Arquivo de 4 de Setembro de 2008

Houston: Materialismo mágico

“Não liguem para os problemas financeiros; não há recessão no Céu”

DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA

A maior igreja dos EUA fica à beira de uma auto-estrada que corta a cidade de Houston, no Texas, no antigo estádio dos Houston Rockets, o time de basquete local que, até março, permanecia invicto por 22 jogos seguidos, o segundo maior recorde de vitórias da história da NBA, a liga americana de basquete profissional. No que tange aos recordes, o Houston Rockets conta ainda com a estrela do jogador mais alto da NBA, o chinês Yao Ming. Não por acaso Lakewood, que hoje enche de fiéis as arquibancadas antes ocupadas pelos torcedores do Rockets, tem como lema: “Descubra o campeão em você”. O jovem pastor Joel Osteen, 45, e sua mulher, Victoria, que lembra a menina-boneca do filme “Beleza Americana”, cultivam o modelo do casal sorridente e bem-sucedido. Durante um culto recente, numa tarde de sábado, em junho, no ginásio com capacidade para 16 mil pessoas (mas ocupado apenas pela metade), os dois não falavam praticamente de outra coisa além de dinheiro e sucesso. A Lakewood pagou à cidade de Houston mais de US$ 11 milhões pelo direito aos primeiros 30 anos de uso do estádio, cuja reforma foi estimada em US$ 75 milhões. Hoje com 47 mil membros, ela foi fundada em 1959, numa pequena loja da periferia de Houston, por John Osteen, pai de Joel. O crescimento da Lakewood, como o da maioria das megaigrejas americanas, está ancorado numa enorme estrutura de mídia e marketing, com cultos transmitidos para milhões, pela TV e pela internet, além de livros de auto-ajuda nas listas dos mais vendidos -”Become a Better You” (Torne-Se Alguém Melhor), de Joel Osteen, teve tiragem inicial de 3 milhões de exemplares. O jovem pastor não fala de política ou de assuntos controversos que possam comprometê-lo ou macular a imagem de felicidade (demorou um mês para dizer que não responderia às perguntas que, a pedido de sua assessora de imprensa, lhe foram enviadas por e-mail). Prefere transmitir a mensagem difusa e abrangente do pensamento positivo -o que terminou por lhe fazer valer a pecha de “pastor sorriso” ou “evangelista light”, atribuída por outros evangélicos, em geral fundamentalistas despeitados com seu sucesso. Mas, afinal, do que ele está falando quando fala de Jesus? No alto das arquibancadas, está pendurada a bandeira americana. O altar de Lakewood é flanqueado por duas cascatas que correm sobre pedras artificiais. No centro do altar, em vez da cruz, gira um globo terrestre dourado e vazado. É um símbolo do alcance global da sua mensagem. E, de fato, uma das coisas que mais impressionam quem entra no estádio são as dimensões. Vir para a igreja é estar ao lado dos bem-sucedidos, dos que venceram -o que certamente produz um efeito psicológico de auto-sugestão. Lakewood é a igreja do sucesso contagiante. Aqui está o Deus do capitalismo. E o sucesso da igreja é a prova de que Deus a abençoou. “Somos vitoriosos, não somos vítimas”, diz Osteen, repetidamente, para convencer os fiéis. “Vocês ainda não viram seus melhores dias. Não liguem para os problemas financeiros. Não há recessão no Céu. Quem não está sofrendo com a alta dos combustíveis? Se vocês estão no ramo do comércio, não se deixem abalar pela crise. Enquanto Deus estiver com vocês, não haverá problema. Chegou a hora do troco para aqueles que acreditam em Deus. “It’s payback time!’” No telão, o público lê as instruções sobre a contribuição do dízimo: “Cheques em nome da Lakewood Church, por favor”, enquanto funcionários passam pelas arquibancadas com os baldes para o recolhimento. Ele continua: “Se você não foi promovido ou não recebeu uma herança, não fique com inveja. Deus guarda para você grandes coisas no estoque!”. No dia seguinte, no culto celebrado em espanhol pelo pastor Marcos Witt, já não há nenhuma metáfora comercial, nenhuma menção direta a dinheiro. Tudo é mais velado. O materialismo peculiar da véspera foi substituído por medidas indiretas, rezas, cantorias e agradecimentos a Jesus. A mensagem da Lakewood é muito bem direcionada, e os hispânicos, ainda que tenham renunciado à tradição católica, representam um segmento de mercado que talvez não esteja preparado, por conta do seu moralismo pudendo, para relacionar Deus e o dinheiro tão abertamente. A julgar por mim, posso dizer que os estrategistas da Lakewood acertaram em cheio. Como bom latino, não pude evitar o desconforto diante do evidência despudorada do sermão da véspera. Lakewood é a igreja do materialismo mágico, onde o sucesso material, garantido pelos fiéis, é usado para convencê-los de que também podem ser bem-sucedidos. Pagam para projetar no pastor o que desejam para si. Deus é bingo!

“Folha de S. Paulo”

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Em pauta, o direito de ser diferente

O STF pode decidir se a diferença é um direito universal ou se há brasileiros de primeira e de segunda

José de Souza Martins*

Quando Joênia Batista de Carvalho, advogada brasileira da etnia wapichana, ocupou a tribuna do STF, na quarta-feira, não representou apenas a causa territorial dos indígenas de Roraima, como constava da agenda. Ao se paramentar com as marcas faciais de sua tribo e arrolar os fatos da relação dos indígenas de Roraima com o general Rondon e o Exército na demarcação dos confins do território brasileiro, o que os fez brasileiros muito antes de outros protagonistas do pleito, pôs em causa conexões inevitáveis do que motiva o processo. Trata-se de um processo de conotação histórica porque nele está em jogo mais do que a contestação do direito dos índios daquele Estado a uma reserva íntegra, já decretada com base na Constituição, que lhes assegure a materialidade de seu território de ocupação imemorial.

A invocação de problemas de segurança nacional em relação à demarcação de um território indígena contínuo e íntegro na faixa de fronteira é compreensível, mas parece irrelevante no mundo moderno, em face dos recursos técnicos de que dispõe o aparato responsável pela segurança das fronteiras do País. Esses setores recebem fotografias aéreas das diferentes regiões brasileiras a cada tantas horas, feitas a partir de satélite, e a cada tantos dias fotografias de melhor resolução. As Forças Armadas brasileiras, com esses recursos, sabem até mesmo que tipo e tamanho de avião estacionou num aeroporto até horas depois de o avião ter decolado, simplesmente com as imagens de seu fantasma na imagem gerada e deixada por sua temperatura no solo. O mesmo monitoramento identifica diariamente aviões não autorizados, procedentes de países vizinhos, que invadem o espaço aéreo brasileiro. A lei do abate permite que tais aviões sejam derrubados, caso não se identifiquem e não pousem onde os pilotos dos caças de abordagem determinarem.

O que o País precisa não é que os índios de Roraima sejam culturalmente lesados em nome da segurança das fronteiras. Precisa que as Forças Armadas estejam devida e permanentemente equipadas e treinadas para cumprir sua função constitucional na defesa das fronteiras do País. E isso estão, cabendo assegurar que disponham sempre do que necessitam para que essa missão não seja, ela sim, prejudicada. No Alto Rio Negro, que faz fronteira com a Venezuela e a Colômbia, território do município de São Gabriel da Cachoeira, com uma brigada do Exército estabelecida, em que 85% da população são indígenas, além do português são línguas oficiais o nheengatu, o baniwa e o tukano e nelas são publicados leis, decretos, portarias, editais. Nem por isso a segurança é menor.

No litígio que corre no Supremo, entre arrozeiros e governo federal, de que as vítimas do conflito territorial são os índios, há uma disputa entre duas concepções de terra: a terra como morada ancestral, referência de um modo de viver e de uma consciência do mundo que, suprimida, desencadeará o desaparecimento social e cultural de seus protagonistas; e a terra como mercadoria, mero instrumento de troca e produção, que pode ser comprada e vendida em qualquer lugar. Sua posse pelos arrozeiros, declarada ilegal no voto do ministro-relator, não é, pois, referência simbólica de identidade nem meio de sobrevivência cultural.

No processo está em jogo, também, uma tendência da história brasileira relativa à diferença entre a terra como propriedade fundiária e o território como patrimônio da nação. No antigo regime sesmarial, antecessor do atual regime fundiário, o Estado era titular do domínio da terra e os sesmeiros tinham dela a posse útil. A Lei de Terras, de 1850, alterou esse direito de modo que os fazendeiros se tornaram titulares de domínio e posse, um direito pleno. Com a Revolução de 1930, o Estado brasileiro tratou de recuperar em parte o domínio da terra para sobre ela exercer sua soberania no que sobrepusesse os interesses nacionais aos interesses privados. Nessa tendência houve a separação legal de solo e subsolo, retornando o subsolo e tudo que contém ao domínio do Estado. O mesmo acabou acontecendo com as terras do Distrito Federal, as marinhas e as terras indígenas.

O que está em jogo no Supremo é, portanto, a interrupção ou a mitigação do processo de reconquista do domínio do território pelo Estado Nacional. Os interesses dos índios, nesse aspecto, coincidem com os do Estado; o dos arrozeiros, não. Nas conexões dessa tendência histórica, temos o surgimento de sujeitos de direito e sujeitos de brasilidade diversos do convencional, mas igualmente legítimos.

