Arquivo de 1 de Agosto de 2008

Bairros fantasmas na Espanha testemunham a crise imobiliária

Isabelle Rey-Lefebvre

Na saída da estação de metrô Las Suertes, nova em folha, a escada-rolante dá para um campo de papoulas… e de guindastes. Nesse bairro de Vallecas, no sul de Madri, 26 mil moradias estão sendo concluídas. As grandes avenidas um pouco exageradas são margeadas de condomínios com 100 a 150 unidades, todos concebidos pelo mesmo modelo: edifícios de oito a dez andares em torno de um pátio com piscina e quadras de jogo, cujo acesso é rigidamente vigiado por guardas e câmeras. Tudo parece no lugar - as grandes lojas Carrefour, Ikea -, o colégio, mas falta o essencial: moradores para ocupar os edifícios meio vazios e as pequenas lojas para dar vida às ruas.

O frenesi imobiliário que a Espanha conheceu desde 1997 e seu fim brutal são visíveis aqui. “Nós esperávamos, é claro, um ajuste suave da produção de moradias, que era superior à demanda, mas não uma desaceleração tão radical, devido ao choque externo da crise americana e ao disparo dos preços do petróleo e das matérias-primas”, admite José Manuel Galindo, presidente da associação de construtores de Madri (Asprima).

A produção de residências atingiu um pico em 2007, com 641 mil apartamentos entregues, mas não deverá passar de 400 mil em 2008 e 250 mil em 2010. “Parece que os compradores se evaporaram”, conta um banqueiro. “Primeiro, a clientela das residências secundárias do litoral (30% do mercado), entre eles muitos estrangeiros, depois os pequenos especuladores (20%), que compravam com o objetivo de revender alguns meses depois com um belo lucro, e enfim os compradores de sua residência principal, hoje insolúveis devido à alta dos juros”, ele acrescenta.

O número de transações caiu 7,7% no último trimestre de 2007 e despencou 29% no primeiro trimestre de 2008, segundo as estatísticas sobre contratos de venda registrados. Diante de uma demanda anual de cerca de 400 mil unidades, o estoque de moradias novas incha: a Asprima estima em 175 mil apartamentos acabados e não-vendidos e prevê que poderá duplicar até o fim de 2008. “Poderemos a partir de 2010 absorver em três ou quatro anos”, espera Galindo. Outros especialistas, como o consultor Rodriguez R. de Acuna, estimam em cerca de 2 milhões o número de moradias novas que não encontraram compradores.

Só o preço do metro quadrado resiste. No primeiro trimestre de 2008 ele ainda aumentou 3,8%, o que, com uma inflação de 4,2%, constitui uma ligeira queda, muito longe dos aumentos de 15% ao ano observados em 2002-2005. Os vendedores, construtores e particulares dificilmente admitem reduzir suas pretensões. Algumas construtoras multiplicam as vantagens oferecidas aos compradores, como um ano de crédito sem juros ou sem taxas de hipoteca; outros tentam, para aliviar os preços, alugar as residências não-vendidas com o objetivo de vendê-las ocupadas para investidores, a quem propõem até garantir o aluguel. O Deutsche Bank estima que o preço dos imóveis residenciais na Espanha deverá cair 20% até 2010, ou seja, 35% incluindo a inflação.

As construtoras mais endividadas, notadamente as que adquiriram terrenos no alto do ciclo e cujo valor despenca (7,7% entre março de 2007 e março de 2008), já são obrigadas a reestruturar sua dívida, como a Afirma, ex-Astroc, ou a Colonial.

A crise imobiliária não passa sem conseqüências para toda a economia do país. O PIB depende 9% do mercado residencial e 18% das atividades de construção. O desemprego aumentou em um ponto percentual, para 9,6%, nos três primeiros meses deste ano.

Mas os bancos não parecem preocupados demais. “Nós temos o melhor Banco Central do mundo”, felicita-se José Luis Castillo, delegado geral da Dexia Sabadell. “Advertido pela primeira crise dos anos 1990, ele obrigou os estabelecimentos a constituir provisões chamadas anticíclicas ou generalistas e a limitar os empréstimos de risco”, ele continua. Mesmo que o índice de famílias inadimplentes tenha aumentado, não passa de 1%, duas vezes menos que em outros bancos da Europa.

“Le Monde”

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Colapso do sistema de saúde faz expectativa de vida despencar no Zimbábue

Pere Rusiñol

Se Lucy Makaza-Mazingi fosse nomeada ministra na Espanha, no mínimo isso traria uma grande agitação. Ela tem apenas 35 anos e muitos sábios franziriam a testa ante a sua falta de experiência. Mas Lucy vive no Zimbábue e em Harare ela é quase uma velha: tem toda a vida à sua frente, mas já supera a expectativa de vida das pessoas no país do sul da África. Quando o Zimbábue conquistou a independência, em 1979, as pessoas tinham uma expectativa de vida próxima dos 60 anos. Desde então, esta se elevou em quase todo o mundo, exceto no Zimbábue, onde entrou em queda livre depois de 28 anos de governo de Robert Mugabe, o herói da independência, agora transformado em pesadelo: a média de hoje é de apenas 35 anos, a mais baixa do mundo, segundo a ONU.

“Sinto-me muito jovem, mas aqui tudo é diferente. Posso estar contente porque superei a média”, explica Lucy Makaza-Mazingi, sempre otimista. O colapso da economia - 80% de desemprego e 160.000% de inflação, número que alguns cálculos independentes elevam até 1.000.000% - fez como primeira vítima o sistema de saúde. Antes, os hospitais do Zimbábue eram uma referência para toda a África. Agora não existem.

“Os protocolos continuam sendo muito bons e o sistema foi muito bem planejado: o problema é que não há dinheiro para mantê-lo”, explica Manuel López, responsável pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Zimbábue. Todas as ONGs foram colocadas em quarentena pelo governo de Robert Mugabe, que as considera aliadas do “imperialismo”, mas a MSF mantém abertos seus escritórios em um país que desmorona.

De fora, os hospitais de Harare parecem bem. O problema é dentro: a maioria dos médicos - alguns cálculos independentes falam em mais de 50% - foram embora nos últimos anos. A hiperinflação faz com que em apenas dois meses se gaste o orçamento de todo o ano, e os que ficaram trabalham praticamente de graça - com salários que são bons no papel, mas irrisórios na prática - e sem meios: a falta de luz é constante e não há medicamentos.

“Cada vez está mais difícil lutar. Antes eu tinha tratamento gratuito. Agora preciso pagar para receber a maior parte dos remédios e não tenho dinheiro. Vou ao hospital e me dizem que não podem me dar o que necessito, e preciso me virar”, explica Tariro Cihkwantha, de 47 anos, soropositiva desde 1997. O pouco que ganha como subsídio do Estado não serva para nada, porque a hiperinflação tudo devora.

A Aids está fora de controle no Zimbábue e é a principal causa da abrupta queda na expectativa de vida. Agora o regime se vangloria porque no papel sua incidência está caindo, algo que em teoria afeta 20% da população.

Mas as ONGs que trabalham com a epidemia - no Zimbábue, trata-se de uma epidemia fora de controle - temem que a redução tenha uma outra causa, muito mais brutal: a mortandade é tão elevada que obrigatoriamente deve reduzir a porcentagem de pessoas afetadas. As ONGs que trabalham nessa área calculam que 3.000 pessoas morrem a cada semana como conseqüência da Aids. Em silêncio.

As eleições pioraram ainda mais a situação, já muito dramática. No início do mês, o governo de Robert Mugabe limitou muito o trabalho das ONGs: considerou-as aliadas do imperialismo.

“El País”

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Restrições às exportações ampliam crise de alimentos

Alan Beattie e Javier Blas

Dale Wiest, gerente da Unga, uma empresa moedora de milho na capital queniana de Nairóbi, vê o efeito que as desesperadas restrições de comércio têm no preço dos alimentos muito claramente.

No ano passado ele comprou metade de seus grãos da vizinha Tanzânia. Mas depois de uma safra ruim, o país baniu as exportações em janeiro. “Desde então, não podemos mais comprar deles”, diz. Os preços do milho no Quênia estão um terço mais altos do que há um ano e Wiest está pessimista. “Acho que os preços vão aumentar mais ainda”, disse.

A produção de alimentos, como a maioria das indústrias, tornou-se cada vez mais globalizada à medida que o transporte se tornou mais barato e a comunicação mais eficiente. Mas o comércio de alimentos está longe de ser livre: assim como os têxteis e o vestuário, ele tem sofrido há tempos com restrições impostas pelos governos. As distorções resultantes ajudaram a moldar a crise que desencadeou saques de alimentos em cerca de 30 países neste ano - e o boicote de exportações imposto pelos governos em todo o mundo exacerba esta situação.

O crescimento de países exportadores com uma agricultura hipereficiente como o Brasil e a Tailândia durante as últimas décadas pode ser comparado à abertura dos pampas argentinos e da pradaria norte-americana durante o fim do século 19, que revolucionou o comércio de trigo e carne. O Brasil em particular, dotado de água em abundância e milhões de quilômetros quadrados de pastos cultiváveis (e a floresta Amazônica, ilicitamente) tornou-se para muitas commodities - açúcar, carne, soja, suco de laranja e frango - o que a China é para os bens manufaturados e a Índia para a terceirização de serviços de negócios.

