Arquivo de 28 de Julho de 2008

Vale do Silício começa a sentir a desaceleração econômica dos EUA

Matt Richtel e Brad Stone

Os preços dos imóveis residenciais no Vale do Silício permanecem desafiadoramente altos. Novos BMWs e Saabs cruzam o corredor da Rodovia 101. Mas pela primeira vez há sinais de que a desaceleração econômica está afetando o berço de tecnologia e inovação do país.

O crescimento do emprego diminuiu, novas empresas estão contratando e gastando com maior cautela e os investidores que nutrem as novas empresas com dinheiro e experiência estão se tornando mais frugais.

A maioria dos investidores, empreendedores e inovadores que montam empresas no Vale o faz na esperança de lançar suas ações no mercado ou vendê-las -as oportunidades que as pessoas aqui chamam de saídas. Mas com o pessimismo que toma conta dos mercados financeiros e o clima de negócios, saídas são difíceis de encontrar.

Durante os primeiros três meses do ano, apenas cinco empresas apoiadas por investidores de capital de risco tiveram ações lançadas em Wall Street, disse a Associação Nacional de Capital de Risco na semana passada, em comparação a 31 no quarto trimestre do ano passado e próximo do ponto mais baixo do estouro da bolha pontocom.

Também há uma queda acentuada na aquisição de novas empresas por corporações maiores. A Microsoft está causando alvoroço com seu esforço para comprar a Yahoo, mas fora isso as coisas estão calmas. Houve apenas 56 aquisições nos primeiros três meses do ano, em comparação a 83 no quarto trimestre.

Com as opções cada vez mais fora da mesa, os investidores devem gastar dinheiro e tempo estimulando -ou salvando- as empresas existentes em vez de construindo novas.

“Nós estamos controlando rigidamente as despesas”, disse Jim Breyer, sócio-diretor da Accel Partners, uma empresa de capital de risco. A firma é uma investidora da Model N, uma empresa de software que recentemente retirou seu registro para abertura de capital por causa das condições de mercado desfavoráveis. Breyer disse que a empresa esperará até o quarto trimestre, no mínimo, para tentar de novo.

“Ninguém sabe por quanto tempo vai durar a desaceleração”, disse Breyer.

Se durar por todo este ano, ele disse, “será bem mais do que uma inconveniência para todas as empresas”. O mercado inóspito para abertura de capital e aquisições está afetando não apenas o ambiente de inovação, mas também o estilo de vida de seus participantes.

“Menos dinheiro ingressando no Vale significa menos dinheiro para compra de imóveis, para ir a restaurantes caros, para gastar em produtos de consumo e férias”, disse Hans Swildens, fundador e presidente da Industry Ventures, uma firma de investimento que compra participações em novas empresas que precisam de injeção de capital.

O sentimento geral no Vale do Silício é de que ainda não chegamos nesse ponto, mas a realidade é que já chegamos”, disse Swildens. “Já começou.”

A região sente como se estivesse à beira de uma mudança de humor. Por um lado, seus cidadãos dizem se sentir afortunados por trabalharem em um segmento da economia e viver em uma região que foram menos atingidos do que outras partes do país. Eles também expressam uma confiança teimosa na migração inexorável para a Internet e o papel que as empresas de tecnologia terão nesta transição.

E eles afirmam que não estão sentindo nada parecido com a dor que se seguiu ao estouro da bolha pontocom, que levou a grandes demissões, um êxodo de talento, um colapso do mercado de imóveis comerciais e uma queda significativa do investimento em novas empresas.

Mas após se reerguer com persistência do estouro da bolha pontocom, o Vale se vê novamente diante de condições adversas. Nas empresas “blue chip” da área, o desempenho das ações está ruim com a desaceleração do crescimento. As ações da Google caíram cerca de 31% neste ano; a Apple teve queda de 21%. O índice composto Nasdaq, com foco em tecnologia, teve queda de 11,4% neste ano.

Entre as ações de empresas apoiadas por capital de risco que abriram o capital no ano passado, apenas 28% estão acima do preço de lançamento, em comparação a cerca de 50% em um ano típico e 70% em boas condições de mercado, segundo a Associação Nacional de Capital de Risco.

Novas empresas estão atingindo obstáculos em seu caminho para os mercados de capital. A Upek, uma empresa em Emeryville, Califórnia, que produz chips de computador e software usado para reconhecimento de impressões digitais, se registrou em maio passado para lançar suas ações no mercado. Ela então começou a estimular o entusiasmo do investidor e estava conseguindo progresso. Mas em 4 de março, ela retirou seu registro.

Em Wall Street “repentinamente não havia mais apetite por empresas em crescimento”, disse Eric Buatois, sócio geral da Sofinnova Ventures, uma firma de investimento em empresas em estágio inicial que financiou a Upek.

A Upek já dá lucro, mas sem a injeção de capital do lançamento das ações, disse Buatois, ela adiará novos produtos, limitará o número de projetos em andamento e contratará menos agressivamente.

“Você encolhe seus planos de expansão”, disse Buatois.

A Upek conta com 30 funcionários na Califórnia e outros 80 ao redor do mundo; seu departamento de manufatura fica em Cingapura, o desenvolvimento de hardware na Itália e o desenvolvimento de software fica em Praga. Ela também realiza 80% de suas vendas no exterior.

A natureza global da Upek, que é compartilhada por um número crescente de novas empresas no Vale do Silício, é uma faca de dois gumes em meio à desaceleração econômica. No lado positivo, as vendas no exterior estão isolando a empresa de algumas das condições econômicas adversas nos Estados Unidos.

Mas por causa de seus funcionários fora do país, ela paga um preço caro e inesperado em conseqüência da desvalorização do dólar.

“O maior impacto é causado pela queda livre do dólar”, disse Buatois. Ele disse que os custos para a empresa aumentaram de 10% a 20% nos últimos três trimestres. “Mas o preço do produto não está subindo.”

O murchar da economia nacional também parece ter um impacto na quantidade de dinheiro que os investidores de risco estão dispostos a aplicar.

Em 2007, os investidores em empresas em estágio inicial -os chamados “anjos”- colocaram US$ 26 bilhões em novas empresas, segundo o Centro de Pesquisa de Capital de Risco da Universidade de New Hampshire. Esse número não apresentou nenhum aumento em relação ao ano anterior, após grandes aumentos anuais desde 2003, quando o Vale começou a se reerguer do estouro da bolha.

“Desde a retomada, este é o primeiro ano sem aumento”, disse Jeffrey Sohl, o diretor do centro. Ele disse que o dinheiro estava sendo disseminado em mais novas empresas, o que significa que o valor médio investido em empresas individuais pelos anjos caiu de cerca de US$ 500 mil para US$ 450 mil.

“Não é uma crise de confiança, mas é mais uma abordagem cautelosa”, disse Sohl sobre o ponto de vista dos investidores, que ele disse que também podem dispor de menos dinheiro para investir em novas empresas, já que a queda do mercado reduziu seu capital.

A cautela provavelmente atrapalhará o crescimento do emprego. O Centro para o Estudo Contínuo da Economia da Califórnia projeta que haverá 10 mil novas vagas de trabalho na região neste ano, em comparação a 17.700 no ano passado e 25 mil em 2006.

Outra questão financeira aparentemente não relacionada mas potencialmente crucial vem da paralisia do mercado para os chamados títulos auction-rate (título de taxa variável com dividendo redefinido por leilão). Estes são investimentos que indivíduos e empresas usavam para aplicar dinheiro por um curto prazo, cientes de que poderiam resgatar rapidamente os fundos. Muitos capitalistas de risco faziam uso desses investimentos, mas agora se vêem incapazes de resgatar seu dinheiro, o que por sua vez está ameaçando a capacidade deles de pagar as contas em suas novas empresas.

Mas o espectro mais problemático para a economia de alta tecnologia é o mercado de ações estagnado e seu impacto na capacidade de investidores e empreendedores de lançarem novas ações, seja para lucro pessoal como para levantar dinheiro para a continuidade do desenvolvimento de seus negócios.

No final do quarto trimestre, havia 60 empresas financiadas por capital de risco registradas para abertura de capital. No final do primeiro trimestre, 38 estavam registradas. E de lá para cá algumas retiraram seu registro, disse Mark G. Heesen, presidente da Associação Nacional de Capital de Risco.

“Foi quão rapidamente a situação mudou”, disse Heesen, acrescentando: “Não são boas notícias e não estamos tentando dourar a pílula”.

Isto causa um impacto, ele disse. “Para o Vale do Silício, significa menos novas empresas financiadas, menos empreendedores financiados, menos empregadores com esperança de se tornarem o próximo grande empregador.”

“The New York Times”

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UE propõe política drástica para expulsar os imigrantes sem documentos

Ricardo M. de Rituerto

Os governos da UE entraram em acordo nesta quinta-feira (22/05) sobre uma harmonização das políticas de expulsão dos cerca de 8 milhões de residentes ilegais não-comunitários que endurece a repressão aos imigrantes: até 18 meses de internação; controle judicial da legalidade dessa detenção sem prazo máximo de intervenção; tratamento de menores conforme sua idade só se for possível e cinco anos de proibição de voltar ao território europeu para os expulsos. O texto deverá agora ser aprovado pelo Parlamento Europeu, onde os socialistas anunciaram na quinta-feira que introduzirão emendas para humanizá-lo.

A proposta de diretriz, que endurece drasticamente a concebida em 2005 pela Comissão Européia, foi aprovada na quinta-feira pelos embaixadores dos 27 países depois de duas semanas de discussões na reta final para acomodar os pedidos de vários países. O último obstáculo, para Alemanha, Áustria e Grécia, era a obrigação de que os países se encarregassem da assistência jurídica aos submetidos a processo de expulsão. Finalmente se concordou que cada país aplicará sua própria legislação para os insolventes.

A diretriz foi pensada para os sem-documentos de terceiros países que tenham entrado na UE ou para quem tenha esgotado sem sucesso seus processos de pedido de asilo ou refúgio. Aos retidos na porta da Europa, como os que chegam em barcos às ilhas Canárias (Espanha), continuará sendo aplicada a legislação nacional.

Com a desculpa de harmonizar as políticas de expulsão e dizendo que se trata de acabar com situações como a retenção indefinida que é aplicada por nove países comunitários, os 27 optaram por um quadro de intervenções muito rígidas, qualificadas de repressivas e desumanas por organizações ligadas aos imigrantes e até por vozes socialistas, apesar da aprovação de governos afins como o espanhol.

A diretriz estipula que os residentes ilegais possam se beneficiar de um período de repatriação voluntária que vai oscilar entre sete e 30 dias. Para os demais casos, mão dura: até seis meses de detenção em centros que, como demonstra a experiência, em geral carecem de um mínimo de condições. Esse prazo poderá ser ampliado para até um ano e meio, caso não haja cooperação do país de acolhida do retornável ou se compliquem os procedimentos burocráticos.

