Arquivo de 4 de Agosto de 2008

Conhecidos pela lealdade à empresa, japoneses começam a exigir direitos trabalhistas

Martin Fackler

Os assalariados do Japão, famosos por sua ética de trabalho e lealdade corporativa, alimentaram o crescimento industrial do país. Mais recentemente, entretanto, eles têm carregado o peso do declínio econômico do país, suportando salários baixos, instabilidade nos empregos, e longas horas extras não pagas.

Agora, alguns estão lutando contra isso, como Hiroshi Takano.

Durante anos, Takno trabalhava regularmente durante muitas horas como gerente do McDonald’s Co. Japão. Com sua saúde se deteriorando e a companhia, uma empresa japonesa dona de vários restaurantes no país, recusando-se a pagar horas extras, Takano processou seu empregador e ganhou.

Em janeiro, uma corte de Tóquio ordenou que o McDonald’s Japão pagasse a ele US$ 75 mil relativos às horas extras antigas. Em maio, a companhia anunciou que pagaria mais horas extras para os gerentes de suas lojas.

Lentamente e com alguma relutância, os assalariados do Japão estão aprendendo a defender seus direitos, e nesse processo estão reescrevendo o contrato social que antes ligava os trabalhadores às companhias numa espécie de código de lealdade quase que feudal. Enquanto essa renegociação acontece, uma nova geração de japoneses como Takano procura limitar as demandas dos empregadores com uma proteção legal ao estilo norte-americano. Essa mudança de atitudes reflete uma transição mais ampla conforme o Japão, primeiro país a ter uma história de sucesso e alto crescimento na Ásia, tenta amadurecer para tornar-se uma economia pós-industrial.

“Os japoneses estão sendo forçados a pensar mais em seu interesse próprio, o que é algo que eles não estão acostumados a fazer”, diz Yoichi Shimada, professor de leis na Universidade Waseda em Tóquio. “As pessoas estão percebendo aos poucos que existem meios legais para se defenderem caso se sintam prejudicadas.”

De acordo com a Suprema Corte do Japão, o número de processos contra empregadores aumentou 45% entre 1997 e 2005, para 2.303 casos. Em 2006, esse número cresceu 21%, para 2.777 casos, se incluídos os processos ouvidos em um novo tribunal de causas trabalhistas.

Para aumentar a alienação entre empregados e as companhias, há um ressentimento cada vez maior em relação à percepção de que os trabalhadores não se beneficiaram com a recuperação econômica do país nos últimos cinco anos.

Enquanto os lucros corporativos aumentaram, os salários permaneceram estagnados, alimentando a percepção de que as companhias falharam em dividir a bonança com seus empregados. Isso fez com que muitos passassem a exigir uma fatia maior do bolo, dizem os especialistas em direito e mercado de trabalho.

Há também a suspeita de que à medida que as companhias cortaram custos para continuarem competindo com a China e a Coréia do Sul, passaram a maior parte do fardo para os empregados. Em particular, a maior parte dos processos recentes envolve as “horas extras”, que os trabalhadores eram pressionados a fazer sem serem pagos, para demonstrar sua lealdade, dizem os especialistas em mercado de trabalho.

“As companhias japonesas usaram o silêncio de seus trabalhadores leais como uma arma na competição internacional”, diz Kiyotsugu Shitara, diretor do Sindicato de Gerentes de Tóquio, um pequeno sindicato que ajudou no processo de Takano contra o McDonald’s. “Os empregados estão cansados de serem usados dessa forma.”

Shitara e outros especialistas em trabalho dizem que o aumento dos processos também é o passo mais recente em direção a um ambiente de trabalho mais ao estilo americano - o que também é aparente no aumento recente da mudança de emprego no meio da carreira, antes rara no país.

Ainda assim, muitos empregados envolvidos com processos descrevem a si mesmos como revolucionários relutantes, arrastados para uma era mais legalizada à qual eles não têm outra opção senão adaptar-se.

Alguns, como Takano, culpam as atitudes indiferentes das companhias por forçá-lo a lutar contra, ao passo que eles voltariam assim que pudessem para o velho e aconchegante relacionamento entre patrões e empregados.

“Eu não queria fazer isso”, diz Takano, 46, que ainda gerencia uma loja do McDonald’s no subúrbio de Tóquio. “A companhia estava me tratando muito friamente, então tive de começar a proteger meus próprios direitos.”

Outra autora relutante de um processo é Hiroko Uchino, que entrou com uma ação contra o governo depois que seu marido, Kenichi, 30, funcionário de controle de qualidade na Toyota, morreu no escritório há seis anos. Uchino queria que o órgão trabalhista do governo reconhecesse que ele morreu por trabalhar demais, algo tão comum no país que há até mesmo uma palavra em japonês para isso: karoshi.

Ela tomou providências legais depois que a companhia disse que a morte de seu marido não foi por excesso de trabalho, e que ele havia feito apenas 38 horas extras em janeiro de 2002, um mês antes de morrer. Ela disse que a companhia a ignorou quando ela quis comprovar com notas fiscais de postos de gasolina e outras evidências que o marido havia trabalhado muito mais horas: 155 em janeiro, pelo cálculo de Uchino. Segundo ela, a companhia disse que ele ficava depois do horário de trabalho por vontade própria, e não tinha direito a pagamento por horas extras.

Apesar de enfurecida, Uchino não conseguiu desafiar legalmente a gigante automotiva, que domina a cidade central de Nagoya, onde ela vive, e já havia empregado não somente seu marido, mas também seu pai e antes disso seu avô. Ela processou o órgão trabalhista do governo em vez disso, para receber o pagamento das horas extras do marido.

O caso de Uchino recebeu grande atenção, incluindo um encontro com o ministro do trabalho, que lhe ofereceu palavras de conforto. Em março, um tribunal em Nagoya decidiu que a morte de seu marido estava relacionada ao trabalho, e que ele havia feito 93 horas extras no seu último mês, concedendo à viúva o direito de receber o pagamento adicional. A Toyota não comentou o caso.

“O pai dele não teria jamais procurado a justiça, não importa o que acontecesse”, diz Uchino, 38. “Mas a Toyota jamais o teria tratado dessa forma, tampouco. Hoje em dia, as companhias falam em reduzir as despesas.”

E acrescentou: “se meu marido soubesse como a companhia iria reagir, ele nunca teria demonstrado toda essa lealdade despropositada.”

Takano, gerente do McDonald’s, diz que trabalhava das 6 da manhã até a 1 da manhã, gerenciando duas lojas antes de entrar com o processo, em alguns casos trabalhava sete dias por semana. O McDonald’s Japão diz que como um gerente que não faz serviços braçais, ele não tinha direito de receber pagamento por horas-extras. Depois que um médico alertou-o sobre o risco de ter um derrame, Takano disse que hesitou em entrar com o processo - ele gostava do McDonald’s e queria manter seu emprego. Agora, ele espera que o caso melhore as condições de trabalho para todos os gerentes.

A companhia não comentou o caso.

Depois da vitória no tribunal, outros quatro ex-gerentes de lojas do McDonald’s entraram com processos semelhantes pelo pagamento de horas-extras. Especialistas legais dizem que podem vir muitos mais casos da indústria de fast-food.

“Quero que o Japão se torne uma sociedade em que os empregados possam processar suas próprias companhias”, diz Takano. “É por isso que estou fazendo isso.”

“The New York Times”

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Brasil e a fobia à ciência

Voltaire Schilling

Os países latino-americanos, o Brasil entre eles, carregam uma triste herança vinda da Ibéria. A profunda hostilidade à ciência desencadeada nos tempos da Contra-Reforma católica (1534-1590) colocou o conhecimento científico sob desconfiança das autoridades clericais e seculares. Creditaram-no como obra do mal, prejudicial à fé do bom cristão e à boa ordem das coisas.

Da tolerância à desconfiança

Os países latino-americanos, o Brasil entre eles, carregam uma triste herança vinda da Ibéria. A profunda hostilidade à ciência desencadeada nos tempos da Contra-Reforma católica (1534-1590) colocou o conhecimento científico sob desconfiança das autoridades clericais e seculares. Creditaram-no como obra do mal, prejudicial à fé do bom cristão e à boa ordem das coisas.

Ainda até a metade do século XVI, a Igreja Católica Romana era condescendente com os progressos da ciência. Tanto assim que Nicolau Copérnico, que atacou o sistema geocêntrico de Ptolomeu, ofereceu em 1543 o seu projeto “Sobre as Revoluções” ao Papa Paulo III. Outros pontífices, por igual, revelaram-se entusiastas das pesquisas sérias que lhes chegavam às mãos ou aos ouvidos. Não viam nada de mal naquilo.

Todavia, com o recrudecimento da Reforma Protestante, movimento que se espalhou por todo o centro-norte da Europa, foi-se a tolerância. A reação da Igreja Católica ao desafio lançado por Lutero e de Calvino foi desencadear a Contra-Reforma.

Tendo se reagrupado no Concilio de Trento (1545-1585), o Papado aparelhou-se para uma guerra teológica e material de longa duração na qual não só reforçou a Eucaristia contra a Heresia, recriando o Tribunal do Santo Ofício, como assumiu extremos cuidados em relação aos cientistas, colocados sob a mais rigorosa vigilância.

Os que suspeitassem dos dogmas da fé seriam considerados “inimigos de Cristo.”, quando não braço auxiliar do Demônio. O caso mais célebre deu-se com Galileu Galilei, forçado, depois de submetido à tortura, a retratar-se frente a um Tribunal da Inquisição, em 1633, ocasião em que abjurou da sua afirmação de que a Terra se movia.

Os reinos ibéricos e a ciência

A desgraça dos latino-americanos em geral, sob o ponto de vista do avanço do conhecimento científico, foi que os Reinos Ibéricos, da Espanha e de Portugal, nossos colonizadores, tornaram-se os campeões da Contra-Reforma. Desde aquela época nada mais de relevante se inventou por lá, e pouco menos por aqui.

De inúmeros os modos, por quase quatro séculos, as autoridades eclesiásticas, apoiadas por seus aliados nos governos e instituições, impediram que prosperasse o que Gaston Bachelard denominou de “a formação do espírito científico”, criando um sem número de obstáculos para bloquear o surgimento de um pensamento laico. Tanto assim que as verbas estatais ou privadas dedicadas ao aparelhamento dos laboratórios e ao estimulo das pesquisas sempre foram magras frente aos gastos bacharelescos.

Certa vez, constrangido e embaraçado pela sua Espanha não produzir um só nome de porte naquela área tão importante para a evolução humana, o filósofo Miguel de Unamuno, falecido em 1936, esbravejou: “ Deixe que os outros inventem!”

Ao colocar a natural curiosidade humana como perigosa para a fé cristã e para os dogmas da Igreja, a ciência viu-se condenada, por vezes, a ser uma atividade subversiva, somente aceita se tolerada desde que aceita pelo Colégio dos Cardeais ( que, certamente não entendiam nada de ciência).

