Um falso altar na igreja capitalista
O Autêntico Adam Smith, de James Buchan, mostra que filósofo escocês foi santificado por aquilo que nunca escreveu{HEADLINE}
Leonardo Trevisan
O cruzamento entre economia e filosofia sempre deu o que falar. Se doses consideráveis de fina ironia são incluídas nessa mistura, o resultado será conclusões como: “nunca vi nada de bom feito por aqueles que pretendem negociar em nome do bem público.” Adam Smith , o autor dessa atenta percepção, talvez o apóstolo mais consistente do capitalismo, sustentou tanto decisões contemporâneas de Alan Greenspan como no passado inspirou desde Tom Paine até o velho Marx. A explicação para admiradores tão diversos, provavelmente, venha mesmo da coragem desse filósofo, que estudou para presbítero em Oxford.
A paixão de tanta gente pela obra de Smith vem de sua impressionante curiosidade que incluía escrever sobre história da linguagem, sobre astronomia ou sobre a afinidade entre os versos italianos e ingleses, além da constante preocupação com estética. Essa diversidade de interesses permitiu que o autor do Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações construísse ligações curiosas, como a que fez ao investigar as origens do dinheiro como “instrumento de persuasão” a partir dos movimentos da linguagem, percebendo uma “conexão orgânica” entre a ascensão do comércio e o uso da prosa como meio de comunicação porque, segundo Adam Smith, “ninguém nunca regateou em versos”.
O mais curioso é a possibilidade de que Adam Smith tenha sido santificado na igreja capitalista pelo que nunca escreveu. James Buchan, romancista premiado, correspondente do Financial Times em vários cantos do mundo, notou que a expressão laissez-faire, não aparece em lugar algum de seus textos. Buchan, em O Autêntico Adam Smith (Rocco, 160 págs., R$ 27), com tradução de Nivaldo Montingelli Júnior, expôs as contradições de Smith como criticar a política comercial britânica nas colônias, sem considerar a independência como solução.
O interesse de Buchan é captar a trajetória das idéias na obra de Adam Smith. Ele destacou a influência do pensamento dos estóicos como ponto de partida de A Teoria dos Sentimentos Morais. Buchan identificou a forte influência que teve em Smith a leitura do livro de Mandeville (1714), A Fábula das Abelhas, com o argumento de que tudo que era conhecido como virtude se originava no egoísmo, seja amor pelo lucro ou pelo elogio, desde que o objetivo final fosse o melhor. Nessa lógica, o luxo, atacado pelos antigos e modernos por solapar a força moral do indivíduo e dos Estados, na verdade colocava a indústria em movimento e dava emprego a milhares. Smith pretendeu criticar Mandeville, mas absorveu por inteiro a teoria do luxo benéfico, ciente dos paradoxos morais.
Em A Teoria dos Sentimentos Morais, Smith não procura explicar por que uma ação é certa e outra errada, mas como “num mundo que dispensou a autoridade externa” formamos essa diferença. Trata-se de uma busca não do que é certo e bom para os homens, mas pela teoria de como os seres humanos “formam julgamentos do que está certo ou errado em determinadas ocasiões”. Buchan percebeu que nascia aí a possibilidade tanto de observar como as nações cresciam de modos diferentes mas interligados, como a percepção de que a ausência de uma “autoridade externa” tornava muito necessária a existência de uma “mão invisível” atuando como equilíbrio. Foi em A História da Astronomia, de 1759, que a expressão “mão invisível” apareceu pela primeira vez, não como mecanismo comercial, mas como projeção do pedido por coerência a um agente supremo, ou como propôs Buchan, “a um pai num mundo sem pais”.
Adam Smith deixou Oxford, formado no Balliol College, sem perspectiva de emprego porque não tinha jeito para a carreira eclesiástica. As opiniões de Smith sobre Oxford não eram elogiosas: “se alguém colocar sua saúde em risco em Oxford por excesso de estudo, terá sido por erro seu.” Ele lecionou 13 anos na Universidade de Glasgow. Para o apóstolo mais conhecido do livre comércio, o pior mesmo é a descoberta de Buchan de que Smith sabia que os comerciantes de Glasgow “enriqueceram de fato explorando as restrições ao comércio com as colônias”. Essas percepções não devem ter sido o único motivo, mas vale lembrar que os contemporâneos de Adam Smith sempre o descreveram como alguém muito deprimido.
“Estado de S. Paulo”
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 68.