Arquivo de Agosto de 2008

Investigação sobre um crime de guerra esquecido por 64 anos na França

Elise Vincent

As balanças nos jardins substituíram as ruínas dos pátios de fazendas. O sangue dos massacrados só se lê nas pedras comemorativas. E os sobreviventes chorosos são cada ano menos numerosos em Maillé (departamento de Indre-et-Loire, centro da França). Da chacina cometida por militares alemães em 25 de agosto de 1944 nesse povoado a 40 km ao sul de Tours, não resta muita coisa. Quase nada daquele dia de verão quando, longe dos festejos da libertação de Paris, 124 homens, mulheres e crianças foram mortos metodicamente, um a um, família após família.

Até a história esqueceu esse crime, nesse vale profundo de Touraine.
Historiadores, manuais escolares, são poucos os que lembram que na hierarquia macabra dos crimes de guerra na França Maillé é o segundo episódio mais sangrento da Segunda Guerra Mundial, depois de Oradour-sur-Glane e suas 642 vítimas.

Mas um magistrado alemão acaba de retomar o caso: Ulrich Mass é especializado na perseguição dos crimes nazistas, no âmbito de um inquérito judicial contra X… por “crimes de guerra”. Em 15 de julho esse procurador-geral da justiça em Dortmund, acompanhado de dois investigadores e um tradutor, deverá ir a Maillé para um reconhecimento do local. Um procedimento excepcional na França.

Não há batalha de memórias nesta história. Nenhuma vontade de recuperar as honras perdidas. Mas a vontade judicial de compreender o que, 64 anos depois dos fatos, ainda escapa aos últimos sobreviventes e aos historiadores: quem matou naquele dia? Em Oradour-sur-Glane (Haute-Vienne), em Tulle (Corrèze), em Villeneuve-d’Ascq (Norte), outras “aldeias mártires” da época, apesar de processos imperfeitos, culpados foram identificados. Em Maillé, jamais.

Tudo teria começado na manhã de 25 de agosto. Quando, depois de um primeiro assassinato, uma coluna armada marchando a passo começa de repente a massacrar tudo em sua passagem, depois bloqueia o acesso à aldeia. Casa a casa, peça a peça, os soldados perseguem então os civis, os matam à queima-roupa, atiram granadas nos porões onde eles se refugiaram. Os bebês são abatidos, como os cachorros, os cavalos, as vacas.

Ao meio-dia os militares se retiram. Os que conseguiram escapar acreditam no fim do pesadelo. Mas com a ajuda de dois canhões posicionados ao redor da aldeia, 80 obuses são disparados sobre as cerca de 60 casas que compõem Maillé. Tiros esporádicos durante mais de duas horas. Sentinelas colocadas ao redor da aldeia metralham os que tentam sair de seus abrigos para escapar das bombas.

Dos 600 habitantes da aldeia e seus arredores, 124 perdem a vida. Às vezes famílias inteiras, cujos nomes se misturam hoje nas lápides do cemitério.

Apesar da precisão desse relato, nenhuma investigação, nenhum historiador por enquanto realmente conseguiu determinar que unidade alemã cometeu o massacre.

Nas horas que se seguiram ao drama, a polícia realizou uma investigação. Mas no pânico, como em vários outros lugares da França, o procedimento foi apressado. Nos magros processos da época, nenhum vestígio de cartuchos, de números de canhão que permitissem identificar uma unidade militar. Únicas peças de convicção: dois bilhetes manuscritos - um dos quais foi encontrado sobre um cadáver - com a menção: “É a punição para os terroristas e seus ajudantes”.

Bilhetes que permitem em parte remontar aos elementos detonadores desse massacre. Nos dias anteriores ao drama, vários confrontos ocorreram entre resistentes e a ocupação. No mês de agosto de 1944, resistentes também explodiram três vezes a ferrovia que atravessa a aldeia. Depois de uma investigação policial, um subtenente da Wehrmacht - Gustav Schlüter, cujo papel os historiadores contestam - é considerado responsável. Em 1953 ele é condenado à morte à revelia pelo tribunal militar de Bordeaux, mas nunca foi encontrado e sua pena não foi executada.

Então, até 1994, data do 50º aniversário do desembarque, a população de Maillé guarda sua dor para si mesma. “Como vocês queriam falar do abominável?”, interroga Mauricette Garnier, 9 anos na época dos fatos, uma das raras que conseguiram escapar da aldeia em pleno bombardeio. Durante 50 anos os moradores não tiveram resposta para suas perguntas sobre os autores do crime. Pouca atenção de sucessivos governos. Apenas uma modesta cerimônia comemorativa todos os 25 de agosto, sem discursos.

Diferentemente de Oradour-sur-Glane, onde as ruínas foram conservadas, em Maillé se construiu sobre as cinzas. Mas no fim dos anos 1990 a necessidade de memória aumentou. Um projeto de “Casa da Lembrança” é lançado e um jovem historiador, Sébastien Chevereau, destacado pelo conselho geral do departamento para cuidar disso. É em grande parte graças a ele que a investigação ocorre hoje, pois foi ao ouvi-lo durante um colóquio em Stuttgart, em 2004, que dois comissários alemães descobriram o caso.

Na França, os crimes de guerra prescrevem depois de dez anos - mas um projeto de lei atualmente no Parlamento prevê prolongar a duração para 30 anos depois dos fatos. Na Alemanha eles são imprescritíveis. E a simples “suspeita” permite reabrir um dossiê. Foi graças a esse dispositivo jurídico que em 2005 o procurador Ulrich Mass pôde retomar o processo aberto uma primeira vez em 1990, quando o acesso aos arquivos da ONU foi possível, depois fechado um ano depois.

Nesse caso são os policiais franceses que conduzem a investigação em campo, por conta da justiça alemã. Desde 2005 eles recolheram em Maillé o depoimento de 58 pessoas. Um trabalho de reconstituição delicado, pois para determinar as unidades presentes naquele dia é preciso identificar os uniformes que os soldados usavam. Eram pretos com botas, como os das SS? Ou verdes como os da Wehrmacht, o exército regular alemão? Tinham insígnias particulares? Quais eram suas patentes? A maioria dos sobreviventes, geralmente crianças na época do drama, tem dificuldade para responder a essas perguntas.

Os arquivos à disposição dos historiadores têm as mesmas lacunas. Entre as unidades que poderiam ter passado pela região em agosto de 1944, em plena retirada alemã, “nenhuma menciona Maillé em seu diário de marcha”, explica Jean-Luc Leleu, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da Universidade de Caen, autor de “La Waffen SS, soldats politiques en guerre” (ed. Perrin, 2007). “Enquanto a priori são atos de que os soldados poderiam se gabar junto a seus superiores.”

A hipótese cada vez mais seguida pelos historiadores é que na realidade em Maillé, assim como em outros lugares, Wehrmacht e SS cometeram a chacina juntas. “A imagem de Epinal do malvado das SS e do gentil oficial da Wehrmacht se rompe”, prossegue Leleu. Mas nada que permita por enquanto indicar os soldados. Leleu é muito pessimista sobre as possibilidades de chegar à conclusão do inquérito.

Tarde demais ou não? As opiniões divergem em Maillé sobre o possível fim do processo judicial. Principalmente porque ele provoca a palavra de alguns.

Como a do sobrevivente que apresenta toda a correspondência de sua mãe durante o mês de agosto de 1944, antes de sua morte no massacre. Em Maillé não querem obrigatoriamente encontrar culpados, nem obrigatoriamente fazer um luto que se considera “impossível”. Mas gostariam de “saber”. Mesmo 64 anos depois.

“Le Monde”

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500 anos que a América é a América

Voltaire Schilling

Em uma edição cartográfica cuidadosamente ilustrada, um novo Mapa Mundi aparecido em 25 de abril de 1507 - desde então descrito como o Primeiro Novo Mapa do Mundo - a Europa finalmente tomou conhecimento da existência de um novo continente, outro mundo situado do lado de lá do oceano Atlântico.
O autor da proeza chamava-se Martin Waldseemüller, um geógrafo e humanista alemão que nascera em Freiburg im Breisgau, em 1470, e que estava em Saint-Dié des Vosges a serviço de René II, duque da Lorena, patrono da magnífica impressão. Ali, pela primeira vez, a palavra “América” apareceu grafada sobre o que hoje é a América do Sul.

Colombo e Vespúcio

Coube a dois italianos, ao genovês Cristóvão Colombo e ao florentino Américo Vespúcio, um descobridor e o outro desbravador do Novo Mundo, deixarem em carta aos seus patrões o relato da paisagem fabulosa que haviam encontrado do outro lado do Mar Oceano, como então chamavam o Atlântico. Ambos singraram pelo ultramar por diversas vezes entre 1492 e 1507, mas a percepção deles do que haviam visto foi totalmente diferente.

Colombo, como é sabido, pensou ter encontrado as beiras mais ocidentais das Índias, ilhas que anunciavam que o maravilhoso mercado das especiarias estaria mais adiante, mais para além ainda, enquanto Vespúcio(*), que jamais navegou com Colombo, teve o entendimento de que se tratava de outro continente, um Mundus Novus, algo que jamais constara em algum mapa conhecido.

Não sem razão, a Carta que Vespúcio enviou ao seu patrão em Florença, o banqueiro Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, dando conta do que vira, adquiriu dimensões bem mais sensacionais do que o relato de Colombo aos reis de Espanha. Entre outros motivos porque a capacidade narrativa do florentino deixou longe a do genovês.

No mesmo momento em que a Carta de Vespúcio, já famosa e circulando pela Europa, era traduzida para o francês, Martin Waldseemüller coordenava uma equipe de desenhistas e geógrafos do Gymnasium Vosagense para dar andamento na feitura de um novíssimo Mapa Mundi que contemplasse a sensacional descoberta.

(*) Batizado na Igreja de San Giovani em Florença,no dia 18 de março de 1454, Américo Vespúcio, de ilustre família do patriciado local, foi fortemente influenciado na sua formação tanto pelo geógrafo Paolo Del Pozzo Toscanelli, teórico que advogava a chegada ao oriente pela rota do ocidente, seguida depois por Colombo, como pelo filósofo Marsílio Ficino, diretor da academia Careggi.

Chegou à Sevilha um pouco antes da descoberta de Colombo, em 1490, como agente de casa bancária. Em 1508 colocou-se a serviço da Casa da Contratação de Sevilha como Piloto Maior de Castela , posição que cuidava das viagens transatlânticas, cidade em que veio a falecer em 22 de fevereiro de 1522. Críticos do testemunho de Vespúcio suspeitam que muito do que escreveu foi forjado a posteriori.

Superando Ptolomeu

No começo do século XVI não havia, no mundo acadêmico ocidental, outra autoridade a quem recorrer em matéria de estudos cosmológicos ou cartográficos senão o velho sábio alexandrino Ptolomeu (85 - 165), morto a mil e quatrocentos anos passados. Era a ele que todos os estudiosos, fossem astrônomos ou geógrafos, recorriam, e nele sempre se deparavam com a existência de somente três continentes: Europa, África e Ásia.

Colombo e Vespúcio, todavia, com o testemunho trazido das suas viagens, provocaram uma revolução geográfica, exigindo a feitura de um novo desenho cartográfico do globo. Coube então a René II, duque da Lorena e Patrono das Artes, proporcionar os recursos para que Waldseemüller pudesse levar adiante um extenso planisfério que assinalasse as modificações necessárias.

A antiga “geographiae” de Ptolomeu viu-se do dia para noite totalmente superada pelas notícias trazidas pela Carta do florentino, sendo então enriquecida pela nova edição intitulada Universalis cosmographia secundum Ptolemaei traditionem et Americi Vespúcci aliorumque lustrationes (Cosmografia universal segundo a tradição de Ptolomeu e de Américo Vespúcio e outros navegantes).

O novo mapa

Além de registrar os feitos da Era das Grandes Descobertas (iniciadas em 1492), sua importância logo se manifestou pelos seguintes aspectos: foi a primeira vez que se editou um mapa separado do livro que o acompanhava, no caso o Cosmographiae Introducto, volume ao qual vinha anexado o relato das Quattuor Americi Navegationes (as Quatro Viagens de Américo).

