Arquivo de 1 de Setembro de 2008

Os perigos do Google como único filtro da realidade

Silvio Mieli

“NO INÍCIO do terceiro milênio, estamos diante de uma situação única na história, que faz com que uma corporação privada da América determine a maneira pela qual buscamos informações”. Assim começa a primeira parte da “Pesquisa sobre os perigos e oportunidades apresentados pelos programas de busca na internet (Google, em particular)”, desenvolvida ao longo do ano passado pelo Instituto de Sistemas da Informação e Computação da Universidade de Tecnologia de Graz, na Áustria. O projeto foi coordenado pelo Prof. Hermann Maurer e financiado pelo Ministério austríaco dos Transportes, Inovação e Tecnologia – o estudo completo pode ser baixado aqui: http://www.iicm.tugraz.at/ iicm_papers/dangers_google.pdf A pesquisa questiona uma atitude natural dos usuários da intenet: procurar qualquer coisa naquele retângulo mágico do buscador Google. Se não aparecer nada, talvez “a informação que buscamos efetivamente não exista”. Será?
O objetivo do trabalho, cujos resultados foram pouco divulgados pela mídia corporativa, é demonstrar o comportamento monopolista da empresa Google, além de denunciar o que os pesquisadores chamaram de “Síndrome Google de Copiar e Colar”. Trata-se da emergência de uma geração de “pesquisadores” que limitam-se a fazer uma colcha de retalhos de informações pinçadas no Google, travestidas de trabalhos escolares ou acadêmicos, sem ao menos citar as fontes.
A apresentação da pesquisa austríaca vai direto ao ponto: “para qualquer um que encare a questão, fica claro que o Google acumulou um poder que acabou se constituindo numa ameaça à sociedade”, já que transformou-se na principal interface entre a realidade e o pesquisador na internet. O Google tem o monopólio dos programas de busca e invade massivamente a privacidade das pessoas. Sem enfrentar limitações de qualquer natureza, o Google conhece particularidades dos indivíduos mais do que qualquer outra instituição, “transformando-o na maior agência de detetives do planeta”.
A influência do Google na economia é direta, principalmente na maneira pela qual os anúncios são exibidos (quanto mais a empresa pagar, maior visibilidade o anúncio terá). Aliás, parte do seu faturamento, superior a 16 bilhões de dólares em 2007, deve-se à sua estratégia de publicidade online através dos links patrocinados.

Hierarquia
Desde o primeiro programa de buscas na internet, o Altavista, lançado em dezembro de 1995, vive-se a sensação do dado bruto transformar- se em conhecimento, em informação viva. Com o aparecimento do Google, fundado em 1998 pela dupla Larry Page e Sergey Brin, jovens doutorandos da Universidade Stanford, na Califórnia, passou-se para um outro patamar de programas de busca. Brin defi niu que as informações na web deveriam ser organizadas numa hierarquia de popularidade.
Ou seja, quanto mais um link leva a uma página específica mais a página merece ser ranqueada nos resultados do programa de busca. Outros fatores, como o tamanho da página, número de mudanças, atualizações constantes, títulos e links no texto foram incluídos na programação (algorítmo) do Google. Lentamente o programa implantou um processso de hierarquização das informações que passou a ser aceito sem contestações. Em março de 2007, o Google atingia 53,7% do mercado dos buscadores da rede (segundo dados da Nielsen/ NetRatings).
Considerando-se que muitas das informações que circulam na internet partem de indicações do Google ou da Wikipédia (a grande enciclopédia de conteúdo “aberto” da internet), Stephan Weber, coautor do projeto da Universidade de Tecnologia de Graz, denuncia uma espécie de “Googlarização da realidade”, já que existem fortes indícios de que o Google e a Wikipédia operam a partir de uma espécie de parceria.
Os pesquisadores escolheram ao acaso 100 verbetes em alemão e outros 100 em inglês do índice de A a Z da Wikipédia e colocaram estas palavras-chave em quatro grandes programas de busca (Google, Yahoo, Altavista e Live Search). O Google registrou 91% dos resultados das entradas da Wikipédia (em alemão). Para os sites em inglês, os resultados atingiram 76% de registros no Google. “Parece evidente que o Google está privilegiando os sites da Wikipédia em seu ranque”, concluiu a pesquisa, seguida pelo Yahoo (56% em alemão e 72% em inglês).

Plágio
A segunda seção da pesquisa dedica- se à emergência de uma nova técnica cultural e suas implicações sócio-culturais: o plágio (a tal síndrome do “Copiar e Colar”) e suas relações com os conceitos contemporâneos de propriedade intelectual.
O estudo cita o caso de um ex-aluno de psicologia da Universidade Alpen- Adria de Klagenfurt, na Áustria, que elaborou a sua tese de doutorado com mais de cem fragmentos copiados da internet. As primeiras páginas da tese eram uma colagem de vinte sites, muitos dos quais sem o menor rigor científico. Diante do plágio, a universidade passou a aplicar um software alemão de detecção de cópias chamado Docol©c (http: //www.docoloc.de/), cujos resultados ainda estão sendo testados.
A proposta prática da pesquisa é a de reduzir a influência do Google a partir do desenvolvimento de outros programas de busca especializados, desvinculando a hierarquia comercial do livre fluxo de dados públicos que circulam pela internet. Assim como o estadunidense Gerg Venter, dono da empresa Celera, pretende mapear o código genético de tudo o que é vivo para patentear e vender, o Google parece querer codificar todas as informações circulantes no planeta, segundo critérios que nem sempre privilegiam o interesse público. Mais do que enfatizar o Google como “a empresa do século 21”, a Universidade de Graz presta um grande serviço ao conscientizar os internautas dos limites e perigos dessa estratégia e, ao mesmo tempo, conclama os pesquisadores a uma ação imediata que impeça a “googlalização da realidade”.

Silvio Mieli é jornalista e professor da faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC - SP.

“Brasil De Fato”

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Cartéis mexicanos organizam a passagem de migrantes cubanos aos EUA

Joëlle Stolz

Exilados cubanos nos EUA pagam aos cartéis da droga mexicanos para organizar a passagem de migrantes cubanos para o território americano. Segundo as autoridades mexicanas, esse tráfico rende até US$ 19 mil por migrante, o que explica que grupos criminosos estabelecidos tenham investido nesse mercado.

Um incidente ocorrido em 11 de junho serviu de advertência. Agentes do Instituto Nacional de Imigração acompanhavam de ônibus 33 cubanos em situação irregular, assim como quatro outros migrantes da América Central que tinham sido capturados na costa mexicana do Caribe e deveriam ser internados no centro de detenção administrativa de Tapachula (sul de Chiapas).

Normalmente os migrantes cubanos são retidos por um mês em Tapachula antes de receber, depois de pagar uma multa, um documento que os autoriza a ficar dez dias no México, quando o governo fecha os olhos para os meios pelos quais eles chegam à fronteira dos EUA, onde recebem automaticamente uma licença de permanência temporária.

Mas o veículo foi interceptado em Chiapas por um comando de cerca de dez homens fortemente armados e usando capuzes que “libertaram” os cubanos. Dezoito deles foram encontrados oito dias depois no Texas. Eles tinham transitado por um esconderijo na região de Veracruz, na costa atlântica mexicana, antes de atravessar a fronteira em Reynosa, no Estado de Tamaulipas (nordeste). Mas essa rota é controlada pelo cartel do Golfo e seus matadores, os “zetas”.

A presença destes últimos na operação foi confirmada pelo procurador-geral adjunto da República, José Luis Santiago Vasconcelos.

Na segunda-feira (23/06), o jornal “La Jornada” trouxe outros detalhes: dois passadores americanos de origem cubana, detidos em 8 de junho pela marinha mexicana quando transportavam o grupo de 33 cubanos, confessaram pertencer a uma organização anticastrista baseada em Miami, a Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA).

Segundo eles, a FNCA recorre desde 2005 ao serviços do cartel do Golfo. Os candidatos a emigração deixam Cuba em pequenas embarcações e depois, ao atingir águas internacionais, embarcam em iates ou lanchas “off-shore”, antes de ser transferidos para Tamaulipas, e os “zetas” se encarregam de escoltá-los até a fronteira.

Os dois passadores, aos quais o tribunal ofereceu o status de testemunhas protegidas, afirmam que uma parte do dinheiro pago pelos migrantes serve para corromper funcionários mexicanos.

Para o jornal mexicano “El Universal”, a península de Yucatan se tornou a “Nova Flórida”, uma base que permite que os meios anticastristas atraiam para os EUA talentos até então cobiçados pelo regime de Havana, principalmente esportistas. Foi o que ocorreu com o jovem prodígio do beisebol Dayan Viciedo, 19 anos, que chegou em 20 de maio em uma lancha à costa mexicana e já é cortejado por clubes americanos.

