Manifesto Antropofágico

Cultura e sociedade nos anos 20
A Semana de 22 – A aventura modernista no Brasil. Alembert, Francisco.

Os anos 20 deste século presenciaram o auge da mais vertical e profunda ruptura na história da cultura no Brasil: o Modernismo. Mais do que meramente um movimento artístico, o Modernismo representou toda uma época na vida intelectual e política brasileira. Inscrito num grande processo social e histórico, foi resultado e fonte de transformações que vão muito além dos seus limites estéticos.
Para compreendermos o Modernismo, suas implicações históricas e o sentido das interpretações de que é objeto até hoje, precisamos conhecer um pouco desse processo social e histórico no qual fundou-se a cultura modernista no Brasil.
Os intelectuais e artistas dos anos 20 tentaram eliminar definitivamente da cultura brasileira qualquer vestígio da influência lusitana e colonizadora que porventura houvesse escapado à escola romântica do século XIX, que se havia proposto a criar conscientemente uma literatura eminentemente nacional. Esse novo grupo lançou-se ao mun¬do de braços dados com as vanguardas artísticas e culturais europeias, mas com o cuidado de não tirar os olhos (e, em alguns casos, os pés) do “caráter brasileiro”, já visto, nessa época, sob um outro prisma, o da ambiguidade: o que nos define culturalmente é a herança latina somada à cultura europeia, além da nossa etnia mestiça, influenciada por culturas “primitivas” dos trópicos (ameríndias e africanas).
Compreender e saber se valer dessa ambiguidade básica era a chave para penetrar, esclarecer e então transformar a realidade brasileira. Era também a nossa originalidade diante das culturas europeias de origem tão diversa.
Em seus textos, sons, imagens e atitudes, os artistas e intelec¬tuais modernistas procuravam esquadrinhar, tentar sínteses, buscar explicações para o problema da inserção de uma nova cultura no Bra¬sil e vice-versa. O dilema entre a vontade de colaborar com a com¬posição de um acervo cultural e artístico universal — estar de acordo e no mesmo passo dos movimentos culturais e das ideias européias, por exemplo — e o desejo de interferir na ordenação da comunidade em que viviam — atualizar, modificar, criticar a produção cultural e as normas que os antecederam — marcaram a crise maior de consciência desses intelectuais.
Na Europa, o período denominado entre-guerras caracterizou-se por uma profunda crise económica, social e moral que atingiu os paí¬ses capitalistas na década de 20. Os liberais sentiam-se derrotados. A Revolução Russa e a barbárie da Primeira Guerra mergulharam os liberais ilustrados, e seu projeto de esclarecimento num parado¬xo. A partir de então a ideia de um progresso contínuo e inevitável perdeu o pouco sentido que porventura lhe restava.
A falência desse projeto significou também um questionamen-to profundo a uma determinada ideia de razão e de racionalidade em política, em cultura e em arte, como veremos adiante. Os intelectuais que não se situavam à esquerda abriam espaços a obscurantismos e nacionalismos beligerantes. A brecha para o fascismo estava aberta.
Por isso, o nacionalismo, no contexto de reorganização das forças após a Primeira Guerra, tornou-se um fato marcante nas artes e na cultura. Serviu de base ideológica para as produções estéticas de muitos intelectuais europeus, em especial, após a assinatura do Tratado de Versalhes, que pôs fim à Guerra e redistribuiu o poder entre os países. As nações vencedoras (EUA, França, Inglaterra, Itália) procuravam exercer forte influência cultural sobre os países economicamente dependentes (em especial, os pobres), ao mesmo tempo que tentavam afastá-los de culturas politicamente opostas às suas. Mais tarde, com o advento do fascismo na Itália, após 1922, registrou-se a presença de missões culturais italianas no Brasil, que tentavam, através do nacionalismo, aproximar-se da intelectualidade local.
Enquanto isso, os artistas e intelectuais brasileiros também buscavam na Europa as novas técnicas para suas obras sem, entretanto, importar a temática do trágico e da angústia, que caracterizava a nova cultura europeia que se desenvolveu nesse período entre-guerras. A visão de mundo que orientou a maior parte do Modernismo no Brasil foi, a princípio, de um relativo otimismo, uma crença na “nova civilização” que emergia dos escombros de um país agrário atrasado. Vivendo a euforia do dinheiro proveniente da plantação e co¬mércio do café e a possibilidade de unir essa riqueza agrária à nova riqueza industrial e cosmopolita que a metrópole paulistana prometia, os modernistas brasileiros buscaram inventar a cultura desse novo país utópico: uma cultura que mesclasse as técnicas da arte mo¬derna europeia com urna certa visão da “cultura brasileira”, plane¬jando uma nação modernizada.(…)
Podemos, entretanto, dizer com certeza que o grande marco des¬se processo de reflexão e reinterpretação da cultura por um grupo social que se constituiu no Modernismo brasileiro foi a chamada Se¬mana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Um evento que, se não significou exatamente um ponto de partida, pode ser visto co¬mo o coroamento ou o desdobramento mais visível e espalhafatoso de todo um processo intelectual.

