Sinaloa, um Estado mexicano dependente das drogas

Joëlle Stolz

O velho ônibus azul e branco das Lineas del Oriente avança aos trancos e barrancos, ladeira acima na pista poeirenta que conduz de Badiraguato até Santiago de los Caballeros, na montanha de Sinaloa. Um crucifixo está dependurado ao lado do motorista, que está atento para a beira instável do despenhadeiro. Em meio ao matagal ressecado não aparece praticamente nenhum campo cultivado. Contudo, avistam-se de vez em quando estreitas canalizações que serpenteiam ao longo do caminho: elas servem para irrigar parcelas dissimuladas dos olhares curiosos demais, onde os narcotraficantes cultivam a papoula para a fabricação do ópio e a maconha.

No México, um país abalado pelas guerras das drogas, o Estado de Sinaloa é considerado como um “berço” dos cartéis. E dizem que Badiraguato, um vilarejo empoleirado nos contrafortes da Sierra Madre ocidental, seria o seu quartel-general. Mais além, uma vez passada esta localidade, estende-se o seu reino, o das gordas vans 4×4, das fazendas bem guardadas e das pistas de pouso clandestinas. Uma fortaleza de onde as drogas são então transportadas através de trilhas geralmente desérticas, rumo ao insaciável mercado americano.

Aqui, as drogas dopam a economia e inspiram o folclore: “Adeus meu fiel Sinaloa/ É tão fácil semear nas suas terras/ Dá para se colher de tudo/ E até mesmo o pobre enriquece…”, celebra um dos inúmeros “corridos”, essas baladas que se destinam a vangloriar os feitos dos bandidos da região, compostas pelos músicos do Norte - eles têm por nome Grupo Exterminador, K-Paz de la Sierra, os Tigres do Norte, os Tucanos de Tijuana.

Foi em Sinaloa que tudo começou, durante a Segunda Guerra Mundial, quando as autoridades americanas, temendo uma penúria de morfina depois do fechamento das rotas asiáticas do ópio, descobriram que o clima do “triângulo dourado”, na junção dos Estados de Sinaloa, de Chihuahua e de Durango, no noroeste do país, convinha perfeitamente para a cultura da papoula.

“Naquela época, chineses desembarcaram no país para mostrar para os mexicanos quais eram os procedimentos”, conta Don Manuel, um habitante da serra. Desde então, tal como aconteceu com o aprendiz de feiticeiro, os Estados Unidos nunca mais conseguiram interromper o fluxo. E a maconha cresce nesta região com tanta vivacidade que mudas foram vistas recentemente desabrochando no meio de uma das principais avenidas de Culiacán - a capital de Sinaloa, com 1 milhão de habitantes. Só que a erva apenas complementa as especialidades locais. “Na montanha, apenas um em cada cem dentre nós continua plantando milho até hoje”, lamenta Don Manuel. De que adianta, quando “a outra opção”, a dos entorpecentes, rende trinta vezes mais?

Contudo, aqueles que trabalham duro nas atividades do cultivo se queixam de que os cartéis cobram na passagem porcentagens leoninas. Na aldeia de Santiago, apenas uma ou duas propriedades suntuosas, além da igreja novinha em folha, atestam que o dinheiro circula e que os delinqüentes se mostram muito generosos com as “narco-esmolas”, um assunto controvertido no âmbito do clero católico. Bem mais visíveis são os veículos utilitários, os quais praticamente ninguém por aqui teria condições de comprar com a renda de um trabalho legal, ou ainda as pequenas “cuatrimotos” (pequenas motos de quatro rodas) japonesas, com as quais os jovens conseguem circular facilmente por todo lugar, além de desempenharem os papéis de mensageiros ou de vigilantes.

A sua preocupação principal: as incursões dos militares, cujos comboios, lotados de soldados que aparentam ser índios, originários do sul do país, também cavam profundamente as rodeiras da pista. Patrulhas e destruições de plantações forçaram uma queda dos lucros desde que o governo federal decidiu enfrentar os narcotraficantes, no final de 2006.

