Arquivo de 13 de Agosto de 2008

Inflação, agronegócios e crise de governabilidade

Jorge Beinstein [*]

Em meados de Junho a confrontação entre o governo e as associações patronais do campo parecia haver chegado a um ponto de ruptura total –, mas não foi assim, pois poucos dias depois acalmavam-se as águas. A presidente decidiu transferir para o Parlamento a decisão final sobre os impostos à exportação de produtos agrícolas. Era o que esperavam os empresários rurais para levantar o seu lockout que começava a desgastar-se rapidamente, tal como a popularidade do governo. Foi o fim provisório de mais de cem dias de enfrentamento após os quais, como dizem agora alguns politólogos, “a Argentina já não é a mesma”.

A imagem da presidenta havia chegado a um nível de deterioração apenas comparável com o do ex-presidente De la Rua em Dezembro de 2001. Sua convocatórias para a mobilização em apoio ao governo haviam inflamado contra si as classes altas e sectores crescentes das classes médias. Por sua vez, os ruralistas haviam estendido sua influência unificando atrás de si o conjunto da oposição de direita e vastos sectores das classes médias rurais e urbanas – neste último caso inclusive grupos médio-baixos afectados por um processo inflacionário que ao longo dos últimos meses deteriorou o seu nível de vida.

Contudo, sua radicalização levava-os a um beco sem saída, especialmente no caso da pequena burguesia agrária próspera, uma espécie de “novos ricos” furiosos diante das cargas fiscais que turvavam suas expectativas de lucros abundantes e crescentes. A intransigência extremista a que haviam chegado nas suas exigências era de facto uma convocatória para o golpe de estado. No passado, talvez o seu desejo pudesse ter-se materializado, mas agora, a um quarto de século do fim da última ditadura militar, a capacidade de intervenção das Forças Armadas é quase nula – a sua degradação institucional e a pedra tumular moral que pesa sobre elas devido ao genocídio torna impraticável essa possibilidade. A outra alternativa golpista seria um tumulto de direita (uma espécie de 2001 ao contrário) amplificado pelos meios de comunicação e finalmente manipulado por um sector do sistema institucional (judicial, parlamentar nacional, governos provinciais, etc).

Mas os dirigentes das direitas política e rural não estavam dispostos a tentar semelhante aventura, em primeiro lugar porque o actual governo para além da sua imagem progressista respeitou integralmente o sistema neoliberal dominante herdado dos anos 1990. Em consequência, núcleos decisivos do poder económico não apoiariam de modo algum o derrube da presidenta. Em segundo lugar porque esse facto teria aberto uma espécie de caixa de Pandora, uma desordem geral que unido ao mais que provável afundamento das classes populares encurraladas pela alta dos preços dos alimentos poderia ter gerado uma avalanche muito extensa de protestos sociais. E finalmente porque em meados de Junho, apesar da persistente agitação dos meios de comunicação, a popularidade do movimento de direita mostrava sérios sinais de deterioração. A alta de preços e a ameaça do desabastecimento começavam a produzir reacções hostis para com os ruralistas provenientes de importantes sectores das classes médias e baixas.

As associações tradicionais da burguesia latifundiária, como a Sociedad Rural, que ao longo do conflito haviam mantido um perfil relativamente moderado, pressionaram com força para desacelerar o protesto. Os novos ricos do mundo agrário (pequenos e médios rentistas e agricultores) foram de facto a massa de manobras do bando dos agronegócios, acreditaram-se sujeitos de uma espécie de cruzada gaúcha contra o “estado ladrão” que lhes queria cobrar tributos extraordinários. Por debaixo dos emblemas e bandeiras pátrias movia-se, açulada pelas classes altas, uma classe média agrária mesquinha que pretendia apropriar-se de uma parte substancial do botim de super lucros do negócio exportador.

Contudo, seria um erro grosseiro limitar o fenómeno a esse aspecto sócio-económico. O leque civil mobilizado contra o governo foi muito mais amplo, estendeu-se às cidades, ganhou ímpeto nos grandes conglomerados urbanos incorporando importantes sectores médios, a maior parte deles sem vínculos materiais directos com o mundo agrário.

É certo que nos bairros acomodados de Buenos Aires, por exemplo, a vanguarda dos cacerolazos foram as “caçarolas de teflón” esgrimidas pelos ricos acompanhados por nostálgicos da última ditadura militar, mas o movimento estendeu-se às zonas de classe média e foi visível a simpatia despertada em sectores importantes da classe média urbana baixa.

A desestabilização

As mobilizações promovidas pelo governo realizaram-se a força de aparelho, o clima entre os trabalhadores foi de apatia ou indiferença e em certos casos de repudio não muito entusiasta à direita. O activismo pró governamental, por vezes auto-qualificando-se como “anti-oligárquico”, foi claramente minoritário.

Um factor decisivo da ascensão opositora nas camadas médias e de afastamento em relação ao oficialismo nas classes baixas (onde a presidenta colheu mais votos em 2007) é a inflação que deteriorou rapidamente os rendimentos reais dos assalariados.

Actualmente a direita política e seu guarda-chuva empresarial designam a inflação como o inimigo principal a combater para a qual voltam a levantar a tradicionais receitas neoliberais centradas no chamado “arrefecimento da economia” alcançado através da redução da despesa pública e do travão aos salários. O resultado seria um rápido incremento do desemprego e a precarização laboral e a redução da procura das classe baixas – mas não dos lucros empresariais que se manteriam ou aumentariam graças à descida dos custos salariais reais. Com menores gastos o Estado poderia preservar o superávite fiscal sem necessidade de aumentar os impostos, o que obviamente beneficiaria os empresários e as classes altas em geral. Ali de detém a ofensiva liberal, porque segundo eles o Estado deveria continuar a intervir no mercado cambial acumulando dólares e sustentando assim um dólar artificialmente muito alto, o que permitiria manter ou aumentar os altos rendimentos em pesos dos exportadores industriais e agropecuários. Neste esquema económico, a governabilidade só poderia ser sustentada com doses crescentes de repressão social e com a consolidação do bloco reaccionário (classes altas e média) tal como foram formando nos últimos meses. Mas ambas as condições são de obtenção muito difícil, as bases populares mudaram muito desde a década passada, a experiência de 2001-2002 marca um ponto de inflexão quase irreversível. Se se impuser a opção neoliberal a generalização e radicalização dos protestos populares daria lugar a um panorama de alta turbulência ao qual seguramente se incorporariam sectores intermédios que, afectados pela concentração de rendimentos, abandonariam seus delírios elitistas para voltar a olhar com simpatia os de baixo.

Pelo seu lado, o governo tenta desde há pouco mais de um ano enfrentar a inflação com medidas pontuais que não conseguem travar o processo. Desde o ocultamento da realidade com a manipulação de estatísticas até os acordos de preços sectoriais passando por toda classe de negociações com grupos empresariais e burocracias sindicais, foi desenvolvido um complicado jogo destinado a afugentar o clima inflacionário preservando a aliança social e mediática que havia sido a base da governabilidade desde 2003.

O governo temia que a referida aliança se rompesse a partir de baixo, a partir do espaço dos trabalhadores devido à persistente degradação dos salários reais, mas rompeu-se por cima, a partir do mundo dos agronegócios, a partir das camadas sociais mais beneficiadas pela estratégia económica kirchnerista desencadeando uma onda reaccionária cuja magnitude e radicalidade surpreendeu todos, ao governo naturalmente mas também aos seus instigadores directos, os dirigentes empresariais rurais.

A aplicação de impostos ou retenções móveis às exportações agrícolas, que apontam centralmente às vendas externas de soja, não constituem uma medida fiscalista. O estado dispõe de uma ampla variedade de fontes tributárias alternativas e conta com um superávite fiscal considerável, seu objectivo é o sistema de preços, a inflação pressionada pela repercussão interna da alta internacional dos preços dos produtos agrícolas. Mediu muito mal as possíveis repercussões da medida, mas quem as mediu bem? Nem os dirigentes patronais agrários, nem os meios de comunicação que os apoiam, suspeitavam a onda de protestos que se desencadearia e muito menos a rápida formação de uma massa social reaccionária cujo volume e dinamismo não tem precedentes no último meio século. Para encontrar algo parecido deveríamos retroceder até 1955 quando um enorme bloco de classes médias e altas apoiou (impulsionou) o golpe militar anti-peronista, também então, tal como agora, salpicado com manifestações racistas contra os pobres.

Inflação, capitalismo realmente existente e agronegócios

O processo inflacionário não é o resultado de um suposto “reaquecimento” económico e sim de uma combinação de factores internos e externos cuja convergência ultrapassa tanto o oficialismo como a sua oposição de direita.

Do ângulo dos custos de produção, a inflação internacional fez subir os preços de uma ampla variedade de insumos importados. Essa tendência viu-se reforçada pela política de dólar alto em benefício dos exportadores.

Mas um factor decisivo foi a corrida entre salários e lucros empresariais. Tomando por base as estatísticas oficiais, os salários reais caíram em média uns 30% em 2002 e começaram a recuperar-se no ano seguinte. Por volta de 2007 já se encontravam quase ao nível de 2001, antes do derrube, mas ainda eram inferiores aos de meados dos anos 1990.

Temos de levar em conta tendências a longo prazo como as do crescimento da taxa de desocupação e da concentração de rendimento. Estas foram avançando lentamente desde meados dos anos 1950 através de um movimento zigzagueante, expressão da correlação de forças entre os sindicatos e as empresas. O golpe militar de 1976 acelerou sua marcha, que adquiriu maior velocidade nos anos 1990. Em 2001-2001 verificou-se a derrocada dos salários e da despesa pública em termos reais, mas desde 2003 a recomposição económica produziu um incremento gradual do emprego, que cresceu cerca de 20% entre 2003 e o primeiro trimestre de 2007, dos salários reais (cresceram pouco mais de 30% no mesmo período) e da participação dos trabalhadores no Rendimento Nacional: 23% em 2003 e 28% em princípios de 2007, ainda que inferior à de 2001 próxima dos 31%, tudo isto de acordo com as estatísticas oficiais [1] . É muito provável que as referidas estatísticas exagerem os números positivos. Além disso, a recomposição salarial foi muito díspar. Entretanto, torna-se evidente que entre 2003 e 2006, o período de glória do kirchnerismo, as três variáveis acima mencionadas aumentaram. Frente a isto, numa primeira etapa o conjunto da classe capitalista aproveitou os baixos salários reais para acumular lucros festejando a expansão geral da procura interna.

Mas quando, entre fins de 2006 e princípios de 2007, os salários reais começaram a aproximar-se dos níveis de 2001, os empresários reagiram tentando reverter a situação. Comerciantes, industriais, produtores agropecuários, etc foram aumentando os preços dos seus produtos. Do seu ponto de vista, os aumentos nos preços dos insumos e dos salários estavam a comprometer margens de lucros até níveis “inaceitáveis”. Para eles, 2001-2002 (tal como 1976) marcava um ponto histórico irreversível.

A primeira onda inflacionária foi suave e pode ser absorvida pelo conjunto da população (inclusive os assalariados) e as relativamente pequenas retracções iniciais da procura nas classes baixas foram mais que compensadas por incrementos paralelos na procura das classes superiores. Mais adiante, a reconcentração de rendimentos (paralela à deterioração dos salários reais) impulsionou com mais força o fenómeno da “inflação de procura” proveniente dos sectores médios-superiores e altos.

O empurrão final foi produzido pela aceleração da alta dos preços internacionais dos produtos agrícolas, repercutindo sobre o sistema interno de preços (e sobre as expectativas de super-lucros nas classes altas e médias do mundo rural).

Como já assinalei, o governo – cujo negócio é a “governabilidade”, mãe do poder político e de todos os negócios oficiais – reagiu tentando impor retenções móveis às exportações agrícolas partindo do princípio de que os seus preços futuros, num horizonte previsível, serão cada vez mais altos. Foi ao mesmo tempo uma medida defensiva e preventiva que provocou o motim já conhecido, o que por sua vez acelerou o processo inflacionário.

Num dos seus primeiros discursos, ao iniciar-se o protesto rural, a presidenta assinalou estar “contra a luta de classes”. Declarou isso como uma espécie de “princípio doutrinário” irrenunciável. Como se está a ver, poder-se-á estar a favor ou contra, mas a luta de classes existe. O fundador do seu movimento costumava repetir há várias décadas, repetidas vezes, que “a única verdade é a realidade”. Fica aberto o debate sobre se se tratava ou não de um princípio doutrinário ou sobre o significado filosófico do conceito de “realidade”, etc, mas não poderá ser negado que constituía um apelo à sensatez e à dessacralização de fantasias irracionais. Por exemplo, se nos situarmos na Argentina actual, a ilusão quanto a um capitalismo harmónico, estável, ainda que subdesenvolvido e cada vez mais dominado pelos agronegócios (imersos numa avalanche de super-lucros especulativos) e em meio a uma formidável crise global.

