Arquivo de 3 de Agosto de 2008

Wallace, o sujeito que Darwin pode ter plagiado para elaborar a teoria da evolução

Paul Spencer Sochaczewski*

Quem recebe o mérito e quem clama o mérito por mudar o mundo?

O dia 1º de julho de 1858 foi um dia modesto em termos de notícias na Londres vitoriana. A rainha Vitória foi andar a cavalo; Madame Tussaud anunciou uma imagem de cera do presidente americano James Buchanan e o navio North Star chegou de Nova York em onze dias e seis horas, um novo recorde.

Entretanto, naquela noite, há 150 anos, ocorreu um evento que, de acordo com o jornalista Arnold Brackman, foi “um dos maiores divisores de água na história da civilização ocidental”. Membros da augusta Sociedade Linnean de Londres em Piccadilly ouviram dois fragmentos não publicados sobre a evolução, escritos pelo famoso naturalista Charles Darwin, e um artigo meticuloso escrito por um parente desconhecido, Alfred Russel Wallace.

Nem Darwin nem Wallace estavam presentes. Darwin ficara em sua casa na Inglaterra em luto pela morte de um filho de febre escarlate; Wallace estava na distante Nova Guiné, caçando borboletas e besouros.

O artigo de Wallace formalmente intitulado “Sobre a tendência das variedades de se diferenciarem indefinidamente do tipo original” foi popularmente chamado de “o artigo Ternate”, pelo nome da cidade da Indonésia da qual ele enviou o estudo para Darwin. O artigo foi a primeira explicação completa do processo de seleção natural, que introduziu o conceito da sobrevivência dos mais fortes.

Para simplificar uma história complexa, como resultado do artigo de Wallace, Darwin foi levado a completar “A origem das espécies”, que foi publicado em 1859. Não há dúvidas que veremos uma movimentação da mídia em 2009, quando o mundo celebrará o 150º aniversário da publicação do livro de Darwin.

Wallace, que não tinha consciência que seu artigo tinha sido apresentado na Sociedade Linnean, continuou colecionando dados e escrevendo sobre biogeografia, a biologia da ilha, a mudança das marés e a antropologia do arquipélago melanésio, onde passou oito anos produtivos, porém isolados.

Darwin, membro da elite científica britânica, tornou-se um nome famoso. Wallace, que deixou a escola aos 14 anos e vinha de uma família modesta, acabou como uma nota de rodapé (bastante importante) na história.

Alguns pesquisadores argumentam que foi coincidência científica -que cada homem teve seu momento de luz independente. Tal ocorrência não é incomum; é chamada de descoberta “múltipla”: Newton e Leibniz descobriram o cálculo. O oxigênio foi descoberto por Carl Wilhelm Scheel em 1773 e por Joseph Priestly em 1774. A fotografia colorida foi inventada quase simultaneamente por dois franceses. Quatro pesquisadores independentes descobriram as manchas do sol, todos em 1611. Seis homens inventaram o termômetro e nove inventaram o telescópio. E assim por diante.

Ainda assim, um grupo pequeno, porém ativo, chamado Amigos de Alfred, argumenta que foi Wallace que deu a chave da evolução. E que Darwin a roubou.

Darwin era mais velho e mais bem estabelecido. Sem dúvida que vinha pensando sobre a evolução e colecionando dados volumosos, mas até aquele momento ele não tinha publicado uma única palavra sobre o assunto.

Wallace, por outro lado, havia escrito vários artigos sobre a evolução antes do artigo Ternate, inclusive o Sarawak Law de 1855, em que afirmava o princípio hoje o óbvio que “toda espécie chegou à existência coincidentemente tanto no tempo quanto no espaço com uma espécie aliada preexistente”.

Será que Darwin plagiou Wallace? A questão pode ser abordada em termos legais ou anedóticos.

O advogado britânico David Hallmark, conselheiro da Fundação Wallace na Indonésia, escreve que como Darwin não tinha publicado e a carta de Wallace estimulava a publicação, Wallace foi primeiro, e Darwin, independentemente do que escreveu, foi o segundo.

Quando publicou seus estudos, Darwin não atribuiu a Wallace o impacto da carta Ternate em seus próprios trabalhos e usou a teoria de Wallace com própria. Aí há um caso de plágio.

Há evidências circunstanciais que Darwin sabia que havia agido mal com Wallace e se sentia culpado por isso. Apesar de obviamente nós não sabermos tudo o que Darwin e seus colegas pensavam ou diziam um ao outro, há uma série de cartas nas quais Darwin refere-se aos eventos como um “assunto deprimente” e seu relacionamento com Wallace como “uma situação delicada”.

Darwin admitiu em uma carta ao botânico famoso Joseph Hooker, um amigo que o ajudou a manipular a apresentação da Sociedade Linnean em benefício de Darwin, que havia escrito “metade de uma carta para Wallace para dar toda prioridade ele”.

Mais tarde, soando um pouco como Richard Nixon, Darwin escreveu: “Eu nunca furtei nada”. Darwin estava claramente dividido entre fazer a coisa correta e chegar em segundo, e declarou: “Parece uma injustiça que eu deva ser compelido a perder minha prioridade de muitos anos, mas não me sinto seguro que isso altere a justiça do caso.”

Então, neste aniversário, eu pondero ética e história.

Não tenho certeza se Darwin plagiou Wallace. O que sei ao certo é: primeiro, a teoria da evolução mudou para sempre a forma como nós vemos nós mesmos e nosso lugar no universo. Foi um dos grandes saltos intelectuais da humanidade.

Segundo: a reunião do dia 1º de julho de 1858 em Londres mal produziu uma marola. O presidente da Sociedade Linnean, Thomas Bell, escreveu em seu relatório anual de 1858 que o ano “não foi marcado por qualquer daquelas descobertas que faz uma revolução instantânea no departamento de ciências no qual ocorre”.

*Paul Spencer Sochaczewski é autor em Bangkok que seguiu o caminho de Alfred Russel Wallace subindo o Rio Negro no Brasil e pelo arquipélago melanésio.

“International Herald Tribune”

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Barões peronistas aproveitam a greve agrária para atacar os Kirchner

A falta de combustíveis nas cidades argentinas aguça o mal-estar popular

Jorge Marirrodriga

A cunha mais eficaz é a que é feita da mesma madeira, e essa possibilidade é exatamente a que está se cristalizando na Argentina, onde os grandes barões do peronismo multiplicaram seus contatos nos últimos dias para afastar os Kirchner do poder. Trata-se de fazê-lo primeiro no histórico Partido Justicialista e posteriormente nas instituições, apesar de o mandato de Cristina Fernández de Kirchner só terminar teoricamente em 2011.

Mais uma vez está sendo demonstrado que na Argentina o partido no poder é ao mesmo tempo a principal força da oposição. Desde que Néstor Kirchner chegou ao poder, em 2003, os governistas não se mostraram preocupados com as sucessivas derrotas em nível local, pela centro-direita de Mauricio Macri, ou com o segundo lugar nas eleições presidenciais da centro-esquerda de Elisa Carrió. Além disso, esses dois políticos estiveram praticamente desaparecidos durante toda a atual crise no campo, o maior desafio dos Kirchner, e só nas últimas horas começaram a aparecer.

Os Kirchner sempre concentraram seu fogo em acabar com a resistência dentro do próprio peronismo. Em 2005 Cristina Kirchner infligiu uma duríssima derrota nas urnas à chapa do ex-presidente Eduardo Duhalde -curiosamente, mentor político de Kirchner- e há alguns meses Néstor Kirchner chegou à presidência do Partido Justicialista. Governadores, prefeitos e quadros do partido juraram lealdade ao casal presidencial. Tudo parecia sob controle.

No entanto, o inchaço da crise do campo, com a greve dos produtores de grãos em protesto contra o novo imposto à exportação, e a queda do apoio popular deram asas àqueles que melhor conhecem os mecanismos capazes de acabar com o crédito de um presidente. E sabem disso porque os utilizaram antes e depois sofreram na própria carne.

O ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), a quem se dava por politicamente terminado depois da derrota de sua chapa nas legislativas de 2005, agora encabeça um amplo movimento ao qual aderiu o influente governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saa, o irmão deste, Adolfo, que presidiu o país durante 48 horas em 2002, figuras do peronismo de Buenos Aires e prefeitos do superpovoado cinturão que rodeia a capital argentina. O líder piqueteiro governista Luis D’Elía não demorou a pendurar em Duhalde o adjetivo de “golpista”.

Essa é a oposição que causa mais preocupação no governo, cujas decisões são tomadas por um número reduzido de pessoas e que vê suas sucessivas tentativas de desbaratar a greve do campo e os protestos urbanos terminar em fracasso. O vice-presidente do país, Julio César Cobos, emitiu um comunicado no domingo pedindo que o Congresso fosse o fórum onde se resolvam as discussões, o que foi interpretado como um distanciamento da presidente.

Depois de amanhã, coincidindo com a “jornada de protesto” convocada pelos produtores agrícolas, Néstor Kirchner organizou um ato na Praça de Maio em apoio a sua mulher. Já no último sábado esteve na praça e antes se deixou ver enquanto membros da Juventude Peronista pregavam cartazes nos quais se injuriava o grupo jornalístico Clarín. Um filho dos Kirchner preside outro grupo peronista que insulta a mídia nos atos públicos.

“El País”

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A Comuna de Paris

HISTORIANET

SOBRE ” A COMUNA DE PARIS”

Karl Marx e Friedrich Engels - 1871
“Na alvorada de 18 de Março (1871), Paris foi despertada por este grito de trovão: VIVE LA COMMUNE! O que é pois a Comuna, essa esfinge que põe tão duramente à prova o entendimento burguês?
Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele é e de o pôr a funcionar por sua própria conta.
O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte: exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente de arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo.”
“Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos produtores, foi forçada não só a investir o executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo.”
“O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções.”
“O primeiro decreto da Comuna foi pois a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas.
A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. Eram responsáveis e revogáveis a todo o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários.”
” Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o “poder dos padres”; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos. Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembaraçados de toda a ingerência da Igreja e do Estado. Assim, não só a instrução se tornava acessível a todos, como a própria ciência era libertada das grilhetas com que os preconceitos de classe e o poder governamental a tinham acorrentado.
Os funcionários da justiça foram despojados dessa fingida independência que não servira senão para dissimular a sua vil submissão a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em seguida os violar. Assim como o resto dos funcionários públicos, os magistrados e os juizes deviam ser eleitos, responsáveis e revogáveis.”
“Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados. Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações. E, no entanto, 1848 não passou de um jogo de crianças, comparado com a raiva da burguesia em 1871.”
“Proudhon, o socialista do pequeno campesinato e do artesanato, odiava positivamente a associação. Dizia dela que comportava mais inconvenientes do que vantagens, que era estéril por natureza e até mesmo prejudicial, pois entravava a liberdade do trabalhador; dogma puro e simples… E é também por isso que a Comuna foi o túmulo da escola proudhoniana do socialismo.”
“As coisas não correram melhor aos blanquistas. Educados na escola da conspiração, ligados pela estrita disciplina que lhe é própria, partiam da ideia de que um número relativamente pequeno de homens resolutos e bem organizados era capaz, chegado o momento, não só de se apoderar do poder, mas também, desenvolvendo uma grande energia e audácia, de se manter nele durante um tempo suficientemente longo para conseguir arrastar a massa do povo para a Revolução e reuni-la à volta do pequeno grupo dirigente. Para isso era preciso, antes de mais nada, a mais estrita centralização ditatorial de todo o poder entre as mãos do novo governo revolucionário. E que fez a Comuna que, em maioria, se compunha precisamente de blanquistas? Em todas as suas proclamações aos franceses da província, convidava-os a uma livre federação de todas as comunas francesas com Paris, a uma organização nacional que, pela primeira vez, devia ser efectivamente criada pela própria nação. Quanto à força repressiva do governo outrora centralizado, o exército, a polícia política, a burocracia, criada por Napoleão em 1798, retomada depois com prontidão por cada novo governo e utilizada por ele contra os seus adversários, era justamente esta força que devia ser destruída por toda a parte, como o fora já em Paris.”
“Para evitar esta transformação, inevitável em todos os regimes anteriores, do Estado e dos órgãos do Estado em senhores da sociedade, quando na origem eram seus servidores, a Comuna empregou dois meios infalíveis. Primeiro, submeteu todos os lugares, da administração, da justiça e do ensino, à escolha dos interessados através de eleição por sufrágio universal e, evidentemente, à revogação, em qualquer momento, por esses mesmos interessados. E segundo, retribuiu todos os serviços, dos mais baixos aos mais elevados, pelo mesmo salário que recebiam os outros operários. O vencimento mais alto que pagou foi de 6000 francos. Assim, punha-se termo à caça aos lugares e ao arrivismo, sem falar da decisão suplementar de impor mandatos imperativos aos delegados aos corpos representativos.
Esta destruição do poder de Estado, tal como fora até então, e a sua substituição por um poder novo, verdadeiramente democrático, estão detalhadamente descritas na terceira parte de A Guerra Civil.(Karl Marx) Mas era necessário voltar a referir aqui brevemente alguns dos seus traços, porque, precisamente na Alemanha, a superstição do Estado passou da filosofia para a consciência comum da burguesia e mesmo de muitos operários. Na concepção dos filósofos, o Estado é “a realização da Ideia” ou o reino de Deus na terra traduzido em linguagem filosófica, o domínio onde a verdade e a justiça eternas se realizam ou devem realizar-se. Daí esta veneração que se instala tanto mais facilmente quanto, logo desde o berço, fomos habituados a pensar que todos os assuntos e todos os interesses comuns da sociedade inteira não podem ser tratados senão como o foram até aqui, quer dizer, pelo Estado e pelas suas autoridades devidamente estabelecidas. E julga-se que já se deu um passo prodigiosamente ousado ao libertarmo-nos da fé na monarquia hereditária e ao jurarmos pela república democrática.”
(FRIEDRICH ENGELS: Introdução á Guerra Civil em França )
“Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho”
“A constituição comunal restituiria ao corpo social todas as forças até então absorvidas pelo Estado parasita que se alimenta da sociedade e lhe paralisa o livre movimento”
“A unidade da nação não deveria ser quebrada, mas, pelo contrário organizada pela Constituição comunal; ela deveria tornar-se uma realidade pela destruição do poder de Estado que pretendia ser a encarnação desta unidade mas que queria ser independentemente desta mesma nação e superior a ela, quando não era mais do que uma sua excrescência parasitária.”
“Em vez de se decidir de três em três, ou de seis em seis anos, qual o membro da classe dirigente que deveria “representar” e calcar aos pés o povo no Parlamento, o sufrágio universal devia servir um povo constituído em comunas, tal como o sufrágio individual serve qualquer patrão à procura de operários, de capatazes ou de contabilistas para a sua empresa.”
“A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários. Os benefícios habituais e os emolumentos de representação dos altos dignatários do Estado desapareceram ao mesmo tempo que os altos dignatários. Os serviços públicos deixaram de ser propriedade privada das criaturas do governo central. Não só a administração municipal, mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado, foi posta nas mãos da Comuna.”
“Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o “poder dos padres”; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da sua vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos.”
“A Comuna realizou a palavra de ordem de todas as revoluções burguesas, um governo barato, abolindo essas duas grandes fontes de despesas que são o exército permanente e o funcionalismo de Estado.”
“A supremacia política do produtor não pode coexistir com a eternização da sua escravatura social. A Comuna devia pois servir de alavanca para derrubar as bases económicas em que se fundamenta a existência das classes e, por conseguinte, a dominação de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser o atributo de uma classe.”
“A Comuna tinha perfeitamente razão ao dizer aos camponeses: “A nossa vitória é a vossa única esperança”.
“O domínio de classe já não se pode esconder sob um uniforme nacional, pois os governos nacionais formam um todo unido contra o proletariado.”
“A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los.
Karl Marx (Guerra Civil em França - 30 de Maio de 1871)