Tratava-se do primeiro mapa extremamente bem detalhado em enormes proporções (2,3m. x 1,3m.) e por isso necessitou de doze blocos de madeira para concretizar sua impressão. Foi o primeiro a cobrir o mundo em 360° de longitude, o pioneiro a mostrar tanto a parte norte como a parte sul do continente batizado como “América”, inspiração trazida pelas cartas de Vespúcio.

O desenho foi ainda o primeiro mapa a detalhar a costa da África por inteiro, como também a posicionar corretamente o oceano Pacífico, ainda alguns anos antes que ele fosse percorrido por Vasco Nuñez Balboa e bem antes de Fernão de Magalhães. Também foi inovador ao mostrar com precisão a posição do Japão (denominado como Zipangi).

A sensação da obra foi tamanha que varias edições foram então distribuídas, dando início à moderna cartografia dos Mapas Mundi. Um destes originais foi vendido em 2003 pelo príncipe alemão Waldburg-Wolfegg, de Baden-Würtemberg, para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em Washington, pelo valor de US$ 10 milhões, ficando desde então exposto ao público no edifício Thomas Jefferson.

“Educaterra”

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Más notícias e corridas bancárias

Mike Whitney [*]

A administração Bush vai enviar mais cheques de “estímulo” no futuro próximo. Simplesmente não há meio de contornar isto. O Fed está em apuros e não pode reduzir taxas de juros por medo de que os preços dos alimentos e da energia disparem para a estratosfera. Ao mesmo tempo, a economia está a encolher mais depressa do que alguém julgaria possível e sem sinais de retomada. Isto deixa os cheques de estímulo como o único meio de “premir a bomba” e manter o consumidor a continuar a gastar. Do contrário a actividade dos negócios ficaerá de rastos e a economia afundará. Não há outra opção.

A barragem diária de más notícias começa realmente a atingir os nervos das pessoas; isto é óbvio em todo o lado que se olhe. A maior parte das tagarelices da TV já eliminou a previsões bem humoradas sobre o mercado de acções e ninguém mais está a louvar o “impressionante poder do mercado livre”. Eles sabem que as coisas estão más, realmente más. Eis porque o noticiário de negócios já não é apresentado como uma despreocupada produção artística de Bollywood com mulheres ondulantes e música exótica. Agora é mais como um filme de horror da classe B onde toda a gente acaba morta no fim.

Um difuso sentimento de melancolia ronda os estúdios de televisão assim como as bolsas de valores e os luxuosos apartamentos de cobertura no West End de Manhattan. É palpável. Este mesmo pressentimento agourento está a subir como uma nuvem nociva em todas as cidades do país. Toda a gente está a cortar o não essencial e a aparar a gordura do orçamento familiar. Os dias dos extravagantes gastos por impulso nos centros comerciais estão ultrapassados. Assim como as compras de grandes bilhetes aéreos e as viagens à Europa. A confiança do consumidor está numa baixa histórica, o rendimento disponível é uma coisa do passado, e os cartões de crédito estão no seu limite.

Nos últimos três meses o crédito bancário encolheu de forma mais rápida do que em qualquer momento desde 1948. Os bancos não estão a conceder empréstimos e as pessoas não estão a tomar emprestado. Isto é uma combinação letal. Quando a criação de crédito enfraquece, a economia claudica, o desemprego ascende e o índice de miséria sobe. Eis porque Bush despachará uma nova fornada de cheques de estímulo quer queira quer não. Está de costas contra a parede.

Na sexta-feira, depois de o mercado ter encerrado, o FDIC fechou mais dois bancos, o First Heritage Bank e o First National Bank. Duas semanas antes, os reguladores haviam tomado o controle do Indymac Bancorp a seguir a uma corrida de depositantes. O FDIC agora opera como uma unidade paramilitar invisível, posicionando suas tropas de choque nos fins de semana para fazer o seu trabalho sujo fora das vistas do público e em momentos que afectem em menor grau o mercado de acções. As razões para isto são óbvias; só há uma coisa que o governo odeia mais do que ver caixões mortuários com a bandeira estrelada nos noticiários da noite: é ver longas filas de pessoas desvairadas a esperarem impacientemente a fim de obter o que resta das suas poupanças no seu banco agora defunto. Filas nos bancos indicam quebra do sistema.

Corridas bancárias constituem um choque para a psique colectiva. Quando depositantes vêm uma corrida a um banco percebem que o seu dinheiro não está seguro. As pessoas não são loucas; elas podem suspeitar de trapaças. Quando a sua confiança se desvanece, isto estende-se a todo o sistema. Subitamente elas começam a questionar tudo o que outrora davam por garantido. Tornam-se cépticas quanto a instituições que, apenas uns poucos dias antes, pareciam rocha sólida.

Corridas bancárias são um impacto directo aos fundamentos do sistema de mercado livre. Não controlados, os tremores podem estender-se através de toda a sociedade e desencadear violentos levantamentos políticos, mesmo a revolução. O público pode não apreender o seu pleno significado, mas toda a gente em Washington está a prestar atenção. Eles consideram isto seriamente, muito seriamente.

Um artigo no San Francisco Business Times disse que a FDIC está preocupada acerca da divulgação de informação nos blogs da Internet. Eles prefeririam manter fora dos noticiários a informação acerca das perturbações no sistema bancário. Sheila Bar, presidente da Federal Deposit Insurance Corp., após a corrida ao Indymac resumiu as coisas assim:

“Os blogs estavam um bocado fora de controle. Estamos muito atentos à cobertura dos media e dos blogs no controle da desinformação. Tudo o que posso dizer é que vamos continuar à frente disto. A desinformação que veio à tona no fim de semana alimentou um bocado de medos entre os depositantes”.

Será isto uma ameaça? A cura para um sistema bancário fracassado é capital adequado e supervisão prudente, não ameaças a críticos imparciais do sistema. Isso é asneira. A comissária Blair aparentemente acredita que os bloggers deveriam ser tratados do mesmo modo que os jornalistas no Iraque, os quais, se se desviarem mesmo ligeiramente do roteiro que diz “o incremento (surge) é um grande triunfo”m do Pentágono, encontrará a ponta enfumarada de um M-16 em algum não identificado posto de controle fora de Baquba.

Domingo passado, o secretário do Tesouro Henry Paulson tentou tranquilizar o público dizendo que o sistema bancário é saudável, enquanto prevenia o povo de mais perturbações pela frente:

“Penso que isto se prolongará por meses e que estamos a trabalhar a nossa saída ao longo deste período – claramente de meses. Mas, mais uma vez, é um sistema bancário seguro, um sistema bancário saudável. Nossos reguladores estão em cima disto. Trata-se de uma situação muito administrável”.

Paulson está errado; o sistema bancário não é saudável nem está bem capitalizado.

Se a taxa de encerramentos de bancos continuar ao ritmo actual, em meados de 2009 haverá restrições a retiradas [de depósitos]. Pode-se apostar nisto.

Assim, enquanto o seu banco ainda tem dinheiro e pode processar os seus cheques, pode ser altura de liquidar dívidas, pagar impostos trimestrais e prestações de hipotecas em avanço, e pensar em ter dinheiro fora dos bancos (ouro, divisas estrangeiras), etc, antes que o seu dinheiro fique inacessível ou mesmo que se evapore! Não pense que todos os seus investimentos fora dos bancos estão imunes a esta tempestade. Exemplo: o dinheiro nos mercados de fundos mútuos, onde os americanos investiram US$3 milhões de milhões, não está coberto pelo seguro FDIC (entretanto, contas no mercado monetário oferecidas pelos bancos estão cobertas). Perdas recentes em alguns destes fundos mútuos do mercado monetário levam algumas companhias a apressar-se a arrolhar as perdas. Exemplo: a Legg Mason Inc. e o SunTrust Banks Inc., recentemente bombearam US$1,4 mil milhões cada um para dentro dos seus fundos de mercado monetário. O Bank of America Corp. injectou US$600 milhões.

Quanto às suas contas à ordem e a prazo, perceba que pode ter cinco contas diferentes no mesmo banco, mas o FDIC segura apenas indivíduos, não cada uma das contas, até US$100 mil. Colocar o seu dinheiro em diferentes contas no mesmo banco não proporciona necessariamente melhor garantia para os seus depósitos.

[*] Economista, fergiewhitney@msn.com

“http://resistir.info/”

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Campos de petróleo em águas profundas são a fronteira final

David J. Lynch

A oito quilômetros de profundidade, passando por barracudas e atuns, se encontra uma grande massa de arenito marmoreada com petróleo. Extrair o fluido como tinta, que repousa sem ser perturbado por milhões de anos, e enviá-lo por 240 quilômetros até a costa, não será fácil.

Mas com o aumento global da demanda elevando o preço de um barril de petróleo para perto de US$ 140, obter novas reservas de petróleo em pontos distantes, profundos, como o campo de codinome Tahiti, é crítico. Este é o motivo para a Chevron ter alugado esta sonda de perfuração móvel, que desloca mais água do que um porta-aviões classe Nimitz da Marinha, para preparar a produção de meia dúzia de poços espalhados pelo solo do oceano. Os propulsores da embarcação a mantém quase perfeitamente parada, diretamente acima de seu alvo, submerso sob 1.200 metros de água.

“As águas profundas são potencialmente a próxima onda de hidrocarbonetos no mercado global de energia. É imensamente importante”, disse Stephen Thurston, o vice-presidente da Chevron para projetos e exploração em águas profundas.

Campos de petróleo em águas profundas, aqueles a mais de 300 metros de profundidade, representam uma das fronteiras finais da exploração de petróleo. A boa notícia é que há abundância de petróleo nestes depósitos, especialmente aqui no Golfo do México e além das costas do Brasil e do oeste da África. A má notícia é que grande parte deste óleo cru valioso se encontra em formações geológicas complexas, escondido sob um quilômetro ou mais de camadas de sal problemáticas -o que significa que estes novos reservatórios serão caros para desenvolver e portanto farão pouco para eliminar a gasolina a US$ 4 o galão (N.E.: cada “galão americano” equivale a aproximadamente 3,78 litros).

No próximo ano, quando Tahiti começar a enviar petróleo para consumidores ansiosos em terra, a Chevron espera ter investido US$ 4,7 bilhões neste projeto. A soma imensa reflete um aumento nos custos dos equipamentos especializados, matérias-primas e combustível para os campos de petróleo, que mais que dobraram desde 2000, segundo a Cambridge Energy Research Associates. Somente o aluguel diário do Cajun Express custa US$ 463 mil.

“O nível de custos manterá os preços (da gasolina) em alta. Não se trata de encontrarmos algo fácil para produzir e o preço da gasolina voltará de repente a US$ 3″, disse Gary Taylor, da publicação do setor “Platts Oilgram News”.

As águas do oeste do Golfo do México representam as únicas áreas oceânicas dos Estados Unidos onde as companhias de petróleo podem explorar. Os preços persistentemente altos do petróleo abalaram, mas não colocaram um fim, à proibição federal de 1981 de exploração além das costas leste e oeste dos Estados Unidos e no leste do Golfo. O presidente Bush se juntou na quarta-feira ao virtual candidato presidencial republicano, o senador John McCain, na reversão de seu apoio à proibição. Os democratas mantêm sua oposição à expansão da exploração costeira, dizendo que ela ameaçaria o meio ambiente e faria pouco para coibir os altos preços da gasolina por anos.

Descobertas cada vez mais proeminente em águas profundas como Tahiti ilustram uma verdade por trás do aumento constante do combustíveis: todo o petróleo fácil foi encontrado ou usado. Agora, as sondas devem atravessar 1.200 metros de água e mais de 6 mil metros de areia, rocha e sal para encontrar o que restou.

