Arquivo de 5 de Setembro de 2008

Após 8 anos, George W. Bush ainda ignora a realidade

Maureen Dowd

Os Estados Unidos estão de volta à Guerra Fria e W. (George W. Bush) está de novo de férias. Isso é que é simetria terrível.

Após oito anos, a intuição do presidente continua ingênua. Ele partirá como chegou -ignorando a realidade; fracassando em prever, prevenir e até mesmo se preparar para desastres; interpretando mal os relatórios de inteligência e as pessoas; lidando com as crises de formas que as tornam exponencialmente piores.

Ele passou 469 dias de sua presidência descansando em seu rancho e 450 dias brincando em Camp David. E ainda há tempo para praticar “mountain bike” em meio a outro desastre histórico.

Enquanto as tropas russas continuavam dominando partes da Geórgia na sexta-feira, o presidente Bush pregava aos líderes russos de que “ameaça e intimidação não são formas aceitáveis de conduzir política externa no século 21″ - e então voou para Crawford.

Quem dera W. tivesse tratado o restante de sua presidência tão seriamente quanto seus passeios esportivos.

Suas palavras teriam mais peso se ele, Cheney e Rummy não tivessem iniciado o século 21 com uma exibição pesada de ameaça e intimidação global baseada na invasão do Iraque.

Quando o entrevistei no início de sua candidatura presidencial em 1999, ele fez um palpite óbvio: “Eu acredito que as grandes questões serão a China e a Rússia”.

Mas após o 11 de Setembro, ele deixou Cheney, Rummy e os neoconservadores o seduzirem na obsessão destrutiva pelo Iraque. Enquanto os Estados Unidos permanecem atolados e sangrando até a morte, a China e a Rússia estão engordando. A China comprou tanto dos Estados Unidos que ficaríamos tão mortos quanto os patos laqueados de Pequim (um tradicional prato chinês) se eles retirassem seus investimentos de nosso mercado. A Rússia deixou de ser uma nação pobre para se tornar uma terra repleta de milionários -tudo graças ao nosso vício em petróleo.

O que foi mais irritante em assistir o alegre passeio de W. nos Jogos Olímpicos foi que ressaltou a ascensão da China a superpotência e, graças às políticas econômica e externa negligentes do governo, a queda dos Estados Unidos. É como se a China tivesse se tornado nós e nós tivéssemos nos tornado a Europa. Como a Rússia, a China também tem demonstrado modos autoritários e ignorado as pregações americanas, incluindo as críticas contidas de W. quando voou para Pequim para apreciar o espetáculo da ascensão da China.

Apesar de sua previsão de 1999 de que a Rússia e a China seriam chave para a segurança mundial, W. nunca se deu ao trabalho de estudá-las. Em 2006, no encontro de cúpula do G8 em São Petersburgo, Rússia, um microfone captou alguns comentários vazios de W. para o presidente chinês, Hu Jintao.

“Este é o seu bairro”, disse W. “Não demora muito para você chegar em casa. Quanto tempo leva para você chegar em casa? Oito horas? Eu também. A Rússia é um país grande o seu país é grande.”

O presidente Bush e sua “especialista” em Rússia, Condi, lidaram de forma equivocada com a Rússia desde o início. W. viu uma alma “confiável” em um agente da KGB de olhos de navalha que nunca foi um bom sujeito nem mesmo por uma hora. Agora, o pessoal de Bush, que não pode fazer nada a respeito, está gritando sobre como a agressão russa “não pode ficar sem resposta”, como colocou Cheney.

(O outro especialista em Rússia de W., Bob Gates, foi, como sempre, a única voz de realismo, notando: “Eu não vejo nenhuma perspectiva de uso de força militar pelos Estados Unidos nesta situação”.)

O governo Bush pode ter uma ligação sentimental com a Geórgia por ela ter enviado 2 mil soldados ao Iraque como parte da “Coalizão dos Dispostos”, e porque papai Bush e James Baker tinham laços estreitos com o primeiro presidente da Geórgia, Eduard Shevardnadze.

Mas com a força militar e moral de seu país tão esgotada, os Bushies mal têm como dizer à Rússia para parar de fazer o que eles mesmos fizeram no Iraque: invadir unilateralmente um país contra a vontade do mundo para assustar alguns dos líderes da região dos quais não gostam.

W. e Condi estão repentinamente percebendo quão malicioso Vladimir (Putin) é. Em uma coletiva de imprensa com Condi na sexta-feira, Mikheil Saakashvili, o presidente da Geórgia, reclamou do Ocidente por permitir que a Rússia retomasse suas táticas repressivas.

“Infelizmente, hoje nós estamos olhando o mal diretamente nos olhos”, ele disse. “E hoje este mal é muito forte, muito maligno e muito perigoso para todos, não apenas para nós.”

Como Michael Specter, o jornalista da “New Yorker” que já escreveu extensamente sobre a Rússia, observou: “Houve um breve período de cinco anos em que pudemos nos safar tratando a Rússia como a Jamaica - isto acabou. Agora temos que lidar com ela como adultos que possuem mais armas nucleares do que qualquer um, exceto nós”.

“The New York Times”

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O desencantamento das estrelas do crescimento

Robert Kurz

Nos últimos anos, a Ásia e a Europa de Leste, em parte com taxas de crescimento de dois dígitos, têm sido consideradas “as” regiões-boom da economia mundial. Ainda que as condições sejam diferentes em cada caso, é possível verificar alguns pontos comuns nos países do pretenso milagre. O crescimento turbo é uma ilusão óptica, porque a base de partida era muito baixa; na Ásia, por causa dum subdesenvolvimento estrutural, com uma participação relativamente elevada da economia da terra no produto social, e na Europa de Leste, por causa da brutal desindustrialização após o colapso do socialismo de Estado. Já no passado desabaram sucessivamente altas taxas de crescimento com base de partida muito pequena, por exemplo na América Latina.

Tanto no caso da Ásia como no da Europa de Leste, acontece que as taxas de crescimento rápido já não assentam num desenvolvimento económico nacional coerente, mas numa ligação problemática a cadeias globais de criação de valor dos conglomerados ocidentais. O resultado em ambos os casos foi a abertura de um fosso entre estruturas de exportação com base em baixos salários no espaço da globalização, por um lado, e o progressivo desmantelamento da antiga economia interna com grandes potenciais de pobreza, por outro lado. Agora a euforia de crescimento já ingenuamente projectada durante anos recebe o primeiro balde de água fria.

A conjuntura de deficit global foi aquecida por uma enchente de dólares desencadeada pelo banco central dos EUA. Com isso foi inflacionado o sistema monetário mundial, em parte através da ligação directa ao dólar, como na Ásia, em parte através dos efeitos indirectos sobre a importação de petróleo, ou de componentes de produção. A inflação, que na União Europeia se aproxima da marca dos 4% e já a passou nos EUA, atingiu as estrelas do crescimento na Ásia e na Europa de Leste com uma força ainda maior. Na China, na Índia, na Indonésia e na Tailândia a inflação já subiu a perto dos 10%, no Vietname chegou aos 25%. Os “tigres” do Báltico estão com uma inflação acima dos 10%, a Letónia já com cerca de 18% e a Roménia também já ultrapassou os 8%.

Por todo o lado o crescimento insuportável do custo de vida levou já a revoltas. No Vietname houve mais de 300 movimentos grevistas, na Roménia entraram de greve os empregados da fábrica de automóveis Dacia, tomada pela Renault, e os do fornecedor alemão Leoni; na Letónia os marítimos ameaçam com greve. Em parte foram impostos aumentos salariais de 30%. Com isso cai rapidamente a opção de baixos salários para os investidores ocidentais. No Báltico o crescimento quase estagnou no primeiro trimestre de 2008. Para o Vietname há sinais de um desenvolvimento semelhante. Estes países tornaram-se as procelárias da crise, ainda antes de a conjuntura do deficit global ter chegado ao fim, por força da iminente quebra do consumo nos EUA.

Enquanto o fogo de palha começa a apagar-se na Europa de Leste, também o excedente comercial da Ásia cai “como uma pedra”, segundo informação de banqueiros americanos. Sem contar com a China, no primeiro trimestre de 2008 já houve uma queda de 30 mil milhões de dólares. Nos círculos financeiros paira o fantasma de uma nova crise asiática, porque a inflação ameaça forçar valorizações monetárias e subidas de juros. Até agora os sinais de paralisação nos pequenos países da Ásia e da Europa de Leste fizeram-se notar apenas na periferia, porque o volante do circuito do deficit do Pacífico entre a China e os EUA ainda roda. Mas isso pode mudar dramaticamente já em breve.

“http://obeco.planetaclix.pt/”

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Abandono histórico

O desprezo das autoridades para com os símbolos do centro da Paulicéia deixa marcas indeléveis em obras de escultores consagrados, apagando da história da cidade de 454 anos retratos de acontecimentos marcantes

Daniel Marques

Praça das Esculturas
A Praça da Sé, considerada o marco zero da cidade de São Paulo, ficou cercada por tapumes durante um ano, como parte dos projetos de revitalização do centro histórico, porém o descaso público em conjunto com a deterioração natural permanece agindo sobre as valiosas esculturas do local. A concepção original da Subprefeitura da Sé de recuperar o grande espelho d’água, que circunda entre obras modernas de reconhecidos artistas plásticos, como o Condor, de Bruno Giorgi, e o Totem da Sé, de Domenico Colabrone, foi concluída, mas da fonte ainda jorra uma estranha água esverdeada. O prédio do Palácio da Justiça com sua fachada apontada para os jardins da praça também sofre um processo minucioso de restauração que deve ser finalizado em março de 2009. Destoando do cenário limpo e bem cuidado, ergue-se uma escultura sem título do mineiro Amílcar de Castro, instalada em 1979, com fundo para a renovada Catedral da Sé. A iniciativa de recuperar a praça não foi estendida a essa peça arquitetônica: a falta de cuidados deixou a chapa de ferro com coloração típica de ferrugem, não evitou as pichações de giz e tinta e permitiu a colagem de um cartaz contra a fome, bastante comum no centro histórico da capital paulista. À vista, nenhuma viatura da Guarda Municipal, enquanto quatro carros faziam a ronda da Prefeitura de São Paulo no mesmo momento.

Largo do Arouche
O monumento que adorna uma pequena praça do Largo do Arouche ostenta o irônico título de Progresso e representa mais uma faceta da desigualdade social da capital paulista. A um quarteirão de distância da obra do escultor grego Nicolas Vlavianos, inaugurada em 1993, encontram-se tradicionais pontos turísticos como o restaurante O gato que ri e o mercado de flores do Arouche, que passou a ocupar seu lugar definitivo em 1953. No local da escultura, que não possui nenhuma placa com especificações de data e motivos de sua instalação, moradores de rua utilizam a base da peça de ferro pintada em vermelho para dormir, contrastando com um dos pontos mais elegantes do centro. Taxistas que trabalham em um ponto próximo da praça afirmam que o monumento não recebe atenção dos órgãos públicos responsáveis pela sua manutenção e que a péssima iluminação serve como convite aos sem-teto. Com o abandono completo, a tortuosa obra de Vlavianos, figura constante na Bienal de Artes de São Paulo desde o início da década de 1960, permanece no esquecimento.

Praça Júlio Mesquita - Avenida São João
O histórico da Fonte monumental, implantada pela Prefeitura em 1927 para celebrar a construção da Praça Júlio Mesquita, junto à Avenida São João, sempre foi tumultuado por constantes degradações e tentativas frustradas de manter o projeto original da escultora Nicolina Vaz de Assis. Desde a segunda metade da década de 1980 a fonte foi rodeada por resistentes grades de ferro após denúncias de pichações. A iniciativa provou-se desastrosa desde o início, mas somente em 2004 a Subprefeitura da Sé decidiu livrar o monumento de sua jaula. Os efeitos de anos sem limpeza e conservação eram evidentes: rebuscadas lagostas de bronze, detalhes que rodeavam a escultura, haviam sido retiradas e grande parte da base de mármore estava danificada. Atualmente, a Fonte monumental figura no programa municipal Adote uma obra de arte, que pretende atrair investimentos privados para ajudar na recuperação do patrimônio histórico da cidade, porém ainda é nítido o descaso: o forte cheiro de urina comprova a utilização da fonte como banheiro público e inscrições feitas com giz de cera são detalhes facilmente vistos por toda a peça.