“Le Monde”

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Alimentos light: o perigo do auto-engano

Joan Carles Ambrojo

Há alguns anos as prateleiras comerciais estão cheias de alimentos light - leves ou de baixas calorias. São produtos que contêm menos gorduras e açúcares que sua versão original, mas continuam tendo calorias. Algumas pessoas os consomem com a idéia de que não engordam ou mesmo de que ajudam a emagrecer, e cometem o erro de consumir uma quantidade maior do que teriam consumido do produto completo. O abuso do light pode contribuir para engordar, efeito contrário ao desejado.

Algumas pessoas que desejam emagrecer ou manter uma figura esbelta acabam ficando obcecadas pelas calorias que ingerem. Não é estranho que muitas delas encham o carrinho de compras com produtos light. Mas para considerá-los como tal devem ter, por lei, no mínimo 30% a menos de calorias que o alimento de referência.

Uma crença popular é que os alimentos light não engordam ou inclusive ajudam a emagrecer. Erro crasso. Depende de como forem consumidos. “Os alimentos light são úteis porque têm menos calorias que os originais; o problema é que muitas pessoas não os sabem utilizar corretamente e os identificam com alimentos com zero calorias”, diz Rosa María Ortega, professora titular do Departamento de Nutrição e Bromatologia da Universidade Complutense de Madri.

“Muitas pessoas procuram dietas milagrosas para controlar o peso e pensam que conseguirão eliminando um produto como o pão, que não só não é o maior culpado por engordar como também alimenta bastante”, acrescenta Ortega. Muitas pessoas se enganam quando não sabem interpretar o papel dos alimentos aliviados, ela acrescenta, seguem dietas desequilibradas e, além disso, não fazem nenhum tipo de atividade física.

Esse tipo de produto começou a ser introduzido na Espanha a partir da década de 1980. Mas foi só em 1990 que o grupo de especialistas da Comissão Interministerial para a Ordenação Alimentar publicou as primeiras recomendações sobre as características que deveria ter um alimento rotulado como light.

Desde então cresceu consideravelmente o número de produtos comercializados com denominações light, aliviado, baixo em gorduras ou sem açúcar. São elementos que vão desde os bolos e laticínios aos refrescos. Para conseguir um alimento light se elimina total ou parcialmente ou se substitui alguns dos componentes que trazem energia, fundamentalmente açúcares e gorduras, mas às vezes também se reduzem os carboidratos ou inclusive algum tipo de proteína.

No entanto, segundo um estudo sobre 52 alimentos do tipo light realizado pela revista “Consumer”, mais de um terço desse tipo de produtos vendidos na Espanha não podem ser considerados light, porque a redução do aporte calórico em relação ao alimento convencional equivalente não alcança os 30% estabelecidos pela única recomendação em vigor sobre os alimentos light, e cujo seguimento não é obrigatório para os fabricantes.

É preciso levar em conta que essa modalidade de reduzir a ingestão calórica também pode encarecer a cesta de compras, já que muitos produtos light têm preços superiores aos alimentos convencionais. Segundo a “Consumer”, 75% dos produtos light podem ser entre 20% e 50% mais caros que os alimentos homólogos de referência.

O maior problema com esse tipo de alimento é a desinformação. O consumidor pode chegar a comer alimentos light sem nenhum tipo de controle. “Pensa que emagrecem ou que, pelo menos, não engordam, e chega a consumir uma quantidade três vezes maior de alimentos light que do homólogo de referência. Afinal ingere muito mais calorias”, diz Francisca Pérez Llamas, pesquisadora do Departamento de Fisiologia da Universidade de Murcia. Reduzir as gorduras também representa uma perda de sabor do alimento em relação ao original, coisa que pode levar “a colocar uma quantidade maior de requeijão para perceber o gosto”, afirma.

“Qualquer alimento que contenha macronutrientes (proteínas, gorduras ou hidratos de carbono) ou álcool em sua composição, quer dizer, que aporte energia, contribuirá para a ingestão calórica total da dieta, e se esta superar as necessidades energéticas do indivíduo o levará a aumentar seu peso corporal e fundamentalmente a gordura”, diz Pérez Llamas.

O erro do consumidor pode aumentar quando se ingere a versão aliviada de alimentos muito energéticos por si sós, como maionese, margarina, requeijão, patê ou batatas fritas, “porque apesar de aportar 30% menos de energia que seu equivalente convencional continuam sendo ainda muito energéticos”, acrescenta a estudiosa.

Os especialistas em nutrição recomendam melhorar a educação dietética da população para evitar erros de julgamento. E também ler com cuidado a composição dos rótulos, “para comprovar se adapta ou não a nossas necessidades”, conclui Pérez Llamas.

“El País”

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San Antonio: Catolicismo hermano

“A Igreja Católica faz esforço para chegar aos imigrantes, mas não sabe como; nessa área, os evangélicos são muito ativos”

DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA

Ainda está escuro quando o padre Tony Vilano, 42, começa a celebrar a missa das 6h15 na catedral histórica de San Fernando, a mais antiga do país, em San Antonio, Texas.
Cerca de 20 pessoas assistem à missa bilíngüe na pequena igreja, fundada em 1731 por famílias vindas das Ilhas Canárias a convite do rei Filipe 5º, da Espanha. Dez são freiras.
É a primeira semana do padre Vilano como reitor da paróquia no centro histórico da cidade, uma espécie de parque temático do Velho Oeste, para turistas.
Vilano nasceu na Alemanha, filho de um oficial da Força Aérea dos EUA, e cresceu no sul do Texas. Os pais vêm da região da fronteira com o México. Antes de San Fernando, serviu em paróquias de cidades pequenas. “Nas montanhas, em Curville e em Charlotte, há mais gente que acabou de chegar do México, trabalhando em ranchos. Deve haver aqui também, mas há mais na área rural. Essa é a minha experiência. Eles vêm para a igreja quando estão passando necessidade, vêm em silêncio e rezam por suas famílias no México”, afirma.
A Igreja Católica, embora continue sendo a maior denominação religiosa nos EUA, com 23,9% da população adulta (os protestantes representam 51,3%, dos quais 26,3% são evangélicos, mas divididos em uma grande variedade de denominações), foi também a que sofreu mais baixas (10% dos americanos são ex-católicos, segundo a pesquisa do Pew).
E as perdas só não são maiores porque acabam compensadas pelo fluxo de imigrantes da América Latina, principalmente mexicanos.
A maioria da população católica de San Antonio é de origem hispânica. São cerca de 1.600 famílias na congregação, segundo Vilano.
“A imigração é um grande tópico. O Congresso está votando leis. Mas há diferenças dentro da própria comunidade hispânica. Entre os que estão aqui há mais tempo, com raízes estabelecidas, muitos são contra. Os que chegaram há menos tempo são a favor de leis mais justas. Os bispos do Texas acham que devem existir leis para proteger as fronteiras dos EUA, mas também acreditam em condições mais justas, sobretudo para os que estão aqui com os filhos nas escolas”, diz.

Mestiçagem
Natural de San Antonio, onde uma praça do centro foi batizada em sua homenagem, o padre Virgilio Elizondo, considerado um dos líderes espirituais mais inovadores da atualidade pela revista “Time”, foi reitor da catedral de San Fernando durante 12 anos e hoje leciona teologia na universidade de Notre Dame, em Indiana.
Elizondo ficou conhecido sobretudo por sua leitura política da idéia de mestiçagem cultural e racial, defendida em livros como “Galilean Journey - The Mexican-American Promise” (A Jornada Galiléia - A Promessa México-Americana), publicado nos anos 1980 e no qual faz uma analogia entre o imigrante mexicano nos EUA (o “mestiço”) e a experiência de Jesus na Galiléia.
“Acredito que, por trás da violência desencadeada por um pequeno, mas poderoso, grupo de racistas brancos em relação à questão da imigração nos EUA, esteja precisamente o medo da “mistura”. É mais fácil lidar com uma divisão entre negros e brancos do que com o que fica entre uma coisa e outra. A mistura de raças era proibida nos EUA até essas leis serem tornadas inconstitucionais, em 1967. O Estado de Alabama só as eliminou em 2000.”
“A religião poderia ter um papel importante na conversão dessa mentalidade da desigualdade baseada na cor, mas não ouço a igreja falando sobre isso.” “No encontro de bispos em Aparecida (SP) [em 2007], todos os cardeais em torno do papa Bento 16 na sessão de abertura eram homens brancos -nenhuma mulher, nenhum pardo, nenhum negro. É uma mensagem racista poderosa enviada ao resto da sociedade”, acrescenta.
O Fórum Pew estima que 1,3 milhão de católicos hispânicos tenham se convertido ao pentecostalismo desde que emigraram. “A igreja nos EUA está fazendo grandes esforços para chegar aos imigrantes, mas muitas vezes não sabe como. Nessa área, os evangélicos são muito ativos”, diz Elizondo.

