Arquivo de 29 de Julho de 2008

Martin Wolf: como desequilíbrios levaram ao arrocho do crédito e inflação

Martin Wolf

A inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário -Milton Friedman.

O que explica a combinação de um “arrocho de crédito” nos Estados Unidos com a alta dos preços das commodities e o aumento da inflação por todo o mundo? Estes são eventos não relacionados ou parte de um quadro maior? A resposta é a segunda. Até o momento não se trata de um retorno aos anos 70. Mas uma ação é necessária para que isto continue verdadeiro.

A inflação é um aumento sustentado nos preços: o resultado é dinheiro (ou poder aquisitivo) demais atrás de bens e serviços insuficientes. Um salto único nos preços das commodities não é inflação. Nem um salto desses causa necessariamente inflação. Mas o aumento contínuo no preço relativo das commodities é um sintoma de um processo inflacionário.

Sempre que ocorre uma demanda excessiva, os bens cujos preços sobem primeiro são aqueles com preços flexíveis, entre os quais as commodities são o principal exemplo. Os preços das commodities então são um medidor de pressão. Se olharmos para o que tem acontecido nos últimos anos, o medidor está apontando para o vermelho. O índice de preços de commodities da Goldman Sachs dobrou desde o início de 2007. Os preços nominais do petróleo aumentaram em 150% ao longo do mesmo período. O movimento para cima nos preços das commodities persiste há 6 anos e meio. Parece que uma demanda extra excessiva está pressionando a pouca habilidade de aumentar a oferta global.

O resultado é um aumento inesperadamente grande da inflação geral: a previsão de consenso de inflação mundial dos preços ao consumidor em 2008 saltou de 2,4% em fevereiro de 2007 para 4,3% em junho de 2008. Estes saltos são modestos, mas não tão modestos. Nem o nível de previsão. Se as pessoas se acostumarem à idéia de que a inflação pode saltar assim, a noção pode muito bem ser incorporada nas expectativas, com péssimas conseqüências.

Mas como podemos ter um processo inflacionário global incipiente no momento em que a economia americana e a de outros países de alta renda significativos estão desacelerando? O motivo aproximado é que o segundo é bem menos importante do que costumava. A explicação por trás está nas forças que impulsionam tanto a demanda quanto a oferta mundial.

Na demanda, duas coisas importantes estão acontecendo: convergência e desequilíbrios. Em convergência estão o crescimento acelerado das economias emergentes, acima de tudo a da China e da Índia. Nos desequilíbrios estão as intervenções nos mercados de câmbio visando a manutenção da competitividade.

Charles Dumas, da Lombard Street Research, com sede em Londres, nota que, em paridade do poder aquisitivo, a China agora gera pouco mais que um quarto do crescimento econômico mundial em um ano normal, enquanto os países emergentes e em desenvolvimento juntos geram 70%. Mesmo em taxas de câmbio do mercado, o crescimento do produto interno bruto da China é tão grande quanto o dos Estados Unidos em anos normais para ambos os países.

Os países emergentes também estão em uma boa posição para continuar crescendo, em grande parte por possuírem fortes posições externas. Muitas economias emergentes intervieram nos mercados de câmbio em grande escala, principalmente para manter a competitividade das exportações e reduzir os déficits em conta corrente. Nos sete anos até março de 2008, as reservas globais de moeda estrangeira saltaram em US$ 4,9 trilhões, com as reservas da China sozinhas aumentando em US$ 1,5 trilhão. De fato, até 70% das reservas atuais foram acumuladas ao longo deste período. “Nunca mais outra vez”, disseram os países emergentes atingidos por crises nos anos 80 e 90; “nem mesmo uma vez”, disse a China.

Políticas intervencionistas visando sustentar a competitividade das exportações expandiram as economias. Os resultados normalmente incluem aumentos rápidos nas exportações líquidas, baixas taxas de juros visando coibir o afluxo de capital, e expansão da base monetária, apesar das tentativas de esterilização. A economia chinesa está superaquecida em conseqüência direta deste trio de efeitos.

Grande parte dessas reservas foram acumuladas pelos países mais ou menos explicitamente visando o dólar americano e acúmulo de obrigações americanas. O fluxo de capital resultante financiou os déficits comerciais e de conta corrente americanos. Mas um déficit comercial é contracionário: para qualquer nível de demanda doméstica, ele reduz a produção doméstica. Logo, os Estados Unidos precisavam expandir a demanda doméstica, visando compensar o efeito contracionário dos déficits externos. Alguns grupos dentro da economia precisavam gastar uma parcela maior de suas rendas. O mais importante destes grupos revelou ser os lares. Assim, o crescimento do endividamento doméstico americano que levou ao atual “arrocho de crédito” é resultado direto dos desequilíbrios globais.

Hoje, o desafortunado Federal Reserve, o banco central americano, está tentando reexpandir a demanda em uma economia americana pós-bolha. Mas o principal impacto de sua política monetária vem do enfraquecimento do dólar americano e uma expansão das economias superaquecidas associadas a isso. Para simplificar, Ben Bernanke está executando uma política monetária do Banco Popular da China. Mas a política apropriada aos Estados Unidos é amplamente imprópria para a China, assim como para quase todos os outros países vinculados na zona informal do dólar ou, como chamam alguns economistas, “Bretton Woods 2º”.

Logo, não apenas os desequilíbrios provaram ser altamente desestabilizadores no passado, mas eles vão provar ser ainda mais desestabilizadores agora que a bolha americana estourou. Quando a maioria das economias emergentes necessita de uma política monetária mais rígida, elas são forçadas a afrouxá-las ainda mais.

Enquanto isso, no lado da oferta da economia mundial, quase todo relato no noticiário é ruim. Independente de qualquer otimismo que alguém possa sentir a respeito das possibilidades a longo prazo de uma maior oferta de energia, é impossível ser otimista a curto prazo.

O que estamos vendo é uma inflação global incipiente. Mas o banco central com maior influência na política monetária global é aquele que está enfrentando o arrocho de crédito pós-bolha. Sua situação difícil pós-bolha é agravada pelo aumento dos preços de energia que resultaram do forte crescimento da economia mundial.

Este é o desafio global. Os países avançados não são mais a força motriz global: eles estão importando inflação. Se o mundo tivesse um banco central único e uma moeda única, o primeiro certamente endureceria sua política monetária, diante da evidência de restrições na taxa de crescimento da oferta global potencial. Na ausência desse banco central, a melhor alternativa seria uma maior flexibilidade na taxa de câmbio e o estabelecimento de uma meta de inflação doméstica.

O mundo como um todo não pode importar inflação: se cada banco central presumir que o aumento dos preços das commodities é produto de políticas adotadas em outro lugar, um superaquecimento geral deverá ser o resultado. Pior, se isto alimentar as expectativas, o mundo se tornará deprimentemente semelhante aos anos 70. Nós ainda não chegamos a isto. Os autores de políticas devem assegurar que nunca cheguemos a isto.

“Financial Times”

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O que está em jogo em Raposa Serra do Sol? Entrevista especial com Paulo Guimarães

Eco Debate

O que está em jogo em Raposa Serra do Sol? Seis arrozeiros se negam a deixar uma área pública, federal e homologada para usufruto de diversas tribos indígenas de Roraima. Os mesmos seis arrozeiros, empresários de grande influência econômica na região, pedem suporte às autoridades políticas e de defesa. Enquanto o governo do Estado e a mídia intervêm a favor deles, as Forças Armadas se negam a participar da operação, e o governo federal protege os índios através da Polícia Federal. Aliciações, ameaças e depredações são feitos por esses arrozeiros tão poderosos contra indígenas que, depois de tantas perdas que tiveram com o desenvolvimento do país, precisam dessa terra para viver.

A IHU On-Line conversou, por telefone, com Paulo Guimarães, advogado e assessor jurídico do CIMI – Conselho Indigenista Missionário, que respondeu nossa pergunta inicial falando sobre as atribuições do Supremo Tribunal Federal nessa questão e apontou as estratégias que esses arrozeiros têm feito para manter-se na área. Para ele, “o que está em jogo é efetivamente o respeito à lei e a Constituição. E poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, ficam usando seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está, verdadeiramente, em jogo em Raposa Serra do Sol?

Paulo Guimarães – Nesse momento, o que está em jogo é a afirmação de que a terra é tradicionalmente ocupada pelos povos indígenas e que um ato do governo deve ser efetivamente respeitado. O presidente da República, em 2005, homologou a demarcação da terra que foi feita pelo governo FHC. Nessas terras, existem várias famílias de não- índios, que estão sendo reassentadas em outras áreas e recebendo indenizações por esse deslocamento. No entanto, existe um grupo pequeno e restrito de arrozeiros que possuem um forte poder econômico, especialmente um deles, que é Paulo Cesar Quartiero, prefeito do município de Pacaraima. Esses arrozeiros não aceitam sair da área e estão aliciando índios para reagirem a isso, mediante o pagamento e disseminação de bebidas alcoólicas entre eles. Com isso, criam obstáculos e praticam ilegalidades, como depredações ao patrimônio público, com a destruição de pontes, na tentativa de obstruir o acesso da polícia à área. Esta é uma situação residual.

Então, nós acreditamos que o que está em jogo é efetivamente o respeito à lei e à Constituição e que esses poucos cidadãos, plantadores de arroz, que são empresários, ficam usando seu poder econômico para resistir ao cumprimento da legislação.

IHU On-Line – As terras foram demarcadas e homologadas pelo governo. A Polícia Federal está no local tentando conter e retirar os arrozeiros do local. Quais são as atribuições do Supremo Tribunal Federal neste caso?