“As pessoas em casa não pensam a respeito, mas são mais de 7 quilômetros! Quando comecei neste negócio, se conseguisse ir a 3 quilômetros, era incrível. Seu nome era colocado em uma placa”, disse Buddy Horton, um consultor de segurança da DC International, de Lafayette, Louisiana, que trabalha há 32 anos no setor.

No mês passado, a Chevron, a segunda maior companhia de petróleo dos Estados Unidos, informou ganhos de US$ 5,2 bilhões no primeiro trimestre, um aumento de quase 10% em comparação ao mesmo período em 2007. A empresa espera gastar US$ 2 bilhões neste ano à procura de mais petróleo ao redor do mundo, com a exploração em águas profundas representando a maior fatia. A Chevron planeja iniciar neste ano a extração de petróleo de outro campo em águas profundas no Golfo, chamado Blind Faith (Fé Cega), assim como no projeto Agbami, além da costa da Nigéria.

Em águas profundas
O primeiro campo além da costa da indústria foi perfurado em 1947, ao alcance da vista na costa da Louisiana, em água não muito mais profundas do que uma piscina pública. Desde esse início modesto, o setor tem marchado constantemente para profundidades mais desafiadoras. No ano passado, 130 projetos em águas profundas produziram petróleo, em comparação a 17 há uma década, segundo o Serviço de Gestão de Minerais (MMS), a agência do Departamento do Interior que arrenda as áreas além da costa.

Em 2015, a Chevron espera que os poços em águas profundas representem um quarto da produção de petróleo em alto-mar, em comparação aos atuais 9%.

Grande parte da ação agora está nos chamados campos em águas ultraprofundas, além de 1.500 metros de profundidade. Em 2003, a Chevron perfurou um poço recorde a 3.051 metros de profundidade, e a gigante do petróleo de San Ramon, Califórnia, tem planos de ir ainda mais fundo. Ela alugou dois novos navios-sonda da empresa de perfuração Transocean, capazes de chegar a profundidades totais de poço de 12 mil metros, incluindo 3.660 metros de água. A primeira entrega deverá ocorrer no próximo ano.

Enquanto as empresas correm para desenvolver novos campos em águas profundas, elas encontram obstáculos. O mais crítico: a escassez mundial de sondas de perfuração, o legado dos baixos preços do petróleo que inibiam o investimento há uma década, quando o petróleo caiu abaixo de US$ 12 o barril. A escassez de sondas é tão séria que alguns campos promissores continuam inexplorados, segundo o MMS. Os clientes que tentam alugar uma sonda da Transocean, a dona do Cajun Express, precisam esperar dois anos, disse Steven Newman, o presidente da empresa. Os pedidos acumulados da empresa agora ultrapassam US$ 30 bilhões, em comparação a menos de US$ 1 bilhão há quatro anos. “Eu estou neste negócio há 15 anos, e estes são os melhores tempos que eu já vi. Meu chefe, nosso presidente-executivo, está neste ramo há 30 anos, e estes são os melhores tempos que ele já viu”, disse Newman.

Quase um terço das sondas de águas profundas do mundo estão ativas no Golfo. Muitas estão explorando uma formação antiga chamada Terciário Inferior, que se espalha do Texas e Louisiana até bem distante da costa e pode conter até 2,8 bilhões de barris de hidrocarbonetos.

O campo Tahiti da Chevron, que a empresa anunciou como uma grande descoberta em 2002, parece ser uma das maiores descobertas na região, potencialmente contendo de 400 milhões a 500 milhões de barris de petróleo. Ele deverá começar a produzir 125 mil barris por dia no próximo ano.

Mas neste ambiente exigente, tropeços não são incomuns, até mesmo em componentes prosaicos como as correntes pesadas projetadas para segurar a plataforma de produção da Chevron -uma estrutura flutuante de 60 andares que está tomando forma nas proximidades- ao solo do oceano. Em 2007, a Chevron retardou o programa Tahiti após descobrir o que descreveu como sendo “problemas metalúrgicos” com os braceletes industriais de cerca de 1 tonelada.

Da mesma forma, no ano passado, a Chevron foi forçada a abandonar temporariamente um dos seis poços na fase inicial do projeto, após uma tentativa de concluí-lo ter fracassado. Agora, os mais de 140 trabalhadores da Chevron e várias empresas de apoio alojados no Cajun Express estão fazendo uma segunda tentativa. O trabalho deverá ser concluído no início de julho.

Reclamando das grandes companhias de petróleo
O simples fato de se chegar tão longe neste projeto de vários anos da Chevron é um feito. Os trabalhadores a bordo da sonda de perfuração suportam furacões e fluidos tóxicos enquanto enfrentam as correntes ardilosas que arrastam o cano de perfuração ao chegar ao solo do oceano. Abaixo do fundo do mar, camadas imprevisíveis de sedimentos -como um bolo de casamento com mente própria- ameaçam com problemas imprevistos a cada metro adicional de profundidade. Áreas de baixa pressão conhecidas como “zonas ladrão” podem frustrar os perfuradores ao roubar os fluidos necessários para lubrificar o avanço da broca de perfuração.

“Exige muito perfurar estes poços atuais. Não é fácil como costumava ser. O equipamento precisa ser mais robusto, maior, para trabalho mais pesado”, disse Marty Hebert, 52 anos, gerente da Transocean.

Um motivo são as condições extremas associadas à operação em campos muito profundos. O petróleo preso sob o solo do oceano está sob pressões que chegam a 20 mil libras por polegada quadrada -talvez o dobro da força de um poço mais raso- assim como temperaturas que se aproximam de 200ºC. Extrair o petróleo com segurança é equivalente a manusear um frasco gigante de ketchup cheio de um fluido lento, mas propenso a uma liberação explosiva.

Para completar os poços de Tahiti, a Chevron teve que projetar várias variantes de ferramentas-padrão de perfuração usando ligas exóticas como inconel, resistente a corrosão, disse Clay Jostes, 29 anos, um engenheiro de perfuração. Este é outro motivo para os custos serem tão altos.

A prospecção de petróleo conjura imagens de homens musculosos carregando canos pesados e empunhando ferramentas enormes. E há um pouco disso aqui. Em uma ponta do Cajun Express, um conjunto vertical de vários canos de perfuração lembram um enorme órgão de tubos industrial.

Mas a indústria do petróleo atual deve tanto ao Vale do Silício quanto à força bruta. Software especializado tridimensional permite aos geólogos do setor “ver” sob o solo do oceano e sob as camadas de sal espessas que escondem o petróleo. Na ponte, trabalhadores monitoram as correntes marítimas e o tempo em 10 monitores de tela plana, enquanto no centro de controle do poço, um sondador sentado em uma cadeira acolchoada observa a pressão dos fluidos no poço abaixo. Minissubmarinos robóticos executam inspeções quase diárias ao cano de perfuração.

“Muitas das coisas que fazemos rivalizam com o programa espacial. É tecnologia de vanguarda”, disse Jostes.

Mas quando o jovem engenheiro conclui seu período de duas semanas aqui na fronteira do petróleo e retorna para sua casa em New Braunfels, Texas, ele sabe que será recebido com resmungos, não com aplausos. “Eu fico frustrado ao ouvir meus amigos. Eles reclamam do preço do galão de gasolina”, ele disse. “Eles só querem culpar as grandes companhias de petróleo. Mas não estamos pilhando o povo americano, e não devemos pedir desculpas pelos lucros que estamos obtendo.”

Ainda há muito o que fazer até que Tahiti possa enviar seu primeiro barril de petróleo por um oleoduto até a costa. Todos os seis poços no solo do oceano estarão ligados a um coletor submarino, uma parada intermediária a caminho da plataforma de produção acima. Mas a esta altura Jostes estará em outro local.

“Quanto ao petróleo ser um recurso limitado, será que verei o fim dele? Ou meus netos verão o fim dele?” perguntou Jostes. “Eu acho que não. Eu não acho que haja um limite.”

“USA Today”

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As convenções eram espontâneas

Artigo Michael Barone*

A Convenção Nacio-nal do Partido Democrata começa amanhã em Denver, Colorado, e durará quatro dias. Uma semana depois, a Convenção Nacional do Partido Republicano, também de quatro dias, será aberta em St. Paul, Minnesota. As convenções vão adotar plataformas que ninguém vai ler (eu mesmo nunca li uma na íntegra) e vão indicar Barack Obama e John McCain como candidatos presidenciais.
As TVs a cabo vão cobrir as convenções, sem transmitir os procedimentos na íntegra. A TV aberta apresentará uma hora de cobertura por noite. Os maiores eventos serão o discurso de Obama ao aceitar a candidatura, em um estádio de futebol americano, e o discurso de McCain, no ambiente mais modesto de uma arena de hóquei. Tudo isso é sabido há meses.
Então por que os partidos americanos realizam essas reuniões gigantescas e caríssimas? As respostas têm raízes na história. As convenções políticas nos EUA são uma instituição antiga. Em dezembro de 1831, cerca de 168 delegados de 18 Estados que se opunham ao presidente democrata Andrew Jackson se reuniram e escolheram para candidato Henry Clair. Foi a primeira Convenção Nacional do Partido Whig [antecessor do Republicano].
Em maio de 1832, os partidários de Jackson promoveram a primeira Convenção Nacional Democrata, que o indicou para o segundo mandato.
As convenções nacionais eram encontros de políticos dos partidos nos Estados, muitos dos quais tinham pouco em comum e não sabiam muito uns sobre os outros. Devido ao estado primitivo dos transportes e das comunicações da época, parecia necessário reunir delegados dos Estados para acordarem uma chapa à Presidência e Vice-Presidência.
Não era fácil. Os democratas, sempre divididos entre os sulistas rurais (e, até os anos 1860, escravocratas) e os nordestinos urbanos, exigiam uma maioria de dois terços para indicar um candidato a presidente; apenas em 1936 essa exigência mudou para maioria simples.
Durante mais de um século, as convenções nacionais foram encontros animados que incluíam discursos acalorados, manifestações ruidosas, galerias gritando palavras de ordem e reuniões em salas enfumaçadas em que políticos selavam acordos e mudavam seus votos.
Em muitos casos, também foram encontros cujo desfecho ninguém sabia prever de antemão. Os candidatos concorriam com o apoio de seus próprios Estados, na esperança de serem escolhidos inesperadamente ou de mudarem seus votos para o vencedor final em algum momento propício. A convenção que se tornou legendária foi a democrata de 1924, realizada no antigo (hoje demolido) Madison Square Garden, em Nova York. Uma resolução condenando o Ku Klux Klan, que combatia os negros e os católicos, foi rejeitada por um voto. Na 103ª votação, John W. Davis foi indicado. Ele acabou com a menor porcentagem de votos populares de qualquer candidato da história.
Ainda na década de 50, tratar de questões de negócios ou política em telefonemas interurbanos era algo fora do comum. Os políticos esperavam até descer do trem na cidade da convenção para poder falar pessoalmente com seus interlocutores. Antes de ser feita a primeira chamada, ninguém sabia quantos votos de delegados os candidatos teriam.
Não deve ser coincidência o fato de a última convenção em que foram feitas várias votações -a Convenção Nacional Democrata de julho de 1952- ter sido realizada mais ou menos à mesma época que o primeiro telefonema interurbano por ligação direta (novembro de 1951) e poucos anos antes da inauguração dos vôos comerciais em aviões a jato nos EUA (outubro de 1958).
A telefonia de longa distância possibilitava que a mídia contasse os delegados que votariam em cada candidato. A primeira contagem de delegados foi feita por Martin Plissner para a CBS em 1964, e as contagens de delegados feitas pelas redes de TV mostraram ser corretas na apertada disputa republicana entre Gerald Ford e Ronald Reagan, em 1976. As viagens em aviões a jato possibilitaram a políticos e jornalistas atravessar o país rotineiramente e conversar pessoalmente.
Por que, então, os partidos políticos americanos continuam a promover convenções nacionais? Uma das razões é de natureza técnica: na condição de entidades legais, as convenções são os partidos. Elas tomam, ou delegam a outros organismos o poder de tomar, as decisões sobre regras partidárias que vão vigorar até a convenção seguinte. A outra razão, mais importante, é que os dois partidos, Republicano e Democrata, usam as convenções como programas de TV que lhes podem valer votos.
Nem sempre isso deu certo: a violenta convenção nacional de 1968 prejudicou o Partido Democrata, como também o fez a amargura da convenção nacional de 1980 na qual o derrotado Edward Kennedy tentou evitar o cumprimento de vitória do presidente Jimmy Carter, postulado à reeleição. George W. Bush conseguiu um bom aumento em seus votos devido à coreografada convenção nacional republicana de 2004.
Neste ano, os democratas esperam suscitar um sentimento de entusiasmo e otimismo com o discurso de aceitação de Barack Obama a ser proferido em um estádio com 72 mil lugares (John Kennedy, em 1960, e Franklin Roosevelt, em 1936, também fizeram seus discursos de aceitação da candidatura em estádios). E, com um pouco mais de nervosismo, também esperam que Hillary Clinton e seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, discursando em noites diferentes, sanem as feridas das primárias.
Os republicanos esperam que sua própria convenção lustre a reputação maculada de seu partido, apesar dos discursos obrigatórios do presidente e vice-presidente em exercício. E esperam conseguir definir John McCain como líder de peso e que inspira confiança.
Quanto a nós, jornalistas e especialistas em política, adoramos as convenções nacionais -as festas, todos aqueles políticos disponíveis para entrevistas, todos os rumores e fofocas constantes. E isso -o apreço da mídia pelas convenções- talvez seja, afinal, a razão mais importante da sobrevivência dessa instituição antiga que já não cumpre nada que se assemelhe à função original.