Ladeira da memória
Entre todas as obras retratadas nesta reportagem, o Obelisco da Memória é a mais antiga, e inclusive ostenta o rótulo de monumento mais remoto da cidade de São Paulo. Sua inauguração, idealizada pelos escultores Daniel Pedro Mulher e Vicente Gomes Pereira, data de 1814 e diversas restaurações já foram realizadas, principalmente nos murais de azulejos portugueses que circulam a peça de pedra e nos jardins adjacentes. A FAMBRA (Federação de Amigos do Museu do Brasil) foi responsável pelos últimos reparos, concluídos em 13 de dezembro de 2005, a partir dos quais o chafariz central voltou a funcionar. Hoje o grande mural de azulejos pintados por José Wasth Rodrigues permanece sujo, com pinturas gastas, e disputa a atenção dos olhares com pichações nas cores preto e laranja.

Praça Doutor João Mendes
A estátua O engraxate e o jornaleiro, do italiano Ricardo Cipicchia, é um exemplo triste. O engraxate Amadeu Gonçalves da Cruz, que trabalha na Praça Doutor João Mendes há 12 anos, relembra como os dois rapazes esculpidos em bronze quase foram parar em um ferro velho: “Acho que há quase quatro anos um grande temporal derrubou algumas árvores aqui na praça e uma delas atingiu a estátua. Ela caiu e quase foi levada pela enxurrada”, conta o senhor de 68 anos. Reerguida seis meses depois do acidente, hoje a escultura carrega uma marca de tinta com símbolos indecifráveis na parte traseira de seu pedestal.

A grande peça de bronze Mãe preta, criação de Júlio Guerra e instalada no Largo do Paissandu em 1955, serve de ponto de encontro para adolescentes de rua fumarem maconha. O Imperador Cícero, esculpido por Humberto Galimberti Poletti em 1960 e colocado no Largo do Arouche, perdeu sua placa de identificação e agora carrega um cartaz do Movimento da Negação da Negação com os dizeres “Você Paga”. Depois de ter arrancada sua dedicatória, o monumento ao ex-governador de São Paulo Abreu Sodré, na Praça da Liberdade, permanece apenas com uma cabeça desfigurada. Enquanto isso, o busto de Álvares de Azevedo, poeta que amou a vida e morreu aos 20 anos de idade, é alvo de pedestres que passam pelo Largo São Francisco e utilizam a homenagem do centro acadêmico da Faculdade de Direito da USP como banheiro.

“CULT”

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Mendes, Veja e a degradação institucional

Há quem defenda que juízes devem falar exclusivamente por meio dos autos. Ao conferir à linha editorial de Veja um caráter de “realismo jurídico” não estaria o ministro Gilmar Mendes firmando uma perigosa jurisprudência? E isso não seria “descer ainda mais na escala da degradação institucional”?

Gilson Caroni Filho

Qual terá sido o objetivo da reportagem de capa da revista Veja em sua edição de 03/09/2008? “Denunciar” que a Abin teria feito grampos ilegais nos telefones do ministro Gilmar Mendes e outras autoridades e, com isso, alertar à sociedade sobre a existência de um Estado Policial que ameaça as instituições democráticas? Ou, como alertou conhecido blog “paralisar as investigações da agência sobre conspirações deflagradas contra o Estado de Direito, inclusive aquelas perpetradas nas páginas da Veja, sobretudo durante a campanha eleitoral de 2006, mas também com evidências no caso do “dossiê anti-FHC” para derrubar a ministra Dilma?”.

Há linhas que valem mais do que mil editoriais. São as que revelam os objetivos de um texto e o descompromisso com a informação divulgada. Não comportam normas prescritas em códigos de ética, seguem tão-somente a lógica da promoção de eventos. Algo do tipo “domingo é dia de botar fogo no circo, criar uma crise artificial e colher os frutos ao longo da semana”. Lógico, para tal empreitada contam com o apoio logístico de outros meios de comunicação, além da acolhida eufórica de alguns jornalistas-blogueiros.É o caso da matéria assinada pelos jornalistas Policarpo Junior e Expedito Júnior: ”A Abin gravou o ministro”.

Além de editorializarem as supostas denúncias, fazem afirmações sem um pingo de comprovação, baseadas em “fontes” não identificadas, e, e inventam fatos deslavadamente, como nesse trecho:” Desconfiado (o ministro Gilmar Mendes), solicitou à segurança do tribunal que providenciasse uma varredura. Os técnicos constataram a presença de sinais característicos de escutas ambientais, provavelmente de aparelhos instalados do lado de fora da corte.” Mentira. A varredura feita pela segurança do STF não encontrou qualquer vestígio de escuta clandestina.

A degravação de uma conversa entre o presidente do Supremo e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) seria a prova da seriedade do “jornalismo investigativo” praticado por Veja. O fato de os dois confirmarem o diálogo significa a existência de grampo? Se confirmar, o que leva a crer que tenha sido feito pela Abin e não por alguém empenhado em atingir Paulo Lacerda, o diretor da Agência?

Pois bem, o relato impreciso da revista é o pretexto para Gilmar Mendes afirmar que “não há mais como descer na escala da degradação institucional. Gravar clandestinamente os telefonemas do presidente do Supremo Tribunal Federal é coisa de regime totalitário. É deplorável. É ofensivo. É indigno.”

Se levarmos em conta que um juiz, principalmente quando preside a mais alta Corte do país, deve buscar o estabelecimento de conduta ética que lhe permita entender os limites de sua atuação profissional, as palavras de Mendes soam como incompatíveis com a natureza do cargo que exerce.

O que é descer na escala da degradação institucional? Em artigo publicado em 08 de maio de 2002, o jurista Dalmo Dallari foi muito assertivo ao tratar da indicação de Mendes ao STF, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso:

“Se vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional”.

“A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha inadequada”.

“Indignado com essas derrotas judiciais, o dr.Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio judiciário”.

Os trechos transcritos não são exemplos explícitos de degradação institucional?

Tão logo ascendeu (em processo formal, sem candidato, como é praxe na Corte) à presidência do STF, Gilmar Mendes tomou a iniciativa inédita de convocar a imprensa para, sem ter sido solicitado, deitar falação sobre o quadro político.

Logo após, deixou-se “perfilar” pela revista Serafina, da Folha de São Paulo, chegando ao ponto de ceder fotos de “álbum de família” e se deixar fotografar na residência. Isso não é incompatível com a liturgia do cargo? Não degrada a instituição que preside?

Durante o julgamento da aceitação da denúncia sobre o chamado “mensalão”, um fotógrafo do Globo, premeditadamente, (pois teve que se posicionar por trás da bancada dos meritíssimos) violou, e o jornal publicou, a correspondência privada entre dois ministros (Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia), capturando imagens das telas dos laptops dos dois em plena sessão. Na ocasião, nem Gilmar Mendes nem a oposição fizeram qualquer restrição contra o flagrante desrespeito à “majestade” da corte. Isso não é degradação institucional?

O que o Supremo tem feito ao legislar indevidamente sobre fidelidade partidária, uso de algemas, número de vereadores, verticalização das coligações e nepotismo deve ser encarado de que forma? Quando se superpõe aos demais poderes como se fosse legislador ou chefe de Estado, o judiciário não colabora substantivamente para a degradação institucional?

Seria interessante que Mendes esclarecesse por que nunca se falou que a Abin tivesse grampeado qualquer outro ministro do STF? Isso só entrou em voga - partindo dele próprio- “coincidentemente”, depois da concessão de dois pedidos de hábeas corpus (o segundo, ignorando solenemente os motivos da prisão) em favor de Daniel Dantas. Suprimir duas instâncias do Judiciário para soltar o banqueiro, dando-lhe foro privilegiado, não é degradação institucional?

Não seria o caso também de se declarar impedido de participar do julgamento de Raposa do Sol, já que sua posição contrária à demarcação contínua é conhecida desde a época em que era advogado-geral da União, no governo FHC? Não lhe faltaria imparcialidade sem a qual é inevitável a degradação institucional?

Há quem defenda que juízes devem falar exclusivamente por meio dos autos. Ao conferir à linha editorial de Veja um caráter de “realismo jurídico” não estaria o ministro firmando uma perigosa jurisprudência? E isso, não seria descer ainda mais na escala da degradação institucional? Uma sociedade controlada por monopólios de mídia e um Judiciário que substitui os demais poderes não está à beira de um golpe de Estado. Já o vive em plenitude. É preciso estar atento à banda de música que toca a mesma marchinha desde os anos 1950. Com seus acordes a democracia vive à beira do precipício.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Carta Maior”

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Racismo penetra nas escolas da Espanha

Dois terços dos alunos se recusam a estudar junto com marroquinos e ciganos

Antía Castedo e Anaís Berdié

Um balde de água fria em plena discussão sobre a integração nos colégios. Os estudantes espanhóis são pouco tolerantes com os estrangeiros, principalmente se tiverem de ficar ao lado deles na escola. A maior discriminação é dirigida aos marroquinos e aos ciganos. Quase dois terços dos estudantes de segundo grau espanhóis não gostariam de compartilhar tarefas com estrangeiros, segundo um estudo do Observatório Estatal de Convivência Escolar, órgão do Ministério da Educação.

A pesquisa foi realizada entre 23.100 estudantes do segundo grau e mais de 6.000 professores em 300 colégios públicos e privados de todas as comunidades autônomas, exceto Catalunha. Procurou-se determinar a qualidade da convivência nas escolas e os obstáculos que se apresentam para alcançá-la.

A disposição dos jovens para dividir tarefas com alunos estrangeiros melhora um pouco em relação aos latino-americanos ou os procedentes da África negra, mas continua negativa. Quase a metade dos adolescentes espanhóis (46%) está nada ou pouco disposta a trabalhar e estudar com um latino-americano. E mais da metade recusaria um judeu como companheiro de carteira. Os mais aceitos são os europeus ocidentais e os americanos.

Os coletivos de estudantes ciganos, judeus e marroquinos estão “sob um risco muito sério de sofrer intolerância”, na opinião de María José Díaz-Aguado, diretora do estudo e catedrática de psicologia da educação na Universidade Complutense de Madri. É um fato grave porque, segundo a especialista, “não houve uma melhora nos últimos anos” em relação a essas minorias.

Esses resultados “só fazem confirmar a reprodução de discursos racistas dos adultos em relação a grupos muito estigmatizados pela sociedade”. É a opinião de Silvia Carrasco e Maribel Ponferrada, do grupo de pesquisa Emigra da Universidade Autônoma de Barcelona. Segundo os dados de um estudo sobre convivência e conflito realizado nos colégios secundários da Catalunha, os alunos estrangeiros “sofrem um maior número de situações de intimidação e de agressões verbais e físicas” que os demais.

A essência dessa rejeição, na opinião de Mariano Fernández Enguita, catedrático de sociologia na Universidade de Salamanca, são os preconceitos e o choque entre diferentes modos de vida. “A escola é um pequeno microcosmo que corresponde à sociedade ao redor”, ele afirma, e conclui que exatamente por isso é o melhor lugar para se aprender a conviver. Os dados expostos nessa sondagem da opinião dos alunos não é o que preocupa esse especialista em educação intercultural, mas sim “se os colégios têm ou não projetos” para ajudar a melhorar esses problemas.

A disposição negativa para trabalhar com determinados estrangeiros nas classes não se traduz, porém, em atitudes violentas dos adolescentes em relação às minorias. Mais de 90% dos estudantes secundários não apóiam os grupos que promovem a xenofobia ou a violência contra marroquinos, ciganos e judeus, e continua havendo 8% que declaram abertamente sua simpatia por eles. O racismo explícito pode levar esses estudantes a ser captados pelos grupos xenófobos e violentos. Algo que é preocupante, porque “o racismo e a rejeição à democracia andam juntos”, salienta Díaz-Aguado.

Na opinião do catedrático Fernández Enguita, estamos vivendo um momento de “ressaca” diante da imigração, “alimentado pelo debate político e a crise econômica”, mas que não considera especialmente alarmante. O que o preocupa é que os colégios costumam ser “disciplinados no formal”, isto é, politicamente corretos na hora de falar de tolerância e respeito, mas o simples discurso “não garante absolutamente que a escola preste essa ajuda”.

A solução, segundo o especialista, começaria com a elaboração de projetos concretos que ensinem os jovens a enfrentar os problemas de convivência. Enquanto quase 90% dos professores que responderam à pesquisa do Ministério da Educação pensam que em seus colégios se trabalha para promover uma boa recepção aos alunos estrangeiros, só 64% dos alunos concordam.

A mesma maioria (70%) de professores acredita que na escola se fala de racismo e dos danos que ele provoca, como de estudantes que não percebem absolutamente isso. E um em cada quatro alunos pensa que a tolerância e o respeito às culturas não são incluídos em sua formação antiviolência.