As detenções poderão ser ordenadas por um juiz ou uma simples autoridade administrativa. Nessa circunstância, os governos se comprometem a submeter o caso “a uma rápida revisão judicial”, sem que haja um máximo de dias definido para isso. Aos menores não-acompanhados se deverá proporcionar “na medida do possível” os meios e o tratamento correspondentes a sua idade.

O texto acordado pelos governos passa agora para o Parlamento Europeu, onde se prometem emendas que humanizem as medidas, que caso aprovadas abririam um procedimento de duração incerta. Os socialistas, o segundo grupo da Eurocâmara, anunciaram na quinta-feira que tentarão limitar o tempo de internação, fixar um período máximo de 72 horas para a revisão judicial, garantir um tratamento adequado para os menores e ampliar o período em que o retorno possa ser feito de forma voluntária.

“El País”

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Dubai: uma fantasia árabe

De poeirento posto comercial avançado, o emirado de Dubai transformou-se em líder auto-proclamado de uma ressuscitada civilização árabe. Sem uma democracia, tudo depende do trabalho de imigrantes de origem humilde. Continuará um oásis de tranquilidade no Oriente Médio por muito tempo?

Katharine Quarmby*

Dubai está no Oriente Médio, mas poderia estar em qualquer parte.
Praticamente a única coisa que liga este lugar ao passado são as vestimentas tradicionais, ainda usadas pelas pessoas que vivem lá. Os edifícios são, de maneira geral, de um moderno estilo futurista.

Culturalmente, é uma zona tranqüila em comparação com o austero tradicionalismo que impera na vizinha Arábia Saudita ou no Irã.

A ascensão de Dubai é fenômeno extraordinário. Antes um lugar atrasado, agora se constitui na conurbação de crescimento mais acelerado em todo o mundo, onde se encontra um quinto de todos os guindastes do mundo. É o sonho de um corretor de imóveis, lotada de novos empreendimentos de luxo - e um imã para os novos ricos internacionais.

Comenta-se que diversos jogadores de futebol da Inglaterra, incluindo David Beckham e Michael Owen, têm casa de luxo Palms Islands - as ilhas construídas pelo homem no oceano.

O edifício mais alto do mundo, o Burj Dubai, com mais de 160 andares, aguarda o seu término - embora não possa manter seu recorde por muito mais tempo, pois os planos para a construção da torre Al Burj, que pode chegar a 200 andares, já estão quase terminados. Um hotel sob a água está em construção assim como um novo aeroporto.

Os turistas estão chegando: mais de meio milhão de britânicos todos os anos, quase o mesmo da Arábia Saudita e cerca de 300.000 tanto da Índia quanto do Irã. A cidade espera 10 milhões de visitantes até 2010, mais que os 3,5 milhões do ano passado. Tudo isso apesar de não ter palácios antigos ou ruínas - apenas sol, mar, areia, compras e arranha-céus.

Ao mesmo tempo, Dubailand - a resposta do Oriente Médio à Disneyland - se presta a uma espécie de metáfora para toda a aventura: uma grandiosa importação de coisas sem origem definida em uma confusão de marcas e idéias globais, criadas para transformar a região no potentado do deserto.

A Dubai Inc., o título honorífico escolhido pela dinastia tribal que dirige o país para apresentar a si própria, tem um acordo não oficial - conhecido como “a barganha em vigor” - com os 1,3 milhão de habitantes do país: aceitem a limitação das liberdades que nós forneceremos o trabalho e a renda.

Os nascidos no país, que são 15% da população, recebem moradia e educação gratuita, mas não têm reais direitos democráticos. Os expatriados - 85% da população e 95% da força de trabalho - têm ainda menos direitos.

A liberdade de imprensa é restrita. As mulheres - mais de duas para cada homem - não gozam de igualdade com os homens, embora sua posição seja melhor que em outros países do Oriente Médio. Mesmo assim a maior parte dos moradores aceita isso como condição para se viver em uma das cidades mais vibrantes do mundo.

O sucesso da cidade, como admite a maior parte dos habitantes, deve-se ao espírito visionário da família Maktoum. No final dos anos 1960, partindo do princípio que Dubai tinha poucos recursos naturais, os líderes do emirado adotaram várias decisões que acabaram levando à construção do Jebel Ali, um porto de alto calado, o maior do Oriente Médio, localizado junto a uma grande usina de alumínio. A aposta compensou, uma vez que o porto, o maior do Oriente Médio, ajudou Dubai a se consolidar como o centro comercial indispensável na região.

Hoje em dia o porto e as docas secas estão entre os mais movimentados no mundo. Dubai registrou uma taxa de crescimento mais acelerada que a da China e a da Índia na década passada, e agora tem a renda per capita mais elevada que Cingapura. Sua riqueza, ao contrário de grande parte do resto dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e de outros países do Oriente Médio, não depende do petróleo, que contribui com apenas 5% de sua economia, em comparação com os 36% para o total dos EAU.

Pelo menos três quartos da receita nacional de Dubai vem do setor de serviços (imóveis, turismo e varejo). O setor financeiro responde por 10% da economia, e Dubai está na vanguarda do moderno sistema financeiro islâmico, graças à fundação do Dubai Islamic Bank em 1975, o primeiro banco totalmente comercial a se harmonizar aos princípios da Sharia.

Os Emirados Árabes Unidos - uma federação de sete emirados, entre os quais Dubai e Abu Dhabi são os mais importantes - ficaram independentes em 1971. Até então, os Países da Trégua - Trucial Oman - como os emirados eram conhecidos anteriormente, eram protetorados britânicos.

desde meados do século 19, quando os xeques no poder no Golfo Pérsico firmaram acordos com os britânicos em troca de proteção aos seus serviços de embarque.) Eles agora são governados por um conselho supremo de emires, ou governantes hereditários, que indicam a si próprios para os principais cargos.

Segundo um acordo informal entre os emires, o governante de Abu Dhabi, o maior dos sete emirados e o principal produtor de petróleo dos EAU, é o presidente dos EAU, e o governante de Dubai - atualmente o xeque Mohammed Bin Rashid AL-Maktoum, filho do fundador do país - é vice-presidente e primeiro-ministro. Mas o alcance do governo federal é limitado e os emirados reservam consideráveis poderes para si mesmo, incluindo o controle sobre os direitos de mineração.

Com seus arranha-céus e frenética acumulação de riqueza, emirados tais como Dubai e Abu Dhabi tornaram-se símbolos do tipo de modernidade agressiva que parece tê-los separado do restante da região. Mas no que se refere a um avanço democrático, os EAU se ajustam aos desoladores padrões do Oriente Médio.

Os partidos políticos estão proscritos e não houve eleições de qualquer tipo até dezembro de 2006, quando os sete governantes dos emirados selecionaram 6.595 cidadãos para eleger metade do conselho federal nacional - um “comitê consultor” sem poderes.

Os pedidos de reformas que existem tendem a vir da população de expatriados, entre os quais nem todos participaram dos lucros do crescimento de Dubai. Na verdade, existe uma acentuada divisão entre a força de trabalho de estrangeiros de Dubai na qual se incluem os ricos empresários do Irã, Arábia Saudita, Europa e outros, e os imigrantes pobres que se concentram no setor de construção civil, e vêem principalmente da Índia, Bangladesh e Paquistão.

Esse último grupo - que chega talvez a 250.000 - trabalha por salários miseráveis em condições perigosas e mora em dormitórios apinhados na periferia da cidade. Seu trabalho é o motor da expansão de Dubai e mesmo assim eles não se encaixam na história que Dubai conta sobre sua vertiginosa transformação.

Dubai é a Suíça do Oriente Médio - útil para todos e, portanto intocável. Os americanos precisam de um aliado no Golfo. Os iranianos usam Dubai como paraíso para transações em dinheiro sem registro, assim como, supostamente, a Al Qaeda. B. S. A. Tahir, mão direita de A. Q. Khan - o cientista nuclear paquistanês que durante anos planejou a proliferação de uma rede internacional nuclear clandestina - operava de Dubai. Dubai é aloja de conveniência do Oriente Médio, e quem quer bombardear a loja da esquina?

E mesmo que as forças de segurança de Dubai tenham condições de controlar o fundamentalismo, pelo menos por enquanto, Dubai enfrenta outros perigos. Sua economia não depende diretamente das receitas da produção de petróleo, mas grande parte do dinheiro que flui para a região vem do petróleo. O boom imobiliário deve-se quase inteiramente a entradas de petrodólares sauditas e iranianos, e se o preço do petróleo despencar, Dubai será seriamente afetado.

Outra vulnerabilidade é a dependência de Dubai do gás barato que vem do Qatar, sustentando todo o projeto de desenvolvimento. Finalmente, existem as preocupações com o meio ambiente. Não só Dubai está empregando vastas quantidades de energia para construir seus campos de golfe e pistas de esqui, como também é particularmente vulnerável aos efeitos da alteração climática.

Se as temperaturas se elevarem, Dubai poderá tornar-se quente demais para os mimados e exigentes turistas - mesmo com todo aquele ar-condicionado. Se os níveis do mar aumentarem só mais um pouco, as ilhas artificiais de Dubai e a orla litorânea poderão ser retomadas pelo mar. Os recifes de coral dos EAU, uma das principais atrações, já foram afetados como resultado do aquecimento global.

E cada vez mais surgem alternativas a Dubai. Abu Dhabi abriu setores imobiliários que poderão ser adquiridos por estrangeiros e está gastando bilhões em hotéis de luxo. A Arábia Saudita está no processo de construir um projeto imobiliário de US$ 26 bilhões - a Cidade da Economia do Rei Abdullah.

Na verdade, dificilmente Beckham e Owen levantarão acampamento para o reino de Wahhabi (a Arábia Saudita) mas o Bahrein e o Qatar atraem os ocidentais com seus hotéis de luxo e toleram o álcool e as roupas ocidentais - e também foram mais longe na rota das reformas políticas. Mesmo o Irã faz planos para comercializar sua própria ilha resort, Kish.

Por enquanto, porém, Dubai, com seus hotéis de luxo, mercado em funcionamento e tolerância com os hábitos ocidentais, é o lugar para onde os habitués de praia e os fanáticos por compras querem ir. Lá se vende o estilo árabe-light para aquelas pessoas que gostam de ir às compras, mas se sensibilizam em ver o deserto e também segurar falcões.

*Katharine Quarmby está escrevendo um livro de memórias sobre sua longa busca pela família nascida no Irã.