A longa marcha do parasitismo financeiro

O agronegócio surge hoje como a cabeça, a área mais próspera do capitalismo argentino. A agressividade das suas hostes, seu tom autoritário, levou diversos grupos e comunicadores pró governamentais a qualificar o fenómeno como “renascimento oligárquico”, de resultado da “reprimarização económica”, de retorno ao velho sistema agro-exportador sobre o qual a aristocracia latifundiária colonial assentou o seu poder há mais de um século, deslocado depois pela industrialização e o primeiro peronismo.

Essa imagem oculta, o carácter claramente “financeiro” dos agronegócios e em consequência sua pertença ao movimento global de financeirização que cresce há quatro décadas e acabou por estabelecer sua hegemonia sobre a economia mundial. A massa total de fundos que circulam em suas redes especulativas aproxima-se dos mil milhões de milhões de dólares (equivalente a quase 16 vez o Produto Bruto Mundial). Só os negócios com os chamados “produtos financeiros derivados”, registados pelo Banco da Basiléia, rondam os 600 milhões de milhões de dólares. Esta hipertrofia parasitária impôs seu selo subcultural às mais variedades produtivas, tanto nos países centrais como nos periféricos. Isto é uma das causas decisivas da inflação internacional (cujo pilar fundamental é obviamente a explosão do preço do petróleo) e a principal fonte nutritiva da depredação ambiental planetária.

A referida tendência, expressão de decadência civilizacional, aprisionou as sociedades latino-americana já há muito tempo. O início do declínio da economia argentina habitualmente é estabelecido no segundo lustro dos anos 1970, durante a ditadura militar, quando emergiu dominante o sector financeiro como cabeça de um sistema mais vasto de actividades especulativas que foi deixando em segundo plano os sectores produtivos, principalmente a industria. Entre 1975 e 1981 o sector industrial cresceu apenas uns 2% em termos reais, ao passo que o financeiro fê-lo em quase 150% [2] .

Na Argentina, o nascimento da hegemonia financeira – que desde o princípio assumiu formas mafiosas – surgiu em resultado do esgotamento e decomposição do processo de industrialização (subdesenvolvida) evidente desde fins dos anos 1960, cuja mais alta expressão política foi o primeiro governo peronista (1945-55). O referido processo nunca pôde superar o velho esquema agro-exportador, com o qual coexistiu de maneira instável e confusa: para funcionar dependia das divisas das exportações provenientes do sector rural, o que determinava uma debilidade estratégica fundamental na sua inserção internacional. Isto prosseguiu até meados dos anos 1970, num contexto de interminável sucessão de golpes e contra-golpes de Estado e associações inter-sectoriais das quais participavam as transnacionais que iam ocupando posições, os credores externos, os industriais mais ou menos “nacionais”, os interesses da alta burguesia rural e comercial, os sindicatos, etc, numa espécie de eterno “empate” onde nenhum sector conseguia prevalecer de modo duradouro. De facto ia-se verificando pouco a pouco a recolonização do aparelho económico argentino (através da dívida externa, dos investimentos estrangeiros, do enfraquecimento comercial) ao mesmo tempo que se concentravam os rendimentos e degradava-se o Estado. Este retrocesso geral debilitava, quebrava uma após a outra as zonas de protecção económicas, institucionais e sociais, transformando o capitalismo local no seu conjunto.

A ditadura instalada em 1976 produziu uma mudança qualitativa, marcada pela avalanche especulativa, a queda salarial e a abertura importadora selvagem, que coincidiu na especificidade periférica argentina com o processo global de dominação financeira.

Em consequência, o predomínio dos agronegócios deve ser visto como a resultante (a mais recente degeneração socio-económica nacional) desse movimento externo-interno. A dinâmica do mundo rural argentino de hoje é inexplicável sem a introdução de termos como “pool de sementeira”, “fundo fiduciário” ou “rentista rural”. Por outro lado, seu auge é o produto da alta acelerada dos preços internacionais dos produtos agrícolas: componente da crise mundial do capitalismo, resultado do esgotamento tecnológico da modernização agrícola convertida em mega depredadora de recursos naturais, geradora de fomes em vastas zonas subdesenvolvidas, desestabilizadora de economias centrais e periféricas.

De qualquer forma, a “cultura financeira” dos centros dinâmicos do sistema rural argentino não significa a presença de uma “nova burguesia” apagando completamente as velhas raízes oligárquicas. O processo histórico foi mais complexo, as antigas classes dominantes agrárias foram mutando nas últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 1990, alguns sectores desapareceram do cenário, outros adaptaram-se com dificuldades e finalmente os ganhadores incorporaram-se de modo pleno nos novos tempos. Estes associaram-se com os recém chegados, em geral especuladores, estruturas financeiras locais e transnacionais (em numerosos casos é quase impossível diferenciar estas duas últimas categorias). Hoje, quando observamos a elite dirigente da economia agrária, encontramos velhos apelidos da aristocracia rural combinados com personagens surgidos dos negócios rápidos da era neoliberal, grupos financeiros globais, etc. Neste processo de “financiarização” ingressaram amplas camadas da classe média agrária como sócias dos novos empreendimentos ou como rentistas.

Por outro lado, não deveríamos opor de maneira esquemática os novos comportamentos da antiga cultura “oligárquica”, muitas vezes assinalada erroneamente como “pouco capitalista”, “atrasada” do ponto de vista do desenvolvimento burguês. Desde as suas origens no século XIX a elite dos pampas esteve impregnada de uma grande dinâmica comercial-financeira, seu carácter colonial concedeu-lhe uma identidade “internacional” (pró europeia), diversificou seus negócios na área urbana onde em geral residia, etc.

Em consequência, sua última mutação rumo aos agronegócios de alta tecnologia não significou a entrada num mundo totalmente novo e sim, antes, o salto qualitativo de processos recentes e também de outros muito longínquos no tempo.

Crise de governabilidade

A economia mundial, com centro nos Estados Unidos, está a entrar numa situação caracterizada pela combinação de inflação e desaceleração produtiva. A desordem inflacionário global chegou para ficar, certamente por muito tempo, embalada pela hipertrofia financeira, pressionada pela alta incessante dos preços do petróleo, dos alimentos e das commodities em geral.

Os agronegócios actuais são, entre outras coisas, “negócios inflacionários”, impulsionados por (e impulsionando) corridas especulativas internacionais (e intranacionais), golpes de mão e operações de curto prazo à procura de super-lucros, acumulações velozes de liquidez destinada a ser reinvestida nessa rubrica ou em outras. A depredação de tudo o que se cruza no seu caminho (recursos naturais, estruturas sociais, etc) é uma manifestação essencial do seu comportamento. No caso específico argentino é possível afirmar que o clima cultural prevalecente em princípios desta década (bem adubado pelo período menemista) estava perfeitamente preparado para essa avalanche capitalista global. O governo dos Kirchner, agora vítima do fenómeno, alentou-o desde a sua chegada porque considerou-o um factor decisivo da “prosperidade económica” que assegurava a estabilidade institucional. Os recordes de exportações agrícolas (ou seja, a ascensão triunfal dos agronegócios) eram apresentados pelo oficialismo como exemplo do êxito empresarial da nova Argentina onde a acumulação de reservas dolarizadas, as altas taxas de crescimento do PIB e o enriquecimento dos poderosos costumavam ser associadas à integração social, a recuperação de salários e empregos e a consolidação da convivência republicana.

Aparentemente, o “progressismo” havia finalmente encontrado a fórmula da quadratura do círculo: subdesenvolvimento capitalista próspero com inclusão dos de baixo e democracia representativa. Mas a festa durou menos de um lustro, os agronegócios foram acumulando poder económico, mediático e político e no primeiro semestre de 2008 já estiveram em condições de expor seu poderio e avançar rumo a uma super concentração de rendimentos.

Ao fazê-lo deterioram gravemente não só a governabilidade progressista como também a governabilidade em geral: a inflação descontrolada e a irrupção de uma massa social reaccionária muito agressiva e extensa, com claros germens protofascistas, pôs a nu a debilidade do regime político, sua insuficiente legitimidade. De maneira aparentemente “inesperada” começou a enésima crise de governabilidade da história argentina. A mesma não foi originada pela derrocada económica e sim pela prosperidade (agroexportadora), seu contexto internacional está sobredeterminado pela crise estagflacionária global, a burguesia ganhadora que a desencadeou dificilmente poderá transformar o seu domínio económico num sistema integral e durável de controle político da sociedade, sua ascensão é desestabilizadora. De qualquer modo, não parece preocupá-la demasiado o futuro em geral e muito menos o futoro da “democracia” virtual argentina. Sua obsessão é acumular grandes lucros o mais rapidamente possível, seu mundo é o do curto prazo e corresponde à voragem nihilista dos centros financeiros do planeta.

Enquanto isso, o governo e a totalidade dos grandes meios de comunicação insistem em que a Argentina se encontra perante “uma grande oportunidade” de enriquecer-se graças à ascensão vertiginosa dos preços dos alimentos. O facto de o mesmo submergir na fome centenas de milhões de seres humanos não parece motivar neles nenhuma reacção ética. Sua pequena “racionalidade” amoral impede-os de perceber, a partir de uma visão racional mais ampla, a catástrofe para qual se encaminham enquanto contabilizam seus lucros extraordinários, ao encharcarem-se no mar turbulento da área mais instável da economia mundial, com seus preços zigzagueantes e seus estouros financeiros.

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Lamento estragar a diversão, mas vem aí uma idade do gelo

Phil Chapman [*]

A foto mais assustadora que já vi na internet está em www.spaceweather.com , onde encontrará uma imagem em tempo real do Sol tomada pelo Solar and Heliospheric Observatory, localizado no espaço profundo no ponto de equilíbrio entre a gravidade solar e terrestre.

O assustador nesta foto é que há apenas uma diminuta mancha solar.

Desconcertante como possa ser para os verdadeiros crentes do aquecimento global, a temperatura média sobre a Terra tem permanecido firme ou em declínio lento durante a última década, apesar do contínuo aumento da concentração atmosférica do dióxido de carbono, e agora a temperatura global está a cair precipitadamente.

Todas as quatro agências que rastreiam a temperatura da Terra (o Hadley Climate Research Unit na Grã-Bretanha, o NASA Goddard Institute for Space Studies em Nova York, o grupo Christy na University of Alabama, e Remote Sensing Systems Inc na Califórnia) relatam que ela arrefeceu cerca de 0,8ºC em 2007. Isto constitui a mudança de temperatura mais rápida no registo instrumental e traz-nos de volta ao ponto em que estávamos em 1930. Se a temperatura não recuperar em breve, teremos de concluir que o aquecimento global está ultrapassado.

Também há uma abundância de evidências anedóticas de que 2007 foi excepcionalmente frio. Nevou em Bagdad pela primeira vez em séculos, o Inverno na China foi simplesmente terrível e a extensão do gelo marítimo Antárctico no Inverso Austral foi a maior já registada desde que James Cook descobriu o lugar em 1770. [NR]

Não é possível retirar conclusões acerca de tendências climáticas a partir de eventos num único ano, de modo que eu normalmente ignoraria este golpe de frio como transitório, dependendo do que aconteça nos próximos poucos anos.

É aqui que entra o SOHO . O número de manchas solares segue um ciclo de comprimento um tanto variável, com termo médio de 11 anos. O mínimo mais recente foi em Março do ano passado. O novo ciclo, Nº 24, era suposto começar logo após aqueles, com uma acumulação gradual do número de manchas solares.

Isto não aconteceu. A primeira mancha solar apareceu em Janeiro deste ano e durou apenas dois dias. Um ponto diminuto apareceu segunda-feira passada mais desvaneceu-se em 24 horas. Outro pequeno ponto apareceu nesta segunda-feira. Rezemos para que haja muitos mais, e dentro em breve.

A razão porque isto importa é que há uma estreita correlação entre variações no ciclo de manchas solares e o clima da Terra. O período anterior em que um ciclo foi prolongado tal como este foi no Dalton Minimum, um período especialmente frio que perdurou durante várias décadas a partir de 1790.

Os Invernos no Norte tornaram-se ferozes: em particular, a derrota do Grande Exército de Napoleão durante a retirada de Moscovo em 1812 foi pelo menos parcialmente devida à falta de manchas solares.