SOBRE ” A COMUNA DE PARIS”

Karl Marx e Friedrich Engels - 1871
“Na alvorada de 18 de Março (1871), Paris foi despertada por este grito de trovão: VIVE LA COMMUNE! O que é pois a Comuna, essa esfinge que põe tão duramente à prova o entendimento burguês?
Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele é e de o pôr a funcionar por sua própria conta.
O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte: exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente de arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo.”
“Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos produtores, foi forçada não só a investir o executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo.”
“O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções.”
“O primeiro decreto da Comuna foi pois a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas.
A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. Eram responsáveis e revogáveis a todo o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários.”
” Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o “poder dos padres”; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos. Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembaraçados de toda a ingerência da Igreja e do Estado. Assim, não só a instrução se tornava acessível a todos, como a própria ciência era libertada das grilhetas com que os preconceitos de classe e o poder governamental a tinham acorrentado.
Os funcionários da justiça foram despojados dessa fingida independência que não servira senão para dissimular a sua vil submissão a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em seguida os violar. Assim como o resto dos funcionários públicos, os magistrados e os juizes deviam ser eleitos, responsáveis e revogáveis.”
“Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados. Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações. E, no entanto, 1848 não passou de um jogo de crianças, comparado com a raiva da burguesia em 1871.”
“Proudhon, o socialista do pequeno campesinato e do artesanato, odiava positivamente a associação. Dizia dela que comportava mais inconvenientes do que vantagens, que era estéril por natureza e até mesmo prejudicial, pois entravava a liberdade do trabalhador; dogma puro e simples… E é também por isso que a Comuna foi o túmulo da escola proudhoniana do socialismo.”
“As coisas não correram melhor aos blanquistas. Educados na escola da conspiração, ligados pela estrita disciplina que lhe é própria, partiam da ideia de que um número relativamente pequeno de homens resolutos e bem organizados era capaz, chegado o momento, não só de se apoderar do poder, mas também, desenvolvendo uma grande energia e audácia, de se manter nele durante um tempo suficientemente longo para conseguir arrastar a massa do povo para a Revolução e reuni-la à volta do pequeno grupo dirigente. Para isso era preciso, antes de mais nada, a mais estrita centralização ditatorial de todo o poder entre as mãos do novo governo revolucionário. E que fez a Comuna que, em maioria, se compunha precisamente de blanquistas? Em todas as suas proclamações aos franceses da província, convidava-os a uma livre federação de todas as comunas francesas com Paris, a uma organização nacional que, pela primeira vez, devia ser efectivamente criada pela própria nação. Quanto à força repressiva do governo outrora centralizado, o exército, a polícia política, a burocracia, criada por Napoleão em 1798, retomada depois com prontidão por cada novo governo e utilizada por ele contra os seus adversários, era justamente esta força que devia ser destruída por toda a parte, como o fora já em Paris.”
“Para evitar esta transformação, inevitável em todos os regimes anteriores, do Estado e dos órgãos do Estado em senhores da sociedade, quando na origem eram seus servidores, a Comuna empregou dois meios infalíveis. Primeiro, submeteu todos os lugares, da administração, da justiça e do ensino, à escolha dos interessados através de eleição por sufrágio universal e, evidentemente, à revogação, em qualquer momento, por esses mesmos interessados. E segundo, retribuiu todos os serviços, dos mais baixos aos mais elevados, pelo mesmo salário que recebiam os outros operários. O vencimento mais alto que pagou foi de 6000 francos. Assim, punha-se termo à caça aos lugares e ao arrivismo, sem falar da decisão suplementar de impor mandatos imperativos aos delegados aos corpos representativos.
Esta destruição do poder de Estado, tal como fora até então, e a sua substituição por um poder novo, verdadeiramente democrático, estão detalhadamente descritas na terceira parte de A Guerra Civil.(Karl Marx) Mas era necessário voltar a referir aqui brevemente alguns dos seus traços, porque, precisamente na Alemanha, a superstição do Estado passou da filosofia para a consciência comum da burguesia e mesmo de muitos operários. Na concepção dos filósofos, o Estado é “a realização da Ideia” ou o reino de Deus na terra traduzido em linguagem filosófica, o domínio onde a verdade e a justiça eternas se realizam ou devem realizar-se. Daí esta veneração que se instala tanto mais facilmente quanto, logo desde o berço, fomos habituados a pensar que todos os assuntos e todos os interesses comuns da sociedade inteira não podem ser tratados senão como o foram até aqui, quer dizer, pelo Estado e pelas suas autoridades devidamente estabelecidas. E julga-se que já se deu um passo prodigiosamente ousado ao libertarmo-nos da fé na monarquia hereditária e ao jurarmos pela república democrática.”
(FRIEDRICH ENGELS: Introdução á Guerra Civil em França )
“Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho”
“A constituição comunal restituiria ao corpo social todas as forças até então absorvidas pelo Estado parasita que se alimenta da sociedade e lhe paralisa o livre movimento”
“A unidade da nação não deveria ser quebrada, mas, pelo contrário organizada pela Constituição comunal; ela deveria tornar-se uma realidade pela destruição do poder de Estado que pretendia ser a encarnação desta unidade mas que queria ser independentemente desta mesma nação e superior a ela, quando não era mais do que uma sua excrescência parasitária.”
“Em vez de se decidir de três em três, ou de seis em seis anos, qual o membro da classe dirigente que deveria “representar” e calcar aos pés o povo no Parlamento, o sufrágio universal devia servir um povo constituído em comunas, tal como o sufrágio individual serve qualquer patrão à procura de operários, de capatazes ou de contabilistas para a sua empresa.”
“A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários. Os benefícios habituais e os emolumentos de representação dos altos dignatários do Estado desapareceram ao mesmo tempo que os altos dignatários. Os serviços públicos deixaram de ser propriedade privada das criaturas do governo central. Não só a administração municipal, mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado, foi posta nas mãos da Comuna.”
“Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o “poder dos padres”; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da sua vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos.”
“A Comuna realizou a palavra de ordem de todas as revoluções burguesas, um governo barato, abolindo essas duas grandes fontes de despesas que são o exército permanente e o funcionalismo de Estado.”
“A supremacia política do produtor não pode coexistir com a eternização da sua escravatura social. A Comuna devia pois servir de alavanca para derrubar as bases económicas em que se fundamenta a existência das classes e, por conseguinte, a dominação de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser o atributo de uma classe.”
“A Comuna tinha perfeitamente razão ao dizer aos camponeses: “A nossa vitória é a vossa única esperança”.
“O domínio de classe já não se pode esconder sob um uniforme nacional, pois os governos nacionais formam um todo unido contra o proletariado.”
“A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los.
Karl Marx (Guerra Civil em França - 30 de Maio de 1871)

“HISTORIANET”

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Em um lago, sinais da lenta mudança da savana para o Saara

Kenneth Chang

Seis mil anos atrás, o norte da África era um lugar de árvores, pastagens, lagos e gente. Hoje é o Saara -uma área deserta maior que a Austrália. O lago Yoa, no nordeste do Chade, permaneceu um lago durante milênios e ainda é um lago, rodeado pelo deserto quente. Embora haja pouca chuva, a água do lago Yoa é reabastecida por um aqüífero subterrâneo.

Analisando as milhares de camadas de sedimentos de um núcleo, que é uma coluna de sedimentos perfurada do fundo do lago, uma equipe de cientistas reconstruiu o clima da região conforme a savana se transformou em Saara.

Na edição de sexta-feira da revista “Science”, os pesquisadores liderados por Stefan Kroepelin, um geólogo do Instituto de Arqueologia Pré-histórica da Universidade de Colônia na Alemanha, relata que a transição climática ocorreu gradualmente.

Particularmente, a mudança nos tipos de pólen que caíam na água e afundavam conta a história de como o terreno mudou de árvores para arbustos para gramíneas e areia -”onde hoje você não encontra um único pedaço de grama”, disse Kroepelin.

As conclusões vão contra uma visão prevalecente de que a mudança ocorreu abruptamente, em poucos séculos, há cerca de 5.500 anos, marcando o fim do “período úmido africano”, quando as chuvas de monções inundavam a região.

Essa visão surge de núcleos de sedimento oceânico retirado ao largo da costa oeste da Mauritânia. Em 2000, análises dos núcleos de pesquisadores liderados por Peter B. deMenocal, do Observatório da Terra Lamont-Doherty da Universidade de Columbia, mostraram um súbito aumento da poeira soprada da África naquela época.

Kroepelin não discutiu os dados do núcleo oceânico, mas disse que haviam sido “interpretados exageradamente”.

Os dados sobre o que acontecia na terra são esparsos, porque as areias sopradas pelo vento não preservam um registro geológico claro como os sedimentos nos lagos. Mas no lago Yoa a água que enchia os aqüíferos subterrâneos no período úmido, que começou 14.800 anos atrás, continuou fluindo para o lago de 18 metros de profundidade. É o suficiente para compensar os 6 metros de água que evaporam do lago todos os anos, disse Kroepelin. Apenas alguns milímetros de chuva caem por ano.

Kroepelin disse que espera voltar ao lago Yoa no ano que vem para perfurar um núcleo que poderá rastrear a história climática há 12 mil anos.

DeMenocal elogiou a pesquisa de Kroepelin. “Acho que é um corpo de trabalho muito bom”, ele disse. “Realmente é a única coisa desse tipo do interior árido.” Mas ele disse que o pólen poderia ter vindo principalmente da área imediatamente ao redor do lago e não do Saara em geral.

Jonathan A. Holmes, diretor do Centro de Pesquisa de Mudança Ambiental no University College em Londres, disse que os dois conjuntos de pesquisas foram realizados cuidadosamente e que o desafio seria montar uma história mais complexa do clima da região.

“Eu não acho que qualquer dos registros esteja errado”, disse Holmes, que escreveu um comentário que acompanha o artigo na “Science”. “Acho que eles representam coisas ligeiramente diferentes.”

Holmes disse que uma possibilidade é que a poeira no litoral reflita uma diminuição no nível de água ao redor do lago Chade, revelando um solo que produz mais poeira.

Por mais rápida que tenha ocorrido a seca, ela empurrou a população para fora do centro-norte da África, disse DeMenocal, e essa migração forçada pelo clima poderia ter levado à ascensão dos faraós e da civilização egípcia.

“The New York Times”

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Obama usa a Internet como espaço de debate e arrecadação

Um dos criadores do Facebook é o braço-direito do candidato na web

David Alandete

A Internet pode ser uma faca política de dois gumes. Mike Stark, 39 anos, é a prova disso. Esse estudante de direito é um membro ativo do portal na web do candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, e um escritor no influente blog liberal Daily Kos. Quando soube que o senador de Illinois ia votar a favor de uma polêmica lei que permitirá ao governo dos EUA prorrogar seu programa de espionagem aos cidadãos, não ficou em silêncio.

“Quando um candidato liberal ganha nas primárias, tende a girar para o centro e a direita, a esquecer seus compromissos mais progressistas”, explica. “Isso é o que está acontecendo com Obama.” Stark teve a idéia de criar um grupo de discussão dentro do site oficial do candidato, pedindo que ele mude de opinião e vote contra essa lei. Em apenas cinco dias 11 mil pessoas aderiram à sua petição.

Essa campanha presidencial é diferente das anteriores, entre outras coisas porque a Internet se transformou em sua espinha dorsal. A campanha de Obama deu aos eleitores a capacidade de interagir com o próprio candidato e seus assessores. Os internautas gozam de tamanha liberdade que se permitiram confrontá-lo nos aspectos que começam a despertar seus receios.