“Prospect”

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Um rio com milhares de corpos: o relato da tragédia de Mianmar

Milhares de corpos estão flutuando no delta do Rio Irrawaddy, em Mianmar, mas a junta militar do país não está protegendo os sobreviventes. É difícil superar o cinismo dos generais. Uma testemunha ocular faz um relato da situação no delta do Irrawaddy

Fiona Ehlers

Duas mulheres birmanesas estão agachadas à beira da estrada de cascalho que vai até Bogalay, no delta do rio Irrawaddy, a região de Mianmar mais atingida pelo ciclone Nargis. Elas aguardam aqui há horas, debaixo de uma chuva torrencial, perto de um arrozal que fica a poucos quilômetros da cidade. As duas seguram os capuzes das suas capas de chuva sobre a cabeça e conversam em voz baixa.

As mulheres trabalham para uma organização alemã de auxílio humanitário que atua em Mianmar há dez anos. Elas vieram até aqui sozinhas. O gerente de projetos alemão teve que ficar em Rangoon. A organização é tolerada pela junta militar, mas ela não tem permissão para desempenhar de fato o seu papel. As mulheres estão na área de Bogalay há 48 horas. A cada hora que se passa a frustração delas aumenta.

Elas desejam transportar para a cidade 70 toneladas de arroz, feijão e água potável engarrafada. As funcionárias da organização foram instruídas a avaliar a situação e fazer os preparativos necessários para a operação de ajuda humanitária planejada. Infelizmente, as duas não foram muito longe. Elas solicitaram uma reunião com as autoridades locais, mas o pedido foi negado.

As funcionárias visitaram campos de refugiados nos quais milhares de pessoas que perderam as suas moradias devido ao ciclone estão em uma situação precária, sofrendo de diarréia, e incapazes de fazer qualquer coisas por si próprias. Elas constataram como os representantes da junta militar vêm até esses campos para contar os vivos (mas não os mortos, que não são mais úteis para o governo).

Soldados entregaram aos sobreviventes cédulas de votação para o referendo constitucional do país. O referendo, que foi adiado na região do delta devido ao ciclone, deverá ser realizado aqui em 24 de maio -apesar de a imprensa controlada pelo governo já ter anunciado o resultado da eleição, que foi realizada na maior parte do país em 10 de maio, conforme originalmente planejado. O governo alegou que 99% dos eleitores votaram, e que 92% do eleitorado birmanês votou a favor da junta.

Elas observaram como folhas de zinco foram distribuídas para famílias de boa situação financeira, para que pudessem consertar os telhados das suas casas de pedra localizadas nas ruas principais, que só foram ligeiramente danificadas pela tempestade. Desta forma tudo terá uma aparência bonita e arrumada quando quer que os generais passarem por essas ruas nas suas limusines pretas.

As funcionárias viram também como os campos foram montados com tendas feitas de folhas de plástico azuis. Mas ninguém está vivendo nessas tendas. Elas serão ocupadas por apoiadores do regime pouco antes de os generais fazerem uma visita, acompanhados da televisão estatal e de repórteres do jornal “Nova Luz de Mianmar”, controlado pela junta. Isso é para provar ao povo de Mianmar e do mundo que os generais mantém a situação no delta sob controle.

“Isso teve início com um desastre natural”, diz a mulher mais baixa, lutando para conter as lágrimas e controlar a raiva. “Agora a situação diz respeito apenas à política. O que a junta está fazendo aqui é algo tão repugnante que é difícil acreditar”.

As mulheres estão sentadas à margem da estrada de concreto próxima a Bogalay porque o desespero fez com que tentassem uma tática diferente.
Em um esforço derradeiro, elas tentam contrabandear os suprimentos de auxílio humanitário para a cidade devastada. Elas fizeram com que o arroz, o feijão e a água fossem acondicionados em caminhões da Cruz Vermelha Birmanesa. Assim os caminhões teriam permissão para entrar na zona de exclusão, já que pertencem a uma organização de auxílio birmanesa.

Mas até o momento nenhum caminhão chegou. De fato, parece que ninguém está vindo para Bogalay. As mulheres temem que o estratagema possa ter sido descoberto. Elas acham que os militares podem ter parado os caminhões em algum ponto do percurso e que os motoristas podem estar impedidos de seguir viagem.

Bogalay fica no delta do Irrawaddy, cerca de cem quilômetros a sudoeste de Rangoon, no meio de arrozais verdejantes. Esta foi a área mais violentamente atingida pelo ciclone Nargis, que abateu-se sobre a região nas primeiras horas da madrugada do sábado, 3 de maio. Ventos de até 230 quilômetros por hora passaram pela região do delta e criaram grandes ondas que subiram o rio. Uma delas atingiu Bogalay, derrubando coqueiros sobre milharais e jogando embarcações contra moradias. Os casebres da população foram simplesmente varridos do mapa.

Há um silêncio sinistro em Bogalay. Não se ouve o som de motosserras, escavadeiras ou tratores. O exército birmanês tem cinco helicópteros, mas durante o dia inteiro nós não vimos nem um deles. Não se ouve sequer pássaros trinando. Os sobreviventes dizem que depois da tempestade os pássaros silenciaram.

Cerca de 200 mil pessoas moram nesta cidade portuária e nas cercas de 500 vilas que ficam em volta dela. A maioria dos moradores é composta de agricultores que cultivam arroz, e que moram em choupanas cobertas com folhas de palmeiras às margens do Irrawaddy e dos milhares de seus afluentes menores no delta. Quase todas as choupanas foram destruídas pela tempestade. Incontáveis corpos flutuam no rio. Dezenas de milhares de seres humanos morreram aqui. O número total de mortos pode chegar a 130 mil. “Por que deveríamos retirá-los do rio?”, questiona um sobrevivente. “Mal somos capazes de ajudar a nós mesmos”.

Faz mais de duas semanas que Bogalay praticamente não recebe remessa alguma de suprimentos de ajuda. O grau de cinismo demonstrado pelos generais da junta é criminoso. Os sobreviventes têm consciência de que a mídia internacional faz reportagens diárias sobre eles, de que milhões de dólares e toneladas de suprimentos foram doados e de que grande parte desse auxílio já chegou a Mianmar. Mas até o momento eles não receberam qualquer assistência financeira, suprimentos médicos ou sequer arroz para comer.

Mas não são apenas os suprimentos de outros países que estão proibidos em Bogalay; os estrangeiros também estão. A junta colocou soldados de prontidão em postos policiais construídos às pressas. Eles montam guarda em pontes e em entroncamentos de estradas que conduzem ao delta, e inspecionam cada veículo que passa, gritando: “Naingchartar?”
(”Estrangeiros a bordo?”). Todos que não forem birmaneses ou que não apresentarem uma permissão oficial são obrigados a sair do veículo.

Nós chegamos à cidade pouco depois do pôr do sol. Tivemos que fazer três tentativas até conseguirmos chegar aqui. No início do dia fomos parados por soldados que anotaram os números dos nossos passaportes, ainda que não conseguissem lê-los (e o fato de segurarem os passaportes de cabeça para baixo provavelmente não ajudou). Eles ordenaram ao nosso motorista que desse meia-volta e retornasse a Rangoon.

Nós vagamos por estradas de cascalho durante horas a fio, vendo apenas arrozais e pessoas esmolando à beira da estrada. Procuramos nos esconder na traseira do táxi no qual viajamos. Os nossos ajudantes birmaneses colocavam casacos e cobertores sobre nós todas as vezes em que surgia um posto policial.

“Precisamos de um telhado sobre as nossas cabeças”
Em Bogalay, fomos acolhidos por um médico que mora em uma rua simples. São 20h e a sala de tratamento está lotada de pacientes. Uma mulher usando um sarong rasgado entra às pressas. Ela é de uma da vilas ao longo do Irrawaddy que foram totalmente destruídas. A mulher viajou quatro horas de barco até chegar aqui. Ela carrega uma criança nos braços. É o seu neto. A filha, cujo bebê ela tenta salvar, e oito outros membros da família foram mortos pela tempestade. Faz uma semana que o neto dela tem febre e diarréia. A criança vomita e começa a chorar.

O médico fala com uma voz alma e reconfortante. Não há muito que ele possa fazer -o seu armário de remédios dá a impressão de ter sido saqueado. Caso uma epidemia de desinteria ou tifo irrompesse de fato aqui, ele não poderia fazer nada, a não ser fugir.

O médico nos leva até um jovem monge de cabeça raspada que usa óculos de estilo antiquado. Ele não pergunta nada e nos recebe com um sorriso gentil. O monge usa um robe vermelho-escuro, e, no mosteiro, está sentado em uma cadeira parecida com um trono. Nos bons tempos os fiéis vêm até aqui, ajoelham-se em frente a ele três vezes, e lhe oferecem esmolas e comida como forma de melhorar o karma. Essas pessoas acreditam que, quanto mais doarem, mais fácil será a próxima vida. E caso aconteça algum desastre, elas crêem que isto se deve a algo que fizeram em uma vida anterior.

À noite, quando todos estão dormindo, o monge coloca um rádio transistorizado junto ao ouvido e escuta a “BBC” e a “Free Asia”.
Essas estações foram proibidas pelo regime militar, mas mesmo assim quase todos as ouvem em Mianmar. Bogalay é freqüentemente mencionada nesta noite em particular.

Antes da aurora o monge caminha conosco pelas redondezas. Uma escola próxima ao mosteiro foi transformada em um campo para acolher 1.400 pessoas que ficaram desabrigadas pela tempestade. As pessoas usaram mesas e cadeiras para fazer camas. Elas agacham-se em poças enlameadas de água no refeitório da escola. A água da chuva pinga sem parar do telhado de zinco. Crianças jazem em poças de água escuras e mulheres preparam sopas ralas em fogueiras. Lenha é a única coisa que não está em falta por aqui.

Aonde quer que o monge vá, as pessoas aglomeram-se à sua volta. Elas o convidam para entrar em suas casas destroçadas e fazem chá para ele. Ele as conforma sem falar muito. Ele simplesmente as apóia com a sua presença.

O monge nos leva até o porto. Aqui, também, casas desabaram, telhados foram arrancados e paredes desmoronaram. A barca de Rangoon está atracada em um píer no qual chegou dois dias atrás com produtos “Made in Myanmar”. Ajudantes carregam água engarrafada da barca, bem como alguns sacos de arroz e frutas. Os soldados montam guarda no cais, com metralhadoras dependuradas nos ombros, observando atentamente cada movimento. Esta é a cara da junta. “Primeiro eles estocam os mantimentos”, diz o monge. “Depois, avaliam cuidadosamente o que distribuirão e a quem. Esse processo pode demorar dias. De qualquer forma, não haverá o suficiente para todo mundo”.

O monge fala com o dono de um depósito de barcos, que consegue alguma gasolina e nos ajuda a entrar em um barco de metal enferrujado. O monge agacha-se, segura-se à borda da embarcação e olha para a água amarronzada. De vez em quando ele aponta para a margem, ao enxergar mais um corpo, mas na maioria das vezes não diz nada. Esta é a primeira vez desde a tempestade que ele olha a cidade a partir do rio. Aquilo que ele vê faz com fique em silêncio.

