Arquivo de 30 de Julho de 2008

Por que o Ocidente não compreende o mundo árabe?

Barreiras entre o mundo ocidental e o muçulmano: terrorismo, preconceitos e religião politizada dificultam a integração dos muçulmanos

Josep Play-Maset

“Não entendo os imigrantes: vêm para o nosso país, vivem ao nosso lado e depois querem mudar nossas normas e costumes. A Espanha não é um país muçulmano e não tem por que aceitar essas tradições arcaicas. Colocar o véu islâmico em uma menina é impedir que ela aprenda, é excluí-la da escola pública”, diz María, uma jovem catalã de 17 anos que estuda no Instituto Francês de Barcelona, em uma mensagem eletrônica enviada para suas amigas Meriem, francesa, e Lydia, italiana.

Não se trata de um diálogo real, mas da ficção criada pelo escritor Tahar Ben Jelloun em seu último ensaio, “Não entendo o mundo árabe” (editado pela Aleph e em catalão pela Empúries), a partir do diálogo entre quatro adolescentes.

Existe uma incompreensão do mundo muçulmano e árabe, dois termos que muitas vezes se misturam no discurso dos ocidentais. Ben Jelloun prefere falar dos árabes para circunscrever o problema, já que também há muçulmanos na China, na Indonésia ou na Índia.

Kebir Sabar, um pesquisador-colaborador da Universidade do País Basco, alertou sobre o ressurgimento de uma ideologia cheia de preconceitos, estereótipos e xenofobia. “As velhas representações do outro no imaginário europeu -o bárbaro ou o mouro, por exemplo- são substituídas ou atualizadas por outras figuras: o ‘fundamentalista muçulmano’, o ‘terrorista árabe ou islâmico’ e o ‘imigrante clandestino’”, salientou o autor.

Uma pesquisa do CIS feita em 2003 mostrou que “os norte-africanos são os imigrantes que inspiram menos simpatias” e em uma escala de 0 a 10 obtinham 5,3, contra 5,9 dos africanos, 5,8 dos cidadãos do Leste Europeu e 6,6 dos latino-americanos. Quais são as causas? Em países com uma longa relação com os árabes existem preconceitos que se expressam inclusive em canções e que têm raízes profundas na história (piratas argelinos, desastres da guerra do Rif, a guarda moura de Franco…).

Medo do terrorismo
O 11 de Setembro e o 11 de Março representaram dois grandes golpes para a aproximação entre o mundo ocidental e o islâmico, e vieram reforçar a idéia do choque de civilizações previsto por Samuel Huntington. E embora esses e outros atentados sejam obra de indivíduos isolados ou com uma relação difusa através da Al Qaeda, se amparam no islamismo fundamentalista. E a mídia ocidental não entra em matizes. “Por que a televisão convida esse tipo de gente que quando fala sobre o islã assusta os europeus? São pessoas que caricaturizam a religião. Não deveriam lhes dar a palavra, não lhes dêem publicidade”, diz Meriem, a protagonista meio marroquina meio francesa, que vive em Paris. Seu mentor, Ben Jelloun, afirma que há intelectuais do islamismo moderado e críticos do fanatismo, mas “não são convidados para os programas de televisão”. E acrescenta que o que existe é “um choque de ignorâncias e de preconceitos”.

As últimas detenções de paquistaneses no Raval são um exemplo de como esse tipo de atuação, tanto as dos terroristas como algumas ações preventivas desmesuradas da polícia, acentuam a islamofobia. Depois desse episódio, um grupo de entidades muçulmanas divulgou um comunicado em que conclamava “a reagir diante da difusão de leituras fundamentalistas do islã e a combater o radicalismo dentro das comunidades muçulmanas”. Em particular, alguns signatários manifestaram sua preocupação diante “da presença de discursos salafistas entre as comunidades muçulmanas da Catalunha”. Seu eco foi tênue dos dois lados da barreira.

Religião politizada
Em uma sociedade de origem católica que acabava de retirar os crucifixos dos prédios oficiais e das escolas e que deixava para trás uma época em que a igreja compartilhou o poder, a presença de meninas com véus nos colégios, trabalhadores que param para cumprir o Ramadã ou orações na rua criam incompreensões. O recente acordo de um matadouro de Girona que faz coincidir os descansos com as horas de oração é considerado por alguns um convênio pioneiro e por outros, um passo atrás.

“O lenço não é uma simples peça de vestimenta, é um símbolo político. Quando uma menina se cobre com o lenço é porque quer ser reconhecida como muçulmana praticante; e logo depois se nega a fazer aulas de ginástica (não quer vestir uma malha) e depois rejeita a aula de biologia porque dão explicações científicas sobre a origem do homem”, diz o e-mail de Meriem. Jelloun acredita no laicismo e considera que o primeiro passo deveria ser uma escola onde se ensinasse a história das religiões, e não o proselitismo (cristão ou muçulmano). Só uma pedagogia baseada na tolerância permitirá avançar.

Os imigrantes latino-americanos, por sua proximidade com a cultura e a língua espanholas e por sua tradição associativa, tendem a criar entidades e adotar porta-vozes. Entre os marroquinos e entre os africanos é mais difícil. Na Catalunha, somente em abril passado surgiu uma federação de entidades culturais catalãs de origem marroquina. Eles mesmos fizeram um mea culpa por ser um dos coletivos pior organizados. A necessidade de dar coesão ao tecido associativo anda junto com a de trabalhar para oferecer um âmbito de diálogo, reflexão e debate. Inclusive se anunciou a criação de uma Casa do Marrocos em Barcelona. Poderia ser um passo a mais.

“Tudo começou com Khomeini”
A entrada dos radicais islâmicos na política começou no Irã com a revolução de Khomeini, em 1979. É a hipótese de Tahar Ben Jelloun (nascido em Fez, Marrocos, em 1944). O ex-dirigente iraniano disse que o islã seria político. E o fracasso das ideologias progressistas no mundo árabe propiciou que o islã ocupasse esse vazio.

“De uma religião se fez uma ideologia, e isso é um perigo”, afirma Jelloun, um prestigioso intelectual que vive entre Tânger e Paris.

Na opinião dele há outras tentativas como o aparecimento dos Irmãos Muçulmanos no Egito (1928), mas foi Khomeini “quem conseguiu liberar o imaginário do fanatismo”. E também lembra que a vitória da revolução iraniana foi louvada em sua época por intelectuais como Michel Foucault, Jean Genet ou Claude Mauriac, que não viram que essa revolução se dirigia para uma ditadura.

La Vanguardia”

Comentários

Os cadernos inéditos de Che Guevara

Mantidas em sigilo por décadas, estão disponíveis as Notas em que ele aponta as desigualdades do socialismo real, ironiza os “calhamaços soviéticos” que “não deixam pensar” e começa a compreender a necessidade de democratizar o poder revolucionário

Michael Löwy

Pouco a pouco, Ernesto Che Guevara distanciou-se de suas ilusões iniciais sobre a URSS e o marxismo de tipo soviético. No ano de 1965, em carta ao amigo Armando Hart, então ministro da Cultura de Cuba, ele critica duramente o “continuísmo ideológico” que se manifesta na ilha com a edição dos manuais soviéticos para ensino do marxismo – um ponto de vista convergente com o defendido, na mesma época, por Fernando Martínez Heredia, Aurélio Alonso e seus amigos do Departamento de Filosofia da Universidade de Havana, editores da revista Pensamiento Critico. Esses manuais – chamados por ele de “calhamaços soviéticos” – “têm o inconveniente de não deixarem pensar: o Partido já fez isso por você e você deve digeri-lo” [1].

De forma cada vez mais explícita, percebe-se a busca de um outro modelo, de um método diferente de construção do socialismo — mais solidário, igualitário e radical.

A obra de “Che” não é um sistema fechado, um argumento acabado, com resposta para tudo. Para muitas questões — a democracia socialista, a luta contra a burocracia — sua reflexão permanece incompleta, já que foi interrompida pela morte prematura, em 1967. Mas, em relação a esse aspecto, Martínez Heredia está certo ao ressaltar: “O caráter inacabado do pensamento de Che também apresenta aspectos positivos. O grande pensador está lá presente, assinalando problemas, exigindo que seus camaradas pensem, estudem, combinem a teoria e a prática. Torna-se impossível, quando se assume realmente o seu pensamento, dogmatizá-lo e convertê-lo em um baluarte especulativo de frases e de receitas” [2].

Em um primeiro momento — 1960-1962 —, Guevara depositou muita esperança nos “países irmãos” do chamado “socialismo real”. Mas, após algumas visitas à União Soviética e aos países do Leste Europeu, e após ter vivido a experiência dos primeiros anos de transição para o socialismo em Cuba, ele se mostra cada vez mais crítico. Suas divergências são expressas publicamente em várias ocasiões, especialmente durante o célebre Discurso de Argel [3], em 1965. Mas é a partir de 1963-1964, durante o grande debate econômico realizado em Cuba, que aparecem suas tentativas de formular uma abordagem distinta do socialismo.

Um combate contra o “socialismo de mercado”

Tal debate opõe os partidários de uma espécie de “socialismo de mercado” — com autonomia das empresas e busca da rentabilidade, nos moldes soviéticos — e Guevara, que defende o planejamento centralizado, baseado em critérios sociais, políticos e éticos. Muito mais do que bonificações pelo rendimento e preços fixados pelo mercado, ele propõe que alguns bens e serviços sejam gratuitos. No entanto, há uma questão que permanece não muito clara nas intervenções de Che: quem toma as decisões econômicas fundamentais? Em outras palavras, como ele trata a questão da democracia no planejamento?

A respeito desse tema, e de vários outros, os documentos inéditos de Guevara, recentemente publicados em Cuba, oferecem novas perspectivas. Trata-se de suas Notas Críticas ao Manual de Economia Política: uma reflexão sobre o famoso texto da Academia de Ciências da URSS – um desses “calhamaços” que ele criticava na carta dirigida a Hardt. Foram redigidas durante sua estada na Tanzânia e, principalmente, em Praga, em 1965-1966. Não é um livro, nem mesmo ensaio, mas uma coleção de trechos da obra soviética, seguidos de comentários freqüentemente ácidos e irônicos [4].

Há muito tempo, esperava-se a publicação do documento. Durante décadas, esse permaneceu “fora de circulação”: no máximo foi permitido a alguns pesquisadores cubanos consultá-lo e citar certas passagens [5]. Graças a Maria Del Carmen Ariet Garcia, do Centro de Estudos Che Guevara de Havana, que o organizou, agora ele está à disposição dos leitores interessados. Essa edição ampliada contém, aliás, outros materiais inéditos: uma carta de Fidel Castro, de abril de 1965, que serve de prólogo ao livro; notas sobre os escritos de Marx e de Lênin; uma seleção de anotações das conversas de Guevara com seus colaboradores do ministério das Indústrias, em 1963-65 (já publicadas, parcialmente, na França e na Itália, na década de 1970); cartas a diversas personalidades (Paul Sweezy, Charles Bettelhein); trechos de uma entrevista ao jornal egípcio El-Taliah (abril de 1965).