O rápido declínio da temperatura em 2007 tenha coincidido com a falha do ciclo Nº 24 em começar no tempo previsto não é prova de uma conexão causal mas é motivo para preocupação.

Já é tempo de por de lado o dogma do aquecimento global, pelo menos para começar o planeamento de contingência do que fazer se estivermos a nos mover para um outra pequena idade do gelo, semelhante àquela que perdurou de 1100 a 1850.

Não há dúvida de que a próxima pequena idade do gelo seria muito pior do que a anterior e muito mais danosa do que qualquer coisa que o aquecimento pudesse fazer. Há muitas pessoas agora e tornámo-nos dependentes de umas poucas áreas de agricultura temperada, especialmente nos EUA e Canadá. O aquecimento global aumentaria a produção agrícola, mas o arrefecimento global irá diminuí-la.

Milhões passarão fome se nada fizermos como preparação para isto (tal como mudanças de planeamento na agricultura a fim de compensar), e outros milhões mais morrerão de doenças relacionadas com o frio.

Há ainda uma outra possibilidade, remota mais muito mais séria. Os núcleos de gelo da Gronelândia e Antárctica e outras evidências mostram que nos últimos vários milhões de anos uma glaciação severa afligiu gravemente o nosso planeta.

A verdade negra é que, sob condições normais, a maior parte da América do Norte e da Europa são cobertas sob cerca de 1,5 km de gelo. Este clima drasticamente frígido é interrompido ocasionalmente por breves aquecimentos interglaciais, que tipicamente perduram menos de 10 mil anos.

O período interglacial que desfrutamos através da história humana registada, chamado Holoceno, começou 11 mil anos atrás, de modo que o gelo está atrasado. Também sabemos que a glaciação pode ocorrer rapidamente: o declínio necessário na temperatura global é cerca de 12ºC e pode acontecer em 20 anos.

A próxima descida numa idade do gelo é inevitável mas pode não acontecer por mais 1000 anos. Por outro lado, deve ser observado que o resfriamento em 2007 foi ainda mais rápido do que em transições glaciais típicas. Se ele continuasse durante 20 anos, a temperatura em 2027 seria 14ºC mais fria.

Nessa altura, a maior dos países avançados teria cessado de existir, desaparecendo sob o gelo, e o resto do mundo seria confrontado com uma catástrofe para além da imaginação.

A Austrália pode escapar à aniquilação total mais certamente seria invadida por milhões de refugiados. Uma vez principiada a glaciação, ela perdurará 1000 séculos, um intervalo de tempo incompreensível.

Se a pequena idade do gelo está a chegar há uma pequena probabilidade de que possamos impedir ou pelo menos atrasar a transição, se estivermos preparados para agir suficientemente cedo e numa escala suficientemente ampla.

Por exemplo: Poderíamos juntar todos os bulldozers do mundo e utilizá-los para sujar a neve no Canadá e na Sibéria na esperança de reduzir a reflexão (reflectance) de modo a absorver mais calor do Sol.

Também podemos libertar enormes fluxos de metano (um gás com efeito estufa poderoso) a partir dos hidratos sob a camada de terra congelada (permafrost) do Árctico e sobre as plataformas continentais, utilizando talvez armas nucleares para desestabilizar os depósitos.

Não podemos saber realmente, mas a minha estimativa é de que as probabilidades sejam de pelo menos 50-50 de que nas próximas décadas veremos resfriamento significativo ao invés de aquecimento.

A probabilidade de que estejamos a testemunhar o início de uma idade do gelo real é muito menor, talvez um em 500, mas não totalmente desprezível.

Todos aqueles que pressionam por acções para reduzir o aquecimento global precisam retirar as viseiras e pensar um pouco no que deveríamos fazer se ao invés disso estivermos a enfrentar o arrefecimento global.

Será difícil para as pessoas enfrentar a verdade quando as suas reputações, carreiras, gratificações do governo ou esperanças de mudança social dependem do aquecimento global, mas o destino da civilização pode estar em causa.

Nas famosas palavras de Oliver Cromwell, “Suplico-lhe, pelas entranhas de Cristo: pense na possibilidade de estar errado”.

[*] Geofísico e engenheiro astronáutico, vive em San Francisco. Foi o primeiro australiano a tornar-se astronauta da NASA.

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1968, a Revolução Globalizada (Parte V)

Voltaire Schilling

A Internacional Estudantil
“We shall fight/ We will win/ Paris, London, Rome, Berlin..” (lutaremos, venceremos, Paris,etc…) Slogan dos contestadores ingleses, 1968.

Naquele ano de 68 coube aos estudantes de Berlim tomarem a dianteira nos protestos contra a guerra no Sudeste asiático. Em seguida a Ofensiva do Tet, os militantes da SDS (Socialistische Deutsche Studentenbund), organizaram em 17 de fevereiro de 1968 um Congresso Internacional sobre o Vietnã, conclamando as mais diversas lideranças universitárias a se fazerem presentes nos auditórios da Universidade Livre de Berlim.

Apresentaram-se jovens gregos, franceses, italianos, escandinavos e de outras procedências para debaterem em foros repletos quais estratégias de oposição a serem adotadas contra a continuidade da guerra. Nas paredes pendiam enormes retratos de Che Guevara que se alternavam com bandeiras da Frente de Libertação do Vietnã.

Num dos seus discursos, Rudi Duschke, líder máximo da SDS, associou a luta do povo vietnamita contra a intervenção norte-americana como idêntica à travada pelos estudantes europeus frente à continuidade da sociedade de classes em que viviam. A batalha antiopressão era a mesma apesar dos espaços geográficos serem tão distintos.

Todos saíram impressionados com a organização dos alemães, com seus slogans e estandartes prontos e com seus esquemas de segurança ativados. Os franceses, particularmente, em breve iriam por em prática daquilo que viram em Berlim (ver Mark Kurlansky- 1968, o ano que abalou o mundo, págs. 201-5). Foi na ex-capital germânica pois que se estruturou a Internacional Estudantil que logo iria por fogo em boa parte do mundo.

A conflagração alemã mais extremada deu-se a partir do atentado sofrido dois meses depois por Rudi Dutschke, em abril de 1968. Em Berlim, Frankfurt e demais cidades universitárias, as marchas de protesto redundaram em grandes batalhas campais contra a policia e ataques aos veículos da mídia impressa do grupo Axel Springer, de direita.

O fracasso que se seguiu às esperanças despertadas pela mobilização estudantil fez com que muitos militantes resolvessem ingressar na RAF (Rotte Armee Faccion), também conhecido pelo nome dos seus dirigentes como o Grupo Baader-Meinhoff que, nos anos 70, tentaram manter um clima revolucionário na Alemanha Ocidental através de atentados terroristas e assassinatos seletivos, atacando grandes empresários e barões da mídia, a quem eles acusavam de serem parciais.

Praticamente a mesma trajetória vamos encontrar na Itália, onde os estudantes rompidos com o Partido Comunista Italiano, a quem acusavam de conciliar com a burguesia, aderiram à violência revolucionária com a fundação das Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse) que chegaram a seqüestrar e matar o primeiro-ministro Aldo Moro em 1978.

Pode-se dizer que os enfrentamentos generalizados que caracterizaram boa parte dos anos 70, (ativada pelos grupos Brigate Rosse, Baader-Meinhoff, Black Panthers, ERP, Montoneros,Tupamaros, Var-Palmares, Exército Vermelho japonês, etc.) foram subproduto das esperanças e das energias despertadas em choque com a frustração que se seguiu.

Na América Latina, o resultado foi mais trágico porque o movimento estudantil não se deparou com regimes democráticos mas sim com regimes militares, ou com a “ditadura perfeita” que governava o México desde os anos vinte.

O sacrifício de sangue na Praça Tlatelolco

O mais violento ato de repressão oficial ocorrido no Continente Americano no ano de 1968 foi o massacre dos estudantes perpetrado pela polícia antimotim e guarnições do exército mexicano sob determinação do governo. Calculou-se no total 26 mortos e 300 feridos, além de mais de mil aprisionados pelas forças da ordem (outros dados apontam de 300 até 700 mortos!). A multidão formada em larga parte por alunos da UNAM (Universidade Autônoma do México), que se manifestava na praça de Tlatelolco, também chamada de Praça das Três Culturas, na Cidade do México, em 2 em outubro de 1968, e que gritava não querer os Jogos Olímpicos mas sim a Revolução, foi dissolvida a tiros.

O banho de sangue se deu há menos de dez dias da inauguração dos jogos olímpicos de 1968. Ação repressiva essa coordenada por Luis Echeverría, secretário do interior e ministro do governo do então presidente Gustavo Díaz Ordaz. Ele foi o chefe do Comitê Estratégico encarregado pelo presidente mexicano de decepar a todo o Movimento Estudantil para que os jogos transcorressem com tranqüilidade (a título de comparação, em Paris apenas um estudante morreu nos distúrbios e a ação oficial mais violenta foi a expulsão do país de Daniel Cohn-Bendit que era de nacionalidade alemã).

Echeverría, em reconhecimento por ter feito aquele trabalho brutal, foi indicado pelo PRI como sucessor de Díaz Ordaz, assumindo a presidência do México entre 1970 e 1976. A professora Elaine Carey associou a matança da Praça Tlatelolco aos antigos rituais de sangue presididos pelos sacerdotes astecas que inumavam suas jovens vítimas retirando-lhes o coração vivo do peito.

A rebelião no Brasil

Pouco mais de um mês antes de ocorrer o levante dos estudantes parisienses, no Rio de Janeiro em 28 de março de 1968, um secundarista carioca chamado Edson Luís foi morto numa operação policial da PM carioca durante a dispersão a um protesto em frente ao restaurante universitário “Calabouço”. Deu-se uma comoção nacional em torno da jovem vítima. O enterro dele fez-se acompanhar por uma multidão de 50 mil pessoas, estando presentes inúmeros intelectuais e artistas que marcharam juntos pelas ruas e avenidas centrais da cidade com profundos sentimentos de tristeza e indignação.

A partir daquele momento o Brasil entraria nos dez meses mais tensos e convulsionados da sua história do após-guerra. A insatisfação da juventude universitária com o Regime Militar de 1964, recebeu adesão de escritores e gente do teatro e do cinema perseguidos pela censura. As principais capitais do país, principalmente o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, em pouco tempo se tornaram praça de guerra onde estudantes e policiais se enfrentavam quase que diariamente.

Cada ação repressora mais excitava a juventude à oposição e a jogar-se nas ruas. Naquela altura apenas os estudantes enfrentavam o regime pois os lideres civis da Frente Ampla (Carlos Lacerda, Juscelino Kubischek e João Goulart, que estava exilado) haviam sido cassados.

26 de junho daquele ano 100 mil pessoas - a Passeata dos Cem Mil - marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro liderados por Vladimir Palmeira, presidente da UME (União Metropolitana de Estudantes), exigindo abrandamento da repressão, o fim da censura e a redemocratização do pais. A novidade foi a significativa presença de religiosos, padres e freiras, que aderiram aos protestos. juntamente com artistas famosos como Chico Buarque, Caetano Velloso, a escritora Clarice Lispector, a atriz Norma Bengell, a cantora Nara Leão e o poeta Vinicius de Moraes, entre tantos outros mais. A juventude da época dividiu-se entre os “conscientes”, nos politizados que participavam das passeatas e dos protestos, e os “alienados”que não se inclinavam por ideologias ou pela política. Apesar da magnitude da manifestação, a comissão de cidadãos encabeçada pelo psicanalista Hélio Pelegrino, que partiu do Rio de Janeiro para Brasília, não foi recebida pelo presidente-ditador

Em apoio ao regime surgiu o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), organização de extrema-direita formada por policiais e militantes direitistas que se especializou em atacar peças de teatro e em espancar atores e músicos considerados subversivos.

Em outubro, ao organizar clandestinamente o 30º congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o movimento estudantil praticamente se suicidou. Descobertos em Ibiúna no interior de São Paulo, 1200 jovens foram presos. A liderança inteira, entre eles Vladimir Palmeira e José Dirceu, caiu nas mãos da policia numa só operação. Como coroamento do desastre, o regime militar, sob chefia do general Costa e Silva, decretou, em 13 de dezembro, o AI-5 (Ato Institucional nº 5).