Enquanto o único Prêmio Nobel da área médica até hoje recebido por Portugal foi dado ao psicocirurgião dr.Egas Muniz que havia inventado a lobotomia, uma técnica operatória que paralisava parte do cérebro humano (sic), os países de formação protestante ficaram ao longo do século XX com 80% das vitórias nas áreas científicas.

Continua o mesmo

Ainda assim, com toda esta defasagem, o mundo neo-ibérico continua o mesmo, o que de certo modo explica a sua total subordinação presente frente ao mundo anglo-saxão.

Há bem pouco tempo no sul do Brasil, milícias de pobres diabos mobilizados pelo baixo clero gaúcho e por extremistas da esquerda, como que revivendo os idos da Idade das Trevas, atacaram centros de experiência com transgênicos e invadiam hortos com plantas de eucaliptos. Um outro grupo, ainda anônimo, tocava fogo num laboratório de pesquisas biológicas da UFRGS.

Faziam eco às destruições patrocinadas na França, país que também sofreu os efeitos da contra-reforma, pelo militante José Bové que liderara a vandalização de canteiros de arroz.

No Brasil, aspirando neste mesmo clima reacionário do contra-reformismo tardio, ninguém menos do que o ex- procurador-geral da República, e não um beato fundamentalista qualquer, manifestou num parecer a sua inconformidade contra a interrupção da gravidez de um feto anancefálico (sem cérebro), como também, pouco depois, questionou a constitucionalidade da experiência com as células-tronco, o que levou ao que o Supremo Tribunal Federal servisse de palco para uma das tantas batalhas entre a ciência e a religião (vencida desta feita pela primeira por 6 votos contra 5).

Embate bem sucedido que foi fundamental para restabelecer a esperança na recuperação de doentes desenganados, mas que apontado pelos apóstolos do medievo e seus representantes laicos como uma das mais visíveis intromissões de Satanás na nossa santa vida.

“Educaterra”

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Nova lei de imigração da UE: Europa fecha o cerco contra os “sem documentos”

Câmara européia aprovou a nova norma de expulsão com a divisão entre os socialistas. Países latino-americanos e ONGs rejeitaram as regras contra a imigração ilegal

Andreu Missé

A diretriz que permite manter detidos os imigrantes ilegais durante 18 meses superou na quarta-feira o último trâmite ao ser aprovada por uma esmagadora maioria no Parlamento Europeu, que não aceitou uma única emenda. O texto, que também autoriza o envio de menores a países diferentes daqueles de origem, foi aprovado por 369 votos a favor, 197 contra e 106 abstenções.

Aos grupos da direita - Partido Popular Europeu, que respondeu por 217 votos, e a Europa das Nações, 40 - uniram-se os 57 votos de liberais e 34 dos socialistas, 16 deles espanhóis. Os votos contra a nova norma, que impede estrangeiros expulsos de regressar à UE durante cinco anos, chegaram das fileiras socialistas (100 votos), da União da Esquerda Européia (37) e dos Verdes (36).

A votação despertou uma reação imediata de revolta nas repúblicas latino-americanas e nas organizações humanitárias.

Depois de conhecer o resultado da votação, o presidente do Equador, Rafael Correa, propôs a criação de uma frente latino-americana para protestar contra a “diretriz do retorno”, que chamou de “a diretriz da vergonha”, a mesma forma como ela está sendo definida pelas ONGs européias. “Esperamos dar uma resposta comum com os diferentes países da América Latina”, disse Correa à emissora de TV Canal Uno. “Unidos seremos muito mais fortes e poderemos fazer melhores exigências sobre nossos direitos”, acrescentou.

De sua parte, o Paraguai anunciou a intenção de defender, na cúpula dos chefes de Estado do Mercosul, dia 1º de julho, que se rejeite a norma. O ministro paraguaio das Relações Exteriores, Rubén Ramírez, deu instruções para apresentar uma declaração a fim de que o Mercosul “se pronuncie com nitidez” quanto ao texto, informa a agência Efe.

Também o mundo católico, que antes da votação havia enviado várias mensagens aos eurodeputados, manifestou seu mal-estar. Agostino Marchetto, secretário do Conselho Pontifício para os imigrantes, afirmou: “Não devemos tornar criminosos os imigrantes, por preço algum”. “Os cidadãos de outros países, tanto como os cidadãos da comunidade européia, não deveriam ser privados de liberdade pessoal ou serem sujeitos a penas de detenção por causa de infrações de tipo administrativo”, insistiu.

A Anistia Internacional também emitiu na quarta-feira uma declaração, na qual afirma que “o novo texto aprovado pelo Parlamento Europeu não vai garantir o retorno dos imigrantes em condições de segurança e dignidade. A diretriz estabelece um exemplo extremamente ruim”.

A divisão do grupo socialista e o apoio maciço dos liberais refletem a forte pressão exercida pelos governos sobre os eurodeputados, especialmente dos partidos que estão no poder. Os parlamentares foram seriamente pressionados a apoiar o texto aprovado pelo conselho no último dia 5.

Dos 34 votos socialistas a favor da nova norma, que não vai garantir o controle judicial dos detidos em um prazo de 72 horas, 16 são de espanhóis. Só o ex-presidente do Parlamento Europeu, Josep Borrell e o ex-líder dos socialistas catalães, Raimon Obiols votaram contra, como a maioria de seus companheiros europeus. O deputado Martí Grau se absteve. Uma dezena de socialistas alemães também votou a favor e muitos trabalhistas britânicos se abstiveram.

A diretriz poderá ser aplicada a cerca de oito milhões de imigrantes ilegais que, segundo a Comissão Européia, se encontram na Europa. Mais de 200.000 foram detidos no primeiro semestre de 2007, entre os quais menos de 90.000 foram expulsos.

O eurodeputado socialista espanhol Javier Moreno justificou o apoio ao texto assinalando que a “‘diretriz do retorno’ assenta as primeiras bases de um quadro europeu comum para a gestão da imigração irregular”. “Nós, os socialistas espanhóis no Parlamento Europeu”, afirmou, “temos tentado fazer da proposta do Conselho um texto com maiores garantias, aproximando-o ao máximo das legislações européias mais avançadas. Com esse empenho, nós socialistas temos conseguido a assistência jurídica gratuita para os imigrantes”.

De sua parte, Willy Meyer, eurodeputado da Esquerda Unida, manifestou preocupação, pois a nova norma “permitirá a deportação de oito milhões de imigrantes sem garantias”. “Hoje foi um dia negro para a Europa”, afirmou. “Isso nos faz retroceder à época em que na Espanha era possível prender alguém sem contar com a ordem de um juiz”.

Martine Roure, a eurodeputada socialista alternativa, como é definido seu grupo, expressou sua inquietação porque a diretriz “se aplica a pessoas que já estão instaladas aqui, que têm filhos, que pagam seus impostos”. Roure se disse intranqüila “quanto à situação das crianças que podem ser enviadas a países diferentes daqueles de sua origem, sem garantias”.

A eurodeputada liberal Jeanine Hennis-Plasschaert, porta-voz de seu grupo para temas de imigração, afirmou que “a política de expulsão não deve ser analisada de forma isolada”. Ela acredita que esta “deveria ser vista como um pacote integral e necessário de imigração, incluindo o asilo e a imigração legal. Se queremos implantar na Europa uma estratégia de imigração, precisamos simplesmente de uma que seja efetiva, embora justa e transparente, política de retorno”.

Giusto Catania, da União da Esquerda Européia, censurou as pressões de urgência feitas pelos países, “para poder desbloquear os quase 700 milhões de euros, que agora, com a aprovação da nova norma, estarão disponíveis para a expulsão dos imigrantes”.

“El País”

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OMS alerta: “nada é tão devastador quanto a Aids”

Kevin de Cock, 56, epidemiologista belga-americano e diretor do programa de Aids da OMS há dois anos fala a “Spiegel”

Marco Evers

Kevin de Cock, estrategista da OMS na luta contra a Aids, fala sobre o progresso na guerra contra o HIV, a bênção da circuncisão masculina e como a resposta internacional seria diferente se os índices de infecção fossem tão altos no Ocidente quanto no sul da África.

Der Spiegel - Dr. Cock, quanto medo deve ter um adolescente heterossexual em Berlim de se infectar pelo HIV?
Kevin de Cock - O risco dele ou dela pode ser baixo, mas não é zero. Nas áreas mais afetadas do mundo -especialmente no sul da África, onde até 30% da população é HIV positiva- qualquer contato sexual sem preservativo é potencialmente perigoso. Felizmente, não é o caso de Berlim. Mas, ainda assim, qualquer pessoa sexualmente ativa deve tomar muito cuidado em não se expor. A mensagem que diz que os preservativos oferecem proteção não perdeu a importância. Eles protegem contra o HIV assim como contra gonorréia, clamídia, sífilis, herpes e outras infecções.

Der Spiegel - Qual é o risco de transmição do HIV por meio da penetração vaginal?
De Cock - A maior parte das pessoas infectadas provavelmente somente espalhará o vírus em uma de cerca de 1.000 relações sexuais. Mas sua capacidade de transmissão pode ser muito mais alta se tiverem sido infectadas recentemente ou se sofrerem de outras doenças sexualmente transmissíveis, como úlceras genitais. O HIV não é tão infeccioso quanto a gripe. No entanto, desde o início da epidemia, mais de 60 milhões de transmissões ocorreram e 25 milhões de pessoas morreram de Aids, a maioria delas na África sub-sahariana.

Der Spiegel - Nos anos 80, quando os vírus ainda era pouco conhecido, houve amplo temor entre os especialistas que o HIV varreria o mundo.
De Cock - E graças a Deus isso não aconteceu, ao menos não no Ocidente. Na Europa, o vírus é quase confinado a grupos específicos: homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas que compartilham agulhas e imigrantes de países com níveis muito altos de infecção. Em alguns grupos, como jovens gays, o índice de infecção voltou a subir, talvez por causa das opções de tratamento de grande sucesso com a terapia anti-retroviral (ARV) que tornaram a Aids aparentemente menos horripilante e mais administrável. A Aids perdeu parte de seu horror para muitas pessoas. Mas, acredite: não é algo que alguém queira.

Der Spiegel - Esse tratamento que salva vidas está cada vez mais disponível para os que sofrem de Aids em países mais pobres…
De Cock - A comunidade mundial se comprometeu a trabalhar para o acesso universal à prevenção, tratamento, atendimento e apoio aos pacientes de Aids. No momento, três milhões de pessoas em países pobres -quase três quartos delas na África sub-sahariana- estão recebendo medicação. Nossa meta original era ter três milhões recebendo tratamento em 2005, mas infelizmente estamos um pouco lentos. Outros seis milhões de pessoas precisam de tratamento hoje, mas não o recebem ainda. Precisamos trabalhar nisso.