Vale lembrar que em países como a Inglaterra, quando a expansão do capitalismo, no século 17, colidiu com direitos tradicionais da população, as lutas sociais asseguraram o reconhecimento dos direitos sociais como direitos precedentes em relação aos direitos econômicos e à conseqüente coisificação dos seres humanos na devastação cultural que se disseminava. No Brasil não tivemos, com a força social devida, instituições tradicionais reguladoras dos direitos dos pobres, trabalhadores e desvalidos porque esta era, afinal, uma sociedade escravista, resumida ao mandar e obedecer. As lutas tardias dessas populações, dos banidos da condição de sujeitos e privados do reconhecimento de identidade própria e ancestral, acabaram pondo na ordem do dia a reinvenção do Brasil numa perspectiva pluralista e multicultural. Mesmo no direito de propriedade, a Constituição de 1988 abrandou sua rigidez para acolher a legitimidade do costume quanto à posse e ao uso da terra.

Estamos num momento de recriação identitária e, portanto, de inclusão social não pela assimilação aniquiladora, mas pelo reconhecimento integrador do direito à diferença. Essa tendência histórica pode ser enriquecida ou empobrecida, dependendo do que o STF decidir, pois ele dirá se a diferença é um direito universal ou se há brasileiros de primeira e de segunda, em que a diferença continuará residual, como um defeito de caráter.

*José de Souza Martins é autor de Fronteira (A Degradação do Outro nos Confins do Humano), Hucitec, São Paulo, 1997

“Estado de S. Paulo”

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Tudo muda na Índia, menos a forma como são tratados os pobres

Anand Giridharadas

Aqui, no Taj Mahal Palace and Tower, o decano dos hotéis da cidade, o que você pensa a respeito da nova Índia pode depender de sua situação - você pode ser a pessoa que tem o sabonete sendo esguichado em suas mãos, ou a pessoa que está esguichando o sabonete.

Em todos os toaletes masculinos do Taj há um ajudante. Assim que você se aproxima da pia, ele o cumprimenta. Antes que você abra a torneira, ele a abre para você. Antes que você passe o sabão, ele pressiona o dispenser. Antes que você alcance a toalha, ele lhe estende uma. Ao sair, ele o cumprimenta de novo e murmura: “Certo Senhor. Sim Senhor. Obrigado, Senhor”.

Ao sair, você sentirá a atmosfera exalando a nova riqueza, pelos automóveis. Dentro dormem os motoristas, muitos deles caindo no sono por trabalhar em turnos de 20 horas, acordando às 6h00 para pegar o trem, levar seus patrões para o trabalho e do trabalho, em seguida para os seus jantares, depois para os drinques, deixando-os em casa à 1 da madrugada e pegando um táxi para voltar para suas habitações.

É 1 da madrugada, e no prédio onde mora o patrão, os saguões de entrada estão cheios de pessoas deitadas. São os servidores e varredores que trabalham dentro durante o dia, mas dormem fora à noite; que limpam os toaletes, mas não se atrevem a usá-las. Eles aprenderam a dormir sobre as frias lajotas, com os moradores do prédio passando por cima deles ao retornar das noitadas regadas a champagne.

A Índia está mudando tão depressa que começa a se parecer com qualquer outro lugar. Os arranha-céus brotam. Cidades incham. Os jovens namoram, bebem, fumam livremente. Mas muitas das pessoas que estão tornando nova a nova Índia - dos corretores de ações às engalanadas socialites- são responsáveis pela preservação de um elemento de certa forma lúgubre do passado indiano: uma tendência a tratar os funcionários contratados como sua propriedade, insultá-los e humilhá-los e ser condescendente com eles, comportar-se como se alguns seres humanos tivessem nascido para servir e outros para serem servidos.

“Os indianos são provavelmente as pessoas menos democráticas, morando na maior e mais plural democracia do mundo,” como afirmam Sudir Katar e Katharina Kakar, dois conhecidos estudiosos da cultura indiana, em um livro publicado recentemente, “The Indians: Portrait of a People” (”Os Indianos: Retrato de um Povo”).

É compreensível que, em épocas de abundância, os indianos prefiram falar de outras coisas.

Mas se um diretor de cinema em Mumbai se impuser, em breve ele estará falando sobre empregados domésticos. Em uma tentativa de expor as relações entre empregados e servidores na Índia, da mesma forma que “A Cabana do Pai Tomás” mostrou a escravidão americana, Raja Menon fez um novo filme provocativo, retratando a Índia a partir do ponto de vista de um serviçal.

O filme, “Barah Ana”, que pode ser traduzido toscamente como “dar troco a menos” está atualmente sendo julgado por júris de festivas em Toronto e Veneza.

Ele conta a história de três pessoas que migram para Mumbai, dos miseráveis lugarejos do norte da Índia. Trabalham como chofer, garçom e guarda de segurança, mandando a maior parte de seus ganhos para casa.

São heróis em suas cidades; mas em Mumbai, são pessoas invisíveis, enfrentando a dureza que é ser um subordinado de outras pessoas em épocas de prosperidade.

Em uma das cenas, uma rica dona de casa, rechonchuda e toda cheia de acessórios Louis Vuiton, circula pela cidade no banco de trás de seu utilitário negro, tagarelando no celular. De repente, o chofer pisa no freio, fazendo a mulher balançar e interromper a conversa.

“A criança que estava mendigando ficou na frente do meu carro,” ela explica indignada à sua amiga, em inglês, depois de retomar o telefonema. “E aquele idiota do chofer simplesmente brecou.”

Em outra passagem, um guarda de segurança descobre que seu filho está doente e que sem um tratamento que custa US$ 150, ele morrerá. Yadav circula o prédio onde mora pedindo empréstimos de locatários que costumam gastar US$ 40 em pizzas.

Os moradores, grudados em suas televisões, o tratam como um cachorrinho que deve ser enxotado.

Naquela noite, ao se sentar para beber com amigos, ele se vê diante do que significara enterrar um filho. “Por que será”, ele se queixa, “que uma pessoa só consegue sentir a própria dor e não a de outros?”

A resposta do diretor é que a Índia tem algo mais profundo que um problema de pobreza.

O país tem, em sua opinião, um problema de “desumanização”. Em uma entrevista, ele descreve os empregados e servos da Índia como se fossem “duas espécies diferentes”.

A primeira parte do filme faz uma crônica das pequenas humilhações na Índia com um realismo de dar calafrios. A segunda parte prevê a explosão de violentas revoltas em um país cuja elite há muito se tranqüiliza com a idéia de que os pobres irão aceitar estoicamente sua condição.

Menon acredita que tal estoicismo está minguando, em uma época na qual os ricos estão mais visivelmente ricos e os excluídos estão cada vez mais conscientes de sua condição de privações.

Há muito se diz aos pobres que a pobreza é merecida, diz ele. Mas agora eles vêm a riqueza por toda parte, e estão começando a acreditar que a pobreza é circunstancial e pode ser revertida.

“É a aí que os diques se rompem”, ele diz, “no momento em que a pessoa sente: ‘Não é verdade que o meu lugar é esse. ‘”

Um momento desses parece ter ocorrido recentemente, há algumas noites. O filme foi apresentado a um público de indianos jovens, de classe média, representantes da nova prosperidade do país.

Mas um deles, Mitesh Thakkar, um gerente de marketing de 30 anos, chegou com o motorista de táxi que ele costuma contratar, e trouxe diversidade, ao convidar o motorista para assistir ao filme.

Thakkar reagiu como qualquer um reagiria se sua classe social fosse acusada. O filme é bom, “mas toma partido”, ele disse: “Talvez existam 70% de pessoas que os tratam mal, mas existem 30% que os tratam bem.”

Mas para o motorista do táxi, Javed Ali, o filme tornou-se um clássico no mesmo instante.

“Essa história é a verdade,” ele disse. “Mostra tudo que eu penso”.

Ali é um trabalhador migrante, de 20 anos, e conhece de perto as humilhações mostradas no filme. Às vezes pessoas tomam seu táxi e recusam-se a pagar; às vezes estão bêbadas e o maltratam; às vezes gritam para ele: “Você não presta.”

Depois da projeção, algumas pessoas do público, incluindo Thakkar e Ali, foram jantar. (Pode ter sido influência do filme: jantar com um motorista de táxi na Índia é atravessar uma linha raramente cruzada.)

Os outros participantes do jantar quiseram saber o que Ali, o único pertencente à classe trabalhadora na mesa, achou do filme. Ali respondeu, de forma casual, que sabia de onde vinham os personagens, que compreendeu a ânsia deles por vingança, depois de tantos anos de humilhação.

“Ele disse que quando o motorista seqüestra sua patroa - ele fez a coisa certa,” contou Thakkar mais tarde, lembrando-se dos comentários de Ali. “Mesmo que ele tenha sido pego, precisava daquele seqüestro.”

Naquela noite, naquela mesa ocupada de forma tão incomum, com parte próspera e a pobre lado a lado, as realidades paralelas da Índia se colidiram de forma uma efêmera e ameaçadora.

“International Herald Tribune”

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Vivendo surto de crescimento, a China é a maior emissora mundial de dióxido de carbono

Elisabeth Rosenthal

A China superou nitidamente os Estados Unidos como maior emissora mundial de dióxido de carbono, o principal gás causador do efeito estufa. Segundo um novo estudo, as emissões da China aumentaram 8% em 2007. Esta elevação respondeu por dois terços do aumento das emissões globais de gases causadores do efeito estufa no ano passado.

O relatório, divulgado na sexta-feira (13/06) pela Agência de Avaliação Ambiental da Holanda, revelou que em 2007 as emissões da China foram 14% superiores às dos Estados Unidos. No estudo referente ao ano anterior os pesquisadores descobriram que pela primeira vez a China tornou-se o principal emissor, com um volume de emissões de carbono 7% superior ao dos Estados Unidos.

