Arquivo de 2 de Setembro de 2008

Panteras Negras e o desafio da periferia

DOCUMENTÁRIO Nos anos de 1960, partido pautou autodeterminação dentro dos EUA e se tornou a principal ameaça à segurança interna

Abdias Santos

Recentemente foi legendado em português (e disponibilizado no site YouTube) um documentário que poderá nos ajudar a reavaliar nossas referências de luta dos anos de 1960. Trata-se do documentário de longa-metragem Todo Poder para o Povo: O Partido dos Panteras Negras e Além, lançado em 1997. Até agora, o Partido dos Panteras Negras, fundado em 1966 e destruído em meados dos anos de 1970, era mais conhecido no Brasil através de um filme de ficção de 1995, perfeitamente ajustado aos padrões comerciais.

A história
Já o documentário de 1997 foi concebido após as revoltas negras de Los Angeles, ocorridas em 1992, quando a impunidade da violência policial sobre o povo negro gerou quatro dias de levante massivo, com mais de 7 mil imóveis incendiados e 53 mortos. Enquanto a TV anunciava os estragos de mais de um bilhão de dólares, o documentarista Lee Lew-Lee decidiu se perguntar qual foi o verdadeiro dano histórico que provocou aquela explosão. O resultado é o resgate audiovisual de uma experiência profundamente consistente de organização e luta negra.
O filme parte do movimento de não-violência pelos direitos civis, que lutava pela integração do negro à sociedade estadunidense. Essa linha não garantiu profundas transformações. Enquanto caía a credibilidade do método não-violento, outra proposta ia se desenhando. Nas palavras de Malcolm X: “sejam não-violentos apenas com aqueles que forem não-violentos com vocês”.
Ele defendia a legítima defesa e recusava qualquer conciliação com a estrutura de poder branco e capitalista: “Se vocês vivem numa sociedade supostamente baseada na lei e ela infringe a sua própria lei, porque a cor de uma pessoa é considerada errada, então esse povo está justificado a agir por qualquer meio necessário para realizar a justiça que seu governo não oferece”.
Malcolm X foi assassinado em 1965, mas as condições estão maduras o bastante para que, no ano seguinte, surgisse a organização que vai levar a idéia de legítima defesa às suas últimas conseqüências. O Partido dos Panteras Negras organizou a saúde e a alimentação de suas comunidades, enfrentou a polícia com armas em punho e chegou a ter 5 mil militantes negros no final dos anos de 1960. O documentário nos mostra a vitalidade do Partido e também a reação do governo, feita com assassinatos de lideranças, prisões de centenas de militantes sob acusações ridículas, infiltrações, difamação e criminalização do Partido, tudo através de ampla articulação entre diversas agências de governo, resultando na destruição dos Panteras.
A bem da verdade, o filme peca quando faz questão de destacar que as mulheres tinham a mesma participação que os homens no Partido. O documentário mesmo desmente essa pretensão. As próprias imagens de época e depoimentos atuais exibem um poder de decisão muito maior nas mãos dos homens. Sinal de que o valoroso exemplo dos Panteras Negras guarda espaço para melhoramentos.
Mas, voltando à lista de virtudes, o longa coloca a intensificação do tráfico de drogas em perspectiva histórica e revela seu surpreendente papel em “retirar toda uma geração de jovens negros da cena política”. Quando a repressão, por si só, não foi suficiente para conter os Panteras, foram as drogas o principal fator interno de contenção, injetado nas comunidades num momento em que o levante das periferias efetivamente ameaçou a estrutura de poder branco estadunidense.

Enigmas
Por incrível que possa nos parecer, o contexto mundial de lutas de autodeterminação contou com um capítulo interno aos Estados Unidos. A descolonização africana não só repercutiu nesse país como incentivou uma manifestação original de luta pela libertação nacional. Sim, dentro dos Estados Unidos. “Os negros nos Estados Unidos são tratados como os vietnamitas ou como qualquer outro povo colonizado. A polícia invade nossa comunidade como uma tropa estrangeira ocupa um território. A polícia em nossa comunidade não poderia de jeito nenhum estar lá para proteger a nossa propriedade, porque não possuímos nenhuma propriedade.
[…] É necessário lutar em duas frentes: devemos libertar as colônias assim como estimular a revolução em nosso país”, diziam os Panteras Negras num filme de 1968 (Off the Pigg!). O Brasil é a segunda maior nação negra do mundo e conta com batalhões policiais famosos pelas táticas de combate nas estreitas ruas dos morros, caçando um inimigo permanente chamado de traficante, mas identificado como “elemento cor-padrão”. Polícia, ONGs e meios de comunicação se esforçam diariamente para confundir o potencial de resistência das periferias com o perigo criminoso.
Para nós, após assistir ao documentário, certas perguntas são incontornáveis: como pudemos ignorar ou subestimar o Partido dos Panteras Negras por tanto tempo no Brasil? A resposta não é simples nem confortável, mas é indispensável. Afinal, como um militante brasileiro poderia conceber guetos negros parindo “a ameaça número 1 à segurança interna dos Estados Unidos”, como dizia o chefe do FBI, J. Edgar Hoover? Quais são os critérios de uma memória seletiva que exalta as lutas estudantis de maio de 1968 e sonega a constituição de um exército de libertação negra em solo estadunidense? Será que conseguimos aceitar e celebrar a luta dos vietnamitas justamente porque o Brasil não tem 75 milhões de descendentes de asiáticos, mas sim de negros vivendo em favelas? Até quando vamos subestimar a força de transformação sitiada nas periferias brasileiras? Malcolm X diria que esses são enigmas que apenas o povo negro, com suas próprias mãos, poderá resolver.

Abdias Santos é do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD).

“Brasil De Fato”

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Doenças humanas afetam várias populações de chimpanzés

Xavier Venutolo

Os chimpanzés, espécie em vias de extinção, devem agora enfrentar mais uma ameaça. Depois de ter realizado uma campanha de estudos no Parque Nacional das Montanhas Mahale, na Tanzânia, uma equipe de cientistas da universidade norte-americana Virginia Tech revelou a contaminação de nossos primos mais próximos por vírus de origem humana, às vezes mortais. Não contente em destruir os chimpanzés através da caça ilegal e do desmatamento, o ser humano também está lhes transmitindo suas doenças.

Em um artigo publicado na edição de agosto da revista “American Journal of Primatology”, Taranjit Kaur e colegas constatam que alguns chimpanzés sofrem afecções respiratórias crônicas devidas a uma mutação do metapneumovírus humano, responsável por bronquites e pneumonias. Esses trabalhos confirmam os resultados recentes obtidos por vários institutos europeus e divulgados em fevereiro na revista “Current Biology”. Eles salientaram a presença de vírus semelhantes em cadáveres de chimpanzés no Parque Nacional de Tai, na Costa do Marfim. Portanto, o fenômeno não seria isolado e poderia cobrir todo o território africano.

Máscaras e testes
“A origem exata desse vírus e sua via de transmissão específica continuam pouco claras”, afirma Kaur, que pede estudos mais intensos e a implantação de uma vigilância das doenças infecciosas entre os chimpanzés. No entanto, há um certo número de indícios de que as amostras analisadas seriam provenientes de turistas ou… de cientistas. O ecoturismo e a pesquisa muitas vezes foram apresentados aos países em desenvolvimento como uma maneira de valorizar as espécies em perigo e seu hábitat natural. O objetivo era forçar os governos a proteger os animais a fim de obter contrapartidas econômicas e ecológicas. Mas o risco infeccioso, evidenciado por esses estudos, poderia acelerar a extinção dos chimpanzés e superar os benefícios.