“Esta é uma das grandes diferenças desta campanha. Obama deu aos jovens a capacidade de se organizar e se conectar diretamente com a campanha”, explica Phil Noble, analista e uma autoridade na presença da Internet na política. “O senador deu poder às bases, modificando para sempre a antiga estrutura eleitoral, de uma hierarquia superior organizar os voluntários. Hoje esses voluntários podem se organizar sozinhos.”

Casos como o do grupo criado contra Obama por seus próprios voluntários abrem a dúvida de como o senador de Illinois enfrentará uma eventual oposição das bases liberais que tanto o ajudaram a conseguir a vitória nas primárias. Por enquanto a equipe eleitoral do senador limitou-se a aparar as críticas. “Um diálogo aberto é muito importante para qualquer campanha, e estamos contentes com o fato de que o portal se transformou em um veículo para essa conversa”, disse seu porta-voz, Tommy Vietor.

Em 2004 já existiam centenas de blogs liberais e conservadores nos quais os cidadãos anônimos expressavam suas opiniões sem a neutralidade que se exige dos meios de comunicação. “A novidade é um candidato conceder a seus voluntários a capacidade de se organizar por si mesmos através de redes sociais”, explica Aaron Smith, da divisão de Internet do centro de pesquisas Pew.

“Nesse sentido Obama ganhou uma sólida vantagem sobre [o candidato republicano, John] McCain. Segundo o último estudo de hábitos eleitorais da Pew, 65% dos eleitores de Obama consideram a Internet uma fonte de informação política básica. Por isso o senador decidiu contratar Chris Hughes poucos dias depois de anunciar sua candidatura, em fevereiro de 2007, em uma das decisões mais transcendentais e revolucionárias da campanha.

Hughes é o guru digital de Obama, o artífice dessa arquitetura bidirecional que permite aos voluntários organizar-se na rede e dar idéias ao senador. Em 2004, com 20 anos e junto com dois companheiros da Universidade Harvard, fundou o Facebook, uma das maiores redes sociais que existem na Internet. Hoje esse portal conta com mais de 80 milhões de usuários. Com uma fortuna pessoal imensa, tendo estado no topo das empresas tecnológicas do Vale do Silício, Hughes decidiu deixar tudo por “um candidato que é realmente capaz de fazer sonhar”, como descreve em seu próprio blog. Há mais de um ano mudou-se para Chicago com um novo emprego: “guru de organização online”. Ele e mais 20 pessoas se encarregam diariamente de facilitar para que os seguidores de Obama se organizem na rede.

Assim, criaram o site my.barackobama.com, uma rede social em que os voluntários do candidato podem entrar em ação por iniciativa própria. Esse portal foi uma verdadeira revolução em relação às campanhas presidenciais anteriores. “Os políticos tinham que perceber que há muitos eleitores ativos que se conectam a aplicativos como o Facebook”, explicou Hughes em março passado em um ato eleitoral. O portal de Obama foi criado à imagem e semelhança do Facebook, com aplicações que permitem planejar eventos, acrescentar amigos e convidar outras pessoas para aderir à rede de voluntários do senador. Quanto mais pessoas, mais apoios e quanto mais apoios, mais fundos.

Só com pequenas doações realizadas na maioria através da Internet, Obama, 47 anos, arrecadou mais de US$ 130 milhões, segundo dados do Centro para uma Política Responsável. Com o mesmo método, McCain não superou os US$ 25 milhões. A Internet não é seu terreno e o senador do Arizona sabe disso. Muitos internautas lembram dele com amargura como um dos proponentes da lei que permite impor multas de até US$ 300 mil a empresas da Internet que não informem às autoridades sobre “textos, fotografias ou vídeos ilegais”.

No início do ano, em uma entrevista à Yahoo News, McCain, 72 anos, definiu a si próprio como “um analfabeto em termos de informática”. “Ele mesmo reconheceu. É analfabeto. Depende de sua mulher para navegar na Internet”, explica Tracy Russo, especialista em novas tecnologias ligada até há pouco tempo à campanha presidencial do senador democrata John Edwards. “Agora cabe aos americanos decidirem se querem que uma pessoa assim se sente no Salão Oval.”

Russo, que hoje apóia o senador Obama, participou no último dia 23 de junho de um debate sobre a Internet. Na frente dela sentou-se um assessor de McCain, Mark Sohoo, que quis corrigir a imagem do candidato como um incapacitado digital. Diante da óbvia vantagem de Obama nesse campo, o assessor de McCain em novas tecnologias disse que “não é preciso utilizar um computador para avaliar a importância da Internet. John McCain sabe que a Internet existe”.

Essa frase ainda ecoa por centenas de blogs e sites liberais que zombam da vaguidão do comentário do assessor. O problema em 2008 é que não basta saber que a Internet existe. É preciso saber aproveitá-la ao máximo.

“El País”

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Darfur desestabiliza a África central

A guerra não declarada entre o Chade e o Sudão incendeia toda a região

Pere Rusiñol

Em Goz Beida, a leste desse convulsionado Chade, é muito fácil saber quem tem armas: todo mundo. O complicado é descobrir a serviço de quem estão as pessoas. A fronteira entre o Chade e o Sudão, de quase 600 quilômetros, transformou-se na moradia de rebeldes de todas as condições e na meca dos traficantes de armas. O barril de pólvora que é Darfur (oeste do Sudão), que agoniza desde 2003 e conta já 300.000 mortos e 2,5 milhões de refugiados, já incendiou todo o centro da África e ameaça com uma guerra aberta que poderia estender-se pelos quase 2.000 quilômetros que separam Ndjamena e Cartum, com ramificações em outros países, como República Centro-Africana e Uganda.

“É impossível distinguir quais são os rebeldes, porque existem pelo menos 20 grupos - entre chadianos e sudaneses -, muitas deserções e as mudanças de lado são contínuas”, explica dando de ombros um soldado irlandês da Eufor, a missão da União Européia (UE), que destacou 3.000 militares (70 espanhóis) para a zona na tentativa de evitar que um irrompa um conflito. Cartum arma os rebeldes chadianos, divididos em inúmeros grupos. E Ndjamena arma os guerrilheiros de Darfur, fragmentados de sua parte em siglas incompreensíveis. A Eufor levantou em apenas um mês uma fortaleza inexpugnável em meio ao deserto de Goz Beida. Corpulentos irlandeses fazem as patrulhas, armados até os dentes - pistolas alemãs, metralhadoras francesas, lança-granadas israelenses - por pistas de terra pelas quais circulam muitas crianças e mulheres em lombos de burros, a 60 graus de temperatura. Os rebeldes estão em todas as partes: nas últimas semanas ocuparam várias cidades e ameaçam iniciar a ofensiva final sobre Ndjamena. E os guerrilheiros de Darfur prometem tomar Cartum em breve.

As ameaças não são meras bravatas. Em fevereiro, os guerrilheiros chadianos entraram em Ndjamena e chegaram a cercar o palácio presidencial. A cidade está agora em alerta máximo: os soldados patrulham cada esquina e foram cavadas trincheiras em todas as entradas. E em maio, a principal facção rebelde de Darfur - cujo líder pertence à mesma tribo que o presidente do Chade, Idriss Déby - instalou-se em Cartum e deixou em estado de choque o regime islâmico de Omar el Bashir.

Na prática, o Chade e o Sudão já estão em guerra por meio de guerrilhas que se cruzaram. São dois países de grande importância estratégica - no centro da África, com fronteiras com outros 10 países - e econômica - ambos contam com monumentais quantidades de petróleo - e o conflito pode desestruturar toda a região. “O risco de uma nova crise regional nas dimensões da ocorrida nos Grandes Lagos é enorme”, adverte Jean-Cristophe Belliard, assessor para assuntos africanos do chefe da diplomacia européia, Javier Solana. O fantasma dos Grandes Lagos é aterrador: milhões de pessoas morreram na década de 1990 em crises sucessivas e inter-relacionadas que se foram estendendo para Ruanda, Burundi, República Democrática do Congo e outros países. “A Eufor quer evitar uma catástrofe semelhante”, acrescentou.

O Sudão, que vetou a presença de soldados ocidentais em Darfur, interpretou o envio de soldados como um movimento hostil: “A missão da UE procura, na realidade, reforçar o regime de Déby e os franceses buscam legitimidade internacional para apoiá-lo”, afirmam fontes diplomáticas sudanesas. Déby enviou reforços militares a todos os rincões do Chade. “Certamente existem muitos rebeldes, mas agora tudo está sob controle; nós os mantemos na linha”, afirmava um dos militares que chegou a Goz Beida para reforço, pouco antes que os guerrilheiros ocupassem durante algumas horas a cidade. Vários militares o acompanhavam, ouvindo música árabe, montados em um Toyota. Quase todos adolescentes fumavam e exibiam seus sorrisos e seus fuzis Kalashnikov.

Toda a região está cheia de campos de refugiados e de pessoas que foram desalojadas: de Darfur, do Chade, da República Centro-Africana. No total há quase 500.000. A maioria leva quase quatro anos esperando em tendas sob um sol abrasador. Todos sonham com o retorno para casa, mas agora se conformam com o fato de não serem atingidos por nenhuma das muitas balas que todos os dias passam roçando por eles.

“El País”

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Posseiros legais

Aldem Bourscheit

A publicação da Medida Provisória 422 pelo governo federal, em 26 de março, foi muito mal recebida por ambientalistas. As críticas mais duras vêm do Greenpeace, que taxou a medida como /Programa de Aceleração da Grilagem - PAG/. O texto abre a possibilidade de “regularização” sem licitação pública de terras invadidas por posseiros na Amazônia, com até 1,5 mil hectares. Eles poderão comprar as terras pagando ao governo, sem concorrência.

Para o diretor de Políticas Públicas da entidade, Sérgio Leitão, o ato governista enfraquece o combate ao desmatamento, perdoa quem tomou ilegalmente terras públicas e sinaliza que novas ocupações e derrubadas serão legalizadas no futuro. “O texto atende à bancada ruralista e revela os interesses reais do governo sobre a floresta tropical. O governo lançou o PAG - Programa de Aceleração da Grilagem”, diz.

O ativista também critica o limite de até 1,5 mil hectares para regularizações divorciadas de licitação pública. Antes da MP 422, esse índice era de até 500 hectares. Segundo ele, isso beneficia posseiros de maior porte, não mais apenas agricultores familiares. “Não se tratam mais de pequenos produtores. O discurso social do governo está prejudicado”, afirma Leitão.

De acordo com o /Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incra/, vinculado ao /Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA/, a MP 422 poderá “legalizar” até 90% dos posseiros da Amazônia. Parlamentares ruralistas dizem que a medida beneficiará até 98% daqueles que invadiram terras públicas na região. A lógica, segundo um assessor do Incra ouvido pelo *O Eco*, é a de “legalizar para melhor fiscalizar”. Isso coloca em xeque, novamente, a capacidade do estado brasileiro de fazer valer a lei na região.

Na justificativa para edição da MP, o ministro Guilherme Cassel (MDA) diz que “A medida tem relevância na medida em que o Código Florestal (Lei no 4.771, de 15 de setembro de 1965) determina (…) que a propriedade rural, situada em área de floresta localizada na Amazônia Legal, tenha no mínimo 80% de reserva legal, de modo que a regularização no limite hoje previsto na Lei de Licitações, de até quinhentos hectares, alcançaria, em boa parte dos casos, apenas propriedades com a utilização de no máximo cem hectares, o que foge à realidade atual da Amazônia Legal.”

*História revivida*
Na avaliação do pesquisador Paulo Barreto, do /Imazon - Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (PA)/, o governo acerta ao tentar a regularização das tomadas ilegais de terras na Amazônia. No entanto, o diretor da entidade afirma que o problema dos posseiros foi criado pelo próprio governo, ao longo dos anos, e pode ser ampliado pela MP 422, a décima publicada em 2008.

“A MP é positiva porque cria um mecanismo de regularização, mas o governo repete o padrão histórico de aceitar por anos ocupações ilegais de terras e, no fim, abrir uma brecha para sua regularização”, diz. A situação se complica pela proximidade do período eleitoral, quando historicamente sobem as taxas de desmate na floresta tropical. “Para o governo, editar a medida provisória é bom, traz votos. Mas para a Amazônia, é muito ruim”, arremata.

Segundo Barreto, a MP pode reforçar a expectativa entre os candidatos a posseiros e grileiros de que nova “regularização” ocorra no futuro, ampliando a ocupação de terras públicas. “Para que isso não aconteça novamente, o governo deveria ser muito duro em fiscalização. Além da edição da medida provisória, o governo tem que combater novas ocupações”, alerta ele, que é mestre em Ciências Florestais pela Universidade de Yale (EUA).

Conforme seu relato, as posses ilegais de terras na Amazônia se ampliaram a partir de 1985, quando o governo lançou o Plano de Reforma Agrária da Nova República, o primeiro plano nacional de reforma agrária. Além de criar um ministério específico para a reforma agrária, que viria se tornar o atual MDA, o texto estimulou a tomada ilegal de terras em todo País, sempre com a expectativa de futura legalização. “Desde então, há pedidos para regularização de terras tomadas na região. Os posseiros têm parcela de culpa, mas agora o governo joga a culpa só nos posseiros e se exime de responsabilidade”, comenta o pesquisador.