Muitos especialistas mostraram-se céticos em relação ao estudo anterior, cujos resultados foram menos exatos do que aqueles divulgados na sexta-feira. No ano passado a Agência Internacional de Energia (AIE) continuou afirmando apenas que havia uma projeção segundo a qual a China superaria os Estados Unidos por volta do final de 2007. Agora há pouca dúvida quanto a isso.

“A diferença aumentou para 14%, e este número é de fato muito grande”, afirma Jos Olivier, cientista da agência holandesa. “Hoje em dia este índice é tão grande que se trata de uma conclusão bastante robusta”.

É provável que as emissões da China continuem crescendo substancialmente nos próximos anos porque elas estão vinculadas ao forte crescimento econômico do país, e à sua mistura específica de recursos energéticos e indústrias, dizem os pesquisadores.

A China depende bastante do carvão e o país cresceu mais em alguns dos setores industriais mais poluentes do mundo: cimento, alumínio e cerâmicas. Estima-se que 20% das emissões da China originem-se das suas fábricas de cimento, essenciais para o boom do setor de construção civil do país e que provavelmente continuarão funcionando a todo vapor neste ano, devido aos preparativos para as Olimpíadas e às obras de reconstrução após o devastador terremoto do mês passado.

As conclusões da agência holandesa baseiam-se em informações recentemente publicadas sobre a produção de cimento e o uso de energia da companhia petrolífera BP.

Os Estados Unidos ainda tem uma grande liderança em termos de emissões de dióxido de carbono per capita. O norte-americano médio é responsável por 19,4 toneladas anuais deste tipo de emissão. A média de emissões per capita na Rússia é de 11,8 toneladas, na União Européia de 8,6 toneladas, na China de 5,1 toneladas e na Índia de 1,8 tonelada.

Os especialistas dizem que os novos dados ressaltam a importância de fazer com que a China assine qualquer novo acordo sobre o clima global. Nem a China nem os Estados Unidos participaram do atual tratado para a redução de emissões, o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012, e que deverá ser substituído por um novo acordo a ser assinado em Copenhague no final de 2009.

Na sexta-feira, em Bonn, na Alemanha, 2.000 lideranças mundiais concluíram duas semanas de negociações sobre o tipo de acordo que substituirá o Protocolo de Kyoto. Os líderes da Organização das Nações Unidas (ONU) disseram a eles que “entrassem no ritmo”.

“Faltando pouco mais de um ano para Copenhague, o desafio para que se chegue a tal acordo continua sendo enorme”, afirma Yvo de Boer, secretário-executivo do Conselho da Convenção sobre Mudança Climática da ONU. No final do ano passado, um painel da ONU formado por especialistas científicos advertiu que o mundo conta com apenas alguns anos para reverter a tendência de aumento de emissões a fim de evitar as graves conseqüências do aquecimento global, que vão da elevação do nível dos oceanos ao desaparecimento de espécies biológicas.

“Todos reconhecem que nós só chegaremos a uma resposta ao encararmos os desafios em todos os países, incluindo a China”, afirma de Boer.

Mesmo assim, ele acrescentou que a China vem “agindo progressivamente para implementar políticas ambientais” nos últimos 12 meses, tendo feito planos para o fechamento de indústrias altamente poluentes de pequeno e médio porte e para a busca de fontes mais alternativas de energia.

Orville Schell, diretor do Centro de Relações Estados Unidos-China, na Sociedade da Ásia, em Nova York, afirma: “O estudo holandês foi uma espécie de previsão do que está por vir, ou seja, a proeminência incontestável da China em termos de crescimento rápido das emissões de gases criadores do efeito estufa”.

A Sociedade da Ásia deu início a uma iniciativa bilateral relativa à mudança climática que inclui grupos como o Centro Pew de Estudo das Mudanças Climáticas Globais e que envolve líderes dos dois países, incluindo Al Gore.

“Não poderá haver uma solução para as questões referentes à alteração climática global sem que a China esteja integralmente envolvida”, alerta Schell. Mas ele acrescenta que, a menos que os Estados Unidos assumam novos compromissos, os líderes chineses não se envolverão mais intensamente com esta iniciativa.

Os pesquisadores holandeses afirmaram que há sinais de que a curva de aumento de emissões por parte da China será um pouco menos acentuada neste ano, embora eles ainda prevejam um rápido crescimento. As emissões chinesas subiram 8% em 2007, comparados aos mais de 11% anuais nos dois anos anteriores.

Em comparação, as emissões nos 15 Estados membros originais da União Européia caíram 2% em 2007, embora Olivier, da agência holandesa, observe que esta queda foi pelo menos em parte provocada por um inverno mais quente, que reduziu a necessidade de aquecimento.

Mas com os elevados preços do petróleo e do gás neste ano, há quem seja favorável ao aumento das emissões no futuro. Os elevados preços do petróleo fizeram com que ressurgisse o interesse pelas usinas termoelétricas a carvão para o setor industrial. Essas usinas são bastante poluentes.

Segundo a AIE, que assessora as nações industrializadas a respeito de políticas energéticas, 80% da demanda mundial por carvão é chinesa. Mas os Estados Unidos também são um grande usuário do carvão para o seu complexo industrial.

“É crucial que países como China e Estados Unidos explorem tecnologias que façam frente a esse problema”, afirma de Boer, referindo-se especificamente a projetos para bombear as emissões para depósitos subterrâneos, em vez de lançá-las na atmosfera.

“The New York Times”

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CIA cria um “limbo” para prisioneiros no mar

A CIA criou um limbo no mar para os suspeitos de terrorismo islâmico longe das testemunhas incômodas. A verdade apenas começa a emergir

José María Irujo

“Este barco está fazendo algumas coisas boas que eu não posso revelar”, disse o vice-almirante norte-americano David Brewer, após o 11 de setembro, a respeito de uma de suas criaturas preferidas, o navio de ataque anfíbio USNS Stockham, um dos gigantes da marinha dos Estados Unidos que opera na base norte-americana de Diego Garcia, uma ilha britânica no oceano Índico.

Meses depois dessa declaração intrigante, nas celas de Guantánamo (Cuba), o russo Rustam Akhmiarov e o britânico Moazzam Begg receberam informações de seus companheiros de prisão a respeito de um “limbo” no meio do mar, com prisões flutuantes muito piores do que a base cubana. Foi então que eles ficaram sabendo o que de fato eram as “boas ações” feitas em navios como o Stockham.

Rustam ainda tem gravadas na memória as palavras de um preso afegão, um homem de trinta anos que falava russo: “Antes de vir aqui eu estive preso em um navio norte-americano junto com outras cinqüenta pessoas. Eles nos mantiveram presos no porão. Foi como na televisão, parecia um filme. Nos espancavam e tratavam pior do que aqui em Guantánamo”. Rustam não sabe o nome de seu interlocutor, mas hoje, na Rússia, longe do inferno da prisão cubana, conversa com outros “irmãos” que conheceram este prisioneiro, para ajudar a identificá-lo.

Entre março e julho de 2004, o Comando Militar Sealift (MSC), do Ministério de Defesa dos EUA, dirigido por Brewer desde agosto de 2001 até sua aposentadoria em 2006, reformou o USNS Stockham para que ele tivesse capacidade de apoiar a luta mundial contra o terrorismo, o que incluía a instalação de um módulo médico, novas comunicações, pistas de aterrissagem e outras modificações secretas. O investimento foi de 3 milhões de dólares. Na realidade, este e outros navios anfíbios da marinha dos Estados Unidos foram adaptados para uma nova e “boa” missão sobre a qual seus comandantes não podem falar: a criação de um limbo no meio do mar, de uma Guantánamo longe da terra, onde não é preciso responder por nada do que acontece. José Ricardo de Prada, ex-juiz internacional na Sala de Crimes de Guerra da Corte da Bósnia-Herzegovina, explica: “Em uma prisão assim, não há referência nem ancoragem territorial. A liberdade de ação é total. Ninguém assume a responsabilidade”.

O britânico Moazzam Begg, seqüestrado em sua casa em Islamabad (Paquistão) e preso em Guantánamo durante três anos, contou ao El País que também ouviu histórias sobre as prisões flutuantes da CIA, um dos segredos mais bem guardados da chamada guerra global contra o terrorismo do governo Bush. Moazzam mora em Birmingham (Reino Unido) e lembra-se bem dos testemunhos de seus companheiros. “David Hicks, um talibã australiano, estava em Guantánamo em uma cela próxima da minha. Contou-me que, depois de ser detido, foi levado a um barco-prisão. Interrogaram-no durante vários dias; ele foi insultado, agredido, espancado e esbofeteado. Foi torturado. Ele me disse que o americano John Walker, convertido ao Islã, também estava lá. Confessou que aquele lugar era pior do que onde estávamos.”

Para Begg, de 40 anos, casado e pai de quatro filhos, aquela história soou familiar. “Quando estive preso na base aérea afegã de Bagram”, lembra-se, “os agentes da CIA que me interrogaram, disseram que se eu não colaborasse me mandariam ao mesmo lugar que enviaram Al Libi (Ali Abdul-Hamid Al Fakhiri), um preso que havia sido levado a um barco-prisão e que desde então está desaparecido. Em Kandahar, muitos prisioneiros de Bagram me contaram sobre as prisões flutuantes, sobre como haviam levado Al Libi em uma caixa de madeira até um barco. Os relatos eram muito parecidos”.