“O ecoturismo é o coração das economias locais e nacionais dos países que abrigam vida silvestre. Se ele parar será devastador para suas populações, muito dependentes dessas fontes de renda”, comenta Kaur. Em conseqüência, a pesquisadora preconiza um certo número de adaptações para fazer evoluir o setor e preservar as populações restantes de grandes primatas: o uso sistemático de máscaras cirúrgicas para os pesquisadores e os turistas, testes para os funcionários do parque, programas de sensibilização, etc.

Sabrina Krief, primatologista e mestre de conferências no Museu Nacional de História Natural, pretende, no entanto, relativizar alguns pontos levantados por Kaur. Ela salienta que protocolos sanitários estritos já foram adotados por diversas reservas como, por exemplo, em Uganda com os gorilas. “As doenças são impressionantes porque atacam com força e rapidamente. Mas a mortalidade devida a elas continua marginal”, explica Krief. Portanto, não seria necessário se desviar das principais causas do desaparecimento progressivo dos grandes primatas. Há necessidade de conscientização dos governos locais. Eles devem tomar medidas estritas contra a caça, os riscos de conflitos locais e o desmatamento.

“Le Monde”

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Para atrair os turistas, uma cidade romena esconde seus mortos

Mirel Bran

A prefeitura da cidade de Mangalia, situada no litoral romeno do mar Negro, proibiu, na sexta-feira (1), os cortejos funerários. Conforme a tradição ortodoxa, à qual 87% dos romenos reivindicam pertencer, o morto deve ser levado pela sua família, seus parentes e amigos para “passear” pela cidade antes de ser enterrado. O ritual prevê várias paradas nas encruzilhadas, além de uma passagem pela igreja antes da chegada final ao cemitério. Preocupadas em preservar o potencial turístico da sua cidade, as autoridades locais de Mangalia tomaram a decisão de proibir o extenso ritual ortodoxo durante a temporada das férias, de 1º de maio a 15 de setembro.

“Os deslocamentos dos cortejos funerários pela cidade são prejudiciais ao conforto dos turistas e geram um estado de tristeza e de descontentamento”, explica Mihai Tusac, o prefeito de Mangalia. “Além do mais, a presença dos cortejos nas estradas adjacentes coloca em perigo a vida das pessoas, em razão das dificuldades que os cortejos enfrentam para se deslocar e do aumento do número de carros durante a estação estival”. A prefeitura propõe que a população local transporte discretamente o morto até o cemitério, sem dar todas aquelas voltas tradicionais pela cidade.

Esta medida não é nem um pouco objeto de unanimidade na Romênia, que se tornou membro da União Européia em 2007. Mas, os aportes financeiros proporcionados pelo desenvolvimento turístico do litoral do mar Negro reúnem todas as condições para mudar a regra do jogo. Em 2007, 1 milhão de turistas, dos quais 100 mil estrangeiros optaram por passar suas férias nas bordas do mar Negro. Neste ano, segundo previsão do ministério romeno do turismo, o seu número deveria aumentar em 15%.

Foi preciso esperar até o ano de 2000, quando foram iniciadas as negociações visando à incorporação da Romênia à União Européia, para ver começarem as obras de modernização do litoral romeno. As infra-estruturas obsoletas e os hotéis de arquitetura socialista herdados da época comunista não podiam, de fato, atrair muita gente. Apenas as pequenas aldeias típicas espalhadas pelo litoral romeno do mar Negro ainda conseguiam atrair os turistas movidos pelo gosto pela aventura.

Hotéis novinhos em folha

A incorporação à União Européia fez renascer o interesse pelo litoral romeno do mar Negro. Uma auto-estrada que conduzirá de Bucareste a Constantza, o grande porto situado no sudeste da Romênia, deverá ser concluída até 2009, enquanto os hotéis novinhos em folha vão se multiplicando. A injeção de 32 bilhões de euros (R$ 77,77 bilhões no câmbio atual), a serem fornecidos por fundos europeus daqui até 2013, deverá ajudar a melhorar o estado das infra-estruturas.

Preocupadas em fazer com que a sua cidade seja beneficiada por um eventual boom econômico na região, as autoridades locais de Mangalia optaram, portanto, por atropelar as tradições ortodoxas. “Dentro da sociedade moderna, a morte deixou de ser um evento compartilhado pela comunidade, tornando-se um aspecto da vida privada”, precisa a lei local. “O objetivo desta medida é de incentivar o desenvolvimento do turismo, de acordo com as normas estipuladas pela União Européia. A lei deve garantir a proteção dos turistas e da biodiversidade biológica do litoral romeno”.

Ou seja, um verdadeiro programa político concentrado numa simples lei.

“Le Monde”

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Passado doloroso é relembrado por sobrevivente das Olimpíadas de 72

Neil Amdur

Mesmo com o convite das Olimpíadas de Pequim que começam no mês que vem, com uma cidade anfitriã exótica e a promessa de performances incomparáveis, o fantasma de Munique nunca desaparece por completo.

As ameaças de ataques terroristas, que se concretizaram pela primeira vez no massacre de 11 atletas israelenses em 1972, hoje pairam de uma forma não verbalizada nos inúmeros preparativos de segurança em Pequim. A morte no mês passado do comentarista esportivo Jim McKay, que personificou a voz e a consciência americanas durante a tragédia de Munique, acrescentou mais uma camada ao clima de tristeza. A publicação, em agosto passado, da tradução do livro “King of the Road” [”Rei da Estrada”] (editora Gefen), autobiografia do atleta israelense de marcha atlética Shaul Ladany, irá certamente ligar os pontos entre o passado e o presente.

Ladany, 72, é por excelência um sobrevivente. Não somente de Munique, onde conseguiu escapar dos terroristas durante o ataque à vila Olímpica. Ladany também passou meses em um campo de concentração nazista (Bergen-Belsen), teve surtos recorrentes de câncer de pele e linfoma, e passou por batalhas legais e administrativas que acabariam com qualquer mortal. Em 4 de julho, o vôo charter que ele tomou para Berlim perdeu um de seus dois motores por 90 minutos no ar, voltou e fez um pouso de emergência com sucesso em Tel Aviv.

Mas por outro lado, Ladany sempre esteve na frente. Ele fala nove línguas e é professor de engenharia industrial com oito patentes, 110 textos científicos, 13 livros e “mais alguns guardados na manga.”

Quantos atletas, para se pouparem do treino sob o sol escaldante do deserto, fariam uma pista de corrida em sua própria casa, enrolando os tapetes e andando em círculos, mudando de direção a cada 15 minutos durante horas a fio - com a mulher, uma filha e dois cachorros sob o mesmo teto?

“Quando eles me vêem andando, ficam olhando para mim e talvez imaginando que sou louco”, disse Ladany recentemente, durante uma entrevista por telefone em Israel. “Então eu tive que treiná-los para que eles não deitassem no meu caminho.”

Ladany disse que diminuiu o ritmo desde que atingiu o recorde de longa distância e venceu um campeonato mundial de 100 quilômetros. Mas ele foi determinado o suficiente para terminar a caminhada de quatro dias e 300 quilômetros de Paris a Bruxelas em maio; participou recentemente de outra de sete dias e 300 quilômetros de Schleswig, na Alemanha, até Viborg, na Dinamarca; e vai nadar 3,5 quilômetros no Mar de Galiléia pela 48ª vez nesse outono, no maior evento do esporte amador em Israel. Há dois anos, durante um período sabático na universidade, ele tornou-se o primeiro homem de 70 anos de idade a andar 100 milhas (160 quilômetros) em 24 horas ou menos (terminando o percurso em Ashtabula, Ohio, em 21 horas, 45 minutos e 34 segundos).

“Ele é impressionante”, diz Ron Laird, quatro vezes campeão olímpico de marcha atlética, que ajudou a montar a pista para Ladany em Ohio.

Laird lembra-se de quando visitou Ladany em Israel e andou 32 quilômetros com ele até a cidade bíblica de Masada.