*Comentarista sênior da “U.S. News & World Report”, pesquisador-residente do American Enterprise Institute e co-autor do “Almanac of American Politics”, entre outros. Barone escreveu este artigo para a Folha

“Folha de S. Paulo mundo”

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ELE QUER COMANDAR MUDANÇA DE GERAÇÃO

Cerebral, democrata promete ruptura com era conservadora, mas se ampara em tradição

Sérgio Dávila

O clima no quartel- general da campanha de Barack Obama, em Chicago, é de contagem regressiva. Literalmente: o visitante é recebido por uma placa com um número mudado todos os dias que avisava, no domingo passado, que faltavam 80 dias para as eleições de 4 de novembro. Dentro, cerca de 200 pessoas trabalham num ambiente de 300 metros quadrados. São jovens entre 20 anos e 30 anos, que se sentam à frente de laptops, ouvem iPods e chamam o candidato pelo primeiro nome.
Aliás, ensinam que a pronúncia “cool” é “B’ráck”, com bê mudo, não bráck, nem baraque. Espalham-se em baias que formam quatro grandes seções. A maior é a que lida com a imprensa. Dentro dela, a mais importante é a do “time de resposta rápida”, pessoas que, tão logo o candidato é atacado pela campanha de John McCain, disparam e-mails com os pontos principais dos argumentos que as pessoas ligadas ao democrata repetirão ao longo do dia.
A segunda maior é a que cuida de políticas do candidato e de eleitorado. Há os arrecadadores. Há ainda a equipe do on-line, responsável por uma presença no mundo virtual de tal eficiência que, dizem analistas, vem recriando a maneira como a política é feita nos EUA. Não existem salas fechadas.
Obama aparece pouco -diz que lugar de candidato é na rua. Quando tem de se reunir com o centro nervoso da campanha, não mais do que cinco pessoas, entre eles raposas velhas de Chicago, escolhe o escritório de seu estrategista, David Axelrod, a 20 quadras dali e inacessível ao resto dos mortais.
Essa divisão da campanha, que prega a ruptura para consumo público, mas é fortemente calcada na tradição política em seu cerne, de certa maneira resume a candidatura do senador democrata de 47 anos. Ele chegou até aqui baseado numa plataforma cujo ponto central são as palavras “mudança” e “esperança”, embaladas por um pacote moderno, que atrai os eleitores mais jovens e de maior instrução.
Isso casa com o clima atual que muitos identificam como um desejo de “troca de guarda” de uma geração política. “Os americanos estão prontos para mudar”, disse à Folha Samantha Power, até março consultora de política externa da campanha do candidato. “Em Obama, eles vêem alguém idealista em princípios, mas também sofisticado, esperto e com chances reais de vitória.”
Atrai esse público, além da proposta de mudança, a biografia “pós-racial” do político. Filho de uma americana branca do Meio-Oeste e de um queniano negro criado na tradição muçulmana, ele nasceu no Havaí, passou a infância na Indonésia, se formou em direito em Harvard, batizou-se numa igreja cristã e começou a carreira política como organizador comunitário em Chicago. Em encontro fechado com políticos democratas no final do mês passado, após voltar da viagem à Europa e ao Oriente Médio, o próprio candidato daria sua definição: “Está se tornando claro que minha viagem, esta campanha -as multidões, o entusiasmo, 200 mil pessoas em Berlim- não falam de jeito nenhum só sobre mim. Falam dos EUA. Eu me tornei apenas um símbolo”.
É o que pensa Power, professora de Harvard: “É uma combinação do repúdio à associação entre George W. Bush e John McCain com a força dos próprios atributos de Obama, o fato de que nunca vimos ninguém como ele nesta geração”.
S e é verdade, as urnas responderão em novembro, mas o fato é que, para chegar até aqui, Obama usou e usa sem restrição os métodos políticos mais tradicionais, os mesmos que condena em discursos.
Nesse sentido, sua passagem por Chicago é reveladora. O então candidato ao Senado estadual de Illinois entrou na cena local num momento em que a reconfiguração urbana e uma série de novas leis mudavam a prática política dos EUA.
As campanhas, até então fortemente baseadas em organização e militância paga, começaram a dar lugar às baseadas em aparições na mídia e em doações, que por sua vez lubrificariam a máquina de publicidade.
(Hoje, a candidatura de Obama é conhecida por ter aperfeiçoado as duas práticas, modernizando a primeira ao trocar militância paga por jovens voluntários, sem descartar a segunda, ao se basear na mídia e em doações pulverizadas.)
Mas manobras políticas antigas e pouco nobres não passavam ao largo dele, como disse à Folha David Freddoso. O analista conservador é autor de uma das biografias recém-lançadas sobre o candidato, “The Case Against Barack Obama”. “Ele usou uma tecnicalidade para desqualificar todos os seus concorrentes na primeira eleição de sua vida”, disse.
Entre esses estava a pessoa que o introduziu na política local, a veterana Alice Palmer, hoje com 69 anos. Os dois não se falam desde então.
Em 2000, depois de perder a segunda reeleição -os mandatos do Senado estadual de Illinois são de dois anos-, Obama, com a ajuda de um aliado no Partido Democrata local, redesenhou seu distrito de maneira a incluir os votos de Hyde Park, onde mora, mas também a pobre Bronzeville, onde começou organizando comunidades, e a rica Gold Coast, onde viviam seus maiores doadores.
“Esse mesmo Obama diz que mudará a maneira como Washington faz política”, diz Freddoso. “Ele não é um reformista, como Ronald Reagan foi. Ele é apenas mais um político liberal (de esquerda, nos EUA).”
De fato, embora tenha levado seu discurso para o centro após derrotar Hillary Clinton nas primárias, Obama defende uma plataforma de centro-esquerda. Prevê, no campo doméstico, redistribuição de renda via taxação, maior presença do Estado em setores como saúde e educação e uma política energética que usa impostos das petrolíferas para investir em energia alternativa.
No campo externo, propõe iniciar a retirada imediata das tropas americanas do Iraque e, mais amplamente, trocar a retórica belicosa dos primeiros anos de Bush pelo engajamento de aliados como a Europa, inimigos como o Irã e competidores como a China.
Para Samantha Power, “os americanos e as pessoas dos outros países estão prontas para ter esperança de novo”. Para David Freddoso, os americanos não votam em candidatos de esquerda e não votarão em Obama “quando se informarem sobrem quem ele é”.

“Folha de S. Paulo mundo”

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Colonização judaica das Colinas de Golã continua apesar das negociações entre Israel e Síria

Benjamin Barthe

Loiras e sorridentes, as duas jovens russas fazem poses, com os cotovelos apoiados num balcão de quitanda sobre o qual disputam espaços potes de tapenade* e garrafinhas de azeite. “Sorriam… Foto!” Elas estão participando de uma estadia “Taglit”, um desses programas especiais que se destinam a promover Israel junto à diáspora judaica.

Atrás delas, os seus congêneres de short e sandálias se acotovelam em volta de outro balcão, reservado para a degustação. O entusiasmo dos comensais diante dos pratos repletos de cubinhos de pão torrado acompanhados por condimentos encobre as explanações do vendedor que está vangloriando a qualidade do seu azeite. “Produzido conforme as técnicas da época talmúdica”, garante. Com os braços carregados de suvenires - sabonetes, garrafas de azeite ou de vinho, ou ainda frascos de cremes de beleza -, os visitantes fazem fila para passar no caixa, e então retornam ao seu ônibus, sob os olhares vigilantes de dois acompanhantes que exibem um fuzil a tiracolo.

Um grupo de jovens judeus estrangeiros, produtos vendidos com “embrulhos” histórico-religiosos, uma escolta armada: a cena poderia ser presenciada em qualquer excursão turística em Israel. Exceto que ela está ocorrendo numa fazenda oleícola de Katsrin, a capital judaica das Colinas de Golã. Uma região ocupada pelo Estado judeu desde a guerra dos Seis Dias, em 1967, e que foi anexada em 1981 após esta ser aprovada em votação pela Knesset, o Parlamento israelense. Este planalto que pertence à Síria é o principal objeto das negociações indiretas que foram iniciadas pelo primeiro-ministro israelense Ehoud Olmert com o regime do presidente sírio Bachar Al-Assad.

Será preciso devolver o Golã para fazer as pazes com este preocupante vizinho? As discussões que vêm sendo travadas a este respeito em Israel não têm nenhum impacto verdadeiro sobre os moradores do planalto. “Esta região é a fronteira natural de Israel com a Síria”, martela Valentina Litinski, a guia do grupo “Taglit”. “Ela constitui um trunfo estratégico que nós não podemos nos dar ao luxo de abandonar. Se um dia a Síria se democratizar, nós poderemos então considerar seriamente um acordo. Mas, por enquanto, está claro que este país não é um parceiro digno deste nome”.

Os buldôzeres que seguem escavando em várias áreas do planalto corroboram esse discurso agressivo. Aos planos de retirada, os colonos do Golã respondem com uma orgia de canteiros de obras. Uma companhia de tecnologia avançada com sede em Herzliya, uma cidade do litoral, planejou instalar-se na zona industrial de Katsrin. Alguns quilômetros mais ao sul, no moshav (cooperativa agrícola) Bnei Yehuda, uma galeria comercial está em fase de acabamento num terreno de três mil metros quadrados. Irá se tratar do segundo complexo desse tipo depois do de Kessem Hagolan (”A Magia do Golã”), um vasto conjunto de construções composto por lojinhas de suvenires, por um circuito especial para os visitantes e uma cervejaria. Situado na entrada da capital, este foi inaugurado há um ano. Rumores alardeiam até mesmo a possível construção de um aeroporto.

Esses projetos recentes vêm se acrescentar à criação mais antiga de explorações vinícolas cujos melhores vinhos, como o Château Golan, gozam atualmente de uma reputação mundial. O objetivo deste desenvolvimento acelerado é fazer do Golã um destino turístico inevitável, um parque natural dedicado à glória do “bem viver” e, assim fazendo, enraizá-lo na paisagem mental israelense. “Nós queremos criar uma rotina, de tal modo que, na mente das pessoas, o Golã seja uma evidência, assim como Tel Aviv [a capital política]”, resume Pini Ohayon, o gerente da cervejaria.