O talibã australiano David Hicks, o mulá afegão Abdul Salam Zaeef, o norte-americano convertido ao Islã John Walker Lindh e o líbio Ali Abdul-Hamid Al Fakhiri contaram para outros prisioneiros como Begg sobre suas estadias nos porões dos barcos da marinha norte-americana transformados em prisões flutuantes. Ali, os prisioneiros eram maltratados e golpeados com a culatra dos rifles. Eram fotografados e interrogados por psiquiatras e psicólogos, de diferentes nacionalidades que, depois das sessões de tortura, apareciam com seus jalecos brancos de aspecto inofensivo e diziam coisas tão naturais e desconcertantes como: “Fique tranqüilo, conte-me os seus sonhos”.

O talibã australiano Hicks, de 32 anos, casado e pai de dois filhos, conheceu duas prisões flutuantes. Primeiro a do USS Peleliu, um navio anfíbio de guerra norte-americano batizado com o nome de uma batalha da 2ª Guerra Mundial. Mais tarde, foi transferido para o gigante Bataan, outro navio de guerra em que provavelmente esteve preso o afegão que contou sobre a prisão para seu vizinho de cela.

Em 11 de janeiro de 2002, Hicks foi transferido em um vôo da CIA, junto com outros 24 prisioneiros, de Kandahar para Guantánamo. O avião C-141 Starlifter fez escala em Morón de La Fronter (Sevilha), segundo informações da autoridade aeroportuária portuguesa, obtidas pela ONG britânica Reprieve, que defende os presos de Guantánamo. A AENA (agência espanhola de aviação) assegurou à Assembléia Nacional que não tem dados sobre esse vôo, mas o juiz Ismael Moreno e o fiscal Vicente González Mota investigam esses traslados.

Quando chegou a Guantánamo, Hicks deixou os cabelos crescerem para proteger seus olhos da luz permanente que iluminava sua cela, explicaram seus advogados. Há um ano, ele foi o primeiro preso a comparecer diante de um tribunal militar em Guantánamo: com seus cabelos compridos e o uniforme cáqui usado pelos presos de boa conduta. Declarou-se culpado das acusações de receber treinamento num campo da Al Qaeda e lutar ao lado dos talibãs durante a invasão do Afeganistão no final de 2001, talvez para conseguir que o deixassem cumprir sua sentença na Austrália. “Ele viveu durante cinco anos no inferno. Tudo o que ele quer é voltar para casa”, declarou seu pai, Terry Hicks, a uma rádio australiana. Em dezembro de 2007, conseguiu voltar para seu país. Lá, cumpriu nove meses de uma sentença de sete anos, e saiu em liberdade condicional.

O talibã norte-americano convertido ao Islã John Walker, 22, foi capturado pelas forças da Aliança do Norte (forças afegãs contrárias aos talibãs) em novembro de 2001. Sua primeira cela foi nos porões do USS Peleliu, o mesmo navio em que esteve o australiano. A bordo, recebeu tratamento médico para desidratação, hipotermia e congelamento. Um médico extraiu uma bala que havia se alojado em sua perna duas semanas antes, segundo declararam os médicos militares. Sua família assegura que durante aqueles dias ele foi interrogado sem a presença de um advogado e sem que lhe informassem seus direitos. O general Tommy Franks declarou na época: “Continuaremos controlando-o a bordo do Peleliu até decidirmos se vamos julgá-lo pela Justiça militar ou civil”.

Walker já foi julgado e cumpre uma pena de 20 anos de prisão por unir-se ao exército talibã. “Ele foi uma vítima da histeria posterior ao 11 de setembro. Meu filho não lutou contra os americanos. Sua história foi mal interpretada”, declarou seu pai, Frank.

No USS Bataan, juntamente com o talibã australiano David Hicks, esteve também o mulá Abdul Salam Zaeff, antigo embaixador do governo talibã no Paquistão, o homem de barba e turbante que ficou famoso pelas coletivas de imprensa posteriores ao 11 de setembro nas quais, rodeado por toda imprensa internacional, defendeu veementemente o mulá Omar. Zaeef, de 41 anos, foi detido em janeiro de 2002 em sua casa em Islamabad e preso durante uma semana numa cela no interior do Bataan, conforme ele mesmo contou. Ali, foi interrogado várias vezes sobre o paradeiro de Bin Laden. Os serviços secretos norte-americanos acreditavam que ele conhecia o esconderijo do líder da Al Qaeda nas montanhas de Tora Bora.

Da cela do navio-prisão, Zaeef foi transferido para a base aérea afegã de Bagram, a mesma em que esteve preso o britânico Begg. Lá, permaneceu vários meses até viajar para Guantánamo, onde, durante três anos, escutou centenas de vezes a mesma pergunta: “Você sabe. Onde está Bin Laden e o mulá Omar?”. Em setembro de 2005, o governo norte-americano decidiu que o diplomata talibã não era perigoso e libertou-o. Agora ele vive no Afeganistão, junto com suas duas esposas e oito filhos.

O libanês Ali Abdul-Hamid Al Fakhiri teve uma sorte pior. Informes oficiais obtidos por várias organizações de direitos humanos asseguram que, em 9 de janeiro de 2002, ele estava preso numa cela a bordo do USS Bataan. Desde então, ninguém sabe de seu paradeiro a não ser que ele foi transferido para o Egito. Depois, sua pista foi perdida. Informes da Anistia Internacional revelam que um funcionário norte-americano admitiu a transferência de Al Fakhiri a um terceiro país para continuar seu interrogatório. Em 19 de julho de 2006, seu nome foi incluído numa lista de terroristas que já não constituem uma ameaça para os EUA. Na relação, pode-se encontrar nomes de muitos desaparecidos sobre os quais a CIA não oferece nenhuma explicação.

Al Fakhiri foi detido em novembro de 2001 em Kohat (Paquistão) por agentes do ISI, o temível serviço secreto paquistanês. Acusaram-no de dirigir um campo de treinamento terrorista do Grupo de Combate Islâmico da Líbia em Al Khaldan (Afeganistão). Assim como centenas de presos, ele foi vendido aos agentes da CIA. Sem confirmação, algumas testemunhas asseguram que o preso se encontra em uma prisão de Trípoli, sofrendo de tuberculose. Seu nome figura na lista de desaparecidos de seis organizações de direitos humanos. Os Estados Unidos nunca reconheceram sua detenção. Mas se não o prenderam, por que incluem seu nome na lista de terroristas que já não são mais uma ameaça para o país? Perguntam seus familiares. Ninguém do governo norte-americano esclareceu essa contradição.

O testemunho do britânico Moazzam Begg ao El País e as pistas que estes e outros presos deixaram sobre os navios norte-americanos transformados em prisões flutuantes não são a única prova sobre o novo limbo criado pelos serviços secretos dos EUA.

O almirante John Stufflebeem confirmou, em 2001, a transferência do talibã norte-americano Walker e de dois outros presos ao USS Peleliu. “Um [dos detentos] é o senhor Walker. Os outros quatro não eram afegãos, acho que eram uma mistura de talibãs e membros da Al Qaeda. Não tenho mais detalhes. Não posso dizer seus nomes nem como estão de saúde, para sua proteção e isolamento, para que não venham forças inimigas resgatá-los do centro de detenção, por segurança e, é claro, para continuar interrogando-os”. Nesse mesmo ano, 2001, o então subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz, disse: “Vocês sabem que temos cinco presos a bordo do Peleliu, um australiano, um norte-americano e três talibãs da Al Qaeda. São homens importantes, mas uma das razões para não os identificarmos é que não temos certeza de que seus comparsas saibam que os temos em mãos”.

Na época, ninguém suspeitava que alguns navios da marinha haviam se transformado em prisões flutuantes, mas quatro anos depois, em junho de 2005, o relator especial da ONU para assuntos de terrorismo lançou uma advertência sonora: “Temos provas muito sérias de que os Estados Unidos estão detendo suspeitos de terrorismo em vários lugares do mundo, especialmente a bordo de prisões flutuantes na região do Oceano Índico”.

Agora, a ONG Reprieve, composta por advogados britânicos que investigam os vôos da CIA, apresenta novas provas sobre o limbo flutuante criado pelos serviços secretos norte-americanos. Ela relata, em seus informes, a existência de 17 navios da marinha norte-americana que, presume-se, estão sendo usados para interrogar prisioneiros longe de testemunhas incômodas. Clara Gutteridge, de 30 anos, investigadora da Reprieve e autora de um informe preliminar sobre o limbo marinho, explicou, em seu escritório em Londres, que o número de pessoas que ficaram presas nesses barcos é ignorado. “Não sabemos quantos suspeitos foram presos neles, mas há prisioneiros que dizem que conviveram com cerca de cinqüenta pessoas em um deles. O Pentágono está destruindo os interrogatórios e fotografias feitos nas prisões flutuantes, mas as provas existem, e agora estão sendo classificadas e acabaram sendo reveladas. O comandante Jeffrey Gordon, porta-voz da marinha dos Estados Unidos, negou a existência dessas prisões e só reconheceu que alguns detentos permaneceram nelas durante os primeiros dias de sua detenção.

Gutteridge responde que as prisões flutuantes não são transitórias, como diz Gordon, e que sua missão é “manter prisioneiros distantes do olhar da imprensa, de seus advogados ou de seus países de origem. Eles são interrogados a bordo durante um período determinado e logo são transferidos para lugares desconhecidos”. Ela cita uma teoria geográfica que explicaria porque tantas pistas apontam para a ilha britânica de Diego Garcia, no oceano Índico, onde operam o Stockham, o Bataan e outros navios cujas atividades na luta contra a Al Qaeda o vice-almirante Brewer não pôde revelar.

Em Diego Garcia há uma das maiores bases navais e aéreas norte-americanas fora dos Estados Unidos. A ilha acolhe a 7ª Frota do Índico, os bombardeiros B-52 que operam no Iraque e Afeganistão, além de esquadrilhas de submarinos dotados de mísseis anti-nucleares. É uma fortaleza impenetrável.

