1968, a Revolução Globalizada (Parte V)

Voltaire Schilling

A Internacional Estudantil
“We shall fight/ We will win/ Paris, London, Rome, Berlin..” (lutaremos, venceremos, Paris,etc…) Slogan dos contestadores ingleses, 1968.

Naquele ano de 68 coube aos estudantes de Berlim tomarem a dianteira nos protestos contra a guerra no Sudeste asiático. Em seguida a Ofensiva do Tet, os militantes da SDS (Socialistische Deutsche Studentenbund), organizaram em 17 de fevereiro de 1968 um Congresso Internacional sobre o Vietnã, conclamando as mais diversas lideranças universitárias a se fazerem presentes nos auditórios da Universidade Livre de Berlim.

Apresentaram-se jovens gregos, franceses, italianos, escandinavos e de outras procedências para debaterem em foros repletos quais estratégias de oposição a serem adotadas contra a continuidade da guerra. Nas paredes pendiam enormes retratos de Che Guevara que se alternavam com bandeiras da Frente de Libertação do Vietnã.

Num dos seus discursos, Rudi Duschke, líder máximo da SDS, associou a luta do povo vietnamita contra a intervenção norte-americana como idêntica à travada pelos estudantes europeus frente à continuidade da sociedade de classes em que viviam. A batalha antiopressão era a mesma apesar dos espaços geográficos serem tão distintos.

Todos saíram impressionados com a organização dos alemães, com seus slogans e estandartes prontos e com seus esquemas de segurança ativados. Os franceses, particularmente, em breve iriam por em prática daquilo que viram em Berlim (ver Mark Kurlansky- 1968, o ano que abalou o mundo, págs. 201-5). Foi na ex-capital germânica pois que se estruturou a Internacional Estudantil que logo iria por fogo em boa parte do mundo.

A conflagração alemã mais extremada deu-se a partir do atentado sofrido dois meses depois por Rudi Dutschke, em abril de 1968. Em Berlim, Frankfurt e demais cidades universitárias, as marchas de protesto redundaram em grandes batalhas campais contra a policia e ataques aos veículos da mídia impressa do grupo Axel Springer, de direita.

O fracasso que se seguiu às esperanças despertadas pela mobilização estudantil fez com que muitos militantes resolvessem ingressar na RAF (Rotte Armee Faccion), também conhecido pelo nome dos seus dirigentes como o Grupo Baader-Meinhoff que, nos anos 70, tentaram manter um clima revolucionário na Alemanha Ocidental através de atentados terroristas e assassinatos seletivos, atacando grandes empresários e barões da mídia, a quem eles acusavam de serem parciais.

Praticamente a mesma trajetória vamos encontrar na Itália, onde os estudantes rompidos com o Partido Comunista Italiano, a quem acusavam de conciliar com a burguesia, aderiram à violência revolucionária com a fundação das Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse) que chegaram a seqüestrar e matar o primeiro-ministro Aldo Moro em 1978.

Pode-se dizer que os enfrentamentos generalizados que caracterizaram boa parte dos anos 70, (ativada pelos grupos Brigate Rosse, Baader-Meinhoff, Black Panthers, ERP, Montoneros,Tupamaros, Var-Palmares, Exército Vermelho japonês, etc.) foram subproduto das esperanças e das energias despertadas em choque com a frustração que se seguiu.

Na América Latina, o resultado foi mais trágico porque o movimento estudantil não se deparou com regimes democráticos mas sim com regimes militares, ou com a “ditadura perfeita” que governava o México desde os anos vinte.

O sacrifício de sangue na Praça Tlatelolco

O mais violento ato de repressão oficial ocorrido no Continente Americano no ano de 1968 foi o massacre dos estudantes perpetrado pela polícia antimotim e guarnições do exército mexicano sob determinação do governo. Calculou-se no total 26 mortos e 300 feridos, além de mais de mil aprisionados pelas forças da ordem (outros dados apontam de 300 até 700 mortos!). A multidão formada em larga parte por alunos da UNAM (Universidade Autônoma do México), que se manifestava na praça de Tlatelolco, também chamada de Praça das Três Culturas, na Cidade do México, em 2 em outubro de 1968, e que gritava não querer os Jogos Olímpicos mas sim a Revolução, foi dissolvida a tiros.

O banho de sangue se deu há menos de dez dias da inauguração dos jogos olímpicos de 1968. Ação repressiva essa coordenada por Luis Echeverría, secretário do interior e ministro do governo do então presidente Gustavo Díaz Ordaz. Ele foi o chefe do Comitê Estratégico encarregado pelo presidente mexicano de decepar a todo o Movimento Estudantil para que os jogos transcorressem com tranqüilidade (a título de comparação, em Paris apenas um estudante morreu nos distúrbios e a ação oficial mais violenta foi a expulsão do país de Daniel Cohn-Bendit que era de nacionalidade alemã).