A obra é, ao mesmo tempo, um testemunho da independência de espírito de Guevara, de seu distanciamento crítico em relação ao “socialismo real”, e de sua busca de uma via radical. E mostra também os limites da sua reflexão.

Visão limitada do stalinismo, crítica ácida ao bloco “socialista”

Comecemos pelos limites: Che, naquele momento (não se sabe se sua análise a esse respeito avançou em 1966-1967), não compreendeu a questão do stalinismo. Ele atribui os impasses da URSS na década de 1960 à Nova Política Econômica (NEP) [6]] pós-de Lênin! Certamente, pensa que se Lênin tivesse vivido mais tempo (“Ele cometeu o erro de morrer”, observa com humor) teria corrigido os seus efeitos mais retrógrados. Permanece convencido de que a introdução de elementos capitalistas pela NEP conduziu às tendências nefastas, indo no sentindo da restauração do capitalismo, que observava na União Soviética de 1963.

Mas nem por isso suas críticas à NEP são sem importância. Elas coincidem, às vezes, com aquelas formuladas pela oposição de esquerda da URSS, em 1925-1927. Por exemplo, quando constata que “os quadros se aliaram ao sistema, constituindo uma casta privilegiada”. Mas a hipótese histórica que torna a NEP responsável pelas tendências pró-capitalistas da URSS de Leonid Brejnev é decididamente pouco operacional. Não que Guevara ignorasse o papel nefasto de Stálin. Em uma de suas notas críticas, encontramos esta frase precisa e surpreendente: “O terrível crime histórico de Stálin” foi “o de ter desprezado a educação comunista e de ter instituído o culto ilimitado da autoridade”. Mesmo que ainda não represente uma análise do fenômeno stalinista, já é uma rejeição categórica.

Em Discurso de Argel, Che exigia dos países que se diziam socialistas que pusessem fim a sua “cumplicidade tácita com os países exploradores do Ocidente”, prática traduzida em relações de troca desiguais com os povos em luta contra o imperialismo [7]. Essa questão é retomada várias vezes nas Notas críticas ao manual soviético. Enquanto os autores dessa obra oficial elogiam “a ajuda mútua” entre países socialistas, o revolucionário argentino é obrigado a constatar que isso não corresponde à realidade: “Se o internacionalismo proletário presidisse os atos dos governos de cada país socialista, seria um sucesso. Mas o internacionalismo foi substituído pelo chauvinismo (de grande potência ou de pequeno país) ou pela submissão à URSS. Isso fere todos os sonhos honestos dos comunistas do mundo.”

Algumas páginas adiante, em comentário irônico sobre a exaltação que o manual faz à divisão do trabalho entre os países socialistas, fundada numa “colaboração fraternal”, Guevara observa: “O balaio de gatos que é o Comecon [8] desmente tal afirmação na prática. O texto se refere a um ideal que “somente poderia se estabelecer pela verdadeira prática do internacionalismo proletário, mas que está, lamentavelmente, ausente hoje em dia”. Na mesma linha, outra passagem constata (com amargura) que, nas relações entre os países que se diziam socialistas, encontram-se “fenômenos de expansionismo, troca desigual, concorrência, até certo ponto de exploração e certamente de submissão dos Estados fracos aos fortes”.

Uma tentativa de articular planejamento com democracia

Por fim, quando o manual fala sobre a “construção do comunismo” na URSS, Che comenta: “O comunismo pode ser construído em um único país?”. Uma outra observação segue o mesmo raciocínio: Lênin, observa o revolucionário, “afirmou claramente o caráter universal da revolução, coisa que a seguir foi negada” – crítica explícita ao “socialismo em um só país” [9].

A maior parte das críticas de Guevara ao manual soviético corresponde de perto aos seus escritos econômicos de 1963-1964: defesa do planejamento central contra a lei do valor e as fábricas autônomas, que funcionam segundo as regras do mercado; defesa da educação comunista contra os estímulos materiais individuais. Ele também se preocupa com o recebimento de uma parte dos benefícios pelos dirigentes das fábricas, o qual considera um princípio de corrupção.

Che defende o planejamento como eixo central do processo de construção do socialismo, porque ele “libera o ser humano de sua condição de coisa econômica”. Mas reconhece – em carta a Fidel – que em Cuba “os trabalhadores não participam da elaboração do plano”.

Quem deve planejar? O debate de 1963-1964 não havia respondido à questão. Os avanços mais interessantes que encontramos nas notas críticas de 1965-1966 são sobre tal assunto: algumas passagens apresentam de forma clara o princípio de uma democracia socialista, na qual as grandes decisões econômicas são tomadas pelo próprio povo. “As massas”, escreve Che, “devem participar da elaboração do plano, ao passo que sua execução é um assunto puramente técnico”. Na URSS, em sua opinião, a concepção do plano como “decisão econômica das massas, conscientes do seu papel” foi substituída por um placebo no qual as alavancas econômicas determinam tudo. As massas, ele insiste, “devem ter a possibilidade de dirigir seu destino, decidir quanto vai para a acumulação e quanto vai para o consumo”. A técnica econômica deve operar com esses números – decididos pelo povo – e “a consciência das massas deve garantir a sua realização”.

Reflexão sobre democracia, interrompida por morte prematura

O mesmo tema é retomado em várias ocasiões: os operários, o povo em geral, “decidirão sobre os grandes problemas do país (taxa de crescimento, acumulação/consumo)”, mesmo se o próprio plano for obra de especialistas. Essa separação, por demais mecânica, entre as decisões econômicas e sua execução é discutível, mas, por meio de tais formulações, Guevara se aproxima consideravelmente da idéia de planejamento socialista democrático. Ele ainda não extrai disso todas as conclusões políticas (democratização do poder, pluralismo político, liberdade de organização), mas não se pode negar a importância dessa nova visão da democracia econômica [10].

Tais notas podem ser consideradas uma etapa importante no caminho de Che para uma alternativa comunista/democrática ao modelo soviético. Um caminho brutalmente interrompido, em outubro de 1967, pelos assassinos bolivianos a serviço da CIA (a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos).

[1] Tal carta, durante muito tempo inédita, é reproduzida por Nestor Kohan em Ernesto Che Guevara. Otro mundo es posible (Buenos Aires, Nuestra America, 2003, pp.156-158).

[2] Martínez Heredia: “Che, el socialismo y el comunismo”, em Pensar el Che, Centro de Estudios sobre América (Havana, Editorial José Marti, 1989, tomo II, p. 30).

[3] Fragmentos do Discurso de Argel estão disponíveis, em espanhol e formto “pdf”, na página web do Centro de Estudos Manuel Rodríguez, do Chile

[4] Ernesto Che Guevara: Apuntes criticos a la economia politica (Havana, Ocean Press, Editorial de Ciencias Sociales, 2006).

[5] Conforme Carlos Tablada: El pensamiento economico de Ernesto Che Guevara (trinta edições desde 1987, a última pela Ruth Casa Editorial, Panamá, 2005). E também Orlando Borrego: El camino del fuego (Havana, Imagen Contemporánea, 2001).

[6] Política iniciada a partir de 1922, após o fracasso da onda estatista que se seguiu à revolução de 1917, e que ficou conhecida por “Comunismo de Guerra”. A NEP, vista por Lênin como um recuo necessário, devolveu parte dos meios de produção a seus antigos proprietários, ou permitiu que fossem administrados em moldes capitalistas. Nota de edição brasileira

[7] Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967. Paris: François Maspero, 1970, tomo II, p. 574.

[8] Espécie de mercado comum dos países do “socialismo real”.

[9] Em contradição com os preceitos “internacionalistas” antes defendidos por Lênin, a teoria política, defendida por Stálin, em 1924, foi adotada pelo XIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética em dezembro de 1925.

[10] É interessante observar que, nas discussões com seus colaboradores do ministério da Indústria, publicadas no mesmo volume, várias vezes encontramos a defesa, por Guevara, do princípio da livre discussão. Dessa forma, em um debate de dezembro de 1964, ele insiste: “Não é possível destruir uma opinião pela força, isso bloqueia o livre desenvolvimento da inteligência”.

“Le Monde diplomatique”

Comentários

Uma visão sobre Cuba

Dirlene Marques

Influenciados pela propaganda, fomos a Cuba procurando a miséria; o povo deveria ser muito passivo para manter uma ditadura de 49 anos

Dirlene Marques

Participei de um grupo de mineiros que esteve em Cuba do dia 20 de janeiro a 5 de fevereiro de 2008, nas Brigadas de Solidariedade. A carta renuncia de Fidel e os comentários da imprensa e das diversas pessoas que encontro me levaram a escrever este texto, considerando o que vivi, vi, ouvi, observei e estudei.

Como todas (os) brasileiras (os), influenciadas (o) pela intensa propaganda, fomos a Cuba procurando a miséria e a ditadura. E, no nosso subconsciente, o povo deveria ser muito passivo e muito bronco, para manter uma ditadura de 49 anos.

E o que encontramos? Tivemos um choque, pois encontramos um povo com um nível cultural bem acima da media do povo brasileiro. Tivemos liberdade de ir e vir, de bisbilhotar, entrar em todos os lugares e de conversar com todos. Alias, ate de forma muito invasiva, entravamos nas casas, nas escolas infantis, nos n museus. Procurávamos crianças e adultos de pés no chão, mendigando, dormindo debaixo de marquises, casas miseráveis. Só então entendemos a verdade do outdoor próximo ao aeroporto: “Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma e cubana”. Outro: “A cada ano, 80 mil crianças morrem vitimas de doenças evitáveis. Nenhuma delas e cubana”. E nos sabemos que milhares delas são da 8a. economia do mundo, a brasileira.

Além disto, chegamos um dia apos o encerramento do processo eleitoral, com a eleição do Parlamento, eleição não obrigatória que teve 95% de participação. E, para nossa surpresa, ficamos sabendo que o Partido Comunista Cubano não e uma organização eleitoral e portanto não se apresenta nas eleições e nem postula candidatos. Os candidatos são tirados diretamente, em assembléias publicas nas diversas formas de organizações existentes: do bairro, das mulheres, jovens, estudantes, campesinas. Que depois vão se reunindo por região, estado e finalmente, no nível nacional.

Estes representantes nacionais elegem o presidente e o vice. Todos os representantes podem ser destituíveis, a qualquer momento, pelas suas bases, caso não estejam respondendo ao projeto de sua eleição. E vimos como 46% dos eleitos são mulheres (no Brasil conseguimos as cotas de 30% para disputar e não eleitas). As estruturas de funcionamento são mais próximas de uma democracia direta. Parece-me um contra-senso chamar este processo de ditadura. Seguramente, e diferente da democracia burguesa, onde apos colocar o voto na urna finda a obrigação do eleitor. Os críticos valem-se da mágica de que “o que e bom para os EUA e bom para o resto do mundo”. Desconhecem, e não querem que seja conhecido, outro processo de participação popular, como o cubano.