Conservadorismo relativo
Segundo Gastón Espinosa, professor de estudos religiosos do Claremont McKenna College, na Califórnia, e presidente da Comunidade Hispânica de Estudiosos da Religião, 53% dos imigrantes já chegam aos EUA convertidos ao pentecostalismo; o resto se converte em solo americano.
Dos 46 milhões de latinos no país, 70% se mantêm católicos.
“Os carismáticos católicos têm sido muito ativos na comunidade latina desde pelo menos 1972. E foi o que ajudou a mantê-los em torno de 70% por mais de duas décadas. Mais de 22% (7,1 milhões) da população de latinos católicos nos EUA se identifica ao mesmo tempo como renascida em Cristo, pentecostal ou carismática”, afirma Espinosa.
Em geral, o imigrante hispânico que se converte ao pentecostalismo também fica mais aberto aos pontos de vista republicanos sobre a família, o casamento homossexual e outros itens relacionados.
“Mas é preciso ter em mente que, embora relativamente mais liberal em alguns desses itens, a maioria dos católicos também é contra o casamento homossexual e o aborto. No que diz respeito à liberdade de credo e de opinião, à autoridade das hierarquias religiosas e às mulheres no sacerdócio, os evangélicos são politicamente mais liberais. Os dois grupos são politicamente conservadores e liberais à sua maneira”, diz Espinosa.
A imigração não garante, portanto, uma comunidade católica mais liberal. Em alguns aspectos, ao contrário, pode até torná-la mais conservadora.
“Os católicos euro-americanos tendem a ser muito mais progressistas, do ponto de vista político, do que a média dos católicos na América Latina, enquanto a hierarquia nas duas regiões tende a ser conservadora em certos assuntos (casamento homossexual, ordenação de mulheres etc.) e liberal em outros, como a pena de morte, a reforma da imigração e os direitos civis”, afirma.

“Folha de S. Paulo”

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Um nova era pacífica: Pequim e Taiwan experimentam reaproximação

Sandra Schulz

Pequim e Taipé estão atualmente em um caminho conciliatório. O Partido Comunista da China desistiu de suas ameaças militares e a pequena ilha parou de pressionar enfaticamente pela independência. Vôos diretos foram restabelecidos entre o continente e Taiwan. Ambos os lados parecem estar experimentando uma mudança por meio da reaproximação.

O tom da voz de Fan Guishan é alto. O céu sobre Taipé pode estar nublado, brame o chinês, mas seu coração está ensolarado. Fan não vê motivo para manter sua voz baixa no momento. Ele está aqui liderando uma importante delegação, e deseja falar longamente neste grande dia. “Nós realizaremos nosso sonho há muito acalentado”, ele brada às pessoas reunidas no salão de baile. “Turistas chineses virão para Taiwan!” Todos aplaudem.

Trinta e nove representantes de agências de turismo chinesas se reuniram aqui, em um hotel luxuoso de Taipé. Eles estão na vanguarda do novo turismo chinês em Taiwan, estão aqui para ver o que ilha tem a oferecer. Um destaque, por exemplo, é “o melhor chá do mundo”, segundo um funcionário do escritório de turismo. Outro é um repolho de jade da Dinastia Qing presente no Museu Nacional Palácio, em Taipé, entalhado em uma peça única de jade branco-esverdeado que é tão famoso quanto a Mona Lisa. E há o Lago Sun Moon. Nos anos 80, o lago foi listado pelo jornal “Diário do Povo” do Partido Comunista chinês como sendo um dos 10 lugares mais belos da China - apesar de estar em Taiwan, a “província renegada”, como Pequim chama oficialmente a ilha.

A imensa China e a pequena Taiwan estão começando novamente a superar suas diferenças. Em 4 de julho, foram retomados os vôos diretos do continente para a ilha taiwanesa aos fins de semana, e um máximo de 3 mil turistas chineses são autorizados a entrar diariamente em Taiwan. Até este mês, a única forma de cidadãos chineses chegarem a Taiwan era passando primeiro por Hong Kong, Macau ou por um terceiro país. Agora eles podem vir diretamente a Taiwan e explorar, fazer algumas comparações e dizer aos amigos e parentes em casa o que viram. Eles falam sobre o metrô limpo - e sobre os programas de entrevistas políticos na TV. Os turistas chineses, segundo o funcionário de turismo taiwanês, gostam de permanecer em seus hotéis ao anoitecer e assistir a liberdade de imprensa em ação. “Tudo isso é nosso poder gentil”, ele disse.

Uma nova era pacífica parece estar chegando a esta parte do mundo juntamente com os Jogos Olímpicos, que começam em Pequim em 8 de agosto.

Apesar do Partido Comunista em Pequim ainda permanecer firme em sua política “Uma China”, ele parou de provocar Taiwan com manobras militares. Taiwan também suspendeu suas manifestações de independência e parece satisfeita com o status quo. China e Taiwan estão ambos contando com seus povos para conquistar corações e mentes. Quem sabe, dizem os taiwaneses, as pessoas no continente talvez comecem a se perguntar por que as pessoas em Taiwan podem eleger seu governo, enquanto elas não?

“Pequim percebeu que Taiwan continuaria se afastando se a China não estabelecesse contato”, diz Lin Chong-pin, presidente do Instituto de Estudos Internacionais. Após quase 60 anos de separação, uma geração cresceu em Taiwan vendo a República Popular da China como sendo um país estrangeiro. Pequim agora quer atrair os 23 milhões de taiwaneses para mais perto da “mãe-pátria”. O momento também é propício: o novo presidente taiwanês, Ma Yingjeou, foi eleito em parte com uma plataforma de interesse em melhorar as relações com a China, rompendo assim a política de seu antecessor. A principal esperança é que os melhores laços se traduzam em benefícios para a economia de Taiwan.

“O mundo inteiro quer fazer negócios com a China”, disse Tsai Eng-meng. “Mas Taiwan, apesar de geograficamente mais próxima da China, é o único país tímido em fazê-lo. É uma grande piada.” O próprio Tsai, um empreendedor taiwanês bem-sucedido, certamente não poderia ser acusado de timidez. “Se há uma boca e algum dinheiro com ela, há um mercado”, ele diz. E com 1,3 bilhão de bocas na China, Tsai foi bem-sucedido em se tornar um homem rico - completo com um jato particular e uma sede corporativa em Xangai. Ele é presidente do Want Want Group, uma marca de alimentos que vende biscoitos de arroz e outras guloseimas na China. Tsai conta com mais de 40 mil funcionários, incluindo 38 mil no continente. Quase todos seus funcionários são chineses.

Tsai abriu sua primeira fábrica no continente há 16 anos e atualmente conta com 110. Quando começou, ele se recorda, os chineses receberam os investidores taiwaneses com braços abertos.

As interconexões entre Taiwan e China apenas cresceram de lá para cá. Cerca de 1 milhão de executivos taiwaneses atualmente vivem no continente, e há mais de 250 mil casamentos entre chineses e taiwaneses. Mas a vida das mulheres chinesas em Taiwan nunca foi fácil. No passado, essas mulheres eram freqüentemente suspeitas de serem espiãs. Hoje as pessoas insultam mulheres como Cui Yon-mei, dizendo: “Você só quer dinheiro”.

Cui costumava acreditar que todos os taiwaneses eram ricos, já que sempre eram generosos nas gorjetas que davam nos hotéis chineses. Mas então ela pousou em Taipé e de certa forma o aeroporto lhe pareceu barato, mal iluminado e pequeno - pouco comparável aos novos terminais reluzentes de Pequim e Guangzhou.

Lutando pela lealdade
As esposas, os empresários, todos consideram que a Taiwan está gradualmente se aproximando da China - se aproximando demais, temem alguns. Os críticos argumentam que o novo presidente está íntimo demais dos chineses. No passado, Ma usava o aniversário do Massacre da Praça Tiananmen, em 4 de junho de 1989 -quando vários manifestantes foram mortos pelas forças armadas em Pequim - como um momento para direcionar acusações contra a liderança comunista em Pequim. Mas neste ano, ele foi só elogios e bajulações. A China fez “certo progresso”, ele diz, graças às reformas do país. Mas a oposição taiwanesa argumenta que teria sido melhor se Ma tivesse lembrado aos chineses sobre a inquietação no Tibete.

