Arquivo de 31 de Julho de 2008

O que temos à frente: alguns anos difíceis ou uma década ruim?

Peter S. Goodman

Você ficou sabendo que Fannie e Freddie, a despeito de seus meigos nomes, podem arruinar o sistema financeiro se não receberem uma grande injeção de dinheiro dos contribuintes. Você percebe que os empregos estão desaparecendo, o preço das casas despencando e os salários encolhendo efetivamente com a grande alta nos preços de alimentos e energia. Você notou a perturbadora conversa de uma crise pairando sobre Wall Street.

Alguma coisa certamente deu errado na economia. Mas até que ponto, realmente, as coisas vão mal? E quanto elas poderão piorar antes que voltem os dias melhores?

Mesmo para muitos economistas que até há pouco tempo pensavam que o desânimo era exagerado, a situação parece soturna. A economia atravessa um período bastante difícil. O pior provavelmente ainda está para chegar.

É provável que as perdas de empregos se acelerem este ano e em 2009, e o mercado de trabalho poderá ficar fraco durante um período ainda maior. O preço das moradias provavelmente continuará caindo, depreciando a riqueza das famílias e reduzindo o poder de compra.

“A questão em aberto é saber se teremos uns dois ou três anos ruins ou uma década má,” disse Kenneth S. Rogoff, ex-principal economista no Fundo Monetário Internacional, agora professor de Harvard.

Esta é uma recessão?
Oficialmente, não. A economia só estará em recessão depois que um painel na instituição privada denominada National Bureau of Economic Research (Departamento Nacional de Pesquisas Econômicas) disser que está. Não oficialmente, muitos economistas acreditam que a recessão começou há seis ou sete meses, mesmo que a economia tenha continuado a se expandir -embora em um ritmo moderado.

Muitos acreditam que se a economia se expandir de qualquer forma, então, não existe uma recessão, mas isso não é verdade. O departamento define a recessão como “um significativo declínio na atividade econômica que se espalhe por toda a economia e que dure mais de alguns meses”. Se um número razoável de pessoas perde seus empregos, fábricas deixam de produzir coisas, as lojas param de vender e menos dinheiro vai para o bolso das pessoas, trata-se provavelmente de uma recessão.

Seja qual for o nome pelo qual é chamada, trata-se de uma época dolorosa para dezenas de milhões de pessoas. Na verdade, este pode acabar sendo o mais sofrido declínio econômico desde as duas recessões ocorridas no início da década de 1980: quase certamente pior que a recessão que acabou com a bolha da tecnologia no início dessa década; talvez pior mesmo que o declínio do início da década de 1990 que acompanhou a última queda nos preços de imóveis.

Mas, apesar do que proclamam alguns alarmistas, esta não é a Grande Depressão, quando o desemprego saltou para 25% e milhões de pessoas que antes eram trabalhadores, viram-se de uma hora para outra em favelas. Não, de forma alguma, mesmo se seus vizinhos façam elaboradas observações sobre o uso das lições herdadas de avós, tais sobre como transformar uma lata de feijões em uma refeição para a família.

Até que ponto as coisas vão mal no setor imobiliário?
Mal em muitos mercados, horrorosas em alguns e ainda bem em vários.

O declínio da economia tem suas raízes no frenesi que transformou isoladas fazendas em Nevada em subúrbios com casas de fazenda e pantanais da Flórida em condomínios. Os especuladores levaram os preços de moradias para um nível acima de qualquer conexão histórica com as rendas. A gravidade fez o restante. Depois de quase duplicar em valor de 2000 a 2005, os preços das moradias caíram cerca de 17% -algo mais próximo dos 25% ajustados à inflação- segundo o índice Case-Shiller, um dos mais seguidos.

Mesmo assim, a maior parte dos economistas acredita que os preços de moradias devem cair mais 10% a 15% para voltar à realidade. Uma medida útil é a relação entre os custos de compra e de aluguel de uma casa. De 1985 a 2002, a casa média americana era vendida por uma média de 14 vezes o aluguel anual cobrado por uma casa igual, segundo a Moody’s Economy.com. No início de 2006, o preço das moradias inchou para cerca de 20 -ainda bem acima da norma histórica.

Com a dificuldade em se conseguir hipotecas agora e a especulação deixando de ser atraente, a aritmética substituiu o impulso como a força de orientação para os preços de moradias. A equação fundamental aponta para baixo: mesmo com a construção desacelerando, ainda existem mais casas no mercado do que pessoas para comprá-las, e ainda mais a caminho, uma vez que um número maior de proprietários cai na execução de hipotecas.

Pelas contas da Economy.com, existem casas suficientes para atender à demanda no mercado para os próximos dois anos e meio, sem que se construa uma única residência nova.

O tempo que se leva para vender uma casa nova completamente pronta ampliou-se de uma média de quatro meses em 2005 para cerca de nove meses, segundo análise de Dean Baker, co-diretor do Center for Economic and Policy Research (Centro para Pesquisa Econômica e Política).

E muitas das vendas estão deixando de ser feitas -mais de 30% em algumas partes da Califórnia e da Flórida- pois os compradores não conseguem financiamento, o que amplia o excesso de oferta moradias, disse Baker.

Em Los Angeles, São Francisco, Phoenix e Las Vegas, os preços das casas declinaram, nos últimos meses, em taxas anuais de mais de 33%.

Quando os bancos vão se recuperar?
Até agora, eles deram baixa contábil em mais de US$ 300 bilhões em empréstimos. Muitos especialistas prevêem que a contagem chegará a US$1 trilhão ou mais -uma soma desconcertante que poderá deixar muitas instituições incapacitadas durante anos.

No tempo em que os preços das moradias se multiplicavam, os bancos despejaram oceanos de dinheiro tomado por empréstimo em empréstimos para o setor imobiliário. Ao contrário das companhias ponto.com no centro da última bolha de investimento especulativo, a nova corrida do ouro estava centrada em algo que parecia ser incontestavelmente sólido -a casa americana.

Mas tudo funcionou apenas enquanto os preços do setor habitacional subiam. A queda nos preços despencou como uma bomba. Os proprietários atrasaram o pagamento de seus empréstimos e não se qualificavam para obter novos: não havia valor sobrando em sua casa para valer como garantia para novo empréstimo. Enquanto milhões de pessoas entravam em inadimplência, os bancos viram-se à frente de enormes prejuízos em um sangrento período de prestação de contas.

Em março, o Federal Reserve ajudou a orquestrar o acordo para que o JPMorgan Chase comprasse o problemático banco de investimentos Bear Stearns. Muitos imaginaram que o pior havia passado. Mas, este mês, o revés tornado público de Fannie Mae e Freddie Mac -duas instituições imensas, patrocinadas pelo governo que em conjunto possuem ou garante cerca de metade dos US$ 12 trilhões em hipotecas a pagar -sinalizaram que surpresas piores poderiam vir à frente.

Para acalmar os mercados, o governo apressadamente reuniu um pacote de ajuda no último fim-de-semana para Fannie e Freddie que, se for usado, pode custar cerca de US$ 300 bilhões. A necessidade urgente de socorro -junto de outra rodada de baixas contábeis de bilhões de dólares em Wall Street- deixou perturbados economistas e investidores.

“Eu estava relativamente otimista, mas certamente tornei-me mais pessimista,” disse Alan S. Blinder, economista de Princeton, e ex-vice-presidente do Conselho de governadores do Federal Reserve. “O sistema financeiro parece estar substancialmente pior agora que há um mês. Se fracassar a ajuda a Freddie e Fannie, pode ficar muito, mas muito pior. Se tivermos mais falências de bancos, existe a possibilidade de ver mais daquelas imagens de pessoas em fila para sacar seu dinheiro. Isso pode realmente apavorar os consumidores.”

De certa forma, acrescentou Blinder, isso se parece com a Grande Depressão. “Não vimos esse tipo de sofrimento nos mercados financeiros desde a década de 1930,” afirmou.

Há mais de dois anos, Mouriel Roubini, economista na Faculdade de Administração Stern na New York University, vem dizendo que a bolha no setor habitacional geraria uma crise financeira e uma recessão. Sua opinião foi minimizada como se ele fosse o “galinho Chicken Little” em busca de atenção. Agora, Roubini diz que o pior ainda não chegou, porque o acerto de contas até agora ficou confinado às hipotecas não pagas, deixando de fora outras áreas -cartões de crédito, empréstimos para compra de carros e dívidas corporativas e municipais.

Roubini diz que o custo dos prejuízos do sistema financeiro pode chegar a US$ 2 trilhões. “Mesmo se estiver mais próximo de US$ 1 trilhão, acrescenta, ainda não percorremos nem um terço do caminho”.

Onde os bancos vão captar as gigantescas somas necessárias para repor o capital que eles aparentemente perderam? E o que acontecerá se não conseguirem?

Não se sabe quais são as respostas a essas perguntas, um vácuo perturbador que mantém grande parte da economia em um compasso de espera.

“Estamos em um ponto perigoso,” afirmou Andrew Tilton, economista do Goldman Sachs. “A grande ameaça está em maiores perdas de capital.”

Os bancos são uma parte crucial do sistema arterial da economia, desviando capital para onde ele é necessário a fim de abastecer os gastos e o poder de crescimento. No momento, eles estão se apegando fortemente aos seus dólares, privando empresas de empréstimos que estas poderiam usar para se expandir, e deixando de fornecer às famílias o dinheiro que poderia ser empregado na compra de casas e para enchê-las de móveis e utilidades domésticas.

De junho do ano passado até este junho, os empréstimos da parte dos bancos comerciais declinaram em mais de 9%, segundo uma análise de dados do Federal Reserve, feita pelo Goldman Sachs.

“Temos outra onda de ansiedade, outro aperto de crédito”, disse Robert Barbera, principal economista na ITG, empresa de pesquisa e negociações. “A idéia de que teremos uma recuperação no segundo semestre do ano se desmanchou no ar”.

O meu emprego está seguro?
As desacelerações na economia representam perda de empregos. O desemprego já subiu, e quase certamente aumentará mais.