Alguns países em desenvolvimento passaram a depender substancialmente de importações para suprir a demanda de itens básicos como trigo, milho e arroz. O Egito, por exemplo, cuja população mais do que dobrou nos últimos 20 anos e está cada vez mais urbanizado, importa cerca de metade de seu principal alimento, o trigo. Tony Allan, especialista em uso da água na Escola de Estudos Africanos e Orientais em Londres, diz que o país não tem escolha, uma vez que não é mais capaz de alimentar sua população de forma sustentável - mesmo com os recursos de água do Nilo. No mês passado, o presidente egípcio Hosni Mubarak, ordenou ao exército que aumentasse a produção de pão nas muitas padarias que controla - normalmente usadas para produzir pão para seus próprios soldados - para fazer frente às filas cada vez mais longas pelo alimento e ocasionais irrupções de violência.

Mas apesar de esses grãos básicos serem facilmente trocados, já que não são perecíveis, é impressionante o quão pouco eles são vendidos além das fronteiras internacionais. O arroz fornece quase que um terço das calorias dos países em desenvolvimento, mas apenas cerca de 6% a 7% da produção mundial é exportada, apesar das grandes variações em produtividade e preço entre os países.

Isso é decorrente em parte da crença de que a “segurança alimentar” - garantindo o suprimento do sustento básico - é melhor servida mantendo uma grande proporção da produção em casa, especialmente nos países onde as cadeias de importação são ineficientes ou controladas por monopólios que podem restringir as vendas para aumentar os preços. Como resultado, o mercado internacional de arroz está longe de ser eficiente, fracionado em uma série de acordos bilaterais em vez de basear-se numa troca líquida.

A preferência pela produção interna nos países mais ricos revela outro motivo familiar: uma afeição histórica pelo cultivo que está normalmente ligada ao apego emocional pela cultura, pela cozinha e pela paisagem. Os pequenos produtores do Japão e da Coréia do Sul, por exemplo, que cultivam arroz em terraços nos sopés das montanhas, estão entre os mais mimados do mundo: algumas das tarifas japonesas que mantêm os competidores estrangeiros com produtos mais baratos fora do mercado chegam a passar dos 700%.

Essas intervenções com freqüência distorcem os números do mercado mundial. Os governos impõem tarifas e subsídios para manter os ganhos dos fazendeiros mais altos do que seria possível se eles estivessem submetidos à competição do mercado livre. Às vezes eles também compensam os consumidores com subsídios para manter os preços baixos.

Essas intervenções variam de país para país, inevitavelmente. O Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês), sediado em Washington, estima que os preços domésticos de milho no México estejam 35% mais altos do que os preços mundiais desde o começo de 2005, enquanto na Índia o arroz está em média mais de duas vezes mais caro do que no mercado mundial. Mas como os preços de venda normalmente permanecem fixos, os sinais dos mercados mundiais são silenciados.

Pacificar os fazendeiros e os consumidores pode ser relativamente fácil, apesar de não necessariamente eficiente, quando os preços dos alimentos estão estáveis. Mas os preços altos e voláteis de hoje tornam cada vez mais caro atenuar o golpe para os consumidores e muitos dos governos dos países mais pobres não são capazes de segurar os preços dos alimentos indefinidamente. Em vez disso, começaram a remover as tarifas de importação e banir as exportações na tentativa de transferir os ganhos diretamente dos fazendeiros para os consumidores - na realidade evitando que os fazendeiros vendam sua produção pelo melhor preço que conseguirem nos mercados internacionais.

Essas medidas podem aliviar os problemas da demanda doméstica a curto prazo. Mas elas também geram escassez nos mercados globais, acentuando os problemas daqueles que são obrigados a depender de importações e exportações - particularmente quando exportadores eficientes de grãos como a Argentina e a Ucrânia restringem suas vendas. Joachim von Braum, diretor-geral do IFPRI, chama essas políticas de “mate o vizinho de fome”.

Os preços dos principais alimentos são altamente sensíveis aos choques. Tanto a demanda quando a oferta tendem a ser inflexíveis, sobretudo a curto prazo. Uma vez que os grãos são o sustento mais barato disponível, os consumidores tendem a não substituí-los por outros alimentos mesmo quando os preços sobem.

Também é difícil colocar uma nova produção funcionando rapidamente. A oferta normalmente cresce em apenas 1% a 2% para um aumento de preços de 10%. A demanda mundial por cereais aumentou 8% e desde então tem se acelerado, em parte em decorrência da expansão dos programas de biocombustíveis subsidiados pelos Estados que substituíram as lavouras de alimentos.

Isso foi exacerbado pelas políticas governamentais. Se a primeira reação for manter a produção fora do mercado mundial, os preços irão aumentar ainda mais. Piet Bukman, ex-ministro do comércio e agricultura da Holanda que agora é presidente do Conselho Internacional de Políticas Agrícolas e de Alimentos, uma associação de especialistas em comércio, diz: “Os produtores agrícolas precisam de uma boa transmissão dos sinais do mercado, que normalmente é impedida pelos boicotes de importação e exportação, mesmo que esses sejam implementados em nome da segurança alimentar.”

Os países pobres, muitos deles na África Sub-Saariana, são particularmente vulneráveis uma vez que seus setores agrícolas variáveis e pouco produtivos os tornam extremamente dependentes da importação de alimentos básicos. Os grãos (incluindo o arroz) somam 63% das calorias consumidas nos países de baixa renda da Ásia e cerca de metade do que é consumido na África Sub-Saariana. A Eritréia, por exemplo, importa 87% de seus grãos e as exportações do país cobrem apenas 25% de sua conta de importação de alimentos, o resto é financiado com a ajuda de doações de países ricos. Os países africanos tipicamente exportam produtos tropicais como o café, chá e frutas, cujos preços não acompanharam os preços dos grãos básicos.

Nos países em desenvolvimento, alguns se dão bem e outros se dão mal com os preços altos. Os moradores das cidades que consomem mas não produzem os alimentos tendem a se dar mal, mas não são os únicos.

Existe uma noção de que, uma vez que a maior parte da pobreza do mundo em desenvolvimento está concentrada nas áreas rurais, os altos preços de alimentos são bons para os mais pobres. Mas isso varia consideravelmente de país para país, dependendo de quantas famílias vendem mais alimentos básicos do que compram. Os pobres de Bangladesh, por exemplo, tendem em média a perder: 22% do lucro dos compradores de alimentos vão para os grãos. No Vietnã, por outro lado, há pequenos produtores mais competitivos que tendem a se beneficiar com os preços altos.

Acima de tudo, diz Braun, “não há evidências que suportem a idéia de que os preços mais altos das safras podem em geral fazer com que as famílias pobres ganhem mais ao vender a produção do que perderiam ao consumir”.

Além de cortar as tarifas de importação, como muitos governos de países em desenvolvimento estão fazendo, e voltando atrás nos subsídios governamentais para os biocombustíveis, o que os governos ricos estão resistindo em fazer, há poucas soluções imediatas para o aumento dos preços dos alimentos. A última vez que aconteceu uma crise global foi no começo dos anos 70, quando houve uma combinação familiar de aumento geral nos preços das commodities, estremecimento do mercado financeiro e aumento da demanda por alimentos no mundo em desenvolvimento. As políticas então tinham dois vieses: mudar a intervenção dos governos para encorajar a oferta e aumentar a produtividade usando novas tecnologias. A perspectiva de fazer o mesmo dessa vez pode ser mais limitada.

Nos anos 70, os Estados Unidos reverteram quarenta anos de uma política agrária que vinha desde a Grande Depressão e mudaram seus programas para encorajar a oferta em vez de sustentar os preços limitando a produção. Uma reforma subseqüente, em parte instigada por acordos de comércio mundiais que tentavam acabar com as distorções dos mercados agrícolas, desde então fez pouca diferença nesse modelo básico. Os fazendeiros americanos são pagos para produzir. A mesma reforma não pode ser repetida, e tirar os subsídios dos EUA para os produtores de trigo e arroz - uma demanda-chave feita pelos países em desenvolvimento nos acordos de comércio - iria aumentar, e não diminuir, os preços globais dos alimentos.

A médio prazo, as perspectivas para a oferta se baseiam em usar mais terra e melhorar o acesso dos fazendeiros às finanças e aos mercados. A longo prazo, a esperança está na tecnologia - na adoção em larga escala de alimentos modificados geneticamente ou na repetição da “Revolução Verde” dos anos 60 e 70 que produziu novas variedades de grãos e ajudou países como a Índia a se tornarem auto-suficientes em alimentos. Mas o trabalho pelos mesmos avanços na África, apesar de ser algo perseguido com urgência por doadores como a Fundação Bill e Melinda Gates e o Earth Institute da Universidade de Columbia, ainda está em um estágio inicial.

No momento, a reação automática de muitos governos tem sido resolver uma distorção do mercado com outra e tornar o problema pior. Pedro de Camargo Neto, ex-chefe de negociações agrícolas do Brasil em diálogos de comércio globais e regionais, diz: “é muito frustrante ver nossa vizinha Argentina cometer os mesmos erros que o Brasil cometeu há 20 anos, com boicotes de exportação e proibições. A solução é criar os sinais do mercado que significam mais produção, melhor tecnologia e maior estabilidade. As proibições às exportações não são uma solução para ninguém.”

Custos em alta destroem os lucros dos fazendeiros
Será que os preços recorde dos alimentos podem ser sua própria cura, levando os fazendeiros ao redor do mundo a aumentarem suas produções? Uma viagem de campo recente de Josette Sheeran, diretora do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, ao Quênia forneceu pouca evidência para sustentar essa visão.

Quando, numa reunião com um grupo de fazendeiros, Sheeran pediu para que eles levantassem as mãos se estivessem se beneficiando do aumento dos preços das commodities agrícolas, nenhum entre as duas dúzias de presentes o fez. “Definitivamente não há benefício”, disse Carl Tundo, gerente da Grãos Lesiolo no Quênia, a Sheeran. “Os custos de produção aumentaram absurdamente nos últimos seis meses - tudo, desde os fertilizantes às sementes e combustíveis, está mais caro.”