“Eu voltei de ônibus para a casa de Shaul”, disse Laid durante uma entrevista recente por telefone. “Shaul voltou a pé.”

No mundo dos esportes de corrida, os atletas de marcha atlética são uma espécie à parte por causa de seu estilo mecânico distinto e dedicação quase fervorosa, e Ladany era ainda mais reconhecido por causa de seus óculos de armação preta.

Ladany, que também competiu nas Olimpíadas da Cidade do México em 1968, sempre esteve em conflito com os relatos publicados sobre a tragédia de Munique. Ele dedicou 21 páginas de seu livro ao ataque terrorista, começando com a descrição de quando foi acordado “de um sono profundo e pesado” na vila olímpica e culminando com o relato de seu processo judicial contra o autor e editor do livro “The Blood of Israel” [”O Sangue de Israel”] por ter sido retratado como um homem “fugindo e pulando como um bode” na tentativa de escapar do ataque.

Na verdade, Ladany escreveu, ele e outros dois atletas israelenses “saíram na varanda, e com a coluna ereta e passos confiantes cruzaram o gramado e deixaram o prédio para trás.”

Citando dezenas de erros no livro “The Blood of Israel”, Ladany diz: “Acho que o livro denegriu meu personagem.”

Ladany também é critico em relação à segurança alemã e às tentativas desastradas de salvar os reféns israelenses num campo aéreo militar isolado.

“A operação foi conduzida de uma forma medíocre e amadora”, escreveu, listando a má comunicação com os atiradores e a relutância de alguns soldados alemães que estavam num avião vazio em enfrentar os terroristas.

“Ele ficou muito amargurado com a equipe olímpica israelense que voltou para casa”, disse Elliot Denman, ex-atleta olímpico de marcha atlética, jornalista e amigo de Ladany, no mês passado. “Ele queria que a equipe ficasse. Ele sentiu que essa atitude equivalia a ceder aos terroristas.”

A biografia de Ladany foi publicada pela primeira vez em hebraico em 1997. Explicando os motivos para realizar a atual tradução, Ilan Greenfeld, editor da Gefen e corredor de longa distância, escreveu em uma mensagem de e-mail que o livro “pode ser inspirador e pode motivar as pessoas, mostrando que em qualquer ponto de suas vidas elas podem chegar a grandes realizações através da perseverança, do trabalho duro e da persistência”.

Ladany tem uma visão negativa dos oficiais e organizações amadoras dos esportes. E hoje ainda se lembra vividamente de sua chegada ao campo de Bergen-Belsen.

“Lembro-me de cada dia daqueles seis meses - a fome, a chuva, o frio, as chamadas em fila que nunca terminavam, as cercas de arame farpado ao lado da cerca de alta voltagem, as torres de guarda, os oficiais da SS sempre gritando conosco, principalmente um com lábio leporino, e os prisioneiros holandeses sem roupa nos campos vizinhos”, escreveu. “Essas cenas vistas por um menino de oito anos estão tão claras na minha memória que 50 anos depois, numa visita a um museu, apontei para um mapa impresso do campo e informei ao diretor que a cerca estava representada no lugar errado. Como ele não quis confiar nas minhas recordações da infância, checou um mapa aéreo britânico e descobriu, para sua surpresa, que eu estava certo.”

Desde que completou 50 anos, Ladany comemora seus aniversários andando um quilômetro para cada ano de vida. No ano passado, aos 71, num circuito de cinco quilômetros, Ladany não se conteve.

“Não consegui completar o evento como tinha planejado inicialmente”, escreveu no posfácio de seu livro. “Os freios das minhas pernas não funcionaram direito, e eu só consegui parar depois de 75 quilômetros. Por quanto tempo serei capaz de continuar essa tradição? Não sei dizer. Eu não tenho uma bola de cristal.”

“The New York Times”

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A Expansão do café no Brasil

HISTORIANET

Introdução

Originário da Etiópia, onde já era utilizado em tempos remotos, o café atravessou o Mediterrâneo e chegou à Europa durante a segunda metade do século 17. Era a época do Barroco e das monarquias absolutas, e a expansão do comércio internacional enriquecia a burguesia. Já no início do século 18, os Cafés tornaram-se centros de encontro e reunião elegante de aristocratas, burgueses e intelectuais.
Precedido pela fama de “provocar idéias”, o café conquistou, desde logo, o gosto de escritores, artistas e pensadores. Lord Bacon atribuía-lhe a capacidade de “dar espírito ao que não o tem”. os enciclopedistas eram adeptos fervorosos do café e dos Cafés, que Eça de Queiroz chegou a afirmar, muito depois, que foi do fundo das negras taças “que brotou o raio luminoso de 89″, referindo-se às discussões entre iluministas que precederam a Revolução Francesa.

No Brasil

No Brasil, o café anda, derruba matas, desbrava as terras do Oeste.
Foi em 1727 que o oficial português Francisco de Mello Palheta, vindo da Guiana Francesa, trouxe as primeiras mudas da rubiácea para o Brasil. Recebera-as de presente das mãos de Madame dáOrvilliers, esposa do governador de Caiena. Ora, como a saída de sementes e mudas de café estava proibida na Guiana Francesa, é licito pensar que o aventureiro português recebeu de Madame não só os frutos, mas outros favores talvez mais doces. As mudas foram plantadas no Pará, onde floresceram sem dificuldade.
Mas não seria no ambiente amazônico que a nova planta iria tornar-se a principal do país, um século e meio mais tarde. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o consumo da bebida crescia extraordinariamente, exigindo o constante aumento da produção, o café saltou para o Rio de Janeiro, onde começou a ser plantado em 1781 por João Alberto de Castello Branco. Tinha início, assim, um novo ciclo econômico na história do país. Esgotado o ciclo da mineração do ouro em Minas Gerais, outra riqueza surgia, provocando a emergência de uma aristocracia e promovendo o progresso do Império e da Primeira República.
Penetrando pelo vale do rio Paraíba, a mancha verde dos cafezais, que já dominava paisagem fluminense, chegou a São Paulo, que, a partir da década de 1880, passou a ser o principal produtor nacional da rubiácea (café). Na sua marcha foi criando cidades e fazendo fortunas. Ao terminar o século XIX, o Brasil controlava o mercado cafeeiro mundial.

Nas cidades surgem Cafés. E o culto ao “ouro verde”

“No começo do século o Café Lamas é um cenáculo de (…) irrequietos boêmios: estudantes, artistas, bancários, rapazes do esporte, do funcionalismo público e do comércio. Funciona dia e noite. Suas portas não se fecham, nem se abrem. De tal sorte que, uma vez, quando se amotina a Escola Militar em 1904, durante a Revolta da Vacina e a notícia corre que, sob o comando do general Travassos, descem os alunos pela.rua da Passagem, caminho do Catete, as portas do estabelecimento, de tanto viverem sem (…) movimento, não podem fechar, perras, imobilizadas nos seus gonzos. E assim é que se manda chamar, para fazer movê-las, um esperto carpinteiro”. (Luiz Edmundo.).
Na madrugada carioca, os caminhos de todos os boêmios convergiam, ziguezagueantes e trôpegos, para o Café Lamas. Depois da meia-noite era para ali que avançavam, a passo vacilante, notívagos e intelectuais saídos de outros Cafés famosos, como o Papagaio, o Cascata, o Café Paris e muitos mais.
Nos movimentados Cafés tomava-se de tudo, inclusive café, servido por ágeis e animados garçons, que talvez não tivessem plena consciência de seu papel na complexa estrutura econômica do Brasil, mas cuja função representava o último elo, fumegante, negro e aromático, da ampla cadeia do café.