Lá não há testemunhas. Os moradores, descendentes de imigrantes indianos e antigos escravos, foram obrigados a abandonar a ilha há 30 anos, quando os militares norte-americanos chegaram. Alguns de seus descendentes, entretanto, lutam nos tribunais pelo seu direito de voltar. Agora, Diego Garcia converteu-se em um centro de interrogatório secreto, segundo revelaram ex-agentes dos Estados Unidos. Um deles confessou ao juiz Baltasar Garzón que Mustafá Setmarian, de 50 anos, membro da cúpula da Al Qaeda detido em 2005 em Quetta (Paquistão) e dado como desaparecido em seguida, foi transferido para Diego Garcia. Assim como no caso do desaparecimento de Al Fakhiri, em 19 de julho de 2006, o governo norte-americano incluiu o nome do prisioneiro na lista de terroristas que já não constituem ameaça. Será que Setmarian também esteve numa prisão flutuante?

O general norte-americano Barry McCaffrey, um homem respeitado no exército e antigo combatente no Vietnã, reconheceu várias vezes que “suspeitos de terrorismo” haviam sido transferidos para a ilha, e o Conselho Europeu deu uma declaração em junho de 2007 na qual afirmava que “está confirmado que as agências de inteligência dos EUA utilizaram o território de Diego Garcia, cuja responsabilidade legal internacional cabe ao Reino Unido, nos interrogatórios de detentos de alto interesse”.

A investigadora britânica explica assim sua teoria geográfica sobre os traslados dos presos: “Os serviços secretos precisam ter os presos próximos uns dos outros para contrastar suas respostas nos interrogatórios. Na Comissão de Investigação do 11 de setembro já se falava da decisão estratégica de ter os presos na mesma área”. Peixes grandes da Al Qaeda como Abu Zubaida, Khalid Shaikh Mohamed e Ramzi Binalshibh (esses últimos, organizadores do 11 de setembro) foram interrogados em uma prisão secreta na Tailândia e logo transferidos para a Polônia, onde fica uma das prisões ocultas da Europa. Suspeita-se que também passaram por Diego Garcia para serem submetidos a acareações com outros presos para buscar contradições em seus relatos.

“O governo britânico sabe o que está acontecendo lá. Ele também recebe as informações obtidas em Diego Garcia. É certo que eles recebem informações sobre os detentos, mas não sobre as circunstâncias e os lugares secretos onde estão presos”, acusa Clara Gutteridge. “Nosso governo também é cúmplice”, diz Clive Stafford, diretor da Reprieve, advogado que deu assistência a vários presos em Guantánamo.

Um dos navios na mira da ONG é o USS Ashland. Em 2007, esse navio navegou pela costa da Somália e dirigiu operações para capturar terroristas da Al Qaeda, vigiar o tráfego marítimo e interrogar as tripulações de barcos suspeitos. Várias pessoas detidas pelas forças da Somália, Quênia e Etiópia foram interrogadas por membros do FBI e da CIA. Segundo a organização humanitária londrina dirigida por Stafford, o Ashland e outros navios que operavam no golfo de Aden foram o cenário desses interrogatórios. Cerca de cem pessoas “desapareceram” no caminho para as prisões dos três países africanos e para Guantánamo, diz a organização. “Muitos dos desaparecidos podem estar presos em alguns desses navios”, sugere Moazzam Begg, ex-preso de Guantánamo que recebeu os primeiros testemunhos.

Em setembro de 2006, George Bush declarou que “as prisões secretas estão agora vazias”, mas a Reprieve e outras organizações de direitos humanos asseguram o contrário. “Nos últimos seis meses, nós e outras associações conseguimos reunir mais de 200 casos de detenções secretas”, asseguram os informes da ONG; em um deles, intitulado Sem Rastro Oficial, seis organizações de direitos humanos estimam em 39 o número de pessoas desaparecidas. Um informe oficial do Congresso dos EUA estima em mais de 14 mil o número de pessoas que foram alvo de rendições e detenções secretas desde 2001. Os EUA admitem que capturaram 80 mil prisioneiros por conta da chamada guerra contra o terrorismo.

A Reprieve persegue agora novas pistas sobre as prisões flutuantes. Seus investigadores acreditam que a CIA aluga barcos privados com bandeiras convenientes de países como Panamá e outros para manter os presos ocultos nas águas da África, um continente onde os grupos associados à Al Qaeda estão cada dia mais presentes. É outra forma de evitar as testemunhas militares que podem se tornar incômodas no futuro.

Moazzam Begg, o ex-preso britânico em Guantánamo a quem seus companheiros de cela confessaram a existência das prisões flutuantes, explica a diferença entre estar em Guantánamo ou em um navio-prisão. “No navio podem torturar mais. Ninguém sabe onde você está, nenhum advogado ou membro da Cruz Vermelha pode visitá-lo. É o limbo dos limbos. O isolamento é absoluto. Quem captura vira testemunha”. Begg critica os governos do Paquistão - país onde ele foi entregue aos agentes da CIA - e dos Estados Unidos. “Como acabar com isso?”, pergunta-se. E responde: “Nós, vítimas, devemos resistir, e os governos e serviços de inteligência do Paquistão e dos EUA devem reconhecer que o que estão fazendo é absolutamente equivocado.”

“El País”

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Escopeta não é chocalho

A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente, nas relações militares dos EUA com a América Latina. Ela ocorre no momento que está em curso uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, que lutam por sua segurança alimentar e energética, exatamente como ocorreu no início do século XX.

José Luís Fiori

“Pode-se perguntar por que um estado mais forte desejaria atacar um mais fraco, mas certamente esse não é o ponto. O fato decisivo é que, no nível interestatal, a unidade maior pode atacar os grupos mais fracos. Como não há quem possa impedir esses ataques, os grupos humanos mais fracos vivem em contínuo e inevitável estado de insegurança”

Norbert Elias, Envolvimento e Alienação, Editora Bertrand, Rio de Janeiro, 1990, p: 214

A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente, nas relações militares dos EUA com a América Latina. Foi por isto que surpreenderam tanto, as primeiras explicações americanas, a respeito da reativação da sua Frota - criada em 1943, e desmantelada em 1950 – que teria sido uma simples decisão “administrativa”, tomada com objetivos “pacíficos, humanitários e ecológicos”. A mentira não é um pecado grave no campo das relações internacionais. Pelo contrário, mentir ou dizer meias-verdades, com competência, foi sempre uma arte e uma virtude essencial da diplomacia, entre as nações. Portanto, não foi isto que chamou atenção, na declaração das autoridades americanas, foi o seu desrespeito pela inteligência dos interlocutores, e o seu deboche com relação à impotência dos governos afetados pela sua decisão.

Mesmo quando se falasse também da necessidade de “combater a pirataria, o tráfico de drogas, de pessoas e de armas”, sem explicar, ao mesmo tempo, porque que a IV Frota não foi reativada durante a Guerra Fria, ou mesmo, depois da Revolução Cubana e da Crise dos Foguetes, de 1962, quando o “fluxo ilegal de armas e pessoas”, e o “tráfico de drogas” era igual ou maior do que hoje. Por isto, tiveram grande repercussão as declarações “corretivas”, das autoridades navais dos EUA, feitas na Base Naval Mayport, na Flórida, no dia 11 de julho de 2008. Em particular, o discurso inaugural do almirante Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha Americana, quem redefiniu o objetivo principal da nova Frota, destinada a “proteger os mares da região, daqueles que ameaçam o fluxo livre do comércio internacional”, ao mesmo tempo em que advertia, aos desavisados, que “ninguém deve se enganar: porque esta frota estará pronta para qualquer operação, a qualquer hora e em qualquer lugar, num máximo de 24 a 48 horas”.

Com respeito à proteção do comércio marítimo, todos os especialistas sabem que só tem capacidade de proteger o “livre fluxo do comércio mundial”, quem também tem a capacidade de interrompê-lo. Ou seja, quem tem poder para proteger, também tem o poder de excluir concorrentes, se for o caso, quando se acirra a competição entre os estados e os capitais privados, como está acontecendo, neste início do século XXI. Depois de quase uma década de crescimento contínuo e acelerado, a economia mundial enfrenta neste momento, uma disparada dos preços, da especulação e da escassez de algumas commodities fundamentais, como é o caso do petróleo, dos alimentos e dos minerais estratégicos. E neste momento, já está em curso uma nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar, exatamente como aconteceu no final do século XIX, e início do século XX.

Uma competição que já chegou à África, e deverá atingir a América Latina, de forma ainda mais intensa, graças aos seus recursos energéticos, às suas grandes reservas minerais e hídricos, e à sua imensa capacidade de produção alimentar, muito superior à da África. Em particular, no caso do Brasil, que deverá ser - em breve - o maior exportador mundial de alimentos, e um dos grandes exportadores de petróleo, além de ser o principal “proprietário” das águas e da biodiversidade amazônica.
Existindo um agravante, no caso brasileiro, do ponto de vista das autoridades norte-americanas: o fato de ser o país que está liderando os processos de criação da UNASUL e do Conselho Sul-Americano de Defesa, organizações que excluem os EUA e esvaziam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, e a Junta Interamericana de Defesa, que são controlados pelos norte-americanos.