Mesmo com o aumento dos preços de venda, o alto custo da produção - especialmente dos fertilizantes e do diesel - freqüentemente impede que os fazendeiros de países pobres na África Sub-Saariana e no Sudeste Asiático tenham lucro.

No Paquistão, por exemplo, o governo previu uma queda na safra de trigo nesta primavera e verão, apesar dos preços recordes. Isso porque os fazendeiros de lá diminuíram pela metade o uso de fertilizantes depois de um aumento de quase 50% no ano passado. O menor uso de fertilizante reduziu a safra de trigo, erodindo o lucro dos fazendeiros.

Nestor Osorio, diretor executivo da Organização Internacional do Café, diz que os preços explosivos do petróleo estão exercendo um impacto negativo nos lucros dos fazendeiros de café. “Isso pode fazer com que eles cortem o uso de fertilizantes, com uma queda conseqüente na produtividade.”

Isso é má notícia para o suprimento mundial de produtos agrícolas. Pior ainda, os fazendeiros dos países pobres podem não conseguir aumentar suas plantações - e em alguns casos até mesmo reduzir suas lavouras - apesar dos preços recordes e da forte demanda atual.

A situação é diferente nos países ricos da Europa e nos EUA, onde os preços dos produtores estão mais próximos daqueles praticados no mercado internacional e, além do mais, os fazendeiros recebem generosos subsídios governamentais. A combinação está incentivando os fazendeiros a plantarem mais num esforço para tirarem o maior benefício do aumento da demanda.

O Departamento de Agricultura dos EUA prevê que os fazendeiros do país plantarão a maior lavoura desde 1984, apesar de não estar claro se essa expansão se traduzirá em uma safra excepcional, por causa da qualidade ruim de boa parte das novas terras.

O lucro agrícola líquido nos EUA está previsto para chegar a um recorde de US$ 92,3 bilhões este ano, um aumento de 4,1% em relação a 2007. Joseph Glauver, economista-chefe do Departamento, disse aos fazendeiros numa conferência recente que não haverá muita discussão quanto ao fato de 2007 ter sido “um dos melhores anos que a agricultura já viu”.

“Enquanto olhamos adiante para 2008, o cenário parece montado para outro ano de prosperidade e crescimento”, disse Glauber em uma reunião de quase mil fazendeiros sorridentes e executivos da indústria de alimentos.

Os fazendeiros ocidentais também desfrutam do acesso dos mercados futuros de commodities, o que permite que eles mantenham os preços altos atuais. Além disso, eles podem fazer seguro sobre suas safras - a preços subsidiados, graças ao apoio do governo - contra danos do clima.

Isso está a um mundo de distância dos boicotes de exportação e controle de preços que os governos dos países em desenvolvimento vêem como principais ferramentas para assegurar que suas populações sejam alimentadas. Esses mecanismos desencorajam o aumento da produção, não somente nos países mais pobres mas também em maiores economias em desenvolvimento essenciais para a produção agrícola - como a Argentina, a Ucrânia ou o Vietnã.

A Argentina é em particular um bom exemplo. Depois que o governo baixou uma tarifa de exportação de 44% sobre os grãos de soja, a safra foi adiada e os analistas diminuíram suas previsões em relação ao tamanho da área plantada no próximo ano. Os fazendeiros dizem que não há incentivo para plantar mais se não podem colocar no bolso o lucro com os preços internacionais recordes.

No Egito, onde o preço do arroz local aumentou US$ 200 por tonelada em outubro passado para US$ 430 no começo desse mês, a decisão do governo de banir as exportações por seis meses fez com que o preço caísse US$ 100 em um só dia.

Os controles nacionais de preços são especialmente prejudiciais, de acordo com Joachim von Braun, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar sediado em Washington. “Os controles de preço reduzem o valor que os fazendeiros recebem pelos seus produtos agrícolas e assim reduzem seu incentivo para produzir mais alimentos”, disse.

“Financial Times”

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Colar de histórias

Íntegra do discurso de Eduardo Galeano na cerimônia de sua titulação como primeiro cidadão ilustre do Mercosul

Eduardo Galeano

Nossa região é o reino dos paradoxos.

Vejamos o Brasil: paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as maiores belezas da arte colonial; paradoxalmente, Garrincha, debilitado desde a infância pela pobreza e poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que ofereceu mais alegria em toda história do futebol e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, o mais novo dos arquitetos e o mais jovens dos brasileiros, completou cem anos de idade.

Ou vejamos a Bolívia: em 1978, cinco mulheres colocaram de cabeça para baixo uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda Bolívia riu delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, até a ditadura cair.

Conheci uma destas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povo mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de trabalhadores de minas repleta de homens, ela se levantou e calou a todos.

– Quero dizer isto – falou – Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo e o carregamos dentro de nós.

Anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Ela havia sido expulsa da Bolívia e caminhou ao exílio com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, admirava sua liberdade, mas eles lhe davam pena de tão sós que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:

– Não sejam bobos – dizia – Juntem-se. Nós, lá na Bolívia, nos unimos. Ainda que seja para brigar, nos unimos.

E quanta razão tinha.

Porque, eu digo: Existem os dentes, se não se juntarem na boca? Existem os dedos, se não se juntam na mão?

Unirmo-nos: e não apenas para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e principalmente, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, ainda que por vezes simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza e sua arrogância come medo. Há pouco tempo, vejamos, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha as portas nos narizes dos invadidos, quando eles lhe retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma impunidade espantosa, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e a viver com medo.

Medo de viver, medo dizer, medo de ser. Essa nossa região forma parte de uma América Latina organizada para a separação de suas partes, para o ódio mútuo e a ignorância mútua. Porém, apenas sendo unidos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou ao medo, resignação e solidão e que, a cada dia, nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar ao invés de criar.

*

Em toda primeira metade do século XIX, um venezuelano chamado Simón Rodriguez andou, no lombo de uma mula, pelos caminhos de nossa América desafiando os novos donos do poder.

– Vocês – bradava Simón – vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, esse homem que tanto merecia ser escutado não era ouvido por ninguém. Paradoxalmente, chamavam-lhe de louco, pois cometia a sensatez de crer que devemos pensar com nossa própria cabeça, porque cometia a prudência de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que ao que não sabe, qualquer um engana, e ao que não tem, qualquer compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:

– Não somos donos de nós mesmos – dizia – Somos independentes, mas não somos livres.

*

Quinze anos depois da morte do louco Rodriguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano deveras livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, pois não devia um centavo a ninguém e não praticava a falsa liberdade de comércio, que nos impunham e nos impõem uma economia de importação e uma cultura de enganação.

Paradoxalmente, ao fim de cinco anos de guerra atroz, entre tantas mortes, sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou e, entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a primeira língua, a língua guarani. E em guarani falam os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

Em guarani, ñeñé significa palavra e também alma. Quem mente na palavra trai a alma.

Se te dou minha palavra, me dou.

*

Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e se deu.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio do governo, também metralhado pelas tropas terrestres. Ele disse:

– Daqui, eu não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Pronunciaram-na alguns presidentes que depois saíram vivos para continuar a pronunciá-la. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago no Chile se chama, entretanto, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das torres gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos carrascos da democracia no Chile. Com todo respeito a este país que amo, atrevo-me a perguntar pelo senso comum: Não seria hora de mudar o nome? Não seria hora de chamá-la de Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?

*

E, saltando a cordilheira, me pergunto: por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo? Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais ele nasce. É a maior nascente entre todos.

E me pergunto: Não será porque dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que continua tão extraordinário, neste mundo onde palavras e fatos raramente se encontram e, quando se encontram, não se cumprimentam, pois não se reconhecem?

*

Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero completar esta pequena viagem pelas terras da região evocando um homem nascido aqui próximo, assim como eu.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, porém continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar que a ditadura militar do Uruguai não pôde encontrar nem uma frase sua que não fosse considerada subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.

A ele, que se negou a aceitar que nossa grande pátria se rompesse em pedaços; a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres; a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que o escrevi há algum tempo:

1820, Paço do Boqueirão. Sem olhar para trás, o senhor se afundou no exílio. Vejo-o, estou assistindo: desliza pelo Paraná com preguiça de lagarto e, longe, se afasta flamejando seu poncho estilhaçado, ao trote do cavalo, e se perde na fronteira.

Você disse adeus a sua terra. Ela não acreditaria. Ou, talvez, o senhor não sabe, todavia, que se vai para sempre.

Acinzenta-se a paisagem. O senhor se vai, vencido, e sua terra fica sem alento.

Devolverão a respiração dos filhos que nascerão, dos amantes que cheguem? Quem nesta terra nascer, quem nela entrar, serão dignos de tristeza tão profunda?

Sua terra. Nossa terra do sul. O senhor será muito necessário, don José. Cada vez que os gananciosos a ofendam e a humilhem, cada vez que os tolos a considerem muda ou estéril, você fará falta. Porque o senhor, don José Artigas, general dos humildes, é a melhor palavra que nossa terra disse.

“Revista de História”

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Dominó oferece alívio aos haitianos e humilhação aos perdedores

Marc Lacey

Havia sofrimento nos olhos de Jean François, sofrimento real, uma expressão terrível de infelicidade. O motivo talvez fosse o fato de ele não ter comido quase nada naquele dia, ou o desemprego, ou a total falta de esperança de conseguir um trabalho. Talvez a expressão de Jean François se devesse à imundície generalizada do seu bairro, uma favela enorme e deprimente, composta de barracos com telhados de zinco.

