Arquivo de 1 de Outubro de 2008

Polícia alemã descobre colônia de férias neonazista

Marie de Vergès

Foi um campo de férias de um tipo um tanto peculiar que descobriram na sexta-feira, 8 de agosto, os inspetores da polícia do Mecklemburgo-Pomerânia-Ocidental, uma região do nordeste da Alemanha. Instalada na área central de um vasto terreno privado coberto por sobosques, a organização de juventude de extrema-direita Heimattreue Deutsche Jugend (HDJ), literalmente “juventude fiel à pátria”, havia plantado 14 barracas brancas.

Os policiais evacuaram a área na sexta-feira, após terem descoberto a existência de indícios de propaganda nazista. As 39 crianças e adolescentes que estavam passando suas férias no campo, com idades de 8 a 14 anos, foram enviados de volta para casa. Todos eles lá se encontravam com o consentimento dos seus pais, dos quais uma dúzia, aliás, estava presente no local.

Entre os elementos de prova que foram encontrados pelos investigadores estão fitas cassetes; livros; peças de tecido nas quais estavam impressas cruzes suásticas; e ainda mapas geográficos representando a Europa e a Alemanha conforme as fronteiras de antes de 1918. “Nesses mapas, nos quais não constava nenhum nome, as crianças deviam, por exemplo, situar “a província alemã de Memel”, um território que pertence hoje à Lituânia”, relata o porta-voz da polícia de Rostock. “A maioria dentre eles estava trajando um uniforme composto por uma bermuda cinza e uma camiseta azul claro”, descreve o funcionário.

Proibição exigida
A organização pretende se valer de sinais que façam com que ela se pareça com os grupos de escotismo e as imagens que lhes dizem respeito. A insígnia que ela escolheu como símbolo representa uma fogueira de acampamento. O tom empregado pelos seus dirigentes remete à retórica ultranacionalista: em seu site na Internet, a HDJ descreve a si mesma como “um movimento de juventude devotado ao povo e à pátria, destinado a todas as moças e a todos os rapazes alemães de 7 a 29 anos”.

Chocados pelos relatos das tentativas de doutrinamento às quais as crianças foram submetidas, diferentes responsáveis políticos, tanto os de direita como os de esquerda, exigiram que a organização fosse proibida. Na opinião de muitos especialistas, a HDJ é a herdeira direta do movimento neonazista Jeunesse Wiking, proibido desde 1994. Segundo certas estimativas, ela reuniria cerca de 400 membros, majoritariamente no leste do país.

Este caso vem lembrar, aliás, que a ex-RDA (a antiga Alemanha Oriental) continua sendo a mais atingida pelo ressurgimento da extrema-direita desde a reunificação, em 1990. “Não se deve exagerar a importância da direita radical na Alemanha, mas a sua particularidade é de estar muito implantada nos “novos Länder” [Estados]. O fenômeno pode ser observado, entre outros, com essas organizações de jovens que exercem uma influência nefasta sobre uma geração inteira”, explica Wolfgang Wippermann, um professor de história contemporânea na Universidade livre de Berlim e um especialista nessa vertente.

Nesse sentido, vale lembrar que os partidos de extrema-direita estão representados em três dos seis Parlamentos regionais da ex-Alemanha do Leste - a Saxônia, o Mecklemburgo-Pomerânia-Ocidental, e o Brandeburgo. Além disso, crimes comuns de natureza xenófoba vêm confirmar regularmente a influência que os neonazistas exercem.

“Le Monde”

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Krugman: dinheiro em troca de lixo

Paul Krugman

Alguns críticos estão chamando o plano de resgate de US$ 700 bilhões (em torno de R$ 1,2 trilhão) de Henry Paulson para o sistema financeiro americano de “dinheiro em troca de lixo”. Outros estão chamando o projeto de lei de “Autorização para Uso de Força Financeira”, em uma comparação com a “Autorização para Uso de Força Militar”, a lei infame que deu ao governo Bush luz verde para invadir o Iraque.

Há justiça nessas zombarias. Todo mundo concorda que algo grande deve ser feito. Paulson, entretanto, está exigindo extraordinário poder para si mesmo - e para seu sucessor, para que possa empregar o dinheiro do contribuinte em um plano que, até onde eu posso ver, não faz sentido.

Algumas pessoas dizem que devemos simplesmente confiar em Paulson, porque ele é um sujeito inteligente que sabe que está fazendo. Mas isso é apenas meia verdade: ele é um sujeito inteligente, mas o que, exatamente, na experiência do último ano e meio, justifica a crença de que sabe o que está fazendo? Nesse tempo, Paulson repetidamente declarou que a crise financeira estava “contida” e depois ofereceu uma série de soluções fracassadas. Ele está lidando com as coisas na medida em que aparecem, como nós.