Tentando também entender o que víamos, um povo simples e culto, simpático e sem stress, procuramos estatísticas: alfabetização de 99,8% (no Brasil 86,30%) e que de 1959 a 2007, a quantidade de escolas passou de 7.679 a 12.717, os professores passaram de 22.800 para 258.000, com uma população em torno de 11 milhões de habitantes sendo o pais que o maior índice de professores por habitante do mundo. No IDH 2007 da ONU, o Brasil comemorou o fato de figurar em 70º lugar.

Cuba figura em 51º lugar. O país conta com 70.594 médicos para uma população de 11,2 milhões (1 médico para 160 habitantes); índice de mortalidade infantil de 5,3 para cada 1.000 nascidos vivos (nos EUA são 7 e, no Brasil, 27); 800 mil diplomados em 67 universidades gratuitas, nas quais ingressam, por ano, 606 mil estudantes. Dados da Unesco em 2002 relatavam que 98% das residências cubanas possuíam instalações sanitárias adequadas (contra 75% das brasileiras). Dados da CIA, central de inteligência americana, estimava em 1,9% o desemprego em Cuba. No Brasil , segundo a mesma fonte, o índice era de 9,6% no ano de 2007. E que, a expectativa de vida ao nascer na ilha era de 77,41 anos e no Brasil era de 71,9 anos.

Esses números a despeito de ser uma pequena ilha, ao alcance de um tiro de canhão disparado de Miami e que resistiu a uma tentativa de invasão norte-americana (Baía dos Porcos, 1961) e a várias outras de assassinato de Fidel Castro e ações terroristas orquestradas pela CIA, ter um bloqueio econômico e político apenas rompido por países com autonomia como Venezuela, Bolívia, China e alguns países da Europa.

E nós, com a arrogância de quem tem toda a informações pela imprensa livre brasileira (sic), continuávamos procurando outros sinais de desmandos: e os presos políticos?

De fato, há pessoas detidas, mas não pelo que pensam, mas pelo que fazem, como o de organizar grupos financiados pela embaixada dos EUA. Fora isso, todas as personalidades importantes da dissidência estão em liberdade e tem suas atividades políticas como Martha Beatriz Roque, Vladimiro Roca e Oswaldo Paya. É importante ressaltar que Cuba sofreu intensamente com o terrorismo nos últimos 40 anos, perfazendo mais de 3500 mortos. E fica fácil mostrar a postura dos EUA com documentos oficiais, confirmando o financiamento de cubanos exilados para promover ações contra o governo cubano.

O museu na Praia Giron (ou Baía dos Porcos) e um monumento de denuncia as ações terroristas, iniciadas desde 1961 quando o se rompe às relações e se instaura o bloqueio. Em 1963, o democrata Kennedy, aprova o plano de manter todas as pressões possíveis com o fim de perpetrar um golpe de Estado. E, sabemos quantas vezes, ao longo destes anos, tentaram matar Fidel Castro, obrigando-o a sequer ter uma residência fixa. Nos anos 90, a Lei Torricelli reforça o bloqueio econômico e, na seção 1705 diz que “Os Estados Unidos proporcionara assistência governamental adequada para apoiar a indivíduos e organizações não governamentais que promovam uma mudança democrática não violenta em Cuba”.

Esta lei vai ser reforçada na administração de Clinton, pela lei Helms-Burton quando diz: “O presidente dos EUA esta autorizado a proporcionar assistência e oferecer todo tipo de apoio a indivíduos e organizações não governamentais independentes com vistas a construir uma democracia em Cuba”. E, o governo Bush não podia ficar atrás e, em 2004 aprovou um financiamento de 36 milhões de dólares para financiar a oposição a Cuba, em 2005 mais 14,4 milhões de dólares, em 2006 mais 31 milhões de dólares alem do financiamento de 24 milhões de dólares para a Radio e TV Marti, transmitida dos EUA para Cuba neste caso, infligindo a legislação internacional que proíbe este tipo de transmissão. Estes valores são fantásticos -105,4 milhões em apenas 3 anos.

Outra dificuldade é entender o funcionamento da economia cubana. Logo após a revolução faz-se uma ampla reforma agrária, instalando uma via muito particular no campo, onde de um lado manteve alguns proprietários privados, como o de tabaco, e de outro, constituindo cooperativas voluntárias ao lado das propriedades estatais. O setor serviços foi todo ele estatizado. Após os anos 90, com as dificuldades dada pela intensificação do bloqueio e com o fim da União Soviética, foi feita uma grande abertura para entrada do capital internacional no setor turismo, sem desconhecer o risco que isto poderia acarretar. O setor de transformação, inicialmente todo ele estatizado, hoje tem tido parcerias.

Com o nosso olhar de classe méia, que podemos fazer uma viagem internacional, nos chocava alguns problemas com a vida cotidiana como habitações pobres, transporte publico precário, limitações econômicas para se ter ate papel higiênico (isto deixava a todos pensando, pobrezinho dos cubanos). Isso é verdadeiro, alem destes problemas da vida cotidiana, vários outros nos foram apresentados pelo secretário do partido comunista, que fez uma palestra para os brigadistas: o aumento da prostituição, dos pequenos delitos, da corrupção e da desigualdade social.

Quando se investiu no turismo e posteriormente, com a criação da moeda turística (o peso conversível), cresce de um lado a entrada de divisas e de outro, possibilitou um rendimento, para os trabalhadores destes setores, acima do restante da população, ocasionando um aumento da desigualdade social. Afirma ele que vivem numa quádrupla ilha: geográfica; única nação socialista do Ocidente; órfã de sua parceria com a União Soviética e bloqueada há mais de 40 anos pelo governo dos EUA. E buscando respostas coletivas para estes problemas, desencadearam um processo interno de críticas e sugestões à Revolução, através das organizações de massa e dos setores profissionais. São mais de 1 milhão de sugestões que pretendem trabalhar, mas mantendo os princípios do socialismo: solidariedade e não a competitividade, o coletivo e não o individualismo.

Mas, para nos brasileiros de classe media (somos quantos? Depende da estatística mas varia de 5 a 10%), que podemos fazer uma viagem internacional e que não conhecemos a realidade dos 90% do povo brasileiro que não tem como pagar um plano de saúde, que tem pouca alimentação, que fica com os restos do desperdício dos 10%, com uma educação precária, e difícil entender a lógica econômica de uma sociedade voltada para os 100% da população. E ficamos horrorizados por eles não terem papel higiênico. Mas não nos deixam horrorizados que tenham bibliotecas e livrarias em toda escola e em toda cidadezinha. Ou que tenham acesso à saúde e educação da melhor qualidade, habitação com saneamento e aparelhos eletrodomésticos novos para economizar energia. Ou, que não tenhamos encontrado erosão por todos os lugares que andamos.

E a busca do conhecimento? E as escolas? Como e possível ver os círculos infantis, crianças de 1 a 4 anos, assentadas ouvindo historias, sem a professora estar gritando, mandando ficarem quietas? E ver os portões destas escolas abertas e as crianças não fugirem? Como e possível não ter o stress que, temos em nossas escolas? E, conversando com as crianças do pré-escolar e do escolar (5 a 11 anos), ficávamos surpresas com as perguntas cheias de inteligência e informação sobre nosso pais, que faziam aquelas pequenas crianças? E, como nos permitiam entrar nas salas de aulas, fotografar, bisbilhotar as bibliotecas onde encontrávamos livros de Marx a Lênin, de Jorge Amado, Machado de Assis, a Shakespeare.

Imagine isto aqui no Brasil? Ficávamos encantadas. Eu, como professora da UFMG, tida como uma das melhores do Brasil, me encantava com aquelas bibliotecas. E as livrarias? Na pequenina Caimito onde ficava o acampamento, literalmente invadimos uma livraria, comprando tudo quanto e tipo de livro, pela sua qualidade e pelo preço (comprei um livro do Boaventura de Souza Santos por 8 pesos cubanos – que equivale mais ou menos a R$ 0,50 -, outro do Che Guevara sobre Economia Política de 397 págs. por 22 pesos cubanos, portanto em torno de R$ 1,40 (e dai para frente).

E o investimento na potencialidade do ser humano não pára ai. O desenvolvimento das artes – dança, pintura, musica, poesia, desportos – e encontrado em cada escola, em cada esquina, em cada cidade.

E claro que também tivemos as frustrações no contato com algumas pessoas, especialmente em Havana onde impera o espírito da cidade turística, onde se busca sempre ganhar alguma coisa, passar a perna, apenas diferenciando pela intensidade dos problemas, com as nossas cidades turísticas como Rio de Janeiro. Só que e mais ingênuo, meio estilo anos 60. De todo jeito, frustrante. Também nos entristeceu encontrar tantos cubanos sonhando em sair da ilha, acreditando, por exemplo, que o Brasil é um paraíso, visão que tem através das telenovelas (que todos assistem).

E assim, uma sociedade muito diferente que nos estimula e atrae. Alias, nada melhor para expressar isto do que a crônica do Clovis Rossi (O “pop star” se aposenta) do dia 20 de fevereiro na Folha de São Paulo contando o episodio de um encontro do GATT, que contava com a presença dos chefes de estados, diferentes autoridades mundiais e jornalistas de todo o mundo. Onde o burburinho na sala do encontro e na sala dos jornalistas era enorme, com a atenção dispersa. Quando se anunciou Fidel Castro houve um grande burburinho, com todos procurando o melhor lugar para assisti-lo e “ao terminar, uma chuva de aplausos, inclusive de seus pares, 101% dos quais não tinham nem nunca tiveram nenhum parentesco e/ou simpatia com o comunismo. Difícil entender o que aconteceu ali.”

Para terminar, quero colocar uma idéia desenvolvida na mesa redonda integrada por vários cientistas cubanos e sintetizada pelo jornalista Jesus Rodrigues Diaz, falando sobre o potencial no desenvolvimento do conhecimento quando ele se da de forma coletiva. E que no capitalismo existe uma grande contradição entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação. Dai, a reação do capitalismo ao papel crescente do conhecimento na economia e a busca da privatização do conhecimento, principalmente através da propriedade intelectual, das barreiras regulatórias e do roubo dos cérebros.

“Temos que insistir também que, quando falamos do Potencial Humano criado pela revolução, não nos referimos exclusivamente à quantidade de conhecimentos técnicos incorporados em nossa população. Mais importante ainda é a semeadura de valores éticos, de atitudes ante a vida. Na sociedade do conhecimento faz falta um cidadão com vocação de aprender e de criar, e de levar seus conhecimentos aos demais seres humanos. Os conhecimentos técnicos nos podem dizer como se trabalha, porem são os valores os que nos fazem compreender porque se trabalha e deles tiramos as motivações e as energias para seguir adiante.

Que se passa agora se os conhecimentos se voltem ao fator mais importante da produção, inclusive os bens de capital? Não e difícil de prever. A resposta do capitalismo e a intenção de converter também o conhecimento em Propriedade Privada. Porem, a boa noticia e que isto não vai funcionar. O conhecimento não e igual ao Capital. Esta nas pessoas e não se pode facilmente privatizar. O conhecimento requer circulação e intercambio amplo. As leis da propriedade intelectual inibem este intercambio. O conhecimento e validado pela sua aplicação social, não pela sua venda. O uso amplo dos produtos do conhecimento e o que os potencializa”, termina o jornalista. Esta e a grande limitação do raciocínio capitalista em entender a potencialidade da criação coletiva. Ignoram que a criação humana coletiva tem muito mais possibilidades do que as leituras positivistas do conhecimento.

