Arquivo de 5 de Agosto de 2008

Em Macau, o boom econômico gerado pelos cassinos põe em risco o equilíbrio social

Philippe Pons

Os labirintos de corredores escuros no andar térreo de edifícios decrépitos e superlotados exalam tristeza. Blocos de concreto se sucedem com suas miríades de janelas com roupa para secar. Em pequenas oficinas, consertam-se motos e equipamentos elétricos, martelam-se folhas de lata. O ambiente não muda há 30 anos em alguns bairros no norte de Macau, na proximidade da fronteira com a China. Já era uma outra Macau, longe das mansões em estilo colonial de cores pastel, velhas igrejas e essa mistura de preguiça cantonesa e latina das ruas do centro que faziam o encanto da pequena cidade na época dos portugueses: lá viviam os mais pobres, entre os quais os refugiados da China maoísta, que em suas oficinas costuravam jeans ou fabricavam rojões. Ainda hoje estão longe do mundo artificial e cintilante da Macau dos cassinos.

Apesar de um crescimento econômico exponencial (27% em 2007) que fez da cidade a capital mundial do jogo, com receitas (US$ 10 bilhões) superiores às de Las Vegas, a vida de muitos habitantes da antiga colônia portuguesa, que em 1999 se tornou região de administração especial, se degradou.

“Ao contrário do que diz o governo, o desenvolvimento dos cassinos não beneficia a população”, afirma José Pereira Coutinho, membro da Assembléia Legislativa. “Dos 513 mil habitantes, 30 mil vivem abaixo do nível de pobreza e 37 pessoas idosas morreram de frio em fevereiro devido ao inverno glacial”.

A riqueza que se expande nesse território beneficia uma pequena classe média emergente, mas põe em risco o equilíbrio social. Sob a pressão das autoridades de Pequim, preocupadas em evitar uma desestabilização do enclave, Macau decidiu em 22 de abril congelar a concessão de licenças de jogo e autorizações para construir novos estabelecimentos.

O índice de desemprego é baixo (2,9%), mas a imigração clandestina “tira o trabalho dos nativos e faz cair os salários”, diz Ho Heng-kuok, presidente de um pequeno sindicato independente. “De uma população ativa de 320 mil pessoas, há 80 mil chineses ou nativos de Hong Kong empregados legalmente ou não em Macau. Como eles não têm nenhum direito, os empregadores os preferem aos nativos”. Um código de trabalho que está sendo elaborado demora para entrar em vigor.

A manifestação de 1º de maio de 2007, durante a qual um policial atirou para o ar e feriu um passante, foi o primeiro movimento de importância que denunciou “uma prosperidade construída sobre o empobrecimento dos operários”, continua Ho.

O boom dos cassinos teve efeitos mais insidiosos. Os impostos sobre o jogo permitiram o ensino gratuito até o fim do secundário. Mas “a lei do ‘enriqueça’ que prevalece dissuadiu os jovens de continuar os estudos”, comenta Pedro Chung, vigário geral de Macau.

A atração do salário oferecido pelos cassinos, três vezes superior ao de um operário, desviou da universidade muitos estudantes. Formado em um mês, o jovem crupiê será demitido à menor contração do mercado e sairá como chegou, sem qualificação. A idade de contratação nos cassinos deverá passar de 18 para 21 anos.

Dizia-se que Macau vivia do jogo, mas que seus habitantes estavam imunizados. Não é mais verdade - se é que essa lenda um dia refletiu alguma verdade. “No tempo do monopólio do jogo, que terminou em 2002, era proibido que os empregados dos cassinos jogassem. Hoje, com a multiplicação dos operadores, eles podem ir no concorrente. No ambiente deletério, a tentação é mais forte”, explica a senhora Leung Ming Yan, do Centro Evangélico de Macau, que vem ajudar os jogadores desesperados. São vítimas dos “tubarões do empréstimo” que chantageiam suas famílias; alguns desaparecem ou se suicidam. “O jogo aqui é uma questão de comportamento individual, e não de responsabilidade coletiva”, ela continua.

Embora injusto e preocupante por seus efeitos desestabilizadores, o crescimento não “empurra” Macau para cima. O ambiente febril causa orgulho entre os macauenses, que durante muito tempo tiveram um sentimento de inferioridade em relação à próspera e respeitável Hong Kong. Seus filhos que foram para o estrangeiro estão voltando e jovens portugueses desembarcam. A expansão recolocou Macau no mapa do mundo com um rótulo diferente do de “cassino” a que seu nome esteve ligado desde meados do século 19.

Assim, depois de perder seu estatuto de balcão privilegiado do comércio com a Europa em benefício de Hong Kong sob o jugo britânico, o enclave encontrou um “nicho” no jogo, que acabava de ser proibido em Cantão. Depois ele viveu ora bem, ora mal. Sua sociedade cochilava, enquanto nos cassinos fortunas se faziam e desfaziam. Hoje Macau deve ao jogo uma expansão atordoante que a convida a se reinventar - sob o risco de sofrer explosões de descontentamento.

“Le Monde”

Comentários

Uma nação dividida pela raiva

É hora de uma mudança no comando, diz a pensadora Camille Paglia. Sua geração, dos anos 60, cindiu o país e agora deve deixar o palco

Pedro Doria

Camille Paglia é uma senhorinha de baixa estatura que parece ter sempre um sorriso estampado no rosto. Ao falar, gesticula ininterruptamente, acusando a ascendência italiana. É feminista - mas isso não quer dizer que a maioria das feministas concorde com ela. Camille é do contra.

Professora da Universidade das Artes, na Pensilvânia, é a 20ª intelectual mais influente do mundo, sugerem as revistas Foreign Policy (EUA) e Prospect (Inglaterra). A influência vem de Personas Sexuais (Companhia das Letras), lançado em 1990, livro em que diz que homem e mulher não têm nada de iguais. Camille é uma mulher fora dos padrões, que gosta de pornografia, atéia que defende religião e considera Hillary Clinton “fraca de caráter e incapaz de decisões inteligentes”.

Pois sim: simpática, sorridente - quase delicada, mas que não perdeu a verve que a tornou conhecida. “As mulheres brancas que votam em Hillary demonstram seu ressentimento para com os homens.” Ou “John McCain trai suas convicções com facilidade se considerar que sairá bem na imprensa.” Não só na política: “Instinto Selvagem é o último filme que valeu a pena assistir de novo”. E, a quem estiver interessado, recomenda cuidado ao beijar Madonna. “Ela é uma vampira.” Camille Paglia esteve no Brasil durante a semana, quando falou em Salvador no evento Fronteiras do Pensamento e concedeu esta entrevista exclusiva ao Aliás.

Por que a senhora apóia a candidatura de Barack Obama à presidência dos EUA?

Ele me impressionou muito pela maneira como se mostra decidido a resolver a divisão profunda que há entre os Partidos Republicano e Democrata. Essa divisão, que venho criticando há alguns anos, paralisou Washington. É desse espírito que vem aquilo que George W. Bush disse pouco antes da Guerra do Iraque, “você está conosco ou contra nós”. A política americana anda maniqueísta e a cisão entre esquerda e direita chegou a um ponto em que ninguém se entende mais. Obama vem mostrando ter um instinto natural de busca pelo meio-termo. É por isso que, apesar da dificuldade durante a campanha das primárias, jamais usou nenhum dos escândalos passados contra Hillary Clinton. Ele tem sido extremamente elegante, até cavalheiresco, o que faz do argumento da campanha de Hillary de que há machismo na eleição ainda mais absurdo. Obama talvez seja por demais idealista em achar que conseguirá conduzir uma campanha limpa até o fim. Mas, por enquanto, ele está mobilizando o idealismo dos mais novos. Se Obama consegue inspirá-los, é mais um argumento. Assisti a um discurso dele durante as primárias da Pensilvânia, em abril. A primeira coisa que salta aos olhos quando o vemos ao vivo é que ele está pensando com profundidade a respeito das coisas que diz.

Qual é a natureza dessa divisão política?

O debate político não tem mais nenhuma profundidade e segue embalado por uma mentalidade raivosa de nós contra eles. Como o nosso é um sistema bipartidário, já há uma tendência à polarização. Mas essa divisão foi reforçada, no início dos anos 90, pela ascensão da TV a cabo, com seus canais de noticiário contínuo. Nos programas de debates, os convidados são pré-selecionados para apresentar os argumentos da direita e da esquerda. Filtrados pelo pouco tempo de fala, fica a impressão de que aquelas mesmas idéias manifestadas daquela mesma forma representam toda a miríade de opiniões possíveis a respeito de assuntos complexos. Há raiva no ar. Aqueles que começam a se aposentar, no Senado, costumam dizer que houve o tempo em que havia mais colegialidade, maior disposição de chegar a um acordo com a oposição. Era possível governar buscando algum tipo de consenso. Se considerarmos o poder dos Estados Unidos no mundo, é muito grave o fato de que nada é decidido em Washington porque os políticos estão paralisados por uma rixa adolescente e tediosa que constantemente transforma em estereótipo o ponto de vista oposto. Isso é algo que sinto pessoalmente. Muitos me odeiam porque, às vezes, não repito o ponto de vista politicamente correto da esquerda. Consideram que estou traindo uma causa. Mas, por outro lado, muitos me lêem porque também estão cansados dessa constante guerra ideológica. Precisamos compreender que é possível ter respeito pelas idéias daqueles com quem discordamos. Quando Obama, que é um homem de esquerda, disse que o ex-presidente Ronald Reagan trouxe idéias interessantes e exerceu uma boa influência sobre o país, a extrema esquerda do Partido Democrata enlouqueceu. “O quê? Como você ousa elogiar Ronald Reagan?” Mas é exatamente esse o tipo de posição de respeito ao outro lado que precisamos ter se quisermos unir o país.