Então vamos tentar pensar por nós mesmos. Eu tenho uma forma de ver a crise em quatro passos:

1. A explosão da bolha imobiliária provocou um surto de calotes e falências, que por sua vez levaram a um mergulho nos preços das securities lastreadas em hipotecas - títulos cujo valor, no fim, vinham de pagamentos de hipotecas.

2. Essas perdas financeiras deixaram muitas instituições financeiras com pouco capital em relação a sua dívida. Esse problema é especialmente severo porque todo mundo assumiu tanta dívida durante os anos de bolha.

3. Como as instituições financeiras estão com pouco capital em relação a sua dívida, elas não tiveram capacidade ou disposição de fornecer o crédito que a economia precisa.

4. As instituições financeiras vêm tentando pagar suas dívidas vendendo títulos, inclusive aquelas securities lastreadas em hipotecas, mas isso força seus preços para baixo, tornando a situação financeira ainda pior. Esse círculo vicioso é o que alguns chamam de “paradoxo da desalavancagem”.

O plano de Paulson sugere que o governo federal compre US$ 700 bilhões de títulos problemáticos, principalmente obrigações lastreadas em hipotecas. Como isso resolve a crise?

Bem, pode - talvez - romper o círculo vicioso da desalavancagem do ponto 4 na minha curta descrição. Contudo, nem isso não está claro: os preços de muitos títulos, não apenas os que o Tesouro se propõe a comprar, estão sob pressão. E mesmo que o círculo vicioso seja limitado, o sistema financeiro ainda estará sem capital adequado.

Ou talvez não fique sem capital adequado, se o governo federal pagar enormemente pelos títulos que comprar, dando para as financeiras - e a seus acionistas e executivos - um gigantesco benefício às custas do contribuinte. Será que mencionei que não estou feliz com esse plano?

A lógica da crise parece pedir uma intervenção não no quarto ponto, mas no segundo: o sistema financeiro precisa de mais capital. E se o governo vai fornecer capital para as firmas, deve receber em troca o que aqueles que provêm capital têm direito - uma parcela da propriedade, para que de todos os ganhos de um plano de resgate bem sucedido não vão para as pessoas que criaram a confusão em primeiro lugar.

Foi isso o que aconteceu na crise da poupança e empréstimos: os federais assumiram a propriedade dos bancos em dificuldades, não só os títulos podres. Foi isso também o que aconteceu com Fannie e Freddie. (E por falar nisso, esse resgate fez o que deveria. Os juros de hipotecas caíram fortemente desde a tomada federal.)

Paulson, entretanto, insiste que quer um plano “limpo”. “Limpo”, nesse contexto, significa uma saída financiada pelo contribuinte sem nenhuma condição - nenhuma retribuição por parte dos que estão sendo liberados da confusão. Por que isso é uma coisa boa? Acrescente a isso o fato de Paulson também estar exigindo uma autoridade ditatorial, com imunidade a qualquer análise por parte da “justiça ou das agências do governo”, e o plano torna-se uma proposta inaceitável.

Tenho consciência que o Congresso está sob enorme pressão para concordar com o plano de Paulson nos próximos dias, com, no máximo, algumas poucas modificações que o tornem menos pior. Basicamente, depois de ter passado um ano e meio dizendo a todos que as coisas estavam sob controle, o governo Bush diz que os céus estão caindo e que para salvar o mundo temos que fazer exatamente o que diz agora, já.

Eu, contudo, instaria o Congresso a fazer uma pausa de um minuto, respirar fundo e tentar seriamente reestruturar o plano, de forma que aborde o problema de verdade. Não se deixe ser atropelado - se esse plano for aprovado em sua forma atual ou parecida, todos nós ficaremos muito arrependidos no futuro não muito distante.

“The New York Times”

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Importações da China destroçam a economia palestina

Ana Carbajosa

Há 41 anos, Abdelaziz El Karaki tece os típicos lenços palestinos (”kufias”) em uma fábrica decadente em Hebron, a única em toda Gaza e Cisjordânia. El Karaki viu o negócio evoluir ao ritmo dos acontecimentos políticos. Na primeira Intifada, nos anos 1980, cobrir o rosto com o lenço palestino se transformou em símbolo de resistência e as vendas dispararam, enquanto nos períodos mais tranqüilos as receitas diminuíram. Mas nenhum acontecimento político atingiu tanto a fábrica de Karaki quanto a chegada aos territórios de lenços “made in China”, a preços com os quais não consegue concorrer. “Antes esta fábrica dava de comer a 50 pessoas, agora trabalho sozinho e apenas algumas horas. Se continuar assim, logo terei de fechar”, lamenta Karaki, tendo como pano de fundo o matraquear de quatro das 15 vetustas máquinas da indústria.