E quando o presidente concordou, por respeito, em permitir que um negociador da China o chamasse simplesmente de “sr. Ma”, a oposição política taiwanesa imediatamente o criticou de manchar a honra do país ao permitir que fosse humilhado daquela forma.

A honra de Taiwan parece estar em constante risco enquanto a ilha luta por “espaço internacional”, o termo usado em referência às atividades internacionais da ilha, como os laços diplomáticos com países estrangeiros. O tamanho deste espaço é determinado por Pequim. Apenas 23 países têm relações diplomáticas com Taiwan - Estados como Tuvalu e o Vaticano. Em janeiro, Maláui também decidiu ficar ao lado de Pequim, e antes dele Costa Rica, Chade e Senegal mudaram de posição. A lembrança dos US$ 30 milhões perdidos em uma tentativa de conquistar a aliança de Papua-Nova Guiné - um intermediário acabou fugindo com o dinheiro - ainda traz vergonha às mentes dos taiwaneses.

Taiwan teve mais sucesso quando se mostrou disposta a ser flexível a respeito da questão do nome, fazendo concessões à política “Uma China”. Nos Jogos Olímpicos, Taiwan competirá como “Taipé Chinesa”, e dentro da Organização Mundial do Comércio ele é tratada como “Território Aduaneiro Separado”. Estas são as condições sob as quais Taiwan é autorizada a participar.

Uma atração que atrai tanto taiwaneses quanto chineses é o mausoléu de Chiang Kai-shek, o herói nacional de Taiwan e uma figura também bastante conhecida na China. Como líder do Kuomintang (Partido Nacionalista) na China, Chiang concordou em uma aliança com as tropas de Mao para combater o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Após subsequentemente combater os comunistas e ser derrotado, ele e seu governo fugiram para Taiwan, em 1949. O Partido Comunista de Mao ganhou o controle da China continental, mas Chiang Kai-shek governou como ditador em Taiwan.

O caminho ao caixão do “grande líder”, como ele é chamado nos folhetos para os turistas, passa por bambuzais e palmeiras. Ele leva até além de um pequeno lago verde, que o general amava por lhe recordar de seu lar na China. Guardas permanecem em posição de atenção sob o tempo quente e úmido, com a mão direita no rifle e a esquerda cerrada, sob ataque de mosquitos.

Um país, dois sistemas?
Inicialmente, as forças armadas de Taiwan não ficaram nada felizes com a perspectiva de visitantes do continente irem ao local de descanso temporário do general. Elas temiam que os chineses poderiam não demonstrar respeito suficiente - e que poderiam passar pelo retrato do general vestindo sandálias de tiras ou fumando cigarros. Mas os visitantes chineses também se curvam a Chiang Kai-shek, da forma como um grande aviso próximo pede que façam. E quando se deparam com os velhos soldados do general, eles são amistosos e até mesmo trocam cartões de visita.

Yang Jun-chi costumava vir aqui com freqüência, quando sua visão era melhor. Ele atualmente é um veterano de 83 anos, um homem pequeno vestindo calça de agasalho e camiseta. “Eu não tenho nada em Taiwan”, ele diz. Ele vive em um pequeno quarto com seu pássaro canoro e sua esposa tailandesa, pela qual ele pagou US$ 3.160 a um casamenteiro. Ele deixou a prima que amava para trás no continente em 1949.

“Taiwan é uma província da China”, diz Yang, e é claro que os políticos devem conversar sobre a reunificação. Poderia ocorrer da forma como ocorreu em Hong Kong, onde foi estabelecida a política “Um País, Dois Sistemas”. Agora em seus anos finais, o ex-soldado Yang, que antes lutava contra os comunistas, passou a concordar com o Partido Comunista.

Em dois meses Yang tomará um dos novos vôos diretos para o continente para participar de uma festa de família em sua aldeia natal. Enquanto estiver lá, ele também verá a urna que encomendou. Antes de morrer, Yang Jun-chi gostaria de finalmente partir de Taiwan.

“Der Spiegel”

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Dívida argentina está maior do que em 2001, ano do calote

Jude Webber

Os níveis da dívida da Argentina estão maiores do que quando o país deu o maior calote de dívida soberana na história, em 2001, e um agravamento da crise de confiança no governo traz o fantasma de um novo calote, diz um relatório que será divulgado na próxima semana.

Apesar de uma reestruturação radical há apenas três anos, a dívida pública atingiu US$ 114,7 bilhões, ou 56% do produto interno bruto, em comparação a US$ 144,2 bilhões, ou 54% do PIB, em 2001 -em uma época em que a economia da Argentina era muito maior- segundo o relatório.

Os economistas Martín Krause e Aldo Abram, diretores do Centro de Investigações de Instituições e Mercados da Argentina da escola de administração Eseade, também apontaram que se o valor devido aos portadores de títulos que não aceitaram a reestruturação de 2005, e estão processando para recuperar seu dinheiro, for incluído, a dívida geral da Argentina sobe para US$ 170 bilhões, ou 67% do PIB.

“Nós não estamos nos equilibrando à beira do calote, mas se continuarmos neste caminho, com este nível de conflito (social), nós poderemos chegar lá”, disse Abram ao “FT”.

Muitos países desenvolvidos como a Itália e o Japão têm proporções maiores de dívida em relação ao PIB, mas os custos mais altos de empréstimo da Argentina e retrospecto institucional instável dificultam para ela obter crédito.

“A preocupação não é a quantia, mas sim não termos acesso ao crédito”, disse Abram.

O governo de seis meses da presidente Cristina Kirchner está lutando para resolver um conflito de três meses com produtores rurais, após ter imposto novas tarifas de exportação sobre produtos agrícolas chaves em março.

O conflito se estendeu aos caminhoneiros, que montaram bloqueios de estrada para exigir um fim da disputa agrícola, que interrompeu o transporte de grãos.

A ação deles causou escassez de combustíveis e pressionará ainda mais a inflação, que o governo é amplamente acusado de tentar esconder com dados manipulados.

Enquanto isso, o governo deve encontrar neste ano um total de US$ 14,6 bilhões para o serviço da dívida, mais US$ 11,8 bilhões no próximo ano e US$ 10,5 bilhões em 2010.

Mas a ameaça de ação legal pelos portadores de títulos impede o acesso da Argentina aos mercados de capital internacionais, assim como também permanece inadimplente junto ao Clube de Paris de países credores, para o qual deve US$ 6,6 bilhões.

Como resultado, a Argentina cada vez mais tem recorrido ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que comprou US$ 6,4 bilhões em títulos nos últimos três anos. Mas o isolamento financeiro internacional é caro -a Argentina teve que pagar à Venezuela taxas de juros de até 13%, mas cancelou sua dívida de baixo custo junto ao Fundo Monetário Internacional e a dívida junto ao Clube de Paris custa apenas 5,3%, disse Krause.

Em comparação, o Brasil, que tinha um perfil de dívida muito pior que o da Argentina em 2001, recentemente obteve grau de investimento e vendeu um título de 10 anos a 5,3%.

“Financial Times”

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Os estudantes e a condição proletária

As manifestações de 1968 devem ser compreendidas à luz da universalização e esgotamento do modelo fordista

Ruy Braga

Efeméride ligada ao principal acontecimento social da França no pós-Segunda Guerra Mundial não poderia passar sem controvérsia… E coube a ninguém menos do que Nicolas Sarkozy reavivar durante seu último comício eleitoral, em 29 de abril de 2007, a polêmica ao exortar os franceses a “liquidar a herança de Maio de 68″. O ataque do então candidato e atual presidente francês ao Maio de 1968 é emblemático: coroou uma campanha eleitoral centrada no slogan “Trabalhar mais para ganhar mais!” - celebração política da produção neoliberal num momento de aumento da concorrência entre os próprios trabalhadores.

Evidentemente, não é de hoje que o Maio de 1968 é atacado. Principalmente por aqueles que, tendo apoiado ou participado do movimento à época, capitularam à onda conservadora dos 1970-1980 e formaram o que Serge Audier chamou de “pensamento anti-68 plural”. Bernard-Henri Lévy, André Glucksmann, Patrick Rotman, Hervé Hamon, Laurent Joffrin… Muitos são aqueles que, disputando um certo espólio “sessentaoitista”, sentiram a necessidade de “esterilizar” os acontecimentos. Não raro, esse grupo de semi-arrependidos obtém êxito nessa empreitada ao enclausurar a rebelião estudantil no terreno quase anódino da crítica dos valores sociais.