Os primeiros sinais de ansiedade vieram à tona com o mercado imobiliário. As construtoras, imobiliárias, corretoras de hipotecas e bancos começaram a demitir. Em seguida, os empregos começaram a ser cortados em fábricas que fazem produtos relacionados ao mercado de habitação, de carpetes e móveis a iluminação e assoalhos.

Mas quando a quebra no setor imobiliário espalhou-se para a economia mais ampla, reduzindo o valor da riqueza familiar, os impactos foram repassados aos varejistas, salões de beleza, escritórios de advocacia e transportadoras, provocando cortes em toda a economia, exceto nos setores de saúde, agricultura e energia. Nos seis últimos meses, a economia perdeu 485.000 empregos no setor privado, segundo o Departamento do Trabalho. Muitas pessoas tiveram redução em sua jornada de trabalho.

A taxa de desemprego ainda permanece baixa, de acordo com padrões históricos, em 5,5%. E até agora, a perda de empregos -cerca de 65.000 por mês este ano- não se aproxima da magnitude de outras, vistas em declínios econômicos anteriores, particularmente na recessão dupla no início da década de 1980, quando a economia cortou mais de 140.000 empregos por mês e a taxa de desemprego superou os 10%.

Mas o Goldman Sachs calcula que a taxa de desemprego chegará a 6,5% até o final de 2009, o que se traduz em mais várias centenas de milhares de americanos sem trabalho.

Tais perdas chegam justo no momento do que foi considerado, pela maior parte dos americanos, em um período notavelmente fraco de expansão. De 1992 a 2000 -enquanto o boom da tecnologia catalisava os gastos e contratações- a economia acrescentou mais de 22 milhões de empregos no setor privado. Nos últimos oito anos, apenas cinco milhões de novos empregos foram acrescentados.

A perda do emprego está atingindo os americanos junto de uma variedade de problemas -o preço da gasolina acima dos US$ 4 o galão, inflação geral de cerca de 5% e salário sem queda.

“De qualquer ponto de vista, as pessoas estão em situação pior do que estavam”, disse Roubini, economista da New York University.

Os consumidores estão exauridos?
Essa é uma grande preocupação.

O destino da economia agora repousa sobre os ombros dos consumidores norte-americanos, cujos gastos representam 70% de toda a atividade econômica.

Quando as pessoas vão aos shopping centers e compram televisores e comem fora, seu dinheiro circula por toda a economia. Quando elas apertam seus cintos, a austeridade se dissemina em ondas e sufoca o crescimento.

Durante os anos do boom no setor habitacional, os norte-americanos chegaram a tratar suas casas como se fossem caixas automáticos que jamais exigissem depósitos. Eles captaram dinheiro por meio de vendas, segundas hipotecas e linhas de crédito que davam o imóvel como garantia -uma artéria de financiamento que chegou a US$ 840 bilhões por ano de 2004 a 2006, segundo um trabalho dos economistas James Kennedy e Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve. Isso permitiu aos americanos viverem bem acima do que traziam para casa com o trabalho.

Mas no três primeiros meses deste ano, esse fluxo restringiu-se para uma taxa anual de cerca de US$ 200 bilhões.

A média de dívida por família inchou para 120% da renda anual, acima dos 60% em 1984, segundo o Federal Reserve.

E agora os bancos estão fechando as torneiras do crédito.

“O crédito ficará apertado por um tempo que poderá ser medido em anos”, disse Tilton, o economista do Goldman Sachs.

Esse é o panorama que deixa tantos economistas convencidos de que os gastos com consumo devem diminuir, impondo um aperto de vários anos sobre a economia.

“A dúvida é saber se as coisas vão ficar tão mal quanto na década de 1970?”, indaga Rogoff, lembrando de uma era de grandes altas nos preços da gasolina e de uma inflação de dois dígitos.

No longo prazo, os norte-americanos poderão não ter escolha a não ser gastar menos, economizar e reduzir suas dívidas -em resumo, viver dentro de suas possibilidades.

“Estamos passando por um grande ajustamento e isso dói,” diz Kristin Forbes, ex-integrante do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George W. Bush e atualmente bolsista na Faculdade de Administração Sloam do MIT. “Mas é um ajuste que precisaremos fazer.”

De quem é a culpa?
Existem muitos pontos a se considerar.

Na estimativa de muitos economistas, começa com o Federal Reserve. O banco central reduziu as taxas de juros depois do calamitoso fim da bolha de tecnologia em 2000, rebaixou-as ainda mais depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, e depois as manteve baixas, mesmo que os especuladores começassem a negociar casas como se fossem ações das empresas pontocom.

Enquanto isso, o Fed se acomodou e ficou olhando enquanto os magos financeiros de Wall Street bolavam investimentos diabolicamente complicados ligados a hipotecas, gerando enormes quantias de capital especulativo que transformaram o setor imobiliário em uma febre.

“No final do filme, fica claro que o Fed terá que cuidar dos excessos”, disse Barbera.

Os preços se multiplicaram uma vez que muitos compradores de imóveis ficaram com propriedades muito maiores do que teriam condições de pagar, seduzidos pelas baixas taxas de juros iniciais que acabariam sendo reajustadas para cima, levando muitos à execução hipotecária.

Os corretores de crédito hipotecário auferiram comissões uma vez que emprestaram quase que indiscriminadamente, oferecendo termos exoticamente tolerantes -sem adiantamento em dinheiro, sem exigência de renda ou de emprego. Os bancos de Wall Street ganharam bilhões vendendo títulos incertos, associados a hipotecas em todo o mundo, ajudados pelas agências de classificação de risco que os rotulavam como sólidos.

Com tudo isso, uma grande quantidade de norte-americanos comuns tomou emprestado muito mais dinheiro do que teriam condições de reembolsar, acumulando enormes contas em cartões de crédito e levantando empréstimos sobre o valor de suas casas. Agora está chegando o dia da prestação de contas.

“The New York Times”

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Muhammad Yunus: “O sistema é cego para toda consideração que não seja o lucro”

Neste momento em que o mundo está às voltas com a crise do sistema bancário e com motins da fome, o Prêmio Nobel da Paz em 2006 aponta os limites e as falhas do capitalismo, e preconiza a implantação de um modelo de empresa social que não excluiria mais da vida econômica a maior parte da humanidade

Frédéric Joignot

Ela chamava-se Sufiya Begum. No início dos anos 1980, ela vivia numa casa de terra, no campo, em Bangladesh. Ela fabricava bonitos banquinhos de bambu. O seu marido, um trabalhador diarista, ganhava o equivalente a alguns centavos de euros por dia. Sufiya Begum, que não tinha nenhum dinheiro guardado, vendia todos os seus banquinhos para um mesmo comerciante, que os adquiria em troca de US$ 0,25 a peça e de um pouco de bambu - este era o preço que eles haviam combinado. Um dia, Muhammad Yunus aparece para falar com ela, espantado com o fato de ela ganhar tão pouco. Nesta época, após concluir estudos de economia nos Estados Unidos, o professor Yunus está dominado pela dúvida. Em 1974-1975, Bangladesh foi assolado por uma terrível onde de fome, e, segundo ele mesmo relata, ele achava “cada vez mais difícil ensinar elegantes teorias econômicas sobre o funcionamento supostamente perfeito dos mercados livres, enquanto a morte arrasava [seu] país”. Ele decide agir, movido pela determinação de debelar a pobreza na região de Jobra. Ele não entende por que ela é endêmica. Ao conversar com Sufiya Begum, ele se dá conta do que está acontecendo. “Esta mulher estava sendo estrangulada pelo seu credor. Ele a estava condenando a uma espécie de escravidão. Ela lhe dava toda a sua coleção de banquinhos por US$ 0,25 a peça, apenas por que ela não podia comprar o bambu. Ela carecia de um crédito. Então, eu resolvi investigar por minha conta. Descobri que, no total, 42 aldeões dependiam dos credores. Todos eles poderiam viver da sua atividade, se eles pudessem contar com um pequeno investimento. Tudo o que esses 42 trabalhadores precisavam era de US$ 27, no total. Eu tinha esta quantia no meu bolso…” As idéias que motivaram a fundação do Banco Grameen e do micro crédito nasceram desses encontros.

Atualmente, depois de 25 anos de existência, o Grameen Bank e as instituições de microcrédito que existem pelo mundo afora já ajudaram 150 milhões de pessoas a se desvencilharem da pobreza. O professor Yunus obteve, com o Grameen Bank, o prêmio Nobel da Paz em 2006. Já faz vários anos, ele passou a desenvolver paralelamente uma nova iniciativa: a “empresa social”. Trata-se de deslanchar atividades econômicas rentáveis, mas cujo objetivo é de proporcionar um benefício social para os excluídos do mundo econômico. Foi assim que ele fundou, em Bangladesh, junto com Franck Riboud, o CEO da Danone, a sociedade Grameen Danone Foods que vende para os habitantes de Bogra iogurtes frescos a preço reduzido, que eles gostariam de comercializar em breve dentro de copinhos comestíveis - e vitaminados. A iniciativa permite lutar contra a desnutrição e as carências alimentares, além de oferecer empregos locais. Se a experiência funcionar, ela será estendida ao país inteiro. “A implantação de pequenas empresas sociais desta natureza poderia generalizar-se”, explica o professor Yunus. “Ela abre um novo tipo de mercado, atento para a pobreza e para as necessidades reais, que talvez venha a modificar os nossos fundamentos econômicos”.

A reportagem do “Le Monde” entrevistou Muhammad Yunus em Paris, no momento em que o sistema mundial do crédito está enfrentando uma crise histórica e que vários bancos desmoronaram. O medo da recessão está tomando conta dos Estados Unidos, enquanto dezenas de milhares de americanos inadimplentes se vêem empurrados para o olho da rua pelos organismos credores. O que pensa disso o fundador do Grameen Bank, um estabelecimento no qual as taxas de reembolso dos empréstimos são superiores a 95%?