Por que o nome de Reagan vem sendo tão lembrado durante essa campanha eleitoral?

Reagan representa a lembrança que os republicanos têm de melhores dias. O partido que Bush destruiu, com todo seu ideário do Estado mínimo, é justamente aquele que Reagan construiu. Muitos conservadores têm se perguntado o que Reagan teria feito. Possivelmente, o que aconteceu é que simplesmente não há mais espaço para aquele tipo de política. Os ideais daquela época eram uma resposta ao governo patriarcal que Lyndon Johnson implantou na década de 60. Reagan também falava de valores americanos num período imediatamente posterior à humilhação sofrida pelos EUA no Irã, quando xiitas invadiram a embaixada americana e mantiveram reféns por mais de um ano sem que o governo conseguisse resolver o problema. Ele tinha uma elegância ao falar, essa habilidade de tratar de patriotismo. Acreditava no que estava falando. Hoje, é lembrado como o messias ou como satã. Muitos democratas têm horror a ele. Consideram que tinha um coração de pedra, que cortou o dinheiro de programas governamentais importantes. Vêem sua mulher como uma Maria Antonieta, sempre dedicada a gastos supérfluos e jantares na Casa Branca.

Hillary Clinton é justamente uma das que costuma atacar o legado de Reagan. Como a senhora avalia sua campanha?

Ela é da velha-guarda, do tipo somos nós contra eles. Quando veio à tona a história da estagiária Monica Lewinsky, ela adotou imediatamente a posição de que havia uma vasta conspiração de direita contra ela e seu marido. Quer dar o troco. Para ela, governar é uma operação de guerra. A idéia de que Hillary pode ser eleita presidente é absurda. Há uma lista de episódios que os republicanos estão apenas esperando para lembrar e que demonstram suas fraquezas de caráter, sua incapacidade de tomar decisões inteligentes. É o caso de quando gerenciou a reforma do sistema de saúde no governo de seu marido. Os republicanos estavam dispostos a ampliar a participação do Estado, concordavam com um acordo. Hillary gerenciou tão mal a situação que saiu sem nada. Respeito muito o fato de que Obama desde cedo se manifestou contra a Guerra do Iraque, enquanto pessoas como Hillary, de olho nas pesquisas de opinião, a apoiaram. Ela argumenta dizendo que se soubesse na época o que sabe hoje, teria votado contra. É absurdo. Ted Kennedy também estava no Senado e votou contra. Outros votaram contra. O que ela fez foi tomar uma decisão maquiavélica, pois queria ser candidata à presidência um dia e, aparentemente, a população queria a guerra.

Muitas de suas companheiras feministas vêem a candidatura de Hillary como uma questão pessoal.

É verdade. Após mais de dez anos de obscuridade, feministas como Gloria Steinem voltaram a falar alto. Elas estavam em silêncio desde que o movimento do qual faço parte as derrotou. Quando apareci, no início dos anos 90, houve uma grande guerra de idéias e nós feministas pró-sexo vencemos. As mulheres mais jovens se identificavam com o que estávamos falando. Gloria Steinem e suas discípulas retrocederam para suas cavernas, ou seja lá onde se meteram, e agora, com o fracasso iminente da candidatura Hillary, lá estão elas gritando novamente: “Machismo! Agora podemos finalmente provar que são todos machistas!” É ridículo. Seguindo Gloria Steinem, logo veio Susan Faludi escrevendo um longo artigo no New York Times. Então agora temos de volta a guerra das feministas. Mas a verdade sobre essa eleição é a seguinte: o machismo entre eleitores é pequeno quando comparado ao racismo. Muitas mulheres da classe média branca, isto sim, vêem Hillary como sua campeã numa luta que nasce de seu ressentimento contra os homens. Elas querem culpar os homens. Veja, o único argumento que têm e repetem é um único incidente, no início da campanha, quando apareceram dois sujeitos com um cartaz escrito “passe minha camisa” num comício de Hillary. Os mais jovens, nos EUA, nem sabem mais o que é isso, passar a camisa. Os tecidos modernos não precisam mais ser passados. Executivos mandam suas camisas para lavanderias. Essa questão das mulheres com os trabalhos domésticos era uma batalha dos anos 50 e 60. Nos EUA, já é passado. Aposto que o incidente foi criado pela própria equipe de Hillary. Dizer que o patriarcado está por trás do fracasso de sua campanha é uma mentira. Mentira. Muitos eleitores estão na verdade votando em Bill Clinton. Será que chegamos ao ponto em que a primeira mulher a ser eleita presidente chegou lá por causa do marido? Isso não é feminismo de verdade.

E quanto a John McCain, o candidato republicano? Ele também demonstra esses traços conciliatórios que a senhora vê em Obama?

McCain é um ególatra. Ele joga de forma a conquistar os jornalistas da grande imprensa. Conhece seus nomes, trata todos sempre muito bem, convida todos para churrascos, é seu camarada. Essa maneira como ele puxa o saco da grande imprensa me enoja. Ele é um homem que estoura muito fácil, é impaciente e não é um homem que tenha grandes conhecimentos. Não entende de economia, por exemplo. E o Partido Republicano está em escombros. O governo Bush esteve no lado oposto de quase todos os princípios conservadores. Ao invés de limitar os gastos públicos, gastou muito. Apresentou uma política de imigração que não estava afinada com nenhum dos dois partidos. O atual presidente não pensa de forma coerente e é movido por uma certa fé em seus instintos. Ele conhece alguém e acredita que é capaz de entender aquela pessoa até as entranhas. O resultado é uma guerra que custará na casa dos trilhões de dólares, contas públicas em frangalhos e as Forças Armadas sobrecarregadas. Como não sobrou ninguém que pudesse representar aquele Partido Republicano de Reagan, McCain ascendeu. Mas muitos republicanos consideram que ele não é um homem de princípios. Ele trai suas convicções com facilidade se considerar que sairá bem na imprensa. Alguns dizem que McCain vai traçar Obama nos debates. Não acho. Quando as pessoas virem os dois juntos, o fato de que ele é um homem velho vai ser ressaltado. Ele não tem mais o vigor que tinha. E lá estará o jovem Obama, que é um homem muito elegante e gracioso nos gestos, ao seu lado. O contraste será grande.

Há quem diga que Hillary e McCain representem a continuação do conflito cultural nascido nos anos 60 e que Obama iria além disto. A senhora concorda com essa leitura?

Concordo inteiramente. É uma das razões que me levam a apoiar Obama. É preciso mudar a guarda. Nossa geração já fez o que pôde: algumas besteiras e também coisas boas. Agora é hora de descermos do palco. Mas é importante lembrar que os anos 60 não foram só política. Havia filmes de arte. Uma busca por transcendência espiritual. Meu ídolo, Andy Warhol, estava em seu ápice. Essa turma que está com Hillary Clinton não foi tocada por nada disso.

A senhora sente saudades dos anos 60?

Não, de maneira alguma. Graças a Deus não sou mais jovem. Mas foi um tempo fascinante para ser jovem. O número de grandes álbuns de rock que estavam saindo era enorme, o interesse por religiões orientais estava no ar, a moda que vinha de Londres era fascinante, os melhores trabalhos de dança moderna estavam sendo apresentados. Havia uma revolução cultural acontecendo e, de repente, parou. Acho que as drogas foram um pouco responsáveis por isso. Elas contribuíram para a expansão da imaginação das pessoas, mas também foram muito destrutivas física e psicologicamente. Torraram alguns cérebros. Tenho sorte de não ter usado drogas, elas nunca me atraíram. Fui criada numa cultura de vinho, então sempre bebi, mas jamais experimentei LSD. John Lennon dizia, e ele tomou muito ácido, que jamais precisou de LSD para nada. Que já via o mundo daquela forma antes de experimentar a droga. Entendo perfeitamente o que ele quis dizer. Chamo meu trabalho de crítica psicodélica. Gosto do cinema psicodélico, de música psicodélica e muitos de meus amigos tomaram ácido em quantidade. Costumam dizer que acharam muito importante porque a experimentação mudou sua percepção do mundo. Mas, aí, olho para suas carreiras acadêmicas e eles não produziram nada. É como se tivessem perdido a capacidade criativa com o passar do tempo. Minha geração só conseguiu realizar uma fração daquilo que achava que realizaria. Produzimos pouquíssimos grandes livros. Quando meu Personas Sexuais saiu, foi recebido pela crítica como um livro muito estranho, muito diferente. Estranharam porque os outros livros não vieram. Deveria haver muitos outros livros por muitas outras pessoas como eu, excêntricas, releituras estranhas da história e da cultura. Houve um esgotamento criativo e o excesso de consumo de algumas drogas tem a ver com isso. A juventude, agora, está partindo para as pílulas, de ecstasy a remédios controlados como o Frontal. Essas são ainda piores do que as psicodélicas. As drogas psicodélicas ao menos deixavam você mais excêntrico, estas só anestesiam.

Quanto os EUA mudaram desde aquela época?

