhos pode se relacionar com marcados (determinados) diferenciais no valor e no valor da produtividade da força de trabalho.

Os capitalistas podem aproveitar estas diferenciações, e de fato às usam ativamente para dividir e governar a classe trabalhadora, daí a importância do racismo, do sexismo, do nacionalismo, e os preconceitos religiosos e étnicos para a circulação do capital. No entanto, ao fazê-lo, os capitalistas apóiam a permanência de barreiras à livre mobilidade individual, que ao longo é tal vital para a acumulação. Portanto os capitalistas podem avançar ou retroceder em seu apoio e sua oposição às políticas sociais que eliminam a discriminação racial, sexual, religiosa, etc, nos mercados de trabalho, dependendo das circunstâncias. Devemos também mencionar que a livre mobilidade individual possivelmente não concorde com o sustento de mecanismo apropriados de reprodução social. Marx observou que esta mobilidade geralmente é destrutiva para as formas de vida tradicionais e que, necessariamente, fragmenta e solapa a coesão social da família e da comunidade. Isto tem certas conseqüências negativas, do ponto de vista do capital. Se as qualidades da força de trabalho relacionadas com um sistema particular de reprodução social são importantes ainda que sejam para um setor dos capitalistas, então estes, para favorecer seus interesses, podem tratar de estabilizar as instituições da família e da comunidade, ou seja, através da filantropia privada ou do Estado. Por estas razões, também, um segmento da burguesia pode apoiar as melhoras cívicas, a reforma educacional e urbana, a construção de moradias e a prestação de serviços de saúde, etc… No entanto, ao fazê-lo, os capitalistas apóiam diferenciações que atuam necessariamente como barreiras à mobilidade individual.

Como já dissemos, podemos identificar tensões e ambivalências da parte do capital. A livre mobilidade individual do trabalhador é um atributo importante que se deve fomentar, mas os capitalistas necessitam manter em seu lugar as reservas de trabalho, manter segmentados os mercados de trabalho como um meio de controle social e de apoio adequado aos processos de reprodução social para forças de trabalho de certas qualidades. Esses impulsos contraditórios, que se derivam das contradições internas do capitalismo em geral, produzem influencias de contrapeso sobre a mobilidade geográfica da força de trabalho, independentemente da vontade dos próprios trabalhadores.

No entanto, os trabalhadores são mais que meros objetos do capital. A mobilidade geográfica tem um significado bastante diferente para eles. Representa a Possibilidade de escapar da tirania e opressão, incluindo a que lhes impõem o capital. Representa a esperança e o esforço por uma vida melhor, mesmo se este esforço faz o jogo do capital quando os trabalhadores respondem aos incentivos materiais que são oferecidos pelos capitalistas (salários mais altos e melhores condições de trabalho). Nisto existe certa ironia. O capital confia que os trabalhadores busquem perpetualmente uma vida melhor — definida em termos materiais e monetários — como meio para coordenar a mobilidade dos trabalhadores a seus requerimentos e para disciplinar aos capitalistas individuais aos requerimentos de classe. Por exemplo, a “livre” mobilidade geográfica dos trabalhadores ajuda a equilibrar a taxa de salários com o valor médio da força de trabalho que mantém em equilíbrio a acumulação.

Por outro lado, a mobilidade geográfica também impõe cargas ao trabalhador. A alteração dos mecanismos de apoio tradicionais e das formas de vida pode ser difícil de suportar. Aqui encontramos o lado oposto do impulso para se mobilizar como meio de escape. As redes de contatos pessoais, os sistemas de apoio e os elaborados mecanismos que ajudam a fazer frente à vida e que se encontram dentro da família e da comunidade, a proteção das instituições, e isso sem falar nada dos mecanismos para a mobilização política, podem se converter pelos esforços criativos dos trabalhadores e de suas famílias em ilhas de força e privilégio dentro de um mar de luta de classes. A proteção destas ilhas às vezes assume grande importância nas vidas dos trabalhadores. A forte lealdade à família, à comunidade, ao lugar, e ao meio cultural atuam como barreiras à mobilidade geográfica. A exclusão de outros trabalhadores — sobre bases econômicas, sociais, religiosas, étnicas, raciais, etc. — também pode se considerar cruciais para a proteção das ilhas de fortaleza já estabelecidas. Este foi um problema que Marx encontrou quando se aventurou dentro da complexa política dos trabalhadores ingleses e irlandeses sob o capitalismo do século XIX na Grã Bretanha (3).