Paulo Guimarães – O Supremo Tribunal Federal fixou sua competência para apreciar todas as matérias judiciais que envolvam questionamentos sobre a demarcação. Então, em razão disso, o Supremo Tribunal Federal está processando as ações judiciais propostas pelos senadores, deputados e invasores da terra indígena que questionam a demarcação feita, pois é um direito deles questionar esses atos administrativos. No entanto, isso não implica que eles não sejam retirados dessa área, porque não podem ficar numa terra que é um bem público federal, destinada à posse e permanência exclusiva dos índios. Se o STF entender, futuramente, numa eventual hipótese que me parece absolutamente remota, que a terra não deveria ter sido demarcada, os não-índios desapropriados receberão indenização, porque o ato de demarcação vai se converter em indenização. Então, os elementos que provam que a área é pública são de usufruto dos índios já estão dentro dos processos administrativos e judiciais. Na realidade, o STF exerce, efetivamente, como expressão do poder judiciário, o seu poder de decisão de uma demanda judicial. Então, essa resistência em sair da área é ilegal. As circunstâncias de que levaram os arrozeiros a proporem uma ação judicial não impede a executoriedade do ato administrativo.

IHU On-Line – O que falta para que os arrozeiros sejam, finalmente, retirados do local?

Paulo Guimarães – O que eu entendo é o seguinte: esse movimento final feito por eles mostra que estão esperneando diante do inevitável, que é a saída da área. Suas atividades são ilegais, pois não podem desenvolver atividades econômicas numa área pública e federal. Essa atividade é completamente ilícita. Então, a situação está completamente paralisada. Por isso, eles terão de parar essas atividades definitivamente. Além disso, não conseguirão mais voltar a essa área depois. A Polícia Federal que está mobilizada no local é contra as atividades dos arrozeiros. Esses, por suas atividades ilícitas, vão responder a processos criminais por depredação do patrimônio público, por obstrução, por ameaças, por atentado à vida de lideranças indígenas. Ou seja, irão responder a esses crimes.

IHU On-Line – Quanto tempo você acha que esses arrozeiros vão levar para sair da região?

Paulo Guimarães – Eu acredito que existam terras indígenas, em outras áreas, que também foram homologadas, e estão invadidas ainda hoje. Infelizmente, esse problema acontece também em outras regiões. A atividade permanente de fiscalização e proteção é constante, não começou ontem e nem vai parar amanhã. Essa operação diz respeito fundamentalmente a assegurar que a terra indígena seja ocupada e os índios possam exercer com tranqüilidade o usufruto possível. A proteção sobre essa área vai começar de forma incessante e nem pode acabar, pois os índios não vão conseguir proteger sozinhos sua área.

IHU On-Line – Há chances de o Exército intervir nessa situação?

Paulo Guimarães – Não. Eu não vejo chance, nem necessidade. Isso não é atribuição das Forças Armadas, e sim da Polícia Federal e do Judiciário. São crimes que foram praticados e que terão de ser autuados. As Forças Armadas exercem, sem qualquer restrição, limitação à proteção das fronteiras. Isso está sendo cumprido, dentro das possibilidades materiais que as Forças Armadas têm. Agora, a atividade de contenção e apuração de infrações penais e de crimes é uma atribuição constitucional da Polícia Federal.

IHU On-Line – Enquanto os arrozeiros usam táticas de guerrilha para manter-se no local, o governo de Roraima pediu que a Polícia Federal suspendesse suas ações na região. Como o senhor vê essas contradições?

Paulo Guimarães – Esse negócio de guerrilha, em minha opinião, é uma propaganda que as pessoas fazem lá, especialmente a imprensa local de Boa Vista, com o intuito de transmitir a falsa impressão de que há um grande conflito na região. E não há. Todo esse alarde se resume a menos de 1% da área indígena. Portanto, a área indígena tem cerca de um milhão e 700 hectares. Portanto, esse episódio diz respeito a 17 hectares. Essa é a questão residual. E, naturalmente, porque foi invadida uma área muito grande, ficam com esse alarde. Existem atividades criminosas contra o poder público federal, mas não são táticas de guerrilha.

(www.ecodebate.com.br) entrevista publicada pelo IHU On-line,
10/04/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos -IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

“Eco Debate”

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Einsteins na adolescência

Os jovens de 12 a 20 anos respiram bits e pixels, questionam a autoridade e encontram respostas imediatas - são a geração mais capacitada da história.

Maruxa Ruiz Del Árbol

A atual fornada de quinze anos tem bons publicitários. Eles a batizaram de Geração Einstein. Seus defensores afirmam que os nascidos a partir de 1988, que agora estão com 12 a 20 anos, trazem um DNA inundado de uns e zeros; é a primeira geração que em vez de receber bons conselhos dos pais, precisou iniciá-los nos segredos do espaço cibernético. Mas será que isso os torna mais preparados que seus pais? São mais capacitados que os jovens das gerações anteriores? Até seu nascimento foi monitorado. Como serão marcados por esse indissolúvel contato com as telas de computadores?

Há quem diga que a obsessão em rotular de forma diferente a esses adolescentes responde apenas à preocupação de seus pais e à pressão de um mercado global que quer converter o setor da informática no seu bezerro de ouro. “Se for propagado o mito de que a cibernética se sai bem, ele será vendido”, afirma Ángel J. Gordo, professor de Ciência Política e Sociologia na Universidade Complutense de Madri.

De norte a sul e pelos séculos e séculos, dirão as avós, simplesmente, essa é a idade da fase de transição. Mas, para muitos teóricos, ser a primeira geração que nasceu com a tecnologia posta pode marcar a diferença. Os adolescentes do século 21á foram rebatizados várias vezes: micreiros, Geração Messenger, Geração 1(de Internet) ou Geração Einstein. Dizem que são especiais. Cresceram na sociedade da informação, acostumados a consumir bits e pixels em qualquer lugar e a qualquer hora.

Serão mais preparados que seus pais? O cientista político neozelandês James Flynn analisou nos anos 1980 os registros históricos do QI (quociente de inteligência) em 20 países e mostrou que o QI médio da população cresce entre cinco e 25 pontos, de uma geração para a seguinte: é o agora chamado efeito Flynn. Na Espanha, por exemplo, o quociente médio de inteligência cresceu 10 pontos entre 1970 e a década atual, segundo um estudo do psicólogo Roberto Colom, da Universidade Autônoma de Madri. Colom afirma que não se trata de um aumento da inteligência em todas as crianças, mas sim nas que a possuíam mais baixa. O que influi não são tanto as condições externas, como o acesso à educação ou às novas tecnologias, mas sim algo mais simples: a alimentação. Uma vez que estejam todos bem alimentados, crescerá o número de preparados, até que todos alcancem o nível dos melhores. Não que cada vez se seja mais preparado, o que é diferente. Na formação da inteligência, pouco podem influir as tecnologias, mas para os mais espertos, uma boa ferramenta é um tesouro.

Jeroen Boschma, um escritor holandês que acaba de publicar um estudo sobre essa geração, relata um exemplo muito significativo: entrevistava um rapaz de 17 anos para um trabalho. Fez a ele uma pergunta técnica muito difícil, simplesmente para ver qual a sua reação. O candidato não sabia a resposta, mas pediu um minuto para averiguar, entrou em um fórum na internet e em poucos segundos tinha mais de 100 respostas corretas, chegadas de todo o mundo.

A partir da observação desses novos jovens, Boschma é capaz de descrever novas características que, em sua opinião, lhes conferem as novas tecnologias: questionam a autoridade e são práticos na hora de conseguir informações: querem receber respostas aqui e agora porque estão acostumados a isso; socializam-se de formas distintas, sempre se baseando nos sistemas coletivos de comunicação e transformaram-se em consumidores influentes que ditam sua lei às grandes empresas.

Boschma, que trabalha na agência de publicidade Keesie, publicou na Espanha um novo estudo sobre eles. O título sintetiza suas conclusões mais otimistas: Geração Einstein: mais espertos, mais rápidos, mais sociáveis. “O digital ressalta uma diferença em relação a qualquer outra geração e tem conseqüências que não são em absoluto desprezíveis”, afirma. Não só se trata da informação à qual conseguem chegar, mas sim dos efeitos do fenômeno sobre as estruturas tradicionais de pensamento. O acesso a infinitas fontes de informação, das quais se pode discordar, desautorizou perante eles, os antigos “monopólios do conhecimento”, ou seja, pais, professores e meios de comunicação tradicionais. “A tecnologia criou uma brecha de incomunicabilidade entre essa geração e as anteriores. Mas dessa vez precisam ser os adultos a ouvir os mais novos porque são eles que conhecem o mundo que vem à frente.” O medo dos professores é que, em novas tecnologias, os mais novos passaram a ser os professores. Por enquanto.

Boschma aconselha que para entendê-los o melhor é perguntar, ser humilde e aprender e colaborar em vez de censurar. Quando seu próprio filho começou a se interessar pelos temas da carne, ele mesmo indicou-lhe três sites da web de referência. “A censura é apenas um caminho para a falta de compreensão. É melhor ajudá-los e deixar que eles nos ensinem.”

Mas Ángel J. Gordo, também expert em ciberjovens alerta que estudos como o da agência Keesie, o de Boschma, caem na armadilha de “homogeneizar todos os jovens”. Gordo publicou em 2006 o informe “Jovens e a cultura Messenger: tecnologia da informação e a comunicação na sociedade interativa.” Os dados desse trabalho contrastam com a otimista tese do holandês.

Afirma que a Espanha é o antepenúltimo país entre os 27 da EU no desenvolvimento da sociedade da informação e que pouco menos da metade da população espanhola tem acesso à Internet - entre 40 e 43%. Segundo esses dados, o usuário de computadores é uma realidade minoritária na Espanha. A tese aponta para o fato de a geração cibernética ser uma invenção do mercado. “É preciso levar em conta as diferenças culturais, o trabalho de seus pais. Aqueles que não fizerem tal exercício estarão negando as diferenças sociais.”

No instituto Montserrat de Madri se pode olhar nos olhos para a origem do debate. Três alunos e cinco alunas de 15 e 16 anos. Discutem as preocupações de seus pais, de sexo na Internet e de sua forma de relacionamento no espaço cibernético. Todos falam do conhecidíssimo Messenger como se fosse de sua própria voz: “Em um dia normal, falo com três ou quatro pessoas ao mesmo tempo, mas já cheguei a falar quase com 20″, conta Elisa.

A brecha de incompreensão se alarga na forma diferente de conceber a comunicação. “Os pais os vêem como não sociáveis,” explica Jeroen Boschma, “mas ao contrário dos mais velhos, suas redes coletivas se estendem também, e principalmente, pelo espaço virtual”, que dá acesso ao mundo inteiro. Algo que a televisão proporcionou em medida muito menor aos pais e com o qual nem sonharam os avós em suas melhores fantasias.