Financiando, armazenando e vendendo, as Casas Comissárias reinam sobre o café

Contemplando certo edifício em Buenos Aires, Olavo Bilac - então em viagem oficial á Argentina - exclamava em 1910: “Casa querida! Como tu lembras, aqui, no estrangeiro, todas as casas da minha vida”. Referia-se à sede do Café Paulista, empresa de comercialização fundada por Octaviano Alves de Lima na capital portenha. Notável propagandista, Alves de Lima conseguira aumentar o consumo do café brasileiro pelos argentinos, divulgando o slogan “Café Paulista (Brasil) - O melhor do mundo”. O café era o símbolo do Brasil no exterior.

Entre a fazenda produtora e o consumidor estrangeiro, o café passava por uma série de etapas, mudando várias vezes de mão. Depois de conduzido em lombo de burros ou em carros de boi até a estrada de ferro mais próxima, que passava com freqüência pela própria fazenda, era embarcado em vagões, que desciam para o porto de Santos ou do Rio de Janeiro. Mas não era imediatamente exportado. Fazia, antes, um estágio nos armazéns de alguma Casa Comissária e era então vendido aos exportadores. Os comissários de café - geralmente comerciantes portugueses e brasileiros, ou grandes fazendeiros que diversificavam suas atividades metendo-se no comércio e fundando bancos - financiavam plantações sob hipoteca e por conta da produção a ser vendida. Vendendo o café aos exportadores, os comissários tiveram papel decisivo, particularmente no primeiro período de expansão dessa lavoura (final do século XIX), quando a maior parte dos fazendeiros ainda não se mudara para a cidade e vivia isolada nas casas-grandes de suas fazendas. .
Os comissários cobravam dos fazendeiros comissão pela venda, despesas de armazenamento e juros pelo financiamento da plantação. Houve um momento em que foi muito estreita a relação de dependência pessoal do produtor para com o comissário, tomando-se este uma espécie de conselheiro daquele. “Daí persistir em 1890 o costume de grandes casas comerciais hospedarem, nos seus andares superiores, senhores rurais ou pessoas de suas famílias. Quando em visita ás cidades, era aí ou nas próprias residências dos seus comissários (…) que se instalava essa gente do interior”. (Gilberto Freyre.) ‘.
Entre as mais importantes Casas Comissárias estavam a Prado Chaves, que era também exportadora - chegando a exportar, em 1910, 1,5 milhão de sacas de café-, a Whitalter & Brotero, a Companhia Intermediária de Café de Santos e a Companhia Paulista de Armazéns de Santos, controlada por ingleses.
Embora a presença estrangeira pudesse ser notada entre os comissários, era, porém, no comércio de exportação que mais forte se fazia sentir sua intervenção. Das dez maiores firmas exportadoras, em 1907, apenas uma era brasileira, a Prado Chaves, que ocupava o sétimo lugar. Todas as outras, como a Theodor Wille (alemã) e a Neumann & Gepp (inglesa), pertenciam a estrangeiros. As vendas externas proporcionavam enormes lucros, pois a própria cotação do café era manipulada pelos exportadores, numa época em que as trocas de informações entre os continentes mostravam-se precárias.
Apesar das crises econômicas conjunturais, o consumo mundial de café crescia constantemente. Os lucros dos exportadores, entretanto, não subiam na mesma proporção, pois, entre 1891 e 1900, a exportação de 74 491 000 sacas de café rendeu a cifra de 4691906 contos de réis, enquanto na década seguinte, isto é, entre 1901 e 1910, houve uma queda para 4 179 817 contos de réis no pagamento da exportação de uma quantidade maior de café (130 599 000 sacas). Em 1906, o providencial Convênio de Taubaté viria salvar a situação. E os exportadores poderiam, outra vez, dormir em paz.

Na alta, fortuna. Na baixa, falência. Um convênio irá equilibrar essa balança?

Mas, afinal, o que estava acontecendo com o café? perguntava-se, perplexo, o homem da rua, em fins de 1902. Não era ele o “ouro verde” de que tantos falavam? Que anúncios de crise eram aqueles? Onde estava a antiga euforia, aquela impressão de riqueza sem limites, proporcionada pelo café, e que foi a marca dos últimos decênios do século XIX?
E, com efeito, aquilo que parecia impossível na década de 1880 estava de fato acontecendo. A cotação internacional do café caía constantemente, enquanto as fazendas lançavam no mercado quantidades crescentes do “ouro verde”. A safra dos anos 1901/1902 havia superado a marca de 16 milhões de sacas, para um consumo mundial ligeiramente superior a 15 milhões. E a cotação do produto no mercado externo, que havia sido de 102 francos-ouro em 1885, caíra para 33 francos-ouro em 1902. De fato, desde 1893, os preços
internacionais vinham caindo sistematicamente como conseqüência dos problemas econômicos dos Estados Unidos, nosso principal cliente, e da expansão mundial da produção de café.

Mas durante alguns anos a queda dos preços havia sido compensada pela desvalorização do mil-réis. Os cafeicultores recebiam menos em libras ou em francos, mas o montante de suas rendas em moeda nacional não se alterava substancialmente. Essa desvalorização do dinheiro era provocada pelo “encilhamento” - política de farta emissão de papel-moeda adotada na gestão de Ruy Barbosa no Ministério da Fazenda (1889-1891), durante o governo de Deodoro da Fonseca. Visando a aumentar a quantidade de dinheiro em circulação, para incentivar o estabelecimento de indústrias e possibilitar o pagamento da massa assalariada que começava a substituir os escravos, o “encilhamento” gerou um galopante processo de inflação. Essa política caracterizou-se também pelo estímulo oficial à constituição de sociedades por ações, o que gerou desenfreada especulação na Bolsa de Valores. (Daí o nome “encilhamento”, que se refere ao momento em que são apertadas as selas dos cavalos antes das corridas nos hipódromos - e o ritmo das apostas se torna frenético.) No final do século XIX, depois de um período de euforia, as ações começaram a baixar - e muitos cafeicultores abriram falência.
Para restaurar as finanças, o presidente Campos Salles, logo que tomou posse, em 1898, passou a aplicar uma política deflacionária, forçando a revalorização do mil-réis. Ora, revalorizar a moeda significava - caso a tendência baixista na cotação do café não fosse modificada - reduzir fortemente a renda dos cafeicultores. E era o que estava começando a acontecer, agora que a política “saneadora” de Campos Salles apresentava seus primeiros resultados.

A opulência do passado entra em crise

Em 1902, olhando os jornais do dia, ao tomar o fumegante café da manhã, os homens de negócios não podiam esconder seu temor diante dos fatos. E preciso fazer alguma coisa! exclamava o fazendeiro, franzindo o cenho. E preciso fazer algumas coisas! repetiam, como um eco, deputados e senadores, presidentes de Estado, potentados do café. Pois era a rubiácea o sustentáculo da jovem República, assim como o fora do Império.
Expandindo-se em ondas verdes em direção do Oeste durante a segunda metade do século XIX, os cafezais haviam ocupado enormes espaços geográficos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma nova classe dirigente surgiu daí, muito mais poderosa e opulenta do que os antigos barões do açúcar. Mais urbana do que estes e muito ligada á vida cultural e social da Europa, essa nova classe contribuiu poderosamente para modificar a paisagem das cidades. Sua ação fez surgir um novo estilo arquitetônico, copiado de modelos europeus, e levou o fausto da casa-grande senhorial às chácaras e sobrados urbanos. No Rio de Janeiro, por exemplo, Antonio Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo, possuidor de vinte fazendas, fez construir o Palácio do Catete, entre 1858 e 1865, por 8000 contos de réis.
A ação urbanizadora do café permitiu também a modernização das grandes cidades e motivou a revolução nos transporte com a implantação das primeiras estradas de ferro. As ferrovias paulistas - a primeira das quais, ligando Santos a Jundiaí é de 1867 -, abrindo caminho para o oeste, acompanharam a plástica fronteira verde. E foram plantando cidades em seu avanço. Só em São Paulo, entre 1891 e 1900, foram criados 41 municípios.