Fechou-se o Congresso, prenderam-se milhares de oposicionista e suprimiram-se as liberdades civis que ainda restavam. A partir de então muitos jovens aderiram a luta armada entrando para organizações clandestinas tais como a ALN (Ação de Libertação Nacional), a VAR-Palmares ou dezenas de outras restantes. Por volta de 1972 o regime militar esmagara todas elas, fazendo com que os sobreviventes se exilassem ou fossem condenados a longas penas de prisão.

Pode-se dizer que a rebelião estudantil, se por um lado precipitou a abolição das liberdades marcando a transição do Regime Militar para a Ditadura Militar, por outro anunciou bem mais para o futuro o Movimento das Diretas-já, de 1984, que pôs término aos 20 anos de autoritarismo no Brasil.

Cronologia dos acontecimento no Brasil

28/3/1968

O estudante Edson Luís Lima Souto é morto durante uma manifestação contra o fechamento do restaurante Calabouço.

No dia seguinte, cerca de 50 mil pessoas participam do cortejo fúnebre.

29/3/1968

A UNE decreta greve geral dos estudantes.

26/6/1968

A UNE promove a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro.

10/1968

é realizado clandestinamente o XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). São presas mais de 700 pessoas, entre elas as principais lideranças do movimento estudantil: Luís Travassos (presidente eleito), Vladimir Palmeira, José Dirceu, Franklin Martins e Jean Marc Von Der Weid.

13/12/1968

é decretado o AI-5. Centros cívicos substituem os grêmios estudantis.

1969

A UNE tenta manter uma direção com a eleição de Jean Marc Von Der Weid através dos Congressinhos Regionais.

26/2/1969

O governo Costa e Silva baixa o decreto-lei no 477, que penaliza professores, alunos e funcionários de estabelecimentos de ensino público (até 1973, esse decreto atingiria 263 pessoas, a maioria estudantes).

“Educaterra”

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1968, a Revolução Globalizada (Parte IV)

Voltaire Schilling

De Praga à Varsóvia, o Leste se agita
Em 5 de abril de 1968 o povo tcheco tomou-se de surpresa quando soube dos principais pontos do novo Programa de Ação do PC tchecoslovaco. Fora uma elaboração de um grupo de jovens intelectuais comunistas que ascenderam pela mão do novo secretário-geral Alexander Dubcek, indicado para a liderança em janeiro daquele ano, um completo desconhecido decidira-se a fazer uma reforma profunda na estrutura política do país: dar “um rosto humano ao socialismo”.

O líder tcheco imaginara desestalinizá-lo definitivamente, removendo os derradeiros vestígios do autoritarismo e do despotismo partidário que ele considerava aberrações inaceitáveis no sistema socialista. De certo modo o que passou a ocorrer então em Praga fazia eco das manifestações que ocorriam na Polônia desde março daquele ano.

Em Varsóvia, desde que o regime comunista decidira no dia 30 de janeiro de 1968 encerrar a apresentação teatral da peça Dzydy (”Véspera do dias dos ancestrais”) do poeta patriota Adam Mickiewicz, falecido em 1855, um herói das letras polonesas,

encenada no Teatro Nacional, os protestos estudantis eclodiram.

Em geral, as concentrações dos jovens eram reprimidas por milícias de operários arrebanhados pelo regime para vir espancar os jovens nas ruas da capital, acusados de serem bem-nascidos e filhos mimados do regime. O resultado é que as manifestações contra o governo se alastraram para Cracóvia, Lodz e Gdansk. A situação ficou ainda mais tensa quando a Igreja Católica deu seu apoio às queixas dos estudantes que gritavam pelas avenidas “De nada serve ter pão sem liberdade”.

Entre os principais intelectuais questionadores emergiram as lideranças de Jacek Kurón, educador e historiador, e de Karol Modzelewski, professor e historiador, ambos fundadores do clube Krzywe Koło, o Circulo Curvo, dedicado a debater assuntos teóricos e literários que ambos criaram em 1955, e que tornou-se uma célula de contestação. (*)

(*) Kurón, que foi condenado a três anos de prisão em 1968 por ter apoiado os Eventos de Março em Varsóvia, como o levante universitário foram chamado, mais tarde projetou-se como personalidade proeminente no Movimento Solidariedade, surgido em Gdansk 1980.

A Primavera de Praga

Apesar da desestalinização ter-se iniciado no XXº Congresso do PCURSS, em 1956, a Tchecoslováquia ainda era governada por antigos dirigentes identificados com a ortodoxia. Ainda viviam sob a sombra do que Jean-Paul Sartre chamou de “o fantasma de Stalin”. Dubcek achou que era o momento de “dar uma face humana ao socialismo”.

Além de prometer uma federalização efetiva, o líder checo assegurava uma revisão constitucional que garantisse os direitos civis e as liberdades do cidadão. Entre elas a liberdade de imprensa e a livre organização partidária, o que implicava no fim do monopólio do partido comunista. Todos os perseguidos pelo regime seriam reabilitados e reintegrados. Doravante a Assembléia Nacional multipartidária é quem controlaria o governo e não mais o partido comunista, que também seria reformado e democratizado. Uma onda de alegria inundou o país. Chamou-se o movimento, merecidamente, de ” A Primavera de Praga”.

De todos os lados explodiram apelos em favor da rápida democratização. Em junho de 1968, um texto de “Duas Mil Palavras” saiu publicado na Liternární Listy (A Gazeta Literária), redigido por Ludvik Vaculik, com centenas de assinaturas de personalidades de todos setores sociais, pedindo a Dubcek que acelerasse o processo de abertura. Acreditavam que seria possível transitar pacificamente de um regime comunista ortodoxo para uma social-democracia ocidentalizada. Dubcek tentava provar o que até então se entendia impraticável :a possibilidade do convívio entre uma economia coletivizada com a mais ampla liberdade democrática.

O mundo olhava para Praga com apreensão. O que fariam os soviéticos e os seus vizinhos comunistas do Pacto de Varsóvia? As liberdades conquistadas em poucos dias pelo povo tcheco eram inadmissíveis para as velhas lideranças das “Democracias Populares”. Se elas vingassem em Praga eles teriam que também liberalizar os seus regimes. Os soviéticos, por sua vez, dominados pela psicologia de “fortaleza socialista sitiada”, temiam as conseqüências geopolíticas.

Uma Tchecoslováquia social-democrata e independente significava sua provável saída do Pacto de Varsóvia, o sistema defensivo anti-OTAN montado pela URSS em 1955. Uma brecha em sua muralha seria aberta pela defecção de Dubcek. Isto revelou ser inadmissível para os estrategistas do Kremlin, liderados por Leonid Brejnev.
Então, numa operação militar de surpresa, as tropas do Pacto de Varsóvia lideradas pelos tanques russos entraram em Praga no dia 20 de agosto de 1968. A “Primavera de Praga” sucumbia perante a força bruta. Sepultaram naquela momento qualquer perspectiva do socialismo poder conviver com um regime de liberdade. Dubcek foi levado a Moscou e depois destituído. Cancelaram-se as reformas, mas elas lançaram a semente do que vinte anos depois seria adotado pela própria hierarquia soviética representada pela política da glasnost de Michail Gorbatchov. Como um toque pessoal e trágico, em protesto contra a supressão das liberdades recém-conquistadas, o jovem Jan Palach incinerou-se numa praça de Praga em 16 de janeiro de 1969.

“Educaterra”

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1968, a Revolução Globalizada (Parte III)

Voltaire Schilling

As barricadas de maio em Paris

Estudante (observando o recinto): “Para ser bem sincero almejo ir-me embora. Esses muros antigos, ambiente abafado, em nada isto me agrada, estou desanimado. O espaço é muito pouco, estreito, desencanta. Não se vê um jardim, não há nenhuma planta. Velhas colunas, bancos, completo desalento. Aqui se embota o ouvido, a vista e o pensamento.” - Goethe - Fausto, 1808

A década dos anos sessenta estava para terminar, e era uma das primeiras em que a França usufruía de paz e tranqüilidade interna. Nos anos trinta, o pais se vira dividido entre o Fronte Popular dos esquerdistas liderados pelo socialista Leon Blum, e os ativistas da Ação Francesa de Charles Maurras, de inclinação fascista, cisão interna que quase descambou para a guerra civil, situação que muito facilitou a vitória militar dos nazistas em 1940. Na década de quarenta, sofreu com a ocupação alemã e atravessou tempos dolorosos de muitos sacrifícios exigidos para recuperar-se no após guerra. Nos anos 50 viu-se derrotado no Vietnã do Norte e, em seguida, obrigado a ceder a independência da Argélia, sua antiga colônia africana, situação que quase descambou para uma aberta guerra civil provocada pela ultra-direita e pelos generais que comandavam as tropas francesas do Magreb e que não aceitavam a perda da possessão norte-africana.

A partir de 1959, a ascensão ao poder da V República pelo general Charles De Gaulle, herói de guerra e totem nacional francês, agiu como um bálsamo sobre as angustias do país. Elaborando uma constituição adequada ao seu perfil autoritário e imperial, a desordem geral foi evitada e a estabilidade interna recuperada. A economia nacional então decolou. Nas vésperas do amotinamento estudantil de Maio de 1968, a França anunciara um crescimento de 6,5% do seu PNB. O desemprego praticamente não existia mais. Foi então que o furacão se desencadeou.

De Nanterre a Sorbonne

Em 1965, na periferia da capital francesa, instalou-se Universidade Paris-Nanterre para acolher estudantes que não ingressavam no circuito superior tradicional (Sorbonne, Escola Normal, Escola Politécnica, etc..), voltada exclusivamente para as áreas humanas. Em pouco tempo, o local tornou-se um centro de contestação e o verdadeiro caldeirão do radicalismo da ultra-esquerda que atiçou o incêndio que envolveu a sociedade francesa.

Em princípios de 1968 os estudantes convidaram Wilhelm Reich para uma palestra mas as autoridades vetaram-no. A questão sexual voltou a cena quando o líder estudantil Daniel Cohn-Bendit questionou o Ministro da Juventude e dos Desportos. As manifestações que se seguiram foram reprimidas pela polícia. Em represália os estudantes ocuparam Nanterre em 22 de março. Seus colegas da Sorbone se solidarizaram.

Em 3 de maio a histórica Sorbonne, a mais antiga universidade da França, foi fechada pelas autoridades, o que nunca ocorrera em 700 anos da sua existência.O movimento então se espalhou com mais furor ainda. Passeatas estudantis, organizadas pela UNEF (Union nationale des étudiants de France), foram dissolvidas com violência cada vez maior pela CRS (Compagnies Republicaines de Sécurité), a policia de choque do regime. Indignados, os jovens ergueram obstáculos nas ruas centrais de Paris que davam acesso ao famoso Quartier Latin, antigo centro de ensino superior da cidade.

Eles representavam um número considerável dentro de Paris. Dos mais de 500 mil alunos do ensino superior existentes no país, 160 mil deles estavam inscritos na Universidade de Paris (um complexo acadêmico composto por 13 unidades espalhadas pela cidade), seguidos de um número bem maior de alunos matriculados nos liceus da capital.

A maior batalha deu-se no dez de maio: a “noite das barricadas”. Aquelas alturas ganharam as simpatias de outros setores sociais: sindicalistas, professores, funcionários, jornaleiros, comerciários, bancários, aderiram a causa estudantil. De protesto contra o autoritarismo e o anacronismo das academias, o Movimento de Maio rapidamente transformou-se, com a adesão dos operários, numa contestação política ao regime gaulista. O turbilhão cujo epicentro fora a Universidade de Nanterre parecia avançar sobre a cidade inteira.

Paris, de pernas para o ar

O centro de Paris, com o calçamento revirado, vidraças partidas, postes caídos e carros incendiados, assumiu ares de bairro rebelado, dilacerado pelas sucessivas batalhas entre pedras e cassetetes. No alto das casas e dos prédios tremulavam bandeiras negras dos anarquistas, lembrando os tempos da Comuna de 1871. De 18 de maio a 7 de junho, 9 milhões de franceses declararam-se em greve geral. No dia 13 de maio um milhão e duzentos mil marcharam pelas ruas em protesto contra o governo.

Liderados por Daniel Cohn-Bendit (Dany le rouge), apelidado também de Lenin de Nanterre, Alan Geismar, Jacques Sauvageot e Alain Krivine, que compunham a linha dura do enfrentamento, os manifestantes colocaram em xeque os pelotões do prefeito da polícia Maurice Grimaud, o xerife do regime gaulista.