O maior feito desta pequenina ilha, com um povo cheio de dignidade e coragem, terá sido o de mostrar ao mundo que e possível construir uma sociedade baseada no ser humano e não na mercadoria e na acumulação de capital. E isto ameaça o mundo capitalista, e é rejeitada pela imprensa burguesa e pelos setores médios que querem impor as condições de suas vidas para a totalidade do mundo. Mas, Cuba não esta só. Existe hoje uma rede internacional de solidariedade ocasionada pelos médicos e professores cubanos em mais de 100 países, pela Operação Milagros, pelas brigadas de solidariedade e por todos aqueles que acreditam que um Outro Mundo é Possível e que lutam pela sua construção.

Dirlene Marques é economista, professora da UFMG, coordenadora do Fórum Social Mineiro.

“Brasil De Fato”

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Considerado a maior vítima da mudança climática, Bangladesh se prepara para enfrentar a água

Engenheiros holandeses estão ajudando as pessoas em Bangladesh a construir diques, pôlderes e estruturas para reter água para protegê-las das enchentes recorrentes. Apesar das mudanças climáticas, o país poderá até mesmo crescer. Mas no final, a maior ameaça em Bangladesh vem do caos político

Gerald Traufetter

Fortunato Carvajal Monar está no ramo de criação de terras. E esta manhã de sábado está prometendo ser o início de um bom dia de trabalho.

O sol bate na água suja do Rio Ganges, fazendo com que cintile em cores douradas. Carvajal Monar salta energicamente de uma lancha na areia. Ele caminha alguns poucos passos antes de chegar a uma saliência de aparência estranha, que já tinha atraído sua atenção quando a viu por binóculos.

A saliência tem meio metro de altura. Linhas de areia de cor leve estão ensanduichadas entre camadas de argila escura. Carvajal Monar espeta sua caneta esferográfica no solo para testar a consistência do material. “Tem menos de um ano de idade”, conclui sucintamente o engenheiro hidráulico de 59 anos.

Ele puxa a moita grossa de grama que cresceu no solo macio. “Esta ilha se desenvolveu muito recentemente”, ele diz. Vastas quantidades de sedimento foram levadas pelas águas durante a última enchente, e com base em sua experiência, diz Carvajal Monar, “a ilha continuará crescendo”.

Natural da Colômbia, Carvajal Monar freqüentemente pisa em novas terras neste país, que todos dizem estar condenado. Ele trabalha para a empresa de consultoria holandesa Royal Haskoning em Bangladesh, um país que é considerado uma das maiores vítimas das mudanças climáticas.

Carvajal Monar às vezes considera os cenários apocalípticos surpreendentes. Eles simplesmente não condizem com suas experiências em Bangladesh. “Este país tem oportunidades tremendas para crescer”, diz Carvajal Monar, enquanto abre um mapa mais velho e aponta para a Baía de Bengala. “Aqui, por exemplo, não há muito neste mapa que ainda esteja correto.”

O país é tão efêmero quanto a vida humana. “Terra está desaparecendo por toda parte, mas novas terras estão se formando por toda parte”, diz Carvajal Monar. “O problema é que os políticos daqui carecem de uma estratégia de longo prazo para ganho, desenvolvimento e proteção da nova terra.” Seus dedos deslizam mais ao sul ao longo do mapa, entrando na Baía de Bengala, onde a cor leve indicando água se torna azul escura. Isto representa o início da rampa continental, onde o fundo do oceano mergulha centenas de metros e, ao longo dela, 2,4 bilhões de toneladas de sedimentos não usados. que os grandes rios em Bangladesh, o Ganges, Brahmaputra e Meghna, escoam pelos seus leitos de quilômetros de largura. Carvajal Monar calculou que um ano deste sedimento é suficiente para criar 200 quilômetros quadrados de novas terras.

“Atualmente, grande parte do sedimento simplesmente desaparece em alto-mar”, ele diz. Isto, segundo Carvajal Monar, é praticamente um pecado mortal em um país que deveria ter iniciado há muito tempo um programa para usar o lodo, mica e argila férteis para proteger sua costa, protegendo assim futuras gerações de afogamento.

Não é por acaso que ele trabalha para uma empresa de engenharia holandesa. A Holanda e Bangladesh compartilham um destino semelhante. Ambos os países são planos e grande parte de seu território fica abaixo do nível do mar, o que os força a se protegerem constantemente de inundações. “Na Holanda, isto há muito é visto como uma oportunidade, não como uma ameaça”, diz Carvajal Monar.

Na verdade, hidrologicamente falando, a Holanda é um país que nem deveria existir. Mas uma hábil engenharia garante a existência bem-sucedida da Holanda. Pôlderes, diques e estruturas de retenção de água protegem seu território contra o mar. Segundo Carvajal Monar, “isto é precisamente o que poderíamos fazer em Bangladesh, mas infelizmente estamos avançando de forma lenta demais”.

Fora os paralelos morfológicos, a Holanda e Bangladesh têm pouco em comum. O país muçulmano no canto leste do subcontinente indiano, que se tornou independente do Paquistão em uma guerra sangrenta no início dos anos 70, foi devorado por uma cleptocracia corrupta que foi derrubada por um golpe militar em janeiro. Um governo interino controlado por generais governa o país atualmente. O caos na política se estende profundamente pelos ministérios e pela burocracia do governo, adiando decisões -o grande obstáculo na construção de novas estruturas para proteção contra inundações.

A Holanda já está pagando por uma série de projetos que visam proteger os flancos vulneráveis do país ao longo da costa e das margens dos rios. Um diagrama traçando um desses projetos está pregado em um painel no escritório de Carvajal Monar em Dacca, capital de Bangladesh. É um plano que poderia expandir a massa de terra do país em vários quilômetros quadrados. Na região do delta do Meghna, pela qual 160 mil metros cúbicos de água fluem a cada segundo, Carvajal Monar quer conectar ilhas recém formadas por meio de barragens. A estrutura forçaria o rio a depositar grandes quantidades de sedimentos ao longo de suas margens. “Mas o projeto está parado”, se queixa Carvajal Monar. “E isso em um país de 150 milhões de pessoas onde a terra agrícola está encolhendo 1% ao ano.”

As coisas estão se movendo em um ritmo mais rápido em Hatia. Antes eram duas pequenas ilhas no delta do Meghna, mas então chegaram os engenheiros holandeses e ajudaram os bengaleses a conectarem as duas ilhas mais ao norte com o continente. Agora tratores estão cavando fossos para formar a característica estrutura retangular do pôlder familiar a todo turista que já esteve na Holanda -a única diferença sendo que em Bangladesh bananeiras estão plantadas nos diques em vez de choupos.

Zulfiquer Azeez é um dos engenheiros que, sob a supervisão de Carvajal Monar, é responsável pelas obras de construção. Ele está familiarizado com a retangularidade verde da Holanda após uma visita ao país há poucos anos. “Mas aqui nós nunca sonharíamos em construir campos de golfe em terra recém recuperada”, diz Azeez, um bengalês de 41 anos. “Quase cada pedaço dela é usado para plantações.”

Um trator está reunindo o solo cinza e pegajoso. A apenas poucos metros de distância, mulheres da aldeia se ajoelham diante de um pedaço de metal corrugado e viram pimentas para secar ao sol. O dique em breve protegerá as pessoas daqui das enchentes da primavera e das ondas gigantes que regularmente são provocadas por ciclones. Um bunker protetor em palafitas é parte integral do equipamento básico do pôlder tanto quanto seus canais de drenagem. “Sem eles a terra se tornaria salinizada”, explica Azeez.

Mas até mesmo a terra desprotegida diante do dique é usada tão logo se projeta apenas poucos centímetros acima do nível da água. Uma das audaciosas é Shamsun Nahar, cuja choupana de bambu fica em uma pequena colina de terra. como uma versão de Terceiro Mundo das pequenas ilhas nas planícies de lama de Frisland, no norte holandês, conhecidas como Halligen. Ela planta no solo aluvial fértil com seus quatro filhos, e o chama de “um presente de Alá”. Nahar chegou aqui há apenas poucos meses. Seu marido trabalha no sudeste do país, ou nas docas ou como condutor de riquixá. De fato, Nahar não sabe ao certo o que ele está fazendo no momento, porque, sem um celular, ela não tem como manter contato com seu marido. Ela também não possui um rádio para alertá-la contra ciclones.

Ela envia seu filho para trazer as redes. Sem a pesca, a família não conseguiria sobreviver. A maré atingiu a ponta do dique e a água está se agitando diante de sua choupana.

Nahar sabe muito bem quão perigosas vastas quantidades de água podem ser, e ainda assim ela corre o risco de viver à beira da água, na esperança de se tornar a proprietária da terra recuperada. Segundo as leis não escritas dos nômades das marés, o governo no final dará a propriedade da terra recuperada aos primeiros que tiverem sucesso em tomar posse dela.

Uma rajada de vento envolve Nahar em uma nuvem de poeira fina. O vento mudou de direção e agora está soprando do sul. A estação seca, que geralmente dura de novembro a abril, está chegando ao fim.

Domando rios monstros
Um vento sul é um sinal de aproximação da monção de verão, um tempo em que os esforços de Gerard Pichel serão testados. O engenheiro holandês está tentando domar os rios que incham em monstros selvagens durante a monção.

Pichel está a caminho do Jamuna, como o Brahmaputra é chamado no lado bengalês da fronteira. Um hidrólogo da DHV, uma firma de engenharia da cidade da Amersfoort, na região central holandesa, Pichel, em um projeto conjunto do Ministério dos Recursos Hídricos em Dacca, protegeu as margens do rio com diques e dois quebra-mares que se projetam do rio em ângulos retos. A enchente da última monção arrancou partes da amurada. “Não podemos permitir que um desastre semelhante aconteça desta vez”, diz Pichel.

Os bengaleses construíram os quebra-mares em um ângulo reto e não em um ângulo oblíquo. Como resultado, o lado diante da corrente fica exposto à força plena da água. “Nós cometemos o mesmo erro na Holanda no passado”, diz Pichel, balançando sua cabeça. “Mas não é preciso cometer os mesmos erros duas vezes.”

Ele já descobriu erros de engenharia hidráulica incômodos ao longo de todo o caminho de Dacca até o Jamuna: aberturas de ponte que são pequenas demais, estruturas de retenção de água dimensionadas de forma imprópria. Além disso, muito dinheiro está sendo gasto em investimentos errados. A companhia aérea estatal acabou de anunciar planos para gastar mais de US$ 1 bilhão em novos aviões. Pela mesma quantia, milhões de pessoas poderiam ser salvas de enchentes. Na verdade, muitas coisas seriam possíveis. Engenheiros desenvolveram formas de domar a natureza, com uma barragem bem situada, por exemplo, forçando o rio a depositar sedimentos ao longo de suas margens. Segundo Pichel, a tecnologia é “mais rápida do que qualquer draga e não custa nada.”