Assediados por ser gordos
O assédio escolar afeta pela primeira vez de forma visível os alunos com alguns quilos a mais. Quase 30% dos agressores justificam sua atitude diante do companheiro porque “está gordo”, e as vítimas têm a mesma percepção. Isto talvez se deva, segundo a diretora da pesquisa do Observatório Estatal da Convivência, a uma mudança de valores que dá cada vez mais valor à imagem física.

A pesquisa do Ministério da Educação também salienta que “80% dos alunos rejeitam as condutas violentas”. No entanto, 3,8% declaram ter sofrido assédio com freqüência ou muitas vezes nos últimos dois meses, e 2,4% reconhecem que foi o agressor.

Outras características que tornam as vítimas mais vulneráveis, segundo os assediadores, são que “estão isoladas” ou que “não se defendem”. Os alunos estrangeiros também não se saíram bem nessa ocasião. Quase 18% dos assediadores admitem que os alunos ciganos ou procedentes de outro país podem ser vítimas mais facilmente. A mesma porcentagem acredita que a cor da pele é uma característica relevante.

Díaz-Aguado considera que os resultados, que estão na mesma linha de estudos anteriores como o realizado pelo Defensor do Povo sobre violência escolar em 2006, indicam que “houve um avanço importante na prevenção e no tratamento do assédio escolar”. Os alunos mostram-se muito mais dispostos que antes a recorrer aos professores.

O trabalho também questiona o tema da violência de gênero. Os especialistas dizem que nas escolas se avançou muito em termos de igualdade, algo que é corroborado pela diretora desse estudo. Diminuiu o número de alunos que justificam a violência contra as mulheres. No entanto, 4% ainda acreditam que é razoável que um homem agrida sua mulher ou sua namorada quando ela decide deixá-lo. Isso implica um claro risco de que se acabe reproduzindo a violência de gênero, segundo Díaz-Aguado. E 7% dos pesquisados consideram que “o homem que parece agressivo é mais atraente”.

“El País”

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Trânsito: por que dirigimos desta maneira?

Fritz Lanham

Dirigir. Nós passamos mais horas dirigindo do que fazendo sexo ou jantando com as nossas famílias, de forma que precisamos de fato pensar mais a respeito dessa atividade, afirma Tom Vanderbilt.

A contribuição dele para a questão é o livro de 402 páginas “Trafic: Why We Drive the Way We Do” (”Trânsito: Por que Dirigimos Desta Maneira”), uma incursão no mundo das pesquisas sobre o tráfego de veículos.

Vanderbilt descobriu todos os tipos de coisas interessantes. Por exemplo, quem sabia que as fatalidades no trânsito foram a principal causa de morte em Londres na década de 1720? E que realmente uma pessoa demora mais a sair de uma vaga em um estacionamento se houver uma outra aguardando? E que as mulheres são as que mais contribuem para o congestionamento de trânsito?

Ok, esta última informação exigirá algum esclarecimento.

Eu não estou dizendo que o livro é simplesmente uma coletânea de fatos absurdos. Vanderbilt, que já escreveu sobre design e tecnologia para a “Wired”, a “Slate” e o “New York Times”, mergulhou no universo da engenharia de trânsito. Ele leu pesquisas, entrevistou especialistas e sentou-se no banco do motorista em locais como o simulador avançado de direção da Universidade de Iowa. Noventa páginas de referências são um testemunho do seu zelo. A verdade é que a maioria dos leitores achará mais fácil ler “Trânsito”, um livro repleto de dados, em doses de 15 páginas.

“Todos acham que são especialistas em trânsito, incluindo eu antes de escrever este livro”, disse o autor em uma recente entrevista na exposição de comércio de livros BookExpo. Vanderbilt, de 39 anos, cresceu no meio-oeste dos Estados Unidos, onde dirigiu bastante. Ele mora atualmente no Brooklyn, onde não dirige tanto, mas, quando o faz, usa um Volvo V40 de 2001.

A inspiração para “Trânsito” surgiu quando ele viu-se em uma situação pela qual todo nativo de Houston já passou. Ele estava na pista da esquerda em uma auto-estrada. À frente havia uma placa com a inscrição:
“Pista termina e funde-se a da direita”. Construção à frente.

Um “educado nativo do meio-oeste por nascimento”, Vanderbilt sempre foi uma dessas pessoas que passa para a outra pista assim que enxerga a placa indicando a fusão de pistas, ao contrário de muitas pessoa que “mudam com atraso”, ou seja, dirigem até o local em que a pista termina, e a seguir abrem caminho à força para a outra pista. Estas pessoas são conhecidas também por um outro nome que não podemos reproduzir aqui, já que este é um jornal lido por famílias.

Mas naquele dia Vanderbilt agiu de forma diferente. Ele estava com pressa, sentindo-se frustrado. Ignorando os comentários desaprovadores da mulher, ele seguiu em frente na pista da esquerda e cometeu o seu pecado de trânsito.

“Me senti tão mal com o que fiz que passei a perguntar aos meus amigos se eles passavam para a pista da direita atrasados ou adiantados”, conta Vanderbilt. Isso o conduziu a uma pesquisa de âmbito mundial sobre trânsito. “Quando mais examinava a questão, mais achava os fatos intrigantes”.

Como, por exemplo, o fato de que os motoristas que demoram a passar para a pista da direita estão certos. Vanderbilt descobriu que os veículos chegam ao ponto de estrangulamento com uma velocidade 15% maior, caso os carros preencham as duas pistas e, no final, façam uma “fusão zíper” - um carro da pista A, a seguir um carro da pista B, etc…

Para Vanderbilt, as pessoas deixam de perceber e admirar a singularidade e a complexidade da experiência do tráfego de veículos. “A estrada, mais do que um simples sistema de regulação e designs, é um lugar no qual milhões de nós, contando com apenas parâmetros inexatos sobre como nos comportar, somos jogados juntos diariamente, em uma espécie de prato petri maciço no qual todos os tipos de dinâmicas desconhecidas estão em andamento”, escreve ele. “Como saber de fato como tudo isso funciona? Por que agimos desta forma na estrada, e o que isto pode revelar a nosso respeito”.

A sociologia, a psicologia, a biologia e a tecnologia fazem parte das respostas. Pensem, por exemplo, no ato de buzinar. Os pesquisadores pararam um “carro bloqueador” na luz vermelha do semáforo. Quando o sinal abriu, o carro não se moveu. Que fatores influenciam o tempo decorrido até que os motoristas que estão atrás buzinem?

Um desses fatores é o status social. Os motoristas demoraram mais a buzinar quando o carro bloqueador era um Mercedes do que quando era um Corolla. E os motoristas de Mercedes demoraram menos tempo para buzinar do que os indivíduos que dirigiam Corollas velhos.

O sexo é um outro fator. Os homens, como era de se esperar, demoraram menos que as mulheres para buzinar. Mas tanto homens quanto mulheres demoravam menos para buzinar quando o carro da frente era dirigido por uma mulher do que quando o motorista era um homem.

Vanderbilt passa muito tempo demonstrando como o ato de dirigir abre uma janela para a psicologia humana. Vejamos o comportamento agressivo na direção. Os homens tipicamente dirigem de forma mais agressiva que as mulheres - nenhuma surpresa até aí. Mas o interessante é que os homens que dirigem sozinhos exibem um comportamento pior do que aqueles que estão acompanhados da mulher. Talvez eles sintam-se protetores. Ou talvez desejem escapar de críticas.

O anonimato da experiência automobilística encoraja a agressão, escreve Vanderbilt. Ele compara isso a estar em uma sala de discussão da Internet usando um pseudônimo. “Livres da identidade, e rodeados por outros indivíduos que só são conhecidos pelos seus “apelidos de tela”
(no trânsito, as placas dos veículos), a sala de bate-papo torna-se para eles um lugar no qual os comedimentos normais da vida são deixados para trás”. No ciberespaço é possível atacar alguém e sair da sala de bate-papo. Na rodovia você pode fazer um sinal obsceno com o dedo e ir embora, acelerando.

A falta de contato visual talvez seja “a força humana mais poderosa que perdemos no trânsito”, escreve Vanderbilt. “Este é sem dúvida o motivo pelo qual os humanos, normalmente uma espécie bastante cooperativa quando comparada aos nossos mais próximos parentes primatas, podem tornar-se não cooperativos na estrada”.

Quanto ao motivo pelo qual as mulheres são as que mais contribuem para os engarrafamentos, a culpa é das mudanças na sociedade norte-americana. “Em 1950, as mulheres representavam 28% da força de trabalho”, escreve Vanderbilt. “Atualmente, esta proporção é de 48%. Como é que as estradas poderiam não estar mais cheias?”

Além do mais, nós passamos mais tempo levando as crianças de carro à escola, aos treinos de futebol e ao McDonald’s do que fazíamos no passado, e são geralmente as mulheres que fazem tais percursos.
“Acredita-se que os pais que estão indo e voltando da escola dos filhos são responsáveis por um aumento do trânsito de cerca de 30%”, segundo Vanderbilt.

“Trânsito” não é essencialmente um livro a respeito de soluções para os nossos sofrimentos ao volante, mas Vanderbilt fala sobre coisas que funcionam. Ele é um grande defensor dos chamados “roundabouts” - versões mais bem projetadas daquilo que nos Estados Unidos nós chamados de círculos de trânsito. Eles substituem os semáforos e as placas com a inscrição “Pare”, e quem quer que tenha dirigido na Europa e se acostumado a esse sistema sabe que Vanderbilt tem razão.

Segundo ele, os sinais de rodovia conhecidos como “ramp meters”
funcionam. Uma experiência simples com arroz despejado em um funil ilustra o princípio físico disso. Ele também é um defensor cauteloso da taxa de congestionamento - a cobrança de uma taxa dos motoristas que dirigem nos horários de tráfego intenso.

Finalmente, ele admite com relutância o retorno do limite de velocidade de 88 km/h (55 milhas por hora). Isso reduziria o consumo de petróleo e melhoraria o fluxo do trânsito. “Eu acho que se houvesse um medicamento milagroso que a Administração de Alimentos e Remédios aprovasse e que pudesse salvar 7.000 vidas por ano as pessoas desejariam experimentá-lo”, diz ele.

Segundo Vanderbilt, 88 km/h funcionaria no Brooklyn, mas tal velocidade não seria aceita aqui em Houston.

“The NYT News Service”

Comentários

Os estudos gramscianos depois de 1989

Giuseppe Vacca

Gostaria de delimitar minha intervenção: só vou me referir ao modo pelo qual a Fundação Instituto Gramsci abordou o tema dos estudos gramscianos nos últimos vinte anos; em seguida, vou me deter nas investigações e interpretações que se desenvolveram na Itália no mesmo período.
Desde 1989 a Fundação se dedicou a completar o próprio patrimônio arquivístico, a favorecer ou promover a publicação de novas fontes e de novas pesquisas sobre Gramsci, a encaminhar uma nova edição crítica integral dos seus escritos. Além disso, esforçamo-nos por dialogar com os estudiosos estrangeiros do seu pensamento, que, nos anos anos oitenta do século passado, já eram em número relevante e constituíam uma realidade a ser seguida com atenção e a ser favorecida, quer com ações editoriais, quer com iniciativas culturais focadas.

Recordo rapidamente os momentos salientes destas atividades. Graças ao novo clima criado em Moscou pela perestroika, retomamos as missões de pesquisa nos arquivos do Komintern, recuperando fontes essenciais para o estudo da vida e do pensamento de Antonio Gramsci [1]. Entre as recuperações de documentos de 1989, recordo aqueles que, preenchendo evidentes lacunas presentes nas aquisições anteriores, permitiram a Chiara Daniele e a mim reconstruir com bases filológicas mais satisfatórias a origem e o significado da correspondência entre Gramsci e Togliatti em outubro de 1926 [2].

Além disso, naquele ano foi possível uma primeira recuperação, muito relevante, dos documentos do Komintern relativos à “herança literária” de Gramsci. Publicados em 1991 [3], aqueles documentos nos permitiram começar as investigações sobre a primeira edição das Cartas e dos Cadernos. Este trabalho, muito útil para a preparação da nova edição crítica dos escritos de Gramsci, prosseguiu nos anos seguintes, ainda que prejudicado pelas restrições novamente impostas ao acesso aos arquivos ex-soviéticos, depois do breve período liberal de 1992-1993. Todavia, consideramos ter alcançado resultados consistentes, recolhidos em duas publicações significativas: “‘L’affare Gramsci-Togliatti’ a Mosca (1938-1941)”, de Silvio Pons [4], e Togliatti editore di Gramsci, que se deve a Chiara Daniela e a mim [5].