Der Spiegel - O custo do tratamento e da prevenção contra o HIV para a comunidade internacional agora está entre US$ 8 e US$ 10 bilhões (entre R$ 13 e R$ 16 bilhões) por ano. Esse número deve aumentar para US$ 20 bilhões (cerca de R$ 32 bilhões) em 2010 e US$ 40 bilhões (R$ 64 bilhões) em 2015. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas na África morrem facilmente de doenças que têm cura fácil e barata, devido à falta de acesso à água limpa e esgoto. O senhor vê um desequilíbrio aí?
De Cock - Não nego que há muita morte prematura na África de muitas doenças evitáveis. Obviamente há outros problemas de saúde que merecem mais dinheiro. Mas nada é tão devastador quanto a Aids. A Aids é a principal causa de morte em muitos países. Há países no Sul da África que perderam duas décadas de expectativa de vida. Diga-me outro fenômeno que tenha tantas vítimas, com exceção de morte por guerra.

Der Spiegel - Todos os dias, 26.000 crianças morrem de diarréia…
De Cock - Sim, as crianças africanas morrem em grandes números de infecções bacterianas e outras; é horrível e não está certo. Mas, de uma forma cruel, a sociedade está acostumada a isso. Com a Aids, é diferente. Jovens adultos morrem da doença em números nunca vistos: pais, provedores, profissionais treinados. Essas mortes destroem a fundação da sociedade. Elas ocorrem entre os militares, na polícia. Morrem médicos, enfermeiras, agricultores que produzem alimentos para outros.

Der Spiegel - Graças à ajuda internacional, há agora clínicas na África com os mais recentes remédios contra a Aids, mas que não são capazes de ajudar se você sofre de outras doenças tratáveis. Aqueles que sofrem de Aids estão se tornando os pacientes mais privilegiados na África? Você recebe tratamento se tiver Aids, mas será abandonado para morrer se tiver parasitas?
De Cock - Temos essa epidemia devastadora em alguns países africanos. E temos essas drogas sensacionais que salvam vidas no Norte. É aceitável não usá-las no Sul? Não. Talvez seja um debate intelectual interessante avaliar se a Aids recebe dinheiro demais em relação a outros problemas, como a falta de água e esgoto. Mas, ao mesmo tempo, precisamos agir -US$ 40 bilhões (em torno de R$ 64 bilhões) não é muito quando você pode ter um impacto enorme na saúde de milhões de pessoas.

Der Spiegel - Esses países provavelmente nunca poderão pagar pelos medicamentos. Esse sucesso terapêutico jamais será sustentável?
De Cock - O que é sustentável? Nos países mais pobres, a única coisa sustentável é a epidemia, se não for tratada. Eventualmente, todas as 33,2 milhões de pessoas atualmente infectadas precisarão de remédios, assim como as 2,5 milhões que estão sendo infectadas a cada ano. Os gastos serão gigantescos, e vamos enfrentar décadas tendo que lidar com esse problema.

Der Spiegel - Como o HIV devastou o sul da África dessa forma?
De Cock - O vírus encontrou uma situação ideal ali. Muitos homens têm que ficar separados de suas mulheres por grande tempo; eles viajam grandes distâncias para ganhar a vida. O trabalho sexual para sobrevivência é muito mais comum do que na Europa. Muitas pessoas na África têm relações sexuais que se sobrepõem, que não são seriais, como na Europa. São redes sexuais que tornam mais fácil para o vírus se difundir pela população. Aliás, há um estereótipo que dita que sempre são os homens que trazem o HIV para um casamento estável. Mas nem sempre é verdade. As mulheres se infectam mais cedo, de homens mais velhos, e depois infectam seus maridos em uma relação estável. Por isso a OMS está adotando uma estratégia agressiva de exames. As pessoas devem saber sua situação.

Der Spiegel - A campanha pelo preservativo fracassou na África?
De Cock - Os preservativos salvaram inúmeras vidas. Mas não são o meio ideal de prevenção. É muito difícil manter o uso de preservativo em relações estáveis. As pessoas têm a disciplina para usá-lo em sexo casual. Mas, fora dessa situação, é diferente. Essa é a natureza humana.

Der Spiegel - Todas as tentativas para se desenvolver uma vacina fracassaram. Ainda assim, a circuncisão masculina provou-se barata e disponível, como uma “vacinação cirúrgica”. Os homens circuncidados têm 60% menos taxa de infecção por HIV do que os não circuncidados porque o prepúcio contém células que podem ser facilmente infectadas. As evidências que a circuncisão funciona como proteção têm ao menos uma década, mas a OMS só recomendou isso em março de 2007. Foi um erro?
De Cock - Primeiro precisávamos de amplos ensaios clínicos em homens heterossexuais. Precisamos ter dados seguros para embasar nossas recomendações. Isso demora. Três grandes ensaios na África foram recentemente interrompidos antes do prazo porque parece que a circuncisão realmente tem um efeito notável. Admito: eu mesmo duvidei por um longo tempo. Agora, nós recomendamos a circuncisão como estratégia de prevenção assim como o uso de preservativos, redução de parceiros sexuais e abstinência para os que têm disposição ou são muitos jovens.

Der Spiegel - Vamos fazer um exercício intelectual. Se a Europa estivesse sofrendo de uma epidemia como a Aids no sul da África…
De Cock - …haveria 50 milhões infectados em uma população de 400 milhões. Imagine! Certamente, isso levaria a resultados diferentes do que acontece agora na África. A Aids seria o tópico mais importante da sociedade, dominando tudo o mais. Acho que haveria programas cuidadosos de grande escala equacionando saúde pública e direitos humanos. A prevenção de HIV seria uma prioridade para todo cidadão. Ao mesmo tempo, haveria acesso universal aos exames e ao melhor tratamento disponível. Por que deveríamos aceitar menos para a África? Entramos em uma época em que a proteção contra as principais doenças infecciosas -como Aids, tuberculose e malária- devem ser consideradas um direito universal.

“Der Spiegel”

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Os falcões do Cerrado

Descampado exibe riqueza biológica inesperada

Carlos Fioravanti

Pesquisa FAPESP- Uma paisagem que parece um vasto pasto abandonado, com uma árvore aqui, outra ali, perseguida pelo sol ardente do interior paulista, emerge como uma notável reserva de aves a céu aberto. O Cerrado da Estação Ecológica de Itirapina, a 230 quilômetros da capital paulista, abriga 231 espécies de aves, entre elas delicados pássaros que cabem na palma da mão, a gralha-do-cerrado, 17 espécies de gaviões e falcões e sete de corujas, predadores do topo da cadeia alimentar como se fossem leões alados, e a ema, a maior ave brasileira, de até 1,80 metro de altura. Nos 23 quilômetros quadrados desse descampado – uma área equivalente a 1% do Distrito Federal, o coração do Cerrado brasileiro – vive uma em cada três espécies exclusivas do Cerrado, 27% do total de espécies encontradas nesse tipo de ambiente e 30% das registradas em todo o estado de São Paulo.

Nem os biólogos esperavam encontrar tamanha diversidade biológica em uma vegetação antes desvalorizada por representar as formas mais peladas do Cerrado paulista – o campo limpo, raro especialmente em São Paulo, coberto por um solo arenoso em que nada mais cresce a não ser insistentes plantas rasteiras, e o campo sujo, apenas com arbustos em meio ao tapete verde. Como explicar? José Carlos Motta Jr., professor da Universidade de São Paulo (USP), conta que justamente por se tratar de um espaço aberto é que nasce, cresce e se esconde por ali tamanha variedade de seres alados, muitos na lista de ameaçados de extinção no estado de São Paulo. Quem tiver mais paciência pode ver também alguma das 33 espécies migratórias já identificadas, a exemplo da rara águia-pescadora (Pandion haliaetus), que vem do sul dos Estados Unidos. Muitas outras podem nunca ser vistas se o próprio Cerrado desaparecer, como alertaram dois especialistas em aves, Edwin O’Neill Willis e Roberto Cavalcanti, há quase duas décadas.

Motta Jr., que começou aos 13 anos de idade a sair à noite para ver e ouvir as corujas das matas e cerrados daquela região, fez parte da equipe de quase 30 biólogos da USP, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Butantan que passaram dias e noites atrás do pulsar da vida no céu, nos buracos do solo ou em árvores mortas do Cerrado de Itirapina. O censo da vida selvagem que toma forma agora, depois de 10 anos de trabalho, revela também espécies e fenômenos novos. É o caso do rato-de-espinho (Clyomys bishopi), roedor de 20 centímetros (sem o rabo) exclusivo do Cerrado paulista que cava túneis interligados a meio metro da superfície. Vivendo em colônias, os ratos-de-espinho são possíveis espécies-chave. O biólogo Roberto Guilherme Trovati verificou que esses animais armazenam e espalham frutos e sementes, eles próprios servem de alimento para outros animais e constroem abrigos que acolhem lagartos, cobras e sapos.

Também saíram da toca conclusões que podem ser úteis para rever ou fortalecer as estratégias de conservação da vegetação natural. “Perdemos o romantismo de achar que poderia existir uma solução única para preservar todos os grupos de animais”, diz Márcio Martins, professor do Instituto de Biociências da USP e coordenador da equipe. “Não se trata mais de escolher entre as lagoas lotadas de sapos endêmicos ou o campo aberto onde vivem algumas aves que não aceitam outros espaços, mas de manter os dois ambientes, porque são igualmente importantes.” Os biólogos desse grupo verificaram que o desmatamento prejudica a maioria das espécies de animais, a exemplo da rã Leptodactylus furnarius, que praticamente só vive em Cerrado preservado, mas outras podem até se dar bem com o desmatamento, como a cascavel e a coruja-buraqueira, que se espalham e se reproduzem facilmente em áreas abertas.

Capins e caçadores - Os levantamentos evidenciam a delicada situação dessa área do Cerrado paulista cercada por fazendas e cidades, uma das poucas do país a preservar os campos limpos. Em outros trechos espraiam-se árvores tortuosas e de cascas grossas que resistem a incêndios freqüentes – é o campo cerrado, com árvores como pequizeiro (Caryocar brasiliense), cujo fruto os moradores do Centro-Oeste adicionam ao arroz, e a gabirobeira (Campomanesia adamantium), cujos frutos rendiam doces e geléias. Normalmente as matas que contornam os rios cobrem de 10% a 15% da área de Cerrado no Brasil, mas em Itirapina não chegam a 5%; e justamente nelas é que vive boa parte das aves e a maioria dos anfíbios, além dos anfíbios que só se reproduzem nessas matas. A recomposição e integração dos blocos das matas próximas aos rios é uma das recomendações que os pesquisadores pretendem entregar em breve à diretoria da estação ecológica como forma de zelar ainda mais pelo espaço natural do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), da onça-parda (Puma concolor) e da lontra (Lontra longicaudis). Eles sugerem maior fiscalização contra os caçadores e a invasão de gado, cujas fezes propagam sementes de capins invasores, e mais atenção à eliminação das árvores exóticas, especialmente os pinheiros, que invadem a estação e crescem a partir de sementes trazidas pelo vento dos reflorestamentos vizinhos. “Os pinheiros já avançaram bastante sobre outras áreas de preservação do Cerrado em São Paulo”, observa Motta Jr.