A aposta não é tão simples quanto parece. Diferentemente da Cisjordânia, próxima aos centros urbanos israelenses, as vertentes desoladas do Golã nunca chegaram a atrair os exaltados do “Grande Israel”. Trinta anos mais tarde, a cidade de Katsrin, que foi fundada em 1977, não abriga mais do que 7.500 habitantes, ou seja, a metade da população judaica do Golã. Às famílias dos soldados que ocupam postos no planalto, acrescentou uma pequena minoria de ultra-ortodoxos, que foram seduzidos pelo ascetismo do local, e alguns milhares de novos imigrantes ucranianos, enviados para esses remotos rincões tão logo chegaram de avião.

“O que importa saber é que 70% da população de Israel se opõem à cessão do Golã em troca da paz”, diz Sami Bar Lev, o prefeito da colônia-capital, referindo-se a uma recente pesquisa. “Um país tão pequeno quanto o nosso não pode renunciar a um lugar tão estratégico”.

A saída programada de Ehoud Olmert do governo, que foi forçado a ceder seu lugar em conseqüência de acusações de corrupção, apaziguou sem demora suas preocupações. “A retirada de Israel não irá acontecer tão cedo. Estamos planejando aumentar a população de Katsrin em mil habitantes por ano no decorrer dos próximos dez anos”.

Miran, um arquiteto paisagista de 37 anos, pretende ser um deles. Ele que reside atualmente num moshav da Alta Galiléia, decidiu mudar-se para Katsrin por causa “do sol, da paisagem e da proximidade do lago de Tiberíade”, onde ele já está sonhando em divertir-se com a sua prancha a vela. Em pé num dos acostamentos, ele está discutindo a obra da sua futura casa de campo junto com um dos seus operários, Salah, um druso do Golã. Com a ajuda dos seus compatriotas sírios, este trintão atarracado já construiu dezenas de casas para os judeus de Katsrin e a sua agenda permanece repleta de encomendas. “Os israelenses vão negociando e construindo simultaneamente”, diz. “Eles vivem nessa contradição permanente”. Todas essas obras lhe proporcionaram um nível de vida inesperado. Mas ele não se ilude com essa situação. “Os israelenses tomaram o Golã por meio da guerra. Portanto, eles deverão devolvê-lo se quiserem a paz”.

*Nota do tradutor - a tapenade é um patê típico da culinária provençal a base de azeitonas pretas, anchovas e alcaparras, geralmente servido em canapês como aperitivo.

“Le Monde”

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Adultos não conseguem amadurecer e querem continuar sendo crianças

Joan Carles Ambrojo

Alguns adultos estancaram no caminho para a maturidade, do mesmo modo que encontramos adolescentes que demoram a assumir a independência. Com freqüência se vêem referências a essas pessoas como afetadas por uma síndrome ou um complexo de Peter Pan. Segundo especialistas, não existe essa síndrome. O que acontece é que as mudanças sociais e familiares das últimas décadas aumentaram o infantilismo de alguns adultos, que cresceram sem ter o referencial dos pais.

Encontramos na vida real muitos Homer Simpson, adultos que têm dificuldade para crescer e amadurecer emocionalmente? O que acontece com alguns jovens que se instalam em uma eterna adolescência, negando-se a assumir as responsabilidades e tomar as rédeas de sua vida?

Renunciar a ser adulto e instalar-se na imaturidade como tentativa de permanecer na eterna juventude é o que caracteriza as pessoas que se regem pelo que é popularmente conhecido como complexo de Peter Pan. Os especialistas, no entanto, não admitem a existência desse suposto transtorno, que de fato não aparece na lista do DSM-IV, o manual de diagnóstico de transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Americana, que é utilizado como manual de referência em todo o mundo.

A popularização da suposta síndrome se deve em boa medida a Dan Kiley, o psicólogo americano que publicou em 1983 o livro “A Síndrome de Peter Pan” - a pessoa que nunca cresce, baseada no personagem da obra do britânico James Matthew Barrie, editada em 1904. Mais tarde, Kiley complementou o tema com a publicação de “O Dilema de Wendy”, no qual trata das mulheres que protegem indevidamente os homens como se fossem suas mães e assumem suas responsabilidades. É um estilo de vida que continua tendo seus adeptos. Nos EUA batizaram os jovens que demoram a amadurecer de Geração Odisséia, segundo William Galston, pesquisador do Instituto Brookings.

Sabel Gabaldón Fraile, psiquiatra do Hospital de Sant Joan de Déu de Barcelona, é definitivo: “Não está tipificada como síndrome. Não é nada mais que um fenômeno social, a dificuldade de crescer”. Gabaldón opina que o “peterpanismo” é apenas uma tentativa de alguns profissionais de buscar artifícios literários.

Forma de vida adolescente
Segundo explica o especialista, o conceito abrange uma série de comportamentos que podem ser muito comuns em determinados adultos de nossa cultura e nosso ambiente, e que “têm a ver exatamente com a atitude também cultural de infantilização, de extrema dependência, que muitas vezes adotamos em várias famílias, ou inclusive da própria cultura em relação às crianças e adolescentes, de poupá-los de frustrações, protegê-los excessivamente. Isso gera situações de prolongamento excessivo da adolescência e de comportamentos imaturos que ocorrem inclusive na idade adulta”.

Outros autores pensam de forma diferente. Para a psiquiatra Graciela Moreschi, o eterno adolescente é alguém para quem a adolescência é uma forma de vida, e não uma etapa evolutiva: “Isso significa que a independência não é uma meta”. Segundo Moreschi, que publicou um livro de divulgação sobre esse fenômeno, com essas atitudes essas pessoas têm como prioridade desfrutar o momento. Se ganham dinheiro o utilizam em saídas, em roupas caras, um automóvel, uma moto ou viagens, e se não ganham continuam dependendo de seus pais.

“Muitas vezes o estudo é o passaporte que lhes permite ficar instalados na adolescência, porque não terminaram a carreira, ou porque passam de uma para outra. Eles demoram para assumir qualquer tipo de compromisso porque não podem escolher algo permanente, inclusive ter um parceiro. A grande quantidade de opções que têm lhes causa dificuldade para escolher, porque ao fazê-lo renunciam às outras possibilidades”, diz Moreschi.

São comportamentos cristalizados em um momento da vida, continua a psiquiatra, e, portanto, em vez de evoluir essas pessoas se desgastam. “Muitos dos pais desses adolescentes estão do mesmo lado, não há diferenças, e os jovens não terminam de se individualizar como indivíduos maduros; não existe um outro que lhes permita realizar esse processo.” A diferença entre os eternos adolescentes e os adultos ainda com atitudes imaturas é que estes cuidam de si mesmos, enquanto os eternos adolescentes não foram capazes de separar-se da família.

Javier Elzo, catedrático emérito de sociologia na Universidade de Deusto e presidente do Fórum Deusto, diz que o fato mais evidente e comprovado é que há um prolongamento do hábitat dos adolescentes e jovens no domicílio familiar até extremos incríveis. E a Espanha tem uma das porcentagens mais baixas de emancipação familiar. As principais razões são a carestia da habitação, que torna a emancipação complicada, e em segundo lugar o caráter precário do trabalho.

Outra característica dos adolescentes atuais é o presentismo, ou seja, querer tudo já, imediatamente. É um fato que a maturidade está se retardando, “mas também encontramos jovens menores de 20 anos extremamente maduros, que são os que diante da dificuldade de encontrar o ninho familiar vazio [pais com pouca presença], por razões fortuitas ou não, começaram a assumir seu destino muito antes do que teríamos feito em nossa geração”.

As transformações sociais e familiares das últimas décadas fizeram, segundo Elzo, que os adolescentes e jovens que Eduardo Verdú batizou em um livro de “adultescentes” decidissem ficar em casa fazendo o que querem - “esses são os Peter Pan, os que saíram de casa ficando. É evidente que há um problema muito sério de referências”.

Pais “desorientados”
Para Elzo está claro que existe um problema de falta de referências nos pais, embora considere que os que estão mais desorientados são os próprios pais: “Qual é o modelo que pode ter uma pessoa de 40 anos? Seu pai não serve porque lhes dizem que é um antiquado, de outra época, que tem outra forma de ver as coisas; não se deve esquecer que os pais dos adolescentes de hoje são os que fizeram a transição espanhola, e neste momento muitos deles não sabem o que fazer com seus filhos”.

Com a incorporação das mulheres ao trabalho, acrescenta o sociólogo, os filhos vivem em um ninho vazio, “e encontramos jovens com precariedade psicológica. Como vão sair de casa se seus pais os consideram muito crianças? Mudam, isso sim, quando chega seu primeiro filho e têm de pagar a hipoteca”, afirma Elzo.

“El País”

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Campeões olímpicos chineses são “fabricados” na Escola Esportiva de Shichahai

Olivier Montalba

Embaixo de um cedro na entrada da Escola Esportiva de Shichahai, há uma grande lápide de mármore preto com colunas de nomes dourados. Ma Jung, a jovem assessora de comunicação que me acompanha na visita acelerada a essa escola modelo no centro de Pequim, pára diante dela por um minuto regulamentar (1). Os nomes são os dos campeões do mundo e dos medalhistas olímpicos que saíram dessa escola nos últimos 25 anos.

No capítulo “Atenas 2004″ são quatro: Zhang Yining (duas medalhas no tênis de mesa), Teng Haibin (cavalo com alças), Luo Wei (tae kwon do) e Feng Kun (vôlei). “Desde então foi preciso começar a escrever nas laterais, não havia mais lugar para nossos cinco novos campeões do mundo.” E para Pequim em 2008? “Gravar outros nomes seria nosso maior sonho.” Antes a direção da escola era discreta sobre suas ambições. Há um ano o diretor foi categórico: haverá mais medalhas em Pequim do que em Atenas.

O projeto da Escola de Shichahai reflete a esperança de um país que tem pressa para ser reconhecido como nova superpotência no momento de “seus” Jogos Olímpicos. Afastada da família olímpica até o final dos anos 1970 por causa da disputa com Taiwan, a China participou de seus primeiros jogos em 1984 e desde então progrediu inexoravelmente: quarto lugar em Atlanta, terceiro em Sydney, segundo em Atenas com 32 medalhas de ouro, logo atrás dos EUA.

Em 2008 deve se tornar o primeiro país esportivo do mundo. “Senão o público ficará muito decepcionado, porque não daremos prova de um bom espírito nacional”, disse o responsável pelo programa de treinamento do Ministério dos Esportes. A Escola de Shichahai está em sintonia com essa ambição. Ma Jung explica que ela produz “a maior porcentagem de campeões de toda a China” e resume o espírito da escola: “Trabalhar duro, não desprezar nenhum detalhe”.

Os dois grandes edifícios novos são visitados através de balcões que dominam os ginásios. Pavarotti, Maradona, Jackie Chan e centenas de jornalistas já seguiram esse caminho. A atmosfera é de estudo; 600 alunos a partir de 6 anos, na maioria internos, se levantam às 7 da manhã para aulas de matemática e de chinês e depois treinos. Nas paredes, bandeiras vermelhas e slogans: “Daqui partirão os campeões de amanhã, à conquista do mundo”. Os alunos não têm tempo livre.

Exercícios repetidos o dia inteiro

Tudo é limpo, iluminado com néon. Os equipamentos são de qualidade. Para os esportes de combate, os jovens atletas treinam com fundo musical de rap. “Pesquisas demonstraram que a música pode melhorar a reação do sistema nervoso”, explica Ma, que em seguida se desculpa por ter falado demais. Nos corredores, cruzamos com grupos de adolescentes de aparência cansada - as doses de treinamento de cinco horas diárias para crianças de 8 anos seriam inaceitáveis na França, na opinião de um treinador francês. A direção da escola afirma que o número é exagerado.

De um ginásio ao outro, encontramos a mesma repetição de seqüências, aperfeiçoadas ao infinito. Vôlei: passe, corte. Pingue-pongue: diagonal, corte de direita. Badminton: golpe elevado, corte. A menina que faz o serviço não olha para a peteca, não se desloca um passo, repete até 50 vezes seguidas o mesmo gesto de precisão milimétrica, sem tentar esconder seu tédio. Não há qualquer dimensão lúdica: em chinês, nenhum esporte se conjuga com o verbo jogar.