O resultado é que os trabalhadores, se não podem escapar totalmente das garras do capital, ficam diante de uma amarga escolha. Podem escapar e buscar uma vida melhor em outra parte ou podem permanecer em seu lugar e lutar. A escolha é tudo ou nada, existem algumas soluções intermediárias como as migrações estacionais, periódicas e inclusive relativamente largas (junto com os envios que fazem às famílias que deixaram atrás). A escolha, em última análise, pertence aos trabalhadores sem importar a influência do capital, mas a ironia segue existindo. Qualquer caminho que sigam os trabalhadores tem a capacidade potencial de se converter em algo vantajoso para o capital. Pode-se deduzir do argumento de Marx que esta capacidade potencial está destinada a realizar-se (mesmo que com muitas sutilezas e falhas) se a condição fundamental que define a posição do trabalhador na sociedade capitalista permanece intacta. Se os trabalhadores devem vender sua força de trabalho a fim de sobreviver, então não há escapatória. Este foi, naturalmente, o ponto político que Marx sempre trato de sublinhar. A única solução às contradições do capitalismo leva consigo a abolição do trabalho assalariado.

Para não chegar a uma solução tão dramática, os trabalhadores e o capital são obrigados a entrar em luta e concessão sobre a mobilidade geográfica da força de trabalho. Tanto o capital como os trabalhadores tem direito a ir-se a outro lado, e entre os dois direitos a força de trabalho decide, mas os resultados não são fáceis de interpretar. Ao lutar para alcançar seus próprios fins — ou seja, deslocando-se para outro lado ou ficando onde estão e lutando para melhorar as condições da reprodução social — os trabalhadores podem ajudar, se os remanescentes seguem estando sempre limitados, a estabilizar o capitalismo em vez de derrocá-lo. Por outro lado, o movimento errático do capital pode alterar as condições de reprodução da força de trabalho e assim ameaçar a base mesma da exploração posterior da força de trabalho. O capital pode então se ver obrigado a regressar às pautas de apoio à família e à comunidade que podem, por sua vez, incrementar a base dos trabalhadores para a luta política. A mobilidade geográfica do capital e do trabalho não deixa de ser um assunto ambíguo desde qualquer que seja os dois pontos de vista. Esta é a condição fundamental para entender a mobilidade geográfica do trabalho. É a condição que seguirá existindo, sempre que os trabalhadores tenham que vender sua força de trabalho como uma mercadoria a fim de pode viver.
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1 - De Gaudemar (1976) contem uma excelente explicação e proporciona bons resumos das opiniões de Lênin e de Luxemburgo sobre a migração dos trabalhadores sob o capitalismo.

2 - Donzelot (1979) e seus críticos proporcionam interessantes idéias.

3 - Cada centro comercial e industrial da Inglaterra possui agora uma classe trabalhadora dividida em dois campos hostis, os proletários ingleses e os proletários irlandeses. O trabalhador inglês comum e coerente odeia ao trabalhador irlandês por ser um competidor que faz que baixe seu nível de vida…As classes dominantes mantém vivo este antagonismo e o intensificam… por todos os meios a sua disposição. Este é o segredo da impotência da classe trabalhadora inglesa, apesar de sua organização. È o segredo de como mantém sei poder de classe capitalista” (textos selecionados, com Engels, pp. 235-237).

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O império do Vaticano

Por quase 2 mil anos, os papas foram muito mais que líderes religiosos. Nomearam reis, governaram vastos territórios e até comandaram tropas no campo de batalha. E ainda hoje têm poder para chacoalhar o mundo

Reinaldo José Lopes

A passagem é uma das mais famosas da Bíblia. Diante da fé inabalável de seu discípulo Simão, Jesus teria declarado: “Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. Darei a ti as chaves do Reino dos Céus”.