Os corpos estão inchados, com a pele amarela coberta de pústulas negras.
Cada onda leva-os para mais perto da margem. Alguns encontram-se emaranhados nos juncos. Uma perna amputada desponta entre as raízes de uma árvore. Os sobreviventes caminham pela margem, segurando panos sobre o nariz na tentativa de se protegerem do odor adocicado nauseabundo exalado pelos corpos putrefatos. Apenas alguns metros adiante algumas pessoas pescam, lavam as roupas e cozinham as suas últimas reservas de arroz em latas de zinco.

Tha Mynt está em uma pequena ilha feita de terra aluvial. A sua vila consistia de 80 casebres de bambu. Agora só cinco estão de pé. A metade das 400 pessoas que moravam aqui morreu. Tha Mynt está de pé na beira d’água. Ele está descalço e usa uma camiseta rasgada. Vizinhos sentam-se nos caibros do seu casebre, ajudando-o a cobrir de novo o telhado, usando para isso pequenas lascas de madeira em vez de pregos. Eles queimam destroços das cabanas destruídas e arroz estragado pela enchente.

Tha Mynt nos diz que, na noite em que a tempestade atingiu a área, ele não fazia a menor idéia do que estava por acontecer. Não houve nenhum aviso. Não há energia elétrica nas aldeias, e, freqüentemente, também não existe nenhum aparelho de rádio. Quando o vento começou a soprar e a chuva a cair, ele abrigaram-se nas choupanas. Quando estas começaram a desabar, eles pularam no rio, com água pelo pescoço, e agarraram-se a troncos de coqueiros. As mulheres amarraram os seus bebês nas costas com roupas. Mas a tempestade rasgou as roupas, fazendo com que os bebês se soltassem.

Tha Mynt conta que na manhã seguinte eles sentaram-se na margem do rio, paralisados pelo choque e a exaustão. Os seus bens, as suas imagens do Buda, o dinheiro que ganharam com a colheita do arroz e que mantinham em caixas de metal no altar do Buda, tudo foi carregado pela inundação.
Eles mandaram as suas mulheres e os seus filhos para a cidade, para ficarem com parentes, e a seguir jogaram no rio os corpos dos moradores mortos e dos búfalos afogados para que fossem levados pela correnteza.
Não havia mais nada que pudessem fazer.

O que acontecerá agora? Tha Mynt dá de ombros. “Primeiramente, precisamos de um telhado sobre as nossas cabeças e de alguma coisa para comer”, diz ele. “Depois, veremos o que vamos fazer”. Por que ele não está chorando? Por que não expressa desespero e nem reclama? Por que não está furioso? O monge diz que o povo daqui vê a borrasca como um destino, um sinal de mau karma. Mas eles também culpam a junta militar.

Eles vêem a tempestade como uma punição pelo fato de o exército ter espancado brutalmente e matado monges em setembro passado, quando eles protestaram contra o regime. Mas, no final, como sempre, quem arca com a maior parte do sofrimento é a população em geral.

O monge ordena que o barco continue subindo o rio. Ele quer ter uma imagem da dimensão do horror. Mas agora ele não emite uma só palavra.

O capitão do barco é um garoto de apenas 16 anos. Ele usa um boné de beisebol com a foto de Che Guevara e tem um cigarro atrás de cada orelha. O adolescente diz que mais acima há um numero ainda maior de corpos boiando na água -são tantos que é difícil passar por eles de barco.

Inicialmente os sobreviventes remaram até lá em canoas, procurando por familiares desaparecidos. Agora o odor de corpos podres é tão insuportável que deixa as pessoas nauseadas e incapazes de identificar os mortos.

O jovem capitão diz que cadáveres geralmente não têm nenhum significado para os budistas. Mas até mesmo ele acha a imagem perturbadora.

“Se ninguém ajudar essas pessoas, nós, birmaneses, teremos que ajudá-las”
O capitão pára em um moinho de arroz. O moleiro e a sua família só sobreviveram ao ciclone porque naquela noite refugiaram-se na área de depósito de arroz. Eles sentaram-se no topo de uma pilha de sacas de arroz, aglomerados, tremendo de frio e medo, recitando orações budistas a noite toda. Depois que a tempestade acabou e o sol voltou a surgir -o céu estava azul nos primeiros dias após o ciclone- a filha do moleiro deu a luz a uma criança. O bebê nasceu muito prematuro, mas está saudável, pelo menos por ora.

O monge indica que deseja partir. Ele nos mostra uma trilha sinuosa que leva a uma ponte localizada nos arredores da cidade. Ele abre o seu guarda-chuva, que é vermelho-escuro como o seu robe, sorri para nós e desaparece no lusco-fusco.

Alguns quilômetros fora da cidade, as duas mulheres birmanesas ainda estão aguardando os caminhões carregados de arroz e outros suprimentos.
À noite elas retornarão a Rangoon, extremamente frustradas por não terem conseguido cumprir a missão da qual foram incumbidas.

No caminho de volta, os dois birmaneses que nos acompanharam de Rangoon a Bogalay começam a fazer ligações nos seus telefones celulares. O que eles viram os deixou chocados. Agora eles querem fazer alguma coisa, superar a sensação de impotência.

Eles telefonam para pessoas que têm dinheiro e influência -monges proeminentes, empresários chineses e russos que estão nos principais hotéis internacionais. Eles passam horas pedindo doações em dinheiro, roupas e alimentos. Enquanto estávamos no barco eles tiraram fotografias dos corpos, usando o zoom de suas câmeras para obter imagens em close-up. Não foi algo fácil, mas eles sabiam que precisariam de fotografias para mostrar a possíveis doadores. “Caso contrário eles não acreditarão em nós e não nos darão nada”, disseram. No dia seguinte eles querem alugar um caminhão e seguir para Bogalay. “Se ninguém mais ajudar essas pessoas, nós, birmaneses, teremos que ajudá-las”.

Podemos ver o Pagode Shwedagon, uma estrutura famosa de Rangoon, com o seu brilho dourado à distância. O dano causado pela tempestade ao telhado foi consertado rapidamente, e à noite ele está novamente iluminado por holofotes amarelos. Pode-se ver funcionários de organizações de auxílio humanitário usando botas pesadas e calças de trabalho sentados e de pé nos saguões dos hotéis. Eles aguardam pelo início de uma missão que provavelmente jamais ocorrerá. Esses indivíduos não podem fazer nada antes que a junta lhes conceda autorização.

Diplomatas ocidentais e delegações da Organização das Nações Unidas
(ONU) apresentam planos para missões e preparam-se para reuniões em Naypyidaw, cidade que foi declarada a nova capital administrativa do país. Eles ainda não desistiram.

O general Than Shwe, o líder da junta, continua passando a maior parte do tempo em reclusão em Naypyidaw. O general é um homem supersticioso que não confia em ninguém, a não ser no seu astrólogo. Ele optou por se isolar do seu povo e do resto do mundo na bizarra nova capital.

Existe pouquíssima informação sobre a vida dele, mas um vídeo de dez minutos do casamento suntuoso da sua filha pode ser visto no YouTube. É um espetáculo decadente, mostrando a filha dele com o cabelo cheio de diamantes e usando um vestido de casamento feito mais fina seda. Vê-se também um bolo de casamento de cinco andares e muita champanha que foi servida aos convidados. Em meio a todo esse esplendor, pode-se ver o ditador empanturrando-se sem nenhuma manifestação de alegria, enquanto lá fora o seu povo passa fome.

Naypyidaw fica 350 quilômetros ao norte de Rangoon, no meio da selva. É como se a cidade estivesse em um outro planeta.

“Der Spiegel”

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José de Anchieta: O apóstolo da Colonização

Mário Maestri*

José de Anchieta nasceu em Tenerife, nas Canárias, em 19 de março de 1534, no seio de uma família de posses, de doze filhos. Seu pai descendia de bascos nobres e sua mãe, de judeus conversos. Aos quatorze anos, foi estudar em Portugal, no prestigioso Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra, pois dificilmente poderia fazê-lo na Espanha, devido à ascendência materna degradante. Em 1551, com dezessete anos, entrou para a Companhia de Jesus, fundada no espírito da contra-reforma, havia pouco, em 1539, acompanhado por um irmão.

Manuel da Nóbrega, primeiro provincial dos jesuítas no Brasil, chegara à Bahia com Tomé de Sousa, em 1549. Devido ao seu pedido de mais missionários, mesmo fracos de corpo ou de espírito, partiram com a expedição de Duarte da Costa, segundo governador geral do Brasil, em julho de 1553, o irmão José de Anchieta e seis outros jesuítas. Esperava-se que o clima do Brasil aliviasse as dores do noviço, que sofria de enfermidade osteoarticular.

Em janeiro de 1554, Anchieta participou da fundação do colégio jesuíta em Piratininga, no planalto paulista, embrião da cidade de São Paulo. Anchieta destacou-se, entre seus companheiros, pelo rápido aprendizado do tupi-guarani. Em 1563, acompanhou Nóbrega na viagem a Ubatuba, no Rio de Janeiro, para discutir a paz com a Confederação dos Tamoios.

Durante os meses que viveu na região, enquanto Nóbrega encontrava-se em São Vicente, compôs o célebre poema à Virgem Maria, de 5.732 versos latinos, De Beata Virgine dei Matre Maria – segundo a tradição escrito nas areias da praia, que o mar não apagava enquanto não concluía o verso. Sua legenda conta que, levitando diante dos tamoios, foi denominado de “padre voador” (abará-bebe) ou “homem de asas” (carai-bebe). A alcunha pode dever-se à velocidade com que Anchieta caminha.

Em 1559, Anchieta e Nóbrega teriam aconselhado o governador-geral Mem de Sá a condenar à morte o alfaiate e missionário calvinista Jean Jacques Le Balleur, que desertara, ameaçado de morte, da França Antártica, por pregar sua fé em São Vicente. Após longa prisão, em 20 de janeiro de 1567, no Rio de Janeiro, negando-se o carrasco a executar Le Balleur, José de Anchieta o teria estrangulado, com as próprias mãos, ato que constituiu, por longo tempo, entrave a sua beatificação. Biógrafos de José de Anchieta negam esse acontecimento.

Em 1566, José de Anchieta foi ordenado sacerdote, na Bahia. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba, no Espírito Santo e, de 1570 a 1573, dirigiu o colégio dos jesuítas, no Rio de Janeiro. De 1577 a 1587, foi provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Abandonou o cargo, por doença, retirando-se para a povoação que fundara, de onde foi chamado para dirigir o Colégio de Vitória do Espírito Santo, até 1595. Retornando a Reritiba, ali morreu, em 1597.