Conforme esse grupo, o Maio de 1968 teria se configurado numa tentativa romântica de jovens idealistas de classe média de modernizar as relações sociais que então vigoravam na sociedade francesa por meio da contestação da autoridade paterna coroada pelo Estado. Ou seja, no limite, as demandas presentes no Maio de 1968 teriam aberto as portas da sociedade francesa para a modernização capitalista dos anos 1980-1990 e cujo coroamento foi o próprio neoliberalismo - primeiro com os sucessivos governos de François Mitterrand e depois com a unificação européia.Trata-se, evidentemente, de um ardil cujo sentido consiste em recalcar o trauma representado pela aliança operário-estudantil na maior greve geral da história européia que se seguiu ao 10 de Maio - a chamada “Noite das Barricadas”. Contudo, o engodo montado contra a aliança operário-estudantil - forjada, diga-se de passagem, à revelia da vontade das direções sindicais tradicionais - atingiu um outro alvo: os vínculos sociais dos novos estudantes com a velha condição proletária.

Fordismo e elevação das condições de vida
Após o final da Segunda Guerra Mundial e durante aproximadamente 25 anos (1948-1973), o mundo capitalista ocidental, tendo os Estados Unidos à frente, viveu um período marcado por forte crescimento econômico, com baixa inflação e expansão do consumo de massas, conhecido tradicionalmente pelo nome de “fordismo”. Ele representou um momento da história capitalista no qual um certo mecanismo de acumulação baseado na organização e no rígido controle do trabalho estava associado a aumentos salariais que garantiram o acesso da classe trabalhadora aos bens de consumo duráveis - tais como carro, casa própria, televisão, geladeira - e à expansão dos serviços públicos gratuitos - saúde, educação.

Os ganhos de produtividade que eram alcançados nas fábricas serviam de base para os aumentos salariais dos trabalhadores e ajudaram a garantir o desenvolvimento dos serviços públicos. Um surto de progresso material relacionado ao fordismo foi criado e o progresso econômico apareceu para as diferentes sociedades nacionais como algo quase “natural”. Aparentemente, o capitalismo ocidental havia superado definitivamente as crises de superacumulação de capital.

Mesmo observando que o progresso nos países capitalistas desenvolvidos nunca alcançou todos os setores assalariados - na verdade, limitava-se à fração branca, nacional, masculina e sindicalizada da força de trabalho - e que os países periféricos viviam uma situação radicalmente diferente - não nos esqueçamos que o Brasil e a América Latina passavam, nesse período, pela experiência das ditaduras militares apoiadas pelo governo estadunidense -, é inegável que o fordismo representou um período de crescimento econômico com relativa distribuição de riqueza social que beneficiou os trabalhadores de diferentes países.

A soma da elevação das condições de vida da massa trabalhadora com o reconhecimento da classe operária como um agente legítimo do jogo político foi essencial para a relativa integração econômica e política dos grupos operários, assim como suas direções sindicais ao Estado burguês. Na Europa ocidental, uma autêntica “oposição de compadres” organizada em torno da política reformista dos Partidos Comunistas oficiais com o conseqüente bloqueio do desenvolvimento do movimento operário e social consolidou-se como uma espécie de “padrão”. Ocorre que as condições sociais inerentes à acumulação fordista promoveram a necessidade crescente de força de trabalho especializada no plano tecnocientífico tanto na indústria quanto no aparelho de Estado. Além disso, o sucesso econômico das empresas fordistas associado ao incremento dos serviços públicos estatais e semi-estatais fez com que as classes médias também progredissem numericamente, acabando por estimular a procura por novos estudos superiores.

Em resumo, por meio da introdução massiva de trabalho intelectual na indústria e da diversificação dos serviços públicos estatais e semi-estatais, os diferentes modelos de desenvolvimento nacionais fordistas estimularam a aceleração da inovação tecnológica o que redundou em uma ampla integração do trabalho complexo no processo de produção. Como desdobramento, os grupos universitários estadunidenses e europeus ocidentais foram largamente ampliados, em um sistema educacional superior em franca expansão.

Radicalização do movimento estudantil
Nesse sentido, a “explosão” universitária funcionou como uma espécie de ferramenta do processo mais geral de transformação dos grupos intelectuais em trabalhadores assalariados aumentando, conseqüentemente, a massa e a qualificação do proletariado tradicional em países de capitalismo avançado.

Assim, torna-se fácil entender como em um intervalo relativamente curto de tempo de aproximadamente 25 anos, a universidade tradicional foi substituída por verdadeiras fábricas de produção de conhecimentos científicos, tendo como marca mais visível um aumento colossal do número de estudantes. Sinteticamente, podemos dizer que a explosão universitária experimentada durante o período em que vigeu o modelo de desenvolvimento fordista é fruto da combinação do alargamento simultâneo da oferta e da procura de força de trabalho intelectualmente qualificado com mudanças sociais relacionadas aos esforços individualizados por promoção social - tradicional nas classes médias, mas inusual entre as fileiras proletárias.

Com o avanço da escolarização, seguido da massificação do ensino universitário e da “proletarização” do trabalho intelectual, torna-se patente que o argumento utilizado pelos dirigentes dos PCs oficiais contra os estudantes rebeldes era essencialmente enganador. Tomados de surpresa, os sindicatos burocratizados e o movimento comunista oficial - já bastante abalados pelas denúncias dos “Crimes de Stálin” ocorridas durante o 20º Congresso do PCUS em 1956 - respondiam à pergunta “Afinal, quem são esses estudantes que se rebelam?” assim: “Os estudantes de hoje são nossos futuros patrões! Não levemos a sério o que estão dizendo!”

Na verdade, mesmo se considerarmos países como Estados Unidos e França, largamente beneficiados pelos frutos materiais do modelo de desenvolvimento dos anos 1950-1960, ainda assim seria perfeitamente possível prever que os trabalhadores iriam se revoltar contra as bases do “progresso” fordista, isto é, a intensificação do trabalho, a aceleração das cadências, a limitação da liberdade de greve, a crescente alienação como produtores e como consumidores… A surpresa que abalou a chamada “velha esquerda” ficou naturalmente por conta do novo protagonismo estudantil profundamente traspassado pela principal luta no mundo na década de 1960: a luta contra a Guerra do Vietnã.

De fato, a radicalização do movimento estudantil ocorreu no contexto da radicalização das lutas anti-imperialistas e anticolonialistas. Isto é, questões até então não-centrais para o movimento operário-sindical dominado pela “velha esquerda” comunista oficial passaram à frente das políticas de pacificação social estruturadas no fordismo. Na verdade, as lutas anti-imperialistas funcionaram como uma espécie de válvula de escape por meio da qual contradições sociais latentes e manifestações de descontentamento social com os partidos operários tradicionais puderam emergir e questionar a relação da direção operária tradicional com o Estado burguês.

Nesses termos, a luta estudantil teve como principal fonte política de revolta a associação entre um profundo descontentamento com as bases econômicas da sociedade fordista e um não menos profundo descontentamento de amplos setores da classe operária com a sua própria direção política tradicional. Ou seja, a onda de revoltas estudantis e operárias de 1968 deve ser compreendida à luz da universalização e esgotamento do compromisso fordista que sustentou o modelo e desenvolvimento capitalista nas décadas de 1950 e 1960, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa ocidental.

Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da USP e Diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic)

“CULT”

Comentários

O aquecimento climático contado pelos pássaros

Laurent Carpentier

Sobre os rochedos do cabo Fréhel nesta primavera, eles eram três vezes menos numerosos que dois anos atrás. Em outros lugares eles modificam seus itinerários de migração, antecipam os períodos de reprodução, mudam seu regime alimentar. As perturbações no modo de vida das aves constituem um dos melhores indicadores das evoluções climáticas em curso. E todos os sinais estão ficando vermelhos. Os tempos mudam, e assim como várias espécies de aves os homens também terão de se adaptar.

O fitoplâncton foi o primeiro a desaparecer. Como as águas do mar do Norte se aqueceram em apenas 1 grau, esses microrganismos marinhos subitamente migraram para os fundos mais rigorosos. O zooplâncton o seguiu. E depois, em seu rastro, vimos partir a galeota, esse “peixe-ração” fino e comprido do qual se alimentam os grandes peixes e as aves marinhas. Entre as vastas colônias de gaivotas de três dedos, airos e pingüins, de andorinhas-do-mar e gansos-patola que povoam as costas britânicas, soprou um vento de pânico. As aves, empurrando cada vez mais longe sua magra pesca, perderam as forças. Penúria alimentar, fracasso na reprodução, revoltas da fome… A desolação deu lugar ao medo: gaivotas-rapineiras e mandriões, esses superpredadores incapazes de pescar sozinhos, se encheram de cólera e, esfomeados, se atiraram sobre os ovos, os filhotes e até sobre as gaivotas que voltavam sem presa. Guerra e fome… Em um dia de 2004, quando os ornitólogos escoceses voltaram à falésia que estudavam, não havia mais aves.