Em matéria de “esporte”, três milênios de civilização forjaram uma cultura que privilegia o objetivo, a arte do gesto e o bem-estar, como o tai-chi, uma atividade sem qualquer espírito de competição. Até meados do século passado a China foi “o doente da Ásia” e seus esportistas ficaram fora dos encontros internacionais. O espírito de competição surgiu no esporte chinês ao mesmo tempo que o nacionalismo.

Foi com a chegada dos comunistas ao poder que a China começou a construir sua máquina de campeões, baseada no modelo soviético: um sistema piramidal, controlado pelo Estado, que permite identificar as crianças muito jovens, muitas vezes por critérios morfológicos, selecionar e treinar as melhores até chegar às equipes nacionais. O tênis de mesa (importado do Japão) foi o pioneiro, porque Taiwan havia sido afastado da federação internacional.

Em 1959, quando o tenista de mesa Rong Guotuan se tornou o primeiro campeão do mundo chinês, Mao Tse-tung viu aí uma “arma nuclear espiritual”. A competição tornou-se objeto de glória e de orgulho. A Escola de Shichahai foi criada naquele ano.

Meio século depois, em uma economia abalada pelo capitalismo, o esporte é um bastião de estabilidade nacional. Os futuros campeões são detectados, treinados, pagos, alimentados e hospedados por uma burocracia que controla sua vida pessoal e pode proibir que tenham contato direto com suas famílias durante vários anos. Até Liu Xiang, o astro dos 100 m com barreiras, foi chamado à ordem por ter passado tempo demais ao telefone com seus amigos.

Somente para alguns

Esse sistema, que há cerca de dez anos se abriu aos patrocínios, atingiu seu objetivo com uma eficácia temível, até a esperada consagração neste verão. Sustentado conforme as necessidades por treinadores estrangeiros recrutados por bons salários e a obrigação dos resultados, o regime investiu em esportes totalmente desconhecidos na China, mas com forte potencial de medalhas, como a esgrima ou o halterofilismo feminino. A equipe de tae kwon do foi formada em 1995 porque a concorrência era fraca, e a primeira medalha chegou cinco anos depois. O programa se chama “Ganhar honras nos Jogos Olímpicos”.

Mas das 400 mil crianças e adolescentes treinados em 3 mil escolas esportivas, no máximo algumas centenas se tornarão campeãs de calibre internacional. Para todas as outras, o futuro é sombrio. A maioria fica à beira do caminho, sem formação universitária ou escolar, abandonada pelo Estado. Segundo o jornal “China Sports Daily”, 80% dos atletas chineses estão desempregados ou vivem na pobreza, quando não sofrem problemas físicos ligados ao treinamento excessivo ou aos produtos ingeridos.

Mesmo entre os que conseguiram medalhas, vários exprimem seu arrependimento por ter sido privados de uma vida normal. A campeã do mundo de ginástica por equipes em 1998, Liu Fei, confiou alguns anos depois à agência Nova China: “Lamento profundamente ter adotado o caminho do esporte. As flores, os aplausos e a bandeira vermelha hoje estão bem distantes. Quando eu subi ao pódio do campeonato mundial, não poderia imaginar que o dia da aposentadoria seria o início de uma vida tão dura. Não tenho casa própria, nem trabalho, nem renda…” A jovem, que divide um apartamento minúsculo com sua mãe, inveja a sorte de sua irmã diplomada. E conclui: “Eu trabalhei duro. Para quê?”

Na mesma região nordeste, atingida pelo declínio da indústria pesada, Zou Chulan, uma ex-campeã de halterofilismo, abriu uma lavanderia automaticamente e precisa se barbear todas as manhãs - o estigma dos esteróides que ela ingeriu durante anos com total confiança. Assim como Liu Fei e Zou Chunlan, grande número de ex-atletas anônimos trabalha nas minas, como faxineiras ou vendedores de rua, e pedem ajuda. Em 2007 a ex-ginasta Mo Huilan, uma das raras que conseguiu se tornar apresentadora de um programa esportivo, propôs criar uma fundação para ajudar os antigos esportistas desempregados. Até hoje o projeto não teve seguimento.

Na sala de ginástica da Escola de Shichahai, o silêncio só é perturbado pelas vozes dos treinadores. As meninas têm de 9 a 11 anos, diz Ma, mas parecem dois ou três anos mais moças. Estão pálidas e têm expressões de fadiga. Uma menina sofre, de dentes cerrados, na barra fixa. O treinador a substitui com gestos cheios de censura, elevando um pouco a voz a cada vez, até que Ma o adverte sobre a presença do jornalista com uma única palavra: “Coach…”

(1) Visita sob condições estritas devido à proximidade dos Jogos Olímpicos: sem fotos, proibido entrar nas salas e falar com os jovens atletas.

“Le Monde”

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‘Depois que morre, cabou-se’

Edilson Avelino dos Santos - Pai de Jonathan dos Santos Alves, que se perdeu na Amazônia; Na batida do ‘Jonatas’, ele empreendeu uma busca épica pelo filho no interior da Amazônia

Fred Melo Paiva

Eu disse pra ele: “Cuidado rapaz… cê não vai caçar lá não, que pra depois do Rio Branquinho é mata fechada cheia de igarapé, cheia de pântano. Tem muita onça, muita sucuriju, a cobra grande que é muita cobra. A floresta, ali naqueles ponto e pra todo adiante, é uma floresta alta, cheia de ladeirão e barranco”. Mas o Jonatas foi. Ele e mais quatro. Pessoal ingrato, mau companheiro. Porque os quatro voltaram, mas ele não. O Jonatas tava vestido numa calça jeans, tênis, uma camisa do Exército, um chapéu. Levou uma espingarda, 14 cartucho, um canivete e um isqueiro. Na beirada do rio, fiquemo nós no aguardo: atiremo pra cima, provoquemo barulho. Então eu ouvi um tiro: era pra muito longe e aquilo me agoniou. A primeira noite, o Jonatas passou lá pra dentro do mato. Nós no aguardo. Durante 20 dias, o corpo de bombeiro fez busca na floresta. Num arrumaram nada. Eles entravam num dia e voltavam no outro. Sempre a pé. Depois desistiram. Eu não: eu tinha feito a minha equipe. Eu, meu outro filho e dois filho de índio aqui do Amazonas - o Ricardo e o Roberto. Nós fumo e andemo. Oito, dez dia seguido nós dormia na mata. Montava acampamento nas encosta, misturava a conserva no arroz, comia, depois ia dormir na rede. Acordava 5 hora da manhã, tomava Nescafé e saía andando de novo. Nós ia sempre na batida do Jonatas: cada vez que ele tomava outro rumo, quebrava uns galhinho e ia deixando no chão umas seta. O Jonatas sabia que a gente ia atrás dele. Primeiro ele se aprofundou. Depois tentou voltar. Deu pra ver pelas seta: ele andava 1 km, quebrava, andava outro, quebrava de novo, lá mais pra frente invertia outra vez. Eu orava de joelho dentro do mato: “O Senhor fechou a boca dos leão sobre Daniel. Senhor, fecha a boca da onça sobre o meu filho. Fecha a boca da cobra, meu Senhor”.

(Edilson Avelino dos Santos, 41 anos, é o pai do Jonathan. É testemunha de Jeová. Não sabe ler nem escrever: apenas assina o próprio nome, repetindo o desenho das letras. Ele só chama o Jonathan de Jonatas. Não é apelido - é o jeito que o Edilson tem de falar. Jonathan tinha 18 anos. Era o seu filho mais velho. O Gérson tem 17. A Jéssica, 15. Ela tem síndrome de Down. O Edilson sempre passou por muitas dificuldades: ele mora em um sítio às margens de uma estrada de terra que corta a BR-174, ligação entre Manaus e Boa Vista, e vive exclusivamente daquilo que planta. Está 107 km ao norte de Manaus, no município de Presidente Figueiredo. Na sua casa não tem televisão - tem uma moto, que é para o Edilson se deslocar até a cidade. Ele vive com a mulher. Mas quem criou o Jonathan foi a sua irmã que mora em Manaus, a Iraci. Tanto que o sobrenome do Jonathan, registrado quando ele tinha 5 meses, é o sobrenome dela da época de casada - J. dos Santos Alves. Mesmo assim, a Iraci tinha um problema com o nome do Jonathan: ela não queria apenas um Jonathan, mas algo que se pronunciasse como Dionathan, ao estilo Jonathan Hart, o marido da série Casal 20. A Iraci concluiu, portanto, que a escrivã cometeu um erro: deixou de fora um h que deveria se colocar entre o o e o n, de forma a criar assim um prefixo John. A Iraci já está avisada de que isso não tem nada a ver e que o Jonathan não difere em nada de Jonathan Hart. Seja como for, o importante é que o Jonathan saiu para caçar no dia 10 de maio, véspera do Dia das Mães. Ele só seria visto de novo no sábado retrasado, dia 28 de junho - um dia antes do aniversário da Iraci.)

No meio da mata, depois de muito ir e voltar, o Jonatas começou a subir pela lateral do Rio Branquinho. Ele na frente e nós atrás, na batida das pegada. Depois de oito dias nesse encalço, a farinha começou a acabar. Fomo obrigado a sair da mata fechada, jogamo o sol nos ombro e tomamo uma vicinal. Em Presidente Figueiredo, pedimo ajuda pra guarda municipal: eles iam entrar lá pela cabeceira onde nasce o rio e descer fazendo a varredura, ao tempo que nós fechava por baixo. Eles toparo e nós fomo - e nada. Nessa situação de pensamento, eu concluí que não tinha outro jeito: o Jonatas tá dentro da Mutembol, que é uma fazenda aqui da região. Então eu cheguei pro Gerson, pro Ricardo e pro Roberto: “Olha, é a última busca que eu vou fazer, porque eu não agüento mais andar no mato. Eu quando era novo tinha muita resistência. Sou mateiro profissional. Mas agora eu tenho 41 e não agüento mais. Eu quero saber se ocês tão comigo”. Os índio então responderam: “Tamo contigo até morrer, até onde cê quiser”. Nós arrumemo tudo nas costa: lona, goiabada, suco, leite, arroz de saquinho, espingarda, cantil, lamparina, lampião, dois litro de óleo diesel, o meu terçado de bainha. Comprei tudo em Figueiredo - tudo pendurado na conta do mercadinho.

Na sexta-feira retrasada, nós entremo de novo atrás dele. Subimo um pedação do rio, andemo um dia inteiro até o ponto que ele tinha que ter quebrado na Mutembol. Nós num sabia, mas o Jonatas tava a menos de 4km da gente. Quando começou a chegar o final da tarde, por essa passagem da 5 hora, encontremo um trecho de mato muito alto. Ia ter que cortar. O dia tava começando a escurecer e nós ficamo indeciso se não era melhor pernoitar por ali e retomar o trabalho no dia seguinte. Foi isso que nós fizemo, e eu me arrependo muito. Naquela madrugada caiu uma chuva muito forte, o tempo ficou frio, o barulhão da água e do vento na copa das árvore - o Jonatas pegou essa chuva todinha, né, tava ali do lado. No sábado de manhã nós abrimo a picada. Andemo. Era 9h30 pras 10 quando o índio mateiro avistou: “Olha ali onde é que tá lá o menino!” Jonatas tava sentado na beira de um igarapé. Tava deitado assim meio encostado num toco. Gritei e corri: “Meu filho, pelo amor de Deus!!!” Encontrei ele magro, magro, magro igual menino da Etiópia. Não tinha mais coxa, as costela dele todinha nas costa. Tava com a gandola aberta e só de cueca - todo evacuado. Peguei a cabeça dele no colo, ele todo mole: “Meu filho, meu filho!!!” Olhei e ele não tinha mais rosto - o rosto secou e o que ele tinha mais era olho. Um olho aboticado, regalado na cara. Ele olhou pra mim e fez que ia lagrimar. Depois soltou um gemido: “Uhhh…” Então fechou os dente e começou a endurecer. “Gerson, meu filho, acode seu irmão, traz o suco, tira o soro, rasga, bota na água, tira o cantil!!!” Aquela agonia. Depois, as juntinha dele começou a amolecer, as juntinha da mão, tudo. Eu dei compressa em cima do coração dele, pra baixo, apertando, apertando. Mas quando eu fui fazer boca a boca, ele prendeu inda mais os dente, trancando bem duro. Então eu comecei a gritar. A gente tava a 30km da estrada. Eu queria uma asa pra me tirar dali.