Já em 2004, governo realizou uma chamada para recadastramento de terras na Amazônia, mas o tamanho do problema tornou a medida inviável. Isso levou à publicação de regra dispensando licitações para legalizar áreas com até 500 hectares. Após os alarmantes números sobre a retomada do desmatamento na Amazônia, divulgados pelo governo no início de 2008, um novo chamado para regularização de terras foi emitido, para recadastramento nos 36 municípios que mais desmatam a floresta tropical. “Mas seria novamente complicado regularizar terras com licitações públicas e vistorias. Esse é o contexto da publicação da nova medida provisória. É um reconhecimento do grave problema, sempre empurrado pela barriga do governo”, ressalta Barreto, do Imazon.

*Terra a quem tem posse*
Em entrevista publicada na página do Incra, o diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária Roberto Kiel procura explicar alguns reflexos da MP 422. Segundo ele, a medida era reivindicada por posseiros na Amazônia, que agora poderão comprar terras públicas que já ocupavam, sem concorrer com outros interessados. Antes da comercialização, o Incra deverá analisar se as “propriedades” são produtivas, se obedecem às leis trabalhistas e ambientais e se foram tomadas de “forma pacífica”. Documentos básicos (CPF e RG) também serão checados, diz o órgão federal.

Se tudo correr bem e os lotes forem comprados pelos posseiros, esses ganharão uma /Certidão de Cadastro de Imóvel Rural/ e terão suas propriedades incluídas no /Sistema Nacional de Cadastro Rural/ do governo. Assim, poderão se beneficiar de créditos públicos como os oriundos do /Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar- Pronaf/.

*O Eco*
vem mostrando que essa e outras fontes de recursos públicos são usadas para desmatar a Amazônia, capitalizando as derrubadas.

Para a compra de terras pelos posseiros, Kiel afirmou em sua entrevista que há um ano de carência e outros cinco para quitar os pagamentos. Só depois de dez anos os imóveis poderão ser vendidos a outras pessoas. “O prazo de pagamento é um absurdo extremamente generoso com posseiros que desmataram, venderam a madeira, plantaram e se capitalizaram”, avalia Paulo Barreto, do Imazon.

Cheio de dúvidas, o pesquisador enviou ao /Tribunal de Contas da União -TCU/ questionamentos sobre como a regularização de terras públicas tomadas ilegalmente na Amazônia funcionará na prática. Também com a pulga atrás da orelha, *O Eco* remeteu uma série de questões ao Incra, por e-mail, a pedido de sua assessoria de imprensa. No entanto, nenhuma das perguntas foi respondida pelo órgão público até o fechamento desta matéria. Confira os questionamentos mais abaixo. O Ministério do Meio Ambiente também não quis comentar o caso.

*Mera coincidência*
Outra polêmica provocada pela MP422 se deve ao fato de que seu conteúdo é praticamente uma cópia do Projeto de Lei 2278/2007 , do deputado federal Asdrubal Bentes (PMDB-PA). A indiscreta semelhança foi duramente criticada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Em notícia veiculada pela Agência Câmara no dia 27 de março, o parlamentar questionou “Como é que levam para o presidente da República uma proposta de MP que é uma cópia de um projeto? Evidentemente ninguém assinaria se soubesse dessa circunstância”. O texto, no entanto, foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro Guilerme Cassel (MDA). A MP está tramitando no Congresso, onde tem até 120 dias para ser votada e transformada em lei, ou não.

*Questões que o Incra não respondeu*

1. Qual a diferença, na prática, entre posseiros e grileiros de terras públicas?

2. O que acontecerá com os posseiros que não tiverem dinheiro para comprar as terras públicas que tomaram ou documentos básicos, como CPF e RG?

3. Por quanto o Incra estima que sejam negociados os hectares passíveis de regularização na Amazônia? Em quanto se estima o montante total que possa ser obtido com a regularização das posses?

4. Que destino terá o dinheiro obtido com a regularização dessas terras?

5. Como foi definido o um ano de carência e os cinco para pagamento?

6. Como se saberá o tempo em que o posseiro está sobre a terra, ou se é o mesmo posseiro desde o início da ocupação? Como se saberá que o posseiro estava no local antes de 2004?

7. O Incra tem ou terá fiscais em quantidade suficiente para que a regularização de terras por meio de licitações seja encaminhada corretamente, dentro da lei?

8. Há sintonia com a área ambiental do governo para se verificar o atendimento de toda a legislação ambiental pelos posseiros?

9. O Incra afirmou que até 90% das terras tomadas por posseiros na Amazônia poderão ser regularizadas. O Imazon estima que 40 milhões de hectares estejam nas mãos de posseiros na região. Supondo que a entidade esteja correta, seriam 36 milhões de hectares passíveis de regularização. Como se chegou a essa situação na Amazônia?

10. O limite de 15 módulos fiscais imuniza as áreas à desapropriação para reforma agrária. Mas a MP 422 não está promovendo uma espécie de reforma agrária na Amazônia, dando margem ao assentamento definitivo de posseiros?

11. Por que a MP 422 é idêntica ao PL 2278/2007, do deputado Asdrubal Bentes (PMDB/PA)?

12. Editar uma medida como a MP 422, em um ano eleitoral, quando historicamente crescem as taxas de desmatamento na Amazônia, não pode ser mal interpretado na região, como uma espécie de sinalização para que se avance em novas áreas de floresta?

“Landaction”

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A única economia viável

István Mészáros

2. Crescimento canceroso
3. Produção destrutiva
4. Impossibilidade de correcções parciais
5. O “não há alternativa”
6. Superar esta divisão social do trabalho
7. A urgência em enfrentar os problemas

Outrora o modo de produção capitalista representou um grande avanço sobre todos os modos precedentes, por mais problemático e na verdade destrutivo que este avanço histórico acabasse – e tinha de acabar – por ser. Ao romper a há muito prevalecente mas constrangedora ligação directa entre a utilização humana e a produção, e ao substituí-la pela relação mercadoria, o capital abriu as possibilidades encobertas da expansão aparentemente irresistível para as quais — do ponto de vista do sistema do capital e das suas personificações — não podia haver limites concebíveis. Pois a paradoxal e em última análise bastante frouxa determinação intrínseca do sistema produtivo do capital é que os seus produtos mercantilizados “não são valores de uso para os seus proprietários e são valor de uso para os seus não-proprietários. Consequentemente todos eles devem mudar de mãos… Portanto as mercadorias devem ser realizadas como valores antes que possam ser realizadas como valores de uso”. [1]

Esta auto-contraditória determinação interna do sistema, a qual impõe a brutal submissão das necessidades humanas à necessidade alienante da expansão do capital, é o que remove a possibilidade do controle racional completo desta ordem produtiva dinâmica. Isto traz consigo perigosas e potencialmente catastróficas consequências no longo prazo, transformando no final um grande poder positivo de desenvolvimento económico, antes totalmente inimaginável, numa devastadora negatividade, na ausência total da necessária restrição reprodutiva.

O que é sistematicamente ignorado — e deve ser ignorado, devido aos inalteráveis imperativos fetichísticos e direitos adquiridos do próprio sistema do capital — é o facto de que, sem escapatórias, nós vivemos num mundo finito, com os seus literalmente vitais limites objectivos. Durante um longo tempo da história humana, incluindo vários séculos de desenvolvimentos capitalistas, aqueles limites puderam ser — como na verdade foram — ignorados com relativa segurança. Contudo, logo que eles se manifestam, como enfaticamente devem fazê-lo na nossa época histórica irreversível, nenhum sistema irracional e devastador, não importa quão dinâmico (de facto, quanto mais dinâmico pior), pode escapar às consequências. Ele pode apenas não levá-las em consideração por algum tempo através da sua própria reorientação rumo à rígida justificação do mais ou menos aberto imperativo destrutivo para a auto-preservação do sistema a todo custo: pregando a visão do “não há alternativa”, e neste espírito varrendo para o lado e, sempre que necessário, suprimindo brutalmente mesmo os mais óbvios sinais de advertência daqueles prenúncios de futuro insustentável.

A teorização falsa é a consequência necessária desta objectiva determinação estrutural desequilibrada e da dominação do valor de uso pelo valor de troca não só sob as mais absurdas e cegas condições apologéticas do capitalismo contemporâneo como também no período clássico da economia política burguesa, no tempo da ascensão histórica do sistema do capital. Isto acontece porque sob o domínio do capital uma produção ficticiamente ilimitada deve ser perseguida a todo custo, assim como justificada teoricamente como sendo a única recomendável. Tal perseguição é imperativa mesmo se não puder haver qualquer garantia de que: (1) a “mudança de mãos” requerida e sustentável das mercadorias fornecidas realmente se verificarão no mercado idealizado (graças à misteriosa benevolência da ainda mais misteriosa “mão invisível” de Adam Smith); e (2) que as condições materiais objectivas para produzir a projectada oferta ilimitada — e humanamente ilimitável, uma vez que as sua determinação primária divorciou-se da necessidade e do uso — de mercadorias possa se assegurada para sempre, pouco importando o impacto destrutivo do modo de reprodução social metábolico do capital sobre a natureza.

A disposição ideal do mercado para rectificar o inalterável defeito estrutural indicado no ponto (1) acima são gratuitas reflexões posteriores, que trazem consigo muitas suposições arbitrárias e projecções regulativas que não podem ser cumpridas. A sóbria realidade subjacente ao mercado, como cura para essas reflexões posteriores, é um conjunto de relações de poder insuperavelmente adversas, tendentes à dominação monopolista e à intensificação dos antagonismos do sistema. Da mesma forma, o grave defeito estrutural da perseguição ilimitada da expansão do capital — idealizando o “crescimento” como um fim em si mesmo — como salientado no ponto (2) acima, é complementado por uma igualmente fictícia reflexão posterior quando tem de ser admitido que algum remédio pode ser recomendável. E o remédio então projectado — como uma alternativa para o colapso do sistema dentro da irredimível negatividade do destino de “estado estacionário” teorizado pela economia política burguesa no século XIX — é simplesmente a ansiosa advocacia do tornar a distribuição “mais equitativa” (e através disso menos sujeita a conflitos) enquanto se deixa o sistema de produção tal como está. Esta proposta, mesmo se pudesse ser implementada, o que naturalmente não pode ser — devido às fundamentais determinações hierárquico-estruturais da própria ordem social do capital — não poderia resolver qualquer dos graves problemas da produção sobre os quais também se erguem as contradições inultrapassáveis do capital e do seu incurável sistema de distribuição.

Um dos principais representantes do pensamento liberal, John Stuart Mill, é autêntico na sua preocupação acerca do “estado estacionário” do futuro assim como é desesperadamente irrealista no seu remédio para o mesmo. Pois ele pode apenas oferecer esperanças ocas na sua discussão deste problema, o qual é absolutamente intratável do ponto de vista do capital. Ele escreve que “Eu sinceramente espero, para o bem da posteridade, que eles ficarão satisfeitos em estarem estacionários, muito antes de a necessidade obrigá-los a isto” [2] . Deste modo, o discurso de Mill eleva-se a não mais do que a pregação paternalista, porque ele apenas pode reconhecer, em sintonia com a sua aceitação do diagnóstico maltusiano, as dificuldades decorrentes do crescimento da população, mas nenhuma das contradições da ordem reprodutiva do capital. Sua auto-complacência burguesa é claramente visível, despojando as suas análises e intenções reformadoras paternalistas de toda a substância. Mill assevera peremptoriamente que “É apenas nos países atrasados do mundo que o aumento da produção ainda é importante: naqueles mais avançados, o que é economicamente necessário é uma melhor distribuição, para a qual um meio indispensável é uma contenção mais estrita da população” [3] Mesmo a sua ideia de “melhor distribuição” é irremediavelmente irrealista. Pois o que Mill possivelmente não pode reconhecer (ou admitir) é que o aspecto de importância esmagadora da distribuição é a intocável distribuição exclusiva dos meios de produção para a classe capitalista. Compreensivelmente, portanto, sobre uma tal premissa operativa da ordem social prevalece sempre um sentimento paternalista de superioridade no sentido de que não se pode esperar qualquer solução “até que as melhores mentes tenham êxito em educar o outros”, [4] de modo a que eles aceitem a contenção da população e uma “melhor distribuição” que supostamente decorreria de tal contenção. Assim o povo deveria esquecer tudo acerca de mudar as destrutivas determinações estruturais da ordem social metabólica estabelecida que inexoravelmente conduz a sociedade em direcção a um estado estacionário estagnado. No discurso de Mill a utopia do milénio capitalista, com o seu estado estacionário que se pode manter, será trazido à existência graças aos bons serviços das iluminadas “melhores mentes” liberais. E então, tanto quanto concerne as determinações estruturais da ordem social reprodutiva que está estabelecida, tudo ficará como antes para sempre.

Tudo isto fez algum sentido do ponto de vista do capital, por mais problemático e insustentável que este sentido tenha acabado por ser, devido ao dramático princípio e cruel aprofundamento da crise estrutural do sistema. Mas mesmo o senso parcial de algumas proposições ansiosas não será relacionado ao movimento político reformista que afirmam representar os interesses estratégicos do trabalho. Apesar disso, o reformismo social-democrata no seu início inspirava-se em tais ingénuos, ainda que no início genuinamente mantidas, reflexões a posteriori da economia política liberal. Assim, devido à lógica interna das premissas sociais adoptadas, emanando da óptica do capital e dos direitos adquiridos como o controlador imutável do metabolismo reprodutivo, no mínimo não poderia ser surpreendente que o reformismo social-democrata acabasse a sua rota de desenvolvimento do modo como realmente o fez: transformando-se a si próprio no “New Labor” (na Grã-Bretanha; e seus equivalentes em outros países) e abandonando completamente qualquer preocupação mesmo com a mais limitada reforma da ordem social estabelecida. Ao mesmo tempo, ao invés do liberalismo genuíno as mais selvagens e desumanas variedades de neoliberalismo surgiram nesta fase histórica, apagando a memória dos remédios sociais advogados outrora — incluindo até as ansiosas soluções paternalistas — do passado progressista do credo liberal. E, como uma amarga ironia do desenvolvimento histórico contemporâneo, os antigos movimentos reformistas social-democratas tipo-”New Labor” instalados no governo — não só na Grã-Bretanha como também por toda a parte no “avançado” e não tão avançado mundo capitalista — não hesitaram em identificar-se sem reservas com a fase neoliberal agressiva dos apologistas do capital. Esta transformação submissa marcou claramente o fim da estrada reformista que era um beco sem saída desde o princípio.