Esta história, entretanto, traz uma lição importante para o futuro da América Latina, e do Brasil em particular. Faz um século, mais ou menos, o almirante e geopolítico Alfred Mahan, se notabilizou pela sua defesa militante, da idéia que os EUA jamais seriam uma “grande potência”, apoiando-se apenas no seu desenvolvimento econômico. Para ter estatuto internacional, precisariam de uma esquadra naval capaz de projetar o poder americano ao redor do mundo, como havia feito a Inglaterra, no século XIX . O almirante Mahan exerceu grande influencia pessoal, sobre o presidente Theodore Roosevelt, logo no início do século XX, e depois se transformou no maior símbolo do poder naval americano, de todos os tempos. Com razão, porque menos de meio século depois da sua morte, os EUA já eram o maior poder naval da história da humanidade, controlando todos os mares e oceanos do mundo, com suas sete Frotas Navais.

Neste momento, os EUA acabam de reativar a sua IV Frota, mas poderão criar muitas outras, se quiserem, sem ferir o Direito Internacional, sem precisar utilizar as águas soberanas de outros estados, e sem precisar dar explicações a ninguém. Obedecendo apenas aos seus cálculos estratégicos e ao seu poder de construir e distribuir navios militares ao redor do mundo, como havia proposto Alfred Mahan.

Segundo o sociólogo alemão Norbert Elias, a dura verdade é que, “se algum estado for mais forte ou se acreditar mais forte que seus vizinhos, sempre haverá a possibilidade de que tente obter vantagens, o que pode ocorrer de diversas formas, hostilizando-os, fazendo exigências ou invadindo-os e anexando-os [..] e só existe uma possibilidade de um estado com maior potencial de violência ser impedido de explorar ao máximo sua porção de poder relativo: ele só pode ser reprimido por outro estado equivalentemente forte ou por um grupo de estados que consigam controlar as rivalidades entre si em grau suficiente para favorecer seu potencial combinado de poder”.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Carta Maior”

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A colonização final - parte 2: corrida até as últimas fronteiras

Vastas quantidades de recursos podem estar escondidos sob o solo do oceano. Mas quem é dono dele? Os países costeiros estão reivindicando pedaços cada vez maiores da água do mar. Mas muitas reivindicações são contestadas

De Rüdiger Falksohn, Uwe Klussmann, Cordula Meyer, Jan Puhl, Stefan Simons e Wieland Wagner

Qualquer membro da convenção da ONU que deseja a revisão de sua zona territorial deve submeter a petição relevante em um prazo de 10 anos após a ratificação do tratado. Para 122 países, este prazo é 13 de maio de 2009.

Um governo também pode submeter seus pedidos antes do prazo, ou pode submeter pedidos provisórios. A comissão de Nova York aceita e processa essas petições duas vezes por ano. Mas o grande debate sobre quem é dono dos oceanos apenas começou, e começou restando menos de um ano para a data em que dezenas de petições chegarão ao escritório da Clcs.

A Austrália deu o pontapé inicial. O governo em Canberra assinou o tratado da ONU em 1982, ao mesmo tempo em que ratificava sua própria agenda marítima. Como seu antecessor, o atual ministro da Energia do país, Martin Ferguson, está convencido de que as profundezas escuras dos oceanos são “uma mina de ouro de proporções inimagináveis”.

Isto encorajou outros países -especialmente a França- a lançar uma ofensiva de levantamento. Walter Roest, diretor do Instituto Francês de Pesquisa para a Exploração do Mar (Ifremer), com sede em Paris, chama de “uma corrida até as fronteiras finais”. Mas a ONU não fornece arbitragem para disputas, com esses assuntos ficando aos cuidados de advogados e diplomatas. Mas seus especialistas confirmam -em parte por meio de análises de amostras de rochas- se um planalto submarino se estende de fato até onde um país gostaria. Se a decisão for afirmativa, qualquer outro país pode impetrar uma objeção em um prazo de três meses, sendo que neste caso o dossiê é devolvido e todas as reivindicações permanecem congeladas.

Corroborando as Reivindicações
Rússia, Dinamarca, Noruega, Canadá e Estados Unidos agora optaram pela rota óbvia, ao se reunirem na conferência na Groenlândia para acertar uma solução mutuamente aceitável para a questão do Ártico. Mas o fato das coisas estarem progredindo pacificamente até agora não é garantia de que será no futuro, quando a exploração dos recursos naturais das zonas de plataforma se tornar lucrativa, um negócio comum. O potencial de ganância -e, portanto, conflito- é enorme.

As zonas costeiras, como são atualmente definidas, cobrem uma área estimada de 60 milhões de quilômetros quadrados em todo o mundo. Isto poderia ser ampliado em 15 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a três quartos da área da América do Norte. Apenas a França, graças a suas possessões ultramarinas, poderia crescer de cerca de 11 milhões para 12 milhões de quilômetros quadrados.

Os franceses já realizaram 14 viagens de pesquisa a bordo de fragatas do Ifremer, do navio de pesquisa Marion Dufresne do Instituto de Pesquisa Polar, e de fragatas da marinha. O geólogo Roland Vially, uma equipe de 15 cientistas e duas dúzias de marinheiros passaram mais de quatro semanas a bordo do Marion Dufresne, examinando o solo do oceano a profundidades entre 200 e 5 mil metros.

Um sistema de sonar forneceu os dados que a equipe usou para desenvolver um mapa tridimensional do solo do oceano. Um visualizador sônico de profundidade permitiu aos cientistas examinar a estrutura da rocha vulcânica no ponto de transição entre o Planalto de Kerguelen e o mar profundo. Os documentos serão submetidos em breve à Clcs.

Roland Vially está satisfeito com sua missão. “Nós queríamos embasar nossas reivindicações submarinas, neste caso, contra os australianos”, disse Vially. “Não houve dificuldades.” Em lugares onde há sobreposição -por exemplo, nas Ilhas Kerguelen e além da costa da Nova Caledônia- os franceses chegaram a um acordo com Canberra ou ao menos se mostraram dispostos a dividir resultados de pesquisa com seus pares australianos.

Interessados grandes e pequenos
A única briga real até o momento ocorreu entre a Austrália e o minúsculo Timor Leste. Petróleo já é produzido entre os dois países e eles conseguiram estabelecer um acordo. Mas países pobres como o Timor Leste não dispõem de poder para serem bem-sucedidos em conflitos nem da capacidade de apoiar suas reivindicações com dados científicos.

E quanto aos Estados Unidos, a única superpotência restante no mundo? O país ainda não ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Desta vez, isto não foi obra nem do governo Bush e nem da indústria americana, mas de senadores ultraconservadores que vêem qualquer novo tratado da ONU como uma forma de submissão e bloquearam a maioria necessária de dois terços no Senado americano.

Em vez disso, os Estados Unidos optaram por conduzir seus próprios levantamentos. Neste ano, o país gastará US$ 5,6 milhões para provar que sua plataforma continental se estende além das 200 milhas náuticas e que a plataforma continental no norte do Alasca é 200 quilômetros mais extensa do que se presumia.

O vizinho Canadá já adotou o tipo de ação retratada no cenário da GBN. Após os russos enviarem bombardeiros de longo alcance sobre o Ártico pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, Ottawa mobilizou dois navios de guerra, um submarino e 600 soldados e policiais para participar na Operação Nanook. O primeiro-ministro Stephen Harper também anunciou que seu país construiria até oito navios quebra-gelo armados para conduzir patrulhas polares a um custo estimado de US$ 3,1 bilhões. O Canadá também está construindo um centro de treinamento militar para clima frio na Baía de Resolução.

A meta de Harper é simplesmente reivindicar grandes trechos do Ártico. “No nosso entender”, ele disse, “o primeiro princípio da soberania no Ártico é: use ou perca”. Esta postura levou o Canadá a se envolver em uma disputa com a Dinamarca em torno de Hans, uma ilha que pode estar conectada ao Pólo Norte por uma cordilheira submarina. O Canadá também está em atrito com a Rússia em torno de várias zonas marítimas, e até mesmo disputa com os Estados Unidos a Passagem do Noroeste, que em breve poderá ser navegável à medida que derrete o gelo ártico.

Problemas fermentando no Oriente?
Apesar do fato dos ministros que se reuniram na semana passada na Groenlândia terem concordado em resolver as futuras disputas em torno do Pólo Norte de forma pacífica e sob os auspícios da ONU, especialistas como Scott Borgerson, um membro do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos e um ex-oficial da Guarda Costeira americana, prevêem que a região “poderia mergulhar em uma corrida maluca e armada por seus recursos”. A situação poderia se tornar particularmente volátil no Pacífico, colocando China, Japão, Filipinas e Vietnã um contra o outro.

Por que, por exemplo, o Japão não mede esforços para proteger o frágil recife de corais de Okinotori, a ilha mais ao sul do Japão? A resposta não é difícil de encontrar. O pequenino pedaço de terra entre Taiwan e Guam consiste de duas minúsculas elevações que poderão desaparecer em breve em conseqüência da mudança climática -e Tóquio está reivindicando uma zona náutica de 400 mil quilômetros quadrados ao redor desta ilhota, uma área muito maior do que a do próprio Japão.

Pequim tem protestado que Okinotori não deveria nem mesmo ser classificada como ilha segundo a lei internacional. Mas o Japão continua cuidando do recife para impedir a erosão de pedaços estrategicamente importantes de terra.

Por mais bizarros que os detalhes desta disputa entre chineses e japoneses possam parecer, o que está verdadeiramente em jogo são os recursos naturais -especialmente o gás natural- assim como o controle militar sobre as águas que cercam Taiwan. Além disso, no Mar do Sul da China, ressurgiu uma disputa em andamento há décadas. Pequim está envolvida em uma antiga disputa com Taiwan, Vietnã, Filipinas e Malásia sobre as ilhas de Spratly e Paracel, que se encontram em outra área onde acredita-se haver reservas de petróleo e gás.