O governo do presidente Eisenhower foi soporífero. Era uma Casa Branca tediosa, a primeira dama era uma mulher de todo convencional. Uma Casa Branca onde nada acontecia. Quando John e Jacqueline Kennedy chegaram lá, as coisas se iluminaram. Ele nos inspirou de uma forma que talvez Obama o faça. Mas éramos mais bem educados, e isso faz muita diferença. Os jovens de hoje são contra a guerra do Iraque como éramos contra o Vietnã, mas eles não a entendem. Mal sabem onde ficam Iraque, Irã, Arábia Saudita, Síria. É um problema que começa no nível mais básico de educação: o mapa do mundo não é mais ensinado. Esse desconhecimento atual é fatal. Se você é criado na Europa, está sempre encontrando fronteiras, outras línguas, a cultura muda radicalmente de um lugar para o outro. Nos EUA, não é assim. A não ser que sua família viaje para fora do país, você não tem sequer noção de quão diverso é o mundo. Mas as pessoas só saem de férias para a Disney World, para o Grand Canyon, para o Álamo. Essa é a maior mudança. Na década de 50, eu vivia com meus pais no Estado de Nova York e costumávamos viajar para a Flórida de carro. Ainda não havia as grandes estradas interestaduais nem as grandes cadeias de lanchonetes e lojas de departamentos. O tipo de comida em cada restaurante que parávamos mudava. A gente sentia a diferença. Ao pessoal do sul, parecíamos tão estranhos que havia hostilidade para carros com placa de Nova York. Hoje, o país é homogêneo. Vivemos uma cultura de isolamento cultural.

A internet não apresenta um mundo novo?

Um pouco. Os jovens não estão assistindo à televisão e há uma miríade de pontos de vista diferentes na web. Mas a desvantagem da web e dos blogs é que tudo vem muito fragmentado, são só pedaços pequenos de informação. A antiga habilidade do argumento elegante de editorialistas e colunistas é uma arte em extinção, e lamento isso. As pessoas que sabiam construir um argumento e colocá-lo num texto conciso e bem estruturado estão envelhecendo. Hoje, estamos cercados por mídia. A geração atual está em constante contato entre si, mas eles não têm um espírito de rebeldia, de vontade de mudança, que minha geração teve. É claro que éramos ingênuos e talvez até arrogantes ao exigir do mundo que mudasse. Mas os jovens, hoje, não têm essa ousadia. Não encontro a moça com 20 e poucos que tenha esse projeto de escrever um longo livro que será a grande obra definidora de algum assunto. Os jovens querem publicidade, querem aparecer. Mas a verdade é que basta um artigo publicado em uma revista de grande circulação que já é suficiente para render um contrato lucrativo com uma editora. O livro baseado no artigo é escrito em oito meses e o que temos são livros superficiais saindo um após o outro. Jamais esqueço que não podemos julgar o futuro pelos paradigmas do passado. Estamos vivendo um momento de grande mudança na comunicação e, com toda grande mudança tecnológica do tipo, há ganhos e perdas. Estou chegando a uma idade em que começo a me sentir velha e talvez esteja olhando para os jovens como a geração de meus pais olhou para as pessoas com minha idade. Mas, veja, os filmes já não são como foram. E meus alunos não têm o interesse de ir ao cinema como eu tinha. Tivemos a sorte de viver um tempo em que o cinema europeu era exuberante. Nos habituamos a ir ao cinema ver aquelas obras tão profundas. Era um preto e branco de alto contraste, uma fotografia de imensa qualidade, a edição, a música. Entrei na faculdade em 1964 e foi lá que assisti a La Dolce Vita, que havia sido feito apenas cinco anos antes. Achávamos que o cinema seria assim para sempre. Mal resistiu aos anos 70, quando entrou num lento declínio. Do meu ponto de vista, Instinto Selvagem foi o último filme interessante jamais feito. Nada desde então merece ser revisto.

E o que anda bom nas artes?

As artes estão em crise, principalmente as visuais. A atual geração simplesmente não se relaciona com elas como acontecia. É assim com o cinema, com as artes plásticas, teatro ou dança. Os mais jovens buscam se expressar pelos meios digitais. Me sinto à vontade com isso, escrevo para uma revista eletrônica, a Salon.com, desde que ela nasceu. Em 1995, houve gente que dissesse que a web não servia para nada, que meus talentos estavam sendo desperdiçados lá. Jamais achei isso. A web é uma revolução. Mas ainda não há boa arte, lá. O que há são coisas interessantes. No exato momento em que a campanha de Hillary começou a descarrilar, uma moça publicou no YouTube um vídeo satírico em que representa Hillary como Norma Desmond, do filme Crepúsculo dos Deuses. É brilhante e foi muito barato. O preço faz diferença. Antigamente, em Nova York, um grupo amador podia montar uma peça com quase nada em um teatro fora da Broadway. Hoje não dá mais para fazer nada sem muito dinheiro. Teatro, cinema, dança. Na web é possível. Onde veremos outro Crepúsculo dos Deuses? Não existe mais. Na história é assim. Gêneros passam por períodos de grandes obras e aí entram em declínio. No fim, os jovens não recebem boa educação, consomem lixo da indústria cultural e nem sequer percebem que é lixo.

E cultura pop? A senhora costumava elogiar Madonna.

Uns anos atrás, num prêmio da MTV, Madonna deu um beijo na boca de Britney Spears. Era para simbolizar que estava reconhecendo sua herdeira. Britney estava linda naquele dia, parecia uma noiva, toda vestida de branco e Madonna, de preto. Daquele momento em diante, Britney se meteu num buraco negro. É um desastre após o outro. Enquanto isso, Madonna parece mais jovem e bonita a cada dia que passa. O que posso dizer é: tome cuidado se Madonna quiser beijá-lo. É uma vampira.

“Estadão”

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Embargo impede Cuba de procurar petróleo perto da costa dos EUA

Mauricio Claver-Carone*

O debate de energia nos Estados Unidos introduz mais um argumento poderoso em apoio à política americana em relação Cuba: proteção ambiental.

Há anos os irmãos Castro vêm cortejando empresas de petróleo estrangeiras. Nenhuma foi tão assiduamente cortejada recentemente do que a Sinopec, da China. Por que a Sinopec?

A resposta é simples: se os chineses começassem a perfurar no golfo do México, na costa de Cuba -tão perto da costa da Flórida- isso enviaria um “alerta vermelho” pelos corredores do Congresso americano, criando uma nova coalizão, de outra forma improvável, em favor da suspensão unilateral do atual embargo. Defensores da suspensão das sanções comerciais contra Cuba iriam se unir a conservadores republicanos que, apesar de apoiarem o embargo comercial, defendem fortemente que empresas americanas tenham permissão para perfurar em águas profundas. Além disso, ambientalistas liberais preferem que empresas americanas estritamente reguladas façam as perfurações do que empresas chinesas que não seguem regulamentos. Em Cuba, isso parece uma estratégia vencedora para mudar a política americana.

Em 2006, o novo escritório da Reuters em Cuba já informava: “Havana está ansiosa para ver empresas americanas unindo forças com o lobby contra o embargo liderado pelos produtores americanos que vêm vendendo comida para Cuba há anos.”

Nas últimas semanas, essa estratégia tomou o centro das atenções em Washington, com líderes de opinião pública e políticos abertamente discutindo a ironia de “chineses perfurando a 100 quilômetros da costa da Flórida”, enquanto a lei americana impede que as empresas americanas façam o mesmo ao longo do continente.

Essa premissa, entretanto, simplesmente não é verdadeira. As empresas chinesas não estão perfurando nas águas profundas de Cuba. Tampouco os chineses têm acordos com a empresa estatal de petróleo de Cuba, Cupet, para isso. De fato, a última prospecção de petróleo na costa de Cuba ocorreu em 2004 e foi liderada por um consórcio espanhol-argentino, Repsol YPF. O consórcio encontrou petróleo, mas não em quantidade comercialmente viável. A inatividade desde então sugere que a Repsol YPF não está disposta em continuar com os investimentos exigidos pela Cupet de Castro.

Por quase uma década, o regime de Castro vem buscando contratos de exploração de águas profundas. Ele tentou a StatoilHydro norueguesa, a Oil & Gas Corporation indiana, a Petronas da Malásia e a Sherritt International, do Canadá. Ainda assim não há atividade atualmente nas costas de Cuba. O governo cubano anunciou planos de perfuração, que foram seguidos de adiamentos em 2006, 2007 e neste ano.

Claramente, as empresas de petróleo estrangeiras antecipam mudanças políticas em Cuba e estão tentando se posicionar de acordo. Está igualmente claro que encontram obstáculos legais e logísticos que impedem a exploração e o desenvolvimento do petróleo e do gás. Entre os impedimentos estão as dificuldades de como transformar qualquer descoberta em produto. Cuba tem uma capacidade de refinamento muito limitada, e o embargo americano impede o envio de petróleo cru cubano para refinarias americanas. Tampouco é financeira ou logisticamente viável para os sócios do atual regime cubano fazer a exploração em águas profundas sem acesso à tecnologia americana, a qual o embargo proíbe de transferir a Cuba. As proibições existem por boa razão. Fidel Castro expropriou bens de empresas americanas de petróleo depois de assumir o controle de Cuba sem nunca fornecer compensação.

Igualmente importante, as empresas estrangeiras que estão tentando fazer negócios com Cuba ainda enfrentam muitos gastos e riscos políticos. Se o regime cubano decidir novamente expropriar os bens dessas empresas, não haverá recurso legal em Cuba.

Francamente, é assustador, como alguns parecem acreditar, que a sociedade de empresas americanas com uma ditadura anti-americana para explorar e desenvolver campos de petróleo de alguma forma reduziria os custos do combustível para os consumidores americanos e contribuiria para a independência energética dos EUA. Basta olhar para a reação dos mercados de petróleo internacional quando Hugo Chávez da Venezuela estatizou os bens da ConocoPhillips e da Chevron.

Que mensagem os EUA estariam enviando aos regimes tirânicos e ricos em petróleo em torno do mundo sobre as conseqüências da expropriação se agora fôssemos suspender o embargo que foi imposto a Fidel Castro depois de ter expropriado os bens da Esso, Shell e Texaco?

Por muitos anos, o embargo americano serviu para proteger os interesses de segurança nacional dos EUA; hoje também está servindo para impedir o regime de Cuba de perfurar perto da costa americana. Isso é bom para o meio ambiente.