Apesar de manter sempre um sorriso de lado, lemos a preocupação nos olhos de Bernard Cadiou. Seus binóculos estão pendurados, inúteis: aqui, nas Côtes-d’Armor, a face noroeste da Grande Fauconnière, esse rochedo de granito vermelho esculpido pelos ventos abaixo do cabo Fréhel, habitualmente povoada por dezenas de casais de cormorões, está deserta. Somente algumas silhuetas negras e tranqüilas, de pescoço alto e bico sublinhado de amarelo, pairam sobre os raros montes de galhos e de algas. “Contávamos cerca de 350 casais dois anos atrás. Hoje há três vezes menos… E enquanto os cormorões começam a se acasalar a partir de fevereiro, este ano só vimos o primeiro ovo em 21 de abril… A forte tempestade que houve em 11 de março não pode explicar sozinha o fenômeno. Mesmo os ninhos abrigados do vento não receberam novos locatários…”

Com sua franja e três brincos na orelha, o eco-etólogo baseado em Brest (oeste da França), observador das aves do litoral bretão, tem a agilidade de um pirata quando percorre, com sua luneta ao ombro, o estreito caminho de malucos sobre os recifes do cabo Fréhel. Ele desaparece por uma falha para ressurgir lá embaixo, no nível do mar, sua pequena silhueta perdida no meio da neblina. Um bando de airos se aperta em uma cavidade da rocha. Seis pingüins - dos cerca de 30 casais que restam na Bretanha, apenas - procuram um lugar batendo as asas violentamente. Três fulmares boreais cochilam, insensíveis aos gritos das gaivotas-prateadas. O cabo é, no fim de maio, uma enorme incubadora. Mas para Bernard Cadiou tudo está calmo demais: “Segundo o que os ornitólogos britânicos relataram, esperávamos que isso acontecesse qualquer dia. Já no ano passado todos os sinais ficaram vermelhos: a reprodução das aves foi catastrófica. E ao mesmo tempo os pescadores nos contaram que não se encontravam mais galeotas na barriga da raia ou do salmão branco, que costuma regurgitá-los. Pois o que é verdade para as aves também vale para os homens. O empobrecimento dos recursos marinhos afeta a ambos. Em Saint-Jacut, o dono de um barco pesqueiro me contou que no ano passado começou sua campanha com um mês de atraso por não encontrar a galeota que usa como isca”.

Para os que se preocupariam em saber quais são as conseqüências do aquecimento climático, as aves - sejam elas marinhas, migratórias ou hibernantes - são um indicador rico de informações sobre a rapidez das evoluções em curso. O fitoplâncton foi o primeiro a desaparecer, depois a galeota, depois os cormorões… quem será o próximo? Um simples grau de aumento na temperatura e todo um ecossistema desmorona. Quando sabemos que os climatologistas do Grupo Intergovernamental sobre a Evolução do Clima (Giec) informam em seu relatório sobre uma possível elevação da temperatura de 1,8 a 4 graus nos próximos cem anos, imaginamos a grande convulsão que se prepara nessa natureza onde os seres vivos, incluindo nós mesmos, são interdependentes. E os climatologistas sabem que, mesmo que as metas de redução dos gases de efeito estufa anunciadas pelas grandes nações sejam atingidas - o que já é amplamente improvável diante da revolução energética que representa -, a duração desses gases não permite imaginar uma recuperação milagrosa e rápida da situação.

As aves são alarmes que não param de tocar. É a andorinha que não anuncia mais a primavera porque prefere passar o inverno em seu habitat, a cegonha que em grande parte se tornou sedentária, a perna-longa branca que se implanta ao norte do Loire e a garça guarda-boi, moradora da Camargue, que hoje passeia na baía de Somme… É o inseparável-de-Fischer, um periquito da África tropical, que se instala perto de Nice, ou ainda o tordo, que os caçadores esperam desesperadamente enquanto ele hesita em deixar as terras frias da Escandinávia.

Em 1989 a comunidade científica francesa adotou uma ferramenta de vigilância territorial das aves, o programa Stoc (Acompanhamento Temporal Comum das Aves, na sigla em francês). Em 2006, 18 anos depois de sua implementação, constatou-se que as comunidades de aves se deslocaram 124 km para o norte!

Migração fora de época

Assim que o sol se levanta, Yves Muller está na floresta. A grande floresta dos Vosges do norte que rodeia sua casa, perto da Alemanha. Dos dois lados do caminho a terra foi revirada em buracos selvagens pelos javalis. O sol ainda está amarelo, mas o ar está puro e cheio de cantos de aves. Uma trepadeira-azul faz tut-tut-tut, um tentilhão lança seu ti ti ti ti tui-iú. O grito seco e estridente das toutinegras - tac tchack tchack - se transforma em um canto: “É muito fácil reconhecê-la, é o que parece uma bonita flauta no final”. É a floresta de Yves Muller, 6.300 hectares classificados zona Natura 2000, a rede ecológica européia. Professor de matemática em meio período no colégio de Bitche e ornitólogo no resto do tempo, ele conhece seus menores recantos há 30 anos, que percorre de cima a baixo. Foi ele quem pintou esses sinais redondos amarelos que vemos aqui e ali enfeitando árvores mortas. Não se trata de abatê-las, mas, ao contrário, de conservá-las. Muller as escolheu devido às cavidades que possuem como possíveis ninhos para os pássaros migratórios.

Tchira tchira tchira? é ele. O sabiá-preto. É ele que viemos visitar. Nesse bosque de árvores meio comidas pelo tempo, três passarinhos voam de galho em galho. Diante de um buraco à meia altura de um pinheiro, um deles se imobiliza e, balançando a cauda em um movimento de exibição, de cima para baixo, de baixo para cima, começa a cantar. É um macho e em sua linguagem ele convida a fêmea a unir-se a ele, prometendo-lhe ali, naquele buraco abandonado, o conforto de um ninho de amor e toneladas de lagartas para seus rebentos… Esse sabiá Yves Muller conhece bem. Ele o estudou durante dez anos, fabricou ninhos para ele, o segurou nas mãos, o fotografou. Ao longo desses anos anilhou mais de 500. Hoje um estudo vindo dos Países Baixos mostra que a desordem climática é como uma espada de Dâmocles sobre sua frágil carcaça.

O sabiá é um migrador de longo percurso. Quando o vento frio do norte chega, no outono, podemos ver sua silhueta esguia, apenas 15 gramas, levantar vôo para vencer corajosamente, sozinho e de noite, os milhares de quilômetros que o separam de seu refúgio invernal na África Ocidental, do outro lado do Saara. Ali ele ficará até meados de abril. Nessa data, seu relógio interno lhe avisa que está na hora de voltar. Há 20 anos esse relógio se modifica progressivamente. E essa assincronia, segundo a equipe de pesquisadores holandeses, poderá causar seu desaparecimento. De fato, quando o simpático passarinho volta exausto de sua odisséia, desembarca em florestas onde o clima cada vez mais brando há muito tempo esverdeou as folhas. As lagartas - que compõem grande parte de sua alimentação - se regalaram e estão prontas para se metamorfosear em borboletas, quando já não o fizeram. Há 20 anos os sabiás tentam portanto atenuar essa decalagem adiantando sua data de postura. Eles que até agora tiravam uns 15 dias de descanso depois da viagem pré-nupcial, para se recompor, agora se acasalam prematuramente. Mas, cansados, estressados, assim como os cormorões, eles têm dificuldade para se reproduzir adequadamente, ou se tornam belas presas para os gaviões. “Por enquanto, no que diz respeito aos Vosges, nossos efetivos continuam estáveis”, constata sabiamente Muller, alisando seu bigode. Mas o que acontecerá com eles amanhã se não conseguirem modificar seu relógio interno e a primavera continuar chegando precocemente às nossas latitudes?

Evoluir ou morrer

Quando voltou de sua célebre viagem às ilhas Galápagos a bordo do Beagle, Charles Darwin trouxe várias aves diferentes desconhecidas, nas quais ele via melros, azulões, canários… Em Londres, os ornitólogos chegaram à conclusão de que eles formavam na realidade um grupo de aves próprio, composto de 12 espécies diferentes. Cada uma correspondia a uma das ilhas do arquipélago, muito diferentes e distantes entre si. Esses “canários de Darwin”, como os chamamos hoje, contribuíram assim para assentar a teoria da evolução, segundo a qual, a partir de ancestrais comuns, cada espécie evolui para responder às diferentes necessidades que correspondem a seu ambiente… Adaptabilidade como palavra-chave de todo o futuro.