Tempos atrás, com base nas informações e conclusões dos levantamentos de campo, a administração da estação e os pesquisadores decidiram em conjunto pela desativação de estradas internas, em benefício da diversidade biológica. Quando precisava de argumentos para batalhar pela anexação de uma área vizinha de 150 hectares de campo cerrado que pertencia ao estado, a bióloga Denise Zanchetta, ex-administradora da estação, não hesitou em chamar os biólogos de São Paulo que andavam por lá. “Trabalhar em conjunto e tomar decisões que beneficiem a todos foi uma experiência muito rica e fácil”, diz ela. “Na maioria das vezes há um vácuo. O pesquisador vem e vai embora sem deixar nada e o administrador é visto somente como quem vai entravar o trabalho científico.”

Por ali tudo parece calmo, mas é um come-come irrefreável mesmo entre os representantes do alto da cadeia alimentar: um gavião grande pode atacar uma coruja e uma coruja grande pode comer um gavião pequeno. Motta Jr. conta que uma vez assistiu a um caburé, a menor coruja brasileira, de cerca de 60 gramas (menos que um sabiá), pegando um pássaro, a tesourinha (Tyrannus savana), de 30 gramas. Mas convém não olhar só para o alto, porque as cobras por lá também são muitas. Martins, Ricardo Sawaya, biólogo do Butantan, e os demais integrantes da equipe que estudava répteis pediram aos moradores das fazendas próximas para guardarem as serpentes que encontravam nas plantações, nas pastagens e nas casas – e antes, claro, matavam. A maioria das 35 espécies vistas na reserva vivia também nas fazendas, numa indicação de que suportavam variações acentuadas de temperatura, umidade e vegetação. Só três, menos flexíveis – uma jararaca (Bothrops itapetiningae), uma falsa-coral (Oxyrhopus rhombifer) e a nariguda (Lystrophys nattereri) –, viviam apenas no Cerrado preservado.

Outras vezes, enquanto a equipe das aves saía atrás de bolotas de fezes, por meio das quais descobriam de que os animais se alimentavam, o grupo dos répteis abria a barriga de cobras mortas para saber o quanto comiam de sapos, lagartos e roedores. Em um dos estudos, Felipe Spina fez 900 cobras de 20 centímetros com massinha de modelar (300 com listras vermelhas, brancas e pretas intercaladas, representando as corais, as serpentes mais coloridas do mundo, 300 com listras inclinadas e outras 300 inteiramente marrons) para verificar se gaviões e corujas deixavam de atacar as cobras de massinha com cores intensas, que representariam as espécies venenosas e seus imitadores fidedignos. Sim, evitam – e preferem as marrons, que re-presentavam as não-venenosas.

Uma das conclusões desse trabalho é que no Cerrado, como já havia sido verificado em florestas tropicais da América Central, uma forma de ganhar alguns meses de vida é parecer venenoso: mesmo uma semelhança superficial com uma coral-verdadeira (venenosa) já afasta predadores. Gaviões, corujas, gralhas e garças não distinguem as cobras corais falsas (não-venenosas) das verdadeiras, já que ambas são coloridas. Na dúvida sobre qual seria realmente venenosa – o risco de errar pode significar a morte –, os predadores vão procurar outro alimento. Assim, as corais verdadeiras, ainda que raras em Itirapina, beneficiam todas as outras coloridas. “É um altruísmo involuntário”, comenta Martins.

Os biólogos descobriram também os preconceitos que acompanham algumas espécies, como o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). O único lobo do Brasil alimenta-se principalmente de frutas e ratos, às vezes uma perdiz, mas os moradores da região acreditam que ele adora galinhas e outros animais domésticos. Não é verdade. De acordo com um levantamento dos pesquisadores, o guará ataca uma galinha para cada 50 a 70 ratos que consome. “Se os moradores cercarem os galinheiros ou deixarem um cachorro por perto, o lobo-guará vai embora”, sugere Motta Jr. “Ele não é como o lobo-cinzento norte-americano, que pode comer até o cachorro.”

Os Projetos

1. História natural, ecologia e evolução de vertebrados brasileiros

Modalidade

Projeto Temático

Co­or­de­na­dor

Márcio Martins – IB/USP

Investimento

R$ 815.289,80 (FAPESP)

2. Ecologia de comunidades de vertebrados terrestres em Cerrados e áreas alteradas na região de Itirapina, SP

Modalidade

Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa

Co­or­de­na­dor

Márcio Martins – IB/USP

Investimento

R$ 4.8954,88 (CNPq)

“Fapesp”

Comentários (2)

Doha, um fracasso que salvou empregos

Sobrevalorização cambial e juros estratosféricos terminam por levar a alienação de ativos a investidores estrangeiros. Mas para o diretor da Fiesp isso significa fazer o “dever de casa”. Como essa lição, para ser bem feita, solicita uma crescente desestruturação do mercado de trabalho, resta aos especialistas calcularem quantos empregos foram salvos com o fracasso das negociações em Genebra.

Gilson Caroni Filho

Se alguém ainda tinha um mínimo de dúvida de que o caminho traçado pela burguesia brasileira para consolidar, entre nós, uma nova forma de dominação de classe passa pela desconstrução permanente de direitos trabalhistas, Mário Marconini, diretor de negociações internacionais da Fiesp tratou de dissipar qualquer incerteza.

Quando lamenta o fracasso de um acordo que, entre outras coisas, traria um corte médio de 54% nas tarifas de importação do setor industrial, além de acordos setoriais, que levariam a perda de mercado para corporações de países centrais, Marconini demonstra que o ajuste imposto nos anos 1990, com a abertura comercial indiscriminada, foi assimilado por um setor que traz a vocação para a dependência no DNA.

Ao declarar à Folha de S. Paulo (30/7) que “as concessões poderiam significar ganho de produtividade nos próximos anos, à medida que tornaria a realização de reformas estruturais mais prementes”, o dirigente empresarial deixou claro que tipo de projeto encampa como forma de desenvolvimento para o país.

O governo Collor e os oitos anos do consórcio tucano-pefelista já nos ensinaram como a burguesia nativa interpreta o conceito de “produtividade”: terceirização de atividades, fusões, fechamento de plantas, transferência de controle acionário e redução de custos. Sobrevalorização cambial e juros estratosféricos terminam por levar a alienação de ativos a investidores estrangeiros. Mas para o diretor da Fiesp isso significa fazer o “dever de casa”

Como essa lição, para ser bem feita, solicita uma crescente desestruturação do mercado de trabalho, resta aos especialistas calcularem quantos empregos foram salvos com o fracasso das negociações em Genebra.

Por trás dessa “visão modernizadora”, no entanto, persiste o interesse patrimonial típico da elite brasileira, com a visão do aparelho estatal como extensão do patrimônio particular.Falta, contudo, o bloco de poder que até 2002 tratava a administração pública como se fosse a gerência de uma empresa privada ou de uma grande fazenda.

É no compasso de espera do retorno do tucanato ao poder que a direita urde sua trama. Agindo dentro da própria institucionalidade, sem quebra de regras, sem movimentos abruptos. Já não há dúvidas que é mais eficaz, sai menos custoso, além de dar menos visibilidade a seus interesses.

“Marconini, talvez sem o querer, mostrou o que mobiliza os nossos “indignados” e moralistas” completamente inocentes”, em sua grita diária por mais ética e menos gastos públicos. O horizonte é 2010

Por enquanto, resta o consolo de que vários postos de trabalho não foram esterilizados.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Carta Maior”

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Capitalismo de desastre: estado de extorsão

Invadir países para apoderar-se de seus recursos naturais é ilegal, segundo a Convenção de Genebra. Isto significa que a gigantesca tarefa de reconstruir a infra-estrutura do Iraque é responsabilidade financeira dos invasores. Em vez disso, o Iraque está obrigado a vender 75% de seu patrimônio nacional para pagar as contas de sua própria invasão e ocupação ilegais. Os capitalistas do desastre têm estado ocupados. A análise é da Naomi Klein.

Naomi Klein

Desde que o barril de petróleo ultrapassou os 140 dólares, até os interlocutores de direita mais furibundos são forçados a demonstrar seu credo populista dedicando uma parte de seus programas a massacrar as companhias petrolíferas. Alguns foram tão longe a ponto de convidar-me para uma conversa amigável sobre um insidioso novo fenômeno: “o capitalismo do desastre”. A coisa marcha bem… até que começa a se torcer.

Por exemplo, o interlocutor “conservador independente” Jerry Doyle e eu mantínhamos uma conversa perfeitamente amigável sobre as turvas companhias seguradoras e a inépcia dos políticos, quando ocorreu o seguinte: “Acho que há um sistema para baratear rapidamente os preços”, anunciou Doyle. “Investimos 650 bilhões de dólares para libertar uma nação de 25 milhões de pessoas. Será que já não é hora de reclamarmos um pouco de petróleo em troca? Deveria haver uma fila de caminhões-tanque, um atrás do outro, formando um congestionamento em direção ao Túnel Lincoln, o malcheiroso Túnel Lincoln, bem na hora do rush, cada um deles com um bilhete de agradecimento do governo iraquiano… Por que não vamos e simplesmente pegamos o petróleo? Nós o ganhamos libertando um país. Posso resolver o problema do preço do petróleo em dez dias em vez de em dez anos.”

O plano de Doyle tinha alguns problemas, é claro. O primeiro é que estava descrevendo o maior latrocínio da história mundial. O segundo é que chegava tarde demais: “nós” já estamos roubando o petróleo do Iraque, ou pelo menos estamos na iminência de fazê-lo.

Já se passaram dez meses da publicação do meu livro, Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo de desastre, no qual argumento que o método preferido para reformar o mundo de acordo com os interesses das corporações multinacionais é, atualmente, o de explorar sistematicamente o estado de medo e desorientação que acompanha a população em momentos de choque e crise. Agora que o mundo está sendo sacudido por múltiplos choques, parece um bom momento para ver como está sendo aplicada essa estratégia.

Os capitalistas do desastre têm estado ocupados: dos bombeiros privados que atuaram nos incêndios do norte da Califórnia, passando pelos grileiros após o ciclone Burma, à nova lei sobre moradia abrindo caminho no Congresso. A lei diz pouco no que se refere às moradias acessíveis, desloca o peso do pagamento das hipotecas para os contribuintes e garante que os bancos que fizeram maus empréstimos recebam alguma coisa por eles. Não é de admirar que nos corredores do Congresso seja conhecida como “plano Credit Suisse”, em homenagem a um dos bancos que, generosamente, propôs essa lei.