A salvação vem de Taubaté

Em 1906, a crise atingiu seu ponto culminante. A safra de café desse ano ultrapassou os 20 milhões de sacas, para um consumo mundial inferior a 16 milhões, enquanto os preços continuavam a cair. Em fevereiro, reuniram-se em Taubaté os presidentes Jorge Tibiriçá (São Paulo), Nilo Peçanha (Rio de Janeiro) e Francisco Salles (Minas), procurando encontrar uma saída para o impasse. Precedida de intensas pressões dos cafeicultores sobre o presidente da República, Rodrigues Alves - que tomara posse em 1902 - para que fosse aprovado um plano de valorização do café, proposto pelo industrial paulista Alexandre Siciliano, a reunião estabeleceu princípios que iriam modificar inteiramente a orientação econômica do Governo federal. Rodrigues Alves, apesar de paulista e cafeicultor, opunha-se à valorização, pois queria dar continuidade à política deflacionária do governo anterior, de Campos Salles. No entanto, obedecendo aos reclamos do “complexo do café”, os presidentes Tibiriçá, Peçanha e Salles firmaram acordo que representava literalmente a “salvação da lavoura”. Conhecido como Convênio de Taubaté, esse acordo fixou os seguintes princípios: a) preço mínimo para a saca de café; b) negociação de um empréstimo externo de 15 milhões de libras esterlinas para custear as compras de café a serem feitas pelos Governos estaduais, com a finalidade de retirar do mercado uma parte do produto;
c) estabelecimento de um fundo para a estabilização do câmbio, impedindo assim que o mil-réis fosse revalorizado; esse fundo seria a Caixa de Conversão; d) imposição de uma taxa proibitiva para impedir o surgimento de novas plantações.
“Depois de alguma luta para demover os opositores do plano, o Convênio foi finalmente aprovado pelo Congresso Nacional, não sem certa resistência de Rodrigues Alves. Tal resistência, aliás, custou-lhe o mando político do país. Durante aquele ano ocorreria a sucessão presidencial e os representantes dos grandes Estados rejeitaram o candidato preferido de Rodrigues Alves, escolhendo Affonso Penna, inteiramente identificado com a valorização do café. Empossado em novembro, Penna honraria fielmente seus compromissos com cafeicultura.
Durante os três anos seguintes foi implantada a Caixa de Conversão e os Estados conseguiram dos banqueiros europeus o ansiado empréstimo de 15 milhões de libras, com o qual puderam efetuar compras maciças de café excedente. Em 1909, surgiram os primeiros efeitos da política de valorização. Os preços internacionais do café começaram a subir, enquanto a Caixa de Conversão conservava o câmbio artificialmente baixo. No entanto, o país endividara-se no exterior. Os grandes bancos europeus passaram a controlar o comércio do café. Muitas fazendas foram vendidas a estrangeiros, pois o esquema valorizador enriqueceu apenas uma parte dos produtores.
Os principais beneficiários da nova política econômica foram basicamente os banqueiros internacionais e as casas comissárias, que, comprando o café na baixa e vendendo-o na alta, auferiram lucros fabulosos. Algumas delas, aliás, tornaram-se grandes proprietárias de fazendas. A Prado Chaves, por exemplo, adquiriu, nesse período, catorze fazendas, vendidas a baixo preço por cafeicultores arruinados, com um total de 3,5 milhões de pés de café.

“HISTORIANET”

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PODER MUNDIAL E CRISE FINANCEIRA

Robert Kurz

O poder político-militar pode tornar-se potência económica. Mas, apesar disso, esse poder não está em posição de afastar duradouramente as leis de funcionamento do capitalismo, mesmo que influencie as formas de desenvolvimento da história do mercado mundial. Capital mundial precisa de dinheiro mundial como padrão de medida das relações monetárias. Disso dependem o comércio mundial e o sistema financeiro global. Como a ligação do dólar ao ouro foi cortada em 1973, passou para o lugar do ouro a máquina militar sem concorrência dos EUA, com a sua “economia de guerra permanente”. A função de poder de garantia global e a ideologia do “porto seguro” tornaram-se poder económico; o dólar-armamento passou para o lugar do dólar-ouro. É neste constructo que se baseiam a globalização, a economia das bolhas financeiras e a conjuntura de deficit dos últimos vinte anos. O preço foi um endividamento externo dos EUA em dimensões astronómicas.

No debate sobre a crise financeira crescente, cujo epicentro é constituído pelo sistema bancário dos EUA, é suspeito que pouco se fale da função de dinheiro mundial do dólar. Todos sabem que nem o Euro nem qualquer outra moeda pode assumir este papel. Um regresso à ligação ao ouro é impossível na base das estruturas de endividamento global e tão-pouco se vislumbra um poder militar alternativo; ele seria igualmente impossível de financiar. Porém, a crise financeira, cujo fim não está à vista, coloca fundamentalmente em questão o constructo da economia do dólar. Presentemente, a Reserva Federal dos EUA esgota as munições apenas para salvar os balanços dos bancos e evitar a fusão nuclear do sistema financeiro. Já não resta qualquer opção para injecções adicionais na conjuntura, tanto mais que o sector público dos EUA está altamente endividado a todos os níveis e a quota de poupança é ínfima.

Com isto há o perigo de cair a pique não só a conjuntura de deficit, mas também a capacidade de financiamento da “economia de guerra permanente”. Os EUA precisam de um afluxo diário de vários milhares de milhões de dólares de capital monetário global. Enquanto funcionou este afluxo, a guerra do ordenamento mundial pôde aparentemente ser financiada pela caixa para despesas postais, sem grandes efeitos sobre a economia mundial. Porém, a queda do dólar face ao euro, tal como a fuga para o ouro, assinala que essa fonte começa a secar. Faz-se notar também uma enorme pressão de valorização sobre as moedas asiáticas. Segundo as contas do ex-presidente do Banco Mundial, Josef Stieglitz, só a guerra do Iraque, com todos os seus efeitos colaterais, custou mais de um bilião de dólares. Não faltarão consequências dramáticas da crise financeira para os custos do armamento e da guerra nos próximos anos.

Os anúncios feitos sem condições por ambos os candidatos presidenciais de gigantescos programas conjunturais não passam de fumaça; quanto ao financiamento da máquina militar e das suas intervenções nem uma palavra. Na realidade, o próximo presidente dos Estados Unidos terá de pagar as favas do desastre financeiro. Se a guerra do ordenamento mundial fracassar, extingue-se também a função da potência de garantia global e chega ao fim o dólar-armamento. Então não haverá objectivamente qualquer possibilidade de revalorizar outra vez o dólar, através de meras declarações diplomáticas, por exemplo dos ministros das finanças e dos presidentes dos bancos centrais do G-8. As consequências estão à vista. O comércio mundial no quadro da globalização poderá ser estrangulado, não só pelo fim do milagre do consumo dos EUA, mas também por uma crise monetária global, na sequência da crise do dólar.