*Mauricio Claver-Carone é diretor do US-Cuba Democracy PAC em Washington e foi advogado do tesouro americano

“International Herald Tribune”

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Europa ouve Barack Obama com atenção

Steven Erlanger

Para o senador Barack Obama, que só foi à Europa uma vez nos últimos quatro anos, ao fazer uma escala em Londres quando estava a caminho da Rússia, a resposta de muitos europeus à sua potencial presidência foi gratificante - emotiva, positiva, repleta daquela sensação de esperança que ele procura criar em relação a um Estados Unidos mais flexível e menos ideológico.

Já os governos e os políticos da Europa não estão tão certos quanto a isso.

Na noite da quinta-feira (24), em uma Berlim cintilante, Obama fez um discurso poético sobre os ideais europeus e a os pontos históricos em comum entre Estados Unidos e Europa.

Mas ele foi vago a respeito de questões cruciais como comércio, defesa e política externa, que atualmente provocam uma divisão entre Washington e a Europa, e que provavelmente continuarão dividindo os dois blocos, mesmo que Obama torne-se presidente - questões que vão da Rússia, Turquia, Irã e Afeganistão aos novos aviões de reabastecimento aéreo e aos “frangos clorados” norte-americanos, um problema que determinou uma proibição européia de 11 anos das importações de frangos dos Estados Unidos.

Os europeus admiram as habilidades políticas de Obama, e gostam da sua aparente disposição para respeitar pontos de vista opostos. Para muitos europeus, isso gera a perspectiva de uma ruptura drástica com as políticas do governo Bush, especialmente as de primeiro mandato, quando os Estados Unidos optaram por ignorar as Convenções de Genebra na Baía de Guantánamo, em Cuba, rejeitaram o acordo de Kyoto sobre o aquecimento global e invadiram o Iraque, iniciando uma guerra à qual alguns aliados europeus dos norte-americanos se opunham.

“Será que nós reconheceremos que não existe nenhum exemplo mais forte do que aquele que cada uma das nossas nações projeta para o mundo?”, questionou Obama no seu discurso. E, a seguir, ele acrescentou: “Vamos rejeitar a tortura e defender o império da lei?”. A grande multidão aplaudiu e agitou bandeiras norte-americanas.

“O fato positivo é que podemos esperar um indivíduo cujo raciocínio esteja em sintonia com o dos europeus”, afirmou após o discurso Pierre Rousselin, editor de notícias internacionais do jornal francês “Le Figaro”. “Porém, no que se refere às questões climáticas, à economia e à política mundial, ainda há dúvidas. Haverá uma diferença, mas Obama se deparará muito rapidamente com questões concretas, como o Afeganistão”.

Eberhard Sandschneider, do Conselho Alemão de Relações Internacionais, afirmou: “O Obama que discursou hoje à noite não colocou todas as suas cartas sobre a mesa. Ele tentou usar o simbolismo de Berlim para indicar que, como presidente, irá se aproximar da Europa. Mas nas entrelinhas ele disse bem claramente que a Europa precisa fazer mais, especialmente quanto ao Afeganistão e ao Iraque”.

Os europeus estão cautelosos em relação ao pedido de Obama por mais dinheiro para a defesa e mais soldados europeus para a luta contra o Taleban no Afeganistão. Eles temem que Obama não alterem aquilo que eles acreditam ser uma tendência ferrenha de Bush em favor de Israel.

E, apesar daquilo que parece ser a sensibilidade dele para com as preocupações européias, os europeus vêem Obama como uma pessoa não muito interessada pela Europa, ainda que ele seja o presidente do Subcomitê de Relações Exteriores do Senado, que é responsável pela região. Conforme observou o jornal “Le Monde” na quinta-feira, Obama em nenhum momento solicitou um encontro com o embaixador da União Européia em Washington.

Mas os líderes europeus estão particularmente preocupados com as posições de Obama quanto ao comércio internacional, que foram expressas durante a agressiva campanha pela indicação democrata contra a senadora Hillary Rodham Clinton, e que para muitos deram a impressão de apontarem para o protecionismo.

O comissário de Comércio da Europa, Peter Mandelson, pediu no mês passado a Obama e ao seu rival republicano, o senador John McCain, que rejeitem “os falsos confortos do populismo” e abandonem “o protecionismo e a retórica anti-comercial” que dominaram as primárias.

Mandelson observou que Obama prometeu renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e se opôs a um novo acordo comercial com a Colômbia. “Uma crise da confiança norte-americana na globalização poderia fazer com que todo o processo perdesse o rumo”, advertiu Mandelson.

No seu discurso Obama falou sobre a necessidade de que europeus e norte-americanos reconheçam os desafios comuns em um mundo pelo qual é muito fácil viajar, e que enfrenta os problemas do islamismo radical, da proliferação nuclear, das emissões de carbono, da violência, da pobreza e do genocídio.

Mas ele ofereceu um apoio menos entusiasmado ao livre comércio, em um momento no qual negociadores em Genebra, incluindo Mandelson, tentam romper um impasse que há sete anos não se consegue resolver por meio de negociações globais. Obama afirmou que deseja “construir a riqueza que os mercados abertos criaram”, mas só se os acordos comerciais forem “livres e justos para todos”, uma frase que indica fidelidade à posição de uma ala do Partido Democrata que mostra-se desconfiada em relação ao livre comércio.

Os europeus estão irritados com uma recente decisão do Pentágono de ordenar uma nova licitação para um contrato de US$ 35 bilhões para a aquisição de aviões-tanques de reabastecimento aéreo. Um consórcio liderado por europeus ganhou este lucrativo contrato, derrotando a Boeing, no início deste ano. Mas a Boeing e os parlamentares federais que apóiam a empresa conseguiram fazer com que a licitação fosse reavaliada e, finalmente, cancelada.

Além disso, os europeus estão insatisfeitos com uma legislação agrícola de cinco anos, no valor de US$ 289 bilhões, que mantém grandes subsídios para os produtores rurais norte-americanos, ainda que os europeus tenham se comprometido a rever os seus próprios subsídios como forma de estimular as negociação comerciais. Washington reclama de que a proibição européia da importação de frangos norte-americanos causou um prejuízo anual de US$ 200 milhões aos produtores dos Estados Unidos. Os europeus não gostam do banho de cloro utilizado pelos norte-americanos para desinfetar os seus frangos, um argumento que diz mais respeito ao paladar do que à segurança.

Obama ofereceu um maior apoio à grande experiência da Europa com o compartilhamento da soberania, a União Européia, que atualmente inclui 27 nações. “Neste século, precisamos de uma União Européia forte que intensifique a segurança e a prosperidade deste continente, e que ao mesmo tempo estenda uma mão para o exterior”, disse ele, em uma alusão às grandes verbas para assistência estrangeira fornecidas pelos europeus.

Ele referiu-se várias vezes ao povo e aos valores “europeus”, em um contraste com o governo Bush, que procura com freqüência recrutar países europeus individuais, como o Reino Unido e a Polônia, para apoiarem as suas políticas, sem se empenhar em cultivar laços com o conjunto mais amplo de nações que é a União Européia. Washington vê a União Européia como uma organização dominada pela França e pela Alemanha, e que não está muito disposta a seguir a política externa dos Estados Unidos.

Mas Obama também pediu uma Europa mais agressiva, que aja junto com os Estados Unidos na defesa comum. Isso é uma questão politicamente delicada por aqui, e que provavelmente irritará muita gente, independentemente de quem ganhe a eleição.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, enviou mais tropas ao Afeganistão, mas enfrentou fortes críticas por ter feito isso. Os alemães continuam negando-se a transferir as suas tropas das províncias do norte do Afeganistão, que são mais seguras, para o sul do país, onde o Taleban está ressurgindo.

Hubert Vedrine, ex-ministro das Relações Exteriores da França, afirmou: “Não creio que a Europa seja uma questão de grande importância para Obama. O que importa para ele é o apoio que os europeus podem dar às políticas dele”.

“Obama apelou para uma dose de demagogia pró-germânica sobre armas nucleares com o objetivo de se aplaudido”, disse Vedrine. “Mas a solicitação feita por ele de mais envolvimento europeu no Afeganistão não será tão bem recebida”.

Até mesmo com relação ao Irã, onde até o momento Washington e as principais nações européias têm cooperado no sentido de evitar que Teerã desenvolva uma arma nuclear, Obama recusa-se a descartar uma opção militar - uma posição que, segundo o “Le Monde”, “é tida como improdutiva pela maioria dos europeus”.

Mesmo assim, a disposição de Obama de engajar-se em algum tipo de negociação preparada com o Irã sintoniza-se bem mais com a posição européia do que as atitudes de Bush.

Nicholas Kulish, em Berlim, e Katrin Bennhold, em Paris, contribuíram para esta matéria.

“The New York Times”

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A Grande depressão de 1929

HISTORIANET

INTRODUÇÃO

A crise econômica desencadeada a partir de 1929, quando da quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, reflete a crise mais geral do capitalismo liberal e da democracia liberal. No período entre guerras (1919 — 39), a economia procurou encontrar caminhos para sua recuperação, a partir do liberalismo de Estado, ao mesmo tempo em que consolidava-se o capitalismo monopolista. Mesmo nos EUA, as leis anti-trustes perdiam o efeito e grandes empresas — industriais e bancárias — tomavam conta do cenário econômico, protegidas pela política não intervencionista adotada principalmente a partir de 1921.