O desastre do Iraque: “se quebrar, paga”
Mas estes casos de capitalismo do desastre são bastante amadores se comparados ao que está sendo feito no Ministério do Petróleo iraquiano. Começou com a adjudicação de contratos fora de leilão à ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e Total (ainda não foram assinados, mas já estão valendo). Pagar às multinacionais pela sua bagagem técnica não é algo raro. O que é estranho é que tais contratos quase invariavelmente sejam destinados às empresas petrolíferas de serviço e não às grandes empresas petrolíferas cujo trabalho é a exploração e destes recursos combustíveis e liberadores de dióxido de carbono.

Como aponta o especialista em petróleo londrino Greg Muttitt, os contratos só têm sentido no contexto das informações de que as grandes companhias petrolíferas insistiram no direito de poder recusar contratos subseqüentes outorgados para gerenciar e produzir nos campos de petróleo iraquianos. Em outras palavras, embora outras companhias poderão fazer lances pelos contratos futuros, aquelas sempre vão vencer.

Uma semana depois que os acordos de serviços fora de leilão foram anunciados, o mundo pôde ver o preço real do petróleo. Depois de anos pressionando o Iraque pelas costas da opinião pública, o país repentinamente abriu aos investidores seis de seus maiores campos petrolíferos, que reúnem em conjunto quase metade de suas reservas. De acordo com o ministro do Petróleo iraquiano, contratos a longo prazo começarão a ser assinados durante este ano. Apesar de que ostensivamente estarão sob controle da Companhia Nacional de Petróleo Iraquiana (CNPI), as empresas estrangeiras manterão 75% do valor dos contratos, deixando os 25% restantes para seus sócios iraquianos.

Este tipo de porcentagem não tem precedentes nos estados árabes e persas ricos em petróleo, nos quais o controle majoritariamente nacional do petróleo foi uma vitória decisiva nas lutas anticolonialistas. Segundo Muttitt, a suposição até agora era que as multinacionais estrangeiras trariam desenvolvimento aos novos campos petrolíferos do Iraque, e não que tomariam para si aqueles cuja produção já está em marcha e, conseqüentemente, requerem um suporte técnico mínimo. “A política era a de destinar esses campos em sua totalidade à Companhia Nacional de Petróleo Iraquiana”, explicou-me. Esta mudança supõe uma inversão daquela política, uma vez que dá à CNPI apenas 25%, em vez dos 100% planejados.

Assim, o que faz com que contratos péssimos como esses sejam possíveis no Iraque, um país que tanto sofreu? Ironicamente, o sofrimento do Iraque —sua crise sem fim— é a base para um acordo que ameaça drenar de seu tesouro nacional sua principal fonte de recursos. A lógica é como segue: a indústria petrolífera do Iraque precisa de especialistas estrangeiros porque os anos de sanções punitivas privaram-na de nova tecnologia e a invasão, assim como a violência que a seguiu, degradaram-na ainda mais. E o Iraque precisa com urgência produzir mais petróleo. Por que? Por causa da guerra, mais uma vez. O país está em ruínas e os milhares de milhões repartidos em contratos fora de leilão entre as companhias ocidentais não conseguiram reconstruir o país. Aí é onde entram os novos contratos fora de leilão: por essa via conseguirão arrecadar mais dinheiro, mas o Iraque tornou-se um lugar tão traiçoeiro que as grande companhias petrolíferas precisam ser induzidas a assumir o risco de investir. Assim, a invasão do Iraque cria, limpamente, o argumento para o seu saque subseqüente.

Muitos dos arquitetos da guerra do Iraque nem sequer se preocupam mais em negar que o petróleo foi o motivo principal da invasão. No programa To the Point, da National Public Radio (Radio Nacional Pública), Fadhil Chalabi, um dos principais conselheiros iraquianos da administração Bush antes da invasão, descreveu recentemente a guerra como um “movimento estratégico dos EUA e do Reino Unido para ter uma presença militar no Golfo com a qual possam garantir, no futuro, as reservas (de petróleo).” Chalabi, que exerceu como vice-ministro do Petróleo e reuniu-se com as companhias petrolíferas antes da invasão, descreveu este movimento como “um objetivo fundamental.”

Invadir países para apoderar-se de seus recursos naturais é ilegal, segundo a Convenção de Genebra. Isto significa que a gigantesca tarefa de reconstruir a infra-estrutura do Iraque —incluindo sua infra-estrutura petrolífera— é responsabilidade financeira dos invasores. São eles que deveriam ser forçados a pagar pelos consertos. (É preciso lembrar que o regime de Saddam Hussein pagou 9 bilhões de dólares ao Kuwait como reparações pela invasão do país em 1990.) Em vez disso, o Iraque está obrigado a vender 75% de seu patrimônio nacional para pagar as contas de sua própria invasão e ocupação ilegais.

O choque do preço do petróleo: ou vocês nos dão o Ártico ou nunca voltarão a dirigir.

O Iraque não é o único país envolvido em um assalto petrolífero. A administração Bush está atarefada no trabalho de usar uma crise relacionada —a do aumento do preço do combustível— para reavivar seu velho sonho de perfurar o Refúgio Natural Ártico (Arit. National Wildlife Refuge, ANWR em suas iniciais em inglês). E de perfurar a costa. E também de explorar as reservas de petróleo de esquisto bituminoso da bacia de Green River. “O Congresso tem que enfrentar a dura realidade”, disse George W. Bush em 18 de junho. “A menos que os membros do Congresso estejam dispostos a aceitar os dolorosos preços atuais do combustível, ou talvez ainda mais altos, nossa nação precisa produzir mais petróleo.”

Fala o Presidente como Extorquidor-em-Chefe, apontando a cabeça de seu refém (nada menos que o país inteiro) com a bomba de gasolina: ou vocês me dão a ANWR ou todo o mundo terá que passar suas férias no pátio traseiro de casa. O último roubo do presidente-cowboy.

Apesar dos adesivos de “Perfure aqui e agora e pague menos”, perfurar na ANWR teria um impacto apenas perceptível nas atuais reservas petrolíferas mundiais, como seus defensores bem sabem. O argumento de que poderia provocar uma redução dos preços do petróleo não está baseado na economia pura e dura, mas na psicanálise de mercado: perfurar “enviaria uma mensagem” aos empresários do petróleo de que ainda resta mais petróleo, e isto faria com que os preços começassem a cair.

Seguem dois pontos deste raciocínio. O primeiro é a tentativa de mentalizar os hiperativos empresários sobre o que ocorre realmente no governo da era Bush, inclusive no meio de uma emergência nacional. O segundo, é que nunca vai funcionar. Se há alguma coisa que podemos predizer do recente comportamento do mercado petrolífero é que o preço vai continuar subindo, não importa quantas novas reservas forem anunciadas.

Tomem, por exemplo, o enorme boom que está ocorrendo com as famosas reservas de petróleo de esquisto bituminoso de Alberta. Com essas reservas de petróleo bituminoso, conhecidas também como “areias petrolíferas”, ocorre a mesma coisa que com as outras áreas propostas por Bush para perfuração: são próximas e seguras, pois o Tratado para o Livre Comércio na América do Norte (NAFTA) contém uma cláusula que impede o Canadá de cortar o fornecimento para os Estados Unidos. Sem fazer muito barulho, o petróleo destas fontes em grande medida sem explorar tem estado fluindo para o mercado em tal quantidade que agora o Canadá é o maior provedor de petróleo dos Estados Unidos, acima da Arábia Saudita. Entre 2005 e 2007, o Canadá aumentou suas exportações para os Estados Unidos em quase 100 milhões de barris. Apesar do significativo crescimento destas reservas seguras, os preços do petróleo aumentaram durante todo este tempo.

O que se esconde por trás da campanha de perfuração da ANWR não é, de fato, senão pura estratégia do choque: a crise do petróleo criou as condições que tornam possível vender uma política antes invendável, mas, evidentemente, altamente lucrativa.

O choque do preço dos alimentos: ou modificação genética ou fome
Estreitamente ligada ao preço do petróleo encontramos a crise alimentar global. Não são apenas os altos preços do petróleo que fazem subir os preços dos alimentos, senão que o boom dos biocombustíveis tornou difusa a fronteira entre comida e combustível, expulsou os agricultores de suas terras e alentou uma especulação desatada. Muitos países latino-americanos têm insistindo em que seja reexaminada a importância dos biocombustíveis como alternativa aos combustíveis fósseis e em que os alimentos sejam reconhecidos como um direito humano e não como uma mercadoria.

O subsecretário de Estado dos Estados Unidos, John Negroponte, tem, contudo, outras idéias a esse respeito. No mesmo discurso em que tentava vender o compromisso dos EUA para uma ajuda alimentar de emergência pediu aos países que baixassem suas “restrições à exportação e suas altas tarifas” e que eliminassem “as barreiras para o uso das inovações tecnológicas na produção animal e vegetal, incluindo a biotecnologia.” É preciso reconhecer que esta ameaça era mais sutil que as anteriores, mas a mensagem era clara: os países pobres fariam bem em abrir seus mercados agrícolas aos produtos norte-americanos e às suas sementes geneticamente modificadas. Caso contrário, arriscam-se a perder sua ajuda.

Os cultivos geneticamente modificados apareceram de repente como a panacéia para a crise alimentar, pelo menos segundo o Banco Mundial, o presidente da Comissão Européia —“coragem e vamos ao touro”, disse— e o Primeiro Ministro britânico, Gordon Brown. E, é claro, segundo as empresas do agrobusiness. “Não é possível alimentar o mundo, hoje, sem organismos geneticamente modificados”, declarou recentemente Peter Brabec, presidente da Nestlé, ao Financial Times. O problema com este argumento, pelo menos por enquanto, é que não há provas de que os organismos geneticamente modificados vão aumentar a produção dos cultivos, pelo contrário, parece que a diminuem.

Mas se houvesse uma varinha mágica com a qual resolver a crise alimentar global, iríamos querer que estivesse em mãos das Nestlés e Monsantos? Qual seria o preço a pagar para que a usassem? Nos últimos meses, Monsanto, Syngenta e BASF estiveram comprando freneticamente patentes das chamadas sementes “todo-terreno”, um tipo de plantas que podem crescer inclusive na terra castigada pela seca ou salgada pelas inundações.

Em outras palavras: plantas modificadas para sobreviver a um futuro de caos climático. Já sabemos até que ponto está disposta a chegar a Monsanto na hora de proteger sua propriedade intelectual, espionando e processando os granjeiros que ousem guardar suas sementes de um ano para o outro. Temos visto como os medicamentos patenteados contra o HIV impedem salvar milhões de pessoas na África subsaariana. Por que os cultivos “todo-terreno” patenteados seriam diferentes?