Desmoralizado, Yasir Hamad Hirbawi, o dono da fábrica, confirma a tese de seu empregado enquanto fuma com parcimônia no armazém onde guarda milhares de kufias, na esperança de um dia poder vendê-las. “Nas décadas em que trabalhei como empresário, nunca vi uma mudança tão grande”, afirma. “Estamos resistindo, queremos sobreviver e produzir na Palestina, mas…”

Os lamentos de Hirbawi se repetem em todo o território palestino, principalmente em Hebron, seu parque industrial. A chegada das importações chinesas deu o pontapé em uma economia debilitada em boa parte pelas restrições à liberdade de movimentos de trabalhadores e mercadorias impostas por Israel e sua rede de postos de controle, como indicou o Banco Mundial em seu último relatório.

Foram-se os tempos dos famosos sapatos, vidros e têxteis de Hebron. A etiqueta “made in China” entrou nos territórios como um rolo compressor, causando o fechamento de fábricas e a demissão de milhares de trabalhadores. Os números coletados pela Câmara de Comércio de Hebron indicam que, das 120 fábricas têxteis que havia antes de 2000, hoje ficam somente dez e que dos 10 mil trabalhadores empregados pelo setor de calçados só 2.500 conseguiram manter o emprego. O restante passou a engordar a cifra do desemprego, que beira os 32%, segundo dados oficiais.

É verdade que o caso palestino não é um fenômeno isolado, que a locomotiva chinesa não conhece fronteiras, mas os palestinos empobrecidos - com receitas que beiram os US$ 1 mil anuais per capita - são especialmente propensos a consumir produtos baratos, seja quem for o fabricante. “A ocupação destruiu a economia das famílias, que agora começam a comprar produtos chineses baratos”, explica Jales Osaily, prefeito de Hebron, para quem sobreviver aos vaivéns da globalização é tão preocupante quanto resistir à ocupação israelense.

Osaily, membro da chamada Terceira Via palestina, o partido minoritário criado em torno do primeiro-ministro Salam Fayyad, acredita que a única solução é se concentrar no desenvolvimento tecnológico e no setor de serviços. Como explicou ao ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, enviado especial da comunidade internacional ao Oriente Médio, sua idéia é montar zonas francas em Hebron que atraiam os investidores estrangeiros e que sejam capazes de concorrer com a produção chinesa, graças aos acordos de isenção fiscal que a Autoridade Palestina mantém com os EUA e a União européia. “Mas tudo isso só será possível se melhorar a liberdade de movimento dos palestinos”, afirma em seu elegante escritório na prefeitura.

Na sede da Câmara de Comércio de Hebron, seu diretor Maher Haimuni conta que, apesar do desembarque de importações chinesas “ter destruído nossa economia”, alguns poucos, mais ousados, souberam tirar partido da nova realidade e embarcaram no trem das importações. São centenas de hebronitas que viajam regularmente à província chinesa de Guangdong para fazer negócios e comprar mercadorias.

Haimuni conta que o cônsul chinês em Ramala se desloca até Hebron, onde assina centenas de vistos de uma vez. Alguns empresários palestinos acabam morando na China e outros, embora já casados, aproveitam as viagens de negócios para se casar com chinesas, recorrendo à poligamia que o islamismo permite. Os rumores sobre casamentos de hebronitas com chinesas percorrem os territórios palestinos como pólvora.

Hamed Shawar afirma que ele não tem outra mulher na China, apesar de ter sido dos primeiros a se aventurar no mercado asiático e a cada dois meses viajar à Ásia para controlar o andamento de seus negócios. Hoje administra um próspero comércio de lenços, no qual as importações substituíram progressivamente a produção local. “Foi muito triste a decisão de deixar de produzir aqui. Tínhamos 30 trabalhadores e agora restam só dez, que nem sequer me fazem falta. Prefiro os chineses. Se não fosse por suas famílias, os demitiria”, confessa sem rodeios em sua loja no centro de Hebron, no meio de sutiãs e túnicas ao gosto palestino, mas, sim, fabricados na China.

“El País”

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Operação García Lorca

De georradares a geneticistas. Tudo está pronto para recuperar e identificar os restos de García Lorca e dos homens que compartilharam seu martírio no auge da Guerra Civil espanhola. A família do poeta expressou seu veto. A última palavra é do juiz Garzón.