“http://obeco.planetaclix.pt/”

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O alto preço da energia, segundo Marx

ENTREVISTA Pesquisador elucida o processo de dominação do setor elétrico brasileiro por agentes financeiros

Eduardo Sales de Lima

O PREÇO da energia elétrica no Brasil é alto, resultado do processo de privatização do setor nos anos de 1990, quando os capitais investidores iniciaram uma disputa para obter o melhor trabalho excedente na geração de eletricidade: lucro, a grosso modo.
Internacionalizada, a tarifa de energia no país é balizada pelo petróleo. A partir de 1995, o Estado propiciou liberdade para o capital explorar seus trabalhadores e seus recursos naturais. Hoje, após mais de uma década do início do processo de privatização, a energia paga pelos brasileiros está no mesmo patamar daquela que, em outros países, é produzida a partir do carvão mineral e do petróleo. O preço da eletricidade residencial aumentou mais de 180% entre 1995 a 2002, enquanto o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que calcula a inflação, subiu 58% no mesmo período.
Para somar uma nova visão sobre o debate, o professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Dorival Gonçalves Júnior desenvolveu um estudo sobre o processo histórico-social de mudanças na organização da indústria de eletricidade brasileira, sob o título Reformas na indústria elétrica brasileira: a disputa pelas “fontes” e o controle do trabalho excedente. A tese de doutorado foi defendida, em setembro de 2007, no Programa Interunidades de Pós-Graduação em Energia (PIPGE) da Universidade de São Paulo.
Ele destaca que seu trabalho procura percorrer o passado e o presente das mudanças no setor segundo a “teoria do valor” e a “teoria do trabalho”, desenvolvidas por Karl Marx. O estudo aponta que, em 1994, essa indústria empregava 188.208 trabalhadores e, em 2004, apenas 106.409, reduzindo, em 10 anos, 81.799 postos de trabalho. Números que refletem a medida clássica empregada no capitalismo: elevação da exploração dos trabalhadores.
Gonçalves aponta que as reformas na indústria elétrica ocorridas nos anos de 1990 propiciaram o aumento da concorrência dos capitais pelas melhores fontes de energia. E hoje, mais do que nunca, o sistema financeiro tem o controle sobre o que é prioritário para setor. Segundo o estudo, o atual modelo de crédito, “além de concentrar o poder de decisão da expansão dos sistemas de produção nas mãos dos agentes financeiros, acabou lhes conferindo ainda a capacidade de poder definir a organização da produção e a circulação da quase totalidade da cadeia produtiva da eletricidade, em acordo com os seus interesses de acumulação”.
Na entrevista a seguir, o pesquisador coloca o Estado brasileiro como mais um colaborador para os “agentes financeiros”, “aperfeiçoando” o atual modelo e diminuindo os riscos dos investidores. “Basta ver o balanço das empresas a partir de 2005. Jamais a indústria de eletricidade brasileira alcançou a lucratividade que ela tem alcançado agora”, defende.

Brasil de Fato – Por que fazer uma análise das reformas estruturais do setor energético no Brasil segundo um ângulo marxista?
Dorival – Por meio do estudo, foi possível realizar um resgate histórico da indústria elétrica, desde sua origem. Até para discutir que a noção de energia é capitalista; que é tida como algo objetivo da natureza, sem entender que essa noção foi produzida num dado momento histórico, numa sociedade que se organizava na forma capitalista.

Em qual período “nasce” essa nova concepção estrutural de exploração capitalista em relação aos recursos naturais e ao trabalhador?
No final dos anos de 1980 e início dos 1990, se inicia um debate nacional a respeito do processo de reestruturação produtiva da indústria de infra-estrutura de um modo geral, mas principalmente da indústria elétrica. A partir de 1989, havia melhores condições políticas mundiais para começar essa implementação.

No Brasil, como se dá hoje a apropriação da natureza e do trabalho pelo capital no setor elétrico?
A forma da exploração capitalista segue aquele modelo clássico que está discutido em O Capital, que é a busca pela lucratividade por meio do trabalho excedente. Para que possa produzir um trabalho bem superior ao necessário, o capitalismo procura estender a jornada e conjugar a exploração dos meios de produção e da força de trabalho, o que irá produzir mais trabalho excedente durante a jornada, ao que chamamos de “mais-valia relativa”.

Mas o que isso tem a ver com a internacionalização do preço da energia?
Os capitalistas vendem um recurso natural que é a base da maior produtividade do trabalho. Eles conseguem mais lucratividade por meio da maior taxa de exploração da fonte e do trabalhador. No caso brasileiro, o domínio dos recursos hidráulicos significou gerar eletricidade em uma cadeia produtiva que é base para acesso ao maior trabalho excedente, comparado, por exemplo, com a eletricidade produzida a carvão mineral ou a gás natural. No final, a eletricidade é vendida pelo mesmo preço, independente de ser produzida por uma cadeia produtiva hidráulica, de gás natural ou de petróleo, porque, desde os anos 1990, a eletricidade tem uma tendência de se transformar em uma mercadoria mundial.

Mas assim que o setor foi reestruturado, não houve crescimento da concorrência, como argumentam os defensores de sua privatização?
As grandes transnacionais não concorrem entre si, mas aos locais de maior taxa de exploração do trabalho. Vou citar concretamente esse último leilão de Jirau [hidrelétrica que será construída no rio Madeira, em Rondônia]. Havia dois grupos disputando, um ancorado no Estado através de Furnas e outro através da Eletrosul. É claro que, se eu olhar pelo viés da ideologia dominante, a todo o momento que os capitais concorrem. Na verdade, o que eu precisava era de uma teoria para poder mostrar onde ocorre o concorrência, que é a “teoria do valor” e o “trabalho social”, de Marx. A gente vai compreender que os capitais concorrem entre si na busca dos locais onde haja maior taxa de exploração.
Para combater essa idéia de que a indústria elétrica pode ter concorrência, eu resgato que, desde a sua origem, ela nunca concorreu, de fato. Por ser intensiva em capital, é algo suicida entre os capitalistas fazer uma disputa sem uma certa regra. Eles aprenderam com o que aconteceu logo no princípio da indústria elétrica, entre o final do século 19 e início do passado. Inicialmente, montou-se uma cadeia produtiva que estava fundada na produção de energia em corrente contínua. Logo em seguida, foi descoberta a corrente alternada e feita uma cadeia produtiva a partir dela. Todo o setor da corrente contínua sucateou sem que tivesse recuperado o capital necessário daquela cadeia produtiva. Por isso, ao ser intensiva em capital constante, há uma dificuldade muito grande de haver inovações tecnológicas e, por conseqüência, competição. Daí decorre também o porquê dessa indústria, logo no final do século 19 e início do 20, fazer as grandes fusões.

Como isso se refletiu em nosso país?
Até 1993, as empresas distribuidoras de energia eram todas nacionais, e o preço da eletricidade, único em todo o território. Em 1994, antes desse processo, a eletricidade residencial passa de 70 dólares para 130 dólares; e a energia industrial salta de 40 para 80. O governo já providenciava uma normatização dos preços da eletricidade nesse patamar internacional. A partir daí, a grande disputa é por essa cadeia produtiva, cuja base de recurso natural é capaz de obter grande produtividade, fazendo com que o trabalho excedente seja bastante elevado e que a lucratividade seja muito alta.
É importante mostrar que isso não é uma volta ao que era a indústria elétrica nos 1930, quando era privada. Hoje, o capitalismo financeiro atinge o poder de organizar o processo industrial, e a forma como está concebida a organização industrial da produção de energia elétrica no Brasil está de acordo com os mecanismos monetários de reprodução do capital do sistema financeiro.

Como você avalia as políticas sociais de energia do governo Lula, como o programa Luz para Todos? E a “tarifa social”, que determina que todos os consumidores com gastos menores que 200 kWh/mês sejam benefi ciados com descontos ?
A “tarifa social” é uma política compensatória. Tendo em vista que o preço da eletricidade se tornou tão exacerbado, grandes segmentos da população ficariam sem nenhum acesso. Quanto ao programa Luz para Todos, também é compensatório e atende, inclusive, aos interesses das empresas distribuidoras, porque também se transformou num grande negócio. Na verdade, quem dirige esses processo de expansão são as concessionárias de energia dos Estados.
Por outro lado, não dá para negar que o Luz para Todos é, em relação ao governo passado, eficiente, na medida que o trabalhador não paga pela construção das linhas de transmissão, mas somente pela eletricidade.