Anchieta escreveu ensaios, missivas, poesias, teatro. Em homenagem à expansão do colonialismo luso-cristão no litoral, redigiu, em latim, o poema apologético Os feitos de Mem de Sá, sobre os primeiros anos daquele governador no Brasil, impresso em 1563, em Coimbra. No poema, cantou o massacre e a submissão, a ferro e fogo, dos nativos do litoral, e a derrota dos franceses da Guanabara, em março de 1560, fatos apresentados como obras da vontade e da intervenção divina. Os feitos de Mem de Sá teria sido o primeiro poema impresso escrito no Brasil.

Entre a obra de José de Anchieta destaca-se a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Escrita a pedido de Manuel da Nóbrega, e concluída em 1555-6, ela foi publicada, em 1595, também em Coimbra, por Antonio de Mariz. Essa gramática da “língua geral” – “abanheenga” – usada, na compreensão de Anchieta, pelos tupi-guaranis do litoral, tornou-se obra de referência para os missionários interessados em aprender aquele idioma.

Apenas morria, iniciava-se importante produção apologética sobre a vida e obra de Anchieta, em geral da pena de jesuítas. Entre os mais destacados estudiosos recentes de Anchieta encontram-se os jesuítas Hélio A. Viotti, autor de Anchieta: o apóstolo do Brasil; Murillo Moutinho, responsável pela Bibliografia para o IV Centenário da Morte do Beato José de Anchieta: 1597-1997 e Armando Cardoso, autor de Vida do padre Anchieta. José de Anchieta, conhecido como “apóstolo do Brasil”, foi beatificado pelo papa Woytila em 1980, após movimento iniciado havia quatro séculos.

* Mário Maestri, 59, é professor do Curso de História e do PPGH da UPF. E-mail: maestri@via-rs.com.br É autor de O senhores do litoral: conquista portuguesa e agonia tupinambá no litoral brasileiro. 2 ed. Revista e ampliada. [Porto Alegre: EdiUFRGS, 1995].

“NovaE”

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Nazismo: a conexão norte-americana

Como se deu a intensa colaboração intelectual entre o nazismo e cientistas e personalidades dos EUA, nos anos 1920 e 30. Por que Hitler encantou-se com Henry Ford. Omitidos pela história oficial, fatos sugerem repensar as relações entre modernidade, homogenização e totalitarismo

Michael Löwy , Eleni Varikas

Certos autores, como Daniel Goldhagen, tentam explicar o nazismo como uma perversidade anti-semita exclusivamente alemã. Outros, como Ernst Nolte, com um espírito visivelmente apologético, falam de comportamento “asiático” ou de imitação dos bolcheviques. E, se o racismo e o anti-semitismo nazistas tinham origens ocidentais [1] e, até mesmo, filiações norte-americanas? Entre as leituras favoritas dos fundadores do Terceiro Reich encontra-se o livro de um personagem norte-americano bastante representativo: Henry Ford. Aliás, as doutrinas científicas e as práticas racistas políticas e jurídicas dos Estados Unidos tiveram um impacto não negligenciável sobre as correntes equivalentes na Alemanha.

Essa conexão norte-americana remonta, antes de tudo, à longa tradição da fabricação jurídica da raça — uma tradição que exerce grande fascínio sobre o movimente nazista desde suas origens. Realmente, por razões históricas ligadas, entre outras, à prática ininterrupta, durante séculos, da escravatura dos negros, os Estados Unidos representem, talvez, o único caso de uma metrópole que exerceu tão cedo, e no seu próprio território, uma classificação racista oficial como fundamento da cidadania. Isso se dá por meio das definições da “brancura” e da “negritude” que, apesar de sua instabilidade, perduram há três séculos e meio como categorias jurídicas, e também por políticas de imigração admiradas por Adolf Hitler desde os anos 1920. Ou ainda, por práticas de esterilização forçada praticadas em determinados Estados, várias décadas antes da ascensão do nazismo na Alemanha. A conexão norte-americana, embora não seja a única, oferece um terreno privilegiado para repensar as origens propriamente modernas do nazismo, e suas continuações inconfessas com determinadas práticas políticas das sociedades ocidentais (inclusive democráticas).

Denunciar o anti-semitismo e o genocídio judeu é, hoje, um dos importantes componentes da cultura política dominante nos Estados Unidos. Tanto melhor. Impera, em contrapartida, um silêncio incômodo sobre alianças, afinidades e conexões entre personagens importantes da elite econômica e científica dos Estados Unidos com a Alemanha nazista. Foi somente ao longo dos últimos anos que surgiram livros que abordam diretamente essas questões embaraçosas. Duas dessas obras merecem uma atenção particular: The Nazi Connection. Eugenics, American Racism and German National Socialism [2], de Stefan Kühl, e The American Axis. Henry Ford, Charles Lindbergh and the Rise of the Third Reich [3], de Max Wallace. Stefan Kühl é um universitário alemão que fez pesquisas nos Estados Unidos e Max Wallace, um jornalista norte-americano estabelecido há muito tempo no Canadá.

Políticas de migração racistas e esterilização forçada nos EUA seduziram nazistas

“Atualmente, existe um país no qual podemos ver os primórdios de uma melhor concepção da cidadania”, escreveu Hitler em 1924. Ele se referia ao esforço dos Estados Unidos para manterem a “preponderância da raça nórdica” por meio de sua política relativa à imigração e à naturalização. O projeto de “higiene racial” desenvolvido em Mein Kampf tomava como modelo o Immigration Restriction Act (1924), que proibia a entrada nos Estados Unidos dos indivíduos portadores de doenças hereditárias, como também de migrantes provenientes da Europa do Sul e do Leste. Quando, em 1933, os nazistas instauraram seu programa para a “melhoria” da população, por meio da esterilização forçada e da regulamentação dos casamentos, eles se inspiraram abertamente nos Estados Unidos, onde vários Estados já aplicavam há décadas a esterilização dos “defeituosos”, uma prática sancionada pela Suprema Corte em 1927.

O estudo notável de Stefan Kühl rastreia essa sinistra filiação, pesquisando os estreitos laços que se tecem entre os eugenistas norte-americanos e os alemães, no período entre as duas guerras; as trocas de idéias científicas e de práticas jurídicas e médicas. Bem documentada e defendida com rigor, a tese principal do autor é: o apoio contínuo e sistemático dos eugenistas norte-americanos aos seus colegas alemães, até a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, e sua adesão à maioria das medidas da política racial nazista constituíram uma fonte importante de legitimação científica do Estado racista de Hitler.

Contrariamente a uma parte considerável da historiografia dominante, Kühl mostra que os eugenistas norte-americanos que se deixaram seduzir pela retórica nazista da limpeza racial não eram um punhado de extremistas ou de marginais, mas um grupo considerável de cientistas cujo entusiasmo não se atenuou quando a retórica nazista tornou-se realidade. O estudo das transformações dessas relações entre as duas comunidades científicas permite ao sociólogo e historiador alemão evidenciar a múltipla influência que os “progresssos” da eugenia norte-americana (notadamente a eficácia de uma política de imigração que “combinava a seleção étnica e eugenista”) exerceram sobre os adeptos da limpeza racial. Kühl também aponta o sucesso que obteve o movimento eugenista dos EUA ao conseguir que fossem adotadas as leis a favor da esterilização forçada.

Enquanto, na República de Weimar, os trabalhadores sociais e os responsáveis pela saúde pública preocupavam-se em reduzir os gastos com a proteção social, os especialistas em higiene racial estavam com os olhos voltados para as medidas de esterilização forçada, praticadas em diversos Estados da América do Norte para reduzir o custo com os “deficientes”. A referência aos Estados Unidos, primeiro país a institucionalizar a esterilização forçada, abunda em todas as teses médicas da época. Uma das explicações comumente utilizadas para interpretar esse status de vanguarda do qual gozava a eugenia norte-americana era a presença dos negros, que teria “obrigado, muito cedo, a população branca a recorrer a um programa sistemático de melhoria da raça”. Essa mesma explicação será apresentada mais tarde pelos apologetas norte-americanos do regime nazista, como o geneticista T. U. H. Ellinger, que comparava a perseguição dos judeus ao tratamento brutal dos negros nos Estados Unidos.

Até a II Guerra, eugenistas norte-americanos aplaudem e colaboram com Hitler

Com a ascensão do nazismo, os eugenistas norte-americanos, a exemplo de Joseph De Jarnette, membro do movimento de esterilização de Virgínia, descobrem, surpresos e fascinados, que “os alemães nos superam no nosso próprio jogo”. O que não impede — ao menos até os Estados Unidos entrarem na guerra (dezembro de 1941) — o apoio ativo às políticas racistas dos nazistas, como também o silêncio da grande maioria dos eugenistas diante da perseguição dos judeus, ciganos e negros.

Na verdade, a comunidade eugenista não foi homogênea, como demonstram as acusações virulentas de cientistas como Herman Muller e Walter Landauer; as do geneticista progressista L.C. Dunn e do célebre antropólogo Franz Boas. Mas, contrariamente aos dois últimos, que eram críticos da eugenia, Muller e Landauer faziam uma crítica científica do nazismo. Ao mesmo tempo em que negavam a hierarquia das raças, reconheciam a necessidade de aperfeiçoar a espécie humana por meio da reprodução de indivíduos “capazes” e da proibição da reprodução dos indivíduos “inferiores”.

O Capítulo 6 do livro de Kühl, (Ciência e racismo: A influência de diferentes conceitos de raça sobre as atitudes em relação às políticas racistas nazistas) apresenta um desmentido à tese canônica, segundo a qual as tendências “pseudocientíficas” da eugenia norte-americana — responsáveis pela lei racista de 1924 sobre a imigração — teriam dado lugar, a partir dos anos 1930, a uma eugenia progressista, mais “científica”, totalmente dissociada da higiene racial.

A complexa tipologia que o autor constrói demonstra que as diferenciações no seio do movimento eugenista norte-americano nada têm a ver com seu futuro mais “científico”. Ele sublinha que a luta no interior da comunidade científica internacional a respeito da política racial nazista era, antes de tudo, uma luta entre posições científicas divergentes, relativas ao aperfeiçoamento da raça e aos meios científicos, econômicos e políticos de consegui-lo.

Por isso, o autor propõe duas noções que considera necessárias para a compreensão do fenômeno estudado — “racismo étnico” e “racismo genético”. O primeiro foi condenado abertamente pelo tribunal de Nuremberg. Já o segundo foi mais difícil. A maioria dos higienistas raciais não foi julgada pela esterilização forçada de 400 mil pessoas. E pesquisas recentes mostraram que uma parte da acusação tentou apresentar os massacres em massa e as experiências nos campos de concentração como práticas separadas da “eugenia autêntica”.