2. Crescimento canceroso

A fim de criar uma ordem social reprodutiva economicamente viável, e também a longo prazo historicamente sustentável, é necessário alterar radicalmente as determinações auto-contraditórias no âmago da ordem estabelecida, as quais impõem a implacável submissão das necessidades humanas e de uso à necessidade alienante da expansão do capital. Isto significa que a pré-condição absurda do sistema produtivo dominante — através de valores de uso, de determinações de propriedade predeterminadas e totalmente iníquas, devem ser divorciadas e opostas àqueles que as criam, para que provoquem e legitimem circularmente/arbitrariamente a auto-realização ampliada do capital — tem de ser relegada definitivamente para o passado. De qualquer forma, o único significado viável de economia como utilização (economizing) racional dos recursos finitos disponíveis, necessariamente finitos, não pode ser instituído e respeitado como um princípio de orientação vital. Ao invés disso, a dissipação irresponsável domina a ordem sócio-económica — e consequentemente política — do capital, a qual invariavelmente reafirma-se como irresponsabilidade institucionalizada, não obstante sua própria mitologia da “eficiência” absolutamente insuperável. (Para não haver dúvida, a espécie de “eficiência” glorificada desta forma é de facto, em última análise, a eficiência auto-questionadora do capital por conduzir cegamente em frente as partes adversas/conflitivas ao custo incorrigível do todo .) Compreensivelmente, portanto, as fantasias bem promovidas pelos governos de um “socialismo de mercado” tinham de desaparecer na forma de um colapso humilhante, devido à aceitação de tais pressupostos e determinações estruturais capitalisticamente insuperáveis.

A concepção agora dominante da “economia”, a qual acontece ser totalmente incapaz de estabelecer limites mesmo para os desperdícios mais gravosos, na nossa época numa escala verdadeiramente planetária, pode apenas operar com tautologias auto-justificadoras e prefabricações arbitrárias, assim como falsas oposições e pseudo-alternativas, rejeitadas em simultâneo, concebidas para o mesmo propósito da auto-justificação do injustificável. Como uma grosseira — e perigosamente infectante — tautologia é-nos oferecida a definição arbitrária de produtividade como crescimento, e crescimento como produtividade, embora ambos os termos exigissem por si próprios uma avaliação historicamente qualificada e objectivamente sustentável.

Naturalmente, a razão porque a óbvia falácia tautológica é muito preferível à necessária avaliação teórica e prática adequada é que ao decretar arbitrariamente a identidade destas duas expressões chave de referência do sistema do capital a validade auto-evidente e a superioridade intemporal de uma ordem social reprodutiva extremamente problemática — e em última análise até auto-destrutiva — deveria parecer não só plausível como também absolutamente inquestionável. Ao mesmo tempo, a arbitrariamente decretada identidade tautológica de crescimento e produtividade é escorada pela igualmente arbitrária e auto-justificadora falsa alternativa entre “crescimento e não-crescimento”. Além disso, esta última é automaticamente pré-julgada em favor do “crescimento” capitalisticamente promovido e definido. Ela é projectada e definida com quantificação fetichística, como caminho adequado de pressupostos eternos, como auto-glorificante sinónimo do próprio crescimento, nada mais específico e humanamente significativo do que a genericidade abstracta da expansão de capital ampliada como precondição para a satisfação das necessidades humanas e de uso.

É aqui que o incorrigível divórcio entre o crescimento capitalista e as necessidades humanas e de uso — na verdade sua potencialmente mais devastadora e destrutiva contra-posição às necessidades humanas — trai-se a si próprio. Uma vez que as mistificações fetichistas e os postulados arbitrários na raiz da categoricamente decretada falsa identidade de crescimento e produtividade são expurgadas, torna-se perfeitamente claro que a espécie de crescimento preconizado e ao mesmo tempo automaticamente isentado de todo exame crítico não está de forma alguma conectado a objectivos sustentáveis correspondentes às necessidades humanas. A única conexão que deve ser afirmada e defendida a todo custo no universo metabólico social do capital é a falsa identidade da — aprioristicamente pressuposta — expansão do capital e do circularmente correspondente (mas na verdade também pressuposto aprioristicamente) “crescimento”, sejam quais forem as consequências impostas sobre a natureza e a humanidade pelos mais destrutivos tipos de crescimento. Pois a preocupação real do capital só pode ser a sua própria eterna expansão ampliada, mesmo se isto trouxer consigo a destruição da humanidade.

Nesta visão, mesmo o mais letal crescimento canceroso deve preservar o seu primado conceptual sobre (contra) as necessidades humanas e de uso, se por acaso as necessidades humanas forem mencionadas. E quando os apologistas do sistema do capital querem considerar The Limits to Growth [5] , como fez o “Clube de Roma” na sua amplamente propagandeada iniciativa de apologia do capital no princípio da década de 1970, o objectivo inevitavelmente continua a ser a eternização das graves desigualdades existentes [6] através do fictício (e quixotesco) congelamento da produção global capitalista num nível totalmente insustentável, culpando primariamente o “crescimento populacional” (como costumeiro na economia política burguesa desde Malthus) pelos problemas existentes. Comparada com tais “intenções de cura” hipócritas e brutais, pretendendo retoricamente estarem preocupadas com nada menos do que “a Situação da Espécie Humana”, a anteriormente citada pregação de Mill, com sua genuína defesa de alguma distribuição mais equitativa do que aquela que lhe era familiar, foi o paradigma do iluminismo radical.

A característica falsa alternativa de “crescimento ou não crescimento” é evidente mesmo se considerarmos apenas o que seria o impacto inevitável do proposto “não crescimento” sobre as graves condições de desigualdade e de sofrimento na ordem social do capital. Isto significaria a condenação permanente da esmagadora maioria da humanidade às condições desumanas a que ela é agora forçada a suportar. Pois agora ela é, num sentido literal, forçada a suportá-las, aos milhares de milhões, quando poderia ser criada uma alternativa real para ela. Sob condições, ou seja, quando seria perfeitamente factível rectificar pelo menos os piores efeitos da privação global: colocando em uso humanamente recomendável e recompensador o potencial de produtividade já alcançado, num mundo cujos recursos materiais e humanos são agora criminosamente desperdiçados.

3. Produção destrutiva

Não há dúvida, só podemos falar do positivo potencial de produtividade, e não do existente na realidade, como muitas vezes mencionado, com boas intenções coloridas de verde mas com ilusões sem limites, por antiquados reformadores a asseverarem que desejavelmente podíamos fazer “o correcto já”, com os poderes produtivos hoje à nossa disposição, se realmente decidíssemos assim fazer. Infelizmente, contudo, tal concepção ignora completamente o modo como o nosso sistema produtivo está articulado actualmente, exigindo no futuro uma rearticulação radical. Pois a produtividade casada com o crescimento capitalista, na forma da agora dominante realidade da produção destrutiva, é um dos maiores adversários a proibi-lo. A fim de voltar a positiva potencialidade do desenvolvimento produtivo para uma realidade muito necessária, de modo a que possa rectificar muitas das gritantes desigualdades e injustiças da nossa sociedade existente, seria necessário adoptar os princípios regulativos de uma ordem social qualitativamente diferente. Por outras palavras, o agora destrutivamente negado potencial de produtividade da humanidade teria de ser libertado do seu invólucro capitalista a fim de se tornar poder produtivo socialmente viável.

A quixotesca defesa do congelamento da produção ao nível alcançado no princípio da década de 1970 era uma tentativa de camuflar, com um vácuo modelo pseudo-científico criado no Massachusetts Institute of Technology, as brutalmente impostas relações reais de poder do imperialismo do pós-guerra dominado pelos EUA. Esta variedade de imperialismo era, naturalmente, muito diferente da forma anterior conhecida por Lenine. No tempo de Lenine pelo menos meia dúzia de potências imperialistas significativas estavam a competir pelas recompensas das suas conquistas reais ou esperadas. E mesmo na década de 1930 Hitler ainda estava desejoso de partilhar os frutos do imperialismo violentamente redefinido com o Japão e a Itália de Mussolini. No nosso tempo, em contraste, temos de enfrentar a realidade — e os perigos letais — decorrentes do imperialismo hegemónico global, com os Estados Unidos como potência esmagadoramente dominante. [7] Em contraste com Hitler, os Estados Unidos como hegemon único recusam-se totalmente a partilhar a dominação global com quaisquer rivais. E não se trata simplesmente de uma questão de contingências político/militares. Os problemas são muito mais profundos. Eles decorrem das contradições sempre agravadas do aprofundamento da crise de estrutura do sistema do capital. O imperialismo hegemónico global dominado pelos EUA é uma tentativa — em última análise fútil — de inventar uma solução para esta crise através do mais brutal e violento domínio sobre o resto do mundo, forçado com ou sem a ajuda de “aliados servis”, agora através de uma sucessão de guerra genocidas. Desde a década de 1970 os Estados Unidos têm estado a afundar-se, cada vez mais profundamente, no endividamento catastrófico. A solução fantasiosa proclamada publicamente por vários presidentes estado-unidenses era “crescer para ultrapassar isto”. E o resultado foi o diametralmente oposto, na forma de endividamento astronómico e ainda em crescimento. Consequentemente, os Estados Unidos devem sequestrar para si próprios, por quaisquer meios à sua disposição, incluindo a mais violenta agressão militar, sempre que necessário para tal finalidade, tudo o que puder, através da transferência dos frutos do crescimento capitalista — graças à dominação sócio-económica global e político/militar dos Estados Unidos — de toda a parte do mundo. Será que alguma pessoa sã poderia então imaginar, não importa quão bem blindado pelo seu rígido desprezo para com o “mito da igualdade”, que o imperialismo hegemónico global dominado pelos EUA consideraria seriamente por um momento que fosse a panaceia do “não crescimento”? Somente a pior espécie de fé cega poderia sugerir tais ideias, não importa quão pretensiosamente empacotadas nas hipócritas preocupações acerca da “Situação da Espécie Humana”.

Por muitas razões não pode haver questões acerca da importância do crescimento tanto no presente como no futuro. Mas ao dizer isso deve-se avançar com o exame adequado do conceito de crescimento não só daquele que conhecemos no presente mas também como podemos encarar a sua sustentabilidade futura. Nosso apoio à necessidade do crescimento não pode ser favorável ao crescimento não qualificado. A questão real, tendenciosamente evitada, é: que espécie de crescimento é factível hoje, em contraste com crescimento capitalista perigosamente depredador e mesmo debilitante visível em torno de nós? Pois o crescimento também deve ser positivamente sustentável numa base a longo prazo.

Como já fora mencionado, o crescimento capitalista é inevitavelmente dominado pelos limites inescapáveis da quantificação fetichista. O desperdício sempre agravado é um corolário necessário de tal fetichismo, uma vez que não pode haver qualquer critério — nem nenhuma medida viável — através de cuja observância o desperdício pudesse ser corrigido. A quantificação mais ou menos arbitrária estabelece o contexto, criando em simultâneo a ilusão de que uma vez asseguradas as quantidades requeridas para os mais poderosos, já não pode haver novos problemas significativos. Mas a verdade desta questão é que a quantificação auto-orientada na realidade não pode ser mantida de todo como uma forma de estratégia produtivamente viável mesmo no curto prazo. Pois ela é parcial e míope (se não totalmente cega), preocupada apenas com quantidades correspondentes aos obstáculos imediatos que impedem o cumprimento de uma dada tarefa produtiva, mas não com os necessariamente associados limites estruturais do próprio empreendimento sócio-económico os quais — quer saiba isto ou não — em última análise decidem todas as coisas. A confusão capitalisticamente necessária de limites estruturais com obstáculos (os quais podem ser quantitativamente ultrapassados), a fim de ignorar os limites (uma vez que eles correspondem a determinações insuperáveis da ordem social metabólica do capital), vicia a orientação do crescimento de todo o sistema produtivo. Tornar viável o crescimento exigiria aplicar-lhe considerações profundamente qualitativas. Mas isto é totalmente impedido pelo inquestionado e inquestionável impulso auto-expansionista a todo custo do capital, o qual é incompatível com a consideração constrangedora da qualidade e dos limites.

A grande inovação do sistema do capital é que ele pode operar — não dialecticamente — através da dominação esmagadora da quantidade: ao incluir tudo, inclusive o trabalho humano vivo (inseparável das qualidades da necessidade e uso humano) sob determinações quantitativas abstractas, na forma de valor e valor de troca. Isto é o segredo do triunfo — durante longo tempo irresistível — sócio-histórico do capital. Mas é também o arauto da sua insustentabilidade e necessária implosão final, logo que os limites absolutos dos sistema estejam plenamente activados, como acontece cada vez mais na nossa própria época histórica. É no nosso tempo que a dominação não dialéctica da qualidade pela quantidade torna-se perigosa e indefensável.

Portanto no nosso tempo é inconcebível ignorar a fundamental, mas sob o capitalismo necessariamente secundarizada, conexão inerente da economia como economização (o que equivale a administração responsável ). Chegámos agora a um ponto crítico na história, quando as personificações desejadas pelo sistema produtivo imperante fazem tudo ao seu alcance para eliminar toda a consciência daquela conexão objectiva vital — optando pela destrutividade inegável, não só com o culto de práticas produtivas extremamente devastadoras como também pela glorificação do seu empenhamento letalmente destrutivo em “guerras preventivas e antecipativas” sem limites.