Jesús Ruiz Mantilla

Toda cidade tem sua própria via crucis. No caso de Granada, trata-se de um caminho sinuoso e inquietante: que vai desde a rua da Duquesa até os arredores de Alfacar. Foi lá que aconteceu, em 18 de agosto de 1936, o martírio do poeta Federico García Lorca e de mais três homens: o professor Dióscoro Galindo e os toureiros anarquistas Joaquín Arcollas Cabezas e Francisco Galadí.

Entre a sede do Governo Civil, de onde Lorca partiu de carro sem saber para onde, e a vala na qual terminaram os quatro, despojados de sua vida e sua dignidade, as curvas estreitas continuam driblando todos os mistérios daquelas mortes. Mas desde que o juiz Baltasar Garzón deu início no começo de setembro, na Audiência Nacional, a um processo judicial tão ambicioso quanto controverso, a história desse assassinato poderá ser esclarecida com a exumação de todos os restos mortais.

Tudo já está preparado para acontecer. Uma equipe da Universidade de Granada, organizada em colaboração com a Associação para a Recuperação da Memória Histórica (ARMH) da cidade, simplesmente espera por uma ordem. Ela é composta de arqueólogos, especialistas em geofísica, antropologia física e em DNA, e está pronta para receber um telefonema do juiz. Será um trabalho curto: dois meses desde o início. Se comparados aos 72 anos que passaram desde o assassinato, não parecem nada.

As coisas sofreram uma reviravolta há apenas dez dias. Os familiares de Dióscoro Galindo e Francisco Galadí apresentaram na quarta-feira um pedido para recuperar os cadáveres de seus familiares. O maior obstáculo até o momento era o desejo da família de García Lorca de não mexer no lugar. Mas a decisão anunciada na última quinta-feira por Laura García Lorca - sobrinha do poeta, presidente da fundação que leva o nome dele e porta-voz da família - de não impedir em nada o processo, transformou de maneira radical as expectativas dos demais envolvidos. “Abrir a vala não fecha nossas feridas. Não gostaríamos que o fizessem, mas respeitamos os desejos das outras famílias”, assegurou.

A reação implica um claro sinal verde. Pelos barrancos de Víznar, onde podem existir entre 2.500 e 2.700 mortos segundo a Associação para a Recuperação da Memória Histórica e Granada, os habitantes dos bairros vizinhos fazem caminhadas e passeiam tranquilamente com carrinhos de bebê. A paisagem é semidesértica e rude, mas têm suas relíquias. A fonte de Aynadamar (das Lágrimas), cujo manancial rega a área desde o século 11, confundiu muitas vezes, nos sinistros anos da guerra, o barulho da água com o eco do sangue. Na quarta-feira ela destilava, em vez disso, um esperançoso reflexo cristalino.

Talvez a claridade não fosse tão intensa no dia em que o hispanista Gerald Brenan se apresentou por ali, como um pioneiro da justiça histórica, em busca do poeta. Contou sobre isso num capítulo mais do que emocionante de seu livro “La faz de España” [”A face da Espanha”], uma memória limpa e fascinante de seu regresso ao país de seus amores nos anos 50. Ao chegar a Granada, Brenan foi onde todo homem de bem teria ido para perguntar pelos mortos. Direto ao cemitério. Conforme se recorda Juan Antonio Díez López, granadino especialista na obra do inglês: “Disseram-lhe que esse Lorca não estava ali, claro”.

Brenan encontrou um país destruído, uma terra órfã profanada pela barbárie e o estandarte dos derrotados. Muitos seguiram seus passos, entre eles, Ian Gibson. O biógrafo irlandês de Lorca investigou a fundo a morte do poeta nos anos 60 e publicou um livro que, obviamente, Franco proibiu, e que se transformou numa referência sobre aqueles fatos. O livro intitulava-se “La represión nacionalista de Granada em 1936 e a morte de Federico García Lorca” [”A repressão nacionalista de Granada em 1936 e a morte de Federico García Lorca”], e nele Gibson chegou a marcar o lugar exato onde, segundo suas pesquisas, encontra-se a vala na qual os homens foram enterrados.

Foi levado até lá por Manuel Castilla Blanco, que cavou o buraco na madrugada de 18 de agosto de 1936. Hoje, um parque com o nome do poeta recorda o local que passou a ser sagrado. Ainda assim, a sombra da especulação também o espreita. “Ali, junto ao pinheiral onde está a vala descrita por Gibson, abaixo dos chalés que foram construídos, calculamos que existam 40 valas”, diz Francisco González, presidente da Associação para a Recuperação da Memória Histórica de Granada.