Enquanto isso, entre tanta charlatanice excitante sobre novas tecnologias perfuradoras e genéticas, a administração Bush anunciou uma moratória de até dois anos nos projetos federais de pesquisa em energia solar, devido a, aparentemente, preocupações com o meio ambiente. Estamos chegando perto da fronteira final do capitalismo de desastre. Nossos dirigentes não investem em tecnologias que nos previnam de maneira efetiva de um futuro climaticamente caótico e, em vez disso, decidem trabalhar ombro com ombro justamente com aqueles que maquinam planos cada vez mais endiabrados para aproveitar-se das desgraças alheias.

A privatização do petróleo iraquiano, a garantia de um domínio global para plantações modificadas geneticamente, a redução das últimas barreiras comerciais e a abertura das últimas reservas naturais… não faz muito tempo que estes objetivos eram conseguidos um atrás do outro por meio de cordiais acordos comerciais apresentados com o pseudônimo de “globalização”. Agora, essa agenda completamente desacreditada está obrigada a cavalgar sobre as costas de crises cíclicas, vendendo a si mesma como a medicina que curará, de uma vez por todas, a dor do mundo.

* Naomi Klein é autora de numerosos livros, sendo o mais recente The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism.

“Carta Maior”

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‘O maior cabeça de planilha hoje é o Lula’

Entrevista especial com Luis Nassif

Cabeças de planilha (Ed. Ediouro, 2007) é o título do novo livro do jornalista Luis Nassif. Na obra, Nassif narra as chances que o Brasil teve de se tornar uma nação de primeiro mundo. Essas chances não foram aproveitadas em razão do travamento da economia por parte daqueles que ele chama de “cabeças de planilha”, ou seja, os criados das falsidades financeiras e das problemáticas leis de mercado. Para fazer essa análise, Nassif aproveita-se da história econômica do país e a alia ao seu conhecimento sobre o tema na contemporaneidade.

A fim de analisar a trajetória narrada no livro com o contexto político e econômico atual, a IHU On-Line entrevistou Luis Nassif, por telefone. Durante a entrevista, Nassif fala dos erros intencionais dos governos a fim de beneficiar aliados e como essa “jogada” bloqueou e denegriu a economia brasileira. “O principal erro do Rui Barbosa foi a remonetização (…). Com o Plano Real foi a mesma coisa”, relata Nassif ao descrever o grande erro de Barbosa e FHC ao injetar dinheiro pela demanda da moeda.

Segundo o próprio Nassif, ele foi introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Jornalista Econômico formado pela Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo, Luis Nassif é hoje diretor Superintendente da Agência Dinheiro Vivo. Além disso, Nassif desempenha as funções de comentarista econômico da TV Cultura, membro do Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP, do Conselho de Economia da FIESP e do Conselho da Escola Livre de Música Tom Jobim. Possui um dos blogs mais acessados e respeitados do país, o luisnassif.blig.ig.com.br

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quanto tempo o senhor ficou pesquisando até chegar a “Os cabeças de planilha”?

Luis Nassif – Em 1995, 1996, eu fiz uma campanha cerrada contra os erros do câmbio. E naquela época alguns amigos, Bresser Pereira (1), Delfim Netto (2), Serra (3), sugeriram que eu fizesse um livro para contar a experiência daquele período. Eu não cheguei a escrever na época, mas quando o Fernando Henrique (4) saiu do governo eu comecei a tentar indagar qual foi a lógica que levou aos erros do Plano Real. Minha metodologia foi fazer uma analogia entre a República Contemporânea e o início da República com Rui Barbosa. Então, eu fiz um conjunto de colunas para a Folha há uns três anos, mais ou menos, tentando levantar todas as razões que poderiam ter conduzido os autores do Plano aos erros que foram cometidos principalmente na apreciação da moeda. E, depois, quando estavam em processo de formulação de posse, eu formulei um conjunto de hipóteses comparando a gestão Rui Barbosa e o Plano Real. Comecei a juntar material há uns três anos, mas de forma esporádica. Só entrei realmente de cabeça no livro nos três últimos meses do ano passado.

IHU On-Line - E como você chegou à conclusão de que o Brasil perdeu tantas oportunidades de impulso econômico, fazendo então a comparação do Governo Fernando Henrique com o Governo Rui Barbosa?

Luis Nassif - Quando o Fernando Henrique saiu, a minha dúvida era a seguinte: se eu quero fazer uma analogia com o início da República, quem foi o Fernando Henrique? Fernando Henrique, quando assumiu, queria ser muito o Campos Salles, que montou a política dos governadores e garantiu governabilidade, montou uma abertura financeira para o exterior responsável pela estagnação da economia. Campos Salles pegou uma situação caótica e criou um modelo financeiro e econômico responsável por três décadas de estagnação. Eu achava que quando o Fernando Henrique dizia que queria ser como Campos Salles, ele estava pensando mais na tecnologia política, mas não. O desastre já começou no primeiro ano de governo dele, então eu voltei um pouco mais no tempo para tentar buscar em outros capítulos da história uma relação com o seu governo e fui bater no Encilhamento (5), que foi aquele movimento especulativo do final do século XIX.

Li, então, um grande especialista sobre o Encilhamento, o Gustavo Franco (6). Daí quando você pega o livro dele e vai juntando o que ocorreu lá atrás e o que ocorreu aqui, nesta época, começa a se dar conta de que o que leva ao desastre é a “tacada”. Quando se tem mudança de moeda há muitas chances de enriquecimento. Então, primeiro dá a tacada para resolver a vida de amigos e aliados e depois se começa a governar. Só que a primeira tacada condiciona demais o sujeito, que não consegue recuperar mais o controle da situação. Daí se sabia que desde aquela época muitos economistas saíam ganhando com essas crises financeiras no país, tanto quanto os bancos aliados.

Então, começa-se a se perceber, vendo o que foi feito, que não é coincidência o fato de ter havido erros no Real e ter existido economistas que enriqueceram com o Plano. No início do Real, eu tinha feito algumas colunas desconfiando disso. É muito erro crasso para ter uma explicação técnica. É então quando você fecha as contas e pega indícios da época que se dá conta disso. Para mim, o ponto central foi quando eu peguei o histórico das minhas colunas desde o início dos anos 1990, percebendo, com isso, que em 1994 tinha um maior conjunto de fatores, de diagnósticos que poderia permitir um grande salto do país naquele momento. Tudo foi perdido por conta desse erro de partida do Real.

IHU On-Line - Quais foram os principais erros desses dois governos, de Rui Barbosa e de FHC?

Luis Nassif - O principal erro do Rui Barbosa foi a remonetização (7). Rui Barbosa precisava injetar dinheiro porque se tinha um aumento da demanda por moeda com a degradação, com a abolição da escravatura e tudo o mais. Entretanto, na hora de injetar o dinheiro, ele vê que há uma grande chance de riqueza e beneficia um banqueiro aliado dele. Só que Rui Barbosa o beneficia demais. Depois, na medida em que o banqueiro vai enfrentando dificuldades, porque pegava o dinheiro para jogadas especulativas na bolsa, Rui Barbosa começa a fazer um conjunto de concessões que no fim compromete toda a política econômica dele. No Plano Real aconteceu mesma coisa. Aquela apreciação do câmbio foi um grande erro dele. O câmbio foi para R$ 0,80 em três meses, ou seja, criou-se um déficit nas contas corrente, e, em março do ano seguinte, a economia praticamente foi proibida de crescer. Não há explicação técnica que justifique isso. Eu tentei checar todos os argumentos que eles utilizaram e não havia nenhuma guia. Foi um erro crasso, mas intencional, pois beneficiou banqueiros, principalmente o André Lara Rezende (8). E depois quando eles tentaram, mais adiante, corrigir o câmbio, não houve nenhum apoio do Fernando Henrique. Então, o grande erro foi esse, aquela grande apreciação do câmbio e a plena liberalização do fluxo de capitais.

IHU On-Line - E qual é o papel da indústria para o desenvolvimento do Brasil durante os dois governo que você analisou?

Luis Nassif - Dizem que o mundo caminha para uma sociedade de serviços, mas quando você tem um país com esse exército de mão-de-obra desempregado como o Brasil, isso passa a ser questionado. Uma coisa é certa: a indústria é a grande empregadora, e o comércio não multiplica empregos. Ele tem fornecedores que são indústrias. Uma indústria, quando é montada, tem uma cadeia de fornecedores, e por isso tem um efeito multiplicador muito grande. O ponto central é que esses economistas do Real e do Fernando Henrique, assim como Rui Barbosa no passado, achavam que seria possível modernizar o país criando um modelo em que se sufocava a indústria existente, fortalecia esses bancos de investimento e esses bancos entrariam renovando a economia, investindo em indústrias aqui e ali.

Agora, isso foi um erro do Rui Barbosa, porque tiveram outros interesses no meio e ele enfrentou um ambiente que não era favorável à atividade produtiva. Então, os fundos desses bancos de investimentos ganhavam dinheiro e aplicavam para ganhar mais. É muito diferente do agricultor ou do industrial que, quando tem um lucro grande, reinveste no próprio negócio. Então, a indústria nesse período foi esmagada, principalmente a pequena indústria que não tinha poder de mercado. É só ver no Sul o que aconteceu duas vezes com a indústria do calçado em função do câmbio. É um absurdo que, em dez anos, tenha se destruído duas vezes o setor, ou seja, há todo o trabalho de reconstruir para vir o câmbio novamente levar tudo à estaca zero.

IHU On-Line - Como o Brasil não se preocupou com o câmbio cada vez que que foi criada uma nova moeda?

Luis Nassif - Naqueles seis meses de URV, a idéia era que se alinhassem os preços e ao dólar, de tal maneira que no final do processo você teria um URV transformado na nova moeda e teria uma paridade de um por um com o dólar, quando a lógica do Real é que não teria choque, ou seja, você teria um por um; essa era a lógica. Na partida, o dólar passa a valer R$ 0,90 e logo depois R$ 0,80, com muita gente ganhando dinheiro no mercado de câmbio. Então, esse foi o erro fundamental, porque quando se usa uma âncora cambial como no real, o câmbio pára. Se a inflação não é transferida, não se faz um reajuste do câmbio, ou seja, toda a inflação interna torna o produto brasileiro mais caro. E daí fica mais difícil exportar, fica mais fácil importar e é criado um desequilíbrio. Em todo início de Plano, a tendência é dar uma desvalorização cambial antes para ter uma gordura para queimar. No caso do Real, a idéia era um por um, uma idéia arriscada, mas em que se apostou. De repente, o dólar vai para R$ 0,80 e é como se todos os produtos brasileiros, da noite para o dia, ficassem 20% mais caros do que os produtos externos, o que acabou com alguns setores, arrebentou com a agricultura na época, provocou um desemprego e impediu o Brasil de aproveitar aquela grande chance que veio no começo dos anos 1990 e que a China e a Índia aproveitaram.

IHU On-Line - Você afirmou que o Palocci foi uma continuação do Malan. Como você vê o trabalho do Lula para a reconstrução da economia brasileira? É uma continuação do governo FHC?

