Principal potência que se beneficia da globalização está na Ásia

Caroline Fourest*

Nós adotamos o hábito de denunciar a globalização como uma forma de ocidentalização. Os adversários do universalismo vão mais longe, assimilando a ocidentalização a uma espécie de colonização cultural. Essa retórica permite principalmente que os regimes autoritários associem ao Ocidente valores como os direitos humanos, a democracia ou a laicidade, para melhor recusá-los em nome do antiimperialismo. Essa estratégia discursiva poderia causar ilusão enquanto a maior potência econômica era americana. O que será amanhã, quando finalmente percebermos que a principal potência que se beneficia da globalização não vem do Ocidente, mas do Extremo Oriente?

Vários conflitos, notadamente os que dilaceram a África, não são mais ditados pelos interesses econômicos europeus ou americanos, mas chineses. A sinistra “Françáfrica” está sendo amplamente destronada pela “Chináfrica”, do nome de um livro de Serge Michel e Michel Beuret que descreve bem essa nova realidade (editora Grasset). O comércio bilateral entre as duas regiões quintuplicou entre 2000 e 2006. Estima-se em 500 mil o número de chineses que vivem na África para construir estradas, hotéis e barragens. É o que já se chama de “aspecto positivo” da presença chinesa na África. O aspecto negativo é esse apetite devorador de energia e de matérias-primas, que a levou a fazer negócios com ditadores em detrimento das populações, da democracia, do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável.

Oficialmente, é claro, não se trata de dominação. A China insiste ao contrário em aparecer como uma potência do sul, e lembra sua presença ao lado dos não-alinhados na conferência de Bandung. Durante as cúpulas sino-africanas ela reivindica uma “parceria estratégica de um novo tipo”, caracterizado pela “igualdade e a confiança recíproca no plano político” e na “cooperação em que todos saem ganhando no plano econômico”. Dito de outro modo, ela defende sem complexos um negocismo diferencialista do tipo “nossos lucros valem mais que os direitos humanos”.

Sem essa política cínica, haveria menos mortos em Darfur, mais democracia na Birmânia e talvez um novo governo no Zimbábue. Bizarramente, além de países que buscam tentam esquecer suas próprias vítimas, muitos poucos sonham em denunciar a falta de consciência dessa nova força econômica. Sobretudo não certos militantes que reivindicam uma consciência antiimperialista ambígua, feita de admiração pela “resistência” islâmica e uma certa complacência em relação à China.

Esses não militam realmente a favor de um eixo Norte-Sul mais justo, nem mesmo contra os efeitos da globalização ultraliberal. Eles desejam sobretudo uma vingança de identidade contra os EUA, a Europa e Israel (ou seja, contra os judeus). Desde que é oriental e não ocidental, a China pode portanto se permitir pilhar a África ou mesmo discriminar sua minoria muçulmana uigur sem correr o risco de ser chamada à ordem.

Esse posicionamento acrobático corre o risco de ser cada vez mais difícil de manter. Depois de um período de dominação principalmente discreto, empurrado pelas necessidades crescentes de energia e matérias-primas, a nova potência do Extremo Oriente poderia ser tentada a passar a uma marcha mais rápida. O sucesso de seus imigrantes já provoca hostilidade na Indonésia, onde o sentimento antichinês continua pronto a ressurgir. Na África algumas populações resmungam contra esses chineses que se vêem em toda parte e que roubam seu trabalho… Com o tempo esse ressentimento talvez acabe fazendo esquecer velhos rancores, como o que existia entre a Europa e suas antigas colônias.

No entanto, enquanto o islamismo ocupa o teatro de nossas preocupações imediatas, a oposição Ocidente/Oriente funciona como uma cortina de fumaça. Nos bastidores a China tem interesse nisso. Em um plano econômico, o azedume dos países muçulmanos em relação ao Ocidente lhe permite conseguir contratos por preços que não poderia negociar sem esse contexto exacerbado. Em um plano mais simbólico, o enfoque no Ocidente lhe permite ter todas as vantagens da potência econômica sem os inconvenientes.

Essa situação idílica não poderia durar. A China percebe que sua nova situação supõe deveres para com a comunidade internacional. Sua mediação em Darfur, suas hesitações a respeito das armas pedidas por Mugabe e o início da transparência durante o terremoto em Sichuan são sinais animadores. Em algumas gerações, como todas as primeiras potências, ela terá secretado seus próprios contrapoderes.

Enquanto isso, a nova ordem mundial à sombra da China promete horas de instabilidade em detrimento dos direitos humanos. Quem terá meios para contestá-la? Não a França de Nicolas Sarkozy, tão sensível aos interesses do mundo dos negócios. Durante seu discurso sobre a política de civilização ele sugeriu uma diplomacia que prefira “a diversidade à democracia”. Uma expressão que corresponde palavra por palavra ao credo utilizado pelos dirigentes chineses para reivindicar um mundo sob o signo do diferencialismo e do negocismo, e não sob o signo do universalismo e dos direitos humanos.

*Caroline Fourest é ensaísta e professora na Science Po.

“Le Monde”

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