Ao se deparar com tal cena, um observador seria tomado por um impulso no sentido de auxiliar o homem de 29 anos, de consolá-lo, de ajudá-lo de alguma forma a sair daquele estado visível de profunda depressão.

Mas não havia nada a se fazer. O fato é que o motivo imediato do desespero de François não residia na miséria ou no desemprego, mas sim na série de derrotas que sofreu na mesa de jogo - e nas dezenas de prendedores de roupa presos à sua face, braços e barriga.

Em um contraste marcante com a aparência sofrível de François, os outros homens reunidos para um áspero jogo de dominó no bairro Cité Soleil, em Porto Príncipe, em uma tarde recente, riam prazerosamente. E a risada deles duplicava de intensidade todas as vezes que olhavam para François. Um coro de urros animados crescia a cada vez que ele perdia um outro jogo, e mais prendedores de roupa eram colocados nas suas orelhas, bochechas, queixo, antebraços e torso.

Todos concordaram que os pregadores são particularmente dolorosos quando beliscam as orelhas. Finalmente, após perder e, a seguir, perder de novo, François não agüentou mais. “Dói demais”, disse ele, levantando-se da mesa frágil e removendo os pregadores um a um. Um outro jogador logo ocupou o lugar dele, empurrando François para o lado e fazendo uma jogada. Todo mundo necessita de uma válvula de escape de vez em quando e, no Haiti, onde a situação é sempre difícil, e rebeliões devido à falta de comida irromperam recentemente em todo o país, o dominó oferece exatamente esta possibilidade de alívio temporário.

“Ele é um grande passatempo”, afirma Tousaint Chavane, 61, pai de sete filhos, que estava jogando, e ganhando, em uma tarde recente. “O jogo ajuda a gente a esquecer”. Aqueles que contam com algum dinheiro para gastar podem freqüentar as rinhas de galo ou jogar na loteria, que utiliza os mesmos números premiados da Loteria do Estado de Nova York, a fim de evitar alegações de manipulação dos resultados.

Mas a beleza do dominó é que, para jogá-lo, não é necessário sequer um gourde (a moeda do Haiti). Isto, entretanto, não significa que não haja um preço a ser pago.

O dominó é jogado em duplas ou individualmente. Os pregadores de roupa são apenas uma das várias técnicas que os haitianos utilizam para punir aqueles que perdem quatro jogos consecutivos.

Algumas punições concentram-se menos na dor e mais no ridículo. Por exemplo, obrigando o jogador a usar um saco de açúcar vazio na cabeça ou um chapéu enorme de cores berrantes. Outros perdedores podem ter as faces empoadas, fazendo com que a pele negra fique branca, ou ainda ser obrigados a vestir grossos casacos a fim de que sofram no calor opressivo.

O método específico de sofrimento depende das regras de cada mesa de jogo em determinado dia, algo que varia bastante dependendo da região do país.

Às vezes o perdedor é obrigado a saudar todas as pessoas que se aproximam da mesa. Ou a beber um copo d’água toda vez que perde um jogo, sem direito a ir ao banheiro. Ou a trazer de volta qualquer peça de dominó que um outro jogador arremesse da mesa, ainda que ela caia em uma vala de esgoto. Segundo os jogadores, qualquer um pode acabar como perdedor, dependendo do dia.

“Não dá de fato para dizer quem é o melhor jogador”, diz Harry Degrave, 38, um pai de seis filhos que freqüenta assiduamente as mesas de dominó de Cité Soleil. “Um dia pode ser ele. Outro dia pode ser aquele cara ali. E depois pode ser eu. Algo que não apreciamos é alguém que conta muita vantagem. Todos ficam querendo que esta pessoa perca e sofra”.

Em um outro jogo, no bairro Juvenat, os jogadores sorvem uma bebida alcoólica caseira, e os efeitos são bastante evidentes.

Enquanto uma partida bastante competitiva desenrola-se à sombra de uma árvore, Excellent Fontus, 67, faz palhaçadas e fala sobre como a situação era boa nos velhos tempos, quando a maior parte dos jogadores mais novos ainda não tinha nascido.

“Vocês estão todos jogando dominó, e quando voltarem para casa ainda estarão famintos”, diz ele, provocando os outros.

Tirando uma moeda do bolso, ele diz: “Na minha época podia-se comprar muita coisa com isto. Agora é preciso uma sacola de dinheiro, e mesmo assim não dá para comprar quase nada”.

Todos fazem um sinal de assentimento, embora a batida forte das peças de dominó sobre a mesa não diminua de intensidade enquanto o velho fala.

Nesta disputa específica os prendedores de roupa são colocados apenas nos antebraços dos perdedores, em uma variação do jogo. François Mondesir, 40, um pedreiro ocasional que joga dominó durante os vários dias em que não consegue encontrar trabalho, não ganha há algum tempo.

“Isto torna o jogo divertido”, diz ele, após ter sido expulso da mesa, enquanto esfrega os braços doloridos. “Quanto mais tempo os pregadores ficam presos na gente, mais dor eles provocam. Isso faz com que você se esqueça de tudo o mais que está lhe incomodando”.

No Cemitério Nacional, os coveiros desempregados usam uma técnica diferente para punir os perdedores. Pesos de metal - peças de ferro retiradas do portão do cemitério - são atados a uma corda e a seguir jogados sobre os ombros do perdedor. À medida que o tempo passa, o incômodo causado pela carga é evidente.

“Não temos emprego”, reclama Yves Beauvil, 58, pai de três filhos e que é o perdedor do dia. “Se não estivéssemos jogando dominó, o que mais faríamos?”

Quanto ao peso no seu ombro esquerdo, Beauvill diz que é apenas um pequeno incômodo. “Dá para suportar”, assegura ele, provocando sorrisos de satisfação nos outros jogadores.

“The New York Times”

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Violência contra detentos perdura e questiona poder do Estado

Ações governamentais e da sociedade civil buscam há anos mudanças na polícia, no sistema penitenciário e na atuação da Justiça para combater a tortura. Enfrentam, porém, a omissão e a realidade das relações de poder

André Campos

Em novembro de 2007, diretamente da sede da Organização das Nações Unidas (ONU), ouviu-se mais uma vez uma denúncia recorrente sobre a realidade brasileira: a da existência, segundo a própria ONU, de “tortura generalizada e sistemática” para milhares de detentos do país. Baseadas na visita de especialistas em 2005, as alegações fazem parte de um amplo relatório, ainda não totalmente divulgado, que enfatiza também aspectos discriminatórios da violação, que atinge principalmente os afrodescendentes.
Há sete anos, a noção de “tortura sistemática” já estava presente em outro estudo da ONU, produzido a partir de inspeções realizadas no ano 2000. O documento descreve nada menos que 348 alegações concretas de tortura, ocorridas em 18 estados ao longo da década de 1990. Chama a atenção também para um extenso rol de omissões e irregularidades, que tornam a prática dessa violência um ato de responsabilidade partilhada entre altos escalões e a figura do carrasco.

Assim como as denúncias, as políticas federais para enfrentar o problema também não são novidade. Ainda em 2000, diversas entidades reuniram-se para celebrar o Pacto contra a Tortura, em defesa da aplicação da lei que tipifica o crime. Já em 2001 nasceu o SOS Tortura, um disque-denúncia extinto pelo governo Lula menos de três anos depois. No mesmo ano surgiu o Plano Nacional de Combate à Tortura - que, no entendimento da gestão atual, apresentou resultados insatisfatórios por focar-se excessivamente na punição, em vez de buscar mudanças de procedimentos e práticas.

Tais transformações são o objetivo do Plano de Ações Integradas para Prevenção e Controle da Tortura, apresentado em dezembro de 2005. Última aposta do governo federal, ele se baseia em articulações com os estados para alcançar resultados efetivos. Até o momento, aderiram ao programa 13 unidades federativas - Acre, Distrito Federal, Espírito Santo e Rio Grande do Sul, além de todos os estados do Nordeste.

Passados mais de dois anos, contudo, a iniciativa esbarra num velho problema: falta de compromisso dos setores da segurança pública e do sistema de Justiça. Em diversas instâncias, prevalece o silêncio sobre o assunto.

As causas
Entre outubro de 2001 e julho de 2003, mais de 25 mil ligações foram atendidas pelo SOS Tortura. Elas deram origem, após filtragem, a 2,2 mil denúncias encaminhadas às autoridades competentes. Em nada menos do que 85,8% dos casos filtrados, as suspeitas de abuso recaíam sobre agentes públicos. Entre eles, a Polícia Civil responde por 31,4% das acusações, a Polícia Militar por 30,6% e os agentes penitenciários por 14%.

E por que o Estado tortura? Para Luciano Mariz Maia, procurador regional da República na 5ª Região, permanece ainda uma forte noção do uso da violência como forma de punição. “A idéia de castigar é tão presente que, muitas vezes, a polícia nem tem indícios concretos, mas percebe alguém em “situação suspeita” e dá o bote. A pessoa, assustada, tenta correr, mas é alcançada, e a polícia começa a bater sem nem saber exatamente o porquê”, descreve.

Além disso, diz ele, outra face da tortura é a sua adoção como “método investigativo” para que supostos criminosos confessem delitos ou “abram o bico” sobre provas. Nesse contexto, ressalta o procurador, reside uma realidade cruel: a da tortura como um ato que se perpetua justamente porque produz resultados efetivos. “Não é feita por psicopatas, nada disso”, explica. “É uma escolha racional, que fará com que aquele profissional ganhe credibilidade e passe a ser visto como eficiente em sua instituição.”