Le Monde - Como o senhor explica esta gigantesca crise do crédito popular que está abalando o sistema financeiro como um todo? O senhor chegou a prever a ocorrência de tal fenômeno?
Muhammad Yunus - No caso dos subprimes (crédito hipotecário), a crise é inerente ao funcionamento do mundo financeiro e bancário. Os próprios princípios de crédito, as garantias exigidas, os prêmios de risco que são faturados em detrimento das pessoas menos solvíveis revelaram o quanto este sistema não sabe emprestar para os pobres. A culpa disso, portanto, é dos bancos em primeiro lugar. Eles emprestaram muito dinheiro, multiplicando as falsas promessas. Eles se mostraram muito agressivos com a sua propaganda para vender essas hipotecas. Eles apresentavam às pessoas ofertas fantásticas, garantiam que os mais modestos poderiam reembolsar no longo prazo. De fato, os créditos acabaram ficando mais e mais pesados. Esta é a lógica do sistema financeiro. Os pobres devem ser colocados sob pressão para reembolsarem. No Grameen Bank, nós fazemos o inverso. Nós não pedimos nenhuma garantia para emprestar dinheiro. Nós não estrangulamos as pessoas praticando taxas exorbitantes. Nós invertemos o próprio princípio do crédito. No nosso estabelecimento, quanto menos dinheiro você tem, mais vocês é interessante para nós. Se você não tiver um tostão sequer, então você se torna prioritário. E isso funciona! A nossa taxa de reembolso é superior a 95%, pode comparar!

Le Monde - Os subprimes, as dívidas transformadas em produtos financeiros, a cegueira diante da situação das famílias mais pobres: como acabamos chegando a uma situação tão alarmante?
Muhammad Yunus - O sistema financeiro está sempre em busca do melhor rendimento; ele vai sendo levado pela sua própria lógica, que o conduz a criar todos esses produtos, os subprimes, os títulos negociáveis, os hedge funds (fundos de securitização)… A única voz que se faz ouvir no mercado é a da maximização dos lucros. A venda dos créditos consentidos em títulos financeiros e dívidas hipotecárias, a criação e uso como moeda de troca de ativos bancários sem solvabilidade aceleraram a crise. Grandes bancos, grandes sociedades financeiras os utilizaram para cobrir seus déficits na hora dos balanços. O sistema é cego a toda consideração que não seja a do lucro. Atualmente, a mídia publica as suas principais manchetes a respeito das quantias colossais perdidas pelos bancos, todo esse dinheiro dilapidado, esses patrões demitidos das suas funções… Mas ouve-se falar muito pouco das famílias que foram enganadas pelas ofertas inadaptadas dos bancos, que acabaram ficando no olho da rua, perseguidas pelos credores; essas centenas de milhares de pessoas que acreditaram neles e que não são nem sequer mencionadas.

Le Monde - O senhor questiona o próprio princípio da concessão do crédito sob garantia, que é um fundamento da teoria econômica clássica e do funcionamento financeiro…
Muhammad Yunus - É verdade, eu critico o dogma segundo o qual empréstimos não podem ser concedidos sem garantia, sobretudo aos mais pobres. Todos os banqueiros defendem este princípio sem nem sequer analisá-lo. Quando nós começamos a nossa atividade, em 1983, eles nos diziam: “Vocês estão desperdiçando o seu dinheiro. Vocês nunca serão reembolsados. O seu sistema vai desmoronar”. Contudo, atualmente, é o sistema deles que está desmoronando. Nos últimos 25 anos, o Grameen Bank e as instituições do microcrédito distribuíram US$ 6 bilhões (equivalente hoje a R$ 10 bilhões) para 150 milhões de famílias, sem exigirem garantia alguma. O nosso banco realiza lucros, como todo banco que é bem administrado. Desde 1995, ele não precisa recorrer a doações. Ele funciona em colaboração com 10 mil instituições de crédito em todo o mundo. Segundo uma pesquisa recente, 64% daqueles que tomaram dinheiro emprestado do nosso banco durante cinco anos se desvencilharam da pobreza crônica. A nossa iniciativa constitui uma oportunidade para ajustar o conjunto do sistema financeiro. Ela deveria permitir pensar num crédito de um novo tipo que não deixe ninguém de lado. Os princípios atuais do sistema bancário impedem que a metade da população mundial possa participar da vida econômica. Não apenas nos países em desenvolvimento, como também nos Estados Unidos e na Europa. Os bancos tradicionais exigem das pessoas que elas sejam solvíveis antes mesmo de lhes emprestarem dinheiro. Mas então, para que servem essas instituições, se elas não ajudam as pessoas a saírem de uma situação difícil, a criarem valor agregado, a proporcionarem trabalho? Os bancos vêm pedindo todos os dias aos seus advogados para imprensarem seus clientes. Por nossa vez, nós não temos juristas em nosso sistema. Nós não precisamos deles. Com isso, é possível perceber o quanto a teoria econômica dominante apresenta diversos pontos cegos e armadilhas.

Le Monde - Quais deles lhe parecem os mais perigosos?
Muhammad Yunus - Os bancos e os financistas se recusam a entender que o fato de emprestar para os pobres permite criar empregos e gerar renda. Eles não reconhecem uma família ou um casal como uma unidade de produção dinâmica. Eles não enxergam que uma atividade independente - um pequeno estabelecimento de rua, serviço de conserto, barbeiro, oficina de reforma de objetos, pequeno artesão itinerante, ou seja, tudo aquilo que chamam de “setor informal” - constitui um verdadeiro trabalho, e até mesmo uma fonte de empregos que deve ser estimulada por meio do crédito. A literatura econômica cria um impasse em relação a este dado fundamental da atividade humana, o trabalho independente, que é o meio principal de ganhar a sua vida. Os responsáveis econômicos consideram o emprego unicamente como assalariado, e eles esperam das empresas que elas contratem. Se elas não o fizerem, o desemprego se instala. Eis a lógica atual do capitalismo. Por que as pessoas deveriam esperar serem empregadas? Por que não ajudá-las a criarem a sua própria atividade? Os pobres dos países em desenvolvimento não esperam que grandes empresas os remunerem. Eles não esperam tudo da política de emprego, nem das alocações-desemprego. Eles precisam alimentar a sua família, eles fazem uma multidão de trabalhos úteis, ganham a vida no pequeno comércio, tocando serviços de consertos, de alfaiate… Vejam a intensa atividade que predomina nas ruas das cidades asiáticas mais pobres, e comparem com o que ocorre na Europa! É preciso sustentar essa energia por meio do crédito popular, lhe fornecer ferramentas econômicas…

Le Monde - O senhor afirma que na Europa e nos Estados Unidos, nós estamos presos na armadilha de uma política de emprego e de crédito elitista e tacanha. Poderia explicar isso melhor?
Muhammad Yunus - Recentemente, um amigo americano me contou que ele havia atravessado as regiões pobres dos Estados Unidos, as cidades que mais foram atingidas pelas demissões e o desemprego. Ele descreveu bairros desertos, ruas mortas, casas desocupadas, escritórios e usinas fechadas, por todo lugar. Ele se perguntava como os habitantes conseguiam sobreviver. Eis o resultado a que conduz a lógica do trabalho assalariado, a política do emprego único. Quando este amigo visitou o Bangladesh, infinitamente mais pobre do que os Estados Unidos, ele descobriu o quanto qualquer canto do país, na cidade, no campo, fervilha de atividades “informais”. Em qualquer parcela de terreno desocupada, há cabanas onde vendem de tudo, legumes, ferramentas, equipamentos eletrônicos… Em praticamente todas as casas, nos quintais, nos jardins, há pessoas que selecionam sua colheita, fabricam, soldam, consertam. No Ocidente rico, vocês oferecem um tipo de emprego apenas, o emprego assalariado, a serviço de um patrão, de uma empresa. Entenda bem o que estou querendo dizer: eu apóio toda forma de contratação e de indústria, toda política de emprego. Mas o fato de promover apenas o regime do assalariado me parece terrivelmente limitado. Considerar o homem apenas como um ser em busca de um pagamento me parece uma concepção demasiadamente estreita do humano. É uma forma de escravidão.

Le Monde - De escravidão?
Muhammad Yunus - Atualmente, nos países desenvolvidos, cada criança trabalha duro na escola para obter um bom trabalho. Ou seja, um bom salário. Uma vez adulto, ele ou ela trabalhará para alguém, se tornará dependente dele. Ora, o ser humano não nasceu para servir um outro ser humano. Um trabalhador independente, que mantém uma pequena venda, por exemplo, trabalha apenas quando ele precisa. Se, em determinados dias, ele não quiser trabalhar, ele pode. Ele faturou seu dia, e resolve tirar proveito um pouco da vida. Ele não precisa avisar ninguém caso ele chegar com um atraso de uma hora. Ele não está preocupado em perder uma parte do seu salário. Quando nós éramos caçadores ou colhedores, nós não éramos escravos, nós dirigíamos as nossas existências. Milhões de anos mais tarde, nós perdemos esta liberdade. Nós levamos vidas rígidas, escoradas nos mesmos ritmos de trabalho todos os dias. Nós corremos para ir trabalhar, nós corremos para voltar para casa. Esta vida robótica não me parece ser um progresso. Com o regime do assalariado, nós acabamos passando da liberdade de empreender e de um modo de vida mais versátil para uma maior rigidez. Eu tenho um salário, um patrão, devo fazer o meu trabalho que isso me agrade ou não, pois eu sou uma máquina de fazer dinheiro. É nisso que identifico o perigo global das estruturas econômicas atuais, da teoria dominante. O homem é considerado exclusivamente como um agente econômico, um empregado, um assalariado, uma máquina. Esta é uma visão unidimensional do humano. O regime do assalariado deveria permanecer uma escolha, uma opção entre outras possibilidades.