Ninguém se atreve a dizer com segurança quais características de geração lhes proporcionariam essas viagens pelo mundo, a partir das próprias casas. Mas para começar, o que os pais consideram ser um isolamento, diante do computador, para eles é um grande encontro entre amigos, de qualquer parte.

Mas não é só a vida social que se passa pela Internet. Também os estudos. Na Espanha, todas as universidades estão dotadas agora de um “campus virtual” onde os professores colocam suas anotações e respondem às dúvidas de seus estudantes.

Os pais do colégio Montserrat não são exceção e também se preocupam. Nesse reduzido círculo há exemplos de censura ou, ao mesmo, tentativas de controle. Henar não conhece sua senha no Messenger. Seus pais decidiram abrir uma conta para ter a chave de seu acesso a esse chat. Os de Miguel colocaram o computador em uma área de uso comum, “não sei se é por acaso, mas assim podem saber quanto tempo fico conectado e onde me meto.” Clara tem um irmão pequeno e seus pais recorreram a um método mais sofisticado. O programa Canguro.net detecta certas “palavras proibidas” e nega o acesso aos sites nos quais estas aparecem. “Mas nós não conseguíamos entrar em nenhum endereço e faz um mês que o desinstalaram. Por exemplo, eu não podia ver o blog de uma amiga porque se chama A batata quente.”

Mas para os assuntos mais íntimos (sexo, fundamentalmente), em quem eles confiam? O curioso é que para esses temas eles optam pelas vias tradicionais. Continuam pedindo conselhos aos amigos, irmãos e primos.

Mas têm consciência de que a Internet lhes permitirá encontrar respostas adequadas a perguntas que escapem ao conhecimento dos mais próximos. As meninas estão preocupadas com a nova vacina contra o câncer de útero e várias rastrearam a web para se informar, algo que escapa aos seus pais, os tradicionais guardiões de todas as vacinas.

Pura Silgo os conhece bem. É professora de literatura e confessa que os vê “diferentes e iguais” aos jovens que encontrou em 1979, quando começou a dar aulas. “Os adolescentes têm uma constante bem clara no desenvolvimento de sua personalidade: inseguranças ao confrontar o mundo, em sua maneira de ver aos adultos como misteriosos e ou mesmo como exemplo. A etapa da transição é uma pela qual se precisa passar e que, por sorte, sempre passa.” “O alarmante dessa geração é que são os primeiros que passam essa parte crucial da vida estabelecendo suas relações pessoais de uma forma virtual. Geralmente, dizem pelo Messenger coisas que não seriam capazes de dizer uns aos outros pessoalmente, algo que pode ocorrer em todas as idades, mas que preocupa no momento em que se está formando a personalidade, pois alguém pode estar criando um personagem que não seja de todo real”, explica Silgo. “Se quando você é um adolescente já lhe faz mal olhar-se no espelho, imagine se minutos antes você estivesse fantasiando que era alto, loiro e de olhos azuis…”

“El País”

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Crise econômica atinge pubs do Reino Unido

Roger Blitz

As casas de bebida no Reino Unido já foram chamadas de várias coisas -pubs, inns, tavernas, gastropubs, bares, boozers -, mas nunca de espécie ameaçada de extinção. O país no qual os pubs tiveram origem tem tantos estabelecimentos desse tipo que ninguém sabe precisamente quantos existem.

“Nos últimos dez ou 15 anos o número de pubs sempre manteve-se em torno de 60 mil. Mas nos últimos tempos muitos deles têm fechado as portas”, afirma Julian Hough, analista do Campaign for Real Ale (Camra), um grupo de lobby do setor de bebidas alcoólicas.

Esse índice de falência dos pubs está atingindo níveis críticos, segundo especialistas no setor. No ano passado cerca de 1.400 pubs fecharam as portas, e um número similar terá desaparecido até o final deste ano. A firma de serviços profissionais PwC reajustou as suas estimativas quanto aos fechamentos, adotando uma previsão mais pessimista.

Embora ninguém esteja prevendo um declínio terminal do pub britânico, este estabelecimento, que há séculos é o centro da vida social do país, corre risco.

Hoje é o aniversário da proibição do fumo em locais públicos na Inglaterra, um fato que ameaçou a sobrevivência dos pubs, já que eles dependiam daqueles fregueses que vinham regularmente para “tomar uma caneca de cerveja em silêncio” e fumar um cigarro.

Um ano depois, os piores temores dos donos de pubs materializaram-se. Mas o problema não é apenas o resultado da perda direta de fregueses fiéis provocada pela proibição do fumo.

O dano real foi provocado pelo fato de as redes de pubs terem decidido superar a proibição reinventando-se como restaurantes de jantar a fim de atraírem uma nova clientela - especialmente mulheres e famílias, que anteriormente mantinham distância dos pubs, cuja imagem era a de bares enfumaçados, dominados pelos homens e rescendendo a cerveja. As cozinhas foram reformuladas e os menus aperfeiçoados para que se atingisse uma qualidade digna de restaurantes que servem salada, prato principal e sobremesa.

Um ano após a proibição do cigarro, os modelos empresariais e os preços das ações estão sem dúvida alguma vivendo um mau momento no Reino Unido. Uma economia britânica em desaceleração está fazendo com que os consumidores reduzam os seus gastos. A disparada dos preços dos alimentos também prejudicou as vendas.

“O índice de fechamento de pubs atingiu níveis recordes”, afirma Mark Hastings, da Associação Britânica de Pubs e Cerveja.

E os desafios também vêm de outras partes. Os supermercados estão prejudicando os negócios dos pubs com a venda de bebidas alcoólicas baratas, fazendo com que uma noite em um pub seja um programa menos tentador. Os parlamentares desejam investigar se as companhias de pubs não passaram a exercer um poder excessivo sobre gerentes independentes que alugam as instalações de grandes operadores.

E, em março passado, um governo carente de verbas aumentou o imposto sobre a cerveja, aumentando em 15 pennies o preço do pint (568 ml) da bebida, segundo Camra.

Nos estabelecimentos mais sofisticados de Londres, um pint de cerveja da variedade lager é vendido a £ 4. Até mesmo nas regiões mais pobres do Reino Unido, um pint da ale real, uma bebida cujo sabor morno e não gasoso há muito atrai os turistas, custa impalatáveis £ 2,40.

Não é de se admirar que as companhias de pubs estejam prevendo que o declínio do consumo de cerveja diminuirá, seguindo a tendência dos últimos anos.

Mas nem todos estão totalmente pessimistas. A Wetherspoon, que vende café da manhã e café nos seus pubs, informa que está se saindo bem com a sua oferta diversificada, embora admita que a proibição do fumo acabou com uma fatia da sua clientela.

Hough adota uma visão otimista quanto à possibilidade de alguns estabelecimentos britânicos antigos se recuperarem, sugerindo que já passou da hora de aplicar princípios econômicos isentos de sentimentalismo à indústria dos pubs.

“No passado a indústria resistiu bastante a fechar pubs que não apresentavam um bom desempenho”, diz ele.

“Financial Times”

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A ditadura das trevas

Juan Jesús Aznárez

Um pequeno barco de tripulação pirata atracou, no final de janeiro, junto ao quebra-mar de Bata, bem perto de um banco na segunda maior cidade da Guiné Equatorial, o novo centro petrolífero da África. Dez homens fortemente armados desceram à terra, correram até o banco com manobras de comandos e dominaram os vigilantes e os clientes sem encontrar resistência. Tudo aconteceu no meio da manhã. “Foram atraídos pelo dinheiro do petróleo,” imagina um comerciante, que soube da evolução do assalto por um amigo que ficou refém.

Um helicóptero do Exército perseguiu os atacantes, mas foi obrigado a retroceder, ao receber uma rajada de tiros vinda do pequeno barco, e não pôde responder, pois os policiais com metralhadoras tinham esquecido de colocar munição. Nada se publicou sobre aquele audacioso assalto e nada se sabe sobre o quanto foi roubado.

A agreste ex-colônia espanhola (1778-1968) foi cobiçada por piratas, mercenários, comerciantes e governos, desde que os barcos negreiros do século XVI zarparam de seus portos com os bantos acorrentados uns aos outros, escravos nas plantações americanas das potências coloniais. A Guiné Equatorial perdeu então boa parte de sua população, abasteceu de madeira, cacau e palmeiras a Espanha e, desde os descobrimentos da Exxon Móbil em 1999, o petróleo bruto flui graças aos cargueiros das multinacionais, que o transporta às suas refinarias do Texas ou da China. Terceiro produtor africano depois da Nigéria e de Angola, o antigo porto escravista tem uma arrecadação de 3 bilhões de euros anuais, cerca de 25% dos lucros petrolíferos, e sua economia cresce no vertiginoso ritmo de 20%.

O PIB per capita, que passou dos 430 euros anuais para 17.000 euros, esconde a dramática realidade: 80% dos 600 mil habitantes da Guiné Equatorial vivem com menos de 200 euros mensais, e sofre com as pandemias, insalubridade, favelas e frustração. A oligarquia dominante controla a riqueza de um país coberto de florestas ricas em matérias-primas, estuários e praias fantásticas e minas ainda não exploradas.

“O petróleo fez com que os países que antes nos apoiavam agora se esqueçam de nós, mas enquanto isso a ditadura se consolida e a família presidencial continua na opulência,” denuncia o deputado da Convergência para a Democracia Social (CDS), Plácido Micó, simbólico opositor em um país sem democracia nem justiça eqüitativa em vigor, desde 3 de agosto de 1979, dominado por Teodoro Obiang, de 66 anos. Foi nessa ocasião que o ex-tenente-coronel, formado na Academia de Zaragoza, derrotou seu tio, o ditador Francisco Macías, posteriormente fuzilado, e ocupou seu trono na capital, Malabo.