Distanciando-se do marxismo “oficial”, de matriz stalinista, referendado pelos soviéticos e pelo PC francês, muitos deles trataram de ressuscitar pensadores marxistas críticos, que haviam desaparecido do cenário intelectual das esquerdas, tais como Rosa Luxemburgo, Karl Korsch, Antonio Gramsci, o jovem Lukács, bem como os intelectuais da Escola de Frankfurt, dos quais Herbert Marcuse era o mais ativo.

De Gaulle, em 29 de maio, chegou a viajar secretamente para a base francesa em Baden-Baden, na Alemanha, para obter apoio do general Massu para uma possível intervenção militar. Enquanto isso delegados governamentais negociavam em Grenelle com os sindicatos uma série de melhorias e compensações para retirar os trabalhadores da greve e afastá-los dos jovens radicais. Os comunistas, por sua vez, negaram-se a se associar a qualquer tentativa de assaltar o poder. Ao contrário, George Marchais, líder do partido, declarou que “Esses falsos revolucionários precisam ser denunciados”. Declaração que fez J.P.Sartre e os demais intelectuais esquerdistas denunciá-lo dizendo que “Os comunistas temem a revolução.”

Recuperando-se do imobilismo, o velho estadista propôs uma solução eleitoral para superar os embaraços criados pela revolta estudantil. Graças a isso, com o apoio de uma imensa manifestação da “maioria silenciosa” que marchou pelos Campos Elíseos no dia 31 de maio em favor do restauro da ordem, conseguiu evitar um motim social e possivelmente uma guerra civil. Em reforço, ordenou que a Segunda Divisão de Infantaria, aquartelada nas proximidades de Paris, aguardasse o momento de intervir, secundada pelas tropas a serem enviadas pelo general Massu da Alemanha, se uma solução pacífica não fosse alcançada.

Disse na televisão que o seguissem ou que o demitissem, alertando aos cidadãos que provavelmente um governo de inclinação comunista era capaz de sucede-lo. Aquelas alturas, passados mais de trinta dias de arruaças e desordens, de descomunais enfrentamentos entre os jovens e a polícia, a sociedade francesa desejava o retorno da normalidade. A Comuna Estudantil então recuou frente ao Partido da Ordem representado pelo general.

Os gaulistas obtiveram uma significativa vitória nas eleições de 23-30 de junho, ocupando 358 dos 487 assentos da Assembléia Nacional, isto é 73% deles. A partir de então, massacrado pelas urnas, o movimento refluiu. A tormenta passara, mas o presidente, enfraquecido com aqueles tumultos todos renunciou em 27 de abril de 1969, depois de ter chefiado a V República por dez anos (1959-1969).

Apesar do aspecto quase que universal dos acontecimentos de 1968, até hoje se associa o ocorrido como pertinente à França, mais do que a qualquer outro lugar. Ainda que em Paris os eventos mais dramáticos tenham se concentraram apenas num só mês e não terem provocado nenhum banho de sangue: o Maio de 1968. A razão dessa superprojeção deve-se à tradição revolucionária do país, pois foi lá que se deram os históricos tumultos que conduziram à tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789, às Revoluções de 1830, de 1848, e à Comuna de Paris de 1871, todos com larga repercussão em outros continentes.

Como testemunho do ar de relaxamento e confraternização geral que tomou conta dos jovens daquela época é interessante lembrar as palavras de Radith Geismar, esposa de um dos ativistas que disse: “O verdadeiro sentido de 1968 foi uma tremenda sensação de liberdade, de liberdade das pessoas conversando,falando nas ruas , nas universidades, nos teatros. Foi muito mais do que jogar pedras. Isto foi apenas um momento. Todo o sistema de ordem , autoridade e tradição foi varrido. Grande parte da liberdade de hoje começou em 1968″.

Cronologia dos acontecimentos de 1968 na França

8 de Janeiro: Na universidade de Nanterre, arredores de Paris, o ministro da Juventude e Desportos, François Missoffe, é vaiado pelos estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit.

20 de Março: é atacada por manifestantes em Paris uma agência do American Express, como protesto contra a guerra do Vietname.

22 de Março: Nanterre: estudantes ocupam um edifício administrativo e é criado o movimento 22 de Março, encabeçado por Daniel Cohn-Bendit que viria a ser um dos mais ativos da revolta.

2 de Maio: Novos incidentes entre os estudantes e a polícia em Nanterre, sendo encerrada a Faculdade de Letras.

3 de Maio: No pátio da Sorbonne há uma reunião de estudantes e estes exigem o acesso aos anfiteatros. O reitor, quebrando uma regra secular, chama a polícia para entrar nas instalações universitárias. A polícia acaba por entrar nas instalações e são detidos vários alunos. Muitos outros jovens são detidos nessa noite em manifestações no Quartier Latin. A Universidade é ocupada pela polícia.

4 de Maio: Daniel Cohn-Bendit, Jacques Sauvegeot (vice-presidente da União Nacional dos Estudantes Franceses) e Alain Geismar (secretário do Sindicato do Ensino Superior) tornam-se os rostos mais conhecidos da contestação dos estudantes.

6 de Maio: Realizam-se novas manifestações no Quartier Latin e são erguidas barricadas. Confrontos entre a polícia e manifestantes. Há 400 detenções e cerca de 500 feridos.

7 de Maio: Uma manifestação que reúne milhares de estudantes acaba em novos confrontos com a polícia.

8 de Maio: O Ministro da Educação, Alain Peyrefitte, anuncia no Parlamento que a Sorbonne e a Universidade de Nanterre poderão reabrir. Realizam-se novas manifestações estudantis.

10 de Maio: Manifestações diante da prisão de La Santé. A polícia bloqueia as pontes do rio Sena. Os estudantes ocupam o Quartier Latin e fazem barricadas. Seguem-se os confrontos que se prolongam pela madrugada e seriam os mais violentos desde o início desta crise. Os estudantes tiram as pedras da calçada para atacar as forças policiais.

11 de Maio: As principais confederações sindicais convocam uma greve geral para dia

13 de Maio. O primeiro-ministro, Georges Pompidou, interrompe a visita que estava a fazer ao Afeganistão e no regresso anunciou a reabertura da Sorbonne no dia 13.

13 de Maio: A Sorbonne é reaberta e ocupada pelos estudantes. No Festival de cinema de Cannes as projeções são suspensas. Há manifestações por toda a França. A greve geral afeta todo o país.

15 de Maio: Os operários da Renault decretam uma greve e ocupam as instalações da fábrica em Cléon.

16 de Maio: O movimento grevista alastrou a mais de 50 empresas. A sede da Academia Francesa é ocupada.

19 de Maio: A emissão da ORTF (televisão) passa a ser controlada pelos jornalistas e técnicos.

20 de Maio: Ocupação do porto de Marselha pelos trabalhadores. As centrais elétricas e de telefones estão bloqueadas.

21 de Maio: A greve envolve já cerca de 07 milhões de trabalhadores. O filósofo e escritor Jean-Paul Sartre (que recusara o Nobel da Literatura em 1964) fala aos estudantes na Sorbonne. Os teatros de Paris estão ocupados.

22 de Maio: Na Assembléia Nacional é derrotada uma moção de censura apresentada contra o Governo. As autoridades retiram a Daniel Cohn-Bendit, que tem nacionalidade alemã, a licença de permanência em França.

27 de Maio: Governo, sindicatos e patrões assinam um acordo que prevê o aumento do salário mínimo, redução do horário de trabalho e diminuição da idade da reforma.

28 de Maio: Demissão do ministro da Educação, Alain Peyrefitte.

30 de Maio: O General De Gaulle anuncia a dissolução do Parlamento, recusa demitir-se e convoca eleições antecipadas para Junho. Ao mesmo tempo adia o referendo que anunciara dia antes.

31 de Maio: De Gaulle remodela o governo e realizam-se manifestações de apoio ao general. Junho: no referendo, a maioria governamental alcança vitória esmagadora obrigando o Movimento Estudantil a refluir.

“Educaterra”

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1968, a Revolução Globalizada (Parte II)

Voltaire Schilling

Contestação e contracultura
Nenhum outro acontecimento desde a Guerra da Secessão de 1861-65 provocou tamanha divisão na opinião publica norte-americana como o envolvimento dos Estados Unidos na guerra civil vietnamita (1961-1975). A chamada “maioria silenciosa”, e os conservadores em geral, sustentava que era uma intervenção militar justa e nobre porque os americanos estavam no Sudeste da ásia para impedir que seus aliados do Vietnã do Sul caíssem sob domínio comunista. Criam sinceramente que estavam apoiando a causa da democracia e não um regime colaboracionista, neocolonialista e corrupto.

Repentinamente milhares senão milhões de norte-americanos, sempre tão ciosos da excelência da suas instituições e do seu idealismo, deram-se conta que desta feita estavam agindo do lado do mal. Eles é quem eram os vilões do conflito. Sensação que piorou ainda mais quando tomaram conhecimento do Massacre de My Lay cometido em 16 de março de 1968 por um pelotão de infantaria sob o comando do tenente William Calley que abateu a tiros 504 camponeses vietnamitas. O que fez com que a rejeição ao recrutamento se ampliasse ainda mais, estimulado por multidões que saiam às ruas entoando hinos religiosos que se transformaram em canções de protesto, como foi o caso do We shall overcome:

Nós triunfaremos/Nós algum dia seremos livres
Algum dia todos nós seremos livres/
Nós não tememos/Nós não estamos mais sós

Entrementes milhares de jovens americanos refugiaram-se no Canadá e na Suécia para escaparem do recrutamento, especialmente depois que o presidente Johnson convocou os calouros para completar os regimentos a serem enviados para o fronte de guerra. Naquele momento o número de soldados servindo no Vietnã chegou a 549.500.

Deu-se então a vez dos campus entrarem em ebulição. A famosa Universidade de Columbia, de Nova York, foi tomada entre abril e maio de 1968 pelos seus alunos liderados por Mark Rudd, um dos líderes da SDS (Students for a Democratic Society). Ocupações e sit-ins multiplicaram-se desde Berkeley na Califórnia, até a Universidade de Chicago e de Wisconsin. O mundo universitário colocou-se em pé de guerra contra as autoridades acadêmicas e as estatais. Denunciavam a colaboração daqueles centros de estudo e pesquisa com o esforço de guerra norte-americano. Os cérebros acadêmicos estavam aos olhos dos jovens em aberto conluio com as empresas dedicadas à fabricação de armas de destruição em massa, além de napalm e herbicidas que eram lançados contra os campos indefesos do Vietnã.

O Movimento Hippie

“Apesar da fraude e da leviandade que embaraçam seus contornos uma nova cultura esta realmente surgindo entre nossa juventude (…) uma cultura tão radicalmente dissociada dos pressupostos básicos da nossa sociedade que muitas pessoas nem sequer a consideram uma cultura, e sim uma invasão bárbara de aspecto alarmante.”

Theodore Roszack - A Contracultura, 1972

Outra forma de contestação foi assumida pelo Movimento Hippie, tendo à frente o ativista Abbie Hoffmann. Estes eram jovens da mais diversa extração social que ostensivamente vestiam-se de uma maneira chocante para o americano médio daquela época. Deixavam crescer as barbas e os cabelos, vestiam brim e trajes de algodão colorido, decoravam-se com colares, pulseiras e profusões de anéis. Calçavam sandálias como se fossem jovens trapistas e queriam deter o War Power, o Poder da Guerra, contrapondo-o ao Flower Power, o Poder da Flor.

Passaram, por igual, a habitar em bairros separados, como o famoso Haight Ashbury, em San Francisco, na Califórnia, o East Village em Nova York, ou em comunidades rurais. Rejeitando a sociedade de consumo mantinham-se pelo artesanato e, no campo, da horta. Além disso não preservavam as regras esperadas de comportamento, higiene, ou casamento. Peace and Love (”Paz e Amor”) era o seu lema.

Desenvolveram um universo próprio, uma “cultura alternativa”, que infelizmente não resistiu ao convívio deles com as drogas. Iniciados na marijuana, terminaram por mergulhar em coisas mais fortes como cocaína, heroína, o LSD (ácido lisérgico) e outras chamadas de psicodélicas, introduzidas no meio estudantil e no mundo acadêmico pelo professor de psicologia da Universidade de Harvard Timothy Leary. Coube a ele o pouco meritório papel de fazer com que os alucinógenos deixassem de ser associadas aos desclassificados sociais e aos criminosos para serem consumidos em ambientes de classe média(*)

(*) Leary, por sua vez, havia se inspirado no escritor Aldous Huxley que havia experimentado uma droga denominada de mescalina e cujos efeitos ele retratou no seu livro The Doors of Perception (As portas da percepção) e, anteriormente, na sua clássica novela sobre a sociedade distópica intitulado The Brave New World (Admirável Mundo Novo, de 1932).