De acordo com estatísticas do SOS Tortura, as delegacias de polícia apareceram como os locais onde se torturou com maior freqüência (47,2% das denúncias). É nas carceragens da Polícia Civil que muitos suspeitos ficam presos durante o inquérito, à mercê justamente de quem vai investigar o crime - e, não raro, em total incomunicabilidade com o mundo exterior. “Constatou que a maioria dos suspeitos acreditava que suas famílias não haviam sido informadas de sua prisão e seu paradeiro”, atesta o relatório da ONU de 2000.

Unidades para condenados ou para acusados que aguardam julgamento presos - penitenciárias, centros de detenção provisória, etc. - também surgem em destaque no panorama do disque-denúncia (26,9% dos casos). Segundo o padre Gunther Zgubic, coordenador nacional da Pastoral Carcerária, a tortura é uma realidade histórica nas relações de poder que permeiam esses locais.

Para exemplificar, o religioso relata um caso ocorrido no Complexo do Carandiru poucos anos antes de sua implosão. Um preso foi proibido de receber visita íntima porque sua mulher não obteve um crachá necessário. Em represália, atacou o agente que negou a autorização, provocando cortes superficiais. “Levaram-no do Pavilhão 9 até a sala da diretoria, espancando-o com canos de ferro”, diz. Lá, descreve o padre, foram convocados os agentes novatos para uma espécie de ritual de batismo. “Isso era uma tradição”, afirma. “O novo funcionário tem medo dos outros, e, depois que bate uma vez, nunca mais pode abrir a boca, porque também é torturador.”

Políticas públicas
Atualmente, uma das principais propostas do governo federal para mudar essa realidade é a saída dos Institutos Médico-Legais (IMLs) do organograma das secretarias de Segurança Pública. A importância da perícia médica para obter provas em casos desse gênero é ressaltada por Pedro Montenegro, da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) - órgão que coordena o Plano de Ações Integradas. Ele afirma que a medida fortalecerá a independência desses institutos. “Se há uma denúncia de tortura em uma delegacia, é o próprio delegado quem vai ter de requisitar a perícia. Veja só que contradição.”

Luiz Carlos Galvão, presidente da Associação Brasileira de Medicina Legal, é favorável à separação. Ele afirma ser o Brasil um dos seis países do mundo em que a perícia está vinculada ao poder repressor (somente no Amapá e no Pará há IMLs autônomos). “Existe interferência direta, de intimidação mesmo”, queixa-se.

Luiz Carlos ressalta que já houve legista com proteção da Polícia Federal devido a ameaças por conta de laudo que indicava tortura policial. Além disso, diz ele, o órgão é financeiramente desvalorizado na atual estrutura, o que leva a seu sucateamento.

No sistema prisional, sempre que alguém entra, sai ou é transferido, precisa passar pelo exame de corpo de delito. Durante esses procedimentos, são freqüentes os relatos sobre policiais que ficam na sala do médico, inibindo denúncias da vítima. Como se não bastasse, há casos em que o detido nem sequer é levado para a elaboração do laudo. Luiz Carlos defende a necessidade de exames periódicos nas pessoas privadas de liberdade. “Eles fazem o legista de palhaço”, reclama. “Levam o camarada para você atestar que não há lesão e depois espancam, escondem, transferem de uma delegacia para outra. Depois, deixam-no incomunicável até que desapareçam as lesões.”

Tais práticas fazem parte do que padre Gunther define como a “tática da transferência”. Com a vítima de tortura sendo realocada, a apuração de denúncias perde-se na burocracia das notificações de translado, adiando em até meses a realização de um laudo médico. Gunther afirma que, muitas vezes, o juiz de execução penal - responsável por acompanhar as pessoas colocadas no sistema prisional - nem sabe quem está preso em sua jurisdição. “São Paulo se impôs, pela massa dos presos, que a própria Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) transfere sem precisar perguntar ao juiz”, alega. “Por lei, seria o juiz que deveria autorizar [a transferência]”.

Outra crítica diz respeito à lacuna de investimentos em policiamento investigativo. Luciano Maia lembra que há falta de treinamento e de agentes - e que, nesse contexto, “o suspeito torna-se fonte preciosa de informação”. A valorização da perícia criminal, importante inclusive para solucionar casos de tortura, é defendida por Antonio Funari Filho, ouvidor da Polícia de São Paulo. “É preciso punir severamente a não manutenção do local do crime”, afirma. “Desde que estou nesta função, não recebi nenhuma notícia de perícia feita no local de tortura”, completa Pedro. Ele cita dados do Fundo Nacional de Segurança Pública para exemplificar a falta de atenção à área: em 2006, o montante destinado à perícia foi de apenas 4% dos recursos repassados aos estados.

Assim como no caso dos médico-legistas, a SEDH também defende a saída dos peritos criminais da estrutura da policia. “Se o secretário de Segurança tiver que fazer uma escolha entre comprar cem viaturas ou um comparador balístico (equipamento capaz de determinar a arma que disparou um projétil específico) que ninguém vai ver, ele vai comprar cem viaturas. Isso é óbvio”, opina Pedro.

* Esta reportagem foi publicada em parceria com a revista Problemas Brasileiros

“Repórter Brasil”

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Centenário de Salvador Allende: “Jamais me conformarei que a direita governe”, diz filha

Manuel Délano

Eleita parlamentar desde 1994 sem interrupções e presidente da Câmara dos Deputados em 2003-2004 - ela dedicou boa parte de sua vida para resgatar a memória de seu pai, Salvador Allende, desde que a seu pedido, em 1973, saiu do palácio de La Moneda, sede da presidência do Chile, quando este era atacado pelos militares e depois precisou partir para o exílio. Ela liderou as comemorações do centenário de nascimento de Salvador Allende e agradece o apoio da Espanha a essa comemoração.

El País - Allende está vivo na consciência dos chilenos?
Isabel Allende - Mais vivo que nunca e não só na consciência dos chilenos. Ele é uma referência universal. Estou chegando da China e do Vietnã, onde lhe prestaram homenagens, como na Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Suíça, na França, em muitas comunas. Haverá cerimônias em Cuba, Brasil, Argentina, Uruguai, Peru, Dinamarca, Suécia, Itália, Alemanha, Áustria. Poucas vezes se viu um fenômeno como esse.

EP - O que da mensagem de seu pai ainda está atual no século 21?
Allende - Em cada rincão do mundo, mas em especial na América Latina, que é a região onde há mais desigualdade no planeta - não a mais pobre - com alta concentração de renda, enormes injustiças e muita discriminação, nos locais onde se pense em terminar com essas injustiças com o desenvolvimento material, humano e intelectual e onde se vise a igualdade de condições, a mensagem de Allende vive. Ele dedicou sua vida para melhorar as condições de seu povo, lutar pelos que tinham menos e tornar o país mais justo. Se no Chile se fará até julho uma reforma que dará uma pensão solidária aos mais pobres é porque Allende nacionalizou o cobre em 1971. É a visão de um homem que pensou que a riqueza mais importante do país deveria ir para o conjunto da população e não para mãos privadas como tem sido até o momento.

EP - Estão abertas as “grandes alamedas” às quais se referiu Allende em seu último discurso?
Allende - Conseguimos recuperar a democracia e temos quatro governos seguidos da “Concertación”. Foram feitas políticas muito focalizadas que nos permitiram corrigir uma parte dessas enormes desigualdades. Temos tido êxitos na redução da pobreza, mas persistem grandes desigualdades e devemos melhorar a qualidade dos serviços, conseguir que os chilenos tenham melhores moradias, saúde, educação e proteção social. Abriram-se as alamedas com a recuperação da liberdade e da democracia e em parte, a justiça, mas a justiça social ainda está pendente para o futuro.

EP - As pesquisas para a sucessão presidencial dão vantagem à direita.
Allende - Tivemos quatro governos, há desgaste e se a “Concertación” não é capaz de se renovar e apresentar propostas atraentes ao país, se corre um sério risco. Para mim seria dramático: jamais me conformarei com um governo da direita. Essa direita, que hoje está dentro do jogo democrático, é a mesma que incentivou e acompanhou o golpe militar, esteve na ditadura e jamais foi capaz de passar por uma autocrítica profunda. É a mesma direita que não permite a pílula do dia seguinte, que em um momento esteve contra o divórcio e que durante anos foi cúmplice e silenciou sobre as violações aos direitos humanos. O país deve julgar: será o mesmo se governar essa direita ou a “Concertación”? Nós cometemos erros, é bem possível, faltam coisas, mas sou otimista e creio que o povo voltará a nos apoiar.

“El País”

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Centenário de Salvador Allende: Ex-inimigos políticos e socialistas dividem palanque para homenagear presidente chileno morto

Com o aniversário conseguiu-se pela primeira vez em 18 anos de democracia que todos os partidos da coalizão governante, incluindo a Democracia Cristã que foi oposição no governo de Allende, dividissem a tribuna com o Partido Comunista junto ao monumento ao ex-presidente

Manuel Délano

A presidente chilena Michelle Bachelet afirmou que o grande legado político do ex-presidente Salvador Allende (1970-1973) foi sua vontade de “unir indissoluvelmente o socialismo com a democracia” e também “o império da lei com a mudança social”, ao inaugurar na noite de quinta-feira a exposição Homenagem e Memória, na cerimônia central da comemoração do centenário do nascimento desse governante que entregou sua vida em defesa do governo democrático.