A qualidade, pela sua própria natureza, é inseparável das especificidades. Consequentemente, um sistema metabólico social respeitoso da qualidade — acima de tudo das necessidades dos seres humanos vivos como sujeitos produtores — não pode ser regido hierarquicamente. Uma administração sócio-económica e cultural de espécie radicalmente diferente é requerida para uma sociedade operada na base de tal metabolismo reprodutivo qualitativamente diferente, que pode ser resumido como auto-administração. A arregimentação era tanto factível como necessária para a ordem social metabólica do capital. De facto a estrutura de comando do capital não poderia funcionar de qualquer outro modo. A hierarquia estruturalmente assegurada e a arregimentação autoritária são as características definidoras da estrutura de comando do capital. A ordem alternativa é incompatível com a arregimentação e com a espécie de contabilidade — incluindo a operação estritamente quantitativa do tempo de trabalho necessário — que devem prevalecer no sistema do capital. Portanto, a espécie de crescimento necessário e factível na ordem metabólica social alternativa só pode ser baseada na qualidade directamente correspondente às necessidades humanas: as necessidades reais e em desenvolvimento histórico tanto da sociedade como um todo como dos seus indivíduos particulares.

Ao mesmo tempo, a alternativa à restritiva e fetichista contabilidade do tempo de trabalho necessário só pode ser a libertação e emancipação do tempo disponível conscientemente oferecido e administrado pelos próprios indivíduos sociais. Esta espécie de controle metabólico social dos recursos humanos e materiais disponíveis respeitaria — e realmente poderia — tanto os limites gerais decorrentes do princípio orientador da economia como economização; e ao mesmo tempo também expandiria conscientemente tais limites e necessidades qualitativas conforme o permitissem as condições historicamente em desenvolvimento. Apesar de tudo, não deveríamos esquecer que “o primeiro acto histórico foi a criação de uma nova necessidade” (Marx). Só o modo descuidado de o capital tratar a economia — como economização racional mas como a mais irresponsável legitimação do desperdício sem limites — é o que perverte totalmente este processo histórico: ao substituir para a rica diversidade das necessidades humanas pela alienante necessidade única da auto-reprodução ampliada a todo o custo, com isso ameaçando por um fim à própria história humana.

4. Impossibilidade de correcções parciais

Não pode haver nem mesmo correcções parciais introduzidas na estrutura operacional do capital se elas forem genuinamente orientadas para a qualidade. Pois a únicas qualidades relevantes quanto a isto não são algumas características físicas abstractas mas sim as qualidades humanamente significativas inseparáveis das necessidades. É verdade, naturalmente, como enfatizado anteriormente, que tais qualidades são sempre específicas, correspondendo a necessidades humanas particulares claramente identificáveis tanto dos próprios indivíduos como das suas historicamente dadas e cambiantes relações sociais. Consequentemente, na sua especificidade multilateral elas constituem um conjunto coerente e bem definido de determinações sistémicas invioláveis, com os seus próprios limites sistémicos. É precisamente a existência de tais limites sistémicos — muito longe de abstractos — que torna impossível transferir quaisquer determinações operacionais e princípios orientadores significativos da ordem social metabólico alternativa considerada para dentro do sistema do capital. Os dois sistemas são radicalmente excludentes um do outro. Pois as qualidades específicas correspondentes às necessidades humanas, na ordem alternativa, carregam as marcas indeléveis das suas determinações sistémicas gerais, como partes integrais de sistema reprodutivo de controle humanamente válido. No sistema do capital, ao contrário, as determinações gerais devem inalteravelmente abstractas, porque a relação de valor do capital deve reduzir todas as qualidades (correspondentes à necessidade e ao uso) a quantidades genéricas mensuráveis, a fim de afirmar sua alienante dominância histórica sobre tudo, no interesse da expansão do capital, pouco importando as consequências.

As incompatibilidades dos dois sistemas tornam-se perfeitamente claras quando consideramos o seu relacionamento com a questão do limite para si próprio. O único crescimento sustentável promovido positivamente sob a ordem metabólica social alternativa de controle é baseado na aceitação consciente dos limites cujas violação colocaria em perigo a realização dos objectivos reprodutivos — e humanamente válidos — escolhidos. Portanto o esbanjamento e a destrutividade (como conceitos limitantes claramente identificados) estão absolutamente excluídos pelas próprias determinações sistémicas aceites conscientemente, adoptadas pelos indivíduos social como seus princípios orientadores vitais. Em contraste, o sistema do capital é caracterizado, e fatalmente conduzido, pela — consciente ou inconsciente — rejeição de todos os limites, incluindo os seus próprios limites sistémicos. Mesmos estes últimos são tratado arbitrária e perigosamente como se não fossem mais do que obstáculos contingentes sempre superáveis. Portanto, qualquer coisa caminha neste sistema social reprodutivo, incluindo a possibilidade — e no momento em que alcançamos a nossa própria época histórica também a probabilidade esmagadoramente grave — da destruição total.

Naturalmente, este relacionamento mutuamente excludente na questão do limite prevalece também no outro caminho. Assim, não pode haver “correctivos parciais” emprestados do sistema do capital ao criar e fortalecer a ordem social metabólica alternativa. As incompatibilidades parciais — para não dizer gerais — dos dois sistemas decorrem da incompatibilidade radical da sua dimensão do valor. Tal como mencionado acima, isto é porque as determinações de valores particulares e as relações da ordem alternativa não poderiam ser transferidas para dentro da estrutura metabólica social do capital com o objectivo de melhorá-lo, como proposto por algumas concepções reformistas absolutamente irreais, coladas à metodologia vazia do “pouco a pouco”. Mesmo as menores relações parciais do sistema alternativo estão profundamente embebidas nas determinações gerais de valor de uma estrutura completa de necessidades humanas cujo inviolável axioma elementar é a exclusão radical do desperdício e da destruição, de acordo com a sua natureza intrínseca.

Ao mesmo tempo, por outro lado, nenhuns “correctivos” parciais podem ser transferidos da estrutura operacional do capital para dentro de uma ordem genuinamente socialista, como o desastroso fracasso da aventura do “socialismo de mercado” de Gorbachev penosa e conclusivamente demonstrou. Pois também em relação a isto nós sempre seríamos confrontados pela incompatibilidade radical das determinações de valor, mesmo se em tal caso o valor envolvido é contra valor destrutivo, correspondendo aos limites finais — necessariamente ignorados — do próprio sistema do capital. Os limites sistémicos do capital são perfeitamente compatíveis com o desperdício e a destruição. Pois tais considerações normativas só podem ser secundárias para o capital. Outras determinações, mais fundamentais, devem prevalecer sobre tais preocupações. É por isto que a indiferença para com o desperdício e a destruição na origem do capital (nunca uma atitude mais positiva do que a indiferença) transformou-se na sua promoção mais activa quando as condições requerem esta mudança. De facto, neste sistema o desperdício e a destruição devem ser prosseguidos implacavelmente em subordinação directa ao imperativo da expansão do capital, o determinando sistémico esmagador. Ainda mais quando já deixámos para trás a fase de ascensão histórica de desenvolvimento do sistema do capital. E ninguém deveria ser enganado pelo facto de que frequentemente a afirmação preponderante do contra valor é deturpada e racionalizada como “neutralidade do valor” pelos celebrados ideólogos do capital.

Era portanto estonteante que no tempo da malfadada “perestroika” de Gorbachev o seu “ideólogo chefe” (chamado oficialmente por esse nome) pudesse asseverar seriamente que o mercado capitalista e a suas relações mercantis eram as corporificações instrumentais do “valores humanos universais” e um “grande feito da civilização humana”, acrescentando a estas grotescas afirmações capitulatórias que o capitalismo de mercado era mesmo “a garantia da renovação do socialismo”. [8] Tais teóricos mantiveram-se a conversar acerca da adopção do “mecanismo de mercado”, quando o mercado capitalista era tudo menos um adaptável “mecanismo” neutro. Ele estava de facto incuravelmente carregado de valor, e deve permanecer assim para sempre. Nesta espécie de concepção — curiosamente partilhado pelo “chefe da ideologia socialista” de Gorbachev (e outros) com os Friedrich von Hayeks deste mundo que denunciaram violentamente qualquer ideia de socialismo como “O caminho para a servidão” (”The Road to Serfdom”) [9] — a troca em geral era ahistoricamente e anti-historicamente igualada à troca capitalista, e a realidade cada vez mais destrutiva do mercado capitalista com um ficcionalizado “mercado” benevolente em geral. Quer percebessem ou não, eles capitularam ao idealizar os imperativos de um implacável sistema de necessária dominação de mercado (inseparável em última análise das devastações do imperialismo) exigido pelas determinações intrínsecas da ordem social metabólica do capital. A adopção desta posição capitulatória foi igualmente expressa, mas de forma ainda mais nociva, no documento de reforma de Gorbachev. Pois ele insistiu em que

Não há alternativas ao mercado. Só o mercado pode assegurar a satisfação das necessidades das pessoas, a distribuição justa da riqueza, direitos sociais e o fortalecimento da liberdade e democracia. O mercado permitiria à economia soviética estar organicamente ligada à do mundo, e dar aos nossos cidadãos o acesso a todas as realizações da civilização mundial. [10]

Naturalmente, dada a irrealidade total da lavagem cerebral do “não há alternativa” de Gorbachev, à espera da generosa oferta “ao povo” de todas aquelas pretensas realizações e benefícios em todos os domínios do mercado capitalista global, esta aventura só podia terminar, humilhantemente, na desastrosa implosão do sistema de tipo soviético.

5. O “não há alternativa”

Não é de maneira alguma acidental ou surpreendente que a proposição do “não há alternativa” ocupe um lugar tão proeminente nas concepções sócio-económicas e políticas formuladas do ponto de vista do capital. Nem mesmo os maiores pensadores da burguesia — como Adam Smith e Hegel — puderam ser excepções quanto a isto. Pois é absolutamente verdadeiro que a ordem burguesa ou tem êxito em afirmar-se na forma de expansão dinâmica do capital, ou está condenada ao fracasso final. Não pode haver realmente nenhuma alternativa concebível à expansão infinita do capital do ponto de vista do capital, o que determina a visão de todos aqueles que a adoptam. Mas a adopção deste ponto de vista também significa que a questão de “qual o preço a ser pago” pela expansão incontrolável do capital para além de um certo ponto no tempo — uma vez que a fase ascendente do desenvolvimento do sistema já está no passado — não pode de forma alguma ser considerada. A violação do tempo histórico é portanto a consequência necessária da adopção do ponto de vista do capital pela internalização do imperativo expansionista do sistema como o seu determinante fundamental e absolutamente inalterável. Mesmo nas concepções dos maiores pensadores burgueses esta posição deve prevalecer. Não pode haver futura ordem social alternativa cujas características definitórias fossem significativamente diferentes daquelas já estabelecidas. É por isto que mesmo Hegel, que formulou de longe a mais profunda concepção histórica do seu próprio tempo, deve também arbitrariamente por um fim à história no inalterável presente do capital, idealizando o estado-nação capitalista [11] como o clímax insuperável de todo o desenvolvimento histórico concebível, apesar da sua aguda percepção das implicações destrutivas do sistema total de estados-nação.

Assim, não pode haver alternativa à decretação do pernicioso dogma do “não há alternativa” no pensamento burguês. Mas é totalmente absurdo para os socialistas adoptarem a posição da infinita (e pela sua natureza incontrolável) expansão do capital. Pois a idealização corolário do — mais uma vez caracteristicamente não qualificado — “consumo” ignora a verdade elementar de que do ponto de vista acrítico favorável à auto-expansão do capital pode não haver diferença entre destruição e consumo. Uma é tão boa quanto a outra para a finalidade requerida. Isto é assim porque a transacção comercial na relação capital — mesmo da espécie mais destrutiva, corporificada nos produtos do complexo industrial/militar e na utilização que lhes é dada nas suas guerras desumanas — completa com êxito o ciclo da auto-reprodução ampliada do capital, de modo a ser capaz de abrir um novo ciclo. Isto é a única coisa que realmente importa para o capital, não importa quão insustentáveis possam ser as consequências. Consequentemente, quando socialistas internalizam os imperativos da expansão do capital como o terreno necessário do crescimento que defendem, eles não aceitam simplesmente um princípio isolado mas todo um “pacote de negócios”. Conscientemente ou não, eles aceitam ao mesmo tempo todas as falsas alternativas — como “crescimento ou não crescimento” — que podem ser derivadas da defesa acrítica da necessária expansão do capital.