Patriotas chineses agitando na Internet alegam que o domínio dos mares é crítico para o desenvolvimento de um país no século 21. Segundo eles, “certamente haverá uma guerra envolvendo China, Japão, Vietnã e outros”.

“Der Spiegel”

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A colonização final - parte 1: países costeiros buscam riquezas do fundo do oceano

Vastas quantidades de recursos podem estar escondidos sob o solo do oceano. Mas quem é dono dele? Os países costeiros estão reivindicando pedaços cada vez maiores da água do mar. Mas muitas reivindicações são contestadas

De Rüdiger Falksohn, Uwe Klussmann, Cordula Meyer, Jan Puhl, Stefan Simons e Wieland Wagner

É um dia escuro de janeiro de 2010. Barcos de patrulha com cascos resistentes ao gelo e com a bandeira do Canadá na popa estão avançando em meio a mundos desolados de rocha e gelo no norte da Baía de Hudson. Eles estão lá para deixar um grupo de soldados de elite conhecido como Ice Rangers, soldados treinados para combate acima do Círculo Ártico. A rede de televisão “CBC” está transmitindo ao vivo o maior exercício militar na história canadense. Logo depois, 15 milhões de pessoas assistem a uma reportagem intitulada “Este é o Início da Próxima Guerra Fria?” no YouTube.

Os outros países que margeiam o Ártico seguem o exemplo. A marinha dinamarquesa posiciona embarcações além da costa da Groenlândia, fragatas russas abrem caminho em meio ao gelo ao longo das margens em derretimento da calota polar, e os Estados Unidos constroem uma base naval gigante na Baía de Prudhoe, Alasca. Washington oficialmente a chama de nova cabeça de ponte na guerra contra o terror. Mas o objetivo real dos americanos é afirmar agressivamente suas reivindicações dos minérios submarinos, incluindo gás natural e petróleo. As partes estão disputando reivindicações polares no Tribunal Internacional de Direito do Mar, em Hamburgo, cada um apresentando seus próprios relatórios periciais sobre a situação. As companhias de petróleo estão coletando seus fatos e já iniciaram perfurações-teste -com proteção militar. Em vez de assegurarem direitos legais, os países envolvidos estão continuamente reforçando seus contingentes de tropas para proteger as plataformas de perfuração.

Este cenário, segundo a Global Business Network (GBN), uma respeitada firma de consultoria com sede em San Francisco, poderia descrever a disputa pelo solo do oceano, rico em minerais, no futuro próximo. E apesar de ser apenas isso -um cenário- ele parece deprimentemente realista.

O último ato global de colonização
Por muitos anos os países vêm desenvolvendo estratégias para ter acesso aos imensos recursos sob o solo do oceano, na esperança de conceber a melhor tática para assegurar e expandir as reivindicações de propriedade, assim como para impedir outros países de defender à força suas reivindicações.

Na semana passada, ministros da Rússia, Canadá, Noruega, Dinamarca e Estados Unidos se reuniram na Groenlândia para explorar formas de impedir uma “corrida desenfreada pelo Pólo Norte”, como chamou o anfitrião dinamarquês do encontro, Per Stig Møller. “Se alguém considerar os minerais escondidos sob as profundezas do Ártico e o atual preço do petróleo”, disse Møller, “nós veremos que há grandes somas de dinheiro em jogo”.

Ainda é uma rivalidade que não ganhou muitas manchetes, e as embarcações envolvidas atualmente ainda são pouco mais que um punhado de navios de pesquisa medindo até onde a plataforma continental -isto é, o solo do oceano mais raso que margeia as costas- se estende oceano adentro. A plataforma continental se estende em média uma distância de 74 quilômetros das costas em todo mundo. Mas em alguns casos ela se projeta significativamente mais. A Plataforma Siberiana, por exemplo, se estende 1.500 quilômetros além da costa. A borda de uma plataforma continental é sempre seguida por um talude continental.

Medições de profundidade e amostras de rocha correspondentes às rochas encontradas no continente são necessárias para demonstrar a extensão de uma plataforma continental. Qualquer país que reivindique uma zona particularmente grande da plataforma deve submeter as evidências necessárias à ONU. Esta é a única forma de um país poder estabelecer uma reivindicação de expansão de suas águas territoriais.

A agência da ONU que lida com estas reivindicações é a Comissão para os Limites das Plataformas Continentais (Clcs, na sigla em inglês), com sede em Nova York. Apesar dela manter um quadro de especialistas em uma variedade de disciplinas científicas, como hidrólogos, geólogos e geógrafos, a Clcs não possui equipe legal. Isto representa um problema, especialmente quando alguém considera que o último ato global de colonização está em questão. Cento e vinte e três anos após a Conferência de Berlim, na qual a África foi subdividida, a comunidade das nações está se preparando para dividir o que resta -e todos seus tesouros.

Quem é dono do oceano?
Tudo isto gira em torno de uma questão central, prioritária: quem será dono dos oceanos no futuro, ou pelo menos de suas amplas periferias? A resposta depende em grande parte da extensão da plataforma continental que os Estados costeiros podem reivindicar, isto é, quão longe sua porção da plataforma continental se estende sob o mar. E, novamente, os países industrializados -que estabelecem o tom desde a Conferência de Berlim em 1885- contam com as melhores cartas. Eles estão em melhor posição para pagar o custo da pesquisa necessária para apoiar com sucesso suas reivindicações.

Como regra, todos os Estados costeiros têm direito a reivindicar uma zona econômica exclusiva de 200 milhas náuticas (370,4 quilômetros). Dentro desta zona, os países desfrutam de direitos de soberania, o que significa que são donos de tudo o que rasteja, nada ou está depositado lá. Se um país puder provar que sua plataforma continental se projeta ainda mais mar adentro, a Clcs pode conceder uma zona de exploração de 350 milhas náuticas (648 quilômetros) ou ainda mais, em casos especiais.

Esta oportunidade tem levado alguns governos a não medir esforços para expandir suas zonas. Um vice-presidente de Parlamento, por exemplo, que está disposto a ser submerso em águas polares em prol de seu país é uma novidade no mundo da política. Em 2 de agosto de 2007, o político russo Artur Chilingarov, 66 anos, embarcou no batiscafo “Mir-1″, lançado do navio de pesquisa Akademik Fyodorov e desceu ao fundo do Oceano Ártico, a uma profundidade de 4.261 metros. Luzes dos holofotes do batiscafo fizeram uma varredura dos sedimentos amarelados. Não havia nenhuma criatura viva à vista.

O batiscafo começou a ranger sob a pressão de grande quantidade de água, “como se o mar quisesse nos esmagar”, disse posteriormente um membro da expedição. Mas a equipe concluiu corajosamente sua missão. Um braço robótico depositou uma pequena bandeira acrílica russa em uma base feita de titânio à prova de ferrugem no solo do Oceano Ártico.

‘Sempre russo’?
Quando os exploradores voltaram para casa, o então presidente russo, Vladimir Putin, se encontrou com eles em Novo-Ogaryovo, sua residência fora de Moscou, onde anunciou que expedições como aquela são “importantes, não apenas para o bem da ciência, mas também em termos geopolíticos, como visto segundo o ponto de vista dos interesses da Rússia nesta parte do mundo”.

“O Ártico sempre foi russo e permanece russo atualmente”, acrescentou o patriota Chilingarov de barba grisalha. “Se não demarcarmos nossa reivindicação no solo oceânico do norte, outros irão.” Chilingarov, um oceanógrafo e membro do partido de Putin, recebeu prontamente o título de “Herói da Federação Russa” e nomeado membro da Academia Russa de Ciências Naturais.

Seu país está reivindicando um total de 1,2 milhão de quilômetros quadrados de solo oceânico, que supostamente contém bilhões de toneladas de petróleo e gás natural. Moscou baseia sua reivindicação no Artigo 76 da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que define o termo “plataforma continental”, e espera -otimistamente- que lhe seja concedida uma zona de 350 milhas náuticas.

Mas as chances de Moscou não são boas. Seu primeiro pedido em 2002 foi rejeitado porque os russos não teriam fornecido dados suficientes para apoiar sua reivindicação. Mas o país não desistiu. “Nossa presença no Ártico deve ser óbvia para todos”, disse o almirante Andrei Tkatchov. Logo, bombardeiros estratégicos realizavam missões aéreas sobre o Oceano Ártico, como arautos do conflito esboçado no cenário da GBN. E o jornal “Rossiiskaya Gazeta” logo estava invocando imagens de uma “batalha pelo Ártico”.

“Der Spiegel”

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Prejuízos de Wall Street se transformam em lucros da Índia

Heather Timmons

No último andar de um edifício de sete andares nesta poeirenta aspirante a metrópole, a Copal Partner faz pesquisas de ações, títulos de renda fixa e comércio para grandes analistas e bancos. O lugar fica muito longe dos corredores bem refrigerados de Wall Street, e as instalações são apertadas. Os negócios aumentaram 40% só neste ano.

“Este é um dos maiores bancos de investimentos do mundo”, afirma Joel Perlman, presidente da Copal, apontando para uma equipe situada atrás de uma parede de vidro fosco. “E este é um outro”, acrescenta ele, apontando para um corredor estreito.

Os bancos editam e acrescentam material ao trabalho que recebem da Copal, uma empresa fornecedora de pesquisas, e a seguir divulgam a informação com as suas próprias logomarcas, na forma de relatórios de pesquisa, pitch books e recomendações comerciais.

Os prejuízos de Wall Street estão se transformando rapidamente nos lucros da Índia. Após terceirizarem grande parte dos seus trabalhos, transferindo-os para empresas indianas, os bancos estão agora exportando empregos de elite no setor de análise de dados para cidades que custam menos do que Nova York, Londres e Hong Kong, seja para os seus próprios escritórios ou para outras firmas.

