Houston: Materialismo mágico
“Não liguem para os problemas financeiros; não há recessão no Céu”
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
A maior igreja dos EUA fica à beira de uma auto-estrada que corta a cidade de Houston, no Texas, no antigo estádio dos Houston Rockets, o time de basquete local que, até março, permanecia invicto por 22 jogos seguidos, o segundo maior recorde de vitórias da história da NBA, a liga americana de basquete profissional. No que tange aos recordes, o Houston Rockets conta ainda com a estrela do jogador mais alto da NBA, o chinês Yao Ming. Não por acaso Lakewood, que hoje enche de fiéis as arquibancadas antes ocupadas pelos torcedores do Rockets, tem como lema: “Descubra o campeão em você”. O jovem pastor Joel Osteen, 45, e sua mulher, Victoria, que lembra a menina-boneca do filme “Beleza Americana”, cultivam o modelo do casal sorridente e bem-sucedido. Durante um culto recente, numa tarde de sábado, em junho, no ginásio com capacidade para 16 mil pessoas (mas ocupado apenas pela metade), os dois não falavam praticamente de outra coisa além de dinheiro e sucesso. A Lakewood pagou à cidade de Houston mais de US$ 11 milhões pelo direito aos primeiros 30 anos de uso do estádio, cuja reforma foi estimada em US$ 75 milhões. Hoje com 47 mil membros, ela foi fundada em 1959, numa pequena loja da periferia de Houston, por John Osteen, pai de Joel. O crescimento da Lakewood, como o da maioria das megaigrejas americanas, está ancorado numa enorme estrutura de mídia e marketing, com cultos transmitidos para milhões, pela TV e pela internet, além de livros de auto-ajuda nas listas dos mais vendidos -”Become a Better You” (Torne-Se Alguém Melhor), de Joel Osteen, teve tiragem inicial de 3 milhões de exemplares. O jovem pastor não fala de política ou de assuntos controversos que possam comprometê-lo ou macular a imagem de felicidade (demorou um mês para dizer que não responderia às perguntas que, a pedido de sua assessora de imprensa, lhe foram enviadas por e-mail). Prefere transmitir a mensagem difusa e abrangente do pensamento positivo -o que terminou por lhe fazer valer a pecha de “pastor sorriso” ou “evangelista light”, atribuída por outros evangélicos, em geral fundamentalistas despeitados com seu sucesso. Mas, afinal, do que ele está falando quando fala de Jesus? No alto das arquibancadas, está pendurada a bandeira americana. O altar de Lakewood é flanqueado por duas cascatas que correm sobre pedras artificiais. No centro do altar, em vez da cruz, gira um globo terrestre dourado e vazado. É um símbolo do alcance global da sua mensagem. E, de fato, uma das coisas que mais impressionam quem entra no estádio são as dimensões. Vir para a igreja é estar ao lado dos bem-sucedidos, dos que venceram -o que certamente produz um efeito psicológico de auto-sugestão. Lakewood é a igreja do sucesso contagiante. Aqui está o Deus do capitalismo. E o sucesso da igreja é a prova de que Deus a abençoou. “Somos vitoriosos, não somos vítimas”, diz Osteen, repetidamente, para convencer os fiéis. “Vocês ainda não viram seus melhores dias. Não liguem para os problemas financeiros. Não há recessão no Céu. Quem não está sofrendo com a alta dos combustíveis? Se vocês estão no ramo do comércio, não se deixem abalar pela crise. Enquanto Deus estiver com vocês, não haverá problema. Chegou a hora do troco para aqueles que acreditam em Deus. “It’s payback time!’” No telão, o público lê as instruções sobre a contribuição do dízimo: “Cheques em nome da Lakewood Church, por favor”, enquanto funcionários passam pelas arquibancadas com os baldes para o recolhimento. Ele continua: “Se você não foi promovido ou não recebeu uma herança, não fique com inveja. Deus guarda para você grandes coisas no estoque!”. No dia seguinte, no culto celebrado em espanhol pelo pastor Marcos Witt, já não há nenhuma metáfora comercial, nenhuma menção direta a dinheiro. Tudo é mais velado. O materialismo peculiar da véspera foi substituído por medidas indiretas, rezas, cantorias e agradecimentos a Jesus. A mensagem da Lakewood é muito bem direcionada, e os hispânicos, ainda que tenham renunciado à tradição católica, representam um segmento de mercado que talvez não esteja preparado, por conta do seu moralismo pudendo, para relacionar Deus e o dinheiro tão abertamente. A julgar por mim, posso dizer que os estrategistas da Lakewood acertaram em cheio. Como bom latino, não pude evitar o desconforto diante do evidência despudorada do sermão da véspera. Lakewood é a igreja do materialismo mágico, onde o sucesso material, garantido pelos fiéis, é usado para convencê-los de que também podem ser bem-sucedidos. Pagam para projetar no pastor o que desejam para si. Deus é bingo!
“Folha de S. Paulo”
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