A falsa alternativa do não crescimento deve ser rejeitada por nós só porque a sua adopção perpetuaria a mais horrenda miséria e desigualdade que agora domina o mundo, com as lutas e destrutividade inseparáveis das mesmas. A negação radical de tal abordagem só pode ser um ponto de partida necessário. A dimensão inerentemente positiva da nossa visão envolve a redefinição fundamental da própria riqueza tal como conhecida por nós. Sob a ordem metabólica social do capital somos confrontados pelo domínio alienante da riqueza sobre a sociedade, afectando directamente todos os aspectos da vida, desde o estreitamente económico aos domínios culturais e espirituais. Consequentemente, não podemos sair do círculo vicioso do capital, com todas as suas determinações no final das contas destrutivas e falsas alternativas, sem contornar aquele relacionamento vital. Nomeadamente, sem fazer a sociedade — a sociedade de indivíduos livremente associados — governar sobre a riqueza, redefinindo ao mesmo tempo também a sua relação com o tempo e com a espécie de utilização que é dada aos produtos do trabalho humano. Como já escrevera Marx em uma das suas primeiras obras:

Numa sociedade futura, na qual os antagonismos de classe terão cessado, na qual já não haverá mais quaisquer classes, a utilização não será mais determinada pelo tempo mínimo de produção; mas o tempo dedicado à produção de um artigo será determinado pelo grau da sua utilidade social. [12]

Isto significa um rompimento intransigente com a visão da riqueza como uma entidade material fetichista que deve ignorar os indivíduos reais que são os criadores da riqueza. O capital, naturalmente, — na sua falsa alegação de ser idêntico à riqueza, como o “criador e materializador da riqueza” — deve ignorar os indivíduos, ao serviço da auto-legitimação do seu próprio controle metabólico social. Por este meio, ao usurpar o papel da riqueza real e subverter a utilização potencial em que poderia ser colocada, o capital é o inimigo do tempo histórico. Isto é o que deve ser corrigido para o bem da própria sobrevivência humana. Assim, todos os constituintes dos relacionamentos em desenvolvimento entre indivíduos reais historicamente auto-determinados, juntamente com a riqueza que eles criam e dão destino através da aplicação consciente da única modalidade viável de tempo — o tempo disponível — devem ser reunidas numa estrutura social metabólica qualitativamente diferente. Como dizia Marx:

riqueza real é o poder produtivo desenvolvido de todos os indivíduos. A medida da riqueza então já não é, de modo algum, tempo de trabalho e sim, ao invés disso, tempo disponível. O tempo de trabalho como medida do valor apresenta a própria riqueza como fundada sobre a pobreza, e o tempo disponível como existindo dentro e por causa da antítese ao tempo de trabalho excedente; ou, a apresentação de todo o tempo de um indivíduo como tempo de trabalho, e portanto sua degradação a mero trabalhador, classificado (subsumption) sob trabalho. [13]

Tempo disponível é o tempo histórico real dos indivíduos. Em contraste, o tempo de trabalho necessário requerido para o funcionamento do modo de controle metabólico social do capital é anti-histórico, negando aos indivíduos o único meio pelo qual se podem afirmar e realizar-se como sujeitos históricos reais no controle da sua própria actividade vital. Na forma do tempo de trabalho necessário do capital os indivíduos estão sujeitos ao tempo exercido como juiz tirânico e medida degradante, sem nenhum tribunal de recurso, ao invés de serem julgados e medidos em relação ao critério qualitativo humano das ” necessidades dos indivíduos sociais” [14] . O perversamente auto-absolutizante tempo anti-histórico do capital sobrepõe-se então sobre a vida humana como determinante fetichista, o qual reduz o trabalho vivo a “carcassa de tempo”, como discutido alhures quanto à “Necessidade do planeamento” (”The Necessity of Planning”). O desafio histórico é, então, mover para a ordem social metabólica alternativa com afastamento do domínio do tempo congelado do capital como determinante alienante para que se torne livremente determinado pelos próprios indivíduos sociais que conscientemente dedicam à realização dos seus objectivos escolhidos os seus recursos de tempo disponível incomparavelmente mais ricos do que o que poderia ser deles extorquido através da tirania do tempo de trabalho necessário. Esta diferença é absolutamente vital. Pois só indivíduos sociais podem realmente determinar o seu próprio tempo disponível, em agudo contraste com tempo de trabalho necessário que os domina. A adopção do tempo disponível é o único caminho concebível e justo pelo qual o tempo pode ser transformado de determinante tirânico em constituinte autonomamente e criativamente determinado do processo de reprodução.

6. Superar esta divisão social do trabalho

Este desafio envolve necessariamente a superação (supersession) da divisão social do trabalho imposta estruturalmente de modo hierárquico. Pois enquanto o tempo dominar a sociedade na forma do imperativo de extrair o tempo de trabalho excedente da sua esmagadora maioria, o pessoal responsável por este processo deve dirigir uma forma de existência substancialmente diferente, em conformidade com a sua função como aplicadores satisfeitos do imperativo do tempo alienante. Sob tais condições, o processo de reprodução social deve afundar cada vez mais profundamente na sua crise estrutural, com as perigosas implicações finais de nenhum caminho de retorno possível.

O pesadelo do “estado estacionário” permanece um pesadelo mesmo que alguém tente aliviá-lo, como propunha John Stuart Mill, através do remédio ilusório da “melhor distribuição” tomada isoladamente. Já não pode haver tal coisa como “melhor distribuição” sem uma reestruturação radical do próprio processo de produção. A alternativa socialista hegemónica ao domínio do capital exige fundamentalmente a ultrapassagem da dialéctica truncada no inter-relacionamento vital da produção, distribuição e consumo. Pois sem isto, é inconcebível o objectivo socialista de transformar o trabalho no “prémio desejado da vida”. Para citar Marx:

Numa fase mais elevada da sociedade comunista esvaneceu-se, após a escravizante subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, e com isto também a antítese entre trabalho mental e físico; depois de o trabalho se ter tornado não só um meio de vida mas no prémio desejado da vida; depois de as forças produtivas também aumentarem com o desenvolvimento completo do indivíduo, e todos os mananciais da riqueza cooperativa fluírem mais abundantemente — só então o estreito horizonte do burguês poderá ser transposto na sua totalidade e a sociedade inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades!” [15]

Estes são os objectivos completos da transformação socialista, que proporcionam a bússola para a jornada e simultaneamente também a medição das realizadas alcançadas (ou que deixaram de sê-lo) durante o caminho. Dentro de uma tal visão da alternativa hegemónica à ordem reprodutiva social do capital não pode de todo haver espaço para qualquer coisa como “o estado estacionário”, nem para quaisquer falsas alternativas associadas ou dele derivadas. “O desenvolvimento completo dos indivíduos”, a exercerem conscientemente os recursos plenos do seu tempo disponível, dentro da estrutura do novo controle social metabólico orientado para a produção da “riqueza cooperativa”, significa proporcionar a base de uma contabilidade qualitativamente diferente: a necessária contabilidade socialista, definida pela necessidade humana e diametralmente oposta à quantificação fetichista e ao concomitante desperdício inevitável.

Daí a importância vital de que uma espécie sustentável de crescimento possa ser reconhecida e administrada com êxito na estrutura metabólica social alternativa. Tal controle metabólico da ordem social alternativa seria aquele em que a antítese entre trabalho mental e físico — sempre vital para manter a dominação absoluta do trabalho pelo capital como o usurpador da função do controle do sujeito histórico — deveria desaparecer para sempre. Consequentemente, a própria produtividade conscientemente perseguida pode ser elevada a um nível qualitativamente mais alto, sem qualquer perigo de desperdício incontrolável, trazendo avanço genuíno — e não estreitamente orientado para o lucro material — à riqueza da qual os “indivíduos sociais enriquecidos” (Marx), como sujeitos históricos autónomos (e ricos precisamente neste sentido) estão plenamente no controle.

No “estado estacionário”, em contraste, os indivíduos não poderiam ser sujeitos históricos autênticos. Pois eles não podiam estar no controle das suas próprias vidas, visto estarem à mercê da pior espécie de determinações materiais directamente sob o domínio da escassez irremediável.

O desperdício sempre crescente — e na sua implicações finais catastrófico —no sistema do capital é inseparável do modo irresponsável como os bens e serviços produzidos são utilizados, ao serviço da expansão lucrativa do capital. Perversamente, quanto mais baixa sua taxa de utilização mais elevado é o âmbito para a substituição lucrativa — um absurdo que decorre da posição alienada do capital pela qual não se pode traçar distinção significativa entre consumo e destruição. Pois a destruição totalmente esbanjadora atende da mesma forma a procura requerida pelo capital auto-expansionista como um novo ciclo lucrativo de produção para o correspondente consumo genuíno também poderia fazê-lo. Contudo, o momento da verdade chega quando tem de ser pago um preço pesado pela administração criminosamente irresponsável do capital, no curso do desenvolvimento histórico. É neste ponto que o imperativo de adoptar uma taxa de utilização cada vez melhor e incomparavelmente mais responsável dos bens e serviços produzidos — e na verdade produzidos conscientemente tendo em mente aquele objectivo, em relação à necessidades e uso humano qualitativo — torna-se absolutamente vital. Pois a única economia viável — aquela que economia de um modo significativo e portanto é sustentável no futuro próximo e mais distante — só pode a espécie de economia administrada racionalmente, orientada para a utilização óptima dos bens e serviços produzidos. Não pode haver crescimento de uma espécie sustentável fora destes parâmetros de administração racional orientada pelas necessidades humanas genuínas.

Para tomar um exemplo crucialmente importante do que está irremediavelmente errado quanto a isto sob o domínio do capital, deveríamos pensar no modo pelo qual um número sempre crescente de carros motorizados é utilizado nas nossas sociedades. Os recursos dissipados na produção e alimentação dos carros são imensos sob o “capitalismo avançado”, representando a segunda mais elevada despesa — após os compromissos com hipotecas — das famílias. Contudo, absurdamente, a taxa de utilização dos carros é de menos de 1 por cento, falsamente justificada pelos direitos de posse exclusivos conferidos aos seus compradores. Ao mesmo tempo as alternativas reais perfeitamente praticáveis não são simplesmente desprezadas e sim activamente sabotadas pelos maciços interesses escusos de corporações quase-monopolistas. Pois a simples verdade é que os indivíduos precisam (e não obtêm, apesar da pesada carga financeira imposta sobre eles) de serviços de transportes adequados, e não a economicamente esbanjadora e ambientalmente danosa mercadoria que também os faz perder horas incontáveis das suas vidas em congestionamentos de tráfego pouco saudáveis.

Evidentemente, a alternativa real seria desenvolver o transporte público ao nível qualitativamente mais alto, satisfazendo os critérios necessários quanto a economia, ambiente e de saúde pessoal bem dentro do âmbito de um tal projecto perseguido racionalmente, confinando ao mesmo tempo a utilização de carros — possuídos colectivamente e distribuídos adequadamente, mas não exclusivamente/dissipadoramente possuídos. Então as próprias necessidades dos indivíduos — neste caso a sua genuína necessidade de serviços de transporte adequados — determinaria os objectivos dos veículos e das instalações de comunicação (como estradas, redes ferroviárias e sistemas de navegação) a serem produzidas e mantidas, de acordo com o princípio da utilização óptima, ao invés de os indivíduos serem completamente dominados pela necessidade fetichista do sistema de estabelecido da lucrativa mas em última análise destrutiva expansão do capital.

A questão inevitável, mas até o presente tendenciosamente evitada, da economia real, correspondendo às considerações apresentadas neste artigo, deve ser enfrentada no futuro muito próximo. Pois nos assim chamados países do terceiro mundo é inconcebível seguir o padrão de “desenvolvimento” esbanjador do passado, o qual de facto condenou-os às suas precárias condições de hoje, sob o domínio do modo de reprodução social metabólico do capital. O fracasso clamoroso das muito promovidas “teorias da modernização” e dos seus correspondentes corpos institucionais demonstrou claramente a desesperança daquela abordagem.

7. A urgência em enfrentar os problemas

Pelo menos sob um certo aspecto, vimos no passado soar o alarme quanto a isto — caracteristicamente, a pressionar em simultâneo pela afirmação e absoluta preservação dos privilégios dos países capitalistas dominantes. A preocupação é com a crescente necessidade internacional pelos recursos energéticos e a intervenção competitiva de algumas potencialmente imensas economias, acima de tudo a China, no processo em desenvolvimento. Hoje esta preocupação é primariamente acerca da China, mas na altura devida também a Índia, naturalmente, deverá ser acrescentada à lista dos grandes países a pressionarem de forma inevitável por recursos energéticos vitais. E quando acrescentamos à China a população do subcontinente indiano, estamos a falar acerca de mais de 2,5 mil milhões de pessoas. Naturalmente, se eles realmente seguissem a outrora grotescamente propagandeada receita de As etapas do crescimento económico (The Stages of Economic Growth) [16] , com a sua grosseira defesa do “arranque capitalista e viagem para a maturidade”, que teria consequências devastadoras para todos nós. Pois a sociedade plenamente automobilizada de 2,5 mil milhões de pessoas de acordo com o modelo estado-unidense de “desenvolvimento capitalista avançado”, com mais de 700 carros para cada 1000 pessoas, significaria que todos nós estaríamos mortos muito antes em meio aos benefícios venenosos da poluição provocados pela “modernização” global, sem mencionar o esgotamento total das reservas petrolíferas do planeta num piscar de olhos. Mas pelo mesmo sinal, num sentido oposto, ninguém pode encarar seriamente que os países em causa pudessem ser relegados indefinidamente à posição em que estão hoje. Imaginar que 2,5 mil milhões de pessoas da China e do subcontinente indiano pudessem ser condenadas à sua actual situação aflitiva, ainda de uma forma ou de outra sob a pesada dependência da partes capitalistamente avançadas do mundo, desafia toda a credulidade. A única questão é: se a humanidade pode encontrar uma solução racionalmente viável e verdadeiramente justa para a exigência legítima de desenvolvimento económico e social dos povos envolvidos. Do contrário, a competição antagónica e a luta destrutiva pelos recursos serão o caminho do futuro, pois compatibiliza-se com a estrutura orientadora e os princípios operacionais do modo de controle social reprodutivo do capital.

Outro aspecto pelo qual o imperativo absoluto de adoptar um modo qualitativamente novo de organizar a vida económica e social surgiu no horizonte do nosso tempo refere-se à ecologia. Mas, mais uma vez, o único meio viável de corrigir os problemas cada vez mais graves da nossa ecologia global — se quisermos enfrentar de um modo responsável o agravamento dos problemas e contradições da casa planetária, desde o seu impacto directo sobre questões vitais como o aquecimento global à procura elementar por recursos em água limpa e ar respirável com segurança — é comutar da ordem existente da administração esbanjadora da quantificação fetichista para outra genuinamente orientada para a qualidade. A ecologia, quanto a isto, é um aspecto importante mas subordinado da necessária redefinição qualitativa da utilização de bens e serviços produzidos sem a qual a defesa ecologia permanentemente sustentável da humanidade — mais uma vez: um dever absoluto — não pode ser senão uma piedosa esperança.