Luis Nassif - Uma apreciação cambial é uma armadilha muito complicada de se sair, porque se criam muitos interesses, havendo um livro de fluxo de capitais. Há um mercado inteiro que ganha em cima disso. O Lula teve um grande presente, que foi quando o dólar teve uma grande desvalorização, em 2002. Nesse período, o dólar saiu do controle do Banco Central, por conta da crise internacional e por conta das eleições internas. E o Palocci jogou isso fora. Se ele tivesse segurado o dólar quando ele estava a R$ 3, e segurasse a inflação durante uns três meses, ele teria o melhor dos mundos, porque ele teve um câmbio competitivo, um aumento das exportações, dos investimentos. No entanto, ele pegou o câmbio e foi jogando até chegar nessa situação maluca de hoje, quando o Real está valendo R$ 2, e vai descer mais ainda.

IHU On-Line - Quais são os interesses que você vê por trás desses constantes fracassos da economia brasileira?

Luis Nassif - O grande problema é que você não tem instituições e conhecimento da opinião pública para defender o país contra jogadas, tacadas financeiras. Por exemplo, quando vem um plano como o Real, por que eles tomam todas as decisões de depreciação do câmbio etc? Ora, porque tinha uma imprensa que não podia criticar. O Governo repetia que era uma “questão de salvação nacional”, e quem criticava era chamado adepto da “fracassomania”. O FHC estimulou muito a desmoralização da crítica. No final do livro, eu faço uma entrevista com ele e digo: “Peraí, mas haviam pessoas que te alertavam em relação à crise”, e ele responde: “mas eram críticos sistemáticos e, portanto, ficavam desmoralizados”. Olha, a desmoralização da crítica foi ele quem fez, pois quando você vê um presidente popular, no início, por conta do Plano, dizer que os críticos são adeptos da “fracassomania”, a imprensa inteira é subestimada.

Por isso afirmava-se que “quem é a favor da mudança do câmbio é defensor do atraso”. Isso foi o Fernando Henrique quem falou em 1996 e, sobretudo, em 1997. Em 1995, o Brasil sofre um tiroteio tão grande com o negócio dos juros que o pessoal do Malan alimentava um colega despreparado, que soltava artigos periódicos tentando rebater os meus. Só que, em certo momento, o Sergio Motta, que era Ministro do Governo FHC, dá uma entrevista em que ele diz: “O Nassif está certo: este câmbio e esses juros estão malucos”. Agora, você vê que o Fernando Henrique, depois de todo esse processo de desqualificação, me dá uma entrevista e diz que realmente o câmbio estava errado, que realmente os argumentos que o Gustavo Franco utilizava eram argumentos meramente para justificar o errado e que não mudou porque não havia muita crítica. Como assim?

IHU On-Line - Em “Os cabeças de planilha”, você acaba desmistificando o Brasil como “país do futuro”. Você vê, de alguma forma, um futuro para a economia brasileira?

Luis Nassif - Sempre dá tempo de melhorar um pouco. Agora a questão é que cada chance que se perde não é recuperada. O Brasil perdeu grandes chances de desenvolvimento. Tínhamos um movimento de criação de grandes indústrias, um campo competitivo e se tivesse seriedade por parte de Rui Barbosa, aquele movimento poderia ter provocado uma mudança na estrutura industrial brasileira. E por que não provocou? Porque na hora “h” tomou medidas de interesse pessoal. Em 1994, tínhamos um processo das multinacionais espalhadas pelo mundo, concentrando a produção. Um dos países era a China e o outro era o Brasil. Um erro desses é cometido para beneficiar aliados e economistas, perdendo, então, uma chance. Assim, depois dessa chance teremos que esperar por outra. O problema é que entre o desperdício dessa chance e a espera da próxima, o país vai ficando para trás. Então, se o Brasil tivesse uma elite esclarecida, que impedisse esses absurdos, hoje ele seria uma potência de primeiro nível.

IHU On-Line - E o que você acha que seria um bom motor hoje para alavancar a economia brasileira?

Luis Nassif - O Brasil tem um conjunto de fatores de modernização que surgiu nos anos 1980 e 1990 e precisam ser recuperados. Um é a questão da gestão, quem nem Fernando Henrique nem Lula levam muito a sério. Outro é a questão da inclusão social, elemento fundamental. Esse pessoal que está dizendo que o Brasil será salvo se reduzirem benefícios de Previdência, ou tirarem o Bolsa Família, são pessoas sem nenhuma visão histórica. O que falta é um partido político que encampe isso. Os partidos políticos daqui não têm bandeira, só tem slogan. É preciso ter desenvolvimento, com inclusão social, e inserir o Brasil no mundo competitivamente, com câmbio competitivo, com inovação, com tecnologia, com as reformas rurais…

IHU On-Line - Quem são os “cabeças de planilha” no governo atual?

Luis Nassif - O Palocci foi o campeão. O Banco Central inteiro também é formado por “cabeças de planilha”. O planejamento é um apêndice, mas o Banco Central é um horror! Agora melhorou um pouco, com algumas mudanças, mas é terrível: são pessoas sem visão de futuro. Mas, sem dúvida, o maior cabeça de planilha hoje é o Lula, que garante isso tudo, que calou as críticas internas, que acertou um acordo com a Anfavea para acabar com essa história de criticar o câmbio e que está levando parte do país aos cemitérios.

Notas:

(1) Luis Carlos Bresser Pereira: foi Ministro de Ciência e Tecnologia no Governo FHC, em 1999. Também foi Ministro da Administração Federal e Reforma do Estado, de 1995 a 1998, quando o país também estava sob o comando de FHC. Em 1987, foi Ministro da Fazenda, no governo de Sarney. Atualmente, é Professor titular do Departamento de Análise e Planejamento Econômico da Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, onde entrou por concurso em abril de 1959.
(2) Delfim Netto: é professor emérito da FEA-USP e ex-ministro da Fazenda, durante o governo Médici. É economista.
(3) José Serra: é, atualmente, governador de São Paulo. Durante a ditadura militar, estudou economia em Princeton, nos Estados Unidos. Foi Ministro da Saúde, durante o governo FHC. Concorreu à presidência do Brasil em 2002.
(4) Fernando Henrique Cardoso: ex-chanceler e ex-ministro da Fazenda do governo Itamar. Formado em Sociologia pela Universidade de São Paulo, foi o idealizador do Plano Real e presidente do Brasil de 1995 a 2001.
(5) Encilhamento: ocorreu durante o governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891). O Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, na tentativa de estimular a industrialização do Brasil, adotou uma política emissionista baseada em créditos livres aos investimentos industriais garantidos pelas emissões monetárias. A especulação financeira desencadeada, a inflação e os boicotes através de empresas-fantasmas e ações sem lastro desencadearam, em 1890, a Crise do Encilhamento. Os problemas trazidos pelo encilhamento foram parcialmente resolvidos no governo Campos Sales.
(6) Gustavo Franco: economista pela PUCRio. Doutor pela Universidade de Harvard, foi presidente do Banco Central do Brasil de agosto de 1997 a março de 1999.
(7) Remonetização: emissão de moeda.
(8) André Lara Rezende: um dos “pais” do Plano Real. Foi consultor do Presidente Fernando Henrique. É economista.

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Paulo Freire Vive!

Ivan Valente

“Uma das questões centrais com que temos de lidar é a promoção de posturas rebeldes em posturas revolucionárias que nos engajam no processo radical de transformação do mundo. A rebeldia é o ponto de partida indispensável, é deflagração da justa ira, mas não é suficiente. A rebeldia enquanto denúncia precisa se alongar até uma posição mais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente anunciadora. A mudança do mundo implica a dialetização entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação; no fundo, o nosso sonho”.
(Paulo Freire)

Introdução
No dia dois de maio de 2007 completará dez anos da morte do professor Paulo Reglus Neves Freire, conhecido mundialmente como um grande educador, pensador, filósofo e militante da Educação.
Inconformado com as injustiças sociais, Paulo Freire fez da educação um instrumento político de combate ao autoritarismo e de luta em favor
da democracia. Dedicou sua vida a criticar toda e qualquer forma de opressão e tirania e questionou o método de ensinar e aprender impostos pelas classes dominantes como instrumento de manutenção do status quo. Em contraposição à educação bancária, onde o saber é transmitido de cima para baixo, autoritariamente, e o conteúdo tem um valor “em si”, construiu, coletivamente, um projeto educacional libertador, partilhado, capaz de criar uma cultura de pessoas livres, conscientes e responsáveis por si e pela coletividade.
Sua trajetória de vida - contribuição teórica, reflexão sobre a prática, propostas de políticas públicas especialmente para a área educacional- fizeram com que se tornasse referência mundial para intelectuais, profissionais de diversos campos do saber, atores sociais, educadores e educadoras, comprometidos com as causas populares, com a educação pública de qualidade e com a luta por uma sociedade mais justa
e igualitária.
Suas idéias, nos anos duros da ditadura militar, o levaram ao exílio por dezesseis anos. Continuou, porém, a desenvolver seu trabalho em diversos países, reafirmando sua opção política e sua concepção de educação, democrática e popular, dialética e dialógica, mostrando a intencionalidade do ato educativo.
Paulo Freire se fez e continua presente no mundo inteiro, principalmente entre aqueles e aquelas que sempre acreditaram e continuam a crer na possibilidade de construir um mundo novo e melhor, mais belo, mais humano e fraterno.
Esta homenagem a Paulo Freire, mais do que recordar, com saudade, um dos brasileiros mais ilustres, reconhecido internacionalmente por seu trabalho e testemunho de vida, tem um sentido simbólico: o de resgatar sua luta incansável por justiça social, através de um projeto de
educação popular libertador, emancipador e transformador da realidade. Esta homenagem tem também por objetivo fazer desta oportunidade, um instrumento vivo de ação e de luta.