Como se vê, quisemos desde o início dedicar muitas energias à reconstrução da biografia política de Gramsci nos anos de detenção, aprofundando as pistas de investigação abertas por Paolo Spriano com seu ensaio pioneiro de 1977, Gramsci in carcere e il partito [6]. Ao fazê-lo, seguimos um cânone metodológico sugerido por Togliatti desde 1958. Com efeito, nas “anotações” preparatórias para o relatório no primeiro encontro de estudos gramscianos, Togliatti escreveu: “Gramsci foi um teórico da política, mas sobretudo foi um político prático, isto é, um combatente […]. Na política [pois] deve-se buscar a unidade da [sua] vida: o ponto de partida e o ponto de chegada”. Em janeiro de 1958, fazendo estas afirmações, Togliatti não só reiterava um ponto de vista respeitável sobre a figura de Gramsci, mas também sugeria um critério para o estudo dos seus textos e a reconstrução da sua biografia intelectual. O único válido, a seu ver, uma vez que pouco depois acrescentava que o “fio condutor” da obra de Gramsci “não se pode encontrar e não se encontra a não ser na atividade real, que parte dos tempos da juventude e progressivamente se desenvolve até o advento do fascismo no poder, até a detenção e mesmo depois”. Consciente da necessidade de se ater a este método, porque até 1926 o pensamento de Gramsci estava disseminado em intervenções jornalísticas e políticas de contextualização difícil e, quanto às Cartas do cárcere e aos parágrafos dos Cadernos, a reconstrução dos contextos requeria uma investigação ainda mais complexa, Togliatti concluía:

Toda a obra escrita por Gramsci deve ser tratada partindo dessa última consideração, mas é tarefa que só pode ser assumida por quem se aprofunde tanto no conhecimento dos momentos concretos da sua ação a ponto de reconhecer o modo como a estes momentos concretos se conecte toda formulação e afirmação geral de doutrina, e seja tão imparcial a ponto de saber resistir à tentação de fazer prevalecer falsas generalizações doutrinárias [sobre] o nexo evidente que une o pensamento aos fatos e movimentos reais [7].

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Para levar a cabo uma tal iniciativa faltaram por muito tempo as condições, mas, a partir de 1989, a situação começou a mudar sensivelmente. Junto com os novos documentos conseguidos, que mencionei, Aldo Natoli publicou uma investigação sobre Tatiana Schucht, Antigone e il prigioniero [8], que inaugurava um novo período de pesquisas e de novas publicações. Levado pela vontade de esclarecer as muitas “obscuridades” presentes nas Cartas do cárcere, não atribuíveis à necessidade de contornar a censura fascista, na primavera de 1988 Natoli começara um exame sistemático das cartas de Tania (muitas das quais consistiam em transcrições de cartas de Sraffa e de Giulia endereçadas ao prisioneiro) e um estudo acurado da correspondência de ambos. Ele encontrava, assim, confirmação para a convicção que havia amadurecido há tempos, isto é, que “uma leitura das Cartas do cárcere desligada das vicissitudes reais do mundo moral e político do qual Gramsci fora arrancado, só [podia] servir para fornecer belos excertos para antologias”, quando a correspondência de Tania tanto com Gramsci quanto com Sraffa se revelava uma fonte essencial para pesquisar a fundo o percurso humano e político do prisioneiro” [9].

No ano seguinte — 1991 —, Valentino Gerratana publicou as cartas que Piero Sraffa endereçara a Tania para que as transcrevesse para Gramsci [10], enquanto Giuliano Gramsci publicava as cartas de Tania à família Schucht e aos familiares de Gramsci residentes em Ghilarza [11]. Estas publicações, no seu todo, “começaram a fazer com que a figura de Tatiana saísse do silêncio historiográfico no qual permanecera por mais de cinqüenta anos” [12] e derrubaram as censuras políticas e “o preconceito intelectualista e culturalmente patriarcal, segundo o qual uma obscura figura feminina conta pouco ou nada em relação ao grande intelectual e dirigente político, salvo no plano, irrelevante historicamente, do cuidado afetivo e material” [13]. A Fundação Instituto Gramsci, em seguida, confiaria a Aldo Natoli e a Chiara Daniele a organização do epistolário entre Gramsci e Tania Schucht, que, depois de uma longa e acurada preparação, veio a luz em 1997. Com esta publicação, o mundo afetivo e familiar do prisioneiro se revelava cada vez mais importante também para sua biografia política, e a Tatiana “se restituía o papel de co-protagonista na trajetória humana e política de Antonio Gramsci” [14].

Ao mesmo tempo, uma minuciosa investigação sobre as relações entre Gramsci e o partido, relativa às campanhas de 1932-1934 para sua libertação, foi levada a cabo por Claudio Natoli [15]. Neste panorama de novos documentos, novas investigações e novas publicações, as principais lacunas ainda são representadas pela interrupção, no final de 1934, das cartas de Tania aos familiares russos e pela não publicação da correspondência entre Gramsci e Giulia, e entre Tatiana e Sraffa. Para a supressão da primeira lacuna — Tania volta a Moscou no final de 1938 e continuara a escrever regularmente aos familiares mesmo depois de 1934 — se está procedendo com entusiasmo graças ao esforço de Antonio Gramsci Jr., que há alguns anos, de Moscou, colabora nas investigações para a Edição Nacional dos escritos de Gramsci. Na correspondência entre Sraffa e Tatiana estamos trabalhando Chiara Daniele e eu, e este epistolário se revela cada vez mais decisivo para a biografia de Gramsci desde a detenção até a morte. Portanto, as publicações surgidas entre 1990 e 2005 mudaram radicalmente o panorama das fontes e lançaram as bases para proceder tanto à redação de uma biografia completa de Gramsci, quanto à contextualização dos parágrafos dos Cadernos do cárcere.

Bem verdade que relacionar os escritos de Gramsci ao contexto histórico político em que foram concebidos, dia após dia, é uma tarefa que supera as forças de um só pesquisador. Em parte, ela foi realizada por aqueles que organizaram as Obras para a editora Einaudi, mas só poderá ser completada pelo numeroso e qualificado grupo de estudiosos que tratam da publicação da Edição Nacional.

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A Edição Nacional dos escritos de Antonio Gramsci começou a ser publicada em 2007. A idéia de uma nova edição crítica integral dos escritos de Gramsci originou-se não só da necessidade de superar os limites das edições precedentes, cada vez mais evidenciados pela continuidade das investigações e das aquisições documentais, mas também da exigência de corresponder a novas responsabilidades político-culturais: por um lado, a extensão das traduções dos escritos de Gramsci e do interesse pelo seu pensamento no mundo nos fazia sentir obrigados a predispor instrumentos filológicos e críticos mais precisos para o estudo de Gramsci que só a cultura italiana pode fornecer; por outro, considerávamos que uma edição crítica integral dos escritos pudesse responder do modo mais apropriado à marginalização que o pensamento de Gramsci sofrera na Itália, na década anterior.

Em 1975, apresentando a edição crítica dos Cadernos, Valentino Gerratana ilustrava as razões pelas quais tinham sido organizados com os critérios que se aplicam aos escritos de um pensador já então tornado clássico. Consideramos que aqueles critérios deveriam ser estendidos a todo o corpus dos escritos gramscianos e que seria uma tarefa prioritária da Fundação tratar disso. Portanto, pensamos que a nova iniciativa poderia ambicionar ao título de Edição Nacional. Com esforço, e não sem acesas disputas, em 1993 o projeto já estava definido nas suas linhas essenciais [16]. Mas, antes de ilustrar brevemente suas linhas, parece oportuno deter-me na internacionalização do pensamento de Gramsci.

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A fortuna internacional de Gramsci teve início nos anos setenta do século passado e, a partir de então, teve um desenvolvimento cada vez mais consistente. Pode-se assumir como momento tópico desta “explosão” o ano de 1977, no quadragésimo aniversário da sua morte. Além das muitas iniciativas científicas e políticas que celebraram o acontecimento, uma série de eventos contribuiu para avivar o interesse pela herança cultural gramsciana no mundo. Entre eles, os primeiros eram de caráter político e estavam ligados à notável atenção que suscitaram, na Itália e no exterior, a estratégia do “compromisso histórico” e o eurocomunismo. Um segundo elemento importante foi o encontro com Gramsci de inúmeros intelectuais latino-americanos: estes “descobriram” no pensamento de Gramsci um antídoto eficaz às tradições marxistas difundidas precedentemente nos seus países, oprimidos naqueles anos por ditaduras militares, e um ponto de referência fundamental para elaborar estratégias políticas novas, democráticas e nacionais. Mas o veículo mais eficaz da difusão do pensamento de Gramsci foram algumas valiosas antologias em língua inglesa [17].

O fenômeno teve impulso adicional com a publicação da edição cronológica dos Cadernos, que deu início a um novo e mais amplo ciclo de traduções. Se bem que uma edição diacrônica seja pensada sobretudo para uma fruição do texto na língua original, a publicação dos Cadernos com critérios fortemente conservadores, quase à moda da diplomática, provocou um forte interesse por uma tradução integral do novo texto em inúmeras línguas de cultura. Cada empreendimento foi longo e extenuante, e levado a cabo num arco de tempo bastante amplo; mas já há alguns anos se ultimaram as traduções em francês, em espanhol, em português e em alemão; a tradução americana está perto do final e a japonesa está num estágio muito avançado. Ao contrário, o conjunto completo das cartas do cárcere, nestes vinte anos, só foi traduzido em inglês, em espanhol e, por fim, em chinês.

A partir do final dos anos oitenta, a Fundação começou a seguir com maior cuidado a difusão internacional do pensamento gramsciano e tentou corresponder a ela com novas iniciativas culturais e o estabelecimento de novos instrumentos de investigação. Em outubro de 1989, a Fundação organizou em Formia o encontro dedicado a Gramsci nel mondo, no qual pela primeira vez se fazia um balanço da difusão internacional do pensamento gramsciano [18]. Naquela ocasião foi fundada a International Gramsci Society (IGS), sob a presidência de Valentino Gerratana, que conseguiu a adesão de muitos estudiosos de inúmeros países [19]. Enquanto isso, John M. Cammett, pioneiro desde os anos sessenta dos estudos gramscianos nos EUA, compilava uma primeira versão impressa de um amplo banco de dados eletrônicos, no qual a bibliografia gramsciana, anteriormente recolhida por Elsa Fubini, era complementada com uma grande quantidade de informações provenientes da literatura internacional. Logo depois do encontro de Formia, a Fundação decidiu produzir uma edição impressa da bibliografia de Cammett, que veio à luz em 1992 [20]. A Bibliografia gramsciana, que hoje inclui mais de 17 mil itens, é continuamente atualizada e agora publicada on line, sob os cuidados do mesmo Cammett, de Luisa Righi e Francesco Giasi.

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No mesmo período em que o interesse pelo pensamento de Gramsci se multiplicava em inúmeras áreas culturais estrangeiras, na Itália se verificava um declínio da sua influência e uma contestação radical da sua lição. A tentativa mais virulenta e, sob muitos aspectos, grotesca de fazer passar a teoria gramsciana da hegemonia como um disfarce da ditadura do proletariado de tipo soviético foi realizada pela revista socialista Mondoperaio entre 1976 e 1977 [21]. Por cerca de uma década, assistiu-se, pois, a uma crescente discrepância entre a fortuna internacional de Gramsci e o debate italiano sobre sua figura. Este último permaneceu preso numa mesquinha disputa ideológica sobre sua incidência política na arena nacional, enquanto no mundo seu pensamento já era estudado como um clássico da filosofia política e dos estudos sobre cultura [22]. Como já disse, até para responder a esta situação absurda, promovemos a Edição Nacional.

O projeto foi posto sob o alto patrocínio do presidente da República, Francesco Cossiga, em 1990. Assim, depois de quinze anos de controvérsias e duras polêmicas, motivadas pela intenção de diminuir a figura de Gramsci e marginalizar seu pensamento, seguia-se o mais alto reconhecimento do valor científico e cultural da sua obra. O transcurso do tempo e as grandes mudanças ocorridas na Itália e no mundo o favoreceram. Com efeito, à medida que a publicação dos seus escritos se completava na Itália e crescia a difusão deles nas principais áreas lingüísticas e culturais do mundo, tornava-se cada vez mais evidente que o pensamento de Gramsci ilumina problemas fundamentais da história do século XX e do nosso tempo.