A frase se tornou a base da autoridade dos papas. Como sucessores diretos de Pedro, eles teriam de guiar todos os cristãos do mundo, seguindo os ensinamentos de Jesus.

Os papas, entretanto, não se contentaram com os Céus. Acabaram se tornando donos das chaves de muitos reinos da Terra.

Apenas três séculos após a morte de Pedro, os pontífices deixaram de ser líderes de uma seita perseguida para virar interlocutores de imperadores. Com o tempo, tornaram-se senhores de seu próprio império, governando grandes extensões de terra na Itália e fora dela, só perdidas no século 19. Em sua busca por território e poder, negociando nos bastidores ou comandando exércitos pessoalmente, houve momentos em que os papas pareciam ser capazes de moldar o mundo como quisessem.

Hoje, 2 mil anos após a fundação do cristianismo, o papado só tem poder absoluto sobre um pequeno enclave dentro de Roma, o Vaticano. Mas, mesmo sem os vastos domínios de antigamente, um pronunciamento papal ainda pode fazer um bocado de diferença no planeta.

“As palavras do papa ecoam tanto nos salões do poder quanto nas alcovas dos fiéis”, diz Eamon Duffy, professor de História do Cristianismo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. “O papado é a mais antiga instituição humana. E, provavelmente, ainda é a mais influente.” A seguir, você vai ver como esse poderio foi construído.

Salvadores de Roma
A antiga capital do Império Romano passou a abrigar uma comunidade cristã poucos anos depois da morte de Jesus. Tudo indica que Pedro e Paulo pregaram em Roma e lá foram executados, por volta do ano 64, numa perseguição desencadeada pelo imperador Nero.

Segundo a tradição, Pedro teria sido o primeiro bispo da cidade. Mas há indícios de que, por décadas, Roma teve mais de um bispo por vez. Foi só por volta do ano 200 que os cristãos romanos começaram a ser regidos de fato por um chefe único - centralização que também acontecia nas outras comunidades cristãs.

A comunidade cristã de Roma era especialmente respeitada por abrigar o túmulo dos mártires Pedro e Paulo e por sua reputação de sempre ter seguido a fé cristã original. Isso queria dizer que os outros bispos sempre ouviam seu companheiro de Roma com respeito especial, mas não tinham a menor obrigação de obedecê-lo. Ele já era chamado de papa - “pai”, em grego -, mas o mesmo título era aplicado a chefes cristãos de outras cidades, como Alexandria, no Egito, e Antioquia, na Síria.

Como o cristianismo ainda era uma religião fora-da-lei no Império Romano, a influência dos papas não se estendia à política. Isso começou a mudar em 312, quando o imperador Constantino resolveu aliar-se aos cristãos e liberar sua religião.

Ele queria usar a nova fé como fator de unidade num império cada vez mais fragmentado. Quem lucrou com isso foram os papas. Primeiro, financeiramente: o imperador bancou a construção de igrejas magníficas.

Já o segundo empurrão que Constantino deu ao poder dos papas foi sem querer. Ele decidiu construir sua própria capital, Constantinopla (a atual Istambul, na Turquia), no leste do Império, onde foi morar.

A administração imperial baseada em Roma passou a trabalhar em parceria cada vez mais próxima com a Igreja - cujo local mais venerado já era o Vaticano, colina onde Pedro teria sido enterrado. Não demorou para que os papas se tornassem as principais figuras políticas de Roma, lado a lado com o Senado da cidade. A influência dos pontífices passou a se estender por toda a porção ocidental do Império.

No século 5, enquanto Constantinopla florescia, os domínios do Império na Europa estavam sendo atacados pelos invasores bárbaros, que acabaram chegando à capital. Quando Átila, rei dos hunos, ameaçou saquear Roma, coube ao papa Leão I negociar com ele.

Em 452, ambos se encontraram em Mântua, no norte da Itália. Há quem diga que o papa contou com a intervenção milagrosa de Pedro e Paulo. Outros, mais realistas, lembram que os hunos estavam esgotados e que o papa ofereceu um polpudo resgate.