A Espanha e outros países aplaudiram o desaparecimento do primeiro tirano da independência, protestaram contra as arbitrariedades do novo ditador, mas não tardaram em baixar o tom, quase emudecendo, quando seus poços começaram a bombear e o preço do barril explodiu nos mercados internacionais. Temeroso dos apetites territoriais dos vizinhos Gabão e Camarões, e dos ataques inesperados de mercenários, Teodoro Obiang comprou a proteção dos Estados Unidos em troca da parte do leão na exploração dos multibilionários hidrocarbonetos. O Terceiro Mundo costumava exigir 50% dos lucros de seus recursos naturais, mas os guinéus-equatorianos conformaram-se com 25%, segundo os dados disponíveis. Houston assinou embaixo.

As espanholas Repsol e Unión Fenosa brigam agora por um mercado de 810 mil barris diários, 2 bilhões mais em reservas comprovadas, e ricas jazidas de gás. As norte-americanas Exxon - com 70% da produção total, Maratón, Amerada Hess, Chevron, Vanco, Noble, Tritón e Ocean exploram os melhores poços do Eldorado africano, enquanto companhias da França, Reino Unido, Malásia, África do Sul, Japão ou China completam a relação de convidados ao bacanal de perfuração. “Obiang não precisa preocupar-se muito com os direitos humanos, tendo amigos tão influentes,” ironiza um empresário argentino em um dos bares da tórrida capital africana. Não lhe falta razão: os Estados Unidos receberão do Golfo da Guiné, em 2015, 25% do óleo bruto do qual necessitam, contra os 15% importados atualmente, segundo cálculos do Pentágono. Como o portenho defensor dos direitos humanos é um homem irritável, reage diante da tranqüilidade do camareiro: “Estão começando a parecer os venezuelanos. Esperam que o petróleo lhes solucione a vida sem trabalhar.”

Os contratos associados aos hidrocarbonetos e à infra-estrutura atraíram técnicos franceses, alemães, japoneses, portugueses, russos, chineses ou espanhóis, que se instalam nas limitadas acomodações de hotéis de uma cidade de 70 mil habitantes, decadente e plana, colonial na arquitetura de seu centro histórico. As estropiadas frotas de táxis das principais cidades da Guiné, sem símbolos que as identifiquem como tais, e o esquadrão de particulares ao volante de veículos de turismo japoneses da década de 1980 convivem com as modernas vans da nova plutocracia em uma agitada anarquia na circulação.

Numerosos veículos não têm placas e ninguém usa cintos de segurança. Isso não tem grande importância. O que chama atenção é a maciça entrada de financiamentos e o “boom” de construção, com as misturadoras de cimento e guindastes, que restauram os edifícios coloniais, levantam blocos de apartamentos nos bairros emergentes ou embelezam o cais de Bata. Os trabalhadores da construção civil abrem sulcos e canalizações, entram na selva para a construção de pontes e asfaltamento das estradas e abrem caminhos até os campos florestais e os trabalhos de mineração.

A más línguas atribuem o bom traçado da rodovia que vai de Bata a Mongomo ao seu caráter de cidade originária do clã esangui, que detém o aparato estatal, da etnia fang, à qual pertencem o presidente e 72% dos habitantes. A etnia agrupa 67 clãs. Quase tudo é desconcertante no tropical enclave negro: 45% dos habitantes de um país abençoado e também castigado pela descoberta do petróleo têm menos de 15 anos, e a expectativa de vida está em torno dos 50 anos.

“O governo está gastando bastante em construção, embora a saúde, a educação e a atenção social sejam um desastre”, observa um empresário espanhol que há mais de dez anos está no país. As centenas de engenheiros, executivos e técnicos norte-americanos que trabalham nas plataformas marítimas vivem alheias a essa precariedade nacional, de 50% da população sem água corrente, 19% de crianças desnutridas, de 3,2% de pessoas infectadas pelo vírus da aids, ao maciço abandono escolar e outros indicadores destacados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

O regimento de perfuradores norte-americanos está cumprindo as ordens do subsecretário de Assuntos Africanos, Walter Kansteiner, pouco depois dos atentados de 11 de setembro do ano de 2001, durante a ofensiva da guerra do Iraque e do súbito encarecimento do óleo bruto. “Tragam esse petróleo (o da Guiné) para casa”, disse supostamente o alto funcionário.

O petróleo bruto já viajava para o Texas desde a primeira perfuração no poço Zafiro, situado em alto mar, a 20 minutos por helicóptero, desde Malabo, na ilha de Bioko. Os outros barris são levados diariamente do território continental. As remessas da encomenda patriótica viajam regularmente para casa no Houston Express, um vôo de 15 horas entre Malabo e a metrópole da petroquímica. “Isso é muito fatigante e é preciso ter muito cuidado com as farras e as mulheres, porque há muita aids”, diz um norte-americano de origem filipina.

Mais de 3.000 trabalhadores petroleiros moram em uma espécie de fortaleza na península de Punta Europa, abastecida por modernos supermercados, lojas, wi-fi e serviços próprios. As residências dos diplomatas e da burguesia local evitam casas pobres e os quiosques dos arredores, que oferecem as quinquilharias próprias do subdesenvolvimento: peças de reposição, pilhas, brincos, sapatos, camisetas, ventiladores, ou Rolex a dez euros.

Mas algo respinga sobre o maná negro. Os operários locais ou imigrantes das plataformas recebem salários que oscilam entre os 500 e 700 euros mensais, e outros trabalhadores desfrutam dos negócios relacionados com a extração de petróleo. Esse pelotão compra nos supermercados Martinez Hermanos, espanhóis, e nas lojas de empreendedores libaneses, importadores de produtos de primeira necessidade a preços que aqui são elevados: o litro de leite e a cerveja, um euro e a pasta dental a 2,50.

A carestia, os exíguos salários, o déficit habitacional e hospitalar, a lamentável qualidade da educação, o abandono social, no geral, continuam presentes, apesar dos multimilionários lucros e a histórica cooperação da Espanha. O trabalho dos claretianos sempre foi abnegado e o Centro Cultural Espanhol de Bata é um oásis, mas a pobreza aflige, no porto de Malabo, aos estivadores dos navios mercantes carregados em atracadores europeus ou asiáticos. Ter mais de um emprego é quase obrigatório, apesar do discurso triunfalista do governo, cuja retórica menospreza os compromissos com a modernização e o bem-estar. O progresso avança a passo de tartaruga, enquanto a corrupção, galopante, se abate como a peste sobre o Kuait africano e sobre todo o continente negro.

A Transparência Internacional colocou a Guiné Equatorial em 151º lugar na lista negra dos 163 países mais corruptos, ao lado da Costa do Marfim, Camboja, Belarus e Uzbequistão. Mas a lamentável estatística não interessa a todos.

- Por favor, onde posso comprar uma camisa como a sua?

O senhor da camisa estampada com os retratos do presidente Teodoro Obiang e de sua esposa, em tamanho gigante, responde de mau humor da cadeira onde está, na entrada de uma loja onde se faz alisamento de cabelos e manicure. O cidadão, partidário do governo, coloca os pés em uma bacia, enquanto uma jovem realiza uma cuidadosa pedicura. Isso lhe custará meio euro.

- Comprei o tecido e mandei imprimir as fotografias. Você pode fazer o mesmo.

- O senhor deve admirar muito o presidente.

- Sim. Ele trouxe muita prosperidade.

- Mas dizem que ele é muito rico e que o dinheiro do petróleo não chega até as pessoas.

- Quem foi que lhe disse isso?

- Por aí, mas estou certo de que mentiram para mim.

- Tudo isso é mentira. E você, o que veio fazer em nosso país?

O transeunte suspeito chegou à Guiné Equatorial com o visto de turista e o interesse pessoal e profissional pela história e pela revolução petrolífera de um país onde há abundância de metais preciosos e madeiras nobres, coberto por 2.200.000 hectares de densas florestas, das quais foram exploradas apenas 400 mil. O intrometido branco visitou cidades extremamente quentes, sem bancas de jornal, nem livrarias, nem debates; sem sindicatos, nem poderes independentes: um país católico e de religiões tribais, anestesiado por uma publicação mensal, três emissoras de FM estatais e um canal de televisão que se limita a transmitir propaganda do governo e programas folclóricos ou sobre temas agropecuários. Reinam nas telas Pipi Calzaslargas e Heidi, a menina dos Alpes suíços. Os vizinhos com parabólicas livram-se da desgraça.

O atrevimento do senhor da camisa, os silêncios e os esquivos raciocínios ouvidos nas ruas, lojas e mercados de Malabo e Bata atestam o temor de falar mal do regime e o compreensível analfabetismo político de uma sociedade distanciada do mundo da informação e da liberdade. As suculentas vantagens petrolíferas atiçaram a corrupção e o desencanto em uma população onde tanto abundam os telefones celulares, quanto é primitiva a vida nas comunidades de pescadores e caçadores que moram ao lado de veios de mercúrio e urânio, dos gorilas, crocodilos e do morcego da língua comprida.

Os tesouros naturais de um país onerado pelas imoralidades próprias da descolonização explicam a atitude dos Estados Unidos, França ou Espanha, e o golpe em 2004 dos 60 mercenários sul-africanos financiados por negociantes e políticos, vários deles britânicos, interessados todos nos lucros do petróleo. A fracassada tentativa de golpe demonstrou que o monopólio norte-americano estava sendo ameaçado. A Casa Branca apressou-se em fazer uma advertência contra novas aventuras. “Daí vêm a acolhida, há dois anos, do presidente Bush a Obiang, a quem chamou de amigo dos EUA”, segundo destacou o professor suíço Max Lininger-Goumaz.

E a fortuna do presidente Obiang, será tão valiosa como publicou a revista Forbes há dois anos, 600 milhões de euros? Os desafetos de Obiang a multiplicaram ao infinito. “Tudo é dele. Esse bloco de apartamentos é de um filho; essa granja, de sua nora; esse hotel, de um cunhado e Teodorín passeava com uma Ferrari… Por favor, fale baixo e não tire fotografias”, ele suplica ao acompanhante que teme acabar com seu esqueleto na prisão de Black Beach, na capital, da qual Obiang foi diretor quando conspirava contra seu tio Papá Macías. O executado antecessor do atual ditador espantou o mundo ao assassinar ou enviar para o exílio dezenas de milhares de pessoas da etnia bubi e crucificar vários opositores. O rude sanguinário, bem conhecido pelos espiões do almirante Carrero Blanco, glorificava Hitler, “o salvador da África”, ante o corpo diplomático.