Henry Ford: bem mais que um retrato na parede do Fuhrer

Em 1939, T. U. H. Ellinger escreveu, no Journal of Heredity, que a perseguição aos judeus não era uma perseguição religiosa, mas “um projeto de criação em grande escala, visando eliminar da nação os caracteres hereditários da raça semítica”. E acrescentava: “Mas quando se trata de saber como o processo de criação pode ser realizado com maior eficácia, uma vez que os políticos julgaram-no de utilidade econômica, a ciência pode ajudar até os nazistas”. Alguns anos mais tarde, Karl Brandt, médico responsável pelo programa de eliminação das pessoas deficientes físicas, declarava perante os seus juízes que esse programa tinha sido baseado em experiências norte-americanas, algumas das quais datavam de 1907. Ele citava, para sua defesa, Alexis Carel, que foi nome de um centro de estudos francês até há pouco tempo atrás [4].

A obra de Max Wallace analisa as relações com o nazismo de dois ícones norte-americanos do século 20: o construtor automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh. Esse, consagrado herói da aviação depois de ter atravessado pela primeira vez o Atlântico (1927), desempenha um significativo papel político, nos anos 1930, como norte-americano simpatizante do Terceiro Reich e, a partir de 1939, como um dos organizadores (juntamente com Ford) da campanha contra Roosevelt, acusado de desejar intervir na Europa contra as potências do Eixo.

Menos conhecido, o caso de Ford é mais importante. Como demonstra muito bem Max Wallace — é um dos pontos fortes do seu livro — a obra The International Jew (O judeu internacional), de Ford, inspirado pelo mais brutal anti-semitismo, teve um impacto considerável na Alemanha. Traduzida a partir de 1921 para o alemão, ela foi uma das principais fontes do anti-semitismo nacional-socialista e das idéias de Adolf Hitler. Em dezembro de 1922, um jornalista do New York Times, em visita à Alemanha, contou que “a parede situada atrás da mesa de Hitler, no seu escritório particular, é decorada com um grande quadro representando Henry Ford”. Na ante-sala, uma mesa estava coberta por exemplares de Der Internationale Jude. Um outro artigo do mesmo jornal norte-americano publicou, em fevereiro de 1923, as declarações de Erhard Auer, vice-presidente da Dieta bávara, acusando Ford de financiar Hitler, por ser favorável ao seu programa que previa “o extermínio dos judeus na Alemanha”.

Wallace observa que tal artigo é uma das primeiras referências conhecidas aos projetos exterminadores do dirigente nazista. Em 8 de março de 1923, em uma entrevista para o Chicago Tribune, Hitler declarou: “Nós consideramos Heinrich Ford como o líder do movimento fascisti crescente na América. Admiramos, particularmente, sua política anti-judia, que é a mesma da plataforma dos fascisti bávaros” [5]. Em Mein Kampf, publicado dois anos mais tarde, o autor presta homenagem a Ford, o único indivíduo que resiste aos judeus na América (mas sua dívida para com o industrial é bem maior). As idéias do International Jew estão onipresentes no livro, e certas passagens são extraídas quase que literalmente — em particular no que se refere ao papel dos conspiradores judeus nas revoluções ocorridas na Alemanha e na Rússia.

Um livro que influenciou alguns dos maiores dirigentes nazistas

Alguns anos mais tarde, em 1933, já tendo o partido nazista assumido o poder, Edmund Heine, gerente da filial alemã da Ford, escreveu ao secretário do industrial norte-americano, Ernest Liebold, para contar-lhe que The International Jew era utilizado pelo novo governo para educar a nação alemã na compreensão da Questão Judaica [6]. Ao reunir essa documentação, Max Wallace estabeleceu, de forma incontestável, que o empresário automobilístico dos EUA fazia parte das mais significativas fontes do anti-semitismo do nacional-socialista.

Como lembra Max Wallace, Hitler concedeu a Henry Ford, em 1938, a Grande Cruz da Ordem Suprema da Águia Alemã — uma distinção criada em 1937 para homenagear as altas personalidades estrangeiras — por intermédio do cônsul alemão nos Estados Unidos. Anteriormente, a medalha, uma cruz de Malta cercada de suásticas, havia sido concedida a Benito Mussolini.

Entretanto, Wallace não explica por que, considerando a abundância de trabalhos anti-semitas europeus, particularmente alemães, o autor de Mein Kampf era fascinado pela obra estadunidense. Por que ele decorou seu escritório com o retrato de Henry Ford, ao invés de decorá-lo com o de Paul Lagarde, Moeller van der Bruck e muitos outros ilustres ideólogos anti-semitas alemães? Além do prestígio associado ao nome do industrial, parece que três razões podem explicar esse interesse pelo The International Jew: a modernidade do argumento, seu vocabulário “biológico”, “médico” e “higienista”; seu caráter de síntese sistemática, articulando, em um discurso grandioso, coerente e global, o conjunto das diatribes anti-semitas do pós-I Guerra; e sua perspectiva internacional planetária, mundial.

Wallace mostra, baseado em documentos, que Hitler não foi o único dos dirigentes nazistas a sofrer a influência do livro editado em Dearborn. Baldur von Schirach, líder da Hitlerjugend [7] e, mais tarde, gauleiter [8] de Viena, declarou, durante o processo de Nuremberg, em 1946: “O livro anti-semita decisivo que li naquela época, e o livro que influenciou meus colegas foi o de Henry Ford, O Judeu Internacional. Eu o li e me tornei anti-semita”. Joseph Goebbels e Alfred Rosenberg figuram, igualmente, entre os dirigentes que mencionaram tal obra entre as referências importantes da ideologia do Partido Nacional-socialista Alemão (NSDAP) [9].

Indagações incômodas sobra a relação entre Ocidente, Modernizade e Terceiro Reich

Em julho de 1927, ameaçado de um processo de difamação e preocupado com a queda das vendas dos seus automóveis, Ford retratou-se devidamente. Em um comunicado da imprensa, afirmou, sem corar, que “não tinha sido informado” sobre o conteúdo dos artigos anti-semitas publicados no Dearborn Independent, e pedia aos judeus “perdão pelo mal involuntariamente causado” pelo panfleto The International Jew [10]. Considerado pouco sincera por uma boa parte da imprensa norte-americana, a declaração, entretanto, permitiu a Ford eximir-se da responsabilidade penal. Ela não o impediu de continuar a apoiar, clandestinamente, uma série de atividades e de publicações de caráter anti-semita [11].

“Henry Ford, precursor do nazismo” foi amplamente ocultado nos Estados Unidos, em benefício do grande industrial, criador do automóvel fabricado em série e vendido a preços baixos. Era esse homem que o escritor inglês Aldous Huxley apresentava ironicamente, em sua distopia Admirável Mundo Novo (1932), como uma divindade moderna, com a oração dirigida ao “Our Ford” substituindo a antiga, dirigida ao “Our Lord” (”Nosso Senhor”).

O longo silêncio é compreensível. O “caso” Henry Ford levanta questões delicadas sobre o lugar do racismo na cultura norte-americana e sobre as relações entre nossa “civilização ocidental” e o Terceiro Reich, entre a modernidade e o mais delirante anti-semitismo, entre o progresso econômico e a regressão humana. Aliás, o termo “regressão” não é pertinente: um livro como The International Jew não poderia ter sido escrito anteriormente ao século 20, e o anti-semitismo nazista também é um fenômeno radicalmente novo. O dossiê Ford lança uma luz crua sobre as antinomias daquilo que Norbert Elias chamava de “o processo civilizatório”.

[1] Conforme a demonstração feita por Hannah Arendt, no que diz respeito ao colonialismo, imperialismo e anti-semitismo europeus, no primeiro e no segundo volume do livro As Origens do Totalitarismo. Para uma atualização e enriquecimento desta tese, cf. Enzo Traverso, La violence nazie, Paris, La Fabrique, 2002.

[2] Stefan Kühl, The Nazi Connection. Eugenics, American Racism and German National Socialism, Oxford University Press, Nova Iorque, 1994.

[3] Max Wallace, The American Axis. Henry Ford, Charles Lindbergh and the Rise of the Third Reich, St. Martin’s Press, Nova Iorque, 2004.

[4] A faculdade de medicina Lyon-I, até 1996

[5] Max Wallace, The American Axis, pp.45-46.

[6] Max Wallace, The American Axis, p. 130.

[7] Juventude Hitlerista (Nota da Tradutora).

[8] Chefe de um gau (distrito) da Alemanha nacional-socialista (Nota da Tradutora).

[9] Max Wallace,‭ ‬The American Axis,‭ ‬p.42,‭ ‬57

[10] Max Wallace,‭ ‬The American Axis, ‬pp.‭ ‬31-33.

[11] A respeito das conexões filonazistas de Ford nos anos 1930, e sobre sua aliança com Lindbergh, cf. Max Wallace,The American Axis, Ch. 5, “Hate by proxy”., pp. 124-145 et Ch. 9, “America First”, pp. 239-266.

“Le Monde diplomatique”

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MÚSICA PARA REVOLUÇÃO

Fazendo Media

Marcelo Yuka: compositor, letrista, percussionista, poeta, artista, ativista. É o cara que disse que em todo camburão existe um pouco de navio negreiro. Que disse que ninguém regula a América. Que fez uma análise profunda da elite antinacional que vive escondida atrás de carros blindados, morre de medo da realidade que a cerca e se entope de cocaína. Marcelo Yuka é o cara que fez O Rappa ser o que ele é hoje, é o cara que lançou o F.UR.T.O, é o cara que não consegue tirar da cabeça a injustiça social que faz do Brasil o país mais desigual do mundo. Nessa entrevista, que poderia ter dez páginas caso uma editora investisse no Fazendo Media, Marcelo Yuka fala de sua música, da elite e da indústria da moda.

Entrevista concedida a Marcelo Salles para o Fazendo Media impresso número 43, publicado em agosto de 2006.

O que você mais ama na música?
Ah… (suspira). Eu acho que tem uma coisa legal, o que eu mais amo é que ela é uma exposição invisível.

Como assim?
Quando você tá tocando, você pode ver o instrumento sendo tocado, mas ele tá emitindo ondas sonoras que você não vê. E é como o som da voz. Não toca fisicamente, mas desperta tantos outros sentidos, e a distância, que eu fico pensando o quanto isso é tecnologicamente apurado. Hoje você tá falando em holografia, mas a música é uma arte que tem o mesmo poder de uma emissão holográfica, só que tem a mesma idade do homem. Porque com certeza a partir do momento em que o homem fez o som ele começou a se comunicar e a decodificar esse som, e acho que a relação da música com a semiologia é muito próxima. Você estudar a linguagem, signos, significados… Eu prefiro, muitas vezes, ouvir músicas em que eu não entendo o que o cara está falando porque a minha mente pode fazer o texto daquilo. E aí completa aquela informação.