Mas a barragem precisa ser construída manualmente. Os cenários que se desdobram diante dos olhos de Pichel lembram a construção das pirâmides. Usando umas macas de madeira, homens encharcados de suor arrastam blocos de pedra de um barco, se deparam com a tábua de bambu do barco ao canal e jogam a pedra na água.

Para Pichel, as mudanças climáticas representam apenas outro desafio de engenharia. Além disso, os indianos, e não o aquecimento global, são os principais responsáveis pelos problemas agudos de enchente de Bangladesh.

O país vizinho muito maior construiu barragens gigantes para explorar seus grandes rios. Como resultado, os indianos estão interferindo em um equilíbrio que é crítico para Bangladesh. “Quanto menos água flui do norte para o mar, mais a água do mar avança rio acima”, diz Pichel. O resultado fatal é a salinização dos campos no sul e menores safras agrícolas.

Exatamente o oposto ocorre durante o período da monção. Para se protegerem contra as enchentes, os indianos abrem suas comportas, o que causa inundações rio abaixo em Bangladesh.

As mudanças climáticas poderiam causar derretimento adicional das geleiras no Himalaia, levando a um nível mais elevado das águas nos rios. “Mas isso seria praticamente marginal em comparação aos atuais problemas de enchentes em Bangladesh”, diz Pichel.

O conhecimento sobre os riscos das mudanças climáticas ainda não chegou ao novo pedaço de terra plana na Baía de Bengala. “Eu já ouvi certa vez os homens na cidade conversando a respeito”, diz Shamsun Nahar, a agricultora em seu pequeno pedaço de terra recuperada em Hatia.

Nahar não sabe o que é pior: os caprichos da natureza ou os dos seres humanos. Há algum tempo, alguns homens de Dacca apareceram com falsos documentos e um grupo de capangas, e expulsaram os vizinhos dela de suas terras. “Quem nos protege?”, ela pergunta retoricamente. “Ninguém!”

“Der Spiegel”

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Estados Unidos pretendem reduzir limite de subsídio agrícola para US$ 15 bilhões

Alan Beattie

Na terça-feira (22) os Estados Unidos tomaram a primeira medida significativa na reunião politicamente tensa de ministros do Comércio, em Genebra, reduzindo o teto proposto dos subsídios agrícolas para US$ 15 bilhões ao ano.

A medida diminuiria em cerca de US$ 2 aqueles subsídios agrícolas norte-americanos capazes de distorcer o comércio internacional - em relação à atual oferta feita na chamada “rodada Doha” de negociações comerciais - para um valor bem menor do que o teto atual de cerca de US$ 48 bilhões.

Mas o valor ficaria confortavelmente acima do recentes subsídios à agricultura que distorcem o comércio, com valor estimado de US$ 7 bilhões a US$ 9 bilhões anuais.

A oferta exigiria uma reformulação substancial da legislação agrícola - o generoso programa de cinco anos de subsídios agrícolas recentemente aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos, que superou uma tentativa de veto por parte da Casa Branca.

Brasil e Índia, dois dos principais parceiros nas conturbadas negociações na Organização Mundial de Comércio, rejeitaram a oferta, alegando que ela é inadequada. “Foi uma tentativa boa, mas insuficiente”, afirmou um porta-vos do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim. “Esta não é a oferta final que eles são capazes de fazer”.

A União Européia, que sofrerá pressões para reduzir os seus subsídios caso os Estados Unidos acenem com cortes maiores, deu maior apoio à proposta, afirmando que se trata de uma oferta razoável no atual estágio, sendo algo que sem dúvida terá um efeito limitador.

A oferta está na faixa de US$ 13 bilhões a US$ 16,4 bilhões sugerida em uma minuta feita pelo diretor de negociações agrícolas da rodada Doha, mas não está mais próxima do limite inferior desta faixa, conforme exigiram muitos países emergentes.

Alguns dos parceiros comerciais dos Estados Unidos, como a Índia, solicitaram no passado que os Estados Unidos concordassem com um teto que implicaria na redução dos seus gastos reais. Susan Schwab, representante comercial dos Estados Unidos, afirmou que o limite de US$ 15 bilhões significaria reduções reais dos gastos em sete dos dez últimos anos. Segundo ela, não se pode acreditar que a disparada dos preços dos commodities, que reduziu os pagamentos de subsídios vinculados aos preços, vá continuar elevada por tempo indefinido.

“Quem estiver sugerindo um número que esteja fora das faixas mencionadas no texto não estará demonstrando seriedade quanto à meta de se chegar a um acordo na rodada Doha”, afirmou Schwab. “Os preços sobem e descem”.

Schwab disse que a oferta foi feita com a condição de que os outros países abram os seus mercados para os produtos agrícolas de exportação norte-americanos, e que concordem em não contestar os subsídios norte-americanos junto à Organização Mundial de Comércio, conforme aconteceu repetidamente em anos recentes. Um desses casos, levado à organização pelo Brasil, obrigou os Estados Unidos a reverem o seu polêmico programa de subsídios para apoio à produção de algodão.

Schwab disse que consultou o Congresso, e que estaria satisfeito com o rumo tomado pela representante comercial. Tom Harkin, presidente do Comitê de Agricultura do Senado dos Estados Unidos, recebeu bem a oferta, mas disse que ela depende de que os outros países concedam aos produtores norte-americanos maior acesso aos seus mercados.

Os produtores de diversos países em desenvolvimento afirmam que os subsídios agrícolas dos Estados Unidos empurram os preços dos commodities para baixo, aviltando o valor desses produtos, embora os Estados Unidos apontem para uma pesquisa do Banco Mundial que mostra que são as tarifas sobre a importação de produtos agrícolas, e não os subsídios, que causam o maior impacto negativo sobre os produtores dos países pobres.

A oferta dos Estados Unidos não modifica a proposta existente no sentido de limitar a forma de subsídio que mais distorce o comércio a US$ 7,6 bilhões anuais, e tampouco cria novos limites para a quantia gasta com uma cultura agrícola específica.

“Financial Times”

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Doha, um erro perigoso

Bélgica e Suíça são famosas pelos chocolates; alguém sabe de algum pé de cacau em Flandres ou na Basiléia? A Alemanha é grande exportadora de cafés industrializados; o leitor já ouviu falar de cafezais no Ruhr? Essas perguntas indicam o que está em jogo na Rodada de Doha: a cristalização da velhíssima divisão internacional do trabalho.

Gilson Caroni Filho

Ao dar sinais de que está disposto a aceitar a proposta encaminhada por Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê cortes tarifários médios de 54% da indústria nos países em desenvolvimento, o Brasil está dando dois passos atrás e guardando um tropeço mais para frente. Cria uma fratura irreversível na aliança dos países emergentes (G20) e estabelece impasses desnecessários no âmbito do Mercosul.

A declaração do chanceler Celso Amorim de que “na hora da verdade, as avaliações podem não ser as mesmas. Cada país terá de tomar a sua decisão” destoam totalmente da política, até então, adotada no plano externo pelo governo Lula.

Como destacamos em artigo recente, o fundamental é fortalecer o Mercosul e estreitar laços com África do Sul, Índia e China. O que soa como pragmatismo é um preocupante indicativo de capitulação. O que está em curso em Genebra é tão cristalino como água de fonte. Doha, e a OMC-como-um-todo, assim como o GATT, velho antecessor, nada mais são que a cristalização da velhíssima divisão internacional do trabalho: os países outrora ditos “do terceiro mundo” entram com mão de obra e recursos naturais (a preços vis), e os países antes ditos “de primeiro mundo”, com tecnologia e manufaturas (com alto valor agregado). Sub-Ricardo, “vantagens comparativas”, fórmulas tão velhas quanto o colonialismo, merecem um lugar de destaque em um antiquário, não na agenda de um governo que estabeleceu uma agenda de inserção soberana no mundo globalizado.

Bélgica e Suíça são famosas pelos chocolates; alguém sabe de algum pé de cacau em Flandres ou na Basiléia? A Alemanha é grande exportadora de cafés industrializados; o leitor já ouviu falar de cafezais no Ruhr? Os exemplos são tantos que não caberiam no espaço desse pequeno artigo. O que interessa é dissipar a cortina de fumaça, derrubar os sofismas que voltaram a embaralhar as cartas da mesa. A começar pelo que se convencionou chamar de luta pela redução de subsídios. Aqui, uma breve explicação se faz necessária.

Há subsídios e subsídios. A “exception culturelle” da França (apesar do uso feito pela direita francesa do conceito de multifuncionalidade), que visa também a preservar culturas e sociedades locais, é uma coisa; o protecionismo estadunidense em prol de gatos gordos daqueles “red states” cujos nomes começam por vogal, outra bem diferente.

Note-se que não ignoramos que, no caso europeu, a sustentação da renda dos agricultores está deixando de ser o pagamento para funções múltiplas, socialmente valorizadas, e não remuneradas pelo mercado, para se transformar em forma de garantir o lugar dos grandes produtores rurais no mercado mundial. Isso posto, há distinções e elas não podem ser ignoradas.

Os produtos primários, de petróleo a grãos, de há muito viraram “commodities”, cujos preços são determinados nos mercados compradores sobre os quais o Brasil não tem qualquer ingerência, interferência ou influências. Qual a nosso grau de intervenção no jogo especulativo das Bolsas de Mercadorias de Chicago, Londres ou New York?

A contrapartida não é verdadeira; as cotações internacionais têm implicações no mercado interno, tanto em termos de oferta quanto de preços. Se a saca de arroz está com valor alto no mercado internacional, a troco de quê “nossos” arrozeiros vão querer vender prá mesa do “João”, a não ser que ele pague preço de “John”, “François” ou “Fritz”, que ainda por cima bancam o custo de transporte?

O noticiário que destaca a pressão dos países ricos por abertura, pelos países pobres e “emergentes”, de seus mercados “apenas” para bens industriais é, sem eufemismos, conversa mole pra “boi pirata” dormir. Afora os ditos “serviços” (bancos, finanças, seguros e resseguros, os serviços públicos ainda não “globalizados” etc.), há a agenda oculta das ditas propriedades industrial e intelectual, de medicamentos a “software”, passando por toda a vastíssima “indústria do entretenimento”.

Nesses termos e pelo exposto, a pergunta é se é mais vantajoso para o Brasil “fazer progressos” em Doha ou, em conjunto com outros paises, forçar o impasse? Tendo como meta a adoção de uma política econômica menos dependente de setores exportadores de produtos primários.