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Parece-me oportuno, neste ponto, ilustrar brevemente as principais novidades da Edição Nacional. Antes de mais nada, uma edição dos escritos e não das “obras”. Gramsci foi um político, um “combatente”, cujo pensamento está disseminado em escritos jornalísticos, intervenções políticas e nos “parágrafos” dos Cadernos do cárcere, recolhidos em volume só depois da sua morte. Portanto, ele não nos deixou “obras”, mas “escritos”, que compõem um corpus extraordinariamente unitário, desde que se possa reconstruir seu “ritmo do pensamento em movimento”, secundando os escritos com o aparato filológico indispensável para reconstituir os contextos. Em segundo lugar, sua atividade jornalística (1910-1926) está presente em artigos predominantemente não assinados. Assim, em relação às publicações precedentes, a Edição Nacional procede verificando suas transcrições e atribuições, além de cercá-los com um aparato filológico muito mais acurado. Novidade significativa é a adoção de software repetidamente testado, que permite a atribuição dos artigos não assinados segundo critérios lingüístico-matemáticos, sem que os organizadores abram mão da responsabilidade de acolhê-los ou recusá-los, complemetando os critérios automáticos com os críticos tradicionais.

Outra novidade significativa é a decisão de incluir na Edição Nacional não só a correspondência gramsciana (com Tatiana e Giulia Schucht e outros correspondentes), mas também as “correspondências paralelas”, decisivas para o período carcerário (as cartas entre Piero Sraffa e Tatiana Schucht, Tatiana e seus familiares, e outras). Portanto, na Edição Nacional proceder-se-á de modo a suprimir uma grave lacuna, segundo critérios que permitem aos epistolários cumprir sua tarefa precípua, a de possibilitar a reconstruição integral da biografia intelectual do nosso autor.

Depois da publicação da edição cronológica dos Cadernos, o prof. Gianni Francioni refinou progressivamente os critérios de datação e agrupamento dos “parágrafos” que os compõem, e a ele está confiada a direção da sua publicação na Edição Nacional. Nela, eles serão ordenados em Cadernos de traduções, Cadernos miscelâneos e Cadernos especiais. A novidade mais significativa é a publicação dos Cadernos de traduções, excluídos da edição Gerratana e quase inteiramente inéditos. Recolhidos em dois volumes de aproximadamente 900 páginas, foram publicados em 2007 e apresentados em Oristano, em 30 de abril, na presença do chefe de Estado, Giorgio Napolitano. Publicada pelo Instituto da Enciclopédia Italiana, a Edição Nacional constitui um empreendimento cultural inovador e de grande responsabilidade, que nos propomos concluir num número razoável de anos [23].

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Às orientações sumariamente recordadas também correspondem os critérios que seguimos para fazer face às datas comemorativas gramscianas e promover novas iniciativas editoriais. Também nestes campos tentamos orientar o trabalho da Fundação no sentido de criar ou captar novas ocasiões de pesquisa, evitando envolver Gramsci em disputas ideológicas ou interpretativas. Já o encontro internacional de 1989 sobre Gramsci nel mondo, que reunira principalmente os tradutores e os editores de Gramsci, teve um caráter mais filológico-cultural do que interpretativo. Em vez disso, o encontro de 1997, dedicado a Gramsci e il Novecento, propôs-se documentar o modo pelo qual os estudiosos italianos e estrangeiros de diversas disciplinas, influenciados pela variedade das áreas lingüísticas e culturais de origem, empregavam as categorias gramscianas na interpretação do século XX [24].

Em 1987, o encontro sobre Morale e politica in Gramsci, promovido pela Fundação em Roma, e aquele sobre Gramsci e l’Occidente, organizado juntamente com o Instituto Gramsci Emilia-Romagna e a direção nacional do PCI em Bolonha [25], registraram uma relevante participação de estudiosos estrangeiros provenientes da Europa, dos Estados Unidos, da América Latina e da Ásia. No encontro de 1997 sobre Gramsci e il Novecento, também participaram estudiosos canadenses. Graças à presença dos pesquisadores estrangeiros nos quatro encontros citados, os estudiosos de Gramsci no nosso país e a cultura italiana no seu conjunto puderam aprofundar o conhecimento da difusão internacional do pensamento de Gramsci: em particular, souberam da sua influência sobre a “escola da regulação”, que floresceu na França nos anos oitenta, que havia elaborado novas categorias para o estudo da economia mundial, e sobre a “escola de Toronto”, que nos mesmos anos havia dado impulso ao emprego da teoria gramsciana da hegemonia na análise das relações internacionais. Em vez disso, as comunicações dedicadas à difusão do pensamento de Gramsci nas culturas anglófonas davam conta da sua influência no desenvolvimento dos cultural studies desde os anos setenta, enquanto aquelas relativas à América Latina mostravam que, em alguns países decisivos do continente, o pensamento de Gramsci influíra consideravelmente na mudança de orientações de elites intelectuais significativas por causa dos seus laços com a história nacional e as lutas populares.

Para entrar em rede com estes processos, de grande interesse cultural também para a Itália, em 2007 iniciamos uma publicação anual que se baseia na bibliografia gramsciana on line: os Studi gramsciani nel mondo. Com esta publicação, pretendemos oferecer uma escolha dos mais significativos escritos dedicados a Gramsci ou inspirados pelo seu pensamento em todas as áreas lingüísticas e culturais do mundo. Pretendemos assim informar mais amplamente o público culto italiano sobre a fortuna internacional de Gramsci, que gira em torno de diferentes elaborações da teoria da hegemonia. Estas se projetam no estudo das relações internacionais, na análise dos processos de globalização e da interdependência econômica e política, na teoria da cultura, nos estudos sobre a sociedade civil e naqueles dedicados à subjetividade das classes subalternas, às teorias da linguagem, da educação e das comunicações sociais [26].

No campo internacional, a colaboração mais intensa se desenvolveu com os estudiosos de Gramsci na América Latina. Nestes vinte anos, inúmeros foram os encontros internacionais organizados com nossa colaboração, sobretudo no México [27]. Estas experiências nos deram a possibilidade de seguir de perto a grande mudança verificada na vida política e intelectual daqueles países, bem como de perceber a importância que a difusão de Gramsci teve e tem no florescimento da democracia no continente ibero-americano. Por fim, para aumentar o conhecimento da fortuna internacional de Gramsci na Itália, no ano passado, junto com a seção italiana da International Gramsci Society, organizamos o encontro Gramsci le culture e il mondo, dedicado às ramificações principais dos cultural studies: a “escola de Calcutá”, a “escola de Birmingham” e os chamados post-colonial studies [28].

Nos últimos anos, o panorama dos estudos gramscianos na Itália mudou consideravelmente. Não é mais verdade que Gramsci seja mais conhecido no exterior do que no nosso país. Graças também ao trabalho feito pela Fundação e às investigações desenvolvidas para a Edição Nacional, uma nova fornada de estudiosos de muito valor se formou e está se consolidando. Isto nos permitiu dedicar no ano passado um encontro de estudos sobre Gramsci nel suo tempo [29], que envolveu apenas estudiosos italianos. O desenvolvimento da documentação e das pesquisas que descrevi sumariamente torna hoje possível um enquadramento histórico satisfatório da vida e do pensamento de Gramsci. A Edição Nacional dos escritos será sua verdadeira biografia intelectual e política. Mas, com base no trabalho desenvolvido até agora, podemos nos propor a promoção de novas pesquisas e novos estudos tanto sobre a vida quanto sobre o pensamento de Gramsci, favorecendo, em primeiro lugar, sua presença na cultura e na política italianas. O objetivo não pode prescindir da sedimentação das interpretações e dos debates que se desenrolaram, em quase sessenta anos, nos mais diversos âmbitos das disciplinas humanistas. Quem quiser estudar Gramsci na Itália deve haver-se atentamente com esta realidade. Para tal fim, aceitamos a proposta de Angelo D’Orsi de preparar uma Bibliografia gramsciana comentada dos estudos italianos ou traduzidos na nossa língua. Em breve virá à luz o primeiro volume, que chega até 1967.

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A partir da segunda metade dos anos setenta do século passado, os estudiosos que participam da renovação da interpretação do pensamento de Gramsci compartilham a convicção de que o núcleo dinâmico dos Cadernos esteja nos parágrafos dedicados ao Americanismo, de que a principal categoria analítica introduzida por Gramsci na pesquisa histórica seja o conceito de “revolução passiva”, e de que desta tenha tido origem o desenvolvimento de um pensamento original, baseado na teoria da hegemonia. O pensamento de Gramsci no cárcere chega ao amadurecimento entre 1932 e 1934 e contém uma visão do século XX que antecipa um nexo de problemas hoje tornados ainda mais evidentes. São os problemas da globalização da economia mundial e do seu impacto sobre os sistemas nacionais. A reflexão de Gramsci culmina numa nova idéia da política. As pesquisas sobre a história do marxismo contida no Caderno 11, sobre a filosofia de Benedetto Croce contida no Caderno 10 e sobre os intelectuais e a política (Cadernos 12 e 13) constituem os capítulos principais da filosofia da práxis. A teoria da hegemonia — definida por Gramsci como “desenvolvimento teórico-prático da filosofia da práxis” — compõe-se de uma gnosiologia e de uma analítica, cujos conceitos recebem a elaboração mais completa nos Cadernos 14, 15 e 16. A partir da gnosiologia e da analítica da hegemonia germina uma concepção original da constituição dos sujeitos políticos, cujo principal laboratório é a história da Itália contemporânea (o Caderno 19, mas não só).

O programa de pesquisa dos Cadernos originou-se da reflexão sobre as conseqüências da derrota da revolução socialista na Europa no início dos anos vinte e sobre a mudança da natureza e da função internacional da URSS como desdobramento da “revolução pelo alto” e pelo desencadeamento da “guerra camponesa”. Segundo Gramsci, o fim da aliança entre operários e camponeses, provocado por Stalin, tinha conseqüências de alcance mundial. Com tal ruptura desaparecia a possibilidade de dar continuidade e orientação socialista ao revolucionamento das massas, prosseguindo o processo iniciado pela Revolução de Outubro. O socialismo se territorializava e mudavam as bases sociais do Estado soviético. A URSS staliniana mostra-se, para Gramsci, como uma “forma extrema de governo dos funcionários”, uma forma primitiva, econômico-corporativa, de Estado operário, pobre de capacidade hegemônica e de elementos de plano, globalmente sem capacidade de expansão. Segundo Gramsci, a origem disso estava na interrupção da construção de uma “economia média”, baseada numa troca equilibrada entre cidade e campo. Seu desaparecimento bloqueava a propagação internacional de processos análogos, baseados nacionalmente na aliança entre operários e camponeses. Ruía assim a idéia da revolução mundial, que Gramsci, fiel à lição original dos bolcheviques, entendera como difusão do industrialismo com base na cooperação entre cidade e campo de modo a romper o antagonismo que caracteriza suas relações na modernidade capitalista.

A investigação das causas da derrota faz Gramsci aprofundar a busca das dinâmicas do desenvolvimento capitalista e concentrar a atenção sobre a forma mais avançada de industrialismo, a de tipo americano, caracterizada pelo taylorismo e pelo fordismo. Em oposição à teoria oficial do movimento comunista, chega a uma diferente periodização e interpretação da era do imperialismo. Segundo Gramsci, a partir do final do século XIX, o desenvolvimento industrial, que unificara ainda mais o mercado mundial, havia deslocado o centro da “economia mundo” da Europa para os Estados Unidos. Aqui se afirmaram as formas mais avançadas de introdução da racionalidade científica nos processos de trabalho e na organização das empresas e dos mercados. Este tipo de industrialismo constituía a forma mais racional de desenvolvimento das forças produtivas, continha a tendência à formação de uma “economia programática” e, como tal, merecia ser difundido. Segundo Gramsci, com sua propagação se poderiam criar as condições para separar industrialismo e capitalismo, fazendo com que as classes trabalhadoras assumissem a direção dos processos de modernização.