A PROSPERIDADE AMERICANA

Desde o final do século XIX, a indústria norte americana conheceu um grande crescimento, no quadro da Segunda Revolução Industrial.
Em 1912 foi eleito o presidente Woodrow Wilson, do Partido Democrata, a partir da defesa da Nova Liberdade, que começou a ser aplicada com a criação de leis trabalhistas específicas a algumas categorias profissionais como os marinheiros e de leis que pretendiam eliminar os grandes privilégios de pequenos grupos, através de mecanismos que coibiam o controle de mercado, aperfeiçoando a Lei Anti truste. No entanto o início da Primeira Guerra anulou essa política e a economia passou a ser dominada por Trustes, Holdings e Cartéis.
As transações de produtos industriais e agrícolas se ampliaram com a abertura de créditos aos aliados, seguida da concessão de empréstimos à Inglaterra e França.

A TV, símbolo de prosperidade.

A produção norte americana deu um salto gigantesco em vários setores, destacando-se a indústria bélica, de material de campanha, de alimentos e mesmo de setores destinados ao consumo interno, uma vez que o potencial de consumo no país aumentou com a elevação do nível de emprego; ou ainda para a exportação, principalmente para a América Latina, tomando o lugar que tradicionalmente coube à Inglaterra.

O PERÍODO ENTRE GUERRAS

Terminada a Guerra, realizou-se a Conferência de Paris, onde os três grandes tomaram as principais decisões e impuseram os tratados aos países vencidos. No entanto, apesar da participação do presidente Wilson, os EUA não criaram mecanismos que garantissem sua participação nas reparações de guerra ou o pagamento dos empréstimos e das vendas aos países aliados, ao mesmo tempo em que não reivindicaram nenhum território colonial.
O fim da guerra provocou a retração da economia norte americana, pois a industria de guerra diminuía o ritmo de produção, assim como os soldados que voltavam da guerra não eram absorvidos pelo mercado de trabalho, entre 1919 e 21 o país viveu a “Pequena Crise”, determinando a derrota dos democratas.
A partir de 1922 a França e a Inglaterra começam o processo de recuperação e passam a saldar suas dívidas com os EUA, porém esse procedimento somente será colocado em prática, na medida em que os alemães pagarem as reparações de guerra. A partir de 1924, os EUA passam a colaborar com a recuperação da economia alemã, fazendo investimentos no país, garantindo assim o pagamento das reparações e consequentemente das dívidas da época da Guerra esse período, após o ano de 1921, até a crise de 29 ficou conhecido como Big Bussines, caracterizado por grande desenvolvimento tecnológico, grande aumento da produção em novas áreas como a automobilística, geração de emprego e elevação do nível de consumo das camadas médias urbanas. Os edifícios tronaram-se os símbolos da prosperidade norte americana. A política econômica adotada pelos republicanos estimulava o desenvolvimento industrial em setores variados, a concentração de capitais ao mesmo tempo em que inibia as importações; essa política caracterizava-se pelo nacionalismo, que do ponto de vista social traduziu-se em preconceito e intolerância.

A CRISE

Manchete de 1929

Alguns componentes são fundamentais para a compreensão da crise: 1) a superprodução que desenvolveu-se durante e mesmo após a Primeira Guerra Mundial, quando o mercado consumidor estava em expansão. Após a guerra e com o início da recuperação do setor produtivo dos países europeus, a produção norte americana entrou em declínio. Essa situação expressou-se principalmente no setor agrícola.
2) A especulação na década de 20 foi um fenômeno que também alimentou a crise, pois como as empresas estavam obtendo altos lucros, suas ações tenderam a crescer, originando sociedades anônimas e empresas responsáveis apenas por gerir e investir dinheiro.
A primeira expressão da crise ocorre no campo, na medida em que as exportações diminuíam, os grandes proprietários não conseguiam saldar as dívidas realizadas no período da euforia, além disso eram forçados a pagar altas taxas para armazenar seus grãos, acumulando dívidas que os levou, em massa, à falência.
A crise no campo refletiu-se nas cidades com o desabastecimento pois o poder de compra diminuía na medida em que a mecanização da indústria passou a gerar maior índice de desemprego; e ao mesmo tempo promoveu a quebra de instituições bancárias, que confiscavam as terras e ao mesmo tempo não recebiam os pagamentos dos industriais que passavam a não vender sua produção

A QUINTA-FEIRA NEGRA

A decadência nas vendas determinou um grande aumento dos estoques e ao mesmo tempo privou os industriais de capital necessário para saldar suas dívidas ou mesmo manter sua atividade. Dessa forma, muitos empresários passaram a vendar suas ações no mercado financeiro, elevando seu valor, como forma de levantar recursos e manter a produção; porém a elevação das ações fez com que milhares de pessoas passassem a vender as ações que, ao não encontrarem compradores despencaram, provocando vertiginosa queda nas cotações, levando bancos e industrias à falência, determinando a queda dos preços dos produtos agrícolas, provocando o desemprego de milhares de pessoas: 3 milhões em abril de 1930, 4 milhões em outubro do mesmo ano, 7 milhões um ano depois, 11 milhões m outubro de 32, de 12 a 14 milhões nos primeiros meses de 1933.

A CRISE MUNDIAL

A crise espalhou-se rapidamente pelo mundo, devido a interdependência do sistema capitalista. Os EUA eram o maior credor dos países europeus e latinos e passaram a exercer forte pressão no sentido de receberem seus pagamentos. Com a quebra industrial, o bastecimento do mercado latino americano foi afetado, provocando a falte de produtos e a elevação de preços, as importações norteamericanoas diminuíam e mais uma vez os países latinos sentiam os efeitos da crise, pois viviam da exportação de gêneros primários ou mesmo supérfluos, como o café no Brasil.
Na medida em que a economia européia se retraía, as áreas coloniais na Ásia e na África eram afetadas, pois aumentava a exploração das potências imperialistas.O único país a não sentir os efeitos da crise foi a URSS, que naquele momento encerrava o primeiro Plano Quinquenal e preparava o segundo, ou seja, desenvolvia uma economia fechada, que não utilizou-se de recursos externos, apesar das grandes dificuldades do país após a Revolução Russa e a Guerra Civil.

“HISTORIANET”

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União Européia passa por guinada para a direita

Jornada semanal de trabalho de 60 horas e a detenção de imigrantes durante 18 meses revelam a virada conservadora da UE

Cristina Galindo e Pere Rusiñol

A jornada semanal de trabalho poderá se estender em certas ocasiões até as 78 horas semanais e será possível prender os imigrantes ilegais durante 18 meses, antes de expulsá-los. Em alguns locais, a polícia já tem o direito de deter qualquer pessoa durante 42 dias sem acusações. Em outros, os serviços secretos contam com autorização para espionar as mensagens eletrônicas sem mandato judicial. Isso não é na China, nem nos Estados Unidos. Tudo acontece na União Européia, considerada durante décadas o baluarte do modelo social que mais protegia os cidadãos. Os especialistas não chegaram a um acordo sobre o alcance dessa mudança de rumo, mas concordam que o avanço da direita em quase toda a Europa deixou sua marca na UE.

Em muitos poucos dias foram decididos dois projetos que ameaçam esfacelar o sonho europeu: a diretriz para que a jornada semanal máxima passe de 48 para 60 horas - e excepcionalmente, até mesmo para 78 - e a que combate a imigração ilegal com uma dureza que até há pouco tempo era associada à extrema direita. O contraste com o passado recente é flagrante: há 10 anos, o debate sobre a jornada de trabalho era liderado pela França com sua proposta de 35 horas. E toda a União isolava a Áustria por abrir a porta do governo a um partido que se tornava rigoroso com os imigrantes.

A direita dirige agora as locomotivas européias (França, Alemanha, Itália…) e os governos de esquerda estão a ponto de se tornarem uma exceção, inclusive nos países nórdicos. Mas a onda afeta a todos: os socialistas sequer se atreveram a ficar contra em uma primeira leitura da diretiva sobre a jornada de trabalho. E 16 dos 19 socialistas espanhóis votaram a favor da norma de imigração.

“Estamos frente a um retrocesso claríssimo nos direitos sociais e de cidadania”, afirma Nicolas Sartorius, vice-presidente da Fundação Alternativas, de inspiração progressista. “Há um ataque brutal a muitas das conquistas obtidas nas últimas décadas”.

“Nunca a correlação de forças foi tão desfavorável e isso nos deixa em situação muito difícil, se quisermos exercer alguma influência”, explica Alejandro Cercas, opositor socialista quanto à diretiva sobre a jornada de trabalho, que explica assim a abstenção socialista sobre o assunto: “Se quisermos frear a iniciativa, precisamos unir o maior número possível de países e isso é mais fácil com a abstenção que com a negativa”. “O momento é tremendamente delicado: com tantas barbaridades, estão sendo criados milhões de eurocéticos”, ele comenta.

Na opinião de Cercas, o fundamental é que as decisões importantes são tomadas nos conselhos intergovernamentais, onde a maioria de direitistas é assombrosa. Ele acredita que muitos Executivos utilizam esses conselhos para promover normas que eles temem levar para seus Parlamentos nacionais, devido aos problemas que estas trariam. “A UE está sendo utilizada como mecanismo para dar legitimidade às políticas nacionais”, destaca Sergio Carrera, do Centro de Estudos Políticos Europeus, com sede em Bruxelas.

AS INICIATIVAS DA POLÊMICA

Tanto a União Européia como alguns governos europeus promoveram iniciativas recentes muito polêmicas que levaram os setores sociais e políticos a advertir que o modelo europeu construído nas cinco últimas décadas está em perigo. As principais áreas afetadas são imigração, antiterrorismo e direitos trabalhistas.

Imigração A Eurocâmara ratificou esta semana a polêmica norma que autoriza a detenção de imigrantes ilegais durante até 18 meses. Os menores poderão ser enviados para países diferentes daqueles de origem. Também será oferecida assistência jurídica gratuita para determinados casos. Vários países latino-americanos batizaram a norma como “a diretriz da vergonha”.