O patrimônio de Teodoro Obiang, protegido por uma força de guarda-costas marroquinos, recomendada pela monarquia de Rabat, não foi tema apenas da revista norte-americana que publica a lista dos homens mais ricos do mundo. O Sub-comitê Permanente de Investigações do Senado dos Estados Unidos rastreou mais a fundo as contas familiares, quando foi alertado sobre a maciça lavagem de dinheiro no setor de serviços financeiros. Os guardiões do sub-comitê demonstraram há quatro anos que o Banco Riggs permitiu que Teodoro Obiang e seus familiares exercessem o nebuloso manejo de mais de US$ 600 milhões, depositados em 60 contas e depósitos em dinheiro vivo. Quase todos correspondiam a pagamentos da Exxon Móbil e da Maratón, que depois foram transferidos para contas do banco dos Países da África Central.

Pelo menos metade dessas contas funcionavam como contas de pessoas física em nome do presidente, sua esposa, seu irmão, seu cunhado, seus filhos homens ou sua filha. A família comprou casas nos Estados Unidos, na Espanha e em outros países e seus gastos foram muito elevados. O banco os ajudou a criar empresas, fantasmas ou reais, e a construtora Abayak, importadora de materiais de construção e sócia de operações imobiliárias, respondia diretamente ao casal presidencial. “Essa empresa entrou com 15% em uma filial da Exxon Móbil denominada Móbil Oil Ecuatorial Guinea,” revelou o informe.

Outras revelações saíram em jornais e confirmaram a inclinação de Teodoro Nguema Obiang, Teodorin, filho do presidente, à prodigalidade, às marcas de moda e aos carros de luxo. O jovem, ministro da Agricultura e Bosques, gastou cerca de 1,25 milhão de euros em hotéis, automóveis e festas, durante um fim de semana na Cidade do Cabo, segundo o jornal sul-africano The Star. No dia 20 de julho de 2005, o jornal Cape Times revelou outras das aquisições do presidente da Associação Filho de Obiang: um Lamborghini esportivo de 380.000 euros, e dois Bentley,modelos Arnage e Mulliner,por 800.000 euros. O hedonismo do filho preferido, dono da Televisão Aponga, continuou um ano mais tarde, com o desembolso de 600.000 euros, pelo aluguel do soberbo iate do então quinto homem mais rico do mundo, Paul Allen, co-fundador da Microsoft. Os gastos em bens de consumo foram tão difíceis de ocultar como as tramóias que engordaram as contas bancárias.

Uma empresa de equipamentos controlada pelo ditador e dois de seus filhos, Otong AS, recebeu US$ 11 milhões em dinheiro vivo. Funcionários de confiança de Obiang entregavam o dinheiro em maletas, ao gestor norte-americano das contas. O grosso vinha em pacotes plastificados, que não eram abertos, e o resto era contado em máquinas de alta velocidade. Para simplificar o processo de entrada, recorreu-se à pesagem dos pacotes. Um milhão de dólares em notas de cem dólares? Nove quilos e 700 gramas. Ninguém indagava qual a origem dos dólares porque isso era conhecido de todos. As pesquisas norte-americanas chegaram ao Santander que recebeu, entre 2000 e 2003, 60 transferências do Banco Riggs, no valor de US$ 26,4 milhões. Isso foi parar na conta da entidade espanhola da empresa Kalunga, do presidente. O Senado dos Estados Unidos pediu informações ao Santander, mas o banco se negou a dá-las, escudando-se na legislação espanhola.

Tampouco Obiang quis informar ao sub-comitê sobre a procedência de seus lucros, títulos e movimentação contábil. O Riggs encerrou todas as suas contas para evitar males maiores. Nada que não se pudesse contornar, pois seu principal cliente abriu novas contas no Banco dos Países da África Central, “de onde controla seus vastos bens”, segundo fontes bancárias espanholas. O regime manipulou “cerca de 16 bilhões de euros, 80% dos quais vindos do petróleo, mas 80% da população vive na miséria e apenas 5% desfrutam de um nível de vida superior ao dos suíços”, segundo afirma Armengol Engonga, porta-voz do denominado Governo da Guiné Equatorial no Exílio, com sede em Madri, na ausência de Severo Moto, preso da Espanha por sua suposta participação no golpe contra Obiang. O ex-embaixador norte-americano em Malabo (2004-2006), R. Niels Marquardt, não conseguiu esconder a verdade sobre a ex-colônia,em declarações à Gaceta de Guinea Ecuatorial, pró-governo, editada na capital espanhola: passou de pobre a rico, disse o diplomata, “mas muitos habitantes do país não têm mudanças em sua vida cotidiana, como nos setores de educação e de saúde.”

Quando a Guiné era pobre, mas potencialmente milionária, espanhóis madrugadores urdiram uma trama para fazer negócios. “A assinatura de todos os contratos passava por ele, assinava tudo e diziam que era preciso tomar cuidado com as mulheres porque ele gostava de todas”, lembra uma pessoa que viveu aqueles tempos. “Então, alguns empresários viajavam com prostitutas. Imagine-se o restante.” O protagonista de uma das armações comentou com Armengol Engonga, há uns 15 anos, que “conhecendo-se o personagem, no final já levávamos profissionais e quanto mais bonitas, melhor. Nos bailes e nas festas que dava, Obiang se interessava por todas. E assim eram firmados os contratos e as concessões”.

- Quantos filhos tem o presidente?

- Sessenta ou setenta.

- Estou falando sério.

- E eu também. Ele se considera proprietário do país e portanto, todas as mulheres lhe pertencem, todas as propriedades lhe pertencem e todos os recursos naturais lhe pertencem.

- E como governo?

- Ele tem a noção de Estado. É uma tribo que governa na Guiné, e com os mecanismos da tribo, em uma sociedade de analfabetos funcionais. E depois chegam os deputados espanhóis saudando-o ou rindo de suas gracinhas, querendo que acreditemos que é dia quando é noite. Seu comportamento hipoteca todo o futuro de um povo.

Os exilados mencionam com críticas a visita à Guiné Equatorial dos parlamentares do PSOE, Fátima Aburto; do Partido Popular, Francesc Ricomá e da Convergência e União, Jordi Xuclá,em uma representação de seus respectivos grupos,para observar as eleições legislativas e municipais do dia 4 de maio passado. Em um comunicado conjunto afirmam que sua presença representou “um novo passo no processo de democratização da Guiné Equatorial e um avanço em matéria de garantias eleitorais quanto às eleições realizadas em 2004, que deverá ser melhorado e completado em datas futuras.” A iniciativa da viagem foi do Ministério das Relações Exteriores, cuja embaixada em Malabo, chefiada por Javier Sangro de Liniers, parece estar em sintonia com a desfaçatez de muitos guinéus-equatorianos. “O embaixador, que precisou sair para um jantar, estará encantado em recebê-lo, mas não faremos declarações,” reitera o conselheiro, Javier Irazoqui. “Não quero declarações,” expliquei. “Quero que conversemos um pouco, totalmente “off the record” (confidencialmente), sobre como está o país.” A resposta do jovem e obediente diplomático foi patética: “Você pode se informar na internet da embaixada.”

A conciliadora aproximação da Espanha com a ditadura, obviamente encaminhada para facilitar os negócios espanhóis, deixa assombrado o diretor da Associação para a Solidariedade Democrática com a Guiné Equatorial (ASODEGUE), o espanhol Adolfo Fernández Marugan. “Os três deputados reproduzem a opinião do Ministério das Relações Exteriores, que há anos diz que a Guiné está mudando. O que aconteceu no dia 4 foi uma encenação. Os três observaram as eleições sob a ótica do partido oficial, afirma o especialista. “A situação da Espanha é um mistério. Não fez nada em relação ao petróleo. Não tem nada. Não houve nem uma única concessão para a Repsol e a Unión Fenosa só firmou algo para participar da ampliação de uma fábrica de gás natural. Mas sim, a Espanha compra petróleo do país.” “Eu me pergunto,” disse Fernández Marugán: será que o petróleo da Guiné é tão imprescindível para a economia espanhola a ponto de transtornar a política da Espanha em relação a esse país? Isso é o que se deve avaliar.”

A Repsol ambiciona por novas participações em prospecção, e a Unión Fenosa participará, junto do grupo alemão EON, da construção de uma segunda usina de liquefação em Bioko, e em três gasodutos, com um investimento de 2,035 bilhões de euros. A boa condução de tais projetos passa pela amistosa saudação a Teodoro Obiang, que sempre ganha as eleições por desistência do adversário. Seu movimento, o Partido Democrático da Guiné Equatorial (PDGE) tem coligações com nove outras formações amigas, e venceu nas eleições de 4 de maio com 99% dos votos. Ficou com 99 dos 100 assentos na Câmara dos Representantes do povo, as 36 prefeituras em jogo e com quase todos os cargos de vereador, menos três. “O PDGE ganhou de forma tão esmagadora porque é a única alternativa que resolve os problemas do país”, segundo seu secretário geral, Filiberto Ntutumu. Para o porta-voz governamental, “o pluralismo nacional é válido, já que não existe um modelo único de democracia.”

Obiang é mais taxativo: “O ensaio democrático da Guiné Equatorial, teoria que eu inventei, é uma realidade.” O historiador Iñaki Gorozpe também é: o ditador “age como amo e senhor do país” e as eleições não passaram de uma paródia. “Aqui não há democracia, mas sim o contrário. E aqueles que qualificam as eleições de “avanço democrático” (referindo-se aos três parlamentares espanhóis) estão enganando a si mesmos,” ressalta o unido deputado da oposição, Plácido Micó. “Houve mais intimidações, mais violência e mais violações das normas eleitorais que nunca.”