Orientalismo e rock de contestação

Os ídolos literários da Geração de 68 foram o escritor pacifista alemão Herman Hesse, falecido em 1962 no seu exílio na Suíça, cujos livros, como Demian e Sidarta, narravam histórias orientais de iniciação e abandono à introspecção e à meditação. Por igual, os jovens celebraram o poeta Dylan Thomas, morto por excessos do álcool em 1953, um rompedor de regras considerado, devido sua vida dissipada, o “ultimo poeta maldito” da literatura inglesa, autor de versos obscuros e delirantes:

E a morte perderá o seu domínio/.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar

não morrerão com a chegada do vento/;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão/;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento/;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
(”E a morte perderá o seu domínio”- tradução de Fernando Guimarães)

Um dos mestres pensantes da Geração de 68 foi o psiquiatra germano-americano Wilhelm Reich que associava a agressividade humana à repressão sexual praticada contra os adolescentes e os jovens em geral por adultos que, por serem formados na rigidez patriarcal e autoritária, consideravam o sexo pecaminosos e imoral. Reich defendia, paralelo à revolução política, uma Revolução Sexual.

Seguindo-o na preferência da época achava-se o famoso escritor-psicanalista Erich Fromm que procurou conciliar Freud com Marx, produzindo uma série de livros de divulgação no sentido de aproximar a Psicanálise do Marxismo. Ambos eram alemães de origem judaica e haviam se refugiado nos Estados Unidos durante os anos 30.

O Rock como crítica

A música eleita por eles foi o rock ou a balada de contestação: Janis Joplin, Jim Morrison, Joan Baez, Jimmy Hendrix, Bob Dylan, John Lenon e Joe Cocker foram seu principais expoentes.

Rejeitavam abertamente tudo o que pudesse ser identificado como vindo do “americano médio” porque acreditavam que a essência da agressão ao Vietnã encontrava-se no âmago do modo de ser da sociedade tecnocrática, competitiva, individualista e consumista que caracterizava a nação. Propunham uma contracultura (couterculture). Não formaram um partido político nem desejavam disputar as eleições. Queriam impressionar pelo comportamento, altera radicalmente os costumes dos que os cercavam para mudar-lhes a mentalidade.

O apogeu do movimento da contracultura ocorreu no Festival de Woodstock, nas proximidades de Nova Iorque, em agosto de 1969, quando 300 a 500 mil jovens reuniram-se para um encontro de massas para celebrar o rock e manifestar-se pela paz.

Os Panteras Negras

A ala moderada do Movimento Negro norte-americano, por sua vez, perdeu, em 4 de abril de 1968, o seu maior expoente, o pastor Martin Luther King, assassinado em Memphis, no Tennessee. Ele que fora criticado por seus métodos pacifistas pelas lideranças mais jovens e radicais, os “Panteras Negras”( Black Panther Party for Self Defense), inclinava-se cada vez mais contra a Guerra do Vietnã no momento em que foi baleado. King entendeu que a luta dos povos do Terceiro Mundo assemelhava-se a dos negros americanos contra a discriminação e o preconceito.

Tanto assim que as primeiras vitimas da polícia naquele vulcânico ano foram três estudantes negros da Universidade da Carolina do Sul que haviam sido mortos num protesto, por terem sido barrados numa clube de boliche, ocorrido em 8 de fevereiro de 1968, enquanto 27 outros foram gravemente feridos no que ficou conhecido como o Massacre de Orangenburg.

A morte do grande líder negro, Premio Nobel da Paz de 1964, provocou uma violenta onda de saques e incêndios nos maiores bairros negros em 125 cidades americanas. Por igual, ajudou na projeção de um ativismo mais extremista representado pelos Panteras Negras, liderados por Huey Newton e Bobby Seale.

A nova esquerda

“….essa oposição luta contra a maioria da população, incluída a classe operária, contra todo o chamado way of life do sistema, contra a onipresente pressão do mesmo e, finalmente, contra o terror que reina fora das metrópoles.” Herbert Marcuse - O Fim da Utopia, 1967

O embasamento teórico do que estava acontecendo, daquela erupção juvenil internacional, e de tudo o que viria ainda a ocorrer, encontrou seu melhor embasamento teórico no pensamento do filósofo alemão Herbert Marcuse. Exilado nos Estados Unidos desde 1934, ele preocupou-se em entender quais as possibilidades de transformação social numa sociedade opulenta como a norte-americana na qual a crítica ao capitalismo era inexpressiva.

Num livro polêmico “A Ideologia da sociedade industrial” (One-Dimensional Man, 1964), percebeu que numa sociedade unidimensional como era a norte-americana, ao contrário da bidimensional predominante na Europa (na qual operários se opõem aos capitalistas), caracterizava-se por sua capacidade de absorver as classes subalternas tornando-as não-contestadoras e acomodadas.

Desta forma a idéia de Marx de que o operariado industrial, o moderno proletariado, seria a força motriz da revolução socialista, e principal agente da transformação social, não se verificava em sociedades do capitalismo avançado (ou tardio) como a norte-americana.

Nela os trabalhadores em geral atuavam como uma força conservadora, seduzidos pelo consumo e pelos bens materiais do american way of life. Tanto assim que enquanto a classe média instruída voltou-se crescentemente contra a guerra, coube aos operários e a maioria dos sindicatos de empregados darem-lhe apoio.

Concluiu então que os verdadeiros agentes da transformação deveriam ser os outsider, os que ainda estavam fora das benesses do sistema capitalista, como as minorias étnicas ou os que simplesmente as rejeitavam, como os estudantes e grupos formados pelos intelectuais beatniks. Deles é que, ainda que inconscientemente, partiria a contestação ao regime e a ordem autoritária que lhe dava sustentação.

Os militantes dessa Nova Esquerda (New Left) não eram marxistas nem tinham simpatias pelo socialismo. Eram de composição social diversificada, acolhendo gente de todos os estratos sociais. Seus principais representantes, pelo menos nos Estados Unidos, não eram políticos nem líderes demagogos mas poetas e escritores como Allen Ginsburg, por exemplo.

Marcuse, na tradição ideológica da Escola de Frankfurt, via na tecnologia uma forma mais sofisticada de controle social e repressão. Ela continuava existindo mesmo em sociedades democráticas, porque as técnicas do mass-midia “de manipulação e controle”, permitiam um policiamento mais eficiente sobre as mentes dos cidadãos. O processo de emancipação das massas no futuro dependia em grande parte não só do movimento político mas também de uma substancial alteração do comportamento, inclusive ético-sexual.

Em outro dos seus livros muito famosos e lidos, intitulado Eros and Civilization, A Philosophical Inquiry into Freud.(Eros e Civilização, de 1966), defendeu a “dessublimação controlada” onde ocorreria uma libertação simultânea ” da sexualidade e da agressividade reprimidas.”

Ele desejava resgatar o utópico que havia sido abandonado pelo marxismo “clássico”. Entendia ele que graças ao acelerado desenvolvimento tecnológico era possível hoje atingir a utopia (ou o que anteriormente se considerava uma utopia) e implantar uma sociedade solidária e igualitária, onde a repressão sexual desaparecesse.

Leia mais
1968, a Revolução Globalizada (Parte I)

1968, a Revolução Globalizada (Parte III)

Contestação e contracultura
Nenhum outro acontecimento desde a Guerra da Secessão de 1861-65 provocou tamanha divisão na opinião publica norte-americana como o envolvimento dos Estados Unidos na guerra civil vietnamita (1961-1975). A chamada “maioria silenciosa”, e os conservadores em geral, sustentava que era uma intervenção militar justa e nobre porque os americanos estavam no Sudeste da ásia para impedir que seus aliados do Vietnã do Sul caíssem sob domínio comunista. Criam sinceramente que estavam apoiando a causa da democracia e não um regime colaboracionista, neocolonialista e corrupto.

Repentinamente milhares senão milhões de norte-americanos, sempre tão ciosos da excelência da suas instituições e do seu idealismo, deram-se conta que desta feita estavam agindo do lado do mal. Eles é quem eram os vilões do conflito. Sensação que piorou ainda mais quando tomaram conhecimento do Massacre de My Lay cometido em 16 de março de 1968 por um pelotão de infantaria sob o comando do tenente William Calley que abateu a tiros 504 camponeses vietnamitas. O que fez com que a rejeição ao recrutamento se ampliasse ainda mais, estimulado por multidões que saiam às ruas entoando hinos religiosos que se transformaram em canções de protesto, como foi o caso do We shall overcome:

Nós triunfaremos/Nós algum dia seremos livres
Algum dia todos nós seremos livres/
Nós não tememos/Nós não estamos mais sós

Entrementes milhares de jovens americanos refugiaram-se no Canadá e na Suécia para escaparem do recrutamento, especialmente depois que o presidente Johnson convocou os calouros para completar os regimentos a serem enviados para o fronte de guerra. Naquele momento o número de soldados servindo no Vietnã chegou a 549.500.

Deu-se então a vez dos campus entrarem em ebulição. A famosa Universidade de Columbia, de Nova York, foi tomada entre abril e maio de 1968 pelos seus alunos liderados por Mark Rudd, um dos líderes da SDS (Students for a Democratic Society). Ocupações e sit-ins multiplicaram-se desde Berkeley na Califórnia, até a Universidade de Chicago e de Wisconsin. O mundo universitário colocou-se em pé de guerra contra as autoridades acadêmicas e as estatais. Denunciavam a colaboração daqueles centros de estudo e pesquisa com o esforço de guerra norte-americano. Os cérebros acadêmicos estavam aos olhos dos jovens em aberto conluio com as empresas dedicadas à fabricação de armas de destruição em massa, além de napalm e herbicidas que eram lançados contra os campos indefesos do Vietnã.

O Movimento Hippie

Jim Morrison, líder do grupo The Doors
“Apesar da fraude e da leviandade que embaraçam seus contornos uma nova cultura esta realmente surgindo entre nossa juventude (…) uma cultura tão radicalmente dissociada dos pressupostos básicos da nossa sociedade que muitas pessoas nem sequer a consideram uma cultura, e sim uma invasão bárbara de aspecto alarmante.”

Theodore Roszack - A Contracultura, 1972

Outra forma de contestação foi assumida pelo Movimento Hippie, tendo à frente o ativista Abbie Hoffmann. Estes eram jovens da mais diversa extração social que ostensivamente vestiam-se de uma maneira chocante para o americano médio daquela época. Deixavam crescer as barbas e os cabelos, vestiam brim e trajes de algodão colorido, decoravam-se com colares, pulseiras e profusões de anéis. Calçavam sandálias como se fossem jovens trapistas e queriam deter o War Power, o Poder da Guerra, contrapondo-o ao Flower Power, o Poder da Flor.

Passaram, por igual, a habitar em bairros separados, como o famoso Haight Ashbury, em San Francisco, na Califórnia, o East Village em Nova York, ou em comunidades rurais. Rejeitando a sociedade de consumo mantinham-se pelo artesanato e, no campo, da horta. Além disso não preservavam as regras esperadas de comportamento, higiene, ou casamento. Peace and Love (”Paz e Amor”) era o seu lema.

Desenvolveram um universo próprio, uma “cultura alternativa”, que infelizmente não resistiu ao convívio deles com as drogas. Iniciados na marijuana, terminaram por mergulhar em coisas mais fortes como cocaína, heroína, o LSD (ácido lisérgico) e outras chamadas de psicodélicas, introduzidas no meio estudantil e no mundo acadêmico pelo professor de psicologia da Universidade de Harvard Timothy Leary. Coube a ele o pouco meritório papel de fazer com que os alucinógenos deixassem de ser associadas aos desclassificados sociais e aos criminosos para serem consumidos em ambientes de classe média(*)

(*) Leary, por sua vez, havia se inspirado no escritor Aldous Huxley que havia experimentado uma droga denominada de mescalina e cujos efeitos ele retratou no seu livro The Doors of Perception (As portas da percepção) e, anteriormente, na sua clássica novela sobre a sociedade distópica intitulado The Brave New World (Admirável Mundo Novo, de 1932).