No centro cultural de La Moneda, o palácio presidencial bombardeado pelos golpistas, onde Allende e um grupo de colaboradores resistiram aos militares no dia 11 de setembro de 1973, Bachelet referiu-se ao “legado ético imortal” deixado pelo ex-presidente, socialista e médico tal como ela. A deputada Isabel Allende, filha do ex-presidente leu na cerimônia uma mensagem de felicitações do presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, pelo início da comemoração a Allende, que para ele é “expressão dos melhores valores socialistas e democráticos”.

Participaram também o conselheiro do Interior do governo autônomo catalão, Joan Saura e o embaixador da Espanha no Chile, José Antonio Martinez de Villarreal. Para Bachelet, “enquanto tiver valor a defesa da liberdade, então muitos verão um símbolo de coerência em Allende”, que se tornou universal como os poetas chilenos Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Depois de recordar que sete dias antes do golpe ela participou de uma passeata em frente ao Palácio, com milhares de pessoas, para apoiar a “via chilena para o socialismo”, citou Allende em seu último lúcido discurso, ao assinalar que “os processos sociais não são impedidos nem com o crime nem com a força” e defendeu que “nunca mais” o crime e a força desviem o Chile do curso democrático e social retomado.

Com a comemoração do centenário do nascimento, o Chile revive estes dias, com novos olhos, a figura de Allende, silenciada e difamada pela ditadura de Augusto Pinochet, como não ocorria desde as cerimônias pelo 30º aniversário do golpe militar. Os jornais e a televisão dedicaram reportagens e espaço ao tema e inclusive a direita permaneceu em silêncio ante as homenagens no Chile e em outros países, a esse médico que chegou à presidência na quarta tentativa.

A maçonaria, que depois do golpe militar fechou a Loja Hiram 65, da qual Allende participava ativamente, agora o homenageou instalando um busto dele entre os grandes maçons. A viúva do pintor surrealista chileno Roberto Matta, Germana, deu de presente um quadro e uma jaqueta à Fundação Allende. Às vezes, quando Allende via algum amigo vestindo uma roupa que lhe atraía, dizia brincando que ela ficaria melhor em um presidente e que o interlocutor deveria dar a ele de presente. Houve uma ocasião em que Matta antecipou-se e disse a Allende que sua jaqueta ficaria melhor em um pintor, e o presidente a deu de presente a ele. Bem conservada, na quinta-feira a jaqueta voltou para a família Allende. “Foi como um presente de aniversário que eu pude entregar a Salvador”, disse Germana Matta. O aniversário foi responsável, pela primeira vez em 18 anos de democracia, que todos os partidos da coalizão de governo, incluída a Democracia Cristão que era oposição ao governo de Allende, dividissem a tribuna com o Partido Comunista, junto ao monumento ao ex-presidente.

“El País”

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Trabalhar mais, para ganhar menos

Um balanço da políticas neoliberais “de emprego” na França revela: além de rebaixarem salários, elas ampliaram as diferenças de rendimento entre homens e mulheres, a precariedade e a necessidade de trabalhos complementares. Que mais será preciso para uma mudança de rumos?

Michel Husson

A cada três pessoas sem domicílio fixo, apenas uma dispõe de emprego em Paris [1]. Essa estatística chocante evidenciou a existência de uma nova categoria de indivíduos: os trabalhadores pobres. Tal fenômeno não se restringe apenas à França, já que os salários baixos [2] correspondem aproximadamente a um assalariado dentre seis na Europa. Pode ser visto como resultante de um processo de degradação desencadeado há mais de 25 anos.

É impossível dissociar a amplitude de salários baixos da evolução da partilha do valor agregado. Durante os anos 1960 e 1970, os salários representavam por volta de três quartos do Produto Interno Bruto (PIB), na Europa. Desde os anos 1980, essa fatia praticamente não parou de diminuir, chegando a atingir 66,2% em 2006 [3]. Em relação a 1993, a perda equivale, em média, a sete pontos do PIB.

Tal redução reflete uma verdadeira mudança do sistema: até a crise de meados dos anos 1970, o poder de compra do salário era fixado sobre sua produtividade. A participação dos salários sobre na nacional mantinha-se aproximadamente constante e as desigualdades tendiam a se reduzir. Sob a pressão do desemprego, essa dinâmica foi interrompida. Ao mesmo tempo, desenvolveram-se diversas formas de instabilidade associadas aos salários baixos. Na França, os rendimentos do trabalho não representavam mais do que 53% da renda disponível das famílias em 2003 (contra 67% em 1978); enquanto isso, a proporção de assalariados aumentou de 83,6% da população ativa ocupada para 91,4%.
Desmontar um falso mito: baixos salários não reduzem o desemprego

“A tendência quase ininterrupta à diminuição das desigualdades salariais parou a partir de meados dos anos 1980. O leque salarial voltou a se abrir na segunda metade da década [4]”, destaca o economista Pierre Concialdi. A proporção dos salários baixos passou de 11,4% em 1983 para 16,6% em 2001. No plano europeu, o mesmo movimento se repete. Há uma relativa estabilização das desigualdades salariais ao longo dos anos 1990. Entretanto, ela se dá num nível elevado de desigualdade e os indicadores disponíveis têm dificuldade em determinar o aumento das formas de empregos instáveis e pouco remunerados. Em 1996 – isto é, de acordo com as últimas estatísticas conhecidas, o que mostra o quanto de interesse está voltado a essa questão – os salários baixos eram, em média, 15% do total, na Europa [5], indo de 6% em Portugal a 21% no Reino Unido. A posição da França está um pouco abaixo da média.

Na lógica liberal, as desigualdades de remuneração são explicadas, e até mesmo justificadas, pelo leque de qualificações que, supostamente, refletiria a diversidade das produtividades individuais. Toda política pública – inclusive a bem intencionada – voltada para a correção da hierarquia de salários acabaria por se tornar uma fonte de desemprego. Essa pseudo-racionalidade, postulado fundamental da economia dominante, equipara o trabalho a uma mercadoria como outra qualquer e funda uma filosofia social que legitima as desigualdades em nome da eficiência.

Mas nenhum estudo sustenta essa hipótese. As comparações internacionais mostram que não há correlação entre a variação das qualificações e a das remunerações, se excluídos os países anglo-saxões. Também não se encontra uma relação inversa entre desigualdades de remuneração e taxa de desemprego, conforme ressaltam os pesquisadores Howell e Friedrich Huebler [6]. Até mesmo a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) ressalta que “é muito difícil relacionar o número de empregos perdidos com os níveis dos salários mínimos em diferentes países; alguns estudos revelam efeitos significativos, enquanto que outros não confirmam nenhum deles [7]”. Portanto, não existem leis econômicas universais que fixem uma amplitude “ótima” do leque de salários, mas sim modelos sociais que atribuem uma importância variável a uma certa “eqüidade” salarial.
Aumento de prestação de serviços… perpetuação do baixo salário

As desigualdades salariais dependem simultaneamente da remuneração por hora e do tempo de trabalho, combinados diferentemente pelos países. No Reino Unido, há mais trabalhadores ganhando pouco por hora que na Holanda. Mas os empregos de curta duração são tão freqüentes nesses dois países, e envolvem tantos trabalhadores, que no cômputo final a proporção dos salários baixos em ambos os países aparece muito mais elevada do que na média. Esse exemplo mostra que a revalorização das remunerações passa, também, pela luta contra o tempo de trabalho parcial e, de maneira geral, contra a instabilidade. Em todos os países, o risco de baixa remuneração é maior para os assalariados cujo contrato é de duração determinada.

Esse problema foi especialmente evidenciado pelo último relatório do Conselho do Emprego, das Rendas e da Coesão Social (CERS) [8]. Analisando o salário anual (e, mais precisamente, apenas a remuneração por hora), o estudo indica que “o principal fator de desigualdade é a duração do emprego no ano”. Ela depende do recurso ao tempo parcial e do número de semanas trabalhadas. Os salários baixos são, primeiramente, os empregos instáveis. E, na França, eles são inúmeros (ver nessa edição).

Da forma como funciona, o mercado de trabalho tende a reproduzir um “pipocar” de empregos pouco remunerados. É o que acaba de mostrar um relatório oficial sobre a previsão de trabalhos para o período de 2005 a 2015 [9]. Sobre as criações líquidas de empregos previstas, mais de um quarto (400 mil) seriam no setor de serviços particulares (o auxílio a pessoas idosas ou dependentes, cuidado de crianças etc.), chamados “serviços às pessoas”. Destes, 80 mil são postos de empregados domésticos. De acordo com Michèle Debonneuil [10], conselheira do ministro do emprego, da coesão social e da habitação Jean Louis Borloo, o desenvolvimento desse tipo de emprego constituiria, para alguns, uma solução elegante ao problema do desemprego. Bastaria que “cada família francesa consumisse, em média, três horas desses serviços por semana, para criar dois milhões de empregos”.

A tendência não é inédita: os empregos de babás e de empregados domésticos aumentaram em mais de 80% entre 1990 e 2002. São postos ocupados, principalmente, por mulheres cuja qualificação não é reconhecida e que trabalham, majoritariamente, em tempo parcial. Sua “remuneração mensal é, em mais 90% dos casos, inferior ou igual a 1,3 salário-mínimo (SMIC) [11]”. Assim, esse “reservatório de empregos” é também um “reservatório de salários baixos”: o mínimo bruto pago às babás, por exemplo, é de 2,32 euros por hora.
Em vez de substituir as tarefas domésticas, mercantilizá-las

Há mais de vinte anos, André Gorz já criticava o caráter fundamentalmente desigual dessa “contra-economia terciária que busca antes criar empregos sub-remunerados do que desenvolver os serviços sociais. Segundo ele, “não se trata mais de socializar as tarefas domésticas, para que elas absorvam menos tempo social; trata-se, ao contrário, de fazer com que essas tarefas ocupem o máximo de pessoas e que absorvam o máximo de tempo de trabalho possível, mas agora sob a forma de serviços comerciais. Logo, o desenvolvimento de serviços pessoais só é possível num contexto de desigualdade social crescente, no qual uma parte da população monopoliza as atividades bem remuneradas e restringe uma outra parte ao papel de servente [12]”.