(O Jonathan era um menino que queria ser forte. Na verdade, queria ser como um primo dele, que é modelo fotográfico. Por isso o Jonathan queria fazer uma academia. Não sendo possível nada disso, era um bom jogador de futebol - queria fazer a escolinha do Flamengo. Não apenas por essa razão, foi um estudante que não chegou lá. Parou no terceiro ano do ensino fundamental. Não sabia ler nem escrever direito. Foi prejudicado por um defeito na audição, apenas parcialmente resolvido quando a Iraci retirou do seu ouvido uma grande quantidade de cera. Ainda assim, o Jonathan gostava de escutar música. Nos últimos tempos, somente hip hop. Vestia-se como um rapper: as calças bem largas, a munhequeira, umas correntes no pescoço. Era hábil na street dance. Podia virar artista. Mas no caso do Jonathan, era bobagem ficar sonhando com essas coisas. Então ele se alistou no Exército. Era para ter se apresentado no dia 1º de junho. Mas na ocasião fazia 20 dias que ele estava sumido na mata - e nesse dia os bombeiros suspenderam as buscas.)

No sábado de manhã, o sábado 28, o Jonatas trancou os dente e morreu no meu colo. Antes, quando ele tava deitado sem força, a varejeira tinha botado uns tapuru na boca dele, entre os dente e o beiço. Nós retiremo os inseto. Eu limpei o corpo com repelente e óleo diesel, que era pra remover o resto de bicho - o cabelo tava cheio de ova, a pele cheia de carrapato. Vesti nele umas roupa que a Iraci tinha mandado, para o caso mesmo da gente localizar o menino. Eu abri uma rede, coloquei o corpo dele lá dentro, costurei, trespassei uma vara comprida pra poder carregar. Fui sozinho na frente procurar ajuda. Botei pra andar. Os outros três veio atrás, carregando o Jonatas. Onde eu passava, dava chute nim pau com meu coturno. Sentia muito remorso-desgosto, muita ira de raiva. Porque se fosse filho de rico, tava tudo aí rodando, os helicóptero, o pessoal tudo atrás. Aqui perdeu um velho outro dia, veio até cão farejador, exército, avião. Mas o velho tava em Manaus, mentindo pra mulher. O meu filho não: o meu filho precisava de verdade. Por isso eu gritava e reclamava de Deus: “Por que me abandonaste, Senhor? Por que abandonaste meu filho?” Quando escureceu, dormi sozinho no mato: sem fogo nem luz, eu armei uma rede bem alta, aproveitando o tronco de duas árvore. Quando eu entrei na rede, o breu da floresta já tava bem escuro - o breu da Floresta Amazônica. Passei a noite todinha chorando: um vazio danado, um buraco bem grande dentro de mim.

De manhã cedo eu continuei. Saí na estrada às 9 da manhã de domingo. Quando voltei com os pessoal pra ajudar no resgate, encontrei o Gérson e os dois índio saindo da mata. “Cadê o Jonatas, meu filho?” O Gérson: “Ninguém agüentou mais carregar, meu pai, tava fedendo e inchando, ninguém agüentou. Então nós enrolemo a lona na rede dele e amarremo lá em cima numa árvore, longe dos bicho, que era pra depois resgatar”. O resgate aconteceu só na segunda-feira. Os bombeiro arrumaram um helicóptero. O Jonatas veio amarrado do lado de fora, pendurado numa corda. Depois velemo e enterremo.

(A Iraci está muito inconformada. Diz que se tivesse algum dinheiro, R$ 3 mil ou R$ 4 mil no banco, teria pago uma hora de helicóptero para sobrevoar a selva durante as buscas. Infelizmente, “o meu débito estava negativo”. Já o Edilson, ele quer sair do sítio. Vai morar em Presidente Figueiredo, que não tem esse nome por causa do general, mas em homenagem ao primeiro presidente da província do Amazonas, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha (1798-1861). O Edilson está devendo um dinheiro no mercadinho da cidade. Nesses 50 dias de procura pelo filho, emagreceu 30kg.)

Uma lição dessa história? O senhor põe isso aí: o pai, quando tiver seu filho, tem que fazer por ele enquanto ele tá vivo. Depois que morre, cabou-se.

SEGUNDA, 30 DE JUNHO
50 dias perdido
Divulgada a história do desaparecimento e morte de Jonathan dos Santos Alves, 18, que se perdera na floresta amazônica no dia 10 de maio. Encontrado vivo sábado retrasado, morreu no colo do pai, que continuou as buscas depois da desistência dos bombeiros.

O ENCONTRO
“Tava na beira de um igarapé. Magro, magro, magro igual menino da Etiópia”

A AGONIA
“Ele olhou pra mim e fez que ia lagrimar. Depois soltou um
gemido: ‘Uhhh…’”

O DESESPERO
“Comecei a gritar. A gente tava a 30 km da estrada. Queria uma asa pra me tirar dali”

“Estado de S. Paulo”

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Amamentação protege mães contra a artrite

Nicholas Bakalar

Um estudo sueco sugere mais uma vantagem da amamentação, desta vez para a mãe: ela reduz o risco de artrite reumatóide.

Pesquisadores compararam 136 mulheres com artrite reumatóide a 544 mulheres saudáveis de idade similar. Depois de controlar fatores que incluíam cigarros e nível educacional, eles descobriram que mulheres que amamentaram de um a 12 meses reduziram seu risco de artrite em 25%, e que aquelas que amamentaram por mais de um ano cortaram seus riscos pela metade.

“Amamentar por um ano inteiro é difícil para muitas mulheres”, diz o Dr. Mitra Pikwer, o autor principal e médico residente no Malmo University Hospital em Malmo, na Suécia. “Mas mesmo se você amamentar por um mês ou dois, já faz diferença.”

Embora o mecanismo não esteja claro, os cientistas escrevem que o efeito protetor pode vir de mudanças em longo prazo no sistema imunológico da mãe, induzidas pela amamentação.

O estudo apareceu online em 13 de maio em “The Annals of Rheumatic Diseases”.

Os autores reconhecem que é difícil separar o efeito da amamentação do nascimento em si. Mas eles descobriram que o número de crianças nascidas de uma mãe não afetou os resultados.

A abordagem baseada na comunidade e o fato de que os dados sobre a amamentação foram coletados antes do princípio da doença deram força ao estudo.

“The New York Times”

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Tulsa: O coração do televangelismo

Vi [no Rio] garotos abandonados nas ruas; eu chorei

DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA

Tulsa, Oklahoma, é o centro do televangelismo norte-americano, a fivela do “cinturão da Bíblia” -alcunha atribuída ao conjunto de Estados do sul onde é marcante a presença de evangélicos conservadores.
É aqui que Oral Roberts, um dos ícones religiosos do país, fundou a sua universidade, em 1963, e concebeu, a partir de visões de Jesus Cristo, um grandioso complexo hospitalar.
Batizado de Cidade da Fé, sua vocação era unir medicina e preces. O complexo médico carismático foi inaugurado em 1981 e, em menos de dez anos, em meio a uma profunda crise financeira (e a despeito dos US$ 9 milhões arrecadados entre os fiéis, graças a uma campanha televisiva), teve de converter suas torres em prédios de escritório.
Em 2007, Richard Roberts, filho mais moço de Oral e principal herdeiro da igreja do pai, se viu envolvido num escândalo de malversação de verbas e foi obrigado a se demitir da presidência da universidade.
Oral Roberts ficou conhecido, a partir dos anos 40, por suas cruzadas pelo país, primeiro em tendas itinerantes e depois no rádio e na televisão.
Pregava a cura pelo toque -paralíticos largavam as muletas e saíam andando, mudos falavam, cegos passavam a ver. Exortava os telespectadores a aproximarem as mãos da tela do televisor em casa.
Gerou controvérsia quando passou a dizer que também ressuscitava mortos.
Carlton Pearson, 55, veio para Tulsa estudar na Universidade Oral Roberts, o maior sonho de sua família de quatro gerações de pentecostais negros e pobres de San Diego, na Califórnia. E logo se tornou o preferido de Roberts, que precisava de cantores negros em sua igreja.
“Eu era o filho negro de Oral”, diz Pearson, com uma ponta de orgulho, em seu escritório no centro de Tulsa.
Durante anos, ele e Richard, que se preparava para herdar o império evangélico do pai, trabalharam juntos para a igreja, como irmãos: “Cantávamos, pregávamos e tirávamos o diabo do corpo das pessoas”.
O talento de Pearson para o negócio vinha de longa data, desde que, aos 16 anos, expulsou o diabo do corpo da namorada: “Tínhamos jejuado e rezado juntos. E ela foi possuída. Depois, achei que era uma traidora. Mas, se acredita no diabo, do modo como fomos ensinados a crer, ele se manifesta”.

O pastor herege
Pearson acabou alcançando projeção nacional como líder da maior igreja neopentecostal de Tulsa, a Higher Dimensions (Dimensões Superiores) -com 5.000 membros-, e organizador de uma concorrida conferência anual de 40 mil pastores evangélicos, antes de cair em desgraça e passar a ser chamado de herege por seus pares.
Sua heresia não foi de ordem financeira ou sexual, pecados que têm acometido evangélicos ilustres nos EUA, levando-os a perder não só a moral mas suas congregações.
É o caso célebre de Ted Haggard, que comandava a Associação Nacional de Evangélicos, com 30 milhões de membros, e que foi à televisão condenar Pearson, antes de cair ele mesmo em desgraça, em 2006.
Haggard, que também estudou na Universidade Oral Roberts antes de fundar a New Life Church (Igreja Vida Nova), em Colorado Springs, era um homem casado e pregava os valores da família contra o aborto e o casamento homossexual, até ser desmascarado como consumidor de metanfetaminas e cliente regular de um “acompanhante profissional”.

O inferno não existe
“Acho que agora ele está tentando conseguir um diploma em psicologia”, diz Pearson, cuja descida aos infernos teve início quando passou a dizer, para indignação e horror de seus colegas evangélicos, que o inferno não existe.
A iluminação veio em 1995, enquanto assistia a um programa sobre o genocídio em Ruanda, na TV:
“Somos nós que criamos o inferno. Vi tudo aquilo com meu filho pequeno sentada no colo. Ouvi a voz que eu achava ser de Deus, falando à minha alma, perguntando sobre meu filho, que engatinhava entre as minhas pernas: “O que esse menino pode fazer para você mandá-lo para o inferno, para ser torturado para sempre?”. Nada, pensei. “E o que o leva a pensar que nós faríamos isso com ele?”, disse a voz. Está na Bíblia, respondi. Comecei pelo inferno e acabei denunciando a Bíblia. Muito do que está na Bíblia é superstição, mito. Passei a pregar isso toda semana. Não dizia literalmente, preto no branco, mas já não idolatrava as Escrituras. Foi o que me pôs em apuros com os evangélicos.”
Pearson se converteu ao que hoje ele chama de “evangelho da inclusão”: o amor aos marginalizados, aos drogados, aos homossexuais, aos soropositivos etc. Mas foi só depois da eleição de Bush, em 2000, que ele próprio e seus pares começaram a entender as conseqüências do que estava dizendo. Afinal, se o inferno não existe e ninguém precisa ser salvo, para que servem as igrejas?
Os fiéis debandaram. No final, restavam 200 num auditório de 2.200 lugares. Em dezembro de 2005, Pearson foi obrigado a vender a igreja.
“A propriedade valia cerca de US$ 6 milhões. Ainda devíamos US$ 2,8 milhões de hipoteca. Renunciei ao nome. Perdi meu programa de TV, meus direitos intelectuais, meu seguro. Fiquei só com as calças.”