“Dizemos ainda hoje que a evolução leva um tempo infinito, mas não é verdade. Processos evolutivos podem ocorrer em tempos muito curtos”, entusiasma-se Phillipe J. Dubois, o carismático diretor da Delachaux et Niestlé, augusta e incontornável editora sobre a natureza. “Veja as toutinegras: bastaram algumas gerações para que elas mudassem em seus genes as informações migratórias!” Um passarinho como o sabiá, mas um dos mais comuns em nossas florestas temperadas, tradicionalmente a toutinegra migra para o sul para ocupar seu habitat de inverno na Espanha. Mas um dia, em dezembro de 1961, um gato irlandês apanhou em suas garras uma toutinegra um pouco mais cedo naquele ano, em Linz, na Áustria.

Seleção natural em marcha

O que ela estava fazendo ali? Fuga solitária de um pobre animal desorientado? Bem mais tarde se compreendeu que ela era apenas o sinal precursor de um fenômeno emergente: as toutinegras das planícies da Europa Central começaram a hibernar, em grande parte, nas terras hoje hospitaleiras da fachada atlântica. Desde então o movimento não pára de crescer: quando chega a hora certa para elas encontrarem suas terras de nidificação, as toutinegras que decidiram migrar para oeste voltam mais rapidamente que suas irmãs que fizeram a grande viagem para o sul. As inglesas, primeiras a chegar, levam vantagem e conseguem os melhores lugares, estão menos cansadas pela viagem, se reproduzem melhor. A seleção natural está em marcha…

Como essas migradoras noturnas que voam a 2 mil metros de altura e se orientam pelas estrelas puderam mudar sua rota em tão pouco tempo? A equipe de Peter Berthold, do Max Planck Institute de Radolfzell, perto do lago de Constança na Alemanha, criou em gaiolas passarinhos cujos pais haviam hibernado na Inglaterra. Na hora da migração, eles foram colocados no meio de um campo em uma caixa cuja tampa de vidro deixava ver a noite estrelada. O solo foi coberto de um pó preto. De manhã, todas as pegadas no chão estavam voltadas para oeste: prova de que as toutinegras haviam sofrido uma mutação. A informação havia sido inscrita em seu patrimônio genético.

Quando não está na Delachaux et Niestlé, na revista “Ornithos”, que ele anima, na Liga de Proteção às Aves, para a qual trabalha em tempo parcial, ou fazendo pesquisas com uma equipe da Universidade de Lille sobre o impacto da corrente transatlântica sobre os seres vivos, Dubois percorre a subfloresta do parque natural do Vexin, em Pontoise, onde mora. Uma curiosidade jamais esgotada desde que, com 13 anos, uma tia lhe ofereceu a bíblia da ornitologia, “e” Peterson. (”No começo achei aquilo muito chato, todos aqueles pássaros alinhados em pranchas, mas peguei emprestados os binóculos de teatro da minha avó, e então…”) “Tudo isso, essas ameaças, essas guerras, esses movimentos, nos falam evidentemente também de nós”, ele explica, “e somos obrigatoriamente levados a nos perguntar se o que acontece com as aves não prefigura o que poderá nos acontecer amanhã…” .

Sobre sua escrivaninha estão as primeiras provas do relatório sobre o impacto do clima sobre as aves que lhe foi encomendado pelo Observatório Nacional sobre os Efeitos do Aquecimento Climático. As 379 espécies de aves encontradas na França foram revistas, salientando as “perturbações que às vezes acontecem rápido demais e para as quais a previsibilidade continua muito imprecisa”. Esse defensor da biodiversidade pede a criação de um observatório específico “para aves e clima” e defende a implementação de um painel de dez espécies que serviriam de indicadores das conseqüências do aquecimento.

“A pesquisa sofreu muito de uma tendência molecularista que foi feita em detrimento da entomologia de campo, menos confortável e menos gratificante”, escreve o climatologista Jean-Pierre Besancenot em “Notre santé à l’épreuve du changement climatique” (Delachaux et Niestlé, 2007, 220 p., 19 ?) (nossa saúde sob a prova da mudança climática). O que é verdade para os insetos também vale para as aves. “Não há mais ninguém para observar os seres vivos”, lamenta Dubois. A biologia molecular conseguiu todos os créditos para pesquisa. E quando se trata hoje de observar e conhecer o comportamento e os movimentos dos insetos - esses importantes vetores de doenças para o homem -, a fenologia das plantas - esses formidáveis indicadores do estado de saúde do planeta - ou a evolução das aves que sofrem plenamente o choque dos distúrbios ambientais, apela-se para a boa vontade pública. O Observatório das Estações, o Observatório das Borboletas de Jardim, Phénoclim… graças à Internet, cada um hoje é convidado a vigiar essa natureza em perigo.

O programa de Acompanhamento Temporal Comum das Aves, criado há 20 anos, contribui assim com mais de mil ornitólogos amadores, cada um encarregado de uma parte do território a observar, anotar e estudar ao longo dos anos, conforme protocolos definidos por uma equipe de pesquisadores. “Além do deslocamento significativo das populações de aves para o norte, os resultados desse estudo são ricos em informações”, constata Romain Julliard, 37 anos, biólogo da conservação, que é um dos responsáveis pelo programa no Museu Nacional de História Natural. “Vemos assim duas tendências se destacarem: a primeira é que de um lado os efetivos das espécies especialistas - sejam elas agrícolas, como a perdiz ou as cotovias; ou florestais, como os parulídeos - diminuem em benefício de espécies generalistas como o pombo comum. A segunda é que as espécies habitualmente situadas ao norte diminuem, enquanto as comumente situadas ao sul estão aumentando.”

Sob um velho pórtico do honorável museu na Rue Buffon em Paris, uma placa de cobre que esqueceram de lustrar há muito tempo indica: “Centro de Pesquisas sobre a Biologia das Populações de Aves”. É lá que Romain Julliard e seus colegas estudam essas espécies em mutação. Abaladas pelo clima, sim, mas não unicamente. A urbanização galopante, o desaparecimento progressivo das florestas, dos charcos e pântanos é uma ameaça bem mais imediata para elas. Assim como o envenenamento dos solos pelos fertilizantes e pesticidas de todo tipo. “O equilíbrio natural é uma imagem ilusória”, sorri com indulgência Julliard. “Na realidade estamos em sistemas muito dinâmicos, que se desequilibram facilmente… Mas o que é tranqüilizador, quando se estudam os pássaros, é ver que as coisas são reversíveis. Na Dinamarca diminuíram amplamente os recursos para fertilizantes e as cotovias voltaram…”

Enquanto a noite invade o Jardim de Plantas e os passos dos visitantes se afastam em direção às grades do parque, os pardais tomam posse do lugar. Julliard ajusta seus óculos com o dedo indicador: “Fomos formados em uma ecologia da restauração. A imagem de um ideal perdido que tentamos conservar, manter, não é mais pertinente. É bem mais judicioso pensar em preservar a biodiversidade do futuro do que se agarrar à do passado. Hoje o desafio é encontrar as ferramentas que nos permitirão viver amanhã, quando fará mais calor. E certas espécies de aves têm aí um papel essencial. Pelo menos na polinização das plantas… Diante dos movimentos extremos da natureza, os seres vivos resistem se adaptando: cabe a nós lhes deixar os meios e o espaço para tanto.”