Na Itália, o recém empossado governo de Silvio Berlusconi promove uma reforma na legislação que transformará a imigração ilegal em delito que pode ser punido com até quatro anos de prisão. Também concedeu poderes especiais aos delegados do governo para “retirar e expulsar” os ciganos e autorizou que 2.500 militares participem de patrulhas com policiais para combater a insegurança, que vincula à imigração ilegal.

A França, que exigirá que os imigrantes firmem um “contrato de integração” no qual se comprometem a aprender o francês e respeitar os costumes da República, fixou cotas de imigrantes para expulsar: 25.000 em 2007 e 26.000 em 2008.

Antiterrorismo O Reino Unido ampliou de 28 para 42 dias a detenção sem acusações de suspeitos de terrorismo, a França permite o interrogatório de suspeitos durante seis dias sem a interferência de advogados de defesa e as normas que regulamentam o controle dos aeroportos da UE são secretas. A Suécia acaba de aprovar uma lei que permite aos serviços secretos ler mensagens de e-mail e ouvir chamadas telefônicas. Os críticos afirmam que se trata do maior ataque à liberdades registrado até agora na Europa.

Condições de trabalho Se for levada adiante, uma diretriz da UE colocará fim à jornada máxima de trabalho de 48 horas semanais aprovada pela OIT em 1917. Passaria para 60 horas e, em casos excepcionais, poderia chegar a 78. A Espanha é contra. Nos últimos seis meses, três sentenças do Tribunal de Luxemburgo deixaram clara a prevalência dos interesses das empresas sobre os direitos sindicais.

“A tendência é clara: os britânicos, por exemplo, impõem à Europa questões na luta contra o terrorismo que sequer se atreveriam a apresentar na Câmara dos Comuns”, acrescenta Ignasi Guardans, eurodeputado da Convergência i Unió (CiU), agregado ao grupo liberal da Eurocâmara. Guardans votou a favor da diretriz sobre a imigração (”pelo menos é um primeiro passo em direção à regulamentação”, acredita), mas considera inegável a “direitização” da UE. “A Europa voltou-se para a direita porque a esquerda está em crise e não sabe dar nem segurança nem garantias. Além disso, os poucos governos de esquerda que restam são muito pouco de esquerda, incluindo o da Espanha”, afirma Guardans, negando em troca que o “modelo social europeu” esteja em perigo. Em sua opinião, o risco está no retrocesso nas liberdades, como conseqüência da “guerra contra o terrorismo”.

Essa guerra é liderada na Europa pelo Reino Unido sob o controle dos trabalhistas. Em teoria, portanto, a esquerda. Mas no país que já aplicava o estatuto do habeas corpus na Idade Média, será possível agora deter sem acusações durante 42 dias (antes, 28) qualquer suspeito de terrorismo. “A medida viola claramente os direitos humanos. A luta contra o terrorismo está sendo combatida à custa das liberdades, também na Europa”, lamenta Judith Sunderland, da Human Rights Watch. A Suécia, até agora outra referência mundial quanto aos direitos dos cidadãos frente a possíveis atropelos por parte do Estado, acaba de aprovar uma lei que parece tirada do mundo orweliano de 1984: o governo poderá ter acesso ao conteúdo de todas as mensagens eletrônicas.

A ampliação para o Leste, empreendida a partir de 2004, não fez senão reforçar essa “direitização”, a ponto de torná-la quase irreversível. O antigo bloco do Leste - a nova Europa, como a chamou George W. Bush - saiu tão escaldada do totalitarismo que a agenda liberal e a cumplicidade com Washington formam parte do acervo de todos os partidos, sejam de direita ou de esquerda.

“O peso da história explica que todos os novos países defendam o mesmo programa liberal e que todos sempre tenham como causa comum os postulados tradicionais anglo-saxões”, ressalta Jan Techau, analista do Centro para os Estudos Europeus Alfred von Oppenheim, com sede em Berlim. Em sua opinião, o modelo social da Europa Ocidental não está em risco porque “a grande maioria dos encargos em proteção social continuam nas mãos dos Estados”. “A agenda neoliberal da UE é mais simbólica que real: não se deve temer Bruxelas porque nesse aspecto não passa de um tigre de papel”, conclui Techau.

Krysztof Bobinski, do Centro de Estudos Unia & Polska, de Varsóvia, reconhece que a ampliação mudou as regras do jogo: “depois de anos de ditaduras, nossos padrões de direitos podem ser inferiores aos dos países europeus, mas não convém exagerar. Foi toda a Europa que virou para a direita; não se trata apenas do Leste”, insiste Bobinski.

“As regras são quase sempre liberais e no momento não há nenhum projeto político que tenha a aspiração de comandá-las”, lamenta o sindicalista José Maria Zufiaur, conselheiro do Comitê Econômico e Social (CES) europeu. Zufiaur também acredita que a ampliação é um fator determinante na virada, mas a partir de uma outra perspectiva, menos determinista e mais política: “Quando a Espanha se incorporou à UE, esta lhe garantiu muito dinheiro em troca de garantias de que o país se aproximasse dos padrões sociais do grupo, para evitar o dumping (barateamento anormal dos preços). Agora aconteceu o contrário. Aos novos membros foi dito: ‘Nós vamos dar muito menos dinheiro, e concorram como puderem’”.

Ninguém nega o crescente predomínio da direita na UE. Mas nem todo mundo compartilha a idéia de que a virada debilite a tradição de décadas de construção européia tecida com o consenso entre a esquerda de pensamento positivo e uma direita de tradição democrata cristã. “Não há nenhuma evidência de que a Europa se esteja convertendo em ultraliberal. Ninguém está desmontando o Estado do bem-estar social”, ressalta Simon Tilford, do Centro para a Reforma Européia, em Londres. Tilford sequer considera que a nova norma sobre a jornada de trabalho venha a ter um grande impacto. Guardans concorda: “Não se está terminando com nenhum modelo social, mas é preciso acabar com tabus, se quisermos ser competitivos”.

Nem mesmo a diretriz sobre a imigração se choca com a tradição européia, segundo Carmen González, pesquisadora do Real Instituto Elcano: “Não se deve interpretá-la como uma redução de liberdades, ao menos no caso espanhol (no qual o governo estabelecerá em dois meses o limite de detenção de imigrantes ilegais), mas sim como uma medida de eficácia e dissuasão. É preciso levar em conta, além disso, que alguns países não tinham nenhum limite e agora terão”. Bjarte Vandvik, secretário-geral do Conselho Europeu para os Refugiados (ECRE, na sua sigla em inglês) a considera, porém, como um exemplo da “visão que hoje a Europa tem”: “desumana e injustificada”.

“El País”

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A arte na Pré-História

HISTORIANET

Consideramos como arte pré-histórica todas as manifestações que se desenvolveram antes do surgimento das primeiras civilizações e portanto antes da escrita. No entanto isso pressupõe uma grande variedade de produção, por povos diferentes, em locais diferentes, mas com algumas características comuns.

A primeira característica é o pragmatismo, ou seja, a arte produzida possuía uma utilidade, material, cotidiana ou mágico-religiosa: ferramentas, armas ou figuras que envolvem situações específicas, como a caça. Cabe lembrar que as cenas de caça representadas em cavernas não descreviam uma situação vivida pelo grupo, mas possuía um caráter mágico, preparando o grupo para essa tarefa que lhes garantiria a sobrevivência.

As manifestações artísticas mais antigas foram encontradas na Europa, em especial na Espanha, sul da França e sul da Itália e datam de aproximadamente de 25000a.C., portanto no período paleolítico. Na França encontramos o maior número de obras pré históricas e até hoje em bom estado de conservação, como as cavernas de Altamira, Lascaux e Castilho

Arquitetura

Os grupos pré-históricos eram nômades e se deslocavam de acordo com a necessidade de obter alimentos. Durante o período neolítico essa situação sofreu mudanças, desenvolveram-se as primeiras formas de agricultura e consequentemente o grupo humano passou a se fixar por mais tempo em uma mesma região, mas ainda utilizavam-se de abrigos naturais ou fabricados

com fibras vegetais ao mesmo tempo em que passaram a construir monumentos de pedras colossais, que serviam de câmaras mortuárias ou de templos. Raras as construções que serviam de habitação.

Essa pedras pesavam mais de três toneladas, fato que requeria o trabalho de muitos homens e o conhecimento da alavanca.

Esses monumentos de pedras foram denominados “megalíticos” e podem ser classificados de: dólmens, galerias cobertas que possibilitavam o acesso a uma tumba; menires, que são grandes pedras cravadas no chão de forma vertical; e os cromlech, que são menires e dólmens organizados em círculo, sendo o mais famoso o de Stonehenge, na Inglaterra.

Também encontramos importantes monumentos megalíticos na Ilha de Malta e Carnac na França, todos eles com funções ritualisticas.

Escultura

A escultura foi responsável pela elaboração tanto de objetos religiosos quanto de utensílios domésticos, onde encontramos a temática predominante em toda a arte do período, animais e figuras humanas, principalmente figuras femininas, conhecidas como Vênus, caracterizadas pelos grandes seios e ancas largas, são associadas ao culto da fertilidade;

Entre as mais famosas estão a Vênus de Lespugne, encontrada na França, e a Vênus de Willendorf, encontrada na Áustria foram criadas principalmente em pedras calcárias, utilizando-se ferramentas de pedra pontiaguda.