Na visão de Gramsci, pois, a contradição principal da era contemporânea está no contraste entre o cosmopolitismo da vida econômica e o nacionalismo da vida política, baseada ainda nas prerrogativas do Estado-nação. A Primeira Guerra Mundial se originara da incapacidade por parte das classes dirigentes de resolver aquele contraste, adequando os espaços da política aos novos espaços da economia. As tentativas de solução nascidas da guerra — a revolução mundial projetada pelos bolcheviques e a criação da Sociedade das Nações projetada por Wilson — faliram rapidamente. A paz de Versalhes restabelecera as prerrogativas dos Estados nacionais e inaugurara uma época de nacionalismos exacerbados e de conflitos endêmicos. Segundo Gramsci, o contraste entre o cosmopolitismo da economia e o nacionalismo da política, que se reproduz depois da guerra, estava na origem da grande crise de 1929-1931. Sua superação só poderia se verificar favorecendo a difusão do industrialismo de tipo americano, que, graças à criação da economia dos consumos, indicava o caminho para conjugar desenvolvimento e democracia.

Não há quem não veja quanta distância então separa Gramsci das concepções do movimento comunista dos anos trinta. Sua visão do desenvolvimento econômico recusava as teorias do imperialismo, da “crise geral do capitalismo” e da inevitabilidade da guerra, que constituíam o fundamento analítico do bolchevismo e a justificação histórica da Internacional Comunista. Gramsci considerava que a expansividade do movimento comunista se esgotara rapidamente e, portanto, a direção do processo histórico-mundial voltara às mãos das velhas classes dominantes. Mas a Grande Guerra havia inaugurado uma época nova: as imensas massas camponesas fizeram sua entrada na história; a guerra as inserira nos circuitos da modernidade, dando início a um processo de desenvolvimento irreversível da subjetividade dos povos. Com o esgotamento da onda revolucionária originada da Grande Guerra e da Revolução Russa, a difusão do industrialismo e da modernidade voltaram a ficar sob a direção das velhas classes proprietárias. Deste modo, originara-se uma forma de “revolução passiva”, que dominava a cena mundial. Nela se inseria também a URSS, de modo subalterno. Mas, em todo caso, para cumprir uma tarefa histórica improrrogável, as classes dominantes deveriam haver-se com as classes subalternas. Qual era o ponto de interseção de um outro programa, que se propusesse o objetivo de fazer com que as classes populares assumissem a direção do processo?

Segundo Gramsci, o principal evento político originado da mundialização da economia era a crise do Estado-nação. O cosmopolitismo da economia modifica as características das nações. No século XX — diz Gramsci —, a história é história mundial e só convencionalmente se pode escrever a história de um só país, a não ser que se captem suas relações com a história internacional. A despeito da restauração da velha Europa dos Estados nacionais, na seqüência da paz de Versalhes, a nação não mais pode ser restrita ao horizonte da vida estatal. Uma sociedade civil internacional está em formação. As nacionalidades são continuamente remodeladas pela variação das condições internas e internacionais do desenvolvimento. A difusão mundial do industrialismo tem seus epicentros nos mercados nacionais; a regulação do crescimento econômico torna-se a função fundamental dos Estados; a identidade nacional é redefinida pelos desdobramentos da socialização, isto é, pelas combinações de nação e desenvolvimento. A idéia de nação, pois, dinamiza-se e torna-se plural. Ela varia com base nos projetos de cidadania dos diversos grupos sociais e das classes contrapostas. Em outras palavras, muda com base nas alternativas que se oferecem à internacionalização da vida estatal, nas diversas combinações dos elementos nacionais e internacionais do desenvolvimento que podem se afirmar. Isto impõe uma nova concepção da política.

Cosmopolitismo da economia significa unificação econômica do mundo, ainda que antagônica. Tal unificação gera laços cada vez mais numerosos de interdependência econômica e política. Pela primeira vez na história, pode-se conceber uma idéia da política que preveja a subordinação permanente da força ao consenso. É o conceito da política como hegemonia, que se contrapõe à concepção tradicional da política como potência. A crise do princípio de soberania provoca uma distinção progressiva da política em relação ao Estado, um distanciamento em relação a ele. Para Gramsci, este processo deve ser levado até as últimas conseqüências, entrelaçando o desenvolvimento da democracia dentro dos Estados com a criação da democracia internacional. Para ele, o objetivo se mostra realista, uma vez que a construção da supranacionalidade está na ordem do dia. Assim, ele vê o agrupamento das economias e dos Estados europeus como uma possível etapa da construção de uma nova ordem mundial, baseada na cooperação entre os povos na interdependência e na reciprocidade.

Gramsci percebe lucidamente que os centros da difusão mundial do industrialismo de tipo americano são os Estados nacionais. Eles constituem o teatro da luta política e de classe. A concepção da política como hegemonia compreende o desenvolvimento nacional de modo aberto a diferentes alternativas. Com base no industrialismo de tipo americano é possível que se forme “uma nova vontade coletiva a partir de baixo”. Esta decorre das condições em que não só a classe operária, mas toda a sociedade se encontram em face da economia. A idéia de nação que as classes populares devem promover para afirmar sua hegemonia é a que se propõe contribuir, como nação de produtores, para a “formação de uma economia segundo um plano mundial”. Portanto, traçando um programa para as classes trabalhadoras italianas, Gramsci lhes indica o objetivo de acolher a herança da tradição cosmopolita do nosso povo. É o tema do Caderno 19 (Risorgimento), que abre o caminho para a conciliação entre classe e nação e anuncia uma remodulação democrática da nação. Segundo Gramsci, esta é a única idéia que pode guiar os processos de internacionalização postos na ordem do dia pelos desenvolvimentos da economia mundial, de modo a sanar as taras de uma história nacional caracterizada por bases demasiadamente restritas do desenvolvimento econômico e da hegemonia das classes proprietárias.

A concepção da política como hegemonia relaciona-se assim com o pensamento de Maquiavel, que, para Gramsci, é o primeiro pensador da democracia porque percebe o caráter estruturalmente plural das sociedades modernas: o caráter organizado da cidade e do campo, que o surgimento do modo de produção capitalista põe em relação dinâmica entre si, ainda que antagônica, tornando ambos a base do desenvolvimento econômico e do Estado. O Estado moderno, ao se fundar na unificação do povo-nação, é a única forma política que permite uma troca equilibrada entre cidade e campo, e, mais em geral, entre todos os interesses organizados que formam o tecido das sociedades modernas. Parece evidente que, ligando-se à concepção da política como hegemonia, a teoria da democracia se ilumina com uma nova luz e assume um caráter realista e concretamente universal.

Reelaborar o marxismo como filosofia da práxis torna-se assim o tema principal do programa de investigação dos Cadernos, com o objetivo de indicar às classes subalternas o caminho para refundar a nação e instituir novas relações entre dirigentes e dirigidos, intelectuais e povo. Este é o sentido que Gramsci confere à filosofia da práxis quando, no ponto culminante da sua investigação, define-a como uma “heresia nascida no terreno da religião da liberdade” [30].

Giuseppe Vacca é presidente da Fundação Instituto Gramsci, de Roma. Este texto foi apresentado no último 7 de março ao conselho curador da Fundação.

Notas

[1] G. Vacca. “La verità su Gramsci”. l’Unità, 20 fev. 1996.

[2] Ch. Daniele (Org.). Gramsci a Roma Togliatti a Mosca. Com um ensaio de G. Vacca. Turim: Einaudi, 1999.

[3] G. Vacca. “Appunti su Togliatti editore delle Lettere e dei Quaderni”. Studi Storici, 1991, n. 3.

[4] S. Pons, “‘L’affare Gramsci-Togliatti’ a Mosca (1938-1941)”. Studi Storici, 1994, n. 1.

[5] Ch. Daniele (Org.). Togliatti editore di Gramsci. Introdução de G. Vacca. Roma: Carocci, 2005.

[6] P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma: Riuniti, 1977.

[7] P. Togliatti. “Il leninismo nel pensiero e nell’azione di A. Gramsci (Appunti)”. In: Id. Scritti su Gramsci. Org. por G. Liguori. Roma: Riuniti, 2001, p. 213-4.

[8] A. Natoli. Antigone e il prigioniero. Tania Schucht lotta per la vita di Gramsci. Roma: Riuniti, 1990.

[9] Op. cit., p. VIII-IX.

[10] P. Sraffa. Lettere a Tania per Gramsci. Introdução e organização de V. Gerratana. Roma: Riuniti, 1991.

[11] T. Schucht. Lettere ai familiari. Org. por M. Paulesu Quercioli. Prefácio de G. Gramsci. Roma: Riuniti, 1991.

[12] Ch. Daniele. “Storia delle fonti”. In: Antonio Gramsci e Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935. Org. por A. Natoli e Ch. Daniele. Turim: Einaudi, 1997, p. LXXIII.

[13] F. Izzo. “I ‘due mondi’. Tania Schucht, Antonio Gramsci e Piero Sraffa sulla questione ebraica”. Studi Storici, 1993, n. 2/3, p. 658.

[14] Ch. Daniele, op. cit., loc. cit.

[15] C. Natoli. “Gramsci in carcere: le campagne per la liberazione, il partito, l’Internazionale (1932-1933)”. Studi Storici, 1995 n. 2; Id. “Le campagne per la liberazione di Gramsci, il Pcd’I e l’Internazionale (1934)”. Studi Storici, 1999, n. 1.

[16] O trabalho preparatório da Edição Nacional e as divergências que se verificaram no seu curso estão documentados em IG Informazioni, trimestral da Fundação Instituto Gramsci, Roma, 1992, n. 2, e 1993, n. 4.

[17] Selections from the Prison Notebooks of Antonio Gramsci. Edição e tradução de Q. Hoore e G. Nowell Smith. Londres: Lawrence and Wishart, 1971; Selections from cultural writings. Edição de D. Forgacs e G. Nowell Smith. Londres: Lawrence and Wishart, 1985.

[18] Maria Luisa Righi (Org.). Gramsci nel mondo. Atti del convegno internazionale di studi gramsciani. Formia 25-28 ottobre 1989. Roma: Fondazione Istituto Gramsci, 1995.

[19] Sobre o surgimento da International Gramsci Society, cf. n. 4, 1989, e n. 1, 1990, de IG Informazioni.

[20] J. M. Cammett (Org.). Bibliografia gramsciana 1922-1988. Roma: Riuniti, 1991. Com essa publicação teve início a série dos Anais da Fundação Instituto Gramsci. Uma atualização até 1993 da bibliografia foi publicada pela Fundação em 1995, organizada por J. M. Cammet e M. L. Righi.

[21] Cf. Egemonia e democrazia. Gramsci e la questione comunista nel dibattito di Mondoperaio. Roma: Avanti, 1977.

[22] Sobre as razões do declínio de interesse pelo pensamento de Gramsci nos anos oitenta, na Itália, cf. G. Vacca, Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999, p. 13-5; L. Paggi. “La strategia liberale della seconda repubblica. Dalla crisi del Pci alla formazione di una destra di governo”. In: F. Malgeri e L. Paggi (Orgs.). Partiti e organizzazioni di massa, v. III da obra coletiva L’Italia repubblicana negli studi degli anni settanta. Soveria Mannelli: Ed. Rubettino, 2003, p. 72-82.

[23] A. Gramsci. Quaderni del carcere. Edição crítica dirigida por G. Francioni. 1. Quaderni di traduzioni (1929-1932). Org. por G. Cospito e G. Francioni. Roma: Istituto dell’Enciclopedia Italiana, 2007:

[24] G. Vacca (Org.). Gramsci e il Novecento. Anais da Fundação Instituto Gramsci, XI. Roma: Carocci, 1999.

[25] W. Tega (Org.). Gramsci e l’Occidente. Trasformazioni della società e riforma della politica. Bolonha: Ed. Cappelli, 1990. Os anais do encontro Morale e politica in Gramsci não foram publicados. As intervenções podem ser consultadas na Fundação Instituto Gramsci.

[26] G. Vacca e G. Schirru. Studi gramsciani nel mondo (2000-2005). Bolonha: Il Mulino, 2007.

[27] Recordo os encontros que registraram participação internacional mais ampla: Pensar el mundo moderno: actualidad del pensamiento de Gramsci, em colaboração com a Universidade Autônoma da Cidade do México (Coyoacán, México, 27-29 nov. 1993); III Conferencia Internacional de Estudos Gramscianos, em colaboração com a Benemérita Universidade Autônoma de Puebla (Puebla, México, 7-10 out. 2003); Gramsci a setenta anos de la muerte, em colaboração com a UACM (Universidade Autônoma da Cidade do México), 29 nov.-1 dez. 2007.

[28] O encontro foi organizado em colaboração com a International Gramsci Society–Itália e realizou-se em Roma, entre 27 e 28 de abril de 2007. Os anais estão em curso de publicação.