Le Monde - O “setor informal” não goza de uma boa reputação na literatura econômica dos países ricos?
Muhammad Yunus - É um termo degradante. Este setor nunca é incentivado; ao contrário, ele se vê impor toda uma série de entraves, como regulamentos, patentes, impostos. Eu sugiro dar-lhe um nome mais adaptado, mais valorizador, justamente por ser neste setor que os homens se mostram mais criativos. Na falta de uma expressão mais apropriada, eu proponho o “setor das pessoas”, isto é, o que elas fazem quando inventam por conta própria o seu emprego, criam a sua atividade e a exercem nas ruas, nos bairros, no campo. Neste setor de atividade, a população inventa o seu emprego, o exerce em todo lugar, onde for possível, na rua, nos bairros, no campo. Em relação a ele, o governo não precisa fazer nada, apenas cuidar para não sufocá-lo. Eu fabrico jóias, torro nozes e produzo bombons, eu preparo refeições para pessoas do bairro, eu reformo roupas usadas, eu canto nos terraços dos cafés… É o auto-emprego, o “self-employement”. Eu não preciso preencher formulários de candidatura. Eu não espero ser contratado. Eu atendo diretamente à demanda. Ao inventar a minha própria atividade, estou cuidando de mim mesmo e da minha família. Dezenas de milhões de pessoas vivem desta forma nos países em vias de desenvolvimento. Já, nos países ricos, a teoria dominante não considera essas atividades como “econômicas”. Os atores sociais, os bancos, se recusam a financiá-las e a ajudá-las. Eles acreditam somente na empresa formal, no regime do salariado. Como se o fato de receber um salário lhes desse uma certidão de desenvolvimento!

Le Monde - Quais outros “pontos mortos” e armadilhas do pensamento econômico seriam reveladores da crise atual?
Muhammad Yunus - Os governos que seguram as alavancas e os bancos consideram a pessoa humana como uma entidade abstrata, um agente econômico desprovido de gênero sexual. Ora, a nossa experiência no Grameen Bank revela que as mulheres se mostram muito mais ativas e solváveis do que os homens, tão logo alguém lhes dá crédito. Em Bangladesh, quando eu tentava, em vão, convencer os bancos a outorgarem empréstimos para os aldeões, eu sempre ouvia a seguinte resposta: “É impossível fazer isso”. Quando eu sugeri a idéia de emprestar dinheiro para mulheres pobres, eles me consideraram como um iluminado. Quando nós tentávamos falar de dinheiro com as mulheres, todas elas respondiam: “Conversem com o meu marido. Eu nunca toco em dinheiro. Não entendo nada disso”. Eu me dei conta de que nenhuma mulher, nem mesmo 1% dentre elas, freqüentava os bancos. Elas eram subestimadas de tal forma que eu me dizia: elas estão com medo, vai demorar bastante tempo até convencê-las do contrário. Quando nós lançamos o Grameen Bank, queríamos conseguir conceder empréstimos para ao menos 50% de mulheres. Nós sabíamos que seria necessário vencer as resistências das próprias mulheres.

Le Monde - O senhor precisou de muito tempo para alcançar esta meta?
Muhammad Yunus - Nós demoramos seis anos até alcançar a paridade entre homens e mulheres. Nós percebemos ao longo deste processo que o dinheiro confiado às mulheres proporcionava muito mais benefícios. Elas criavam trabalho, empregos, riquezas. Elas reembolsavam o seu crédito. No começo, nós só trabalhávamos em Bangladesh. As mulheres bengalis cuidam muito mais das crianças do que os homens. Elas pensam no seu futuro, querem fazer as coisas acontecerem de modo a viverem melhor num futuro próximo. Os homens, por sua vez, querem tirar proveito do instante, eles gastam com maior facilidade. No início, nós pensávamos que esta situação de fato só dizia respeito ao Bangladesh. Mas não, é possível encontrar a mesma vontade feminina em todos os continentes. Eu creio que em função da sua longa história a serviço das crianças e dos homens, a mulher possui uma qualidade única, que é o sacrifício de si. O homem não possui este mesmo senso do sacrifício. Você raramente ouve dizer que uma mulher foi “beber seu pagamento”. As mulheres pensam a longo prazo, elas economizam, elas são solvíveis. Isso explica por que o quociente do Grameen Bank se inverteu. Atualmente, as mulheres são os nossos principais clientes, numa proporção de 90%… Os bancos tradicionais nunca pensaram em emprestar dinheiro para as mulheres, porque eles nunca compreenderam a força econômica virtuosa e dinâmica que elas representam.

Le Monde - O senhor diz torcer pelo advento de um “capitalismo social”, um novo capitalismo. O que isso vem a ser?
Muhammad Yunus - Com freqüência, as pessoas me perguntam: “Você fundou o Grameen Bank. Não estaria obtendo nenhum lucro com as suas atividades?” Eu lhes respondo: “Eu não sou proprietário do Grameen, eu não possuo parte alguma da sociedade”. Eu sempre pensei que o Grameen Bank deveria ter como proprietários aqueles que tomam dinheiro emprestado, os pobres. São eles os proprietários, e, aliás, eles fazem parte do conselho da diretoria. Evidentemente, eu sou chefe de empresa e, como tal, recebo um salário, mas este não está vinculado ao fato de que eu venha a possuir partes ou não. O fato de trabalhar numa empresa de vocação social não lhe proporciona dividendo algum. Outros interlocutores me dizem, em Bangladesh: “Você deve ser rico, você fundou a maior companhia de telefonia móvel do país”. Eu lhes respondo: “É verdade que se trata da maior companhia de telefonia móvel do país, mas isso não me torna necessariamente mais rico. Eu fundei a companhia sem sequer pensar por um único instante em adquirir partes do seu capital”. Então, eles perguntam: “Por que ter construído todas essas estruturas se você não ganha nada com isso?” Eu ganho aquilo que me proporciona o meu trabalho.

Le Monde - Contudo, o senhor contribuiu para fundar um grande número de sociedades…
Muhammad Yunus - Eu participei da criação de 26 sociedades por intermédio da Grameen Bank, mas eu não sou acionista de nenhuma delas. Eu sei muito bem o que alguns pensam: “É um idealista”. Mas não é nada disso, eu não sou um idealista, sou realista. Todo mundo espera ganhar dinheiro fazendo negócios. Mas o homem pode realizar tantas outras coisas fazendo negócios. Por que alguém não poderia definir para si mesmo objetivos sociais, ecológicos, humanistas? Foi o que nós fizemos. O problema central do capitalismo “unidimensional” é que ele dá espaços apenas para uma única maneira de atuar: faturar lucros imediatos. Por que não integrar a dimensão social na teoria econômica? Por que não construir companhias que tenham como objetivos pagar decentemente seus assalariados e melhorar a situação social em vez de procurarem fazer com que dirigentes e acionistas obtenham apenas lucros?

Le Monde - Quais seriam as regras de funcionamento deste sistema, ao mesmo tempo capitalista e social? O senhor poderia dar exemplos?
Muhammad Yunus - As primeiras empresas deste tipo já estão gravitando em volta do Grameen Bank ou do comércio eqüitativo. Elas se parecem com sociedades capitalistas clássicas, elas empregam trabalhadores, produzem bens e serviços, oferecem aos seus clientes um preço único e coerente, o seu faturamento permite cobrir seus custos de maneira perene, sem que elas nada esperem das doações ou de uma ajuda governamental. Trata-se de negócios que funcionam, mantêm seu equilíbrio e não dependem da caridade. Qual é a sua particularidade? Elas se destinam a criar um benefício social para uma categoria de população. Pode ser, por exemplo, produzir uma alimentação de qualidade destinada às crianças pobres, livrando-se de todos os custos com embalagem luxuosa e propaganda dos alimentos tradicionais. Ou ainda, comercializar apólices de seguro-doença que permitam que os mais depauperados possam ter acesso a tratamentos médicos. Ou então, dedicar-se à reciclagem do lixo e das águas usadas que poluem um bairro onde vive uma população que foi deixada por conta pela sociedade. É só olhar em volta de você, e encontrará em todo lugar elementos capazes de motivar a montagem de um “social-business”. Sem dúvida seja necessário imaginar um desses negócios que possa ajudar as famílias que foram expulsas da sua casa pela crise dos subprimes.

“Le Monde”

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Rússia nega que política está por trás de suspensão do fornecimento de petróleo

Judy Dempsey

A Rússia negou que haja motivações políticas por trás da repentina redução do fornecimento de petróleo para a República Tcheca, que teve início um dia depois de Praga ter irritado o Kremlin ao assinar um acordo para escudo antimísseis com os Estados Unidos.

Apesar de terem mencionado “motivos técnicos” para o corte, os diplomatas russos em Praga não disseram quando o fornecimento pleno seria retomado, disseram autoridades tchecas na segunda-feira.

Em 8 de julho, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, visitou Praga para assinar um tratado permitindo ao Pentágono a instalação de parte de seu escudo antimísseis em território tcheco.

Mal o tratado foi assinado e a Rússia anunciou que retaliaria, apesar do Ministério das Relações Exteriores russo não ter especificado naquele momento qual seria a forma. Um dia depois, a quantidade de petróleo enviada pela Rússia por oleoduto Druzhba (ou amizade, em português) foi reduzida.

Mas as autoridades tchecas foram cuidadosas na segunda-feira em não sugerir que o Kremlin estava usando seu poder como fornecedora de energia para punir o país.

“Os russos disseram que a redução no fornecimento não foi política”, disse Tomas Bartovsky, um porta-voz do Ministério da Indústria e Comércio tcheco, em uma entrevista. “O lado russo disse que havia alguns problemas técnicos. Eles envolviam a reestruturação das empresas que lidam com o óleo cru.”

Quando lhe foi pedido para que fosse mais específico, Bartovsky disse que não podia; a Rússia não forneceu nenhum detalhe adicional.

A Transneft, a empresa russa que envia o petróleo para a República Tcheca, disse que as reduções podiam ser atribuídas a fatores econômicos. “Não tem nada a ver com política”, disse Mikhail Barkov, vice-presidente da empresa, para a agência de notícias “Interfax”. “É uma questão puramente comercial.”