Echeverría, em reconhecimento por ter feito aquele trabalho brutal, foi indicado pelo PRI como sucessor de Díaz Ordaz, assumindo a presidência do México entre 1970 e 1976. A professora Elaine Carey associou a matança da Praça Tlatelolco aos antigos rituais de sangue presididos pelos sacerdotes astecas que inumavam suas jovens vítimas retirando-lhes o coração vivo do peito.

A rebelião no Brasil

Pouco mais de um mês antes de ocorrer o levante dos estudantes parisienses, no Rio de Janeiro em 28 de março de 1968, um secundarista carioca chamado Edson Luís foi morto numa operação policial da PM carioca durante a dispersão a um protesto em frente ao restaurante universitário “Calabouço”. Deu-se uma comoção nacional em torno da jovem vítima. O enterro dele fez-se acompanhar por uma multidão de 50 mil pessoas, estando presentes inúmeros intelectuais e artistas que marcharam juntos pelas ruas e avenidas centrais da cidade com profundos sentimentos de tristeza e indignação.

A partir daquele momento o Brasil entraria nos dez meses mais tensos e convulsionados da sua história do após-guerra. A insatisfação da juventude universitária com o Regime Militar de 1964, recebeu adesão de escritores e gente do teatro e do cinema perseguidos pela censura. As principais capitais do país, principalmente o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, em pouco tempo se tornaram praça de guerra onde estudantes e policiais se enfrentavam quase que diariamente.

Cada ação repressora mais excitava a juventude à oposição e a jogar-se nas ruas. Naquela altura apenas os estudantes enfrentavam o regime pois os lideres civis da Frente Ampla (Carlos Lacerda, Juscelino Kubischek e João Goulart, que estava exilado) haviam sido cassados.

26 de junho daquele ano 100 mil pessoas - a Passeata dos Cem Mil - marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro liderados por Vladimir Palmeira, presidente da UME (União Metropolitana de Estudantes), exigindo abrandamento da repressão, o fim da censura e a redemocratização do pais. A novidade foi a significativa presença de religiosos, padres e freiras, que aderiram aos protestos. juntamente com artistas famosos como Chico Buarque, Caetano Velloso, a escritora Clarice Lispector, a atriz Norma Bengell, a cantora Nara Leão e o poeta Vinicius de Moraes, entre tantos outros mais. A juventude da época dividiu-se entre os “conscientes”, nos politizados que participavam das passeatas e dos protestos, e os “alienados”que não se inclinavam por ideologias ou pela política. Apesar da magnitude da manifestação, a comissão de cidadãos encabeçada pelo psicanalista Hélio Pelegrino, que partiu do Rio de Janeiro para Brasília, não foi recebida pelo presidente-ditador

Em apoio ao regime surgiu o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), organização de extrema-direita formada por policiais e militantes direitistas que se especializou em atacar peças de teatro e em espancar atores e músicos considerados subversivos.

Em outubro, ao organizar clandestinamente o 30º congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o movimento estudantil praticamente se suicidou. Descobertos em Ibiúna no interior de São Paulo, 1200 jovens foram presos. A liderança inteira, entre eles Vladimir Palmeira e José Dirceu, caiu nas mãos da policia numa só operação. Como coroamento do desastre, o regime militar, sob chefia do general Costa e Silva, decretou, em 13 de dezembro, o AI-5 (Ato Institucional nº 5).

Fechou-se o Congresso, prenderam-se milhares de oposicionista e suprimiram-se as liberdades civis que ainda restavam. A partir de então muitos jovens aderiram a luta armada entrando para organizações clandestinas tais como a ALN (Ação de Libertação Nacional), a VAR-Palmares ou dezenas de outras restantes. Por volta de 1972 o regime militar esmagara todas elas, fazendo com que os sobreviventes se exilassem ou fossem condenados a longas penas de prisão.

Pode-se dizer que a rebelião estudantil, se por um lado precipitou a abolição das liberdades marcando a transição do Regime Militar para a Ditadura Militar, por outro anunciou bem mais para o futuro o Movimento das Diretas-já, de 1984, que pôs término aos 20 anos de autoritarismo no Brasil.

Cronologia dos acontecimento no Brasil

28/3/1968

O estudante Edson Luís Lima Souto é morto durante uma manifestação contra o fechamento do restaurante Calabouço.

No dia seguinte, cerca de 50 mil pessoas participam do cortejo fúnebre.

29/3/1968

A UNE decreta greve geral dos estudantes.

26/6/1968

A UNE promove a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro.

10/1968

é realizado clandestinamente o XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). São presas mais de 700 pessoas, entre elas as principais lideranças do movimento estudantil: Luís Travassos (presidente eleito), Vladimir Palmeira, José Dirceu, Franklin Martins e Jean Marc Von Der Weid.

13/12/1968

é decretado o AI-5. Centros cívicos substituem os grêmios estudantis.

1969

A UNE tenta manter uma direção com a eleição de Jean Marc Von Der Weid através dos Congressinhos Regionais.

26/2/1969

O governo Costa e Silva baixa o decreto-lei no 477, que penaliza professores, alunos e funcionários de estabelecimentos de ensino público (até 1973, esse decreto atingiria 263 pessoas, a maioria estudantes).

“Educaterra”

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