Engendrando suas artimanhas desde 1979, incluindo a Embaixada e os jornalistas espanhóis que quiseram cobrir as eleições de 4 de maio, aos quais se prometeu um visto que nunca chegou, a Guiné Equatorial permanece ancorada ao totalitarismo e repressão, segundo a Anistia Internacional. Tudo indica que o “leopardismo” do dia 4 de maio, o formato da campanha e dos colégios eleitorais, as aparências, em resumo, são concessões aos governos ocidentais que precisam de avanços para poder defender a moralidade de suas políticas de Estado. O discurso de campanha de Teodoro Obiang estabeleceu os limites de sua democracia: “Pluralismo sim, mas sempre dentro do programa político do PDGE.” Plácido Micó admite sua impotência: “É preciso viver aqui para compreender isso. Um pobre jovem interventor de meu partido pode assistir ao escrutínio, mas depois não recebe o registro das votações,” explica. “Se ele fica com o presidente da mesa, do partido no poder, ele faz o que quiser com o registro. E se apresentamos um recurso, responde o ministro, porque ele não se reporta à Junta Eleitoral Nacional. E outras artimanhas. Manipulam à sua livre vontade. Essas foram as piores eleições.”

Anoitece em Malabo e na casa de Antonio, que não se interessa pelas eleições. O gentil guinéu-equatoriano, com esposa e cinco filhos, carrega uma certa visão fatalista da vida. “Não posso me queixar. Ganho para minhas necessidades, mas tenho medo que algum de meus filhos fique doente. Nos hospitais é preciso levar até o travesseiro. E os remédios, é preciso comprá-los nas farmácias, e são muito caros.” As crianças o rodeiam enquanto ele fala, sentado na despojada sala da casa. Antonio mostra o certificado que recebeu por ter votado no dia 4 de maio, com seu nome, sobrenome, endereço e selo oficial. “Eu o levo sempre no carro, porque podem pedi-lo nas barreiras do exército. Quem não o tiver pode levar uma multa, ser repreendido ou será preciso dar dinheiro a eles. Pode-se até perder um documento e se você for funcionário público, o trabalho. Na cidade isso não acontece. Só com quem sai em direção às rodovias.” Seu agonizante Toyota Carina transporta crianças para colégios particulares em uma espécie de acerto de 400 euros. Não é ruim. “O que mais me dá raiva é que o petróleo vai acabar e não receberemos nada. Antes vivíamos melhor. Eu mandava minha mulher ao mercado e ainda sobrava dinheiro. O outro presidente era melhor.” Que outro? Macías? “Sim Macías. Aquele não tocou no petróleo, embora soubesse que havia muito.” O tirano Francisco Macías é a referência de Antonio, porque não existem outras. Nem para ele, nem para seus pais, nem para seus avós. Nunca houve democracia na Guiné Equatorial, que apenas conheceu o primitivismo tribal, o açoite da colônia e dos ditadores da independência. São onze da noite. Uma lona militar cobre o carro de combate estacionado na entrada de um hotel francês com quartos sem luxo, a 300 euros. Coisas do petróleo e do capitalismo selvagem.

“El País”

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A arte na Grécia Antiga

HISTORIANET

As manifestações artísticas no mundo grego alcançaram notável desenvolvimento, refletindo as tradições e as principais transformações que ocorreram nessa sociedade ao longo da antigüidade.

A arte grega è antropocentrica, preocupada com o realismo, procurou exaltar a beleza humana, destacando a perfeição de suas formas, è ainda racionalista, refletindo em suas manifestações as observações concretas dos elementos que envolvem o homem.

A arte Pré Helênica

A arte cretense chegou até nós a partir das ruínas do Palácio de Cnossos, e demonstra a influência das civilizações do Oriente Próximo, como a grandiosidade do próprio palácio, assim como as características da pintura, principalmente as figuras humanas, normalmente caracterizadas pela cabeça em perfil e os olhos de frente; o corpo de frente e as pernas de perfil.

A arte micênica caracterizou-se principalmente pelo desenvolvimento da arquitetura, tendo como modelo o megaron micênico (sala central do palácio de Micenas) e pelo desenvolvimento do artesanato em cerâmica, onde encontramos figuras decorativas, retratando cenas do cotidiano. Apesar da forte influência cretense, a arte micênica tendeu a desenvolver elementos peculiares, iniciando uma distanciação das influências orientais.

Homens e deuses na arte grega

Para compreendermos melhor as manifestações artísticas dos gregos é necessário retomar a importância da religião e de sua manifestação na vida humana.

A MITOLOGIA significa o estudo dos mitos, ou seja , o estudo da história dos deuses. Isso quer dizer que, para os gregos, cada deus nasceu em um certo momento e desenvolveu sua vida com características próprias. Mais, os gregos deram representavam os deuses com a forma humana e principalmente acreditavam que possuíam virtudes e defeitos.

A religião grega dava grande valor aos deuses ao mesmo tempo em que dava grande valor aos homens. Por isso sua cultura é considerada antropocêntrica, individualista e racional; é ainda hedonista, possibilitando ao homem a realização de obras de que reflitam seus sentimentos internos, produzindo por prazer, sem ser utilitarista, como vimos na cultura antiga oriental, pragmática.

A arquitetura grega

A principal manifestação da arquitetura foram os templos gregos.

O fato de serem politeístas e de acreditarem na semelhança entre deuses e homens, criou uma expressão religiosa singular no Mundo Grego, sendo que os templos dos mais variados deuses se espalharam por todas as cidades gregas.

Os templos eram construídos normalmente sobre uma plataforma de um metro de altura chamada estereóbato.

Os edifícios públicos também têm importância arquitetônica e refletem as transformações [políticas vividas pelas principais cidades gregas, como Atenas.

A utilização de colunas de pedra é uma das características marcantes da arquitetura grega, sendo responsável pelo aspecto monumental das construções.

A princípio as colunas obedeceram a dois estilos: o Dórico, mais simples e “mais pesado” , e o Jônico, considerado “mais suave”. No século V surgiu o estilo Coríntio, considerado mais ornamentado, refinado. Foi neste século V , também conhecido como século de ouro ou ainda século de Péricles, que a arquitetura conheceu seu maior desenvolvimento, tendo como grande exemplo o Partenon de Atenas, do arquiteto Ictino.

A escultura grega

Entre os séculos XI e IX a.C. a escultura produziu pequenas obras, representando figuras humanas, em argila ou marfim. Durante o período arcaico a pedra tornou-se o material mais utilizado, comum nas simples estátuas de rapazes ( Kouros) e de moças (Korés) e ainda refletiam a influência externa.

O apogeu da escultura ocorreu no período clássico, durante o século V , quando as obras ganharam maior realismo, procurando refletir a perfeição das formas e a beleza humana, e posteriormente ganharam dinamismo, como se percebe no Discóbolo de Miron.

“HISTORIANET”

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Países pobres são a nova aposta dos laboratórios farmacêuticos

Yves Mamou

Os laboratórios farmacêuticos europeus fazem mais esforços que os americanos para ajudar os países pobres a ter acesso aos medicamentos. É o que se deduz da classificação publicada na última segunda-feira (16) pela fundação holandesa Access to Medicine, em colaboração com o órgão de estudos especializado Innovest.

O laboratório britânico GlaxoSmithKline (GSK, nº 2 mundial) fica no topo, a uma boa distância do dinamarquês Novo Nordisk, um laboratório de porte médio especializado em diabetes. Vêm depois o suíço Novartis (nº 3 mundial) e o francês Sanofi-Aventis (4º lugar). O único americano que entra no jogo é o Merck, terceiro classificado. Mas o primeiro lugar mundial em termos de faturamento, o laboratório Pfizer, fica nas profundezas da classificação, em 17º lugar. Da mesma maneira, o Abbott, que teve freqüentes disputas com associações de doentes de Aids, se classifica em 12º.

Detalhe interessante, três fabricantes de genéricos, os indianos Cipla (14º) e Ranbaxy (16º), assim como o israelense Teva Pharmaceutical (19º), integram a classificação. Por outro lado, laboratórios prestigiosos de biotecnologia como Amgen ou Genentech estão ausentes, enquanto um menor como o Gilead Sciences (inventor do Tamiflu) integra a lista em 15º lugar.

Facilitar o acesso dos países em desenvolvimento aos medicamentos e à saúde nunca fez parte do “core business” (atividade estratégica) das farmacêuticas. Mas o aumento das preocupações humanitárias nos países do norte (desenvolvimento sustentável, antiglobalização, comércio eqüitativo…) e principalmente a onda de choque nascida em 2001 do processo tentado pelos grandes laboratórios contra a África do Sul, para impedi-la de fabricar medicamentos anti-Aids patenteados, mudaram a situação.

Conscientes de que são considerados parcialmente responsáveis pela decadência sanitária de certas regiões do mundo, percebendo -com atraso- que essa percepção pode ter conseqüências nefastas para sua atividade principal nos países desenvolvidos, os laboratórios farmacêuticos repensaram sua atitude em relação aos países em desenvolvimento. Eles não se limitam mais a uma política de caridade (socorro de emergência e doações regulares de medicamentos) como muitos faziam antes. Todos ou quase todos implantaram uma administração ligada à direção geral e estabeleceram uma estratégia específica.

Financiamentos complementares
A classificação levou em conta oito critérios que vão de uma política de preços diferenciados à suspensão provisória das patentes, passando por acordos de licença sem royalties com fabricantes de genéricos, uma pesquisa dedicada a certas doenças tropicais, subvenções dadas a organizações não-governamentais e a associações humanitárias.

É a soma dos pontos obtidos por cada laboratório em cada um desses critérios que leva o inglês GSK a encabeçar a classificação geral. Mas um laboratório como o Eli Lilly, 10º na classificação geral, pode ser o número 1 no critério da transparência de sua política sobre o assunto.

Em todo caso, o estudo mostra que a ação da maioria dos laboratórios em relação aos países pobres deixou a órbita da caridade para integrar uma dimensão maior e mais estratégica. Assim, constata-se que todos os laboratórios da lista, incluindo os fabricantes de genéricos, dedicam orçamentos de pesquisa e desenvolvimento à descoberta de novos tratamentos contra doenças antes negligenciadas, como a dengue, malária, esquistossomose, etc. O interesse dos laboratórios pelas doenças negligenciadas foi dinamizado pelos financiamentos complementares de grandes fundações humanitárias como a de Bill e Melinda Gates. A filantropia de alguns e as capacidades de pesquisa de outros dão uma esperança para as populações deserdadas da África e da Ásia.