Bispo de brinco
“Perdi meus cartões de crédito. Minha renda vinha de pregações e palestras. Ninguém me convidava para mais nada. Ted Haggard foi à TV dizer que, se me abandonaram, era o mercado, como um show do qual as pessoas não gostam. Há 1.600 denominações religiosas nos EUA. Se você não gosta do que é dito numa igreja, atravessa a rua e vai assistir ao serviço em outra. As pessoas são devotas do inferno. Têm um compromisso com o inferno. Então, quando tirei o diabo delas, ficaram indignadas e o queriam de volta”, diz.
Pearson fundou imediatamente uma nova igreja (a New Dimensions, Novas Dimensões) para pregar seu “evangelho da inclusão”.
Reinventou sua vocação pentecostal em meio ao universo das igrejas liberais americanas: “Ainda sou bispo, mas onde é que já se viu um bispo de brinco?”, diz, às gargalhadas, apontando para a argola na orelha.
Hoje, já olha para trás com ironia. Mantém um escritório no 29º andar do segundo prédio mais alto do centro de Tulsa, com fotos dos filhos e da mulher sobre a mesa, de onde avista não apenas um punhado de igrejas de diferentes denominações, aos seus pés, mas também as torres da Cidade da Fé, ao longe: “Queria poder ver as coisas de cima”, diz, rindo.
A comunidade judaica e os gays o acolheram na queda. E, desde então, passou a freqüentar os que antes condenava. “Eu costumava passar pela frente desta igreja dizendo “o diabo mora aí”. E agora o diabo sou eu aqui”, diz para uma platéia de 30 pessoas, durante o serviço de quarta-feira à noite, na Igreja Unitária Todas as Almas.
A igreja fica num dos bairros residenciais mais afluentes de Tulsa, construído com o dinheiro do petróleo, e é a maior congregação de uma das denominações religiosas mais heterodoxas do país, a ponto de não pregar a Bíblia.
“Eles já não eram racistas quando não era permitida a entrada de negros neste bairro depois das seis da tarde. Era esta igreja que o filho mais velho de Oral Roberts freqüentava quando se suicidou. Foi a única que o recebeu, porque ele era gay. Há muita hipocrisia na religião. Os fundamentalistas estão cheios de adúlteros, alcoólatras, fornicadores, drogados. Sabem disso e estão cansados de si mesmos. Os militantes antiaborto não fraquejam enquanto suas filhas não forem estupradas por um negro. Aí eles ficam a favor do aborto. Todo mundo é contra o aborto enquanto for conveniente”, diz.
Pearson é republicano registrado desde a eleição de Ronald Reagan, em 1980. Fez campanha por Bush, em 2000, e foi recebido na Casa Branca.
Mas fica indignado quando lhe perguntam se faria o mesmo por McCain: “A América é muito orgulhosa para pôr na Casa Branca um homem que não consegue levantar o braço. Também não vai pôr ali um homem com sotaque. Nem um homem com aparência desagradável. Tampouco gosta de homens de óculos. É uma coisa psicológica. McCain não consegue apertar a mão das pessoas com o vigor de Obama”.

Galinha morta
Falando em inferno, Pearson se lembra de uma visita ao Rio: “Vi garotos que formavam pequenas quadrilhas para roubar, abandonados nas ruas como cachorros. Eu chorei. E aí me levaram para visitar o Cristo [Redentor]. Me senti paralisado. O que nos leva a fazer isso uns aos outros? Lá de cima, via uma igreja a cada esquina”.
“Uma catedral católica, uma igreja pentecostal e o fetichismo de uma galinha morta na qual eu tropecei ao entrar num banco. O que é que está acontecendo? Não há diferença entre a galinha morta e a catedral. É alimento para uma mentalidade fetichista de um Deus bravo que o matará se você não beijar os pés dele. Quero ver você publicar isso.”

“Folha de S. Paulo”

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Esquerdas e direitas, hoje!

Os inúmeros problemas da esquerda ajudaram as direitas a se camuflarem melhor e se postarem como única e verdadeira solução. O atual contexto internacional é bastante favorável às posições conservadoras e ao mito de que não existe mais espaço para o pensamento de esquerda.

Luís Carlos Lopes

Mais de duzentos anos se passaram da revolução francesa, entretanto, a distinção entre direita e esquerda permanece viva e útil para a compreensão do espectro político atual. Na origem, estes termos de uso político nasceram por designar os lados onde se sentavam os membros da Assembléia de 1791. Os da esquerda queriam a afirmação e o aprofundamento dos princípios dos direitos do homem e os referentes à legítima luta contra a opressão. Os da direita queriam os suprimir ou dar um jeito de contorná-los. Desde lá, havia gradações à esquerda e à direita e não faltaram os que se afirmavam numa posição, na verdade desejando a outra. Os disfarces e os artifícios retóricos existiam há séculos. Não foram inventados pela modernidade dos acontecimentos de 1789.

Nos últimos dois séculos, a mesma distinção, com todos os seus problemas,
foi e continua sendo usada por toda parte. Continua sendo possível medir
o arco que leva da direita à esquerda com todas suas inflexões. Nem sempre é fácil perceber os disfarces, bem como, o exagero do discurso que escamoteia os propósitos efetivos de quem se postula de esquerda ou é reconhecido como de direita. Lembrando-se sempre que é mais fácil o auto-reconhecimento à esquerda. Poucos desejam ser considerados membros do outro campo ideológico.

Escondem, enquanto podem, o que realmente acreditam. Atualmente, quem é de direita costuma dizer que a distinção não é mais válida, remete a um outro tempo etc. Quem foi de esquerda e traiu suas convicções tem imenso interesse em confundir sua audiência, desejando que se esqueça do passado, como se fosse possível renascer das cinzas.

O olhar de quem é realmente de esquerda não compactua com a exploração do homem pelo homem, nas suas imensas variações. Não aceita que as pessoas sejam manipuladas e a elas sejam negados os seus direitos mais essenciais. Não concorda com a disseminação da ignorância e com o impedimento do acesso às informações políticas e científico-culturais fundamentais. Não pode assentir com direitos e tratamentos desiguais, independentemente do sexo, da idade, das características raciais e das posições ocupadas no tecido social por qualquer pessoa. Acredita que as ordens socioculturais e políticas não são naturais e que podem ser modificadas, no interesse coletivo.

Como fazer valer tudo isto sempre foi muito difícil, ser de esquerda foi
confundido com viver fora da realidade, não ter juízo e acreditar no impossível. No século XX, as coisas se complicaram ainda mais, porque, em nome da esquerda foram cometidas atrocidades típicas das direitas, cultivaram-se idéias, práticas e comportamentos muito próximos aos que as direitas sempre defenderam. O filme alemão, em cartaz, A Vida dos Outros, dá uma boa idéia do problema.

A história hoje conhecida do chamado socialismo real de Estado ajudou a confundir as opiniões e facilitou o trabalho das direitas. Por causa disto, é bom identificar a que tipo de esquerda se pertence. Tal como na velha revolução francesa, razões de Estado podem suplantar e, mesmo, destruir os ideais que deram início ao processo.

Os inúmeros problemas da esquerda ajudaram as direitas a se camuflarem melhor e se postarem como única e verdadeira solução. O atual contexto internacional é bastante favorável às posições conservadoras e ao mito de que não existe mais espaço para o pensamento de esquerda. As grandes mídias alardeiam a todo tempo o fim da possibilidade de criação de sociedades mais justas. Difundem, com o apoio de inúmeros intelectuais, a idéia de que não se pode compreender o mundo objetivamente e se lutar contra as iniqüidades atuais. Tentam dominar as consciências por meio da intriga, da mentira e de modos de pensar imunes a quaisquer saídas mais racionais. Apelam para um excesso de emoções alienadas e escondem a existência das ciências e das artes eruditas e populares autênticas,
as substituindo pelo pastiche grotesco, o obscurantismo e o misticismo. No
interior destas mídias, alguns tentam heroicamente evitar que a luz desapareça completamente. Isto significaria o fim de tudo, o apocalipse para quem ainda pensa e deseja fazer um trabalho decente. Para as direitas, não há problema. Elas estão acostumadas a viver com os entes dos infernos.

Ser de direita é bem mais fácil. Significa estar de acordo, mesmo que a razão indique que não se está dizendo a verdade ou que a causa defendida pode dar prejuízos até mesmo a quem a defende. Existem os que são de direita por estar defendendo seus interesses, por serem poderosos e desejarem ainda mais poder. Infelizmente, há os que defendem idéias de direita contra si próprios. Advogam crenças que os penalizam. Deixam de usar da razão e mentem para si mesmo.

Uma das velhas discussões sobre o mesmo problema é a de saber porque alguns aceitam, na grande imprensa, por exemplo, ter posições tão claramente de direita, mesmo não sendo donos dos jornais e revistas onde escrevem. O falso enigma por vezes aparece, quando se descobre, em alguns casos conhecidos, que os mais aguerridos são também os que recebem de várias fontes. A notícia e a opinião são mercadorias que podem ser oferecidas e vendidas por telefone ou em reuniões privadas. Basta consultar as janelas do noticiário existentes, sobretudo nas mídias alternativas, e ver as pontas dos icebergs, deste velho problema.

Luís Carlos Lopes é professor.

“Carta Maior”

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Governo italiano envia tropas às ruas para combater o crime e a imigração ilegal

Elisabetta Povoledo

Soldados foram posicionados por toda a Itália na segunda-feira, para controlar embaixadas, estações de metrô e ferroviárias e os centros para imigrantes ilegais, como parte de medidas mais amplas do governo para combater a criminalidade.

Quando entrar plenamente em vigor na próxima semana, o esforço colocará cerca de 3 mil soldados ao lado da polícia regular e da polícia militar, um sinal visível aos cidadãos de que o governo “respondeu às suas exigências de maior segurança”, disse o ministro da Defesa, Ignazio La Russa, em uma entrevista ao canal italiano “Sky News”.

O governo conservador de Silvio Berlusconi ganhou as eleições em abril prometendo reprimir a criminalidade e a imigração ilegal, que as pesquisas indicavam ser as principais preocupações aqui.

“A segurança às vezes é concreta”, disse La Russa na segunda-feira. E os soldados serão “dissuasor (concreto) para os criminosos”, apesar de não poderem efetuar prisões.

Os críticos condenaram o uso das tropas como uma medida supérflua que poderá se mostrar contraproducente.

“Colocar as tropas nas ruas transmite uma mensagem dramática de que a situação é mais séria do que é na verdade”, disse o líder do partido de oposição Esquerda Democrática, Marco Minniti, em uma entrevista por telefone.

Em vez de transmitir um senso de segurança, ele afirmou, a militarização das cidades italianas “resultará no oposto”.

Na segunda-feira, os soldados começaram a patrulhar as ruas de dezenas de cidades. Em Milão, tropas foram posicionadas ao redor da catedral gótica, e em Nápoles elas ficaram de olho no consulado americano.

Os noticiários de televisão mostraram os oficiais militares revistando as bagagens dos imigrantes nas estações de metrô.

Na capital, os soldados serão posicionados ao redor das embaixadas, consulados e centros para imigrantes ilegais nos bairros afastados.

Eles não protegerão os monumentos históricos da cidade. As autoridades locais disseram que sentiam que uma presença militar poderia afugentar os turistas.

“Eles só estarão em áreas onde não terão impacto sobre os cidadãos normais”, disse o prefeito de Roma, Gianni Alemmano.

Outros críticos da medida, parte de um pacote maior anticriminalidade que passou pelo Parlamento no mês passado, argumentaram que as forças armadas italianas eram mais adequadas para lidar com emergências no Líbano, Afeganistão e Iraque do que com crises urbanas domésticas.

“É preciso treinamento especializado para executar estes tipos de controle”, disse Nicola Tanzi, o secretário de um sindicato que representa a polícia. “Soldados não estão qualificados.”