“Le Monde”

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Na estrada

Milho, não eleições, domina América profunda, em rota de 1.500 km de alienação

Sérgio Dávila

É quase outro país, um lugar mágico em que não há uma disputa para presidente, mas para ver quem fala mais de milho.
A Folha percorreu de carro os 1.550 km que separam Denver, no Colorado, onde Barack Obama será consagrado o candidato do Partido Democrata nesta semana, de St. Paul, em Minnesota, onde John McCain aceitará a indicação do Partido Republicano na primeira semana de setembro. A paisagem entre os dois locais é monotemática: milho.
Milharal. Usinas de álcool de milho. Turbinas movidas a vento que ajudam na manutenção de fazendas de milho. Políticos movidos a milho, do subsídio dado pelo governo norte-americano ao combustível feito da planta. Água, também, mas a necessária na irrigação do plantio do milho.
Quem anda pela estrada I-80 de oeste a leste e, a partir de Des Moines, em Iowa, na I-35 de sul a norte -duas das principais veias que cortam o chamado Cinturão do Milho, de onde sai metade da produção do grão e quase a totalidade do etanol do país inteiro-, vai encontrar muito pouca referência às convenções e às eleições de 4 de novembro.
No trajeto todo, duas placas podem ser consideradas mais ou menos engajadas. Uma dizia que cachorros aprendem, políticos não, numa fazenda de Minnesota; outra, em Nebraska, pedia que a sodomia fosse declarada prática ilegal.
É quase como se os quatro Estados em questão -Nebraska e Iowa, além das sedes das convenções-, com seu total de 31 votos no Colégio Eleitoral, ou mais de 10% dos 270 necessários para que um dos candidatos vença, não importassem. Mas os candidatos sabem que não é assim, ainda mais numa disputa tão apertada.
Iowa já foi visitado dezenas de vezes pelos dois só neste ano, a mais recente na sexta retrasada por McCain, que foi à tradicional Feira Anual. Obama se declarou candidato do partido num comício em St.Paul, em junho. Colorado está sendo disputado ponto a ponto. O democrata abriu dois escritórios em Nebraska, que não vota no partido desde 1964.
1
A ÁGUA
O trajeto começa em Denver, em que um assunto tira os locais do sério. E não é o esquema de segurança com que a polícia promete receber os manifestantes durante os quatro dias da Convenção Democrata, nem o centro de triagem para o qual levará os presos, já apelidado de Guantánamo.
Os cinco milhões de coloradenses querem saber o que vai acontecer com seu produto mais precioso, a água. O Estado, cujo lema extra-oficial é “uísque é para beber, água é para brigar”, é um dos signatários do Acordo de 1922 do Rio Colorado, que dividiu em partes iguais a produção da bacia desse rio entre sete Estados.
Acontece que, nos últimos anos, Estados-pêndulo que viram sua população explodir, como Nevada e Novo México, querem rever o acordo, assim como o Arizona de John McCain. Ele esteve por aqui há duas semanas e disse que o tratado “tem de ser renegociado”.
Depois disso, o senador pode se despedir dos votos daqui. É o que me diz Jody Berger, da ONG progressista Progress Now. “O fato de ele dizer isso demonstra a falta de cuidado de McCain para com a população local.” Obama ainda não se pronunciou sobre o assunto. Nas pesquisas agregadas pelo site Real Clear Politics, os dois estão empatados no Estado, com 45,8% para o democrata e 45,3% para o republicano.
- Em quem você vai votar?
- Só vou decidir depois das convenções. Quero ver que tipo de confusão vão aprontar na cidade, como os políticos locais vão reagir e acho que preciso conhecer mais os candidatos.
(Denise Mease, 49, dona de sete restaurantes em Denver)

2
O MILHO
Ao sair do Colorado e entrar em Nebraska pela cidade de Ogallala, conhecida por ser uma das paradas do pioneiro serviço postal Pony Express, o FedEx do Velho Oeste, o viajante deve deixar para trás não suas esperanças, mas a possibilidade de ver outra coisa que não milharal.
O Estado é o segundo maior produtor de álcool dos EUA, me informa a associação local. É também um dos redutos republicanos mais sólidos do país. Com exceção de 1964, quando votou no democrata Lyndon Johnson, Nebraska é republicano desde 1940. Mas Barack Obama pretende repetir aqui a mesma técnica que o fez vencedor nas primárias.
É que o Estado é um dos dois dos EUA em que os votos do Colégio Eleitoral não vão todos para o vencedor, mas são divididos proporcionalmente. Obama está de olho nos distritos em torno de Omaha, a maior cidade, em que aparece bem em pesquisas recentes.
Está amparado pelo omahano mais ilustre, Warren Buffett, que vem a ser também o homem mais rico do mundo, segundo a revista “Forbes”, com US$ 62 bilhões. Fica aqui a sede de sua empresa, Berkshire Hathaway, com faturamento mundial de US$ 260 bilhões e mais de 60 subsidiárias.
O empresário de 76 anos ainda não declarou apoio oficial a Obama, mas realiza eventos de arrecadação de fundos para sua campanha. Cheguei a Omaha cinco dias depois de um jantar dado por Buffett para arrancar dinheiro da elite local. Foi concorridíssimo.
A mesma animação não pode ser sentida nas camadas mais baixas. Naquele dia, uma senhora oferecia um chá da tarde para seus companheiros obamistas. Quando fui me registrar, era o terceiro. À noite, no bar de um dos principais hotéis, jovens vestidos de camisetas pretas falavam alto. “Eu fiquei a dois metros dele!”, gritava um, entusiasmado. Aos poucos, vencendo a pouca iluminação, fui enxergando melhor.
Nas camisetas, nada de slogans de campanha. Uma dizia “sente sua bunda em algo com classe” e trazia o logo da Harley Davidson. Um garçom me informou: a banda heavy metal britânica Def Leppard havia acabado de se apresentar na cidade, junto ao roqueiro Billy Idol. O “ele” a que se referia o rapaz era o Idol britânico, não o ídolo político.
No dia seguinte, numa palestra na universidade estadual local, o senador democrata Ben Nelson voltaria ao assunto que tira o sono do Estado hoje: álcool. “Eu admito que o feito a partir de milho não é perfeito, mas ele tem sido culpado por praticamente todos os problemas do mundo. Vão culpá-lo de causar o que mais? Resfriados de verão? Vírus de computador? Penteados ruins?”
Foi por conta de Nelson e para não alienar a poderosa bancada do milho que Obama votou a favor da manutenção tanto do subsídio ao produtor local quanto da tarifa cobrada do produto brasileiro. McCain foi mais corajoso e declarou num evento em Iowa que era contra a taxação do álcool do Brasil.
Nelson diria depois: a tarifa só cairá “sobre meu cadáver”.
- Em quem você vai votar?
- Não acho certo responder a perguntas pessoais no trabalho. De qualquer maneira, não me sinto confortável falando sobre minha opção política.
(Funcionária que se recusa a dizer o nome no Buffalo Bill Ranch, em North Platte)

3
O VENTO
Já na I-35 e já em Iowa, rumo ao norte, o susto. Imensas hélices quixotescas começam a brotar do meio dos milharais. São as turbinas movidas a vento, forma de energia alternativa que começa a ganhar força no Estado que é o maior produtor de álcool do país.
Nos últimos cinco anos, o número de fazendas e empresas em geral que usam esse tipo de energia decuplicou, me diz Bill Haman, gerente de programas industriais do Iowa Energy Center, que usa incentivos fiscais estaduais para financiar os projetos. “Turbinas de vento estão virando commodities de Iowa tão valiosas quanto o milho e a soja”, afirma ele.
Pode ser. Mas, com mais de dois terços da viagem vencidos e centenas de postos pelo caminho, um traço comum chama a atenção: até agora, nenhum deles oferece álcool ao consumidor. Há gasolina de três tipos, diesel e até biodiesel, mas não álcool. Em Clear Lake, aparece o primeiro a oferecer o E-85, mistura de 85% do biocombustível com 15% de gasolina.
Encontrá-lo é tirar a sorte grande. Há 170 mil pontos de venda de gasolina nos EUA; apenas 1.500 oferecem álcool.
- Em quem você vai votar?
- Já sabia que ia votar no candidato republicano, não importava quem fosse. Como foi decidido que é o John Mccain, é nele. Não gosto das políticas domésticas dos democratas. Eles aumentam os impostos.
(Brian Bownes, 54, diretor executivo do Museu John Wayne, na cidade natal do ator, em De Soto)

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ESPERANÇA, MINNESOTA
St. Paul, ponto final da viagem, mostra timidamente os preparativos para a convenção republicana. Talvez porque o aparato policial não seja tão evidente, já que poucos manifestantes são esperados. Chama a atenção a romaria ao banheiro masculino do aeroporto internacional. Muitos querem conhecer onde o senador republicano Larry Craig, de Idaho, foi preso, acusado de “conduta libidinosa” diante de um policial à paisana. Ele nega.
Poucos quilômetros antes, porém, duas cidades fazem um comentário involuntário. A primeira é Hope, “esperança”, que tem no nome o slogan de Obama. É seguida por Clinton Falls, as Quedas de Clinton, no sentido de cachoeira. Aqui, a disputa foi apertada nas primárias. O senador teve oito votos; Hillary teve seis.
- Em quem você vai votar?
- Obama. Sempre voto na pessoa que vai fazer o melhor trabalho para o país.
(Lori Nelson, 48, dona do café Straight River, em Hope)

“Folha de S. Paulo mundo”

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