Qual o papel do governo Lula para minimizar os oligopólios que surgiram a partir dessas “reformas”?
O governo Lula, no setor da indústria elétrica, foi o que aperfeiçoou o processo iniciado nos anos de 1990. O modelo que está aí hoje foi criado nesse governo, em 2004, pela Lei nº 10.848, que dispõe sobre o processo de comercialização da energia elétrica. Ele trouxe muito mais segurança para o capital.
Foi esse governo que criou a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para assumir a responsabilidade dos estudos da viabilidade técnica, econômica e ambiental e, mais do que isso, fez o confronto com a sociedade. Além disso, quem ganhou a concorrência em Jirau e Santo Antônio [também no rio Madeira], saiu com 70% de sua energia vendida por 30 anos. É como se um capitalista tivesse uma fábrica de produção de sapatos com capacidade de produzir 100 pares e ganhasse a concessão de explorar já com um mercado de 70 pares comprados. E isso também se sucede na indústria de distribuição.
O governo manteve toda a regulamentação do período de Fernando Henrique, que visava garantir uma tarifa da venda de energia do mercado regulado de maneira tal que garantisse o equilíbrio econômico- financeiro das empresas. Esse governo, do ponto de vista da indústria da eletricidade, aperfeiçoou o processo de exploração do trabalho excedente, criando uma cadeia produtiva de elevada lucratividade e baixo risco para os capitalistas.

“Brasil De Fato”

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Quão severa será a crise económica?

Monthly Review

A crise das hipotecas subprime iniciada no último Verão emergiu nos Estados Unidos levou a uma convulsão maciça do sistema financeiro mundial com consequências espantosas desde então. Isto agora transportou-se para a “economia real” dos empregos e do rendimento. Como dizia o Wall Street Journal de 4 de Abril, “O National Bureau of Economic Research provavelmente não dirá isto durante meses. Mas por que esperar? A economia estado-unidense caiu em recessão em Janeiro último” (”Mercado de trabalho sugere que começou a recessão”). O crescimento económico global como um todo espera-se que decline agudamente este ano.

A pergunta natural nesta altura é: Quão severa será a crise económica?

A resposta sumária é que ninguém sabe realmente. Alguns, acreditando que podemos estar direccionados para um colapso económico maciço, sublinham os perigos sem precedentes associados com um sistema financeiro que desenvolveu novos e complexos veículos de investimento para além da compreensão de qualquer pessoa. As relações tradicionais de concessão de empréstimo dominadas pelos bancos foram agora tomadas por aquilo que Bill Gross, responsável chefe de investimento da Pimco, uma importante firma de gestão de títulos, chama o “sistema bancário sombra (ou seja, hedge funds, veículos de investimento estruturado, toda espécie de canais financeiros)” (”O grande quadro não é bonito”, Kipsinger Personal Finance, Abril de 2008).

Este novo mundo de investimentos especulativos exóticos é retratado como cheio de “nitroglicerina”, recheado de “armas de destruição em massa” e carregado de “vírus” letais — para mencionar apenas umas poucas das alarmantes metáforas agora utilizadas habitualmente pela imprensa financeira (”O que criou este monstro?”, New York Times, 23/Março/2009). Com dezenas de milhões de milhões (trillions) de dólares nominais em só em credit default swaps (CDSs) a circularem — sem mencionar outros créditos derivativos e instrumentos financeiros — este sistema de finanças sombras tornou-se maciço, opaco e imprevisível.

As instituições financeiras estão a ter dificuldade crescente em avaliar os seus activos ou em compreender a reacção em cadeia dos incumprimentos que elas podem estar a enfrentar. Seria uma atenuação dizer que sob tais circunstâncias os possuidores do capital estão preocupados. Com uma recessão em desenvolvimento e com a estabilidade do dólar cada vez mais comprometida, uma dissolução financeira e um colapso económico mundial de proporções que marcam uma época são pelo menos imagináveis.

Outros, contudo, vêm a situação mais próxima de algo como uma baixa no ciclo norma de negócios — uma que o Estado interveio para afastar o colapso financeiro. Eles apontam as extraordinárias intervenções do Federal Reserve Board, a mais dramática na administração do salvamento do Bear Stearns e sua absorção pelo JPMorgan Chase em Março. O Fed, em conjunto com os bancos centrais em outros países capitalistas avançados, tem estado a expandir rapidamente seu papel como financiador de último recurso, emprestando centenas de milhares de milhões de dólares em títulos governamentais enquanto toma como colateral títulos baseados em hipotecas para os quais não existe mercado.

Todos sabem que o governo acabará por assumir as perdas de milhares de milhões de dólares deste colateral — mais claramente na dívida colaterizada emitida no caso do Bear Stearns como “não recurso” (ou seja, o tomador do empréstimo não precisa repagar o “empréstimo” para além do colateral). A mensagem para os mercados financeiros é clara: as vastas perdas iminentes, que de outra forma cairiam sobre as principais instituições financeiras, serão socializadas. Se uma tal mensagem não desse “confiança” aos actores chave do mercado financeiro a situação na verdade seria verdadeiramente grave.

Como dissemos, uma aparência de confiança foi pela primeira vez restaurada. Destacando a rápida recuperação da crise financeira anterior (provocada pela explosão da bolha do mercado de acções da Nova Economia em 2000), os analistas mais optimistas argumentam que o sistema financeiro já está a estabilizar que este período de baixa provavelmente será curto. No entanto, mesmo os principais porta-vozes desta posição, tais como o presidente do Federal Reserve, Bern Bernanke, admitem que há consideráveis “riscos… de declínio” no actual clima de incerteza económica os quais poderiam resultar em “danos” severos para a economia e “a deterioração de posição” por todo o sistema financeiro (Bernanke, “Testemunho perante o Joint Economic Commitee, U.S. Congress”, 02/Abril/2008).

Mas se a direcção que tomará a actual crise económica ainda é desconhecida, a coisas são muito mais claras quando nos voltamos para o longo prazo, a enfermidade estrutural do sistema, da qual a actual retracção é sintomática sob muitos aspectos. De acordo com um argumento que temos apresentado há décadas nestas páginas (mais recentemente em “A financiarização do capital e a crise” no número de Abril de 2008 da MR), a financiarização do processo de acumulação de capital que tem estado a verificar-se desde a década de 1970 está enraizada na tendência subjacente para a estagnação das economias capitalistas avançadas.

No essencial, o sistema é tão produtivo e os resultados desta enorme e crescente produtividade são tão desigualmente distribuídos (os salários reais da maior parte dos trabalhadores nos Estados Unidos estagnaram durante trinta anos ao passo que os lucros ascenderam) que há uma contínua acumulação de excedente à procura de investimento nos cofres das corporações e nas mãos de indivíduos ricos. Na falta de suficientes saída para este vasto excedente na “economia real”, o capital tem estado a ser despejado na superestrutura financeira, onde foram desenvolvidos novos instrumentos financeiros derivativos para absorver este excesso de capital dinheiro. Isto serviu para alçar a economia desde os anos 1970. Contudo, a consequência foi a criação ao longo das últimas poucas década (e ainda mais rapidamente nos últimos anos) de uma vasta economia financeira sombra acima e para além da economia real. A explosão da bolha habitacional, a crise das hipotecas subprime e a crise financeira geral que se seguiu pode ser encarada como sinais de uma crise neste processo de financiarização.

O melhor que os mestres do sistema estado-unidense podem esperar para os próximos anos é uma fase de estagnação económica mais profunda e mais prolongada, isto é, crescimento lento, emprego fraco e excesso de capacidade produtiva crescente. Como os Estados Unidos se movem — e isto acontecerá — para empurrar o fardo da sua crise financeira para o resto do mundo, as tensões resultantes são obrigadas a serem globais e inevitáveis dentro da lógica da globalização capitalista realmente existente.