Barkov também disse que as duas empresas russas cortaram o fornecimento porque podiam refinar o petróleo cru na Rússia em termos mais lucrativos.

As reduções, que representam cerca de 15% das importações de petróleo da República Tcheca pelo oleoduto da amizade, levantam dúvidas sobre os motivos russos e sua credibilidade como exportador confiável, em um momento em que a União Européia (UE) está buscando adotar uma política comum para segurança da energia.

Quando a Rússia reduz ou suspende o envio de gás natural ou petróleo para a Europa, ela supostamente deveria informar a Comissão Européia por meio de um sistema de alerta com o qual concordou 18 meses atrás.

O acordo foi acertado depois que a Rússia suspendeu o fornecimento para Belarus, um importante país de trânsito para o petróleo e gás natural russos destinado aos mercados europeus. O resultado foi que alguns países informaram falta dos produtos.

Ferran Tarradellas Espuny, um porta-voz de Andris Piebalgs, o comissário de energia da UE, disse que “não houve necessidade de ativar o sistema de alerta” desta vez.

“A comissão está em contato com o lado tcheco. Os tchecos disseram que contam com reservas suficientes para durar cerca de 95 dias e que possuem fontes alternativas de energia.”

A Rússia fornece mais de um quarto do gás natural e petróleo usados na Europa. Muitos dos ex-países comunistas da Europa Central e Oriental são quase completamente dependentes da energia russa, porque suas infra-estruturas foram ligadas diretamente aos oleodutos e gasodutos soviéticos.

Durante os anos 90, a República Tcheca adotou uma estratégia de diversificação de energia, comprando a partir do oleoduto TAL-IKL, que fornece petróleo dos países no Mediterrâneo. A República Tcheca também tem um acordo com a Alemanha para aumentar o fornecimento de petróleo a partir do oleoduto Ingolstadt.

Como resultado, a República Tcheca conta com amplas reservas. “Neste sentido, nós somos muito, muito afortunados”, disse Bartovsky, o porta-voz do Ministério da Indústria e Comércio tcheco. Mas Bartovsky disse não saber por quanto tempo durará a redução do fornecimento de petróleo pelos russos.

Há três anos, o petróleo russo destinado para uma refinaria de petróleo lituana também foi suspenso por motivos técnicos. A Transneft, o monopólio russo responsável pelo envio do gás natural e petróleo por gasodutos e oleodutos, disse na época que tinha ocorrido um rompimento do oleoduto e que precisaria de alguns poucos meses para repará-lo. O fornecimento de petróleo para a refinaria ainda não foi retomado.

Os governos polonês e lituano disseram na época que a Rússia adotou essa política para minar os planos de uma empresa polonesa, a PKK Orlen, que impediu a Rússia de adquirir a refinaria.

“International Herald Tribune”

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Quem topa produzir por menos?

Na lógica da OMC, só os preços devem regular o comércio internacional. No Caribe, isto inviabilizou a pequena produção camponesa, que assegurava ótimas condições de trabalho

Samy Archimede

Um hangar aberto em todos os lados, uma gamela de lavagem corroída pela ferrugem, uma caminhonete abandonada em meio a centenas de pés de banana ressecados, nas terras cobertas por ervas daninhas. Eis o que resta desta plantação que sustentava, há alguns meses, uma família de agricultores da região de Saint-Claude, na Guadalupe. Entre as folhas queimadas pelo sol, algumas frutas verdes parecem ainda aguardar uma improvável colheita. Como muitos antes dele, o proprietário acabará, talvez, revendendo seus poucos hectares à comuna ou a um corretor imobiliário.

O esquema é simples: de um lado, agricultores super endividados e desmotivados; de outro, investidores à espera de qualquer pedaço de terra para construir. “Os plantadores que compraram o metro quadrado de terreno há alguns anos por menos de um euro podem hoje revendê-la por cerca de 45 euros, uma vez ela passe a ter uma outra classificação. Considerando as dificuldades do setor bananeiro, alguns nem vão pesquisar preços menores”, suspira Jean-Marie Nomertin, secretário geral da Confederação Geral dos Trabalhadores de Guadalupe(CGTG). É grande a tentação de repassar as terras para aqueles que aqui chamamos de “plantadores de cimento”. De Trois-Rivières a Gourbeyre, não dá para contar o tanto de loteamentos que vieram substituir as grandes áreas verdes agrícolas.

Em todos os locais onde o comento substituiu a banana, um grande número de empregos foi perdido: desde 1993, um total de 3300, segundo Karubana, principal grupo de produtores de Guadalupe [1]. A este número devem-se acrescentar mais de 1500 empregos indiretos: caminhoneiros, vendedores de material agrícola, motoristas de ônibus, postos de serviço, pequenas lojas, ferreiros, encanadores e outros pequenos artesãos…

“Será a morte do emprego produtivo”
É todo o tecido econômico e social das Antilhas que está prestes a mudar, sob o efeito desta crise. Primeira cultura de exportação na Guadalupe e na Martinica, a banana é também uma das raras fontes de divisas de uma região fortemente dependente da metrópole. “Se as coisas continuarem desta maneira, não se poderá cultivar mais nada daqui a dez ou quinze anos. Será a morte do emprego produtivo em Guadalupe”, adverte Nomertin.

A cadeia bananeira de Guadalupe nunca esteve tão mal. Em apenas 15 anos, suas exportações despencaram, passando de cerca de 115 mil para menos de 50 mil toneladas por ano. “Em fins, de 2004 o clima social estava muito tenso. Durante a greve dos portuários, que durou várias semanas, todos os meus frutos permaneceram no cais. Isto representa deixar de ganhar um dinheiro considerável, o que me obrigou a vender quatro hectares de terra”, diz Damien Frair. Gerente de uma pequena propriedade situada na parte superior de Sainte-Marie, a uns trinta quilômetros de Pointe-à-Pitre, e membro do Comitê de Defesa dos Pequenos Produtores de Banana, ele será o próximo plantador a desaparecer? Por quanto tempo poderá conservar seus cinco operários, cujos salários representam cerca de 60% de seus custos de produção?

Embora atormentado por estes problemas cada vez mais presentes, Frair não quer ceder às explicações simplistas. Ele sabe que as tensões sociais que sacodem sua profissão não passam de sintomas de um mal exógeno mais profundo. “Antes de 1993, dois terços do mercado francês da banana eram reservados à produção antilhesa: um terço restante correspondia aos países ACP (África, Caraíbas, Pacífico). Nossos frutos eram vendidos entre 75 e 90 centavos de euro por quilo. Hoje eles não nos rendem mais de 30 centavos, em média”, explica. E prossegue: “Desde que entrei no ramo da banana, há oito anos, os resultados de minhas vendas foram freqüentemente negativos. Nunca pude pagar todos os encargos. As ajudas da Europa nunca me permitiram por em dia meus problemas de caixa.”

As desgraças dos plantadores guadalupenhos começaram em 1989, com a passagem do ciclone Hugo, um dos mais devastadores do século passado. Mas é a partir de 1993 que o horizonte piora talvez para sempre. A criação de uma Organização Comum do Mercado Europeu da Banana (OCMB), no âmbito da União Européia, encerrou um sistema de preferência nacional que tinha permitido aos guadalupenhos despejar, durante trinta anos, a totalidade de sua produção em solo francês.

Impossível concorrência com gigantes
De um dia para o outro, eles se viram concorrendo diretamente com as poderosas multinacionais norte-americanas (Chiquita, Dole e Del Monte), que detêm com exclusividade dois terços do mercado mundial da banana. Proprietários de extensas plantações de banana na América Latina e na África, estes gigantes do agronegócio possuem locais próprios de amadurecimento. Já dominam as centrais de compra européias, o que lhes permite controlar o conjunto da cadeia. Ao contratar, desde 1993, a compra de dois milhões de toneladas das famosas “bananas dólar” estas transnacionais comercializam, a União Européia assinou a sentença de morte de centenas de plantações antilhesas.

Com custos de mão de obra de dez a vinte vezes inferiores aos das Antilhas, o Equador, primeiro exportador mundial, não teve dificuldade em conseguir um lugar nos balcões dos supermercados do Velho Continente. Em posição de força em todas as negociações internacionais, os produtores sul-americanos conseguiram também, em muitas oportunidades, um aumento de suas cotas de exportação, o que contribuiu para rebaixar os preços.

Para permitir aos fornecedores europeus (Canárias e Antilhas, principalmente) enfrentar o diferencial de custo e benefícios favorável aos seus concorrentes, a OCMB tinha previsto uma ajuda compensatória à perda de receitas. Eficaz no início, ela revelou-se insuficiente à medida que o preço de venda da banana das Antilhas se transformava em pó. Muitos plantadores entraram numa espiral de endividamento que os obrigou a encerrar as atividades.

Em Guadalupe, onde um trabalhador em três recebe a renda mínimo de inserção (RMI [2]), o número de plantadores reduziu-se em três quartos, ao longo dos doze últimos anos. Apenas 220 continuam a exportar sua produção. E, como ocorre muitas vezes, são os pequenos produtores que foram as primeiras vítimas. Entre 1993 e 2005, o porte médio das explorações guadalupenhas passou de 3,5 a 13 hectares. Mas ninguém foi poupado pela crise. Entre Pointe-à-Pitre e Baisse Terre, as «grandes» plantações (de 30 a 200 hectares), mais modernas e também mais consumidoras de mão-de-obra não conseguem mais se desfazer de seus encargos sociais. Salários e custos de transportes elevados, o tamanho das explorações reduzidos, terrenos acidentados, condições climáticas difíceis…

Diante do restante da América Latina e da África, as desvantagens dos plantadores caribenhos parecem ainda mais intransponíveis desde janeiro de 2006, data em que as quotas de importação de bananas na Europa foram suprimidas [3]. Aceitando a mudança para um sistema unicamente tarifário que faz, mais uma vez, o jogo dos mais poderosos [4], a União Européia sacrificou seus próprios agricultores no altar da desregulamentação e do livre comércio. Agora que ela se submeteu às regras da Organização Mundial do Comércio(OMC), o que propõe para auxiliar os plantadores em dificuldade? Por ora, nada de novo.