Esta pressão que vem crescendo sobre a Sierra Madre ocidental acabou resultando em tropeços e excessos. Em La Joya, em junho de 2007, uma barragem militar provocou a morte de uma mulher e dos seus dois filhos, metralhados junto com o restante da família dentro do seu carro. No final de março de 2008, um outro drama instaurou o luto em Santiago de los Caballeros, quando soldados - embriagados, segundo os testemunhos dos habitantes - massacraram quatro homens e feriram um quinto; todos os quais estavam circulando numa grande van 4×4. Eles não carregavam nem armas nem drogas. Mas, por si só, este caro veículo “off-road” sugere um vínculo com a economia paralela.

Tirando proveito da indignação popular, os chefes do cartel de Sinaloa organizaram manifestações de ruas, em Badiraguato nesta primavera, um ato que se sucedeu ao de Culiacán, em novembro de 2007, com o objetivo de protestar contra os “soldados assassinos” e de exigir que eles se retirem da serra. “Os homens do ‘Chapo’ Guzmán [chefe lendário do cartel] pagaram o transporte dos manifestantes, e deram para cada um deles 1.500 pesos [cerca de R$ 230]”, afirma Ismael Bojorquez, o diretor da revista semanal “Rio Doce”. Este jornalista se diz preocupado com a penetração da grande criminalidade nas camadas da sociedade: “É igual à água que se infiltra em tudo, na classe política, na polícia, entre os militares, no setor imobiliário, na música. Até então, os narcotraficantes eram caras trajando chapéu que desciam da serra. Atualmente, são empreendedores de colarinho branco que comandam um verdadeiro exército”.

A sociedade civil “honesta” sinaloense - aquela que dirige ou trabalha na rede de lojas de móveis e eletrodomésticos Coppel, ou dos grandes produtores de milho e de tomates - por muito tempo procurou adaptar-se ao problema. Os narcotraficantes tinham o seu bairro, Tierra Blanca, onde de vez em quando matavam uns aos outros, e depois organizavam festas de arrebentar um quarteirão. Aquele era um outro mundo. Daqui para frente, os melhores colégios privados aceitam seus filhos, e até mesmo o muito seleto condomínio de Los Alamos, onde os proprietários eram admitidos apenas por cooptação, teria aberto as suas portas para fortunas de origem duvidosa. Logo nos seus arredores, na Avenida Pedro Infante, uma extensa fileira de revendedoras de automóveis não deixa margem alguma para dúvidas em relação ao impacto econômico que eles exercem.

“O dinheiro domina tudo, e muitas adolescentes e jovens mulheres se mostram fascinadas com os traficantes”, denuncia Rosa Maria Robles. Esta artista plástica de Culiacán, que enfoca os seus trabalhos em torno dos temas do machismo e da violência, chegou a dependurar amplas faixas compostas por notas de dólares dentro do pátio do museu de arte da cidade. A sua exposição provocou um escândalo, sobretudo porque os visitantes pisavam sobre cobertores maculados de sangue, com os quais os matadores dos cartéis haviam realmente embrulhado os cadáveres das suas vítimas. As autoridades federais a obrigaram a desmontar esta instalação, intitulada “Tapete Vermelho”, e que ela havia colocado na frente de um grande espelho, “para que as pessoas se deparassem com si mesmas nesta situação”, diz.

Contudo, raros são aqueles que recusam este ambiente de cumplicidade. “São apenas os narcotraficantes que gastam e que esbanjam riquezas, nunca o povo!”, constata Alejandro Gaxiola, um motorista de táxi em Culiacán. Da mesma forma que a maioria dos comerciantes, ele deplora a redução do seu faturamento desde que os federais obrigaram os “capos” a se esconderem. As casas noturnas que estes freqüentavam passaram a enfrentar sérias dificuldades. Em 15 de junho, o Dia dos Pais, o que se viu, sobretudo, foram mulheres nas cerimônias que haviam sido organizadas, com grande reforço de música popular, dentro do cemitério dos Jardins do Humaya - o dos narcotraficantes -, em meio a uma confusão delirante de capelas neo-renascentistas dotadas de cúpulas coloridas.