GSK, Novartis e Sanofi-Aventis estão empatados em primeiro lugar em termos de pesquisa e desenvolvimento. Em relação às patentes, o GSK é o número 1 juntamente com Merck e Gilead pela qualidade dos acordos de licença feitos com certos fabricantes de genéricos, com o objetivo de melhorar o acesso das populações desfavorecidas aos medicamentos. Os piores classificados nesse sentido são Abbott e Pfizer.

Para enfrentar o flagelo da falsificação de remédios na África e na Ásia, alguns laboratórios ajudam os países em desenvolvimento a fabricar e distribuir medicamentos, assim como a formar pessoal de saúde local. Merck e o alemão Bayer estão no topo nesse critério, seguidos de perto por Eli Lilly e GSK.

“Le Monde”

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‘A mundialização do capital financeiro se tornou irreversível’.

Uma entrevista com François Chesnais

François Chesnais, professor de economia internacional da Universidade de Paris-XIII em entrevista ao Valor, 4-05-2007, afirma que a crescente concentração do capital financeiro tornou a mundialização irreversível. No Brasil, Chesnais é conhecido, sobretudo pelo seu livro A Mundialização do Capital - lançado em 1994 na França e em 1996 no Brasil, pela editora Xamã - um marco na bibliografia antiglobalização. Na entrevista Chesnais fala ainda da crise da esquerda francesa.

Se Ségolène Royal ganhar a eleição, será uma vitória da esquerda francesa?

Não. Vou dar uma resposta um pouco provocativa. A esquerda francesa está em grande crise. Neste instante, ela não existe. Se vai existir de novo um dia, ela deve ser reconstruída completamente. Porque se, por acaso, Ségolène ganhar no domingo, será com a adesão dos eleitores de François Bayrou, que é um conservador católico, embora tenha origem no humanismo da democracia cristã. Ségolène é uma pessoa que vem de uma origem familiar muito próxima da de Bayrou. Parte de sua família é de militares. Não é um produto do Partido Socialista. É um produto do mitterrandismo, um quadro formado na Escola Nacional de Administração, que chega ao partido pelas necessidades de sua carreira política quase por imposição do longo período de 14 anos do governo François Mitterrand. Ela chegou ao Partido Socialista porque precisava integrar o partido dominante.

Ainda não significaria essa retomada da esquerda?

A situação do Partido Socialista é o resultado do esforço de enquadrar a França, de esquecer que ela foi o país da grande revolução. Ségolène Royal é apenas um toque a mais. Sua aproximação com Bayrou não é totalmente contra a natureza.

Por que o país que fez a revolução é hoje tão simpático à direita?

O eleitorado foi posto diante de um cardápio político construído a partir de um mecanismo da oferta. É como no supermercado, onde ninguém verdadeiramente escolhe nada. O comerciante é que decide o que vai lhe oferecer. Há dois anos, a condição do escrutínio foi completamente diferente. O voto negativo à constituição européia terminou exprimindo uma demanda política totalmente diferente. Houve uma falha terrível da esquerda do Partido Socialista. Por isso a oferta agora foi totalmente construída em torno de Nicolas Sarkozy e Ségolène. Jean-Marie Le Pen perdeu grande espaço. Mas muita gente votou em Bayrou. O problema é que, depois do referendo de 2005, houve uma parcela de 35% do eleitorado que ficou sem oferta política, sem um programa político. O drama é esse. Nós veremos rapidamente que seja qual for o resultado da eleição não corresponderá ao clima social.

Mas não há diferença entre os dois resultados possíveis?

A França é o país da Europa com explosões sociais mais freqüentes. Acho que o resultado das eleições não mudará isso. Se Sarkozy ganhar, teremos um momento de depressão. Acredito que teremos um estado de espírito muito pessimista. É um homem absolutamente sem escrúpulo. É um tipo de político que a França não vê desde a década de 30. É um gênero de político que prefere atirar contra as manifestações. Se houver um caso como a revolta dos jovens dos subúrbios, terminará em muito sangue. Ele não tem nenhum poder, com exceção da repressão. Porque simplesmente não existem respostas mágicas para os problemas da economia francesa. Se Ségolène ganhar, será um alívio. Uma resposta dos movimentos sociais.

Os líderes da América Latina são apontados como populistas, mas adotaram um discurso que definem de esquerda. Como vê esse perfil dos novos líderes latino-americanos?

Antes de tudo, gostaria de explicar que o modo de inserção da América Latina no mercado a faz dependente de um sistema mundial altamente vulnerável. Isso faz a vida política na América do Sul difícil, porque ela não pode fazer nada diante desse quadro. A coisa mais importante na política, num sentido amplo, é manter a consciência, a capacidade de organização política autônoma. Mas a grande novidade na América do Sul não são os políticos. São os movimentos dos campesinos, dos trabalhadores pobres, dos autóctones, que viviam aqui antes dos europeus, que se reafirmam. É simbólico isso no presidente da Bolívia, Evo Morales. Mas é preciso destacar que, neste contexto mundial, esses dirigentes não são totalmente livres.

O mundo está muito preocupado com a questão do aquecimento global. É possível resolver esse problema na conjuntura econômica atual?

O fio condutor para a análise é a noção da reprodução da dominação do sistema capitalista e de classe; a lógica própria do sistema e da concorrência, o mecanismo endógeno da crise. A crise de consciência de que o problema é grave é sempre abordada com a idéia de que tem de ser tratada, mas tratada em benefício da dominação, e que a reprodução se dê na melhor forma possível. Hoje há elementos de verdadeira inquietude no bloco dos países dominantes, preocupados com a possibilidade de as mudanças climáticas criarem uma situação política incontrolável. O grau de mundialização do sistema financeiro seria incapaz de absorver essa crise. Mas a cruzada de Al Gore, por exemplo, é vista de modo bem diferente na Europa.

Qual é essa visão?

Ele é minoria nos Estados Unidos. Nem é o porta-voz da visão da Casa Branca, muito menos dos Estados Unidos. Mas representa outra forma da concepção de dominação, um pouco menos fascista ou um pouco mais democrática. Al Gore não está muito longe de Jack London [escritor].

Como analisa toda a discussão mundial em torno do etanol?

É uma solução que provoca comoção no interior do oligopólio da indústria automobilística, entre os grupos que estão fabricando, ou quase, o motor a etanol. Mas é a solução para que o mundo do automóvel continue, sobreviva; para que o fetichismo do automóvel continue; para que todos os investimentos dessa indústria continuem. Para mim é um exemplo puro de uma solução para ajustar as coisas um pouquinho para que tudo continue como antes, mesmo que certas coisas se agravem.

Diante da crescente concentração do capital financeiro, o sr. crê que ainda seja possível uma reversão da mundialização do capital?

Afirmei nos anos 1990 que isso era possível, quando as coisas não pareciam tão irreversíveis como atualmente. Hoje são irreversíveis porque o que se passou daquela época para hoje foi que os fundos de investimentos modificaram completamente a estrutura de seus portfólios. Primeiro, a prioridade não é mais uma estratégia no longo horizonte, mas o rendimento do acionista. Esse sistema de stock option, as fusões e aquisições e os investimentos estrangeiros diretos modificaram todo o sistema nos anos 1990.

Instituto Humanitas Unisinos
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Biodiesel familiar e agroindústria

Entrevista especial com Francisco Alves

O etanol e o biodiesel são os assuntos em voga quando se trata da economia brasileira atual. E a grande preocupação, em relação à produção de biodiesel, vem dos pequenos agricultores que enxergam, no cultivo das matérias-primas desta fonte alternativa de energia, uma forma de ganhar seu pão diário. Com isso, criou-se um programa que incentiva a produção de diesel a partir de óleos vegetais e que tem sido usado para promover a agricultura familiar. Porém, este programa pode seguir a linha que hoje a produção do etanol vem trilhando, ou seja, sua produção e rumos estão, cada vez mais, passando às mãos dos grandes empresários do agronegócio. No caso do biodiesel, os agroindustriais passam por uma crise na produção e exportação da soja e se organizam para que o Governo opte pela produção do biodiesel por meio do seu produto, a soja, a oleaginosa, que menos produz óleo. Esta mesma preocupação tem o professor Francisco Alves, da Ufscar. Por isso, a IHU On-Line entrevistou-o, por telefone. Já no início da conversa, Francisco avisa que há uma guerra no que envolve o biodiesel familiar e a agroindústria e ressalta “A crise está no interior do governo”.

Francisco Alves formou-se economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em seu mestrado, realizado na mesma universidade, trabalhou questões como fatores do crescimento das cidades. Lidando sempre com temas como relações de trabalho, desenvolvimento sustentável, movimentos sociais e economia solidária, fez seu doutorado, na Unicamp, em ciências econômicas, com foco nas lutas dos trabalhadores assalariados rurais.

Atualmente, Francisco Alves é professor na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os maiores entraves do biodiesel familiar e da agroindústria?

Francisco Alves – Há uma guerra entre o biodiesel pensado pelo Ministério do Desenvolvimento Rural e Reforma Agrária e o biodiesel pensado pelo Ministério da Agricultura. A crise está no interior do governo. O pensado pelo Ministério da Agricultura tem como fundamento fortalecer e arranjar uma alternativa à queda de preço da soja no mercado externo. O outro biodiesel é o que vê a possibilidade do pequeno produtor familiar produzir um produto que tenha mercado garantido. A Abag – Associação Brasileira de Agronegócio, da qual fazia parte o ex-ministro da agricultura, Roberto Rodrigues (1), está interessada em dar uma solução aos sojicultores. A soja vem caindo de preço no mercado externo já faz algum tempo e, portanto, está reduzindo a lucratividade dos sojicultores. Então, uma das possibilidades é, no lugar de se utilizar soja para a venda direta no mercado externo, utilizá-la para produção de biodiesel, que pode ser produzido a partir de qualquer óleo. Basta ter uma fonte de óleo qualquer misturada com álcool na proporção de um litro de óleo para um terço de álcool para se obter biodiesel. O problema é o seguinte: a soja é um dos produtos que têm a mais baixa relação de óleo, produzindo menos óleo do que outras culturas.