Quando o presidente Lula diz que ”o importante é que há decisão política de que nós podemos fazer um acordo, e ele será bom para todo mundo”, comete um erro perigoso para quem construiu sua trajetória sob o fogo de negociações difíceis. Nada é “bom para todo mundo” quando o jogo é de soma zero. Estamos falando de imperialismo. Aquele que, para não deixar dúvidas, resolveu voltar a içar velar em águas latinas e caribenhas para garantir recursos naturais e um “mercado realmente livre”.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Carta Maior”

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A revanche da agricultura

Frédéric Lemaître

Durante séculos, ela foi o objeto de todas as atenções. Então, atraído pelas luzes da cidade, o homem começou a ignorá-la. Até que no século 20, a agricultura acabou sendo marginalizada de vez, e o agricultor, desprezado. Foram tantos os sinais desta decadência que eles acabaram se tornando incontáveis. Por mais que a França celebre até hoje as dádivas do seu “terroir” (conjunto das terras cultivadas em determinada região e as suas virtudes, consideradas do ponto de vista agrícola), neste país a expressão “camponês” acabou se transformando num insulto. Talvez não seja totalmente por acaso se foi no Salão da Agricultura que Nicolas Sarkozy, emblemático como poucos do homem político eleito nas cidades, disparou o seu famoso “se manda daqui, pobre cretino”. Uma vez que um insulto nunca é gratuito, o presidente, um homem urbano até as extremidades dos seus sapatos, talvez não tivesse feito outra coisa senão dizer em voz alta aquilo que uma boa parte do povo das cidades teve vontade um dia de dizer ao povo do campo.

Este desprezo é mundial. Apesar de 75% dos pobres morarem em zonas rurais, a agricultura não recebe mais do que 4% dos investimentos públicos e 4% das ajudas para o desenvolvimento. Muito além de todas as causas conjunturais que foram enumeradas para explicar o surgimento da atual crise dos alimentos - progressão da demanda, aquecimento climático, concorrência dos biocombustíveis e especulação financeira -, é mesmo esta inexistência de meios empenhados na valorização da agricultura que constitui a sua causa principal.

Duas razões explicam esta inacreditável injustiça que caracteriza a repartição das despesas públicas. Diferentemente dos urbanos, os rurais raramente se reúnem para formar um grupo de pressão. Paradoxalmente, é nos países desenvolvidos, onde eles são menos numerosos, que os agricultores exercem uma maior influência política (e recebem ajudas em maiores quantidades). Acima de tudo, até os últimos meses, o Banco Mundial, junto com a maior parte dos dirigentes, considerava que a agricultura não passava de uma atividade secundária.

Uma vez que nos países desenvolvidos, 4% da população conseguem fornecer alimentos para os 96% restantes, por que então ajudar os agricultores dos países pobres, que quase sempre estão fadados a partirem para a cidade, onde eles irão trabalhar na indústria e nos serviços? Diante disso, o fato de ouvir Robert Zoellick, o presidente do Banco Mundial, se dizer preocupado hoje com a penúria de alimentos, causa perplexidade. Isso porque o Banco Mundial desponta como um dos principais responsáveis pela situação atual. Pois é ele que vem impondo há muitas décadas aos países pobres as metas de reduzir toda e qualquer ajuda financeira e administrativa para este setor e de privilegiar as culturas para a exportação. Em conseqüência desta miopia, que alguns consideram como impregnada de malevolência de tanto que ela atendeu aos interesses dos países ricos, os agricultores dos países pobres sofrem cruelmente de uma carência crônica de formação e de investimentos públicos. Eles são vítimas do fato de a auto-suficiência alimentar ter sido, por muito tempo, considerada como ultrapassada.

Ousemos aqui fazer uma indagação politicamente incorreta: dá para acreditar que se os países ricos se interessassem verdadeiramente pelo desenvolvimento agrícola, eles teriam deixado um africano - o senegalês Jacques Diouf - exercer três mandatos (de 1994 até, em princípio, 2012) à frente da FAO, a agência da ONU encarregada da alimentação? Até mesmo a localização da agência - na Itália - é significativa. Ao lado do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, a FAO não tem peso algum. O que pode fazer esta entidade com sede em Roma contra as autoridades de Washington?

A reviravolta que o Banco Mundial está promovendo neste momento é uma prova disso: as tensões atuais, que são o resultado de vinte anos de erros e de passividade, estão conduzindo os responsáveis a considerarem novamente a agricultura como um setor estratégico. Enquanto a mídia e os homens políticos se interessam, sobretudo, pelo curto prazo (”é preciso agir rápido para salvar o Haiti…”), a FAO não dormiu no ponto. Junto com dois outros organismos da ONU, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) ela seguiu preparando o futuro, organizando em Nova Delhi (Índia), de 8 a 11 de abril, o 1º Fórum Mundial das Indústrias Agrícolas. Mais de 500 pessoas, vindas de 110 países, participaram.

Alain de Janvry, um professor na universidade de Berkeley, lembrou que a agricultura constitui um setor-chave para o crescimento. Em países como a China, na Índia ou o Vietnã, foi o seu desenvolvimento que permitiu que centenas de milhões de pessoas saíssem da pobreza e que as economias pudessem deslanchar. Além do mais, a criação de indústrias agro-alimentares com muita freqüência constitui uma primeira etapa rumo a uma economia mais industrial. Enquanto a participação da agricultura na economia mundial não pára de diminuir, a da indústria agro-alimentar está aumentando. Mesmo se os números apresentados são particularmente incompletos em razão da importância do setor informal (6% dos empregos em certos países), as indústrias agro-alimentares, sem dúvida, despontam como o mais importante setor econômico no mundo.

Estradas em bom estado e refrigeradores
Atualmente, todo mundo está de acordo com a seguinte afirmação: a agricultura tem um futuro. Em razão do aumento da população mundial e do crescimento do seu nível de vida, a demanda por gêneros alimentícios deverá duplicar daqui até 2050. Mas o futuro da agricultura passa necessariamente pela transformação dos produtos agrícolas, cuja importância está crescendo, e, portanto, por uma aproximação com a indústria. Em função da sua carência de infra-estruturas, um país como a Índia perde anualmente cerca de 30% das suas colheitas e acaba se vendo obrigado a tornar-se novamente um importador de cereais. Mais que das biotecnologias, os agricultores dos países pobres precisam, acima de tudo, de sistemas de irrigação, de estradas em bom estado e de refrigeradores que lhes permitam ter acesso aos mercados e exercerem uma influência real diante dos industriais.

Essas constatações são as mesmas na Ásia, na África, na América Latina e na Europa Central: os agricultores carecem de um meio ambiente capaz de estimular a sua atividade, de organizações em forma de rede tais como as cooperativas de produção, de formação e de infra-estruturas públicas. O dinheiro também faz uma falta tremenda. Mas a crise atual poderia conduzir os investidores a se interessarem por este setor. Desde já, o banco francês Crédit Agricole, que até agora vinha apostando na globalização da sua rede para garantir o seu desenvolvimento, decidiu reatar com as suas raízes rurais, organizando um fórum internacional sobre o financiamento nos diferentes setores da agricultura. Menos por filantropia, e muito mais por ter compreendido onde está o seu interesse.

Os debates não dizem mais respeito ao desaparecimento progressivo da agricultura, mas sim à sua evolução. Contudo, nem todas as ambigüidades foram dirimidas. Os países do Sul estão diante de um duplo desafio. Eles precisam de um lado tornar as suas agriculturas mais competitivas, e de outro, reorientá-las em parte, de modo a satisfazerem a sua auto-suficiência alimentar, uma virtude que daqui para frente se tornou sacrossanta, o que não será nem um pouco fácil.

Simultaneamente, os países do Norte terão de se conformar com a necessidade de levantarem as suas barreiras alfandegárias. Isso porque os programas de ajuda que estão sendo decididos atualmente a toque de caixa e no desespero despontam, ao menos em parte, como a conseqüência das políticas que têm sido conduzidas ou impostas até o presente momento pelos países ocidentais.

“Le Monde”

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Charles Darwin, o agnóstico

Avesso a controvérsias públicas, ele viveu conflito entre sua formação cristã e suas descobertas científicas

Herton Escobar

Charles Darwin era um homem cauteloso. Por 20 anos ele manteve sua teoria da evolução em segredo, conduzindo experimentos em seu jardim e estudando a literatura científica para, já de antemão, tentar responder todas as dúvidas e críticas que inevitavelmente seriam lançadas sobre ela.

Estava convicto de suas conclusões, mas tinha plena consciência do impacto avassalador que sua tese teria sobre o pensamento científico e religioso da época. E queria estar preparado.

Além disso, era um pensador reservado, avesso a enfrentamentos públicos e bate-bocas de qualquer natureza. Tanto que, ao fazer a redação final de A Origem das Espécies, retirou propositalmente sua conclusão mais polêmica: de que o homem não era uma criatura divina, criada por Deus à sua imagem e semelhança, mas um animal orgânico, puramente material, e de descendência comum com gorilas, orangotangos e chimpanzés. Uma espécie altamente evoluída de macaco, para ser bem sincero.

De fato, Darwin não menciona o ser humano em nenhum momento do livro. Mas foi pouco para acolchoar o impacto. Assim que chegou às livrarias de Londres, em novembro de 1859, A Origem das Espécies explodiu como uma bomba atômica sobre a sociedade vitoriana do século 19, espalhando nuvens incendiárias de polêmica por todo o planeta. E o parentesco de homens e primatas, de qualquer maneira, virou semente da discórdia.

Começava, assim, “o primeiro debate científico internacional da história”, segundo a historiadora inglesa Janet Browne, da Universidade Harvard. A ciência passou a fornecer respostas para perguntas que, até então, eram respondidas apenas pela fé - algo que não caiu muito bem com os religiosos. “O fato era que Darwin parecia expulsar por completo o divino do mundo ocidental, pondo em dúvida tudo que até então se acreditava sobre a alma humana e nosso sentido de moralidade”, escreve Browne em seu último livro, A Origem das Espécies de Darwin, com lançamento previsto no Brasil para esta semana.

REVOLUÇÃO

Charles Darwin não foi o primeiro a escrever sobre evolução. Mas foi o primeiro a propor, de maneira convincente, um mecanismo puramente biológico capaz de explicar a origem e a diversidade de todas as formas de vida. Nada de espíritos, projetos, propósitos ou intervenção divina: apenas variações aleatórias e seleção natural. Biologia pura.

A inferência de que o homem evoluíra dos macacos era apenas um detalhe. “Por mais surpreendente que pareça, houve pouca oposição ao livro de Darwin sob a alegação de que ele contestava diretamente o relato da criação feito no Gênesis”, observa Browne. “Desde o Iluminismo, os estudos bíblicos estimulavam os cristãos a ver essas antigas histórias como poderosas metáforas, não como narrativas literais. O fundamentalismo bíblico é um problema moderno, não vitoriano.”

CRIACIONISMO

O renascimento do criacionismo e de outros movimentos antidarwinistas nos últimos anos é surpreendente. Principalmente nos Estados Unidos, onde quase metade da população não acredita na evolução, segundo uma pesquisa da revista Newsweek. Talvez nem Darwin pudesse prever que, 150 anos após a publicação de sua obra, o confronto entre criação e evolução continuaria a ferver nas manchetes, salas de aula e tribunais de Justiça.

A pauta do debate não mudou muito: se o homem não é nada mais mesmo do que um aglomerado de matéria orgânica, sem alma nem propósito, onde fica Deus? Como ficam os valores morais e as tradições familiares? Qual o propósito da vida? Como interpretar a Bíblia e outros textos sagrados? E hoje, que temos o conhecimento da biologia molecular e do genoma: será o ser humano nada mais do que um punhado de genes egoístas?