Numa delas, uma mãe estava chorando diante do túmulo do seu filho, morto em março, aos 17 anos: a foto que decora sua pedra funerária o mostra sorridente, com uma pistola de grande calibre na mão. Aqui, homens em quantidade excessiva morrem antes de terem completado 30 anos, e em determinados dias, o necrotério tem a sua lotação esgotada e não pode receber mais cadáveres. Em 2007, Sinaloa ocupava o topo da lista dos Estados mexicanos que recensearam o maior número de assassinatos vinculados ao crime organizado. Em 2008, é o Estado de Chihuahua que ocupa provisoriamente o primeiro lugar.

Apesar do sangue derramado com uma brutalidade que não pára de aumentar, das decapitações destinadas a espalhar o terror, das mensagens com dizeres ameaçadores exibidas em faixas dependuradas em pleno centro da cidade, dos ataques por meio de fuzis de combate ou de metralhadoras, o universo dos narcotraficantes continua suscitando uma estranha fascinação.

Em Culiacán, os turistas são convidados a seguir um percurso pitoresco, que começa com a mansão decrépita de Rafael Caro Quintero, um ex-rei de Tierra Blanca, cujo revólver pregado de diamantes decora atualmente o museu da brigada antidrogas americana, a DEA, em Washington; a seguir, o visitante descobre diversas residências espalhafatosas, nos novos bairros de San Miguel e de Montebello, cuja propriedade é atribuída às estrelas regionais, o “Chapo” Guzmán, os irmãos Beltran Leyva ou o Mayo Zambada; segue-se a fachada crivada de balas na frente da qual, em maio, cinco agentes federais foram abatidos, atingidos mortalmente por granadas; e por fim, a visita se encerra no estacionamento de supermercado onde foi assassinado, também em maio, o filho do “Chapo”, um estudante. Havia 3.000 pessoas no seu enterro, além de gigantescas coroas de flores.

O fato de atacar os narcotraficantes, as autoridades sabem disso, implica no risco de uma desestabilização social. “Os subalternos que trabalham para essa gente ganham, no mínimo, cerca de 5.000 pesos [cerca de R$ 780] por semana. Vocês acham mesmo que eles irão aceitar trabalhar por 800 ou 1.000 pesos [de R$ 125 a R$ 155], o salário de base?”, indaga Alejandro, preocupado. “De jeito nenhum! Eles iriam organizar assaltos a bancos e seqüestros; e nós, as pessoas normais, ficaríamos duplamente prejudicados com isso”.

A economia está sofrendo, admite Rafael Calderón, um comerciante que nós encontramos no centro cultural regional, construído no lugar onde ficava a antiga prisão de Culiacán. “Mas”, acrescenta ele com uma voz suave, “ela estava sob os efeitos dos “narcóticos”, aquilo não era uma prosperidade real”. Junto com a sua mulher, ele nunca perde um único concerto da Orquestra Sinfônica de Sinaloa, que foi fundada em 2001 pelo americano Gordon Campbell. Ele enfrentou muitas dificuldades para conseguir reunir 62 músicos, por conta da sinistra reputação deste canto do México. Reforçada por jovens instrumentistas oriundos de Europa do Leste, esta orquestra simboliza uma bandeira de resistência que foi içada corajosamente acima de um mar de resignação.

“Dizem que a música suaviza os comportamentos”, murmura Rafael Calderón, sem acreditar muito neste provérbio. Desde o final de junho, os assassinatos retomaram com uma intensidade nunca vista em Sinaloa.

“Le Monde”

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