Diante da amplitude das baixas remunerações, acentua-se a diferença entre o salário recebido pelo empregado e o custo para o empregador - intervalo batizado como “cunha fiscal”. Com o intuito de conciliar a exigência de um salário justo e a de um custo do trabalho dito competitivo, a Comissão Européia e a OCDE pleiteiam uma redução das contribuições sociais, principalmente para os menos qualificados, e “redes de segurança” sob a responsabilidade do poder público. A França foi, sem dúvida, o paísonde essas receitas foram aplicadas de forma mais fiel. Desde 1993, os sucessivos governos diminuiram as contribuições sobre os salários baixos. Atualmente, essa redução se estende até 1,6 vezes o SMIC.

Se o impacto dessas medidas sobre o emprego é controverso, seus efeitos sobre a estrutura salarial são facilmente percebidos. O principal deles é acumulação na parte inferior da escala salarial: a porcentagem dos salários inferiores o 1,3 SMIC passou de 30%, no início dos anos 1990, para 39% em 2002. As reestruturações do smic, que concerniam 8 a 9 % dos trabalhadores no início dos anos 1990, atingiram 17% em 2005 [13]. Ao mesmo tempo, as reestruturações repercutem menos do que antes sobre o conjunto dos salários, diminuindo a progressão salarial no interior das empresas. Assim, as políticas de contribuições sociais reduzidas contribuíram para a formação de um “núcleo resistente” de salários baixos.
Entre os assalariados pobres, 80% mulheres

No plano da luta contra a pobreza, os liberais insistem que a revalorização do salário mínimo não é precisamente a medida mais adequada, já que os salários baixos (individuais) e a pobreza (das famílias) não se correspondem. De fato, conforme a definição oficial, é possível que um trabalhador pouco remunerado não seja considerado como pobre, se ele pertencer a uma família cuja renda excede o limite de pobreza. As duas categorias se distinguem: 19% da população ativa recebe uma renda inferior a 75% do smic, mas somente um quarto dessas pessoas se encontra em situação de pobreza monetária [14]. Segundo Pierre Concialdi, “se a população dos trabalhadores pobres é majoritariamente masculina (mais de 60%), a dos trabalhadores com salário baixo é aproximadamente 80% feminina [15]”. Para tanto, seria legítimo pensar no nível da família? Dessa forma, corre-se o risco de “minimizar a inferioridade na qual as mulheres se mantêm no mercado de trabalho [16]”, de confirmar o esquema do salário da esposa como “salário de apoio” e de ocultar a situação das mulheres sozinhas em tempo parcial.

Tais desigualdades não parecem preocupar os liberais. Esses propõem compensar os baixos salários com prestações sociais melhor focalizadas ou com dispositivos como a gratificação pelo emprego na França, pressuposta como incentivadora do trabalho. É oferecida às pessoas que tenham retomado uma atividade profissional, sob certas condições de recurso.

De fato, essas medidas constituem verdadeiras “armadilhas”: acabam por ratificar os salários baixos, enquanto que as baixas de contribuições sociais determinadas sobre esse tipo de remuneração funcionam como uma incitação à aglomeração em pontos da escala salarial. Sob pretexto de ajudar os mais desprovidos, tais medidas alimentam um processo generalizado de degradação salarial.
A importância de um salário mínimo europeu

O mesmo acontece com a flexibilidade do mercado de trabalho: “a constatação estatística não apresenta nenhuma ambigüidade, mas também não traz nenhuma grande surpresa: quanto mais se distancia do emprego estável para se reaproximar das zonas de emprego instável e flexível ou das alternâncias entre desemprego, emprego e inatividade, maior é o risco da pobreza aumentar [17]”. Assim, o CERC se esforça para evidenciar a conclusão óbvia: “o emprego de qualidade continua sendo a principal proteção contra a pobreza”.

Para inverter a tendência, seria necessário restabelecer a participação dos salários na renda nacional e impedir o avanço das formas de empregos instáveis. A revalorização dos salários baixos constitui, com efeito, o único meio de chegar à raiz do problema da pobreza, sem prejulgamento do sexo do assalariado e da configuração da sua família. A garantia de um salário justo é a melhor maneira de “fazer com que o trabalho pague”.

Nessa via, a criação de um salário mínimo europeu seria uma etapa importante; tal perspectiva é a da atualidade. Após ter sido instituído pelo Reino Unido, em 1999, e pela Irlanda, em 2000, o debate sobre o salário mínimo está aberto na Alemanha, na Áustria e até na Suíça [18]. A entrada, na UE, de países cujo nível salarial é inferior ao da média torna esse debate ainda mais indispensável. No momento, parece que, em vários desses países, a revalorização do salário mínimo contribui para um movimento de recuperação salarial. Mas essa evolução poderia ser reforçada pela implantação de um sistema europeu de salários mínimos.

Levando em conta as disparidades, não se poderia fixar um nível único para todos. Porém, é possível conceber uma norma geral, adaptada às realidades de cada país. Fixar, por exemplo, o salário mínimo em 60% do salário médio de cada país, como é o caso da França [19]. Nesse contexto, a Alemanha ocupa um lugar central, pois lá a idéia de um salário mínimo nasceu justamente dos estragos sociais provocados pelas reformas do mercado de trabalho. A porcentagem dos trabalhadores com salários baixos passou de 14,3% a 15,7% entre 1995 e 2000, para atingir o mesmo nível que o da França [20]. Se um salário mínimo legal foi adotado nesse país, seria possível discutir a sua extensão em escala européia. Seria “na esfera social o que o euro é na esfera monetária [21]”.
Nova política salarial: limite da “economia competitiva”

Na verdade, a maneira mais simples de defender o “valor trabalho”, tão corrente nesses últimos tempos, não seria aumentar os salários? Objetamos que uma tal medida conduziria diretamente ao aumento do desemprego: nossos produtos perderiam em competitividade; os assalariados pouco qualificados parariam de ser empregados, pois custariam mais caro, às empresas, do que aquilo que pudessem lhes render de produtividade.

A observação dos fatos mostra que essa série de argumentos não apresenta fundamento: não são os países que têm o mais “moderado” dos salários que geraram o máximo de empregos. A redução das contribuições também não permitira criá-los. Deveríamos refletir sobre o contra-exemplo da Alemanha: o congelamento dos salários certamente contribuiu para estimular as exportações, mas também freou o consumo dos assalariados. Desses dois efeitos, foi o segundo que prevaleceu, conduzindo a um aumento de três pontos da taxa de desemprego, entre 1995 e 2005.

A versão liberal se apóia sobre dois postulados discutíveis. O primeiro é o da concorrência geral espalhada pela Europa. Se for verdade que um país que limita a progressão dos salários pode ganhar partes do mercado em detrimento de seus vizinhos, a generalização dessa falsa boa idéia conduz a um fraco dinamismo do emprego, quando todos os países seguem a mesma política. É exatamente o que ocorre na União Européia.

O segundo postulado consiste em dizer que não se pode mexer na distribuição das rendas. Ora, assim como os salários, os dividendos são um elemento da determinação dos preços: um aumento dos salários pode, perfeitamente, ser compensado por uma baixa dos benefícios financeiros, de tal forma que a competitividade permaneceria imutável. Portanto, uma outra política salarial é possível. Essa deve ser coordenada no nível europeu e acompanhar o repasse dos rendimentos financeiros para os salários - contrariamente ao que ocorre há mais de duas décadas.

Quanto a trabalhar por longo tempo para ganhar mais, isso também não é nada coerente. O prolongamento da jornada de trabalho vai de encontro a novas criações de empregos e não pode engendrar por si só um aumento da atividade se a distribuição de renda continua a mesma. Inúmeros acordos de empresas mostram que, sob pretexto de “livre escolha”, trata-se, na realidade, de reduzir o pagamento por hora e não de o revalorizar. Essa orientação, que invoca a pressão dos países emergentes, é um impasse. Para se adaptar a seus custos salariais, seriam necessárias diminuições de salário tamanhas que a economia européia ficaria competitiva, mas morta.

Enfim, a proposta – comum a Nicolas Sarkozy e a François Bayrou – de aumentar as horas suplementares, de forma a exonerá-las das contribuições sociais, acabaria por liquidar a noção da duração legal do trabalho e por reduzir um pouco mais os recursos da garantia social.