[29] O encontro foi organizado em colaboração com a Fundação Gramsci de Puglia e realizou-se em Bari e em Turi, entre 13 e 15 de dezembro de 2007. Participaram mais de 50 estudiosos. Os anais estão sendo preparados.

[30] As investigações e os estudos mais significativos a que me refiro estão indicados na resenha de F. Izzo, “Studi gramsciani”. Nuova informazione bibliografica, n. 2, abril-maio. Bolonha: Il Mulino, 2007, p. 288-90.

“Acessa.com”

Comentários

60 anos de Estado de Israel: os árabes israelenses ainda se sentem indesejados

Ethan Bronner

Quando o Estado de Israel comemorar o seu 60° aniversário nas próximas semanas, com muita alegria devido ao renascimento nacional judaico e aos valores democráticos, os árabes, que são 20% do total de cidadãos do país, não estarão celebrando. Em melhor situação, mais bem integrados e mais livres do que a vasta maioria dos outros árabes, os 1,3 milhão de árabes de cidadania israelense ainda estão em uma situação bem pior do que a dos judeus israelenses e sentem-se cada vez mais indesejados.

Na próxima quinta-feira, que é o Dia da Independência, milhares de árabes irão se concentrar nas aldeias em que antigamente moravam para protestar contra aquilo que chamam de “nakba”, ou catástrofe, termo que usam para referirem-se à criação de Israel. Para a maioria dos israelenses a identidade judaica é uma questão fundamental para a nação, a razão pela qual eles se orgulham de viver aqui e o vínculo com a História. Mas os árabes israelenses, incluindo aqueles que se integraram com mais sucesso, afirmam que uma nova identidade precisa ser encontrada para garantir a sobrevivência do país no longo prazo.

“Eu não sou judeu”, protesta Eman Kassem-Sliman, um radiojornalista árabe que fala um hebraico impecável, e cujos filhos estudam em uma escola predominantemente judaica em Jerusalém. “Como posso pertencer a um Estado judeu? Se eles definirem isto como um Estado judeu, estarão negando a minha presença aqui”.

O choque entre a estimada herança cultural da maioria e as esperanças da minoria é mais do que um atrito. E hoje em dia, até mais do que durante as grandes comemorações de meio século de criação do Estado judeu, uma década atrás, a esquerda e a direita enxergam cada vez mais os árabes israelenses como um dos desafios centrais para o futuro de Israel - um obstáculo intransponível para um acordo amplo entre judeus e árabes. O que os judeus mais temem é perder a batalha demográfica para os árabes, tanto dentro de Israel como no maior território controlado pela nação.

Muitos dizem que da mesma forma que um fim da identidade judaica do país significaria um fim do Estado, um fracasso da tarefa de instilar nos cidadãos árabes uma sensação de que pertencem a Israel seria perigoso, já que os árabes promovem a idéia de que, com 60 anos ou não, Israel é um fenômeno passageiro.

“Quero convencer o povo judeu de que ter um Estado judeu é algo de ruim para eles”, afirma Abir Kopty, que defende os direitos dos árabes israelenses.

A questão da terra é especialmente delicada. Por todo o Estado de Israel, e especialmente no norte, há ruínas de dezenas de vilas palestinas desabitadas, cicatrizes na paisagem resultantes do conflito que deu a luz ao país em 1948.

Mas alguns habitantes originais e os seus descendentes, todos árabes israelenses, moram em vilas e aldeias super populosas, muitas vezes perto das suas antigas aldeias, e estão proibidos de reocupá-las enquanto as comunidades judaicas em torno deles são estimuladas a se expandir.

Em uma tarde morna recente, Jamal Abdulhadi Mahameed dirigiu por uma estrada de terra que corta campos de trigo e melancias em um kibbutz, ladeada de pinheiros e cactus. Ele galgou as ruínas de uma escada e declarou ao vento: “Esta é a minha casa. Foi aqui que eu nasci”.

Ele diz que o que mais deseja hoje em dia, aos 69 anos de idade, é sair da cidade lotada ao lado, voltar ao seu terreno abandonado, no qual restaram romãzeiras plantadas pelo seu pai, e cultivar a terra, conforme fizeram várias gerações que viveram antes dele. Ele foi à justiça para reaver a terra.

Mahameed não é nenhum revolucionário e, sob quase todos os aspectos, é um cidadão pacato e bem-sucedido. Uma das suas filhas é médica. Dois filhos são advogados e um é engenheiro. Mas, por ser árabe, o seu pedido para retornar à sua terra vai de encontro a uma antiga política israelense.

“Estamos proibidos de usar a nossa própria terra”, queixa-se Mahameed, de pé naquela que já foi a vila de Lajoun, e que hoje é uma mistura de mato e pinheiros rodeada pelos campos do kibbutz Megiddo. “Eles querem manter a minha terra disponível para os judeus. A minha filha não faz distinção entre pacientes judeus e árabes. Por que o Estado me trata de forma diferente?”

A resposta tem a ver com a própria essência do sionismo - o movimento para o renascimento judaico e o controle da terra na qual um Estado judeu prosperou pela primeira vez há mais de 2.000 anos.

“Terra é presença”, opina Clinton Bailey, um acadêmico israelense que pesquisa a cultura beduína. “Se quisermos estar presentes aqui, precisamos ter terra. O país não é tão grande assim. Aquilo que é cedido aos árabes não pode mais ser usado para acomodar os judeus que ainda podem querer vir para cá”.

Um Estado palestino é visto por muita gente como uma potencial solução para as tensões com os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, mas qualquer conflito profundo com os próprios cidadãos árabes de Israel poderá ser algo muito mais complexo.

O antagonismo existe dos dois lados. Muitos árabes israelenses expressam solidariedade aos palestinos que vivem sob a ocupação, enquanto outros elogiam o Hezbollah, o grupo anti-Israel no Líbano. E alguns parlamentares árabes acusam freqüentemente Israel de praticar nazismo.

Por outro lado, vários rabinos de direita emitiram ordens proibindo os judeus de alugarem apartamentos a árabes ou de empregá-los. E, segundo as pesquisas, a maioria dos judeus é favorável à proposta da retirada dos árabes de Israel como parte de uma solução baseada em dois Estados, uma idéia que era considerada muito radical uma década atrás.

Os árabes daqui rejeitam a idéia, em parte porque preferem a certeza de uma democracia israelense imperfeita do que se sabe lá que sistema possa ser criado em um frágil Estado palestino. Isto é parte do paradoxo dos árabes israelenses. A fúria deles aumentou, mas também a sensação de que pertencem ao país.

Na verdade, a retórica ansiosa e recriminatória de ambos os lados transmite uma falsa impressão de que há uma tensão constante. Em muitos lugares existe um nível real de coexistência árabe-judaica, e recentemente o governo comprometeu-se com ações afirmativas para os árabes nos setores de educação, infra-estrutura e empregos públicos.

“Sabemos que eles necessitam de mais terra, que os filhos deles precisam de um lugar para morar”, diz Raanan Dinur, diretor-geral do gabinete do primeiro-ministro. “Estamos trabalhando no sentido de construir uma nova cidade árabe no norte. O nosso principal objetivo é pegar aquilo que atualmente são duas economias e integrá-las em uma economia única”.

Porém, há o temor de que o tempo seja curto.

Mahameed e os seus amigos da vila chegarão ao supremo tribunal do país em julho com o objetivo de recuperar 20 hectares da terra que pertencia às suas famílias e que atualmente não é cultivada, a não ser pelos pinheiros plantados pelo Fundo Nacional Judeu.

A história deles é parte de uma história maior: depois que a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou no final de 1947 a favor da criação de dois Estados na Palestina, um árabe e um judeu, milícias árabes locais e os seus apoiadores regionais atacaram os assentamentos judaicos, furiosos com o apoio da ONU a um Estado judeu. As forças sionistas contra-atacaram. Centenas de vilas palestinas, incluindo Lajoun, foram evacuadas e quase completamente destruídas.

Os árabes palestinos tornaram-se refugiados na Jordânia, no Líbano e na Faixa de Gaza, que à época era controlada pelo Egito. Mas alguns, como Mahameed, permaneceram em Israel. Eles receberam cidadania israelense e a promessa de igualdade, mas jamais a obtiveram.

Aqueles que partiram ou que foram expulsos das suas vilas não tiveram permissão para voltar, e, em muitos casos, passaram os últimos 60 anos a alguns quilômetros das suas antigas moradias, vendo as suas terras serem cultivadas por judeus recém-chegados, ou servirem de canteiros de obras para a construção de moradias para esses novos habitantes, muitos deles refugiados da opressão nazista ou do anti-semitismo soviético.

Em 1953, o parlamento israelense declarou que cerca de 121 mil hectares de terras das vilas capturadas passaram a ser propriedade do governo com o objetivo de abrigarem assentamentos ou por questões de segurança.

Mahameed e os outros 200 árabes israelenses que entraram com uma ação na justiça vivem aglomerados na aldeia de Um el-Fahm, perto das suas antigas terras.

“A nossa alegação é que, como a terra não foi usada durante todos esses anos, não havia necessidade de confiscá-la”, diz Suhad Bishara, um advogado do Adalah, um grupo com sede em Haifa dedicado à defesa dos direitos dos árabes israelenses.

O argumento de Bishara foi rejeitado no fórum local, que concordou com a opinião do governo de que os pinheiros e uma estação de tratamento de água em Lajoun caracterizam um assentamento. Para Bishara, a determinação faz parte de uma longa tradição de trapaças dos sistemas legal e político de Israel, que quase sempre impedem o aumento do uso das terras pelos árabes.

Não é difícil perceber a lacuna entre árabes e judeus em quase todas as áreas - saúde, educação e emprego, bem como em investimentos do governo. O número de famílias árabes que vive abaixo da linha da pobreza é três vezes maior do que o de famílias judaicas, e um estudo governamental feito há cinco anos mencionou a necessidade de se remover “a nódoa da discriminação”.

Dinur, do gabinete do primeiro-ministro, interessou-se pela questão e reuniu-se várias vezes com lideranças árabes. Ele diz que pode ser possível que um dia os árabes retornem às suas aldeias nativas, mas isso só aconteceria como parte de um processo maior de integração e reconciliação regional. Caso contrário, diz ele, os judeus israelenses teriam medo de que o objetivo dos árabes fosse recuperar todo o território perdido na guerra de 1948.

Para muitos israelenses, o desafio representado pelos árabes não pode ser separado daquilo que eles vêem como os riscos na região - a influência ascendente do Irã, o crescimento do radicalismo islâmico e o temor de que uma nova guerra no Líbano ou na Faixa de Gaza possa não estar muito distante.

Michael Oren, do Instituto Shalem, um grupo de pesquisas em Jerusalém, diz que quando o exército prepara-se para a guerra, ele inclui nos seus planos a forma de lidar com a possibilidade de os árabes israelenses insurgirem-se contra o Estado.

Muitos também acreditam - e nisto judeus e árabes parecem concordar - que sem uma solução para a questão palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, as tensões internas não diminuirão. E, tendo em vista o pessimismo quanto às negociações de paz com os palestinos, as previsões não são boas.

Para muitos judeus israelenses que há muito resistiam à idéia de um Estado palestino, foi a percepção de que estavam perdendo a batalha demográfica para os palestinos que os fez mudar de opinião. Mas é claro que o desafio populacional também diz respeito aos árabes de Israel.

Os árabes israelenses têm plena consciência desta disputa. E alguns acreditam que o tempo está do lado deles.

“Israel está vivendo dentro do círculo árabe-islâmico”, afirmou em uma entrevista Raed Salah, diretor do Movimento Islâmico de Israel. “É importante enxergar a porcentagem judaica nesse contexto mais amplo no longo prazo”.

Abdulwahab Darawshe, um ex-membro do parlamento israelense e atual presidente do Partido Democrático Árabe, disse recentemente, sentado no seu escritório em Nazaré: “Não importa o que aconteça, não sairemos daqui novamente. Isso foi um grande erro cometido em 1948. Mas a nossa identidade está tornando-se cada vez mais palestina. É impossível nos podar da árvore árabe”.

Ao ser indagado a respeito dos seus planos para o Dia da Independência de Israel, ele afirmou: “Pegarei uma pá e vou trabalhar na terra em volta das minhas oliveiras”.