Os plantadores martiniquenses, que tinham resistido até agora ao choque de 1993 e que exportam quatro vezes mais bananas que seus vizinhos guadalupenhos, sofrem, por sua vez, à lei do mercado. “Em 2004, entre as 30 grandes propriedades que foram requalificadas, 28 precisaram ser liquidadas. Mais de mil operários viram-se desempregados, provocando, por outro lado, a perda de 1 500 empregos indiretos” constata, impotente, Juvénal Rémir, presidente do Comitê de Defesa das Profissões Agrícolas (Codema), um dos principais sindicatos de produtores martiniqueses. E, segundo ele, é só o começo: sessenta e cinco outros produtores fortemente endividados estariam ameaçados de encerrar as atividades. “A situação é muito preocupante, pois nenhuma medida de requalificação foi prevista para o pessoal desempregado. O que vai ocorrer dos desempregados que nunca trabalharam em outro ramo a não ser no da banana?”

Saída: «adequar-se» à produção predatória?
Do lado dos plantadores, as alternativas parecem totalmente inexistentes. «A cana de açúcar está em plena crise e os outros ramos agrícolas não estão suficientemente estruturados. Sofremos a concorrência do inhame da França e da Costa Rica, que chega aqui mais barato que o nosso! De qualquer forma, não se pode mais plantar, pois os solos foram contaminados pelos anos de monocultura intensiva”. Remir é um homem revoltado. Para ele, o Estado é tão responsável pela situação quanto as instâncias européias.

Ele culpa o ministério da Agricultura por fechar os olhos às práticas fraudulentas que agravam a situação: “Alguns plantadores, maus gestores, ignoram suas dívidas e despedem seus operários muito facilmente, liquidando sua produção. Seis meses mais tarde, autoriza-se a que voltem a se dedicar às bananas sem obrigação de recontratar seu pessoal”.O Estado pôs em prática, há dois anos, um «contrato de progresso» visando sustentar os exploradores em dificuldade. Mas o presidente do Codema só vê nisso medidas temporárias visando acalmar os ardores de camponeses em ebulição. «O que seria necessário é organizar os estados gerais da agricultura para que fiquemos finalmente seguros sobre nosso futuro”.

Nas Antilhas, há alguns anos, todos falam de diversificação, mas ninguém parece acreditar nisso realmente. Abacaxis, abacates, limão verde, berinjela…Todas as tentativas de exploração fracassaram. Apesar do escândalo da poluição dos solos e das águas pelos pesticidas, revelado em um recente relatório parlamentar [5], a monocultura da banana ainda é o mais seguro meio de sobrevivência para estes agricultores, na maioria com mais de 50 anos.

É preciso também poder se adaptar às novas regras do jogo impostas pelo mercado, e seu caderno de encargos cada vez mais draconianos. Como lembra Fredéric de Reuynal, presidente da Banamart, o principal conglomerado de produtores da Martinica, “para vencer financeiramente e responder às exigências do mercado em termos de qualidade de produção, é preciso abandonar a gestão camponesa de empresa agrícola e adotar uma gestão industrial. O ideal é produzir cerca de 3 mil toneladas de bananas por ano [o que corresponde a uma exploração de, pelo menos, 60 hectares].”.

Quantos operários será necessário despedir nas Antilhas para atingir este ideal? Patrick Jean-Baptiste, agricultor de 42 anos e membro da Federação Departamental dos Dindicatos de Exploradores Agrícolas (FDSEA) da Martinica, não pode dizer, mas seu discurso é revelador do que se aguarda para os sobreviventes da banana nos próximos anos: “Reestruturar as empresas de forma perene, para diminuir as cargas sem fazer baixar as receitas, eis nosso desafio”. Por outro lado, Jean-Baptiste fixou um objetivo pessoal ambicioso: “permanecer na banana até a aposentadoria”. Talvez ele consiga, mas para seus operários, ao contrário, é muito menos certo.

[1] Em dezembro de 2005, Karubana fundiu-se com Banagua para criar um grupo único: Os produtores de Guadalupe.

[2] Benefício previdenciário pago aos que não têm emprego.

[3] Em virtude de um acordo assinado há cinco anos pela Comissão Européia visando se adaptar as regra da OMC e colocar um fim na guerra comercial com os Estados Unidos.

[4] No novo sistema de importação unicamente tarifário, o dólar-banana enfrenta tarifas alfandegárias de apenas 176 euros a tonelada. Isso permitiu aos demais produtores que atuam na América Latina conseguir uma confortável posição no mercado.

[5] Relatório sobre o uso do clordecone e outros pesticidas na agricultura martiniquesa e guadalupenhana entregue dia 30 de junho de 2005 na Assembléia Nacional.

“Le Monde diplomatique”

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Jeitinho mineiro de fazer queijo é patrimônio cultural imaterial

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registra no Inventário Nacional de Referências Culturais o processo artenasal da produção de queijo em Minas Gerais

Marina Lemle

O modo de fazer queijo artesanal de Minas Gerais agora é patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Aprovado em 15 de maio de 2008, o registro no Inventário Nacional de Referências Culturais destaca a forma tradicional de se fazer queijo em quatro regiões do estado: Serro, no nordeste; Serra da Canastra, na região central; Salitre/Alto Parnaíba, ou Serra do Oeste; e Araxá, no Triângulo Mineiro.

De acordo com o historiador José Newton Coelho Meneses, da UFMG, que coordenou o estudo que embasa a inclusão no inventário, o registro da tradição técnica é uma vitória para o estado. “Fazer queijo é uma atividade econômica tipicamente familiar em Minas. É a síntese do que é a fazenda. A cultura não é imaterial, ela é materializada nas manifestações”, diz.

Segundo Meneses, os queijos dessas quatro regiões têm características distintas na textura, sabor e carga microbiana, devido ao tipo de pastagem ingerido pelas vacas, o clima e a altitude locais. Já o modo de fazer é muito parecido, apesar de haver diferenças sobre quem faz: na Canastra e no Alto Parnaíba há muitas mulheres na produção; no Serro, elas estão vetadas – diz-se que têm mão quente, ou impregnada de cosméticos, ou que o ciclo menstrual interfere no produto.

Ele acredita que, além do reconhecimento identitário do queijo mineiro, o registro reforçará sua segurança alimentar e seu valor econômico.

Queijo DOC

A pesquisa sobre o modo de fazer queijo mineiro começou em 2004, quando associações de produtores locais pediram ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) o registro da tradição como patrimônio imaterial do estado. O movimento nasceu como resistência à propaganda de que o queijo artesanal faria mal à saúde e que sua produção deveria ser proibida. As associações se uniram numa luta contra a legislação restritiva e a favor da qualidade do produto.

Meneses, que também é veterinário, explica que o leite cru, não pasteurizado, se matura e se transforma num produto melhor. “Os micróbios podem ser benéficos à saúde. Os micróbios próprios do leite dão qualidade, não há risco alimentar, muito pelo contrário”, garante, acrescentando que os únicos riscos seriam a brucelose e a tuberculose, doenças fáceis de controlar no rebanho.

O pesquisador afirma que os produtores hoje têm grande preocupação com a qualidade e querem instituir o selo DOC - Denominação de Origem Controlada - cujo controle seria feito por associações produtoras, como é feito na França, onde o Estado fiscaliza o rebanho e a água. Através de uma associação, o produtor aganha o selo DOC.

Meneses observa ainda que o movimento em favor da produção do queijo artesanal com qualidade se coaduna com a tendência da valorização da ruralidade e o slowfood, movimento internacional, na contramão da tendência do fastfood, defende que as pessoas comam bem e devagar.

Origem portuguesa

Trinta mil famílias trabalham com queijo artesanal em Minas Gerais, segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). A tradição começou de uma colonização portuguesa do século XVIII, que trouxe heranças como o queijo da Serra da Estrela, no centro de Portugal, feito lá com leite de cabra e de ovelha e aqui com a matéria prima local.

Autor de O continente rústico-abastecimento alimentar nas Minas Gerais setencentistas, Meneses conta que em Portugal usava-se a flor do cardo para coagular o leite, enquanto aqui usavam-se fragmentos de estômago de animais, um saber mouro praticado até o início do século XX. Hoje usa-se um produto lácteo coagulante produzido em laboratório, a enzima pepsina.

O pingo e outros segredos

Meneses tem uma relação antiga com seu objeto de estudo: seu pai era produtor na região do Serro. Como legítimo herdeiro cultural, à vontade ele abre o jogo:

“O segredo do queijo artesanal é o pingo, o fermento feito do soro do queijo do dia anterior. O pingo é a unidade identitária do produto.”

Ele conta que há uma tradição de troca de pingos entre fazendeiros. “A troca de informação é uma coisa impressionante. Sempre há discussões sobre o pingo. É motivo de orgulho”, diz. E ensina: o queijo deve ser mantido fora da geladeira, lavado só com água duas vezes ao dia, assim como a tábua, para matar a contaminação externa e hidratá-lo. Deve ser guardado preferencialmente numa queijeira de madeira arejada, ou em queijeira de tampa furada ou ainda sob cobertura de bolo.

“Revista de História”

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Vídeo chama atenção para crescente violência contra minorias na Rússia

Michael Schwirtz

Shamil U. Odamanov costumava telefonar para seus pais quase que diariamente de Moscou, onde trabalhava como operário após se mudar de sua aldeia, na região do norte do Cáucaso da Rússia, em busca de um melhor emprego. Então, há pouco mais de um ano, os telefonemas pararam.

Agora, para horror da família, eles acham que sabem o motivo. Eles identificaram Odamanov, 24 anos, como o homem decapitado em um vídeo de um duplo assassinato, aparentemente cometido por membros de um grupo neonazista russo no ano passado.