Os executivos dos bancos chamam esta mudança de “terceirização do processo de conhecimento”, “offshoring” ou “terceirização de alto valor”. Isso está afetando quase todo mundo, incluindo o Goldman Sachs, o Morgan Stanley, o JPMorgan, o Credit Suisse e o Citibank, para citar alguns.

Os empregos mais afetados até o momento são aqueles que envolvem trabalhos em horários ruins, que são tradicionalmente feitos por recém-graduados das faculdades de administração, que recebem salários anuais na faixa inicial e intermediária dos seis dígitos.

As reduções de custos em Nova York e Londres já foram brutais, e outras serão promovidas nos próximos meses. As firmas financeiras de Nova York esperam neste ano conceder US$ 18 bilhões a menos de benefícios do que em 2007, o que se constitui na maior redução anual já registrada. Ao todo, os bancos dos Estados Unidos demitirão 200 mil funcionários até o final de 2009, segundo anunciou em abril a empresa de consultoria bancária Celent.

No entanto, o trabalho que esses funcionários faziam pode não desaparecer. Em vez disso, esses empregos estão ressurgindo em lugares como a Índia e a Europa Oriental, muitas vezes onde existem mercados locais mais saudáveis.

Além de transferirem algumas funções bancárias e de pesquisas de nível inferior para analistas e bancários de apoio em Nova York e Londres, as firmas estão exportando parte dos seus funcionários de elite para aquelas cidades de mercados em desenvolvimento que crescem rapidamente, para que eles lidem com os clientes desses locais.

“Devido em parte à debilidade do crédito e aos prejuízos de bilhões de dólares com a crise das hipotecas subprime, as pessoas que enviavam para o estrangeiro empregos de alto valor estão fazendo isso com maior intensidade, e outras estão se preparando para seguir este exemplo”, afirma Andrew Power, profissional de serviços financeiros da Deloitte Consulting.

Os bancos de Wall Street começaram a enviar cautelosamente empregos do setor de pesquisa para a Índia alguns anos atrás, contratando um grande número de funcionários e lançando programas piloto com firmas como a Copal, a Office Tiger, a Pipal Research e a Tata Consultancy Services.

Em 2003, o JPMorgan e o Morgan Stanley anunciaram que pretendiam transferir algumas dezenas de empregos de pesquisa para Mumbai, o Lehman Brothers trabalhava em um programa piloto para apresentação de pequisas na Índia, e tanto o Merrill Lynch quanto o Goldman Sachs informaram que não tinham transferido nenhuma pesquisa para aquele país.

Cinco anos mais tarde esta tendência aumentou de forma exponencial. Somente neste ano firmas terceirizadas estão acusando um aumento de 20% a 40% nos seus negócios.

O Morgan Stanley tem cerca de 500 pessoas empregadas na Índia fazendo pesquisas e análises estatísticas. Cerca de cem dos 3.000 funcionários do Goldman Sachs em Bangalore estão trabalhando com pesquisas de investimentos.

O JPMorgan conta com 200 analistas em Mumbai trabalhando para as suas operações de investimentos em todo o mundo, fazendo análises de indústrias e compilando dados e gráficos para materiais de marketing.
Ele conta com 125 analistas adicionais em Mumbai que dão apoio à divisão de pesquisa global do banco.

O Citigroup emprega cerca de 22 mil pessoas na Índia, das quais várias centenas trabalham com pesquisas de investimentos. O Deutsche Bank tem 6.000 funcionários na Índia, segundo o website do banco. O Deutsche Bank deu início a um programa piloto de terceirização em 2003, e não forneceu nenhum dado referente a atualizações.

Segundo Power, da Deloitte, teoricamente até 40% dos empregos relacionados a pesquisas em Wall Street - o que representa dezenas de milhares de empregos - poderão ser enviados para o exterior.

“É mais provável que os empregos no exterior sejam oriundos das divisões de investimentos e comércio das firmas de Wall Street, e não do setor de vendas, que produz relatórios de análise das companhias e indústrias”, afirma Andy Kessler, um ex-analista que escreveu diversos livros sobre Wall Street. “Há uma grande quantidade de trabalho pesado que era feito por MBAs que ganhavam US$ 250 mil por ano. É natural que se terceirize parte desse trabalho. Esses são empregos da faixa intermediária, mas essas não são as pessoas que ficam na linha de frente”.

Após o setor de pesquisas, a próxima onda de transferências poderá incluir trabalhos mais sofisticados, com a criação de produtos derivados, modelos de comércio quantitativo e até mesmo funções de venda no pregão.

Os defensores da mudança afirmam que a adoção cautelosa desta prática por Wall Street pode assinalar o início de uma profunda mudança na forma como os bancos de investimentos estão estruturados, segundo a qual todos, com a exceção dos principais concretizadores de negócios, representantes de clientes e gerentes de bancos, serão permanentemente removidos para locais mais baratos como a Índia, as Filipinas e a Europa Oriental.

Os executivos indianos gostam de fazer piada afirmando que no futuro a única função para os banqueiros mais bem pagos de Nova York e Londres será saudar os clientes e apertar a mão deles quando os negócios forem fechados.

“Wall Street tem que olhar para o mundo de maneira diferente”, afirma Manoj Jain, diretor da Pipal Research, uma firma de 400 pessoas que tem escritórios em Chicago, Nova Déli e Gurgaon. “Transferir empregos de alto valor das cidades caras para outras mais baratas não é mais apenas uma hipótese”.

Segundo ele, neste momento a Pipal tem “mais oferta de trabalho do que pode dar conta”, e está lidando com clientes que não se restringem ao universo bancário dos Estados Unidos, como companhias de gerenciamento de investimentos e firmas financeiras européias. Assim como os analistas da maioria das firmas de pesquisa no exterior, os funcionários da Pipal não fazem recomendações, nem costumam assinar as pesquisas que realizam.

Em vez disso, eles trabalham com um banco ou analista de fundos proeminente para criar a pesquisa desejada por estes.

A remoção permanente de empregos do setor para fora de Nova York ou Londres é uma questão sensível em Wall Street. Muitos bancos de investimentos, incluindo o Morgan Stanley, o Goldman Sachs, o Merrill Lynch e o Citigroup, não permitem que os seus executivos discutam este assunto publicamente.

Os assessores de imprensa da maioria dos bancos pedem que os seus nomes não sejam citados ou fazem exercícios de semântica. Por exemplo, um porta-voz afirmou que a sucursal de apoio - que cresce rapidamente - do seu banco na Índia, não se constitui em uma instalação terceirizada , mas sim em um “centro de excelência”. Um outro argumentou que grandes cortes de despesas nas sedes do seu banco em Nova York e Londres estão de fato promovendo uma “reengenharia”, e que, portanto, o banco não deveria ser incluído em uma matéria deste tipo.

“Parte disso é uma auto-ilusão”, afirma Octavio Marenzi, diretor-executivo do Celent, referindo-se ao impulso para manter silêncio sobre o assunto. “Caso eu admita que um analista de pesquisa possa perder o seu trabalho para a terceirização na Índia, isso significa que o meu trabalho também poderá ser terceirizado”.

Segundo ele, as “firmas mais avançadas” serão capazes de utilizar as diferenças de custo e redutos de talentos na Índia, e no futuro a China, para obter vantagens. Alguns bancos abraçaram abertamente a terceirização. O Credite Suisse conta com 6.500 funcionários trabalhando em locais de baixo custo como Índia, Polônia e Cingapura. Desses, cerca de 500 estão fazendo serviços de alto valor.

“Temos pessoas ajudando na execução de negócios, coleta de dados e construção de modelos financeiros, escrevendo relatórios de pesquisa e fazendo análises de cenário”, afirma Vineet Nagrani, diretor de terceirização do processo de conhecimento no banco.

O banco conta com pequenas equipes trabalhando com pesquisas de renda fixa, crédito e câmbio internacional. “Todas estas áreas vão crescer”, garante Nagrani. Nos próximos 12 meses o Credit Suisse também dobrará o número de banqueiros de investimento e banqueiros privados na Índia que lidam com clientes locais.

Até o momento os clientes do banco parecem contentes. “Enquanto os clientes obtiverem um produto de qualidade e puderem falar com o seu analista de pesquisas favorito, para eles será indiferente se o serviço é realizado em Nova York ou na Índia”, afirma Power.

Segundo N. Chandrasekaran, diretor de operações do Tata Consultancy Services, a terceirização esbarra em dois obstáculos. Primeiro, os bancos precisam ter certeza de que as firmas que farão o trabalho terceirizado são capazes de realizá-lo. Segundo, eles precisam decidir se de fato desejam transferir o trabalho para fora do banco.

Para lidar com a primeira questão, o Tata cria programas piloto com os clientes. Um novo escritório do Tata em Cincinnati, que empregou mil pessoas em três anos, tem como objetivo conferir uma presença norte-americana à companhia.

Além de promoverem o crescimento fora da Índia, esses especialistas em terceirização estão trazendo profissionais de língua chinesa, árabe e até mesmo as pessoas que eles substituíram: pós-graduados das universidades de administração dos Estados Unidos.

Daniel Peng, que terminará o seu curso de pós-graduação pela Universidade Darthmouth no ano que vem, está trabalhando no departamento de equities da Copal Patterns como estagiário de verão. “Eu achei que seria uma boa experiência com mercados emergentes”, afirma ele.

Mas Peng ainda espera conseguir um emprego tradicional em Wall Street quando se formar. “Nova York seria ideal”, diz ele.

“The New York Times”

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