De qualquer modo, Átila deu meia volta. Três anos mais tarde, foi a vez de os vândalos atacarem Roma. Leão não pôde evitar saques, mas convenceu-os a não incendiar o local.

O papado tinha virado a única força que se interpunha entre Roma e o caos. Quando a parte ocidental do Império se desintegrou, em 476, isso se tornou ainda mais verdadeiro.

Por mais de dois séculos, Constantinopla tentou virar o jogo contra os bárbaros e recuperar as antigas terras imperiais.

Durante algum tempo, o Império do Oriente (hoje mais conhecido como Bizantino) conseguiu impor seu controle no sul da Itália, no norte da África e na própria Roma. Os imperadores bizantinos, porém, tinham a desagradável mania de meter o bedelho em assuntos religiosos.

Na sua visão do cristianismo, o imperador estava acima de qualquer um, incluindo o papa. É lógico que isso não pegou bem no Vaticano: “Existem, augusto imperador, dois poderes principais que governam o mundo: a autoridade dos bispos e o poder real. Dentre eles, o poder sacerdotal é muito mais importante”, escreveu o papa Gelásio, que ocupou o cargo de 492 a 496, ao imperador bizantino Anastácio.

Nesse cabo-de-guerra, o papado acabou buscando um terceiro elemento para ajudá-lo: o reino bárbaro dos francos (embrião da atual França). Na metade do século 8, os domínios bizantinos na Itália iam mal das pernas e Roma era ameaçada pelos lombardos, uma tribo germânica que havia fundado um grande reino em terras italianas.

Em troca do apoio do Vaticano para sua nova dinastia, o monarca franco Pepino, o Breve, invadiu a Itália em 754, derrotou os lombardos e conquistou parte de suas terras. Para revolta dos bizantinos, Pepino doou tudo para o papado. Agora, Roma era a capital de um território independente.

A relação entre Carlos Magno e os papas haveria de ser ainda mais próxima. Filho de Pepino, ele voltou a invadir a Itália e acabou de vez com o reino lombardo.

No Natal do ano 800, o papa Leão III, às voltas com opositores dentro e fora da Igreja, coroou Carlos como imperador do Ocidente, em novo desafio a Constantinopla. Além de ter seu próprio reino, o papa agora era considerado capaz de dar legitimidade sagrada a outros monarcas. No futuro, essa prerrogativa seria usada sempre que necessário - para coroar e derrubar reis.

Cruzados e depravados
No século 11, nada parecia ameaçar o poder do papado. Bem, quase nada. A expansão do Islã, religião criada no século 7, deixou o Vaticano em alerta.

Se os papas controlavam um pedaço generoso da península Itálica, muçulmanos já haviam conquistado territórios que iam da Espanha à Índia. A tensão entre as duas religiões acabou virando guerra.

Acuado pelos turcos, o imperador bizantino Aleixo pediu ajuda ao Ocidente. Diante disso, em 1095 o papa Urbano II conclamou os nobres europeus a reconquistar os lugares santos da Palestina que estavam sob o domínio do Islã.

Aos gritos de Deus vult -, “Deus o quer”, em latim -, milhares de europeus de todas as classes sociais e idades se puseram a marchar para o leste. Em 1099, após muito sofrimento, os soldados da Primeira Cruzada tomaram Jerusalém.

Mantida à custa de diversas outras Cruzadas, a presença cristã no Oriente Médio perdurou por mais de 200 anos e deu origem a uma lenta revolução intelectual na Europa. De repente, os horizontes culturais e econômicos da cristandade tinham se ampliado.

Depois da guerra com os muçulmanos, veio o comércio: objetos de luxo e especiarias voltaram a circular desde a China até a Inglaterra, estimulando trocas que desembocariam, mais tarde, nas grandes navegações. E a parte da herança grega preservada pelo Islã deu combustível para que os europeus redescobrissem seu passado.

Tempos depois, os filósofos e artistas da Antiguidade foram os maiores inspiradores do Renascimento, a efervescência cultural que tomou conta do território italiano nos séculos 15 e 16. Apesar da influência pagã nessa nova onda, os papas também embarcaram nela. Pontífices como Pio II e Júlio II patrocinaram a arte mais esplendorosa que a humanidade já vira, feita por mestres como Michelangelo e Rafael.