“As semelhanças são incríveis”, disse Browne, em entrevista exclusiva ao Estado do seu escritório no Centro de Ciências de Harvard. “As controvérsias são basicamente as mesmas.” Mas com uma diferença importante: a fé deixou de ser o único contraponto. Agora, mais do que nunca - talvez pela primeira vez -, criacionistas ortodoxos usam argumentos científicos para atacar o trabalho de Darwin, questionando metodologias e reinterpretando evidências na tentativa de apresentar a história da Bíblia como algo cientificamente comprovável.

“O mais interessante é que, agora, os críticos estão dizendo que a ciência está errada”, afirma Browne. “Quando Dar-win publicou A Origem das Espécies, a maioria das pessoas aceitava que suas informações estavam, muito provavelmente, corretas. O que elas criticavam eram as conclusões que ele desenhou a partir dessas informações. A teoria era rejeitada em bases teológicas, não científicas.”

Criacionistas modernos defendem que a Terra tem apenas 6 mil anos de idade (em vez de 4,5 bilhões), que dinossauros conviveram com seres humanos, e que as técnicas de datação usadas na geologia e na paleontologia estão erradas. No Estado americano do Kentucky há até um sofisticado Museu da Criação, de US$ 27 milhões, com dinossauros robóticos, planetário, cinema e uma reconstrução da Arca de Noé. Fósseis de animais extintos são apresentados como vítimas do Dilúvio - aqueles que não conseguiram um lugar no barco.

“O método científico está sendo atacado nos seus princípios mais básicos”, observa Browne. “Isso é muito difícil para os cientistas aceitarem.”

MORALIDADE

O novo criacionismo, segundo a historiadora, parece ser alimentado por uma sensação de perda de valores e tradições morais. “A sociedade moderna está repleta de dificuldades, pobreza, desamparo, e é provável que as pessoas com espírito religioso relacionem isso a um secularismo, uma perda de fé”, afirma Browne. “O ataque à evolução é um ataque à secularização.”

O cenário no qual Darwin produziu seu livro - a Europa do século 19 - era um mundo repleto de certezas, explica Browne. E a maioria dessas certezas era expressa por meio de crenças religiosas, que proporcionavam às pessoas uma razão para sua existência. “Aí veio Darwin e produziu um livro dizendo que os seres humanos eram apenas produtos naturais, que tudo dentro de nós, tudo que pensamos e fazemos, é simplesmente um resultado da natureza, que não há nenhuma dádiva de um poder sobrenatural. Isso era muito desconcertante.”

PRINCÍPIOS

Darwin não era ateu. Fez, inclusive, faculdade para ser pastor anglicano - depois de abandonar a Escola de Medicina de Edimburgo, para onde seu pai o havia enviado aos 16 anos de idade. Não tinha estômago para o trabalho de médico, e a carreira eclesiástica era uma alternativa honrosa aos olhos da família e da sociedade. Entrou para o Christ’s College, de Cambridge, e talvez tivesse virado pastor mesmo, não fosse por um convite que apareceu no meio do caminho para se juntar a uma certa expedição.

A missão do navio HMS Beagle era cartográfica: prospectar e mapear águas da América do Sul. O capitão, Robert FitzRoy, porém, queria levar alguém que também pudesse coletar espécimes e fazer estudos científicos ao longo do caminho. Darwin (que sempre se dedicou a colecionar besouros e às cadeiras de história natural mais do que à teologia ou medicina) foi indicado ao posto por seu professor de botânica, John Henslow.

Em dezembro de 1831, o jovem naturalista embarcou para uma odisséia marítima de cinco anos que o carregaria ao redor do mundo, com passagens pelo Brasil e, é claro, pelas Ilhas Galápagos do Equador.

CONFLITO

Darwin nunca se acostumou ao balanço do mar e passou praticamente toda a viagem nauseado. O maior redemoinho de todos, porém, estava em sua cabeça. Quanto mais aprendia sobre o mundo natural, mais Darwin questionava sua própria fé.

“Não há dúvida de que ele viveu um conflito”, afirma Browne. Quando se juntou ao Beagle, Darwin era um jovem que acreditava na Bíblia. Ao longo da viagem, entretanto, a Bíblia gradativamente perdeu significado para ele. Quando retornou da expedição e começou a trabalhar em sua teoria, Darwin foi forçado a reavaliar profundamente suas crenças.

Por fim, se proclamaria um agnóstico: termo cunhado pelo amigo Thomas Huxley para descrever alguém que não vê provas de Deus, mas não descarta completamente sua existência. “Quando escreveu A Origem das Espécies, Darwin abandonou completamente a idéia de um Criador que interferia ativamente no mundo natural. Ele tinha, sim, a sensação de que algo supernatural existia, mas seja lá o que fosse, esse deus não tinha influência sobre o mundo natural”, explica Browne.

DEMORA

Vários dos amigos de Darwin também eram agnósticos, ou até religiosos, e ele tomava grande cuidado em seu texto para não ofendê-los. Essa foi uma das razões, também, para o parto demorado de A Origem das Espécies.

Ninguém sabe quanto tempo mais ele levaria para publicar o livro, não fosse pela intervenção de um outro naturalista inglês, Alfred Russel Wallace. Em junho de 1858, Darwin foi surpreendido por uma carta na qual o colega descrevia uma teoria da evolução idêntica à sua. Sem saber da obra secreta de Darwin, Wallace havia descoberto a seleção natural por si só, enquanto pesquisava nas florestas do sudeste asiático. Como não tinha influência dentro da comunidade científica, resolveu enviar sua teoria a Darwin, em vez de alguma revista especializada. Queria saber o que o colega achava da idéia.

Darwin entrou em pânico. Após duas décadas de cuidadosas pesquisas, o pioneirismo de sua teoria estava seriamente ameaçado. Ele consultou seus dois amigos mais próximos, Joseph Hooker e Charles Lyell. A decisão foi escrever um texto misto, assinado por Darwin e Wallace, para apresentação na prestigiosa Sociedade Lineana de Londres. O manuscrito foi lido no dia 1º de julho de 1858, e não causou lá muito alvoroço.

Wallace só ficou sabendo três meses depois - tempo que levava para o correio chegar até a Indonésia. Há quem acredite que Darwin se aproveitou da situação, e que poderia até ter roubado idéias de Wallace para sua teoria. O próprio Wallace, porém, jamais reclamou de alguma coisa. Pelo contrário: “Ele ficou extremamente entusiasmado e os dois viraram bons amigos”, garante o especialista Andrew Berry, professor de biologia evolutiva de Harvard e especialista na história de Wallace. “Nunca houve uma gota de ciúmes ou descontentamento.”

“Darwin escrevia tudo que pensava e nunca jogava nada fora. Há evidências mais do que suficientes de que sua teoria estava completa naquele momento. Portanto, não havia motivo para plágio”, diz Berry.

LEGADO

A Origem das Espécies foi finalmente publicado em novembro de 1859. Charles Darwin virou um ícone instantâneo. Wallace, no final das contas, caiu no esquecimento.

“Temos de dar crédito ao grande livro de Darwin: fabuloso, detalhado e muito bem pensado”, observa Browne. Para ela, a história de A Origem das Espécies é, em muitos aspectos, a história do mundo moderno. Como diria o geneticista Theodore Dobzhansky em 1964, “nada na biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução”.

Fora dos laboratórios, as idéias evolutivas de Darwin infiltraram todas as expressões do pensamento humano, para o bem e para o mal. A seleção natural é usada para explicar tanto o desenvolvimento de espécies quanto a sobrevivência de empresas no mercado globalizado. A “lei do mais forte” já foi usada como bandeira para justificar expansões imperiais, guerras e genocídios. E a evolução, quando mal interpretada, já motivou preconceitos raciais de todos os tipos.

Darwin carregou o fardo e as glórias de sua obra por 23 anos, até sua morte em 1882. Ironicamente, o homem que desafiou a autoridade da Igreja foi enterrado com honras na sagrada Abadia de Westminster, aclamado como um gênio à altura de Isaac Newton.

“Considerando a ferocidade com que fui atacado pelos ortodoxos, parece risível que eu tenha outrora pretendido ser pastor”, escreveria o gênio em sua autobiografia.

Jornal Estado de S. Paulo
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Clima pesado