TRAJETÓRIA
Paulo Freire, pernambucano, nasceu em Recife, em 19 de setembro de 1921. De família humilde, teve uma infância marcada por dificuldades econômicas e desde cedo conheceu a pobreza. Foi alfabetizado em casa, por seus pais, escrevendo com gravetos, no chão de terra debaixo das mangueiras do quintal. Como gostava muito de estudar, assim que concluiu a escola secundária, tornou-se professor.
Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão. Optou por se engajar na formação de jovens e adultos trabalhadores e por atuar em projetos de alfabetização. A partir de sua prática, com uma metodologia diferente, criou uma teoria epistemológica que o tornou conhecido internacionalmente.
A partir dos anos 60, desenvolveu uma proposta revolucionária de alfabetização através da qual, para além da mera aquisição da linguagem escrita, a partir da realidade vivencial dos educandos e do diálogo permanente, busca-se a leitura e a compreensão crítica do mundo, para poder transformá-lo.
Essa nova teoria valorizava o universo cultural e vivencial dos educandos, estabelece o diálogo como método e, através dele, a construção coletiva do conhecimento, estabelecendo uma relação “dialógica” entre natureza e cultura, fazendo com que os alunos se percebam como sujeitos e, portanto, construtores de sua própria história.
Dentro dessa perspectiva, a alfabetização é um processo de educação permanente, constituindo-se em instrumento de conscientização que gera projetos de transformação da realidade. Daí, porque, insistia o Professor, o ato de educar é eminentemente político e o fazer pedagógico, necessariamente coletivo. Foram suas atividades no Movimento de Cultura Popular no Recife que inspiraram sua teoria do conhecimento, da qual seu chamado “método de alfabetização” extrapolou os limites do país.
Como conseqüência dessa atuação, foi preso (1964) e exilado. Durante o período de exílio, trabalhou no Chile, com alfabetização de camponeses, nos Estados Unidos, ministrando aulas na Universidade de Harvard, como professor convidado, e depois se fixou em Genebra, na Suíça.
Lá, foi consultor especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas, viajando e trabalhando em diferentes países, tornando-se mundialmente conhecido. Com outros companheiros de exílio, fundou o Instituto de Ação Cultural - IDAC e no início dos anos 70 trabalhou na África, especialmente nas ex-colônias portuguesas: Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe. Assessorou campanhas de alfabetização e contribuiu efetivamente para sistematização de programas e projetos educacionais naqueles países.
Em 1980, com a anistia, voltou ao Brasil. Por considerar ofensivas as regras impostas, recusou-se a pedir a reintegração a seu cargo na Universidade Federal de Pernambuco. Passou então a trabalhar como professor na PUC/São Paulo e, em seguida, tornou-se professor da Universidade de Campinas - Unicamp, onde lecionou até o final de 1990.
Em 1989, foi convidado pela Prefeita Luiza Erundina para ser Secretário de Educação do Município de São Paulo. Sua Gestão caracterizou-se por ampla discussão sobre condições de ensino e de trabalho, onde o método “ação - reflexão - ação”, enquanto um processo prático e exigente de Gestão Democrática ia se consolidando; investiu não só na formação permanente dos educadores, mas melhorou as condições de trabalho com uma nova jornada; aprovou o primeiro Estatuto do Magistério da rede municipal de São Paulo; promoveu a revisão curricular via projetos de interdisciplinaridade e uma nova organização do ensino por meio de ciclos.
Fez da Gestão Democrática, nas suas diversas dimensões, uma diretriz política. Com democracia, participação colegiada e construção coletiva tornou-se um marco para a educação na rede municipal.
Com investimento na infra-estrutura, na formação dos profissionais, na democratização do acesso e permanência dos alunos e na gestão escolar conseguiu “mudar a cara da escola” e mostrou que é possível fazer da escola pública um lugar privilegiado de construção de conhecimento, de desenvolvimento de projetos e de inserção social. Reconhecido até pelos adversários, desenvolveu o melhor projeto de formação de professores da cidade de São Paulo.
Depois de deixar a Secretaria de Educação do Município de São Paulo, em 1991, retomou suas atividades acadêmicas publicando diversos livros e fomentando, de forma permanente, a discussão educacional.
O Brasil deve a Paulo Freire a inclusão na categoria de lutadores sociais de milhões de brasileiros e brasileiras que compreenderam o que é ser sujeito de sua própria história. Permitiu a um número expressivo de pessoas que pertenciam aos “de baixo” enxergarem–se como agentes transformadores na busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Deu-lhes a chance de escolher seu próprio caminho, em vez de ficarem sempre presos às alternativas impostas pelas elites para perpetuar sua dominação de classe e a brutal exclusão social que sofrem os trabalhadores no Brasil, e em toda periferia capitalista.
Não é à toa que os interessados em manter seus privilégios e a alienação do homem e da sociedade brasileira viram logo no seu “método” um perigo iminente à manutenção do status quo, uma ameaça sem precedentes a seus valores e instrumentos de dominação, uma verdadeira “subversão da ordem”, pois se tratava não só de alfabetizar com rapidez e eficácia, mas, estimular o processo de conscientização. O medo das elites se agravava quanto mais crescia a aceitação de sua metodologia. Freire se refere a este fenômeno afirmando que “se não tivesse sido interrompido pelo golpe de 64, naquele ano, deveria estar em funcionamento vinte mil círculos da cultura em todo país”.
Paulo Freire como intelectual orgânico e, mais do que isso, como um militante político, ao colocar seus conhecimentos em prática, valorizando o homem do povo, aprendendo com a vida, formando educadores engajados e respeitadores da experiência e da sabedoria popular, transformava valores, atacava a meritocracia, o autoritarismo e a hierarquização nas relações. Subvertia a ordem do poder dominante, da lógica do lucro, dos ricos, valorizando o homem e a natureza.
Nesta passagem do seu livro “Educação como prática da liberdade” encontramos uma pequena síntese de porque o pensamento de Paulo Freire amedrontava aqueles que têm pavor do “despertar” das massas: “Como explicar que um homem, analfabeto até poucos dias, escreva palavras com fonemas complexos antes mesmo de estudá-los. É que, tendo dominado o mecanismo das combinações fonêmicas, tentou e conseguiu expressar-se graficamente como fala.
A afirmação que nos parece fundamental de ser enfatizada é a de que, na alfabetização de adultos, para que não seja puramente mecânica e memorizada, o que se há de fazer é proporcionar-lhes que se conscientizem para que se alfabetizem.
Daí à medida que um método ativo ajuda o homem a se conscientizar em torno de sua problemática, em torno de sua condição de pessoa, por isso de sujeito, se instrumentalizará para suas opções.
Aí então, ele mesmo se politizará. Quando um ex-analfabeto de Angicos, discutindo diante do presidente Goulart e sua comitiva, declarou que já não era massa, mas povo, disse mais do que uma frase: afirmou-se conscientemente uma opção. Escolheu a participação decisória, que só o povo tem, e renunciou a demissão emocional das massas. Politizou-se.”
Uma característica do pensar e do agir, da maneira de se relacionar e aprender em Paulo Freire, diz respeito à forma como ele vê o outro. O aprender a ouvir, a valorização dos saberes que vêm da experiência e da cultura popular, a abertura para o diálogo com os diferentes e com os adversários para melhor apreender os antagonismos, são características essenciais do projeto educativo de Paulo Freire. O combate ao autoritarismo nas relações humanas e sociais e a corajosa crítica que faz ao sectarismo muito presente na vida e na política, com suas “certezas sectárias excludentes de possibilidades de outras certezas, negadoras de dúvidas” e o seu apelo à tolerância são outras marcas que vão dar consistência às ações de quem acredita no caráter coletivo do
projeto educativo.
Diz, Paulo Freire em “Extensão ou Comunicação?” que: “ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não é dizer-se descomprometidamente dialógico; é vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação cons-tante da realidade”. Freire trabalha de forma excepcional o caráter social da aprendizagem. Combate com rigor a idéia do professor como transferidor de conhecimento, trata a educação como um ato político e ressalta a “diferença entre o falar com alguém e o falar para alguém”.
É na contestação à lógica de que a palavra deve estar com quem sabe; é combatendo a ideologia de que o educando nada sabe; é duelando com a lógica expandida de que o centro sabe e fala e a periferia do país escuta, que Paulo Freire demonstra o potencial humano e a capacidade do povo se assenhorar do conhecimento e fazê-lo instrumento da construção de um novo sonho e de uma nova vida transformada.
Nos diálogos que reproduzimos abaixo, retirados de experiências de Paulo Freire com trabalhadores rurais, é cristalina essa matriz de pensamento:
“- Muito bem - disse eu a eles. - Eu sei. Vocês não sabem. Mas o que eu sei e vocês não sabem?
- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.
- Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas, porque eu sou doutor e vocês não?
- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo e nós, não.
- Por que fui à escola?
- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.
- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?
- Porque eram camponeses como nós.
- E o que é ser camponês?
- É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem ter direitos, esperança de um dia melhor.
- E por que ao camponês falta tudo isso?
- Porque Deus quer.
E quem é Deus?
É o Pai de todos nós.
- E quem é pai aqui nesta reunião?
Quase todos de mãos para cima, disseram que o eram.
Olhando o grupo todo em silêncio, me fixei num deles e lhe perguntei:- Quantos filhos você tem?
- Três.
- Você seria capaz de sacrificar dois deles submetendo-os a sofrimentos para que o terceiro estudasse, com vida boa no Recife? Você seria capaz de amar assim?
- Não.
- Se você – disse eu - , homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça desta, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente, completamente diferente do anterior, um silêncio no qual algo começava a ser pratejado. Em seguida:
Não. Não é Deus o fazedor disso tudo. É o patrão.”
Nesse trecho fica claro que o educador sabe que no meio do senso comum, convivem elementos de bom senso na experiência popular. Por outro lado, o diálogo, o aprendizado e o respeito ao saber popular, não podem levar o educador a uma visão complacente que não contribua para inflamar o debate e o despertar para descobertas fantásticas.
Outra faceta revolucionária dos seus ensinamentos aparece na constatação prática de que a participação crítica dos educandos e a liberdade com que o fazem é que confere efetividade ao aprendizado e ao projeto educacional.
O aprender com o outro, no diálogo com seus semelhantes, ensina Paulo Freire: “ninguém educa a ninguém, ninguém tampouco se educa sozinho, os homens e as mulheres se educam entre si, mediatizados
pelo mundo.”
Paulo Freire mostrou de diferentes ângulos, unindo a dimensão ética e estética das relações humanas, que, atrás do ato de ensinar e aprender há uma clara opção política e que a educação nunca é neutra, toma partido, principalmente em um mundo fortemente marcado pela opressão e desigualdade social.
Sua práxis mantém-se atual e tem servido para fundamentar trabalhos acadêmicos, inspirado práticas em várias áreas do saber e, além disso, estimulado a participação popular e a organização dos movimentos sociais em diversas partes do mundo.
Sua contribuição acadêmica e intelectual, com inúmeros livros publicados e traduzidos para vários idiomas, foi orientada para a emancipação da pessoa humana, para a liberdade e justiça social, para a democracia autêntica

Fontes de Consulta:
FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história de vida. Indaiatuba,SP: Villa das Letras, 2006.
SOUZA, Ana Inês. Paulo Freire – Vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
_____________ Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____________ Pedagogia da esperança: um encontro com a pedagogia do oprimido. 11ª. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____________ Educação na cidade. 5ª. Ed. São Paulo: Cortez, 1995.
_____________ Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
como soberania popular e para a paz entre os cidadãos, num clima de humanização e de conscientização.
Diante da importância de seu pensamento, do compromisso político-pedagógico e de sua trajetória de vida, prestamos esta necessária homenagem por ocasião dos dez anos da morte desse grande brasileiro e educador do mundo: Paulo Freire, reconhecendo que seu trabalho dignificou a Educação e o Brasil.

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