Mas havia um lado obscuro nesse processo: o gosto artístico refinado era só mais um sintoma de que o papado tinha virado uma simples monarquia, como tantas que existiam Europa afora. Longe dos princípios morais pregados pela religião que comandavam, os papas passaram a ter tantas amantes e ser tão corruptos e violentos quanto qualquer rei secular.

“Apesar dos defeitos, os pontífices mais recentes são homens extremamente dignos perto dos papas do Renascimento”, diz o vaticanista espanhol Juan Arias, que foi correspondente em Roma de 1950 a 1992 e hoje trabalha para o jornal El País no Brasil.

Para quem está acostumado com plácidos senhores como João Paulo II ou Bento XVI, é difícil imaginar um papa em plena guerra, à frente de um exército.

Bem, foi isso o que fizeram alguns pontífices renascentistas, como Júlio II, que ficou no poder entre 1503 e 1513. Não é à toa que a famosa Guarda Suíça foi fundada por ele.

Esses cerca de 200 mercenários eram uma força de elite que protegia Júlio II dentro e fora do Vaticano. Usando uma armadura de prata, o papa liderou pessoalmente milhares de soldados e capturou as cidades italianas de Bolonha, Parma, Reggio e Piacenza.

O comportamento incompatível com os ensinamentos religiosos, aliado à corrupção da Igreja, acabou partindo a cristandade ao meio. Em 1517, o teólogo alemão Martinho Lutero deu origem à Reforma Protestante, que pregava uma volta à “pureza original” da fé cristã.

As idéias dos reformadores se fixaram rapidamente nos países germânicos e a Inglaterra também acabou entrando no movimento. Pela primeira vez desde Constantino, uma fatia considerável dos cristãos da Europa Ocidental não reconhecia mais a liderança do papa. E outros desastres ainda espreitavam o Vaticano.

Um novo tempo
Com o fim da Idade Média, os grandes Estados europeus foram, um a um, criando governos fortes e centralizados, sobrepondo-se às nobrezas regionais. Países como Espanha e França agora se viam como potências independentes, não apenas como membros da cristandade. Cada vez mais se difundia a idéia de que era preciso separar o poder político do poder religioso para que um governo moderno funcionasse bem.

Em 1789, a Revolução Francesa mostrou que a antiga ordem vigente na Europa estava mesmo com os dias contados. No lugar dos reis, pôs representantes do povo. No lugar da religião, pôs a razão.

O exército quase imbatível da França revolucionária, sob o comando de Napoleão Bonaparte, invadiu a Itália em 1796 e, três anos depois, tomou o Vaticano. O papa Pio VI foi levado prisioneiro.

Consta que ele teria pedido para morrer em Roma, ao que o general francês Berthier respondeu: “Para morrer, qualquer lugar serve”. Arrastado até Valence, na França, Pio VI não teve nem a honra de um enterro católico: “Óbito do cidadão Braschi (Giovanni Braschi era o nome de batismo de Pio), profissão: pontífice”, dizia o registro de sua morte na prefeitura.

O papado só não acabou de vez porque uma coalizão de monarquias conseguiu derrotar Napoleão em 1815. As antigas terras papais na Itália voltaram às mãos dos pontífices.

No entanto, ficou difícil desfazer o clima revolucionário. Falava-se cada vez mais de uma Itália unida e democrática, na qual não haveria lugar para o papa.

Foi nesse contexto que Pio IX subiu ao poder, em 1846. “Durante algum tempo, ele foi visto como uma esperança de conciliar o papado com o anseio por uma Itália unida”, diz dom Zeno Hastenteufel, bispo de Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul, especialista em história da Igreja.

Pio IX iniciou reformas democráticas no Vaticano. Mas, temendo perder poder, logo acabou com elas, atraindo a inimizade dos que queriam uma Itália unida. O resultado? A perda progressiva de regiões que os papas tinham governado desde a época de Pepino, o Breve.