Cronologia

Alguns Fatos Importantes que Antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922
Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

1911 — Oswald de Andrade funda o periódico “O Pirralho”

1912 — Oswald chega ao Brasil trazendo da Europa o conhecimento de novas formas de expressão artística, como as de Paul Fort e as sugeridas pelo “Manifesto Futurista” do poeta italiano Marinetti. Surgem as primeiras colagens de Braque e Picasso, possíveis origens do cubismo

1913 — Exposição do pintor Lasar Segall em Campinas (São Paulo)

1914 — O francês Marcel Duchamp lança os ready-mades

1915 — O poeta Ronald de Carvalho participa no Rio da fundação da revista “Orfeu”, dirigida em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro

1917 — Exposição de Anita Malfatti. O escritor Monteiro Lobato escreve o artigo “Paranóia ou Mistificação?”, onde critica vigorosamente as inovações na pintura de Anita e se envolve em uma polêmica com os principais artistas do movimento modernista

1918 — É lançado o “Manifesto Dadá”

1919 — Surgimento do Fascismo na Itália e adesão de Marinetti

1920 — Oswald de Andrade e Menotti del Picchia fundam a revista “Papel e Tinta”. Graça Aranha publica “Estética da Vida”. Victor Brecheret expõe as maquetes do monumento às Bandeiras (SP). Exposição de Anita Malfatti e John Graz.

1921 — Oswald de Andrade publica “Meu Poeta Futurista” e Mário de Andrade responde com “Futurista?!”. Mário publica o artigo “Mestres do Passado”

A SEMANA

13.fev.1922 — A Semana de Arte Moderna é inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo com palestra do escritor Graça Aranha, ilustrada por comentários musicais e poemas de Guilherme de Almeida. O primeiro dia corre sem tropeços. Depois da longa e erudita fala de Aranha, um conjunto de câmara ocupa o palco para executar obras de Villa-Lobos. Após o intervalo, Ronald de Carvalho discursa sobre pintura e escultura modernas. A platéia começa a se manifestar. Diante dos zurros do público, Ronald de Carvalho devolve: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.” O gran finale surge na forma de um recital de música comandado pelo maestro Ernani Braga

15.fev.1922 — A noite que celebrizou a semana começa com um discurso de Menotti del Picchia sobre romancistas contemporâneos, acompanhado por leitura de poesias e números de dança. É aplaudido. Mas, quando é anunciado Oswald de Andrade, começam as vaias e insultos na platéia, que só param quando sobe ao palco a aclamada pianista Guiomar Novaes. Heitor Villa-Lobos se apresenta no palco do Municipal apoiado em um guarda-chuva e calçando chinelos

17.fev.1922 — A última noite da programação é totalmente dedicada à música de Villa-Lobos. As vaias continuam até que a maioria pede silêncio para ouvir Villa-Lobos. Os instrumentistas tentam executar as peças incluídas no programa apesar do barulho feito pelos espectadores e levam o recital até o fim

Logo após os bulhentos espetáculos do Teatro Municipal, é lançada a revista “Klaxon”, que divulga as produções da nova escola. Calcados no êxito conseguido com as agitadas noites de fevereiro, os jovens artistas conseguem espaço e estímulo para, ainda em 1922, dar continuidade ao seu trabalho. Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, o livro de poesias no qual todos os procedimentos poéticos mais arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez. Oswald de Andrade lança “Os Condenados”.

Manifesto Antropofágico

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim”, in O Selvagem, de Couto Magalhães

Oswald de Andrade alude ironicamente a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.

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4 Comentários »

  1. Stefany disse,

    5 de Março de 2008 @ 07h 19m

    ISSO NAO É A RESPOSTA QUE EU ESTAVA PROCURANDO

  2. Renata disse,

    15 de Março de 2008 @ 10h 35m

    era a RESPOSTA que eu estava procurando ;)

    brigada.

  3. carolina disse,

    25 de Abril de 2008 @ 20h 54m

    não encontrei o que eu procurava.

  4. susana disse,

    10 de Janeiro de 2009 @ 17h 41m

    “nao encontrei o que eu procurava” desculpa ter te tirado a frase mas e verdade!!!! o que eu tava a prcura era o papel da publicação da revista orfeu em portugal!!!

    mas ok…
    bom trbalho :P

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