“The New York Times”

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As trajetórias dos dois Roosevelt

Daniel Vernet

A carta está dentro de uma vitrine, no domínio de Springwood, situado nas bordas do rio Hudson, onde fica a casa dos Roosevelt, hoje transformada num museu: “Caro Franklin, é interessante constatar que você passou a ocupar um outro cargo, o qual eu mesmo cheguei a ocupar”. Assinado: Theodore Roosevelt, 18 de março de 1913. Franklin Delano Roosevelt acaba de ser nomeado secretário adjunto da marinha pelo presidente democrata Woodrow Wilson. Um membro da sua família, só que de parentesco remoto, Theodore (”Teddy”), que fora ele mesmo secretário adjunto da marinha antes de ocupar o cargo máximo na Casa Branca, o felicita com aquela ironia distante que caracteriza as relações entre os dois ramos da família.

Os Roosevelt são os descendentes de um imigrante holandês, Claes Martenzen, que desembarcou em Nova Amsterdã durante os anos 1640. Os seus dois netos são os fundadores de duas dinastias: Johannes, instalado em Oyster Bay, perto Nova York, é o ancestral de Theodore e de Eleonore Roosevelt, que se casará com Franklin em 1905. Jacobus, por sua vez, está na origem da família de Hyde Park, da qual é oriundo Franklin Delano.

CRONOLOGIA

1900 - Eleição do republicano William McKinley para um segundo mandato; ele é assassinado em 1901. O vice-presidente Theodore Roosevelt lhe sucede.

1901-1909 - Presidência de Theodore Roosevelt.

1917 - Entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial sob a presidência do democrata Woodrow Wilson.

1919 - O Senado recusa-se a ratificar o tratado de Versalhes.

1929 - Grande Depressão. A taxa de desemprego alcança 24,9%.

1932 - Primeira eleição para a presidência do democrata Franklin Delano Roosevelt; ele triunfa em 46 dos 48 Estados. Ele sucede ao republicano Herbert Hoover.

1933 - Lançamento do New Deal, um programa econômico baseado na intervenção do Estado, nas grandes obras públicas, nas despesas públicas e nas ajudas aos mais desfavorecidos. Início do Estado de bem-estar social.

7 de dezembro de 1941 - Ataque japonês contra Pearl Harbor.

12 de abril de 1945 - Morte de Franklin Delano Roosevelt, algumas semanas depois do iniciar seu quarto mandato.

Haverá pontos em comum entre o “Bull Moose” (o alce que lidera a manada), que se tornara um dos principais modelos de presidente republicano, e o jovem rapaz um pouco dândi que deixaria sua marca na história como o pai do New Deal (”Novo Acordo”: nome dado a sua série de programas econômicos que foram implementados de 1933 a 1945, destinada a reerguer o país depois da Grande Depressão de 1929)? Mais do que possa parecer à primeira vista, porque tanto um como o outro, sem traírem suas origens, conquistarão posições de destaque, pairando acima da sua classe e da sua época. Theodore (o 26º presidente dos Estados Unidos, no cargo de 1905 a 1909), o conservador que se tornou progressista, e Franklin (o 32º presidente, de 1933 a 1945), o patrício que se tornou oportunista, conforme os descreveu o cientista político Richard Hofstadter.

Theodore Roosevelt (1858-1919) será lembrado na história como o partidário da “política do Grande Porrete” (”Big Stick”). Alguns anos antes de Woodrow Wilson (o 28º presidente, eleito para dois mandatos, de 1913 a 1921), o modelo máximo do internacionalismo americano, ele se pronunciou a favor de uma política externa ativa, uma espécie de extensão da doutrina Monroe para o conjunto do planeta. “Os Estados Unidos”, dizia Theodore, “são uma grande nação que tem por obrigação, justamente por causa da sua grandeza, de cultivar relações com as outras nações da Terra, e nós devemos nos comportar como um povo que assume tais responsabilidades”.

No que diz respeito às questões internas, ele se insurge contra os monopólios, não por ser movido por qualquer convicção ideológica, mas sim porque ele pensa que o capitalismo está fadado a afundar de vez, caso as necessidades dos assalariados não forem levadas em conta. Em 1902, quando ele ainda é o governador de Nova York, ele incentiva as companhias de mineração a encontrarem um compromisso salarial com os seus operários.

Ele tornou-se presidente por acidente. Os caciques do Partido Republicano, que estavam irritados com a sua luta contra a corrupção e suas boas relações com os sindicatos, indicaram-no para ocupar a vice-presidência, na chapa do presidente McKinley. Infelizmente, William McKinley morre assassinado pouco após a sua eleição, e Roosevelt assume então a presidência, para a qual ele é reeleito em 1904.

Ele entendeu que a industrialização que tomou conta do país desde o final do século 19, com todas as misérias colaterais que ela acarreta, exige reformas. Os princípios tradicionais do Grand Old Party, o partido da indústria, caducaram. Roosevelt conduz uma política norteada pelo slogan do “Square Deal” (Acordo Quadrado), que anuncia de certa forma o New Deal do seu “remoto” sobrinho, uma expressão que havia sido pronunciada sem nenhuma intenção particular no decorrer de uma discussão. Como o seu nome indica, o “Square Deal” comporta quatro elementos: o Estado deve desempenhar o papel de intermediário para garantir um “compromisso honesto” entre os grupos sociais; o presidente não deve apenas zelar pela execução das leis, como também propor ele mesmo projetos de lei; ele deve ser o “mordomo do povo” e fazer tudo aquilo que a Constituição não lhe proíbe, dentro do interesse de todos.

Teddy Roosevelt compreende também que os imigrantes, que foram repelidos pela pobreza na Europa e atraídos pela industrialização americana, devem ser integrados. Ele é o primeiro presidente a nomear católicos e judeus em seu governo, além de atribuir responsabilidades a negros. Conforme lembra o cientista político francês Denis Lacorne, ele era um grande admirador da peça de teatro de Israel Zangwill (1864-1926, um dramaturgo inglês e judeu), “The Melting Pot”. Esta adaptação de “Romeu e Julieta” de Shakespeare, que celebra o caldeirão no qual se misturam as diferentes origens, tornou-se constitutiva do mito americano. Com isso, Teddy Roosevelt devolveu um lado progressista ao Partido Republicano no nordeste dos Estados Unidos onde, alguns anos mais tarde, se reunirão os “Roosevelt Republicans”, ou seja, liberais liderados por Nelson Rockefeller (homem político, 1908-1979, vice-presidente de Gerald Ford de 1974 a 1977), no quadro da Ripon Association, do nome do vilarejo onde, em 1854, o partido havia sido fundado.

Ao encerrar seu segundo mandato, Theodore Roosevelt não volta a se candidatar. Ele não demora a se arrepender desta decisão e retoma na África sua antiga vida de aventureiro brigão. Em 1912, de volta aos Estados Unidos, ele se inscreve no Partido Progressista por não ter conseguido obter a investidura dos republicanos. Na eleição, ele alcança o segundo lugar, atrás do democrata Woodrow Wilson, com cerca de 30% dos votos populares, o que é um resultado excepcional para o representante de um terceiro partido.

Ao ser indagado a respeito de quem seria o seu modelo político, John McCain desdenhou as figuras mais recentes do movimento conservador - Ronald Reagan, George W. Bush ou Barry Goldwater -, e citou Theodore Roosevelt, pelo seu reformismo, sua preocupação com o meio-ambiente e sua política externa. E ele acrescentou: “Eu não creio que o governo deva fazer aquilo que podem fazer o livre empreendimento, a empresa privada, o empreendedor livre e os Estados. Mas o governo [central] deve sim se encarregar de cuidar daqueles que, na América, não podem cuidar de si mesmos”.

Será possível salvar os capitalistas da sua própria estupidez? Com o tempo, Teddy Roosevelt havia sido tomado por um sentimento de desprezo para com todos aqueles negocistas “cuja alma endurecera enquanto o seu corpo havia amolecido”. Ainda assim, ele também detestava a plebe, os movimentos sociais organizados e todos aqueles “humanitários sentimentais”.

A mesma questão assombrou a mente do outro Roosevelt (1882-1945), o democrata, durante todos os anos em que o New Deal foi implementado. A sua política de intervenção do Estado na vida econômica, que incluiu o crescimento das despesas públicas, tem sido o objeto de ataques virulentos por parte das grandes companhias e dos meios de negócios. O descendente de uma família de patrícios, ele jamais teria imaginado que um dia ele seria tratado de “socialista disfarçado”, ao passo que, durante a Grande Depressão, ele temera o crescimento das forças de esquerda, provocado pela cegueira dos capitães da indústria. Foram os comentários zombeteiros destes últimos que assentaram sua reputação de reformista.

Ao ser eleito presidente em 1932, Franklin Delano Roosevelt - FDR, conforme ele passaria a ser chamado por todos - não assume o cargo carregando uma pesada bagagem ideológica, nem mesmo movido por uma idéia política bem definida. Enquanto o seu predecessor, o republicano Herbert Hoover, carecia de “movimentação”, ele carece de “direção”, escreveu Richard Hofstadter. Em relação às questões fundamentais, ele não se posiciona em desacordo com os princípios do seu predecessor. É porque ele não tem nenhum, ou, pior ainda, ele defende diversos princípios perfeitamente contraditórios. Hoover tinha certa razão quando dizia de FDR: “Ele é um camaleão sobre um cobertor escocês”. Mas ele está disposto a ouvir todo mundo, a sentir o humor da opinião, a utilizar os métodos modernos de propaganda para suscitar o apoio da maioria. Após ter se posicionado inicialmente como um partidário da organização da raridade para lutar contra a recessão, ele se joga de cabeça na experimentação e no ativismo. A unidade do New Deal não é econômica, mas sim política. Sempre deve haver alguma forma de fazer com que cada cidadão seja beneficiado de alguma forma e, se novos descontentes vierem a surgir, será preciso apaziguá-los por meio de novas soluções.

Foi no decorrer do seu segundo mandato - ele será o único presidente dos Estados Unidos a ser eleito por quatro vezes, apesar da doença que deixa as suas pernas paralisadas - que FDR deu uma guinada em direção à esquerda, provocada ao mesmo tempo pelas críticas que recebeu dos meios de negócios e pelo fracasso da primeira fase do New Deal. Ele reuniu os sindicatos e os negros em volta dele e do Partido Democrata. Ele saboreou esta popularidade sem, contudo, alimentar quaisquer ilusões em relação à sua profundidade. Ele se comparou ao presidente Andrew Jackson (1829-1837), de quem ele dizia que era amado pelo povo “por causa dos inimigos que ele andou criando contra ele no caminho”. FDR impôs os dissídios coletivos, o imposto sobre a riqueza, a seguridade social.

O jornalista Walter Lippman avalia que o New Deal é “o programa de reformas mais completo que já tenha sido implementado neste país por qualquer administração”. Além disso, as suas realizações ultrapassam os limites de uma presidência e de um partido. Roosevelt ancorou tão profundamente seus valores no espírito nacional que os republicanos serão obrigados a levarem essas realizações em conta em seus programas.

A sua política externa também contribuiu para consolidar o lugar de FDR na História, tanto com a entrada em guerra dos Estados Unidos ao lado das democracias européias contra o nazismo e o fascismo quanto com a criação das Nações Unidas. Da mesma forma que em matéria de economia, Roosevelt não tem uma opinião muito definida, no início do seu governo, em termos de política externa. No momento da Primeira Guerra Mundial, ele não é nem isolacionista, nem intervencionista. Depois do tratado de paz de Versalhes (1919), ele se mostra inicialmente favorável à criação da Sociedade das Nações, que havia sido proposta por Woodrow Wilson, e então se posiciona contra ela quando o projeto é derrubado pelo Senado americano. No final dos anos 1930, ele volta a pôr sobre a mesa a idéia de segurança coletiva, a qual ele pretende implementar ao sair da Segunda Guerra Mundial, contando para tanto, conforme ele espera, com o apoio de Stálin (Joseph Stálin, 1878-1953, que governou a União Soviética do final dos anos 1920 até a sua morte), que ele chamava de “Tio Joe”.

A marca de Franklin Delano Roosevelt permaneceu profundamente impregnada na vida política americana muito além dos treze anos que ele passou na Casa Branca. A coalizão do New Deal, dos desfavorecidos, dos “colarinhos azuis” (os operários), dos negros, garantiu o sucesso político dos democratas até meados dos anos 1950. FDR também alterou a imagem do seu partido, que parou de se apresentar como o defensor dos direitos dos Estados federados contra o Estado Federal, desistindo de apoiar a idéia de um “governo mínimo”. Ao contrário, ele foi o próprio exemplo do intervencionismo e da consolidação do Estado central. Uma controvérsia que já opunha entre eles os federalistas e os antifederalistas em torno da criação da União, e que até hoje permanece na ordem do dia.

“Le Monde”

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