Em 1870 (ano em que, ironicamente, a Igreja declarou que o papa era “infalível”), Roma se tornou a capital do recém-criado Reino da Itália. Como estadistas, os papas voltavam à estaca zero.

Dentro da Igreja, ganhou força um movimento para que pelo menos o Vaticano se tornasse autônomo. A idéia amadureceu ao longo dos anos 1920.

Péssima hora para fazer política: o fascista Benito Mussolini controlava a Itália. Mesmo correndo o risco de estar fazendo um pacto com o diabo, o papa Pio XI levou as negociações adiante.

Em 1929, a Igreja e o governo Mussolini firmaram o Tratado de Latrão, no qual o Vaticano foi reconhecido como Estado independente, o catolicismo foi declarado religião oficial da Itália e uma polpuda indenização foi paga pela perda dos antigos territórios papais. O dinheiro serviu para vitaminar o Banco do Vaticano, criado no fim do século 19 - e cujo nome oficial é IOR, Instituto para as Obras de Religião. Graças a administradores competentes, o banco se tornaria acionista de empresas importantes dentro e fora da Itália - mas, nos anos 1980 e 1990, seria denunciado por conivência com fraudes e lavagem de dinheiro, o que ainda está sendo investigado.

O poder da palavra
A autonomia do Vaticano estava garantida. E as relações do papado com os governos totalitários da Europa atingiriam um estágio ainda mais sombrio com Pio XII, que assumiu em 1939.

No início dos anos 1930, quando ainda era o cardeal Eugenio Pacelli, ele negociou um acordo com o líder alemão Adolf Hitler. O resultado? O Partido do Centro, a legenda católica alemã, apoiou a lei que deu ao chefe nazista poderes de ditador, em 1933.

Pessoalmente, Pio XII não simpatizava com os nazistas. Mas seu comportamento durante a Segunda Guerra Mundial deu a impressão contrária: preocupado com a segurança dos católicos e dos membros do clero na Europa, ele evitou a todo custo condenar abertamente o Holocausto, mesmo sabendo do extermínio que acontecia nos campos de concentração.

E, ao fim do conflito, como muitos dos envolvidos no genocídio judaico na Alemanha e na Croácia eram católicos, eles ganharam uma inestimável ajuda do Vaticano: “O subsecretário de Estado de Pio XII ajudou essas pessoas a obter centenas de vistos para a Argentina”, conta o jornalista espanhol Santiago Camacho em seu livro Biografia Não-Autorizada do Vaticano.

O pedido de desculpas pela omissão diante dos atos bárbaros dos nazistas só veio com João Paulo II. Apesar de ter feito um pontificado conciliador, buscando inclusive se aproximar de outras religiões, ele também pesou a mão na política.

Em 1978, quando o papa deixou de ser apenas o cardeal polonês Carol Wojtyla, metade da Europa vivia sob o regime comunista imposto pela União Soviética, incluindo a Polônia. Pouco mais de dez anos depois, nada restava do império vermelho.

Crítico do comunismo, João Paulo II transformava suas viagens à Polônia em desafios implícitos ao regime soviético. “O papel do papa na queda do comunismo foi, num certo sentido, restrito à Polônia”, diz o jornalista britânico Neal Ascherson, autor de dois livros sobre o país e testemunha dessas visitas.

“Mas foi como uma ponta de lança enfiada nas entranhas do império soviético, uma ferida que nunca sarou. Pela primeira vez, as pessoas tinham a coragem de admitir abertamente que viviam num país ocupado e a se ver como uma nação que podia gerir seu próprio destino.”

O sucessor de João Paulo II, escolhido em 2005, foi o cardeal alemão Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI. Após dois anos, ele já deu mostras de que o Vaticano continua capaz de catalisar eventos em escala mundial.

Em setembro passado, uma palestra do papa na Alemanha colocou os países muçulmanos em polvorosa. Aparentemente, ele teria afirmado que o Islã seria irracional.

A Santa Sé já colocou panos quentes na situação. Mas foi um claro exemplo de como o pedaço minúsculo de terra em que os papas reinam é totalmente desproporcional ao poder que ainda têm.

Aventuras na História

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