Orientalismo e rock de contestação

Os ídolos literários da Geração de 68 foram o escritor pacifista alemão Herman Hesse, falecido em 1962 no seu exílio na Suíça, cujos livros, como Demian e Sidarta, narravam histórias orientais de iniciação e abandono à introspecção e à meditação. Por igual, os jovens celebraram o poeta Dylan Thomas, morto por excessos do álcool em 1953, um rompedor de regras considerado, devido sua vida dissipada, o “ultimo poeta maldito” da literatura inglesa, autor de versos obscuros e delirantes:

E a morte perderá o seu domínio/.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar

não morrerão com a chegada do vento/;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão/;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento/;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
(”E a morte perderá o seu domínio”- tradução de Fernando Guimarães)

Um dos mestres pensantes da Geração de 68 foi o psiquiatra germano-americano Wilhelm Reich que associava a agressividade humana à repressão sexual praticada contra os adolescentes e os jovens em geral por adultos que, por serem formados na rigidez patriarcal e autoritária, consideravam o sexo pecaminosos e imoral. Reich defendia, paralelo à revolução política, uma Revolução Sexual.

Seguindo-o na preferência da época achava-se o famoso escritor-psicanalista Erich Fromm que procurou conciliar Freud com Marx, produzindo uma série de livros de divulgação no sentido de aproximar a Psicanálise do Marxismo. Ambos eram alemães de origem judaica e haviam se refugiado nos Estados Unidos durante os anos 30.

O Rock como crítica

A música eleita por eles foi o rock ou a balada de contestação: Janis Joplin, Jim Morrison, Joan Baez, Jimmy Hendrix, Bob Dylan, John Lenon e Joe Cocker foram seu principais expoentes.

Rejeitavam abertamente tudo o que pudesse ser identificado como vindo do “americano médio” porque acreditavam que a essência da agressão ao Vietnã encontrava-se no âmago do modo de ser da sociedade tecnocrática, competitiva, individualista e consumista que caracterizava a nação. Propunham uma contracultura (couterculture). Não formaram um partido político nem desejavam disputar as eleições. Queriam impressionar pelo comportamento, altera radicalmente os costumes dos que os cercavam para mudar-lhes a mentalidade.

O apogeu do movimento da contracultura ocorreu no Festival de Woodstock, nas proximidades de Nova Iorque, em agosto de 1969, quando 300 a 500 mil jovens reuniram-se para um encontro de massas para celebrar o rock e manifestar-se pela paz.

Os Panteras Negras

Seale e Newton, líder dos Panteras Negras

A ala moderada do Movimento Negro norte-americano, por sua vez, perdeu, em 4 de abril de 1968, o seu maior expoente, o pastor Martin Luther King, assassinado em Memphis, no Tennessee. Ele que fora criticado por seus métodos pacifistas pelas lideranças mais jovens e radicais, os “Panteras Negras”( Black Panther Party for Self Defense), inclinava-se cada vez mais contra a Guerra do Vietnã no momento em que foi baleado. King entendeu que a luta dos povos do Terceiro Mundo assemelhava-se a dos negros americanos contra a discriminação e o preconceito.

Tanto assim que as primeiras vitimas da polícia naquele vulcânico ano foram três estudantes negros da Universidade da Carolina do Sul que haviam sido mortos num protesto, por terem sido barrados numa clube de boliche, ocorrido em 8 de fevereiro de 1968, enquanto 27 outros foram gravemente feridos no que ficou conhecido como o Massacre de Orangenburg.

A morte do grande líder negro, Premio Nobel da Paz de 1964, provocou uma violenta onda de saques e incêndios nos maiores bairros negros em 125 cidades americanas. Por igual, ajudou na projeção de um ativismo mais extremista representado pelos Panteras Negras, liderados por Huey Newton e Bobby Seale.

A nova esquerda

“….essa oposição luta contra a maioria da população, incluída a classe operária, contra todo o chamado way of life do sistema, contra a onipresente pressão do mesmo e, finalmente, contra o terror que reina fora das metrópoles.” Herbert Marcuse - O Fim da Utopia, 1967

O embasamento teórico do que estava acontecendo, daquela erupção juvenil internacional, e de tudo o que viria ainda a ocorrer, encontrou seu melhor embasamento teórico no pensamento do filósofo alemão Herbert Marcuse. Exilado nos Estados Unidos desde 1934, ele preocupou-se em entender quais as possibilidades de transformação social numa sociedade opulenta como a norte-americana na qual a crítica ao capitalismo era inexpressiva.

Num livro polêmico “A Ideologia da sociedade industrial” (One-Dimensional Man, 1964), percebeu que numa sociedade unidimensional como era a norte-americana, ao contrário da bidimensional predominante na Europa (na qual operários se opõem aos capitalistas), caracterizava-se por sua capacidade de absorver as classes subalternas tornando-as não-contestadoras e acomodadas.

Desta forma a idéia de Marx de que o operariado industrial, o moderno proletariado, seria a força motriz da revolução socialista, e principal agente da transformação social, não se verificava em sociedades do capitalismo avançado (ou tardio) como a norte-americana.

Nela os trabalhadores em geral atuavam como uma força conservadora, seduzidos pelo consumo e pelos bens materiais do american way of life. Tanto assim que enquanto a classe média instruída voltou-se crescentemente contra a guerra, coube aos operários e a maioria dos sindicatos de empregados darem-lhe apoio.

Concluiu então que os verdadeiros agentes da transformação deveriam ser os outsider, os que ainda estavam fora das benesses do sistema capitalista, como as minorias étnicas ou os que simplesmente as rejeitavam, como os estudantes e grupos formados pelos intelectuais beatniks. Deles é que, ainda que inconscientemente, partiria a contestação ao regime e a ordem autoritária que lhe dava sustentação.

Os militantes dessa Nova Esquerda (New Left) não eram marxistas nem tinham simpatias pelo socialismo. Eram de composição social diversificada, acolhendo gente de todos os estratos sociais. Seus principais representantes, pelo menos nos Estados Unidos, não eram políticos nem líderes demagogos mas poetas e escritores como Allen Ginsburg, por exemplo.

Marcuse, na tradição ideológica da Escola de Frankfurt, via na tecnologia uma forma mais sofisticada de controle social e repressão. Ela continuava existindo mesmo em sociedades democráticas, porque as técnicas do mass-midia “de manipulação e controle”, permitiam um policiamento mais eficiente sobre as mentes dos cidadãos. O processo de emancipação das massas no futuro dependia em grande parte não só do movimento político mas também de uma substancial alteração do comportamento, inclusive ético-sexual.

Em outro dos seus livros muito famosos e lidos, intitulado Eros and Civilization, A Philosophical Inquiry into Freud.(Eros e Civilização, de 1966), defendeu a “dessublimação controlada” onde ocorreria uma libertação simultânea ” da sexualidade e da agressividade reprimidas.”

Ele desejava resgatar o utópico que havia sido abandonado pelo marxismo “clássico”. Entendia ele que graças ao acelerado desenvolvimento tecnológico era possível hoje atingir a utopia (ou o que anteriormente se considerava uma utopia) e implantar uma sociedade solidária e igualitária, onde a repressão sexual desaparecesse.

“Educaterra”

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1968, a Revolução Globalizada (Parte I)

Voltaire Schilling

Nunca o mundo vira nada igual. Desde o começo do ano de 1968, nas capitais e mesmo em cidades menores dos mais importantes países do planeta, milhares de jovens europeus, norte-americanos, sul-americanos, árabes e chineses, a maioria deles estudantes universitária e secundarista, saiu as ruas para criticar abertamente as sociedades em que viviam assim como os regimes políticos nela vigentes. Durante alguns meses, tudo parecia ser posto de pernas para o ar frente ao vendaval juvenil. Açoitadas pela fúria das ruas, as autoridades quase naufragaram naquele ano tão estranho e excepcional. Era a primeira revolução globalizada que se conheceu.

O vulcão em erupção

“Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.” - Antonio Negri

“1968″ foi o ano louco e enigmático do século XX. Ninguém o previu e muito poucos os que dele participaram entenderam afinal o que ocorreu. Deu-se uma espécie de furacão humano, uma generalizada e estridente insatisfação juvenil, que varreu o mundo em todas as direções. Seu único antepassado foi 1848 quando também uma maré revolucionária - a ” Primavera dos Povos” -, iniciada em Paris em fevereiro daquele ano, espalhou-se por quase todas as capitais e grandes cidades da Europa, chegando até o Recife no Brasil.

O próprio filósofo Jean-Paul Sartre, presente nos acontecimentos de maio de 1968 em Paris, confessou, dois anos depois, que “ainda estava pensando no que havia acontecido e que não tinha compreendido muito bem: não pude entender o que aqueles jovens queriam…então acompanhei como pude…fui conversar com eles na Sorbonne, mas isso não queria dizer nada” (Situations X).

A dificuldade de interpretar os acontecimentos daquele ano deve-se não só à “múltipla potencialidade do movimento”como a ambigüidade do seu resultado final. A mistura de festa saturnal romana com combates de rua entre estudantes, operários e policiais, e mesmo com baderna juvenil (chienlit, como dizem os franceses), deixou pontos de interrogação por todos os lados. Sem ter um ponto fixo de irradiação, espalhou-se para quase todos os Continentes. Para Cornelius Castoriaditis, um simpatizante de 68, viu tudo como resultante de “uma revolta comunitária”, enquanto que para Gilles Lipovetsky e outros era “a reivindicação de um novo individualismo”, desconhecido da tradição liberal ocidental.

Todavia. para Regis Debray, o jovem marxista francês, autor do ” clássico” do radicalismo La revotution dans la revolution (”A Revolução na Revolução”, de 1967), que fora preso na Bolívia quando tentou aproximar-se de Che Guevara, os eventos de 1968 foram negativos. Somente serviram para acelerar a “americanização” da sociedade francesa. Além disso, a explosão estudantil ao por abaixo os valores nacionais construídos ao redor da pátria, da nação, da família, dos partidos, contribuiu inconscientemente para o aumento do individualismo narcisista desagregador e alienante.

Um ano mítico

Ainda assim, firmou-se como um ano mítico visto que “1968″ foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades nos decênios seguintes de uma maneira irreversível. é tido como o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs), dos defensores das minorias e dos direitos humanos, sendo esse seu maior legado.
Entretanto, frustrou muita gente também. A não realização dos seus sonhos, “da imaginação chegando ao poder”, fez com que parte da juventude militante daquela época se refugiasse no consumo das drogas ou escolhesse a estrada da violência, da guerrilha e do terrorismo urbano.

“1968″ foi também uma reação extremada, juvenil, às pressões de um decênio e meio de Guerra Fria, pondo fim ao que Jezer Marty denominou de A Era da Escuridão, isto é os anos de 1945 a 1960, dominados pelo conformismo e pelo temor a uma conflagração nuclear. Tratou-se de uma rejeição tanto aos processos de manipulação da opinião pública por meio dos mass-midia que atuavam como “aparelhos ideológicos” incutindo os valores do consumismo, como um repúdio “ao socialismo real”, ao marxismo oficial, ortodoxo, vigente tanto no Leste europeu como entre os partidos comunistas ocidentais, vistos como ultrapassados.

Assemelhou-se a um calidoscópio, para qualquer lado que se girasse novas formas e novas expressões vinham à luz. Foi uma espécie de fissão nuclear espontânea que abalou as instituições e regimes que se consideravam seguros e duradouros. Uma revolução que não se socorreu de tiros e bombas, mas da pichação, das pedradas, das reuniões de massa, da primazia do alto-falante e de muita irreverência. Um tanto quanto reprisando Marshall Berman, tudo o que até então parecia sólido desmanchou-se no ar.

O cenário mundial

O início de tudo:a Guerra do Vietnã

Foram as noticias vindas da França no verão de 1789 que diziam ter povo de Paris tomado de assalto a fortaleza-prisão de Bastilha que alertaram o filósofo alemão Immanuel Kant para um novo fenômeno. Ele percebeu que todas as pessoas mostravam aberta simpatia para com o ocorrido e que esse sentimento foi comum à maioria dos europeus daquele final do século XVIII. Entenderam-no, ainda que não totalmente cientes dos acontecimentos que se passavam bem longe deles, como uma coisa certa. Era um povo inteiro que intentava livrar-se da tirania.

Da mesma forma que “havia uma lei geral da natureza”, concluiu ele que havia então algo em comum capaz de congregar a humanidade, “uma lei geral da natureza do homem”, na qual se destacava o Sentimento Universal de Justiça. Da mesma forma, qualquer observador dos eventos dos anos 60 do século XX poderia por igual apontar que o elemento unificador presente em todas as manifestações que se deram ao redor do mundo naquela ocasião, era o enorme Sentimento Universal de Injustiça provocado pela Guerra do Vietnã.