O ponto final a enfatizar neste contexto é que a urgência de enfrentar estes problemas não pode ser subestimada, muito menos minimizada, dados os interesses adquiridos do capital, sustentados pelas suas formações de estados imperialistas dominantes na sua insuperável rivalidade entre si. Ironicamente, embora haja tanta conversa propagandística acerca da “globalização”, as exigências objectivas de fazer funcionar uma ordem de intercâmbios sociais racionalmente sustentável e globalmente coordenados são constantemente violadas. Mas, dada da presente etapa do desenvolvimento histórico, permanece a verdade irreprimível de que em relação a todas as grandes questões discutidas neste artigo estamos realmente preocupados com o sempre crescente agravamento dos desafios globais, a exigirem soluções globais. Contudo, a nossa mais grave preocupação é que o modo de reprodução social metabólico do capital — em vista das suas determinações estruturais inerentemente antagónicas e das suas manifestações destrutivas — não é de todo receptivo a soluções viáveis globais. O capital, dada sua natureza inalterável, nada é a menos que possa prevalecer nas forma de dominação estrutural. Mas a outra dimensão da dominação estrutural é a subordinação estrutural. Este é modo como o modo de reprodução social metabólico do capital sempre funcionou e deve sempre tentar funcionar, acarretando com isto mesmo as guerras mais devastadoras das quais tivemos muito mais do que uma amostra no nosso tempo. A afirmação violenta dos imperativos destrutivos do imperialismo hegemónico global, através do antes inimaginável poder destrutivo dos Estados Unidos como o hegemon global, não pode trazer soluções globais ao nossos problemas em exacerbação mas apenas o desastre global. Assim, a necessidade inevitável de corrigir estes problemas globais de um modo historicamente sustentável coloca na ordem-do-dia o desafio do socialismo no século XXI — a única alternativa hegemónica viável ao modo de controle social metabólico do capital.
Notas
[1] Karl Marx, Capital, vol. 1 (Penguin Classics, 1992), 85.
[2] John Stuart Mill, Principles of Political Economy (Prometheus Books, 2004), 751.
[3] Mill, Principles, 749.
[4] Mill, Principles, 749.
[5] Para citar este livro com o seu título complete e absolutamente pretensioso, Donella H. Meadows, et al., The Limits to Growth: A Report for the Club of Rome Project on the Predicament of Mankind (London, Earth Island Limited, 1972).
[6] De forma reveladora, a principal figura teórica por trás desta iniciativa “limitadora do crescimento”, o Professor Jay Forrester, do Massachusetts Institute of Technology, desdenhosamente afastou toda a preocupação com a igualdade como uma mera “superstição (shibboleth) da igualdade”. Ver sua entrevista em Le Monde, 01/Agosto/1972.
[7] Ver István Mészáros, Socialism or Barbarism: From the “American Century” to the Crossroads (Monthly Review Press, 2001).
[8] Vadim Medvedev, “The Ideology of Perestroika”, in Perestroika Annual 2, Abel Aganbegyan, (ed.) (London Futura/Macdonald, 1989), 31-32.
[9] O título do mais famoso livro da cruzada de Hayek.
[10] Gorbachev citado em John Rettle, “Only market can save Soviet economy”, The Guardian, 17/Outubro/1990.
[11] Para citar um dos postulados idealistas de Hegel: “O estado nação em mente na sua racionalidade substantiva e realidade imediata e é portanto o poder absoluto sobre a terra”. G. W. F. Hegel, The Philosophy of Right (Cambridge, Cambridge University Press, 1991), 212.
[12] Marx, The Poverty of Philosopy, in Marx-Engels Collected Works, vol. 6, 134. Citado em István Mészáros, “The Communitarian System and the Law of Value in Marx and Lukács” (capítulo 19 de Beyond Capital), Critique, nº 23, 1991, 26. Ver também capítulo 15 (”The Decreasing Rate of Utilization under Capitalism”) e capítulo 16 (”The Decreasing Rate of Utilization and the Capitalist State”) de Beyond Capital, o qual trata de algumas importantes questões relacionadas.
[13] Karl Marx, Grundrisse, 708.
[14] Ibid.
[15] Karl Marx, Critique of the Gotha Programme, in Marx and Engels, Selected Works, vol. 2, 23.
[16] Ver Walt Rostow, The Stages of Economic Growth: A Non-Communista Manifesto (Cambridge: Cambridge University Press, 1960).

Outros textos de Mészáros em português:
# A actualidade histórica da ofensiva socialista (capítulo 18 de “Beyond Capital” )
# A crise estrutural da política
# Cuba: os próximos 45 anos?
# Bolívar e Chávez: O espírito da determinação radical
# O militarismo e as guerras vindouras
# A educação para além do capital
# Despedida de Harry Magdoff

O original encontra-se em Monthly Review , vol. 58, nº 11, Abril/2007. Tradução de Jorge Figueiredo. Os títulos dos capítulos são da responsabilidade do tradutor.

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Manifesto Antropofágico

Cultura e sociedade nos anos 20
A Semana de 22 – A aventura modernista no Brasil. Alembert, Francisco.

Os anos 20 deste século presenciaram o auge da mais vertical e profunda ruptura na história da cultura no Brasil: o Modernismo. Mais do que meramente um movimento artístico, o Modernismo representou toda uma época na vida intelectual e política brasileira. Inscrito num grande processo social e histórico, foi resultado e fonte de transformações que vão muito além dos seus limites estéticos.
Para compreendermos o Modernismo, suas implicações históricas e o sentido das interpretações de que é objeto até hoje, precisamos conhecer um pouco desse processo social e histórico no qual fundou-se a cultura modernista no Brasil.
Os intelectuais e artistas dos anos 20 tentaram eliminar definitivamente da cultura brasileira qualquer vestígio da influência lusitana e colonizadora que porventura houvesse escapado à escola romântica do século XIX, que se havia proposto a criar conscientemente uma literatura eminentemente nacional. Esse novo grupo lançou-se ao mun¬do de braços dados com as vanguardas artísticas e culturais europeias, mas com o cuidado de não tirar os olhos (e, em alguns casos, os pés) do “caráter brasileiro”, já visto, nessa época, sob um outro prisma, o da ambiguidade: o que nos define culturalmente é a herança latina somada à cultura europeia, além da nossa etnia mestiça, influenciada por culturas “primitivas” dos trópicos (ameríndias e africanas).
Compreender e saber se valer dessa ambiguidade básica era a chave para penetrar, esclarecer e então transformar a realidade brasileira. Era também a nossa originalidade diante das culturas europeias de origem tão diversa.
Em seus textos, sons, imagens e atitudes, os artistas e intelec¬tuais modernistas procuravam esquadrinhar, tentar sínteses, buscar explicações para o problema da inserção de uma nova cultura no Bra¬sil e vice-versa. O dilema entre a vontade de colaborar com a com¬posição de um acervo cultural e artístico universal — estar de acordo e no mesmo passo dos movimentos culturais e das ideias européias, por exemplo — e o desejo de interferir na ordenação da comunidade em que viviam — atualizar, modificar, criticar a produção cultural e as normas que os antecederam — marcaram a crise maior de consciência desses intelectuais.
Na Europa, o período denominado entre-guerras caracterizou-se por uma profunda crise económica, social e moral que atingiu os paí¬ses capitalistas na década de 20. Os liberais sentiam-se derrotados. A Revolução Russa e a barbárie da Primeira Guerra mergulharam os liberais ilustrados, e seu projeto de esclarecimento num parado¬xo. A partir de então a ideia de um progresso contínuo e inevitável perdeu o pouco sentido que porventura lhe restava.
A falência desse projeto significou também um questionamen-to profundo a uma determinada ideia de razão e de racionalidade em política, em cultura e em arte, como veremos adiante. Os intelectuais que não se situavam à esquerda abriam espaços a obscurantismos e nacionalismos beligerantes. A brecha para o fascismo estava aberta.
Por isso, o nacionalismo, no contexto de reorganização das forças após a Primeira Guerra, tornou-se um fato marcante nas artes e na cultura. Serviu de base ideológica para as produções estéticas de muitos intelectuais europeus, em especial, após a assinatura do Tratado de Versalhes, que pôs fim à Guerra e redistribuiu o poder entre os países. As nações vencedoras (EUA, França, Inglaterra, Itália) procuravam exercer forte influência cultural sobre os países economicamente dependentes (em especial, os pobres), ao mesmo tempo que tentavam afastá-los de culturas politicamente opostas às suas. Mais tarde, com o advento do fascismo na Itália, após 1922, registrou-se a presença de missões culturais italianas no Brasil, que tentavam, através do nacionalismo, aproximar-se da intelectualidade local.
Enquanto isso, os artistas e intelectuais brasileiros também buscavam na Europa as novas técnicas para suas obras sem, entretanto, importar a temática do trágico e da angústia, que caracterizava a nova cultura europeia que se desenvolveu nesse período entre-guerras. A visão de mundo que orientou a maior parte do Modernismo no Brasil foi, a princípio, de um relativo otimismo, uma crença na “nova civilização” que emergia dos escombros de um país agrário atrasado. Vivendo a euforia do dinheiro proveniente da plantação e co¬mércio do café e a possibilidade de unir essa riqueza agrária à nova riqueza industrial e cosmopolita que a metrópole paulistana prometia, os modernistas brasileiros buscaram inventar a cultura desse novo país utópico: uma cultura que mesclasse as técnicas da arte mo¬derna europeia com urna certa visão da “cultura brasileira”, plane¬jando uma nação modernizada.(…)
Podemos, entretanto, dizer com certeza que o grande marco des¬se processo de reflexão e reinterpretação da cultura por um grupo social que se constituiu no Modernismo brasileiro foi a chamada Se¬mana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Um evento que, se não significou exatamente um ponto de partida, pode ser visto co¬mo o coroamento ou o desdobramento mais visível e espalhafatoso de todo um processo intelectual.

Cronologia

Alguns Fatos Importantes que Antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922
Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

1911 — Oswald de Andrade funda o periódico “O Pirralho”

1912 — Oswald chega ao Brasil trazendo da Europa o conhecimento de novas formas de expressão artística, como as de Paul Fort e as sugeridas pelo “Manifesto Futurista” do poeta italiano Marinetti. Surgem as primeiras colagens de Braque e Picasso, possíveis origens do cubismo

1913 — Exposição do pintor Lasar Segall em Campinas (São Paulo)

1914 — O francês Marcel Duchamp lança os ready-mades

1915 — O poeta Ronald de Carvalho participa no Rio da fundação da revista “Orfeu”, dirigida em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro

1917 — Exposição de Anita Malfatti. O escritor Monteiro Lobato escreve o artigo “Paranóia ou Mistificação?”, onde critica vigorosamente as inovações na pintura de Anita e se envolve em uma polêmica com os principais artistas do movimento modernista

1918 — É lançado o “Manifesto Dadá”

1919 — Surgimento do Fascismo na Itália e adesão de Marinetti

1920 — Oswald de Andrade e Menotti del Picchia fundam a revista “Papel e Tinta”. Graça Aranha publica “Estética da Vida”. Victor Brecheret expõe as maquetes do monumento às Bandeiras (SP). Exposição de Anita Malfatti e John Graz.

1921 — Oswald de Andrade publica “Meu Poeta Futurista” e Mário de Andrade responde com “Futurista?!”. Mário publica o artigo “Mestres do Passado”

A SEMANA

13.fev.1922 — A Semana de Arte Moderna é inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo com palestra do escritor Graça Aranha, ilustrada por comentários musicais e poemas de Guilherme de Almeida. O primeiro dia corre sem tropeços. Depois da longa e erudita fala de Aranha, um conjunto de câmara ocupa o palco para executar obras de Villa-Lobos. Após o intervalo, Ronald de Carvalho discursa sobre pintura e escultura modernas. A platéia começa a se manifestar. Diante dos zurros do público, Ronald de Carvalho devolve: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.” O gran finale surge na forma de um recital de música comandado pelo maestro Ernani Braga

15.fev.1922 — A noite que celebrizou a semana começa com um discurso de Menotti del Picchia sobre romancistas contemporâneos, acompanhado por leitura de poesias e números de dança. É aplaudido. Mas, quando é anunciado Oswald de Andrade, começam as vaias e insultos na platéia, que só param quando sobe ao palco a aclamada pianista Guiomar Novaes. Heitor Villa-Lobos se apresenta no palco do Municipal apoiado em um guarda-chuva e calçando chinelos

17.fev.1922 — A última noite da programação é totalmente dedicada à música de Villa-Lobos. As vaias continuam até que a maioria pede silêncio para ouvir Villa-Lobos. Os instrumentistas tentam executar as peças incluídas no programa apesar do barulho feito pelos espectadores e levam o recital até o fim

Logo após os bulhentos espetáculos do Teatro Municipal, é lançada a revista “Klaxon”, que divulga as produções da nova escola. Calcados no êxito conseguido com as agitadas noites de fevereiro, os jovens artistas conseguem espaço e estímulo para, ainda em 1922, dar continuidade ao seu trabalho. Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, o livro de poesias no qual todos os procedimentos poéticos mais arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez. Oswald de Andrade lança “Os Condenados”.

Manifesto Antropofágico

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim”, in O Selvagem, de Couto Magalhães

Oswald de Andrade alude ironicamente a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.

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