Tradução: Leonardo Teixeira da Rocha leorocha2003@yahoo.com.br

[1] Brigitte Debras, Hélène Chamborédon, Patrick Thiery, “Dans l’agglomération parisienne, un sans-domicile sur trois déclare avoir un emploi ”, na página, Insee Île de France, n° 241, 2004.
[2] Considera-se “salário baixo” todo salário situado abaixo de 60% do salário mediano, que define a linha de divisão dos salários em dois grupos iguais.
[3] No Brasil, a participação dos salários formais na riqueza nacional caiu de 55% (até a década de 1960 para 45% (em 1995) e para 35% (em 2004). O percentual é obtido ao se relacionar o salário médio com o PIB per capita. Conferir Comissão Européia, A Economia Européia, (L’Economie européenne), Bruxelas, outono de 2006.
[4] Pierre Concialdi, “Bas salaires et “travailleurs pauvres” ”, Les cahiers français, La Documentation française, n° 304, Paris, 2001.
[5] Eric Marlier e Sophie Ponthieux, Les bas salaires dans les pays de l’Union européenne, Eurostat, Statistiques en bref, Bruxelas, 2000. Os dados se referem a 13 dos 15 países da União Européia (estão fora a Suécia e a Finlândia) e deixam de lado as pessoas que trabalham menos de 15 horas por semana.
[6] David Howell e Friedrich Huebler, “Trends in Earnings Inequality and Unemployment Across the OECD”, Working Paper n° 23, Center for Economic Policy Analysis (CEPA), Nova Iorque, maio de 2001.
[7] OCDE, Perspectives de l’emploi, Paris, 2006.
[8] CERC, La France en transition 1993-2005, La Documentation française, Paris, 2006.
[9] Centro de Análise Estratégica – Dares (Direção de Incentivo à Pesquisa, Estudos e Estatísticas do ministério do Emprego, da Coesão Social e da Moradia), Les métiers en 2015, relatório Perspectivas dos Empregos e Qualificações, janeiro de 2007, Paris.
[10] Michèle Debonneuil, “ Deux millions d’emplois qui dépendent de nous ”, Le Monde, 16 de fevereiro de 2006.
[11] Bertrand Lhommeau, Trajectoires passées par un emploi à bas salaire, Dares, Documento de trabalho n°78, Paris, 2003. O SMIC equivale ao valor bruto de 8,27 euros por hora, aproximadamente ao valor bruto de 1.254,28 euros por mês (para 151,67 horas de trabalho) e ao valor líquido de 985,11 euros.
[12] André Gorz, Métamorphoses du travail. Quête du sens, Ed. Galilée, Paris, 1988.
[13] Malik Koubi et Bertrand Lhommeau, “La revalorisation du Smic et ses effets de diffusion dans l’échelle des salaires sur la période 2000-2005”, Dares, Premières Synthèses n°27.1, julho de 2006.
[14] Nadine Laïb, “Situation sur le marché du travail et pauvreté monétaire”, Direção da Pesquisa, dos Estudos, da Avaliação e das Estatísticas (Drees), Etudes et résultats Paris, n°499, 2006.
[15] Pierre Concialdi, Pauvreté, bas salaires et minima… op.cit.
[16] Margaret Maruani, “ Les working poor version française ”, Problèmes économiques, Paris, n°2833, 2003.
[17] CERC, op.cit.
[18] Ler o número especial da Chronique internationale de l’Ires n°103, Noisy-le-Grand, 2006, consagrado aos salários mínimos.
[19] horsten Schulten, Andreas Rieger, Michel Husson, Thèses pour une politique européenne de salaires minimaux, Düsseldorf, Paris, Zurique, 2005.
[20] Ver Odile Chagny, “Les réformes du marché du travail en Allemagne ”, La Revue de l’IRES n° 48, 2005.
[21] Fundação Robert Schuman, “ Le salaire minimum européen : un projet réalisable ?”, Questions d’Europe n°43, Paris, 2006.

Jornal Le Monde
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A filosofia que abriu caminho para o mundo contemporâneo

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

“O Iluminismo é a saída dos homens do estado de minoridade devido a eles mesmos. Minoridade é a incapacidade de utilizar o próprio intelecto sem a orientação de outro. Essa minoridade será devida a eles mesmos se não for causada por deficiência intelectual, mas por falta de decisão e coragem para utilizar o intelecto como guia. ‘Sapere aude!’ ‘Ouse usar seu intelecto!’ é o lema do Iluminismo.”

Assim o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) definiu esse movimento filosófico que se estendeu das últimas décadas do século 17 aos últimos decênios do século 18, em especial na França, Inglaterra, Escócia e Alemanha, embora sua influência tenha se expandido até o Novo Mundo.

Iluminar as trevas
Essa linha filosófica se caracteriza pelo empenho em estender a razão como crítica e guia a todos os campos da experiência humana. Nesse sentido, ela pretende levar as luzes da razão às trevas da ignorância e do obscurantismo e compreende três aspectos diversos, mas relacionados entre si:

1) extensão da crítica a toda e qualquer crença e conhecimento sem exceção;
2) realização de um conhecimento que, por estar aberto à crítica, inclua e organize os instrumentos de sua própria correção;
3) uso efetivo do conhecimento assim atingido com o fim de melhorar a vida privada e social dos homens.

Vamos analisar casa um desses aspectos em particular.

Fé na razão
Por um lado o Iluminismo adota a fé na razão, ao mesmo tempo considera limitado o poder da razão, cuja expressão típica é a doutrina da coisa em si, ou seja, os poderes cognoscitivos do homem, tanto sensíveis quanto racionais, vão até onde vai o fenômeno, mas não além, quer dizer, não atinge a coisa em si, independentemente de sua relação com o homem, para o qual é um objeto de conhecimento.

Por outro lado, considerada a limitação dos poderes cognoscitivos, não existem campos privilegiados dos quais a crítica racional possa ser excluída. Em particular, isso implicava os campos da política, da moral e da religião, que até então eram tabus para o pensamento racional, aos quais o importante filósofo e matemático racionalista francês René Descartes (1596-1650) achava que a razão não tinha outra coisa a sugerir além da reverência às normas tradicionais.

Princípios racionais de governo
O Iluminismo não aceitava as renúncias cartesianas. Ao contrário, estendeu a indagação do domínio da religião e da política, propondo uma religião natural ou racional, fundada não na revelação histórica, mas na manifestação natural da divindade à razão do homem (deísmo), ao mesmo tempo que questionavam os fundamentos do poder absolutista e procuravam estabelecer os princípios racionais do governo e da organização social. Da mesma forma, evidenciando a importância dos sentimentos e das paixões na conduta do homem, buscam novos pilares para a vida moral do homem.

Essa atitude crítica do Iluminismo expressa-se principalmente em sua hostilidade à tradição, que considera a força mantenedora das crenças e preconceitos que deveriam ser destruídos. Para os iluministas, tradição e erro coincidiam. Apesar de essa tese poder parecer exagerada hoje, não se pode esquecer que foi graças a ela que se venceram os poderosos entraves que a tradição impunha à livre pesquisa.

O segundo aspecto a ser destacado no Iluminismo é que ele inclui o empirismo, ou seja, considera um atributo do conhecimento válido o fato de poder ser posto à prova. Essa atitude empirista garante a abertura da ciência e conhecimento em geral à crítica da razão, pois consiste em admitir que toda verdade pode e deve ser colocada à prova, sendo eventualmente modificada, corrigida ou abandonada.

Valorização da ciência
É essa atitude do Iluminismo que elevará a ciência (no sentido que essa palavra tem hoje) ao primeiro lugar na hierarquia das atividades humanas. A física - sistematizada primeiramente na obra de Isaac Newton - é considerada pelos iluministas como a ciência mãe ou como a “verdadeira filosofia”. O Iluminismo também será decisivo para afastar a química da alquimia e assinalar as etapas fundamentais do desenvolvimento das ciências biológicas, com a obra de diversos naturalistas.

Se os resultados obtidos pelas ciências dessa época - séculos 17 e 18, vale recordar - já foram ultrapassados nos dias de hoje, cabe ressaltar que eles puderam ser questionados e corrigidos pelo próprio compromisso fundamental do Iluminismo de não bloquear a obra da razão em nenhum campo e em nenhum nível, considerando todo resultado incompleto, provisório e passível de ser corrigido.

Revoluções republicanas
Finalmente, o Iluminismo inclui o compromisso de se utilizar a razão e os resultados que ela pode obter nos vários campos de pesquisa para melhorar a vida individual e social do homem. Politicamente, as idéias iluministas expressaram-se na Revolução Americana, de 1776, e Francesa, de 1789, que apresentavam como seu objetivo declarado a felicidade ou o bem-estar da humanidade.

Além disso, no plano social, o Iluminismo é responsável por duas concepções de fundamental importância para a cultura moderna e contemporânea: os conceitos de tolerância e de progresso. O princípio de tolerância religiosa além de colocar a necessidade de convivência pacífica das várias confissões religiosas, também foi responsável pela separação entre religião e Estado. Por outro lado, o compromisso de transformação iluminista leva à concepção da história como progresso, ou seja, como possibilidade de melhoria do ponto de vista do saber e dos modos de vida do homem.

Contemporaneidade
Não há dúvida de que o Iluminismo é a matriz do nosso mundo contemporâneo, principalmente pelo impulso que deu à ciência e a laicidade (não-religiosidade). Embora, de um modo geral, em sua maioria, cientistas e intelectuais contemporâneos prestem culto ao Iluminismo e considerem suas “conquistas” como progressistas e inquestionáveis, não deixam de existir correntes de pensamento que discutem essa avaliação: afinal, a ciência e a tecnologia não só não resolveram inúmeros problemas da humanidade, como também criaram diversos outros: basta lembrar das armas de destruição em massa, dos efeitos da poluição ambiental, da mudança climática, etc.

No âmbito de suma sociedade laica, em meio ao imenso potencial tecnológico e às imensas desigualdades sociais dos dias de hoje, não se pode deixar de considerar como conseqüências das Luzes do século 18 o relativismo moral, o individualismo, o hedonismo, o consumismo, que talvez mantenham o ser humano diante do mesmo obscurantismo que aquele movimento filosófico quis iluminar. Sob o ponto de vista existencial é possível falar em progresso num mundo em que ocorrem anualmente cerca de 400 mil homicídios e 800 mil suicídios, segundo estimativas das Nações Unidas?

*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

Jornal Folha de S. Paulo
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