Mais ou menos como quando você lê um livro e constrói aquela imagem.
Exatamente, da mesma maneira. E esse processo neurológico de você decodificar os signos em imagens, o mais rápido e o mais dinâmico possível, é que tá sendo dito como o novo conceito de inteligência. Daí a poesia, que talvez das artes seja a que tem menos mídia, passa a ser mais importante ainda, porque ela é mais eficaz do que a matemática pra aguçar a nossa capacidade neural. Porque você tem que decodificar imagens subjetivas. E acho que a música, como qualquer manifestação artística; mas a música, com códigos únicos, ela te toca psicologicamente e, sem ser direta, ela sugere. E quando ela sugere, quando você tenta decodificar essa sugestão, você é cúmplice do autor. E isso é a maior das comunicações. E isso beira o amor, de tão bonito entre os homens. E é corriqueiro, é popular, não precisa de grandes sabedorias ou tecnologias. Desde a palma da mão até um computador, uma orquestra. Tudo comunica. E até por entre as fronteiras que são impostas hoje, religiosas, políticas. É lógico que existe uma massificação da cultura americana, mas mesmo assim existe a comunicação.

E pra compor, como você faz? Precisa ficar sozinho?
Quando eu tô compondo música, fazendo melodia, harmonia, eu gosto de estar com as pessoas. Mas pra escrever, prefiro ficar sozinho. Porque aí é visível. Aí já me dá uma timidez. Na real eu risco mais do que eu aproveito. Eu risco muito. Algumas coisas até jogo fora, porque não sei esteticamente pra onde aquilo vai, ou o que eu quis dizer ali. Porque tudo, na realidade, antes de ter uma linguagem estética que eu procuro, eu procuro botar meus bichos pra fora. Essa necessidade é muito grande. Mais aí depois vem a coisa estética, que é como você vai botar isso pra fora. Qual a linguagem a ser usada. E isso é o que me agonia mais. Porque o mais natural é só botar pra fora. Eu acho que num texto eu quero sempre ser parceiro de quem vai absorver aquilo. Então é trocar uma idéia pra gente pensar junto. Se a conclusão da pessoa não for a mesma que a minha, tá tudo bem também. Mas eu acho que você tem que criar temas que são factíveis de discussão, ou então que aguce você a pensar sobre. Por isso eu trabalho com metáforas. Se eu sou muito direto eu poderia ter apenas um ranço jornalístico, que é o que eu tinha no começo.

Que é uma maneira de não impor.
De não impor, exatamente. Acho que eu consigo mais fazer um cenário psicológico daquilo. Aí a pessoa que recebe divide comigo esse cenário e as conclusões saem daí, não são impostas. Saem desse cenário. Se você for ver, até as imagens que eu crio dentro da poesia são para a pessoa se posicionar psicologicamente dentro daquilo, pra ela sentir o mesmo tipo de sufoco, de calor.

Tentar não ser direto vale também pra Ninguém Regula a América e Egocity, que parecem mais diretas?
Egocity, por exemplo. Tem uma frase muito sutil, que é “E vão lambendo os cartões de crédito”. Porque muitos viciados batem a cocaína com o cartão de crédito. Eu acho isso uma imagem forte, porque o cartão de crédito é a sua identidade como consumidor.

O que você acha da elite brasileira?
Acho que a elite está cada vez mais emburrecida e emburrecedora. Ela ainda não descobriu isso do lucro inteligente. Não é ser bonzinho para os outros. Eu não espero isso deles. Mas que eles entendam que é matemático, lei da ação e reação, E = mc2. Se a indústria privada desse país não for mais benevolente, se a elite intelectual, econômica, até mesmo a política, ficar ainda com esse ranço de extrativismo humano, a qualidade de vida diminui pra eles também. Mas muito mais rápido do que antigamente. Porque todo processo histórico mundial entrou numa velocidade que jamais o ser humano viu na terra. Então, o efeito colateral do que eles estão causando é muito rápido. E mesmo assim, por mais que tenha estatísticas, números, se fica mais ainda preconceituoso. A Daslu não tem entrada pra pedestre…

Na Barra da Tijuca só se pode andar de carro…
Só se pode andar de carro. Em Brasília, cidade-satélite é pra botar pobre pra fora da arquitetura original da cidade. Brasília, uma cidade de ruas tão amplas, você vê no final do expediente pessoas andando quilômetros pra chegar até o ponto de ônibus. Porque até isso é contido. Aglomerações em lugares planejados. Quer dizer, o conforto que as pessoas estão procurando é cada vez mais burro e de uma burrice letal. Eu não sou nenhum gênio pra ter essa lucidez. Muitos deles aí têm muito mais informação e educação do que eu. Sabem disso melhor que eu, mas continuam numa ciranda viva na tentativa de serem célebres, numa procura louca de poder.

E as soluções que são apresentadas parecem que vão mais no sentido de reforçar a coisa do jeito que ela está.
Não precisa ser gênio pra ver que diminuir a idade penal não vai reduzir a violência no país. Se fosse investir em educação nos lugares de maior incidência de violência, seria muito mais barato do que é gasto pra reprimir. E o resultado seria muito mais positivo. Quer dizer, eu falo em número não porque eu queira, mas porque é a linguagem que eles entendem. A elite desse país só entende quando dói no bolso. Estão crescendo novas instituições. A moda pode ser uma nova maneira de arte. Tudo bem. Vou ponderar isso. Mas, por exemplo, será que é certo um desfile de moda ter maior exposição, maior divulgação do que a exposição do Mário Quintana?

EVocê já percebeu que a moda vende um corpo, um jeito de ser, que só uma minoria possui? A maioria não tem. Ao mesmo tempo a indústria vende uma série de produtos de beleza, emagrecimento, etc. para essa maioria que não tem o corpo da modelo?
Quando alguém fala “Ah, essa roupa assim é maravilhosa, mas se você é gordinha, você não pode usar”. Olha, peraí, cara! A pessoa tem o direito de usar qualquer coisa. “Ah, mas fica feio”. Fica feio pra quem? Cara, o que acontece é ela. É ela, a pessoa, com aquilo. Se a mulher pesa 180 quilos e quer botar uma minissaia, aí vem um conceito não sei de onde… Tudo bem que se discuta a estética do vestuário, que se discuta a representação sóciocultural disso. Isso se misturou a nossa cultura. Mas dizer quem pode ou não usar aquilo!? Aí mudou. Aí é outra maneira de pensar. Se o cara tá se esforçando pra ter um corpo mais bonito, beleza. Agora, parece algo assim: o dono do seu interesse, que aquilo depois vai pra sua sala, pro seu carro, pra sua família. É tudo “Me, myself and I”. É tudo “eu”, “eu”, e não o comum. Eu passei ontem na praia, à noite, do Leblon até Copacabana, e tinha uma porrada de atividade esportiva na praia, cara! Tinha vida ali, era bonito de ver. Fiquei olhando e falando: caralho, que bom, que bonito! Ainda, por mais que tenha apartheid econômico aqui, a praia ainda luta pra socializar. Por mais que andem espancando travestis e homossexuais na praia, ela ainda insiste em ser um momento de encontro. Mas, aí eu atravesso o túnel, e quando eu saio aqui, tá tudo deserto. Não tem atividade nenhuma, todo mundo com medo, e a cidade sitiada. Não tem mais espaço socializante no lado de cá [Zona Norte]. Os campos de pelada estão perdendo pras construções.

“Fazendo Media”

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Paulo Freire, memória e presença

Dez anos após sua morte, educador é lembrado por seu legado de luta e esperança e seu compromisso com os oprimidos

Moacir Gadotti

Há dez anos falecia Paulo Freire, dia 2 de maio de 1997. Nos dias que seguiram à sua morte, recebemos mais de 600 mensagens de condolências, enviadas à família e ao Instituto Paulo Freire que ele ajudara a criar seis anos antes. Todas essas mensagens eram verdadeiras manifestações de carinho e de imenso apreço pelo grande educador brasileiro. Elas mencionavam a profunda dor e tristeza pela perda de um mestre, mas, também, as saudades que ele deixava, evidenciando o impacto de sua práxis em muitas partes do mundo. Entre essas mensagens estão as de professores de aproximadamente 150 universidades, do Brasil e do exterior, o que demonstra a repercussão de suas idéias também no meio acadêmico.
Suas idéias podem ter despertado controvérsias, mas não a sua pessoa. Muitas das mensagens recebidas dizem textualmente: ‘Minha vida não seria a mesma se eu não tivesse lido a obra de Paulo Freire. O que ele escreveu ficará no meu coração e na minha mente.’ Essa relação entre o cognitivo e o afetivo é muito forte não só na vida dele, mas também na sua obra e naqueles que foram influenciados por ele.
As mensagens recebidas logo depois de sua morte revelaram o impacto teórico e afetivo sobre a vida de tantos seres humanos de todas as partes do mundo. Essas manifestações terminavam, freqüentemente, com o desejo de unir-se a outras pessoas e instituições para dar continuidade ao seu trabalho, ao seu compromisso, que era, sobretudo, o compromisso com os oprimidos. Não o compromisso com os oprimidos deste ou daquele lugar - da América Latina, por exemplo -, mas com os oprimidos de todo o mundo.
Paulo Freire era também um ser humano esperançoso. Não por teimosia, mas por ‘imperativo histórico e existencial’, como afirma no seu livro Pedagogia da Esperança. Ele nos deixou um legado de luta e de esperança que não pertence a uma pessoa ou a uma instituição. Pertence a quem precisa dele. Recordo o filme O Carteiro e o Poeta no qual o carteiro se apropriou de um poema de Pablo Neruda para seduzir sua namorada. O personagem que representava Pablo questionou o carteiro sobre a autoria do poema e o carteiro respondeu: ‘A poesia não pertence àqueles que a escrevem, mas a quem precisa dela.’ Nesse livro ele afirma que ‘pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, a pura cientificidade, é frívola ilusão’ (p.10).
Não nascemos esperançosos.
Por isso precisamos de uma educação para a esperança. É muito importante associar a pedagogia da esperança como concepção da educação, à pedagogia da luta. Essas pedagogias são inseparáveis no pensamento de Paulo Freire. Carlos Alberto Torres, um dos maiores estudiosos de Paulo Freire, afirma, em seu livro Pedagogia da Luta: Da Pedagogia do Oprimido à Escola Pública Popular, que luta e esperança são inseparáveis de sua teoria do conhecimento e de sua concepção de educação. Para Paulo Freire, diz ele, ‘o conhecimento é uma construção social, constitui um processo de produção discursiva e não um mero produto final resultante do acúmulo de informações ou de fatos’ (p. 151).
O objetivo que Paulo Freire se propunha era o de utilizar a educação para melhorar o mundo, neutralizando os efeitos da opressão, aliando educação a um projeto histórico de emancipação social. Luta e esperança não podem prescindir uma da outra nessa tarefa humanizadora. A prática educativa deveria traduzir essa visão emancipadora do conhecimento. Por isso, ele concebia a educação mais como um ato de construção de conhecimentos do que a simples transmissão de informações.
A teoria do conhecimento de Paulo Freire continua muito atual, em especial a resposta que deu à questão da aprendizagem a partir de quatro intuições originais: 1ª - a ênfase nas condições gnosiológicas do ato educativo; 2ª - a defesa da educação como ato dialógico; 3ª - a noção de ciência aberta às necessidades populares; e 4ª - o planejamento comunitário e participativo.
Diga-se o mesmo em relação a seu método. Para construir seu método de ensino, aprendizagem e pesquisa, Paulo Freire parte das necessidades dos educandos e não de categorias abstratas, entrelaçando quatro momentos interdependentes: 1º - ler o mundo, o que implica o cultivo da curiosidade; 2º - compartilhar o mundo lido, o que implica o diálogo; 3º - a educação como ato de produção e de reconstrução do saber; 4º - a educação como prática da liberdade.
A teoria e a práxis de Paulo Freire cruzaram as fronteiras das disciplinas, das ciências e dos espaços geográficos. Foram para além da América Latina.
Ao mesmo tempo em que as suas reflexões foram aprofundando o tema que ele perseguiu por toda a vida - a educação como prática da liberdade -, suas abordagens se transbordaram para outros campos do conhecimento, criando raízes nos mais variados solos, fortalecendo teorias e práticas educacionais, bem como auxiliando reflexões não só de educadores, mas também de médicos, terapeutas, cientistas sociais, filósofos, antropólogos e outros profissionais. O seu pensamento é considerado um exemplo de transdisciplinaridade. Freire conseguiu fazer uma síntese pessoal original entre humanismo e dialética, o que confere um caráter muito atual a seu pensamento.
Paulo Freire continua sendo a grande referência de uma educação como prática da liberdade.
Ele pode ser comparado a muitos educadores do século 20, mas nenhum, melhor do que ele, formulou uma pedagogia dos silenciados e da responsabilidade social, ao mesmo tempo dos oprimidos, dando-lhes voz, e daqueles que não são oprimidos, mas estão comprometidos com eles e com eles lutam. Colocar Paulo Freire no passado é não querer mexer na cultura opressiva de hoje.
Por que continuar lendo Paulo Freire? Alguns certamente gostariam de deixá-lo para trás na história das idéias pedagógicas e outros gostariam de esquecê-lo, por causa de suas opções políticas. Ele não queria agradar a todos. Mas havia uma unanimidade compartilhada por todos os seus leitores e todos os que o conheceram de perto: o respeito à pessoa. Paulo sempre foi uma pessoa cordial, generosa, muito

A EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE, TEMA QUE PERSEGUIU PELA VIDA

respeitosa. Podia discordar das idéias, mas respeitava a pessoa, mostrando um elevado grau de civilização. E mais: sua prática do diálogo o levava a respeitar também o pensamento daqueles e daquelas que não concordavam com ele. A pedagogia do diálogo que pensou e praticou se fundamenta numa filosofia pluralista. O pluralismo não significa ecletismo ou posições ‘adocicadas’, como ele costumava dizer.
Significa ter um ponto de vista e, a partir dele, dialogar com os demais. É o que mantinha a coerência da sua prática e da sua teoria.
Paulo era acima de tudo um humanista. Seria a única forma de ‘classificá-lo’ hoje.
A força da obra de Paulo Freire não está só na sua teoria do conhecimento, mas em ter insistido na idéia de que é possível, urgente e necessário mudar a ordem das coisas. Ele não só convenceu tantas pessoas em tantas partes do mundo pelas suas teorias e práticas, mas também porque despertava nelas a capacidade de sonhar com uma realidade ‘mais humana, menos feia e mais justa’, como costumava dizer. Como legado, nos deixou a utopia. As passagens mais bonitas das suas obras são as que ele escreveu sobre sonho e utopia.
Estamos diante de um educador que não se submeteu a correntes e tendências pedagógicas e criou um pensamento vivo orientado apenas pelo ponto de vista do oprimido. Essa é a ótica básica de sua obra, à qual foi fiel a vida toda: a perspectiva do oprimido. Esse compromisso nós podemos encontrar já na dedicatória do seu livro mais importante,
Pedagogia do Oprimido, escrito no Chile, em 1968: ‘Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam’.
A pergunta que podemos fazer hoje é a seguinte: esse ponto de vista é ainda válido? Caso não seja válido, já não haveria mais porque continuar lendo Paulo Freire. Ou melhor, Paulo Freire seria um autor já superado, porque sua luta pelo oprimido estaria superada. Ele passaria para a história como um grande educador, mas que não teria mais nada a dizer para o nosso tempo.
Pelo contrário, a sua pedagogia continua válida não só porque ainda há opressão no mundo, mas porque ela responde a necessidades fundamentais da educação de hoje. A escola e os sistemas educacionais encontram-se hoje frente a novos e grandes desafios diante da generalização da informação na sociedade que é chamada por muitos de ’sociedade do conhecimento’, de sociedade da aprendizagem. As cidades, cada vez mais, tornam-se, como dizia ele, ‘educadoras-educandas’, multiplicando seus espaços de formação. A escola, nesse novo contexto de impregnação do conhecimento, não pode ser mais um espaço, entre outros, de formação. Precisa ser um espaço organizador dos múltiplos espaços de formação, exercendo uma função mais formativa e menos informativa. Precisa tornar-se um ‘círculo de cultura’, como dizia Paulo Freire, muito mais gestora do conhecimento social do que lecionadora.
Nesse contexto, o pensamento de Paulo Freire é mais atual do que nunca, pois, em toda a sua obra ele insistiu nas metodologias, nas formas de aprender e ensinar, nos métodos de ensino e pesquisa, nas relações pessoais, enfim, no diálogo.
Devemos continuar estudando a sua obra, não para venerálo como a um totem ou a um santo, nem para ser seguido como a um guru, mas para ser lido como um dos maiores educadores críticos do século 20. Honrar um autor é sobretudo estudá-lo e revê-lo criticamente, retomar seus temas, seus problemas, seus questionamentos.

Moacir Gadotti é professor titular da USP e diretor do Instituto Paulo Freire. É autor, entre outras obras, de Paulo Freire: Uma Biobibliografia

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Dias que abalaram o mundo

MARCELO COELHO

Nada melhor do que um pouco de realidade histórica quando ética e política viram abstração

NO COMEÇO de novembro de 1918, já não havia esperança para os alemães. A Primeira Guerra Mundial estava a ponto de terminar; durante os quatro anos do conflito, morreram em média 250 pessoas por hora.
O comandante geral das forças aliadas era o marechal francês Ferdinand Foch. Os alemães se preparavam para propor um armistício. A atitude de Foch foi duríssima. Uma opção seria encerrar a guerra o mais cedo possível. Outra era prolongá-la um pouco mais, de modo a destruir definitivamente a Alemanha, eliminando as possibilidades de uma revanche no futuro. Qual seria a decisão mais correta, na circunstância?
Pela primeira vez, a Alemanha entregou a um político civil a missão de negociar um tratado de paz. Era Matthias Erzberger, que perdera seu filho único na guerra, três semanas antes. O próprio Foch perdera um filho de 25 anos, em 1914.
O impasse diplomático se prolonga durante alguns dias. Um corte, agora, para o 28º Batalhão da Infantaria Canadense, estacionado perto da linha de combate. O soldado George Price recebe ordens de avançar até Mons, na Bélgica, onde a guerra havia aliás começado, quatro anos antes. Finalmente, Erzberger recebe ordens para assinar o armistício. Isso é feito às 5h10 da manhã de 11 de novembro de 1918. Seis horas depois, às 11 da manhã, acabam as hostilidades. O soldado George Prince, baleado às 10h58, morrerá ouvindo os últimos tiros da Primeira Guerra Mundial.
Esta é a narrativa resumida de um documentário histórico produzido pela BBC, que faz parte da série “Dias que Abalaram o Mundo”. Andou passando nos labirintos da TV a cabo, mas agora os DVDs podem ser comprados em banca de jornal, ou no site www.aventurasnahistoria.com.br/loja.
Não vi todos ainda. Graças à narrativa concentrada em pouco mais de um dia decisivo e em poucos personagens, o efeito desses documentários é eletrizante.
No começo de junho de 1967, o rei Hussein da Jordânia recebe um telefonema do líder egípcio Gamal Abdel Nasser. Os dois tinham assinado um acordo militar pouco tempo antes. Nasser tem boas notícias para Hussein: conta-lhe que os egípcios impõem às forças israelenses uma derrota humilhante. Estava na hora de Hussein ajudar nesse momento histórico. O que fará ? Pode acreditar em Nasser? O fato é que, àquela altura, toda a força aérea egípcia fora dizimada num ataque-surpresa israelense.
Em pleno Natal de 1989, o ditador romeno Nicolae Ceausescu ainda está confiante. Apesar da onda de libertação que varre o Leste europeu e dos protestos pelos direitos humanos que ocorrem em seu país, ele convoca um comício monstro em apoio ao seu regime. Na TV estatal romena, o diretor Georgea Minitaru cuida das transmissões do evento. No meio do discurso de Ceausescu, a multidão começa a protestar. Ceausescu hesita; engasga; fica em silêncio. O que fará Minitaru? Continua ou encerra a transmissão? O fiasco da “transmisiune directa” pela TV precipitou a queda do regime.
Decisões e mais decisões. Erros e acertos, coerências e traições, dentro de uma situação instável e marcada por estruturas de longa duração, surgem a cada momento nesses documentários da BBC.
Pertenço a uma geração que aprendeu história segundo um padrão interpretativo economicista e sociologizante, marcado pela influência de Marx. Cinco ou dez séculos de feudalismo, pelo que aprendi, nada mais foram do que a monótona repetição de uma mesma rotina entre servos e senhores. A história da colônia e do império brasileiro resumiu-se à passagem da cana-de-açúcar para o café, no modelo da monocultura escravista para exportação.
Assim, o “significado mais profundo” dos fatos se substituiu aos fatos propriamente ditos. Não é errado, mas é terrivelmente frustrante e parcial. Para os adolescentes, em particular, perde-se um aspecto decisivo da existência humana: o da ética individual. Cada episódio mostrado nesses documentários envolve decisões morais e políticas complexas, cujas conseqüências se medem em mortes e em ganhos reais para a humanidade.
Num ambiente em que política e ética são motivo de muita conversa abstrata e sem interesse, nada melhor do que um pouco de realidade histórica. Que ela venha empacotada em DVDs, disponíveis em qualquer banca de jornal, é em muitos sentidos uma ótima notícia.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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