Ela produz um terço do que produz a mamona (2) e um quarto do que produz o dendê (3). O dendê e a mamona podem ser produzidos pelos pequenos agricultores. Então, se o Estado passa a assumir a compra pelos menos de parte do excedente de soja para produção de biodiesel, ele perde um mercado que renderia mais. É o mesmo efeito que o Pro-Álcool (4) teve na década de 1970 para a crise de preço do açúcar. Ele foi criado para resolver o problema da queda de preço internacional do açúcar no mercado externo. Então, o açúcar despencou no mercado externo, os usineiros bateram às portas do Estado para arranjar um jeito de resolver o seu problema financeiro. A alternativa foi o Pró-Álcool, ou seja, as usinas, além de produzir açúcar, vão produzir álcool para venda no mercado interno fazendo frente à subida de preço do petróleo. Ele foi vendido como uma alternativa brasileira à crise do petróleo, mas, na verdade, foi o resultado da crise dos preços do açúcar no mercado externo. Os preços do açúcar despencam; você cria o álcool e cria preço para o álcool, cria demandas para o álcool, porque ele vira energia, introduzindo-o na matriz energética, misturando-o à gasolina e, portanto, proporciona preço e demanda para carros que são movidos a álcool. Portanto, as usinas, no lugar de produzirem açúcar, produzem álcool e, para conseguirem isso, conseguem vultosos incentivos do Estado.

O biodiesel de soja é exatamente isso, ou seja, uma forma de resolver os graves problemas de caixa dos produtores de soja provocados pela crise de preço internacional da soja. De um lado, uma parte do Estado deseja que o biodiesel seja fundamentalmente da agricultura familiar no sentido de criar alternativa de produção e mercado para os produtores familiares. Trata-se de uma antiga reivindicação dos defensores da reforma agrária. Por outro lado, os sojicultores, o pessoal do agronegócio, defendem que o biodiesel seja fundamentalmente da soja para resolver o problema de preço dos sojicultores. A Miriam Leitão, dia desses, escreveu um artigo primoroso sobre isso, em que ela dizia que durante muito tempo os sojicultores ganharam uma grana fantástica, desmataram a Amazônia, produziram muita soja e eram principalmente gaúchos. Você encontra gaúchos hoje em qualquer lugar do Brasil, principalmente no Centro Oeste, onde foram levar suas tecnologias de produção. Durante muito tempo, eles ganharam muita grana e agora pararam por causa da crise internacional da soja. Bom, nesse momento eles chamam o Estado para salvá-los, e é nessa história que estamos envolvidos hoje.

IHU On-Line – Qual é a solução do governo?

Francisco Alves – O governo está tentando dar uma no cravo e outra na ferradura, ao afirmar que o biodiesel é um programa fundamentalmente da agricultura familiar. Ele admite que no Nordeste a produção de biodiesel virá fundamentalmente da agricultura familiar e no Sul virá da soja. Eu fico pensando o seguinte: quando você coloca a soja e seus produtores com toda capitalização que eles têm frente aos produtores familiares, quem vai levar vantagem nessa queda de braço? A história tem mostrado que quem sempre tem ganhado nessa queda de braço são os grandes proprietários, mais capitalizados. O Pro-Álcool, quando nasceu, foi pensado também em ser produzido a partir de microdestilarias, inclusive utilizando produtos da agricultura familiar no caso a mandioca. O que se produziu no Brasil de álcool vindo da mandioca? O que se produziu no Brasil de álcool vindo de microdestilarias? Coisa nenhuma. De novo a gente corre o risco de ter os pequenos produtores, os primeiros pensados nessa alternativa do biodiesel, sendo colocados de fora. Eu sou um defensor do biodiesel. Agora, eu acho que o governo tem que deixar claro quem ele pretende beneficiar com o biodiesel. Se ele tentar beneficiar os dois vai fazer a mesma besteira que fez no Pró-Álcool.

IHU On-Line – E como o senhor acha que o governo pode intervir a favor dos produtores de matérias-primas do biodiesel?

Francisco Alves – À medida que esse biocombustível for sendo comprado pela Petrobras , ele pode direcionar isto. Não com certeza, porque o pessoal da soja também quer os mesmo incentivos dados aos pequenos agricultores. Mas não oferece incentivo, não faz as unidades energéticas que o governo quer fazer, o que, no papel, é até interessante. Você pensa numa unidade produtora lá no Centro Oeste numa cidade de gaúchos produtores de soja. Parte dela vai produzir, além de soja, também cana. A cana será exportada, direcionada para produção de álcool, e parte da soja destinada para produção de biodiesel. Parte da produção de álcool produzido pela cana será associada à soja para produzir o biodiesel, ao mesmo tempo que parte do biodiesel, volta para as unidades agrícolas para moverem suas máquinas. E a eletricidade gerada a partir do bagaço de cana volta para as unidades agrícolas e o excedente de biodiesel e álcool é vendido para o mercado externo e interno. No papel é interessantíssimo.

IHU On-Line - Como os produtores de oleaginosas podem manter a competitividade com esses produtores de soja?

Francisco Alves – Esse é um tema muito difícil, porque depende fundamentalmente de uma relação de preço que varia de oleaginosa para oleaginosa e depende de uma relação de preço e produtividade agrícola. Eu acho que a matriz que temos montado no Brasil beneficia os grandes produtores, e, portanto, você expor os pequenos produtores, produzam eles o que for, a competir diretamente com os grandes produtores, vai fazer com que eles “dancem”, como historicamente “dançaram”. Até porque todas as grandes tecnologias foram geradas para o grande e não para o pequeno. O que se tem, do ponto de vista do biodiesel, é que a soja é a pior oleaginosa, perdendo para todas as outras, pela sua baixa capacidade de produção de óleo. Porém, é a oleaginosa que o Brasil produz mais e tem uma enorme capacidade de instalação para produzi-la, provocada pelas duas décadas de expansão da soja Brasil afora.

Isso torna a soja competitiva. Do ponto de vista da produção agrícola e da relação entre soja e óleo, o país perde para vários outros. Sem contar um outro produto que está despontando como como uma possibilidade fantástica, que é o pinhão manso. A Embrapa (5) vem investindo pesado no pinhão manso, na domesticação do pinhão porque ele tem uma produção fantástica de óleo e é um produto praticamente de unidade nacional. Existe o pinhão roxo no Brasil inteiro. É preciso vê-lo com uma grande perspectiva. Isso ainda está em estudo ainda, porque nunca se investiu, no Brasil, nisso, uma vez que aqui pesquisa agronômica é só para produto de ric, como a soja. Investiu-se pesado em novos cultivares, novas tecnologias, para a soja, permitindo sua expansão da região Sul para o Centro Oeste. Quem investiu nessa tecnologia foi o Estado.

IHU On-Line – O que o senhor acha do ciclo do etanol e seus avanços na região Sudeste do Brasil?

Francisco Alves – De um lado, ele é legal, porque o Brasil tem uma enorme tecnologia e capacidade produtiva na produção de álcool, conseguida pelos incentivos fiscais na década de 1970, então não podemos jogar isso fora, pois se tornou uma moeda de troca importante nesse momento. Porém, esse setor sucro-alcooleiro tem um enorme passivo social trabalhista e um enorme passivo ambiental. Portanto, se a sociedade não pressionar nesse momento pode ser que a nossa produção de álcool, que está sendo vendida como a solução para o aquecimento global, se torne num grande problema ambiental e social.

IHU On-Line – Por que um grande problema ambiental?

Francisco Alves – Porque ainda se produz álcool hoje no Brasil com uma devastação fantástica da natureza, queimando palha de cana e causando um problema enorme nas cidades. Portanto, torna-se insustentável a produção de álcool dessa forma no País. Eu acho que a gente devia aproveitar esse momento para exigir melhorias nas condições de produção de álcool. Vai depender de como a sociedade brasileira vai reagir à expansão desse produto. A gente vai querer que se expanda o álcool para atender a demanda internacional da mesma forma como que houve expansão de álcool nos 50 últimos anos? Com mão-de-obra barata, terra barata e um forte impacto ambiental? Ou a gente está querendo uma outra coisa. Eu acho que é hora de a gente colocar a expansão do álcool submetida ao controle social e, portanto, a expansão do álcool que se dê de forma sustentável socialmente, economicamente e ambientalmente. Ou seja, os três pilares do desenvolvimento sustentável.

Notas:

(1) Roberto Rodrigues - Foi ministro da Agricultura durante o governo Lula. Roberto Rodrigues é abertamente favorável à adoção dos transgênicos. Pediu demissão do cargo em junho de 2006. Na época, Rodrigues justificou sua saída devido a problemas de saúde de sua mulher, porém alguns deputados da bancada ruralista argumentaram que o ministro estava desgastado no governo e deveria sair para se preservar.

(2) Mamona – É a semente da mamoneira. Também conhecida no Nordeste brasileiro como carrapateira, uma euforbiácea. O seu principal produto derivado é o óleo de mamona, também chamado óleo de rícino. Possui diversos usos na medicina popular, como purgativo e mesmo em aplicações atuais e tecnológicas, pois o óleo mantém sua viscosidade em uma ampla faixa de temperaturas. É também utilizado como base para o biodiesel.

(3) Dendê – É um azeite popular na culinária brasileira e no candomblé. É produzido a partir do fruto da palmeira conhecida como Dendezeiro. Também é indispensável na cozinha afro-brasileira. O azeite-de-dendê pode também substituir o óleo diesel. Atualmente, é empregado na fabricação de sabão e vela, para proteção de folhas-de-flandres e chapas de aço, fabricação de graxas e lubrificantes e artigos vulcanizados.

(4) Pró-Álcool - Foi um programa de substituição dos derivados de petróleo. Desenvolvido para evitar o aumento da dependência externa de divisas quando dos choques de preço de petróleo. Com isso, de 1975 a 2000, foram produzidos cerca de 5,6 milhões de veículos a álcool hidratado.

(5) Embrapa - A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, foi criada em 26 de abril de 1973. Sua missão é viabilizar soluções para o desenvolvimento sustentável do espaço rural, com foco no agronegócio, por meio da geração, adaptação e transferência de conhecimentos e tecnologias.

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