A surpreendente Ofensiva do Tet
Desde 1965, a pretexto do incidente do Golfo de Tonquim (que se provou falso), o presidente norte-americano Lyndon Johnson ordenara o sistemático bombardeio do Vietnã do Norte, bem como o desembarque, no Vietnã do Sul, de um reforço de mais de 300 mil soldados para evitar uma possível vitória dos vietcongs (guerrilheiros comunistas que combatiam o governo sul-vietnamita que era pró-americano). Os Estados Unidos atolavam-se na Guerra do Vietnã.

No dia 30 de janeiro, na celebração do Tet, o Ano Novo vietnamita, 67 mil guerrilheiros vietcongs, apoiados por forças norte-vietnamitas, num ataque relâmpago e de surpresa, tomaram de assalto 38 cidades sul-vietnamitas, entre elas Hue e Saigon (aonde chegaram a ocupar a embaixada dos EUA), provocando uma derrota tática nas forças armadas norte-americanas. Apesar de terem perdido 30 mil homens na operação, os guerrilheiros vietnamitas provaram serem capazes de frustrar as expectativas de uma vitória americana.

O então jovem militante anglo-paquistanês Tariq Ali não exagerou quando escreveu que a noticia da Ofensiva do Tet provocara “uma onda de alegria e energia que repercutiu no mundo inteiro, e milhões de pessoas estavam de repente exultantes, pois deixaram de acreditar na força do seu opressor”

A partir de então a crescente oposição à guerra dentro dos Estados Unidos quase se tornou numa aberta insurreição da juventude pacifista. Ao longo do ano de 1968 calculou-se que umas 30 escolas ou instituição equivalente foram invadidas e ocupadas a cada dia em todo o país. A violência dos bombardeios sobre a população civil vietnamita, composta de aldeões paupérrimos, e a queima das choupanas deles, já de algum tempo havia provocado desconfiança em relação à justeza da intervenção no Sudeste da ásia.

Diariamente a televisão americana mostrava imagens dos combates e dos sofrimentos dos soldados e dos civis. Somou-se a isto a visível falta de perspectiva para solucionar o conflito. Era moralmente inaceitável que a maior potência do Mundo atacasse um pequeno país camponês do Terceiro Mundo e o tentasse submeter pela força das armas.

O corajoso assalto dos vietcongs provocou repercussões que se irradiaram pelo mundo inteiro. O Davi vietnamita fizera cambalear o Golias americano. Como o Estados Unidos representava a Lei e a Ordem no cenário do após-guerra, era natural que todas as instituições por ele garantidas ou a ele associadas passassem a ser questionadas. Mesmo as do lado comunista. A superpotência fora ferida na ásia.

Passou a ser possível abalar, senão pôr abaixo, por obra de um turbilhão juvenil, tudo o que de alguma forma representasse o status quo, o estabelecimento, as autoridades, o regulamento, o conformismo social e sexual, a rotina existencial, a monotonia da vida acadêmica, etc.. A imaginação queria assaltar o poder.
A Grande Revolução Cultural Proletária

Paralelamente à Guerra Vietnamita, na China Popular Mao Tse-tung desencadeara desde 1965 a Grande Revolução Cultural Proletária (Wuchanjieji Wenhua Dageming), convocando a juventude chinesa para grandes manifestações. Estudantes, filhos de funcionários, de trabalhadores e de camponeses, na idade dos 14 aos 18 anos, agrupados nas Guardas Vermelhas, tomaram conta das ruas das grandes cidades num protesto-monstro contra os Zou zi Pai, aqueles elementos do partido comunista que, acreditavam eles, tinham simpatias pelo capitalismo e pela burguesia e que se encontravam infiltrados nos aparatos do poder.

Mao Tse-tung, em velada luta contra altos setores da hierarquia do Partido Comunista chinês, os convocara para auxiliá-lo a recuperar a autoridade suprema. Para tanto, os fanatizou com a leitura de trechos seus selecionados pelo seu auxiliar direto Lin Biao num pequeno livro: O Livro Vermelho dos Pensamentos do Presidente Mao, que passou a ser interpretado com fervor religioso pelos militantes juvenis.

Voltando-se contra o passado chinês tradicional, deram vazão a cenas de vandalismo e intolerância. A imagem de milhares deles marchando e cantando pelas praças e avenidas chinesas, em nome da Revolução Cultural, serviu de emulação para que os estudantes ocidentais também viessem a imitá-los quando a ocasião se tornou propícia.

O martírio de Che

Além da indignação geral provocada pela interminável guerra que prosseguia na Indochina e o fascínio pelas multidões juvenis chinesas, também pesou no imaginário da juventude estudantil a morte de Che Guevara na Bolívia, ocorrida em outubro de 1967. Seu martírio pela causa revolucionária serviu para que muitos se inspirassem no seu sacrifício. Jovens de todas as partes, especialmente na Europa e na América Latina, tentando atender ao seu apelo para que se formassem em outros lugares do mundo, “dois, três Vietnãs” se lançaram na vida guerrilheira, compondo os quadros dos vários movimentos que surgiram naquela época, no Uruguai, na Argentina, no Chile e no Brasil.

“Educaterra”

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Europeus em conflito no questionamento do direito à morte

Surgem testamentos em vida, mas a resistência cresce

Elisabeth Rosenthal
De Roma

Quando o papa João Paulo 2º estava morrendo por complicações de doença de Parkinson, em 2005, ele recusou-se a deixar seus aposentos no Vaticano e voltar ao hospital e rejeitou intervenções como máquinas para respirar e diálise do sangue; morreu no dia seguinte.

Apesar de casos famosos como este e outras tragédias que às vezes dominam as notícias, os italianos não têm o direito claro de rejeitar tratamentos médicos agressivos. Décadas depois de os EUA adotarem os ‘testamentos em vida’ e representantes legais para casos de saúde, a Europa está lentamente movendo-se nessa direção. No entanto, a resistência também está crescendo nos diferentes países, onde a questão de direitos humanos para os gravemente doentes se mistura a uma briga em torno de outros temas socialmente contenciosos, desde eutanásia até o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Aqui na Itália os procedimentos são confusos, como em outros países. A Constituição apóia esse direito, mas o código médico não obriga os médicos a respeitarem-no; de fato, sua instrução é tentar manter os pacientes vivos.

Uma nova lei que está sendo debatida no Senado italiano afirmaria o direito de rejeitar tratamentos agressivos, mas é improvável que tenha votos suficientes para aprovação tão cedo. Outros países adotaram legislação similar apenas tardiamente. A França, Espanha e Reino Unido sancionaram o ‘testamento em vida’ somente nos últimos dois anos.

Por quase duas décadas, o direito de recusar tratamento médico está firmado na lei americana. Pacientes internados precisam preencher formulários indicando seus desejos, chamados de diretrizes adiantadas. Muitos Estados foram movidos por casos marcantes como o de Karen Ann Quinlan e Nancy Cruzan.

Muitos europeus ainda não têm direitos legais neste campo, tornado contencioso pelo lobby religioso, divisões políticas e posições ideológicas. Em vez do ‘consentimento informado’ ser considerado parte dos direitos do paciente, como acontece nos EUA, aqui é tido como parte de uma constelação de questões como aborto, eutanásia e casamento gay.

“Não há nada aqui que o protege, é uma terra de ninguém”, disse Beppino Englaro, cuja filha foi hospitalizada em coma profundo e sofreu diversos tratamentos indesejados, desde um acidente de automóvel em 1992. “Eluana tinha sido muito clara sobre seus desejos, e nosso pedido aos médicos sempre foi o mesmo. Mas eles nos disseram: ‘Não, aqui na Itália temos uma cultura pela vida’”. A família foi à Justiça sete vezes para tentar desligar as máquinas, mas os juizes concluíram que “parar o tratamento feriria a lei”.

Testamentos em vida ou procuração médica

Há dois tipos de diretrizes adiantadas: testamentos em vida, nos quais os pacientes indicam quais procedimentos e tratamentos rejeitariam se caíssem em uma situação sem esperança, que ameaçasse sua vida; e um segundo tipo, chamado ‘procuração médica’, permite que o paciente dê a uma pessoa o direito de tomar tais decisões em seu nome caso ele esteja incapacitado.

“Há muitas inconsistências e muita confusão conceitual aqui na Itália”, disse Cristiano Vezzoni, especialista em direito da saúde na Europa, da Universidade de Milão. “Teoricamente, todos reconhecem o direito do consentimento informado e o direito de recusar tratamentos fúteis”, disse Vezzoni, “mas, depois, eles dizem: ‘Ah, mas você não pode parar o tratamento se for causar a morte’. Ou argumentam que a alimentação por tubo não é um tratamento médico, apesar de ser assim considerada internacionalmente.”

No ano passado, a Itália comoveu-se com o caso de Piergiorgio Welby, poeta com distúrbio neurológico progressivo que tinha pedido repetidamente para ser desconectado do ventilador que o mantinha vivo. Um médico cumpriu o pedido, e Welby morreu. Ninguém foi acusado, mas houve pedidos para que o médico fosse acusado de assassinato.

Na Itália, assim como em muitos países católicos, há temores de que a permissão para pacientes recusarem o tratamento acabe virando uma permissão para a eutanásia. “Temos medo que a nova lei introduza uma nova forma de eutanásia, ou suicídio assistido”, disse Luisa Capitanio Santolini, da União de Democratas Cristãos. Ela também teme que a lei burocratize os médicos. “Você não pode negar a decisão da classe médica para respeitar os desejos de uma pessoa doente”, disse ela.

A situação nos países da Europa

Somente três países europeus, Dinamarca, Bélgica e Holanda, há muito têm fortes leis protegendo o direito a recusar tratamento, disse Penney Lewis, de University College London.

A justiça em outros países, como no Reino Unido, em geral defendeu na última década a noção de que as pessoas podem recusar tratamentos que evitam sua morte, inclusive a alimentação artificial. Mas esses desejos não são uniformemente respeitados, a não ser que o paciente esteja gravemente doente. E os pacientes não podem nomear representantes.

O Reino Unido aprovou uma lei em 2005 que entrará em vigor em novembro. “A partir de novembro, a prática será codificada pela lei, o que é importante”, disse Lewis. “Na Itália, continua muito confuso para médicos e pacientes o que você pode ou não fazer.”

Mesmo as leis novas foram afligidas pela política religiosa e pela ambivalência. No Reino Unido, depois da exortação de políticos conservadores e bispos anglicanos, os legisladores acrescentaram uma cláusula que os pacientes podem recusar o tratamento, mas desde que “não sejam motivados por uma decisão de causar a morte”.

A lei francesa protege o direito a recusar tratamento que salve a vida, mas apenas para os pacientes terminais.

Aqui em Roma, o senador Ignazio Marino, cirurgião de transplante que trabalhou nos EUA por muitos anos, diz que a falta de clareza no assunto significa que os médicos fazem decisões de vida ou morte de forma escondida, com medo de consultar os pacientes ou medo de serem processados.

“A maior parte dos médicos da UTI diminui a intensidade do tratamento, mas o fazem de uma forma não declarada nem discutida, tudo é nebuloso”, disse ele. “É como Nova Jersey em 76: não podemos dizer quando basta, essa pessoa não pode voltar à consciência ou a uma existência significativa. Não podemos dizer: ‘medidas de conforto apenas’, sabemos que é contra a lei”.

As próprias mensagens confusas do Vaticano sobre o assunto deram munição para os dois lados do debate. O papa Bento 16 escreveu certa vez: “A interrupção de procedimentos médicos perigosos ou extraordinários ou desproporcionais em relação aos resultados que se pode esperar pode ser legal e aceitável.”

No entanto, termos como ‘extraordinários’ e ‘desproporcionais’ são abertos à interpretação, e a igreja considera que receber comida e água, mesmo por um tubo, não é um procedimento médico.

Eluana Englaro está em coma profundo em um hospital há mais de 15 anos, mas durante esse tempo nunca precisou de máquinas para respirar ou diálise. Ela recebeu alimentação artificial, líquidos, remédios contra convulsões e antibióticos para infecções. Como Terri Schiavo, a mulher na Flórida cujo marido foi à justiça para remover um tubo de alimentação em 2005, ela tem atraído controvérsia.

Seu pai diz que o tratamento da filha deveria ser removido. Sua filha entendia as escolhas, diz ele, quando uma amiga dela passou por um coma após um acidente de carro um ano antes do dela. “Falamos abertamente sobre isso, ela tinha experiência direta sobre unidades de tratamento intensivo e disse que aquilo não era para ela”, disse ele. “Ela confiava que seus pais fariam cumprir seus desejos, mas não conseguimos. Foram 15 anos vivendo com essa culpa”.

Tradução: Deborah Weinberg

International Herald Tribune

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