Àqueles que procuram desesperadamente uma solução para este problema dentro do sistema temos a dizer, francamente, que não podemos pensar em nenhuma. O máximo que se pode fazer é alterar radicalmente a natureza do próprio sistema: uma drástica redistribuição do rendimento e da riqueza em favor daqueles menos ricos e um programa maciço de investimento social em favor daqueles que mais precisam dele. Mas o capitalismo só é capaz de seguir esta estrada numa extensão limitada e só sob coacção extrema — e uma vez anulada a pressão ele reverte para os seus velhos caminhos. Mais cedo ou mais tarde (desde que uma catástrofe nuclear ou ambiental não pare o relógio) o mundo será forçado a procurar um caminho melhor e mais humano.

“http://resistir.info/”

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Na Venezuela, a música mostra o caminho

Jean-Pierre Langellier

Toda orgulhosa dos seus 7 anos de idade, Aireen dedica-se a fazer jorrarem as notas do seu violoncelo. De pé, com o olhar grudado na partitura, ela retoma incansavelmente um trecho do “Te Deum” de Charpentier (1643-1704). Amílcar, o seu jovem professor, a guia gentilmente: “Lá, sol, lá. Um, dois, três. (. . .) Recomeça. . . Concentre-se. . . Não pense em nada mais”. O arco desliza de modo constante sobre as cordas, enchendo de harmonia a pequena sala sem janela onde Aireen, Miguel, Zacari e Rosa praticam o solfejo.

Numa grande sala vizinha, uma centena de crianças e de adolescentes, acompanhados por um pianista, canta com verve, sob os olhares de Beethoven, Liszt e Mendelssohn, cujos retratos gigantes adornam as paredes. Mais adiante, sob a direção de Alejandro, 21 anos, a orquestra em peso - uma centena de intérpretes - toca um concerto de Telemann (1681-1767), e, logo em seguida, “Alma Llanera”, uma espécie de hino tradicional da Venezuela. Nesta tarde de junho, no bairro popular de Las Mayas, perto do Hipódromo de Caracas, o colégio Fé e Alegria transforma-se numa escola de música, assim como costuma fazer todos os dias. Um edifício abriga o “núcleo” de La Rinconada, um dos 154 centros de aprendizagem musical que pertencem ao Sistema, a rede de orquestras de crianças e de jovens fundada em 1975 pelo compositor José Antonio Abreu.

Por conta da sua amplidão, da sua ambição e do seu sucesso excepcional, o Sistema é uma experiência artística e social que sem dúvida não tem nenhum equivalente no mundo. O seu fundador, que é o seu atual diretor, conferiu-lhe desde o início três grandes objetivos. Em primeiro lugar, o de ajudar as crianças mais pobres a se livrarem da exclusão. A rede de orquestras, aberta, acolhedora e calorosa, contribui para o desenvolvimento comunitário e para a transformação da sociedade. Ela desempenha em muitos casos o papel de uma família de substituição.

Trata-se então, por meio da prática musical, de inculcar aos jovens um conjunto de “valores nobres”: rigor, disciplina, domínio de si, humildade, além do senso da partilha e do trabalho de equipe. Todas essas são qualidades que os ajudarão a construir sua personalidade. Terceiro objetivo: oferecer-lhes uma iniciação estética, e proporcionar-lhes uma “elevação da alma”.

O La Rinconada é um dos mais antigos “núcleos” do Sistema. O diretor, Eugenio Carreno, é um clarinetista. Em seu pequeno escritório, ele conta com orgulho que a sua escola inventou o método de aprendizagem que foi adotado por toda a rede: “a orquestra de papel”. Durante os seus primeiros meses de estudo, as crianças manipulam falsos instrumentos de papelão, cuidadosamente confeccionados, com o objetivo de adquirirem as posições adequadas do corpo e de domarem ritmos e sons.

Relação afetiva
Cada um dos aprendizes de músico recebe então gratuitamente o seu instrumento. Dele, ele se torna totalmente responsável. Sem demora, quer ele seja talentoso ou não, ele entra numa orquestra e participa de concertos. A preocupação com a integração prevalece sobre a preocupação artística. A alegria de tocar e a relação afetiva com o grupo consolidam a união dentro das equipes. “Nós não estamos buscando constituir as melhores orquestras, mas sim formar o maior número possível de crianças”, sublinha Eugenio Carreno.

Desde a sua origem, o Sistema travou vínculos estreitos com a rede escolar. De manhã, ele garante o ensino musical nas escolas; à tarde, ele acolhe os alunos com idades de 2 a 18 anos, interessados em seguirem aulas individuais ou coletivas, a razão de duas a quatro horas por dia, sem contar as sessões de recuperação, que acontecem no ritmo de um em cada dois fins de semana.

Tudo é feito para incentivar os jovens músicos. Eles são transportados e alimentados gratuitamente. É freqüente vê-los nos ônibus ou no metrô de Caracas, trajando sua camiseta azul marinho na qual se destaca o escudo do Sistema, e sempre carregando seu instrumento a tiracolo. Algumas dessas crianças moram nos cafundós dos “barrios”, as favelas da capital, situadas a uma ou duas horas de caminhada.

Em La Rinconada, 1.400 jovens seguem as aulas de 70 professores permanentes, dos quais muitos são antigos alunos do “núcleo”. No total, o Sistema mobiliza nas 24 províncias do país cerca de 3.000 docentes a serviço de 270 mil alunos. Ao longo de 33 anos, 1 milhão de crianças puderam contar com a formação proporcionada pela rede. A grande maioria é oriunda de um meio pobre, onde predominam a delinqüência, o alcoolismo, as drogas, e onde elas sofrem de uma carência de identidade. A orquestra lhes permite encontrarem a si mesmas, e provarem o que elas são capazes de fazer, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros.

Um “mundo mágico”
Eugenio Carreno acha divertido ouvir um aluno afirmar, um tanto fanfarrão: “Aqui, nós abrimos caminho, avançando sempre para frente com velocidade, assim como elefantes”, e se comove ao escutar um outro anunciar que ele pretende, graças à música, “melhorar a existência” da sua família. Maribel Pinango é a mãe de duas crianças musicistas, Lenny e Marian. Ela conta com orgulho de que maneira eles “lutam por meio das notas” contra uma realidade que “ameaça nos afogar”: “A orquestra”, diz ela, “nos oferece uma evasão rumo a um mundo mágico onde a violência jamais existirá”.

Entre 60% e 70% dos alunos de La Rinconada se tornam músicos profissionais. Eles ensinam por todos os cantos do país, dirigindo ora formações clássicas, ora grupos de jazz. Os melhores dentre eles integram a Orquestra de Jovens Simon Bolívar, sob a orientação do mais talentoso dentre eles, Gustavo Dudamel, 27 anos. Este jovem prodígio, fogoso e entusiasta, assumirá em setembro de 2009 a direção musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles. Ele será o mais jovem titular deste cargo.

Graças ao Sistema, alguns músicos tiveram a oportunidade de vivenciar uma verdadeira redenção. Durante a sua adolescência, o clarinetista Lennar Acosta havia sido encarcerado por nove meses por conta de um roubo que ele perpetrara com uma arma e por tráfico de drogas. Quando criança, o violoncelista Miguel Nino passava seus dias inteiros nas ruas. Edicson Ruiz trabalhava como carregador num supermercado até aprender a tocar o contrabaixo e tornar-se, em 2002, aos 17 anos, o mais jovem integrante da Orquestra Filarmônica de Berlim.

O Sistema é uma fonte de inspiração, em primeiro lugar na América Latina e no Caribe. Vinte e três países da região estão no processo de imitar o exemplo venezuelano. Uma orquestra ibero-americana está sendo constituída em parceria com a Espanha e Portugal. Programas similares vêm sendo lançados na Itália e na Escócia. José Antonio Abreu coleciona os prêmios e as recompensas. Entre as inúmeras homenagens que lhe são prestadas, vale destacar aquela de Gustavo Dudamel. Este chama o seu antigo mestre de “o homem da alma infinita”.

“Le Monde”

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