“Não é que seja apenas parecido, é ele, ponto”, disse Umakhan Odamanov, o pai de Shamil, por telefone de sua casa no Daguestão, uma república russa no norte do Cáucaso. Os Odamanovs, que vivem no Daguestão há gerações, são kumyks, um minúsculo grupo étnico nativo da região. Os investigadores disseram que Shamil Odamanov é provavelmente uma das duas vítimas no vídeo, homens de pele morena que aparecem ajoelhados sob uma bandeira nazista antes de serem mortos.

Apesar de inicialmente considerado falso, o vídeo, que apareceu originalmente em sites ultranacionalistas russos em agosto, se espalhou rapidamente pela Internet e foi exibido em versões editadas em televisão nacional. Ele colocou o problema da violência contra minorias étnicas em primeiro plano de discussão nacional, mesmo que apenas brevemente.

A polícia está investigando várias pessoas, algumas de grupos nacionalistas, em ligação com as mortes, mas nenhum suspeito foi oficialmente identificado, disse Vladimir I. Markin, o porta-voz do Comitê Investigativo do Gabinete do Procurador-Geral, em uma entrevista.

Em fevereiro, um tribunal declarou Viktor Milkov, um estudante de Adygei, no sul da Rússia, culpado de ajudar a divulgar o vídeo e o sentenciou a um ano de prisão. Ele alega que uma pessoa desconhecida enviou o vídeo por e-mail para ele.

A polícia não encontrou os corpos das vítimas, disse Markin, nem identificou onde os assassinatos ocorreram.

Ataques contra minorias étnicas na Rússia têm crescido constantemente ao longo dos últimos anos, à medida que mais migrantes do exterior ou de enclaves étnicos mais pobres da Rússia se mudam para grandes centros urbanos à procura de trabalho.

Odamanov estava entre eles. Ele deixou sua aldeia natal de Sultanyangiyurt, no Daguestão, há cerca de dois anos e se mudou para Moscou para procurar um emprego e “possivelmente uma esposa”, disse seu pai.

Em seus telefonemas regulares para casa, ele freqüentemente se queixava de problemas com skinheads, que às vezes rondam por áreas residenciais de baixa renda, nos arredores de Moscou, molestando pessoas de pele morena.

No final de março de 2007, Shamil Odamanov telefonou “para me desejar um feliz aniversário”, disse seu pai. “Foi a última vez que tive notícias dele”.

Ele só foi ver seu filho novamente no vídeo. Ele estava amarrado, ajoelhado ao lado de outro homem e vestindo uma camisa e casaco Adidas preto que Artur, seu irmão, lhe deu, disse Umakhan.

Tendo música heavy metal como trilha sonora, o vídeo começa com o título “Operação do Partido Nacional-Socialista da Rússia para Prender e Executar Dois Colonos do Daguestão e Tadjiquistão”. Há algumas cenas iniciais do interior, que investigadores agora acreditam ser em algum lugar na região de Kaluzhkaya, a cerca de 190 quilômetros a sudoeste de Moscou.

“Nós fomos presos pelos nacional-socialistas”, os dois homens atados murmuram pelas suas mordaças.

Na cena seguinte, um dos captores, em uniforme de camuflagem e usando luvas pretas pesadas, grita “Glória à Rússia!” e então mergulha o que parece ser uma grande faca no pescoço do homem que se acredita ser Odamanov. Ele é decapitado em segundos.

Então o segundo homem, não identificado pela polícia, leva um tiro na cabeça e cai de frente em uma cova rasa. Na cena final, dois homens vestindo camuflagem e máscaras pretas, fazem a saudação nazista.

Cerca de 600 ataques racistas violentos, incluindo 80 assassinatos, foram informados na Rússia em 2007, segundo o centro Sova, uma organização que monitora crimes de ódio na Rússia. O número de ataques neste ano chegou a 232 até 1º de junho, 57 deles assassinatos.

Grupos de direitos humanos freqüentemente acusam as autoridades de ignorarem o problema da violência racial na Rússia, apesar de, pelo menos em Moscou, uma recente aumento nos assassinatos de pessoas de pele morena ter levado a uma resposta perceptível entre as agências de manutenção da lei.

“Os promotores de Moscou definitivamente começaram a tratar mais ativamente deste problema, desde o ano passado”, disse Aleksandr Verkhovsky, diretor do centro Sova.

O Ministério do Interior anunciou na semana passada que a polícia prendeu mais de 50 pessoas neste ano que estariam envolvidas em ataques xenofóbicos em Moscou e São Petersburgo, as cidades com os maiores níveis de violência racista.

Ainda assim, o número de ataques em todo o país continua a crescer constantemente em cerca de 15% a 20% a cada ano, como tem ocorrido nos últimos cinco anos, disse Verkhovsky. Além disso, ele disse, o percentual de homicídios está crescendo à medida que os adolescentes envolvidos nos grupos nacionalistas violentos se tornam adultos.

“Eles simplesmente levam estes assuntos muito a sério”, ele disse.

“The New York Times”

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Aristóteles

Enquanto Platão busca a verdade em um mundo das idéias, Aristóteles a procura no mesmo plano do contato prático e perceptivo com a realidade

Franklin Leopoldo e Silva

Tal como seu mestre Platão, Aristóteles também pretende alcançar a inteligibilidade do mundo, isto é, estabelecer as condições de um conhecimento racional que vá além das aparências ou do contato imediato com as coisas. Mas, diferentemente de Platão, Aristóteles não busca atingir esse objetivo por meio da separação entre aparências sensíveis e idéias inteligíveis, existências contingentes e essências absolutas; opta por um outro caminho que é o de tentar encontrar o que há de essencial e de inteligível no próprio âmbito da realidade que nos é dada. Podemos dizer, simplificando bastante, que Platão busca a verdade em um mundo transcendente (o mundo das idéias, distinto do mundo sensível) e Aristóteles a procura em uma ordem imanente ao mundo percebido, isto é, no mesmo plano em que desenvolvemos nosso contato prático e perceptivo com a realidade.

Essa diferença, decisivamente importante para entender os dois autores e as vertentes filosóficas a que dão origem, não nos deve fazer esquecer, no entanto, que ambos consideram que há uma nítida distinção entre o conhecimento sensível e o intelectual, e que o segundo é hierarquicamente superior ao primeiro. O que Aristóteles rejeita em Platão é a interpretação dessa diferença como separação e a conseqüente duplicação da realidade em dois mundos, o que faz do processo de conhecimento uma ascensão metódica do mundo sensível ao mundo inteligível e, no limite, o abandono dos conteúdos sensíveis em prol da intuição das formas inteligíveis.

Para Aristóteles, o conhecimento consiste em descobrir no sensível as condições de sua própria inteligibilidade. Pressupõe-se, então, que é possível passar de um primeiro contato com a multiplicidade contingente das coisas percebidas ao conhecimento intelectual da ordem e da estrutura, ou seja, é possível transformar a experiência imediata em compreensão teórica mediada por categorias e princípios que nos permitem saber não apenas que as coisas existem, mas também como e por que elas são tais como se apresentam aos nossos sentidos e ao nosso intelecto.

Dentre as condições ou requisitos de inteligibilidade destaca-se a causalidade: quando entendemos que a gênese e a estrutura de tudo que existe depende de causas, atingimos um patamar de ordem e de articulação em que todos os elementos das coisas tornam-se explicáveis. Entendemos que algo existe porque é feito de uma determinada matéria; que obedece a uma certa forma; que o fato de algo vir a existir depende de uma ação e de um agente e que se destina a alguma finalidade. Assim podemos articular a imensa variedade do real com a unidade intelectual de uma noção que nos permite compreender a pluralidade e a composição pela unidade e pela simplicidade. Da mesma maneira compreendemos que a variedade das qualidades que apreendemos nas coisas articula-se em torno da substância ou essência, o atributo principal que confere à multiplicidade qualitativa, em muitos aspectos acidental e passageira, a unidade de uma coisa, uma realidade dotada de permanência.

A visão dessa ordem é também o impulso para que procuremos seu princípio e sua razão de ser, o elemento primeiro que dá origem ao universo dos fenômenos e que deve ser entendido como Causa na acepção mais elevada, porque sua posição o coloca como absoluto, isto é, uma existência que deve ser pensada como independente de qualquer outra condição. Passando assim da Filosofia Natural à Filosofia Primeira realizamos o conhecimento no mais alto grau que o ser humano possa alcançar; realizamos o propósito implicado na Filosofia como amor ao saber ou como o desejo de saber que anima naturalmente, segundo Aristóteles, todo ser racional.

E por que nos deixamos levar por esse amor e esse desejo? Certamente não nos move qualquer motivação utilitária; a filosofia nada acrescenta à nossa prática natural, à nossa vida estritamente cotidiana. Aristóteles diz mesmo que a filosofia começa quando já estão estabelecidos os meios de satisfazer as necessidades imediatas. A questão é que, quando já temos tudo de que aparentemente necessitamos, um outro desejo nos assola, um outro objeto de amor; e a ele nos dirigimos não movidos por necessidades práticas, mas simplesmente pela admiração, um estado de ânimo que abre a nossa mente para investigar não aquilo de que precisamos, mas aquilo que admiramos e diante do que nos colocamos como que perplexos e tomados por um sentimento de ignorância infinitamente maior do que tudo que já sabemos. Trata-se de um espanto proveniente de que sentimos que tudo que sabemos é nada frente ao que há para saber.

A ignorância filosófica é, portanto, o fundamento da liberdade de saber; pois se trata de um conhecimento que procuramos movidos pela admiração, que é algo como uma espontaneidade gratuita quando comparado à necessidade, à urgência de saber aquilo de que precisamos para viver. Quando submetidos à necessidade, somos menos do que homens, somos escravos; quando movidos pela admiração, quase superamos a condição humana, pois nos colocamos na via de um saber divino: mesmo que não o alcancemos, diz Aristóteles, nossa dignidade está em buscá-lo.

Franklin Leopoldo e Silva é professor de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Descartes - A metafísica da modernidade (Editora Moderna, 1994), Bérgson - Intuição e discurso filosófico (Loyola, 1994) e Ética e Literatura em Sartre (Unesp, 2004).