Durante o período neolítico europeu (5000aC - 3000dC) os grupos humanos já dominavam o fogo e passou a produção de peças de cerâmica, normalmente vasos, decorados com motivos geométricos em sua superfície; somente na idade do bronze a produção da cerâmica alcançou grande desenvolvimento, devido a utilização na armazenagem de água e alimentos

Pintura

As principais manifestações da pintura pré-histórica são encontradas no interior de cavernas, em paredes de pedra e a princípio retratavam cenas envolvendo principalmente animais, homens e mulheres e caçadas, existindo ainda a pintura de símbolos, com significado ainda desconhecido. Essa fase inicial é marcada pela utilização predominantemente do preto e do vermelho e é considerada portanto como naturalista.

No período neolítico a pintura é utilizada como elemento decorativo e retratando as cenas do cotidiano. A qualidade das obras é superior, mostrando um maior grau de abstração e a utilização de outros instrumentos que não as mãos, como espátulas.

Por volta de 2000aC as características da pintura a apresentavam um nível próximo à de formas escritas, preservando porém seu caráter mágico ou religiosos, celebrando a fecundidade ou os objetos de adoração (totens).

“HISTORIANET”

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Árvores transgênicas: ameaça à biodiversidade

Pesquisadora dos Estados Unidos alerta que o Brasil está na mira de empresas que desenvolvem árvores geneticamente modificadas

26/04/2007
Tatiana Merlino,
da redação

A introdução de árvores geneticamente modificadas (GM) nas plantações de monocultura poderá destruir a biodiversidade, contaminar a água e o solo, piorar o aquecimento global, causar impactos sociais e culturais e ameaçar a saúde das comunidades rurais. Esse é o alerta de Anne Petermann, co-diretora do Global Justice Ecology Project (Projeto de Justiça Global Ecológica). Em visita ao Brasil, a estadunidense denuncia as conseqüências dessa opção: “essas árvores têm o potencial de mudar radicalmente e permanentemente as florestas do mundo”.

Segundo ela, o Brasil está nos planos da estadunidense ArborGem – líder mundial em pesquisas de desenvolvimento de árvores geneticamente modificadas – que pretende plantar as espécies GM no país em dois anos.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a pesquisadora, que está coordenando uma campanha internacional contra as árvores GM, descreve a crescente resistência em todo o mundo às plantações de eucalipto e afirma que estas árvores estão sendo cultivadas experimentalmente nos EUA, no Brasil e no Chile, e que podem comprometer a saúde das florestas nativas e ameaçar as comunidades das florestas.

A pesquisadora, que participou de um seminário sobre os impactos da monocultura do eucalipto realizado de 18 a 20 de abril na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema, SP, compara os planos da ArborGen às ações da Aracruz Celulose, que tem destruído florestas nativas e tomado terras indígenas para suas plantações de eucalipto.

Brasil de Fato- Qual é a situação da monocultura de árvores geneticamente modificadas nos Estados Unidos?
Anne Petermann - Nas últimas décadas, as empresas de papel desmataram rapidamente as florestas nativas no Sul dos EUA e as substituíram por plantações estéreis de pinus que agora representam quase um de cada cinco hectares na região e 15% das terras dos Estados Unidos. No entanto, o plano para os próximos dez anos é de começar a plantar eucaliptos com tolerância ao frio. São eucaliptos geneticamente modificados que podem sobreviver ao inverno e podem ser colocados no sudeste dos Estados Unidos.

BF- Quais são os impactos dessas monoculturas para o meio ambiente e para as comunidades locais?
Anne- Os impactos são muito similares aos que nós vemos na América Latina. Em decorrência da monocultura, o corte e plantio das árvores é muito mecanizado e usa pouca mão-de-obra, e assim há escassos empregos. Há uma ampla área de terra ocupada por essa plantações, o que resulta em altas taxas de pobreza na sua região. Ou as pessoas têm que partir porque não têm como sobreviver, ou vivem lá de maneira muito precária. Há também muitos problemas de contaminação das plantações, que são afetadas pelos pesticidas que entram na água, além dos problemas de saúde.

BF- Qual o plano das empresas para as árvores geneticamente modificadas?
Anne- Uma análise das principais pesquisas sobre árvores geneticamente modificadas que estão sendo desenvolvidas atualmente mostra que elas têm os seguintes objetivos: resistência a herbicidas, insetos, esterilidade de árvores, menor conteúdo de lignina e maior conteúdo de celulose, resistência ao frio. No entanto, nenhuma dessas características pode ser vista como benéfica para a diversidade biológica global das florestas, que necessita de espécies de flora, insetos, flores e sementes, madeira resistente a fortes ventos, árvores e plantas adaptadas a ambientes locais, solos intactos e água suficiente. Além disso, as plantações de árvores GM se instalarão onde hoje existem florestas biologicamente diversas, seguindo a tendência das plantações de monoculturas que tem substituído florestas nativas no mundo inteiro. Isto tudo indica que árvores GM não são benéficas para a diversidade biológica global das florestas. As modificações genéticas estão sendo desenvolvidas por motivos industriais e não ambientais e, se liberadas, resultarão em plantações industriais com baixa diversidade, e desaparição de outros organismos vivos, reduzindo efetivamente a diversidade biológica de florestas.
As modificações genéticas estão sendo desenvolvidas por motivos industriais e não ambientais
e, se liberadas, resultarão em plantações industriais com baixa diversidade, e
desaparição de outros organismos vivos, reduzindo
efetivamente a diversidade biológica de florestas

BF- Quais são os argumentos utilizados pelas empresas para defender a plantação?
Anne - O argumento utilizado pelas empresas é o de que com as árvores geneticamente modificadas não precisaremos cortar árvores nativas, mesmo que a história mostre que isso é mentira, porque substituem as vegetações originais para colocar as plantações no lugar. As empresas também dizem que essas árvores são viáveis porque são modificadas para matar insetos, por exemplo. Elas não iriam precisar de pesticidas e assim menos químicos seriam aplicados. Mas isso também não é verdade. Primeiro, porque a árvore geneticamente modificada em si é um pesticida, cada célula tem um veneno dentro dela que vai entrando no solo, o pólen espalha o pesticida, e quando as pessoas inalam, pode causar problemas de saúde. Além disso, como é um pesticida que mata insetos que se aproximam das árvores, esses insetos podem ganhar resistência muito rapidamente. Assim, em algumas gerações, as árvores deixam de matar os insetos, os pesticidas acabam sendo inúteis, e há a necessidade de se utilizar mais e mais tóxicos. É um ciclo vicioso.

BF - Há perspectivas dos impactos que podem decorrer desse plantio?
Anne- As principais ameaças são a substituição da diversidade das florestas por monoculturas de árvores GM. Isto já acontece com monoculturas convencionais de árvores, como eucaliptos e pinus, e não existe razão para acreditar que isso seria diferente com árvores GM. Ao contrário, corporações como a ArborGen apontaram que a celulose obtida das plantações pode trazer lucros consideravelmente mais altos do que os de monoculturas convencionais, indicando que as corporações pretendem rapidamente implementar plantações de árvores GM em grande escala. Outra ameaça é a contaminação de árvores de espécies relacionadas. O pólen das árvores pode viajar longas distâncias e pode contaminar árvores tanto da mesma espécie quanto de outras espécies relacionadas em regiões e países inteiros. Isso significaria que as árvores nativas podem adquirir as características de GM.

A árvore geneticamente modificada em si é um pesticida,
cada célula tem um veneno dentro dela que vai entrando no solo,
o pólen espalha o pesticida, e quando
as pessoas inalam, pode causar problemas de saúde

BF - Há pesquisas científicas que tratem do assunto?
Anne- Uma das maiores críticas do movimento ambiental contra as árvores GM é que os estudos sobre os impactos são absolutamente insuficientes, não tratam seriamente dos impactos sociais ou para o meio ambiente. As empresas tentam argumentar que os impactos seriam os mesmos decorrentes da agricultura geneticamente modificada. Mas árvores não são como outras plantas, elas vivem por centenas de anos, passam por muitas mudanças biológicas. As pesquisas fazem projeções para 10, 15 anos no máximo, mas não temos como saber o que essas árvores estarão em 20, 30, 50 ou 100 anos. Afirma-se que pode transformar essas árvores estéreis e assim elas não vão contaminar outras árvores, mas não pode se garantir que as árvores ficarão estéreis por décadas. No entanto, temos que deixar claro que mesmo incompleta, a ciência mostra que a tecnologia poderia resultar na extinção de espécies de flora e fauna da floresta com sérios impactos negativos sobre a biodiversidade.

BF - Então não é possível saber o tamanho da ameaça que elas representam?
Anne- Para nós, a questão é: nós sabemos que há uma ameaça, mas desconhecemos seu tamanho. Os problemas causados pelas árvores geneticamente modificadas podem ser extremamente severos. Por exemplo, os insetos que são atingidos pelos pesticidas são as lagartas que alimentam os pássaros. Se os pássaros não têm alimento, ou comem essas lagartas envenenadas é muito ruim, e assim os impactos continuam. A ArborGen, maior companhia de árvores geneticamente modificadas do mundo, trabalha em parceria com a International Paper, que tem terras no Brasil, nos Estados Unidos e em muitos lugares do mundo, a MeadWestvaco sediada nos Estados Unidos e Rubicon sediada na Nova Zelândia. Eles não quiseram fazer os testes de plantação das árvores geneticamente modificadas na Nova Zelândia e, então, resolveram fazer no Brasil.