MIKE DAVIS

O urso polar flutuando em sua placa de gelo cada vez menor se tornou um ícone urgente do aquecimento global e das alterações climáticas descontroladas.
Mesmo o ocupante da Casa Branca, que parece acreditar na teoria de que a terra é chata, agora reconhece que os magníficos ursos podem estar condenados à extinção à medida que o gelo oceânico se derrete e o Ártico se torna um mar aberto pela primeira vez em milhões de anos.
A “grande experiência geofísica” da humanidade, como o oceanógrafo Roger Revelle há muito tempo caracterizou a curva cada vez mais acentuada de alta nas emissões de dióxido de carbono, extirpou as raízes holocênicas da natureza nas regiões em torno do pólo. Mas o Ártico não é o único cenário de alterações climáticas espetaculares e inequívocas, e os ursos polares não são os únicos arautos de uma nova era de caos.
Considerem-se, por exemplo, alguns dos parentes mais distantes do Ursus maritimus: os ursos pretos, que se alimentam alegre, mas ominosamente, nas montanhas Chisos, parte do parque nacional Big Bend, no Texas.
Eles podem ser mensageiros de uma transformação ambiental nas terras fronteiriças norte-americanas que terá impacto quase tão radical quanto as que vêm acontecendo no Alasca ou na Groenlândia.
Em uma caminhada até o monte Emory, em uma manhã incomumente quente de janeiro de 2002, com minha mente ainda ocupada pelas imagens apocalípticas do setembro anterior, fiz amizade, ainda que um pouco distante, com um urso jovem e brincalhão, em um acampamento à beira da trilha.
Urso imigrante
Aparições de ursos sempre têm algo de mágico, e presumi que o encontro fosse uma afirmação da presença de terras selvagens intocadas.
Na verdade, fiquei surpreso quando me foi informado por um guarda do parque, no dia seguinte, que o jovem urso era, tecnicamente, um mojado -filho de imigrantes recentes e não documentados oriundos do lado de lá do rio Grande.
Os ursos pretos sempre foram comuns nas montanhas Chisos, quando elas serviam como reduto quase mítico aos apaches mescaleros e aos comanches que atacavam os colonos nos séculos 17 e 18, mas os fazendeiros os caçaram sem piedade, e a espécie se extinguiu na região mais ou menos no começo do século 20.
Depois, de maneira quase miraculosa, no início da década de 1980, os ursos reapareceram em meio aos madrones e pinheiros do monte Emory.
Os biólogos especializados em fauna, atônitos, desenvolveram a hipótese de que eles teriam migrado da Sierra del Carmen, em Coahuila, no México, atravessado o rio Grande a nado e cruzado cerca de 65 quilômetros de deserto escaldante para chegar à região de Chisos, terra prometida ocupada por cervos dóceis e lixo abundante.
Como os leopardos que se restabeleceram nas montanhas fronteiriças do Arizona nos últimos anos ou, aliás, os chupacabras sugadores de sangue do folclore que supostamente foram avistados em subúrbios de Los Angeles, os ursos pretos são parte de uma migração épica, tanto da fauna quanto de pessoas.
Ainda que ninguém saiba exatamente por que os ursos, os felinos de grande porte e os lendários vampiros estão se transferindo para o norte, uma hipótese plausível é a de que estão ajustando seus alcances e populações ao novo reino da seca no norte do México e sudoeste dos EUA.
No que diz respeito aos seres humanos, o caso é mais fácil de acompanhar.
Pequenos ranchos e cidades quase desertas nos Estados mexicanos de Coahuila, Chihuahua e Sonora são prova da sucessão incansável de anos secos -começando nos anos 80, mas assumindo intensidade verdadeiramente catastrófica no final da década passada-, que forçou centenas de milhares de camponeses pobres a encontrar empregos de salários miseráveis nas fábricas de Ciudad Juárez, no México, e nos bairros latinos de Los Angeles.
Em determinados anos, uma “seca excepcional” tomou toda a região das planícies norte-americanas, do Canadá ao México.
Seca persistente
Em outros anos, conflagrações rubras nos mapas meteorológicos desceram pela costa do Golfo do México, na Louisiana, e cruzaram as Montanhas Rochosas em direção ao interior dos Estados Unidos, na região Noroeste.
Mas os epicentros quase permanentes da seca continuaram a ser as bacias dos rios Colorado e Grande e o norte do México.
Em 2003, por exemplo, o lago Powell registrava queda de quase 2,5 metros em seu nível de água nos três anos precedentes, e as cruciais represas ao longo do rio Grande eram pouco mais que poças de lama. O inverno de 2005/6 na região Sudoeste, enquanto isso, foi um dos mais secos já registrados, e a cidade de Phoenix, no Arizona, passou 143 dias sem uma gota de chuva.
As raras interrupções da seca, como a monção diluviana do final do verão (partes de El Paso receberam incríveis precipitações da ordem de 75 centímetros), foram insuficientes para reabastecer os aqüíferos e as represas, e em 2006 tanto Arizona quanto Texas reportaram as piores perdas de safras e gado -devido à seca- em suas histórias (um prejuízo total acumulado de quase US$ 7 bilhões).
A seca persistente, como o gelo em derretimento, reorganiza ecossistemas e transforma paisagens inteiras.
Sem umidade suficiente para produzir seiva protetora, milhões de hectares de pinheiros foram devastados por pragas de besouros devoradores de cascas; as florestas mortas, por sua vez, ajudaram a alimentar os incêndios florestais que se expandiram até atingir os subúrbios de Los Angeles, San Diego, Phoenix e Denver e destruíram parte de Los Alamos.
No Texas, as planícies gramadas também queimaram -cerca de 800 mil hectares apenas em 2006-, e, à medida que a terra fértil que forma a camada superior do solo é varrida para longe, as pradarias voltam à condição de deserto.
Alguns estudiosos do clima não hesitam em classificar o fenômeno como uma “mega-seca”, até mesmo como “a pior em 500 anos”. Outros mostram mais cautela e não estão certos, até agora, se a aridez atual do oeste dos Estados Unidos supera marcos de crise como os anos 1930 (o chamado cinturão da poeira nas planícies do sul) e a devastadora seca do sudoeste nos anos 50.
Mas é possível que não haja mais motivo para debater. As pesquisas mais recentes e abrangentes constatam que a “vermelhidão noturna do oeste” (para invocar o portentoso subtítulo do romance “Blood Meridian” [Meridiano de Sangue], de Cormac McCarthy), não é apenas episódica. A seca representa o novo “clima normal” da região.
Em depoimento chocante ao Conselho Nacional de Pesquisa, em dezembro do ano passado, Richard Seager, geofísico sênior no Observatório Terrestre Lamont Dohey, da Universidade Colúmbia, alertou que as principais projeções quanto ao clima mundial estavam todas resultando em modelos semelhantes nos supercomputadores dos cientistas: “De acordo com os modelos, um clima semelhante ao da grande seca dos anos 50 se tornará o clima dominante no sudoeste dentro de alguns anos a algumas décadas”.
Rancho de areia
Essa previsão extraordinária -”a iminente seca perene do sudoeste dos Estados Unidos”- é um subproduto de um esforço monumental de computação montado por 19 grupos de modelagem do clima (entre os quais as organizações mais conhecidas desse ramo, localizadas em Boulder, Princeton, Exeter e Hamburgo) para o quarto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC).
O IPCC, evidentemente, representa a “suprema corte” da ciência do clima. Estabelecido em 1988 pela ONU e pela Organização Mundial de Meteorologia, seu objetivo é pesquisar o aquecimento global e seu impacto.
Ainda que o presidente George W. Bush agora aceite relutantemente a avaliação do IPCC de que o Ártico está derretendo rapidamente, ele provavelmente ainda não registrou a possibilidade de que seu rancho texano em Crawford um dia possa se transformar em duna de areia.
Os cientistas do clima que estudam os anéis de troncos de árvores e arquivos naturais comparáveis há muito tempo estão cientes de que o Acordo do Rio Colorado, assinado em 1922 para alocar água aos oásis cada vez mais urbanizados do sudoeste norte-americano, se baseia em um estudo sobre período de 22 anos de fluxo do rio (1899-1921) e que o período, longe de representar uma média histórica do volume de água daquele sistema fluvial, na verdade foi uma era anômala e registrou a mais elevada umidade em 450 anos.
Mais recentemente, eles começaram a compreender de que maneira as persistentes Las Niñas (episódios de frio no leste equatorial do oceano Pacífico) interagem com os períodos de calor no Atlântico Norte subtropical para gerar secas -que podem durar décadas- na regiões das planícies e no sudoeste.
Mas, como Seager enfatizou em Washington, as simulações do IPCC apontam para algo de muito diferente dos episódios áridos catalogados no Atlas da Seca na América do Norte, do observatório Lamont. Inesperadamente, o que está mudando é o clima básico em si, e não apenas suas perturbações.
Além disso, essa transição abrupta para um clima novo e mais extremo deriva não de flutuações nas temperaturas oceânicas, mas de “mudanças nos padrões de circulação atmosférica e transporte de vapor d”água que surgem como conseqüência do aquecimento da atmosfera”.
Em resumo, as terras secas se tornarão mais áridas, e as terras úmidas, mais molhadas. E o ressecamento do oeste dos EUA será acompanhado por um calor de fornalha. O relatório do IPCC inclui uma previsão chocante: as temperaturas na região subirão em média cinco graus centígrados até o final do século.
Os eventos Las Niñas, acrescentou Seager, continuarão a influenciar o nível de precipitação nas terras fronteiriças, mas, com base em uma fundação mais árida, podem gerar o pior pesadelo do oeste: secas em escala de catástrofes medievais como as que contribuíram para o colapso das sofisticadas sociedades dos anasazis no cânion Chaco e em Mesa Verde, no século 12.
Para tornar ainda piores as más notícias dos supercomputadores, mais aridez é também prevista para boa parte do Mediterrâneo e Oriente Próximo, onde secas épicas são sinônimo histórico de guerras, deslocamento populacional e etnocídio.
Mas uma série de pronunciamentos científicos, ainda que representem a conclusão unânime de 19 modelos climáticos, não deve causar muito abalo nas pistas de golfe localizadas no subúrbios de Phoenix, onde estilos de vida luxuosos resultam em consumo de água da ordem de 1.500 litros por pessoa/dia.
E tampouco impedirá que as escavadeiras continuem abrindo terreno para os monstruosos subúrbios de Las Vegas (onde 160 mil casas novas estão planejadas), estendendo-se até Kingsman, no Arizona.
E o alerta tampouco deve impedir que a população do Texas dobre daqui até 2040, apesar do possível esgotamento do aqüífero Ogallala, que se estende por sob oito Estados da região das grandes planícies.

Slogans vazios
A despeito de muitos slogans recentes sobre “crescimento inteligente” e uso inteligente da água, as incorporadoras imobiliárias que operam no deserto continuam a criar subúrbios do mesmo modelo burro, ambientalmente ineficiente, que prejudica o sul da Califórnia há décadas.
O trunfo dos defensores da livre iniciativa no sudoeste, além disso, é o fato de que a maior parte da água disponível nos sistemas fluviais dos rios Colorado e Grande é ainda dedicada à irrigação agrícola.
Mesmo que o “pico das águas” tenha chegado e partido, a expansão imobiliária no deserto poderia se sustentar, em médio prazo, pela eliminação das lavouras de algodão e alfafa, enquanto os grandes agricultores se manteriam ricos vendendo seus direitos sobre a água subsidiados pelo governo federal aos subúrbios urbanos sedentos.
Um protótipo dessa reestruturação já pode ser visto no Vale Imperial, da Califórnia, região que tem recebido forte atenção de San Diego no que tange à aquisição de direitos sobre a água. Como resultado, um passageiro atento de avião já começa a perceber a presença cada vez maior, nos últimos tempos, de campos sem cultivo, em meio às plantações de alfafa e melões que caracterizam a região.
Uma solução mais futurista seria a opção “saudita”. Steve Erie, professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, que escreveu extensamente sobre a política de água no sul da Califórnia, disse que os incorporadores de imóveis no deserto no sudoeste e na baixa Califórnia confiam em que podem manter a população abastecida por meio da dessalinização da água marinha.
“O novo mantra das agências de água, evidentemente, é incentivar a conservação e a recuperação, mas os incorporadores gananciosos estão lançando olhares cobiçosos ao Pacífico, pensando na alquimia da dessalinização, apesar de suas conseqüências ambientais perniciosas.”
De qualquer modo, diz Erie, os mercados e políticos continuarão a votar na suburbanização descontrolada e de alto impacto que pavimenta e comercializa milhares de quilômetros quadrados na frágil ecologia dos desertos de Mojave, Sonora e Chihuahua.
À medida que o preço da água aumenta, o ônus do ajuste ao novo regime climático e hidrológico cairá sobre grupos subalternos, como trabalhadores rurais (empregos ameaçados pela transferência de água), pobres urbanos, agricultores de baixa produção (entre os quais muitos indígenas americanos) e, especialmente, as populações rurais do norte do México, que já estão em risco.
De fato, o fim da era da água barata no sudoeste -especialmente porque pode coincidir com o fim da era da energia barata- acentuará os graus já elevados de desigualdade racial e de classe na região e levará mais imigrantes a apostarem contra a morte em perigosas travessias dos desertos fronteiriços.
Aliás, não é preciso muita imaginação para adivinhar o futuro grito de guerra das milícias: “Eles vêm roubar nossa água!”.
Como aponta Jared Diamond no recente “Colapso” [Ed. Record], os antigos anasazis não sucumbiram apenas à seca mas ao impacto da aridez inesperada sobre uma terra explorada em excesso e habitada por pessoas despreparadas para fazer sacrifícios no quanto a seu “dispendioso estilo de vida”.
Em última instância, eles preferiram devorar uns aos outros.

Este texto foi publicado na Nation.Tradução de Paulo Migliacci.

Jornal Folha de S. Paulo
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