“CULT”

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A África nos genes do povo brasileiro

Análise de DNA revela regiões que mais alimentaram o tráfico de escravos para o país

Ricardo Zorzetto*

Durante pouco mais de três séculos de tráfico negreiro o trecho da África Ocidental que vai do Senegal à Nigéria possivelmente forneceu muito mais escravos ao Brasil do que se imaginava. A proporção de homens e mulheres capturados nessa região e enviados à força para cá pode ter superado – e muito – os 10% do total estimado anos atrás pelos historiadores norte-americanos Herbert Klein e David Eltis, estudiosos do tráfico de escravos no Atlântico. Os argumentos que agora servem de suporte à revisão dos cálculos, em especial para o Sudeste do Brasil, não são apenas históricos, mas genéticos. Analisando a constituição genética de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os geneticistas Sérgio Danilo Pena e Maria Cátira Bortolini estão ajudando a resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida sobre a origem dos quase 5 milhões de escravos africanos que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Salvador e Recife e contribuíram para a formação do povo brasileiro.

Em dois estudos recém-concluídos a equipe de Pena, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a de Maria Cátira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Desse modo, conseguiram estimar a participação de diferentes regiões africanas no envio de escravos para o Brasil, o último país da América Latina a eliminar a escravidão com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

Os resultados confirmaram que foram três as regiões da África – a Oeste, a Centro-Oeste e a Sudeste – que mais exportaram mão-de-obra africana para o país até 1850, quando o ministro da Justiça do Império Eusébio de Queirós formulou uma lei tornando crime o tráfico de escravos. Até aí, nada muito novo, e a genética apenas corrobora as informações históricas a respeito de uma das situações mais cruéis a que um ser humano pode submeter outro. Já se sabia que o Brasil foi um dos poucos, se não o único, países das Américas a receber africanos de todas as origens.

A novidade é o envolvimento maior no tráfico negreiro da África Ocidental, também conhecida como Costa Oeste, região de onde vieram povos como os iorubás, os jejes e os malês, que exerceram forte influência social e cultural no Nordeste brasileiro, em especial na Bahia.

Durante os três séculos em que os portugueses controlaram o tráfico no Atlântico – o mais antigo, de mais longa duração e maior em termos numéricos –, a proporção de escravos embarcados no Oeste, no Centro-Oeste e no Sudeste da África oscilou bastante. Avaliando registros de viagem africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região Oeste da África e 17% da Sudeste.

O principal fornecedor de escravos seria mesmo o Centro-Oeste, onde ficava a colônia portuguesa de Angola, que teria contribuído com 73% dos africanos enviados para o Brasil amontoados no porão de pequenos navios. “Os dados sobre o tráfico de escravos ainda são incompletos e os historiadores aceitam que a maior parte veio da região de Angola”, comenta Marina Mello Souza, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em história africana.

Cientes de que os registros de viagem nem sempre refletem com precisão o passado, nos últimos tempos os historiadores passaram a recorrer também à genética na tentativa de compreender melhor o que de fato ocorreu. “Nossas estimativas anteriores se basearam em amostras parciais”, disse Klein à Pesquisa FAPESP.

“Estamos revendo essas projeções, com base no trabalho de geneticistas e na revisão dos dados de viagem que a equipe de David Eltis vem investigando na Universidade Emory.” E, nesse ponto, os trabalhos de Pena e Maria Cátira podem colaborar para esse reexame histórico. A análise do material genético compartilhado por brasileiros e africanos revelou que a proporção de escravos oriundos do Oeste da África – entre Senegal e Nigéria – pode ter sido de duas a quatro vezes maior que o contabilizado até o momento, bem mais próximo dos números exportados por Angola.

Origens e destinos – Superior à esperada, a contribuição do Oeste africano provavelmente não se distribuiu igualmente pelo país. Pena e sua aluna de doutorado Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que classificavam a si próprios e aos seus pais e avós como sendo pretos, seguindo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que agrupa os brasileiros em brancos, pretos e pardos – os movimentos de afrodescendentes em geral usam a palavra negro para se referir a pretos e pardos.

Quatro de cada dez pretos paulistas apresentavam material genético típico do Oeste africano. Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo da equipe da UFRGS a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 pretos cariocas testados por Maria Cátira e Tábita Hünemeier, 31% traziam no sangue a assinatura genética do Oeste africano, apresentada por apenas 18% dos 107 pretos gaúchos. Além de indicar origens e destinos, esses dados talvez expliquem a penetração heterogênea no país do candomblé, religião com importantes traços culturais iorubás e jejes.

Revista da Fapesp
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Substância suspeita de ser carcinógena agora está onipresente

Jeff Nesmith
Em Washington

Novos estudos realizados por cientistas e pesquisadores de universidades para os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) indicam que uma substância química apontada como um provável carcinógeno humano está presente no sangue de quase todo americano, incluindo recém-nascidos [carcinógeno é um agente que provoca o aparecimento de tumores malignos no organismo].

A substância química, o ácido perfluoroctanóico, está associada à fabricação e uso do Teflon e outros produtos impermeabilizantes. Ele é normalmente conhecido como PFOA.

Tim Begley, um químico da Food and Drug Administration (FDA, a agência de controle de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos), informou em 2005 que o PFOA e substâncias semelhantes usadas em produtos de papel nos quais alimentos como pizza e pipoca são vendidos tendem a migrar para o alimento quando o papel é aquecido.

Os sacos de pipoca de microondas liberam centenas de vezes mais dessas substâncias que utensílios revestidos com substâncias como Teflon, informou Begley. Em um estudo posterior divulgado neste mês, Begley confirmou seus resultados anteriores e produziu dados que questiona se a FDA está subestimando a quantidade de substâncias químicas que contaminam os alimentos.

Deirdre Flynn, diretora executiva do Popcorn Institute, disse em uma entrevista por telefone que “a indústria da pipoca trabalha arduamente para produzir um produto seguro e de qualidade para os consumidores. A FDA e a indústria sempre trabalharam juntas para assegurar a segurança”, disse ela.

Dan Turner, um porta-voz da DuPont, que usa PFOA na produção do Teflon, disse que a empresa está convencida de que seus produtos não representam ameaça à saúde humana. “A DuPont acredita e mantém que os produtos vendidos ao consumidor com traços de PFOA são seguros para seu uso pretendido”, disse em uma entrevista por telefone. E acrescentou que está familiarizado com a pesquisa da Johns Hopkins. “Até o momento não há efeitos conhecidos à saúde humana causados por PFOA”, disse.

A evidência de presença de PFOA em 100% das amostras de sangue de cordões umbilicais analisadas pelos toxicologistas dos CDC e pela Universidade Johns Hopkins foi informada no mês passado.

As concentrações eram baixas, disseram os pesquisadores, e tanto a Agência de Proteção Ambiental (EPA) quanto a FDA disseram desconhecer qualquer evidência de que a população americana está sendo exposta a níveis perigosos.

Mas o toxicologista da Johns Hopkins que dirigiu o estudo disse que ele também revelou elos estatisticamente significativos entre os níveis de PFOA no sangue do cordão umbilical e o peso dos bebês no nascimento, circunferência da cabeça e outras medições comuns da saúde do recém-nascido.

O relatório está entre uma série de estudos que nos últimos meses aumentaram a preocupação com a presença de PFOA e várias substâncias químicas relacionadas em seres humanos, seu alimento e meio ambiente.

Um painel da EPA de consultores científicos disse ao administrador Stephen Johnson, no ano passado, que a maioria deles está convencida de que o PFOA deve ser considerado como um provável carcinógeno humano e regulado de acordo. Alguns sentiam que deveria ser designado como “possível” carcinógeno.

O painel não ofereceu sugestão sobre os níveis de exposição capazes de causar câncer nos seres humanos, mas notou que em experiências com animais, a substância estava associada a cânceres de fígado e pâncreas.

O PFOA e seus primos químicos são substâncias feitas pelo homem que desde os anos 50 se tornaram ubíquas no meio ambiente, do Oceano Ártico aos solos da rural Geórgia.

As substâncias foram encontradas no sangue de pandas gigantes da China, albatrozes no Atol de Midway, no meio do Oceano Pacífico, em golfinhos em Indian River Lagoon, Flórida, e em ursos polares na Groenlândia.

John Washington, um químico do laboratório da EPA em Athens, Geórgia, informou no mês passado que “traços” de PFOA foram extraídos de amostras de solo coletadas em Athens e perto de Watkinsville, Geórgia.

Em um estudo publicado no site da revista “Environmental Science and Technology” no mês passado, os pesquisadores da Johns Hopkins descreveram as análises de sangue de cordão umbilical extraídas de 299 bebês nascidos em Baltimore, Maryland, em 2004 e 2005.

Quando as amostras de sangue foram analisadas pelos CDC, todas continham PFOA, disse a pediatra Lynn Goldman, principal autora do estudo, e 99% continham uma substância química relacionada, sulfonato perfluoroctano (PFOS).

Goldman não pôde ser contatada para comentários. Mas, segundo um artigo publicado na edição atual de outra revista, a “Environmental Health Perspectives”, Goldman encontrou correlações entre as concentrações das substâncias químicas e indicadores comuns da saúde dos bebês.

A revista informou que Goldman disse em um recente encontro da Sociedade de Toxicologia que os indicadores incluíam a circunferência da cabeça, peso de nascimento e uma medição da massa corporal conhecida como “índice ponderal”.

“Quanto mais baixo o índice ponderal, maior é a concentração de PFOS e PFOA”, Goldman disse à conferência segundo a revista.

Em outro estudo divulgado em março, Antonia Calafat, uma química do Centro Nacional de Saúde Ambiental dos CDC, disse que a análise de 1.562 amostras de sangue encontrou baixo nível de PFOA, PFOS e várias substâncias relacionadas em todas as amostras. As amostras foram coletadas em 1999 e 2000 como parte de uma pesquisa nacional de saúde e nutrição.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Cox Newspapers

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