Os estudos sobre os impactos das árvores GM
são absolutamente insuficientes, não
tratam seriamente dos impactos
sociais ou para o meio ambiente

BF - Para quando são os planos para o Brasil?
Anne -Três empresas do setor da celulose estão desenvolvendo pesquisas de árvores geneticamente modificadas: Aracruz Celulose, Suzano e International Paper através da ArborGen. A Aracruz, em 1998, foi a primeira companhia a receber autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para testes de laboratório. A Suzano está financiando pesquisas com objetivo de diminuir a lignina e aumentar o conteúdo da celulose além de estar interessada em produzir uma árvore de eucalipto resistente à seca. Já a Internacional Paper é sócia da ArborGen. A Aracruz, a Suzano e a Internacional Paper estão envolvidas em pesquisas geneticamente modificadas porque acham que podem obter mais lucro com isso. Para o Brasil eles planejam plantar essas árvores nos próximos dois anos. O escritório da ArborGen é em Campinas (SP), e como geralmente a unidade é planejada para ficar perto de onde ocorrerá o trabalho de campo, tudo indica que as pesquisas de campo devem ser ali perto. No Chile e Argentina há planos para plantar pinus que resistem à insetos, já que esse tipo de árvore é mais tolerantes ao frio.

BF- Como as rganizações estão mobilizadas para lutar contra isso?
Anne - Há uma campanha internacional contra as árvores geneticamente modificadas, uma aliança de grupos de todo o mundo. Nos Estados Unidos e Canadá, são 13 grupos, além de contarmos com os índios Mapuche do Chile e com a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), do Brasil. Estamos trabalhando por meio das Nações Unidas tentando banir globalmente essa tecnologia. A convenção das Nações Unidas para biodiversidade biológica será em maio do ano que vem na Alemanha e tratará do tema das árvores geneticamente modificadas. Os países não podem ignorar isso, e vamos fazer muita pressão para que isso não aconteça. Durante o encontro que aconteceu em Curitiba (COP/MOP), em 2006, avisamos os países do perigo potencial que as árvores GM representam. Do mesmo jeito que precisamos de uma monitoria em relação à questão do terminator, precisamos de uma monitoria às árvores.

Jornal Brasil de Fato
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Ascensão e queda das Marinhas

Paul Kennedy*

Para os historiadores, nada é mais fascinante do que observar uma coincidência ou um descompasso em locais afastados, mas que ocorrem quase ao mesmo tempo.
Por exemplo, foi apenas uma coincidência que, depois de 1870, nações novas em rápido desenvolvimento, como Alemanha, Japão, Itália e EUA, tenham ‘atingido sua maioridade’ ao mesmo tempo? E não foi um curioso descompasso o fato de, no período entre as duas guerras mundiais, a cultura política na Inglaterra, França e EUA ser tão pacifista, ao mesmo tempo que um sentimento agressivo e militarista reinava na Alemanha, Itália e Japão, tornando inevitável a eclosão da 2ª Guerra? Nas primeiras décadas do século 15, o almirante chinês Cheng Lo liderou uma série de espantosas expedições marítimas ao mundo exterior para chegar à costa leste da África.
Nessa época, nada se comparava à Marinha da China. Mas, nas décadas seguintes, essas aventuras em terras estrangeiras foram abandonadas pela cúpula de Pequim, preocupada em não desviar os recursos necessários para fazer frente à ameaça de invasão dos mandchus (habitantes da região da Mandchúria).
Enquanto os chineses desmantelavam sua frota naval, do outro lado do globo exploradores de Portugal, Galícia, Bretanha e sudoeste da Inglaterra se deslocavam para a costa oeste da África. A Europa Ocidental chegava a ‘novos mundos’, habitados por povos e culturas antigas, nas Américas, África, Ásia e Pacífico. Qualquer lugar vulnerável ao poder militar e naval do Ocidente corria perigo.
Para o Ocidente, a sua Marinha era a chave para a influência global.
Retornemos agora ao mundo atual, um mundo complexo, fragmentado e de difícil compreensão. Neste caso também está acontecendo, de um modo muito interessante, um novo e extraordinário descompasso global, que os principais órgãos e mídia do mundo não estão cobrindo. E envolve, como ocorreu seis séculos atrás, enormes diferenças no tocante à importância que os países europeus e os asiáticos estão dando a sua força naval, hoje e no futuro.
Quero deixar claro que, nesse aspecto, não estou falando da atitude americana com relação a seu poderio naval. Os Estados Unidos, que possuem uma relativa capacidade marítima, provavelmente maior do que a da Marinha Real britânica em 1815, não têm planos para consolidar sua força naval.
E também não estou tratando da Rússia de Vladimir Putin.
A Marinha russa foi golpeada duramente com os drásticos cortes com gastos e pessoal e seus navios de guerra enferrujados ficaram obsoletos nos últimos 25 anos. Mas não há dúvida de que ela se está recompondo.
Pode não conseguir atingir a mesma força da Marinha soviética durante seu apogeu, nas décadas de 70 e 80. Mas a Rússia acredita verdadeiramente que precisa ser forte no mar. É o que pensam também os governos das economias de crescimento rápido do Leste e Sul da Ásia. Em duas visitas recentes à Coréia do Sul, onde realizei conferências sobre assuntos estratégicos, fiquei perplexo ao verificar que Seul tinha planos para, em 15 anos, expandir seu poder marítimo em todas as dimensões, incluindo a capacidade militar.
Por exemplo, neste momento a Coréia do Sul está construindo três enormes destróieres que deslocam mais de 7 mil toneladas e possuem armamentos extremamente poderosos.
Claramente, não foram projetados somente para impedir que os pequenos submarinos nortecoreanos se introduzam sorrateiramente em sua costa.
Mas, como sublinham os sulcoreanos, o Japão está em meio a uma estruturação ainda maior da sua Marinha.
De acordo com publicação do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, The Military Balance (O Equilíbrio Militar), a Marinha japonesa possui 54 ‘navios de combate principais’, ou seja, destróieres e fragatas, navios de guerra que possuem canhões, mísseis, torpedos e cargas de profundidade.
Os japoneses, no entanto, apontarão para o desenvolvimento extremamente rápido da Marinha chinesa, que já mobiliza 71 destróieres e fragatas e 58 submarinos (em comparação com os 18 do Japão). O desenvolvimento da força naval chinesa está na fase inicial, como foi o caso, por exemplo, da Marinha dos Estados Unidos por volta de 1890.
No mês passado, o Serviço de Pesquisa do Congresso, órgão avesso a declarações dramáticas ou hiperbólicas, divulgou um surpreendente relatório de 95 páginas intitulado China Naval Modernization: Implications for U.S. Navy Capabilities
(Modernização naval da China: as implicações para a Marinha dos Estados Unidos). Os detalhes são muitos e impressionam. Talvez os fatos mais importantes estejam inseridos na primeira nota de rodapé: ‘Em 2010, a força submarina da China será quase o dobro da dos Estados Unidos. Em 2015, a frota chinesa total deve ultrapassar em tamanho a frota americana.’ Devemos observar que esta informação foi fornecida pela Associação dos Construtores Navais Americanos, que tem interesses muitos específicos nesse campo. É difícil acreditar que o governo dos EUA vá permitir uma mudança tão dramática no equilíbrio naval. Mas não se pode negar o fato importante de que a Ásia inteira parece estar acreditando que é vital consolidar seu poder marítimo. De acordo com The Military Balance, até mesmo uma pequena nação como o Vietnã aumentou ’significativamente seus gastos com a defesa, nesta década, e sua Marinha recebeu uma grande quantidade de novos equipamentos’.
Em todo caso, voltemos ao cenário europeu. Aí a tendência parece ser na direção oposta, com os orçamentos navais reduzidos (diante do aumento inexorável nos custos com sistemas de armamentos e com pessoal) e diminuição das atuais frotas. Chama atenção a notícia de que a Marinha Real britânica pode estar planejando ‘aposentar’ muitos dos destróieres e fragatas (que, sendo apenas 25, formam hoje uma frota menor do que a do Japão).
Furiosos, membros conservadores do Parlamento estão exigindo que se discuta por que os gastos com a defesa representam hoje apenas uma pequena porcentagem do PIB, a menor desde a década de 30 - e todos sabemos o que isso implica.
Eles estão ainda mais indignados com o fato de que, hoje, a Marinha francesa possui mais navios de combate do que a GrãBretanha, e isso pela primeira vez em 250 anos.
No entanto, o orçamento naval da França não tem aumentado muito e as Marinhas da Alemanha, Itália, Espanha e Holanda também estão sofrendo restrições. Mas, que eu saiba, ninguém na Europa está prestando atenção à corrida armamentista naval na Ásia. E ninguém na Ásia está atento às severas limitações ao poder marítimo em curso na Europa.
Isso leva a uma pergunta final, óbvia: o que os planejadores estratégicos navais de um continente estão pensando sobre o futuro do mundo que os planejadores de outro continente não estão? Por que a televisão pública chinesa vem apresentando programas sobre a ascensão da Marinha na época de Elizabeth I, e ao mesmo tempo o Ministério da Defesa britânico diz que pretende aposentar ou abandonar navios de guerra com nomes que datam de mais de 400 anos? Os estrategistas de gabinete se apressarão a dar muitas respostas a essa pergunta: por exemplo, que conflitos entre Estados são mais prováveis de acontecer na Ásia do que na Europa Ocidental, que a China está determinada a pôr um freio na hegemonia dos Estados Unidos no Pacífico, que todos os demais países estão aterrorizados com o crescimento militar chinês e, seja como for, essas economias que prosperam rapidamente podem se permitir aplicar os recursos nas áreas civis e de defesa.
Tudo isso pode ser verdade, mas o que fica evidente é que, numa era de grandes incertezas geopolíticas, as importantes nações européias estão esquecendo a clássica advertência elisabetana: ‘Olhe para o seu fosso.’ Será que ignorar isso é sensato?

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Paul Kennedy é diretor do Departamento de Estudos de Segurança Internacional na Universidade de Yale. Seu livro mais recente é ´The Parliament of Man´, sobre as Nações Unidas. Escreveu este artigo para o ´International Herald Tribune´

Jornal Estado de S. Paulo
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