Manter os restos no local para protegê-los da especulação era uma das razões pela qual os familiares de García Lorca defendiam que o lugar não fosse violado. Mas essas não são as únicas tumbas do entorno. Nem da província. A ARMH granadina já localizou 120 valas, ainda que saibam que a de Lorca e dos outros três homens é a que guarda o maior valor simbólico.

Todavia, existem dúvidas mais do que razoáveis sobre sua localização.

A família do poeta, apesar de admitir que o trabalho de Gibson é referência, também as têm. “Uma das razões que nos motivam a não querer remover o terreno é que não há certeza absoluta sobre a localização”, dizem. Francisco González, por sua vez, acredita que ela possa estar 400 metros antes do local, no caminho entre Víznar e Alfacar. Foi o que disse um morador da área: Valentín Huete García.

Segundo esse homem, o lugar oficialmente reconhecido pode não ser exato. “Ele me indicou esse aqui”, comenta González, no lugar conhecido como Las Colonias, última parada antes da morte dos condenados. “Indicou exatamente ali em frente, e me disse: ‘Naquelas oliveiras em frente ao Caracolar’”.

É um lugar que já havia sido indicado por outros dois pesquisadores, Agustín Penón e Eduardo Molina Fajardo. “Os moradores do local, que nunca perderam de vista a paisagem, também indicam esse lugar”, afirma Francisco González. Ele diz isso depois de mostrar uma pedra evidente e isolada das demais, que se encontram a cerca de cem metros. “Os coveiros marcavam as valas com uma pedra. Era a maneira de indicar que não cavassem o terreno”, comenta o presidente da associação granadina.

E acrescenta: “No outro lugar não havia nenhuma [pedra] que o assinalasse, mas pode ser uma exceção”.

O medo também confunde. “Os que não conheciam a área e voltaram depois, como era o caso de Manuel Castilla Blanco, conhecido como Manolillo o Comunista, podiam se equivocar. Os dois lugares são muito parecidos. Além disso, estavam muito nervosos; é preciso levar em conta que aquela ainda era uma época de deslealdade”.

Para que o processo caminhe, seria conveniente não criar muita confusão. Mas hoje existe tecnologia mais que confiável para saber onde se encontram as valas. Bastariam alguns georradares para saber em qual dos dois lugares o terreno foi removido.

Por isso, tudo está mais do que preparado. E os agentes da ação estão prontos para atuar. Assim que o juiz Garzón ordenar a exumação, a associação já tem definido, junto à Universidade de Granada, um plano de ação para levar a cabo com todas as garantias científicas. Por um lado, a escavação seria feita por uma equipe de arqueólogos ligados ao departamento de pré-história e coordenada por Francisco Carrión. Os georradares com os quais se exploraria o lugar pertencem ao Instituto de Geofísica da universidade. A análise dos restos mortais ficaria por conta do Instituto de Antropologia Física dirigido por Miguel Botella, um pesquisador experiente que realizou trabalhos para encontrar vítimas de Ciudad Juárez, no México, e desaparecidos na ditadura chilena de Pinochet. A operação duraria, segundo Botella, dois meses.

Os passos são claros: “identificar as valas, escavar e estudar os restos in loco, sem tirá-los dali, para identificá-los”, comenta o cientista. Em seguida seriam transferidos para a universidade para uma análise minuciosa que depois seria apresentada a cinco especialistas internacionais. Depois cada família faria com os restos o que achasse mais oportuno.

Os García Lorca querem, a princípio, mantê-los ali. Nieves Galindo, neta de Dióscoro, os levaria a Puliana. Cidade em que Galindo deixou sua marca, onde era o professor. E onde o prefeito Rafael Gil, do PSOE, ofereceu à família enterrá-lo no lugar onde ele ensinou até que a morte cruzasse seu caminho. Nieves está esperançosa. O processo aberto por Garzón ergueu a moral destruída em sua família desde a noite em que ele desapareceu. “Toda essa quantidade de valas com gente enterrada, sem nome nem sobrenome, é como ter animais na sarjeta: um atropelo e um abandono total. Agora nos cabe recuperar nossa memória, nossas feridas estão abertas. Não se fecharam”, comenta.

Dióscoro, que tinha 60 anos quando foram buscá-lo, havia cometido um crime recorrente em sua vida: ser ateu e exercer o ensino baseado em princípios laicos. Os falangistas do povo o haviam catalogado como “o professor vermelho”. Cometeu o atrevimento de defender a Frente Popular nas mesas eleitorais para evitar o coronelismo nas eleições.

Não foi difícil para os assassinos colocarem-no na cruz. Uma cruz que veio a pesar na vida de seu filho Antonio, pai de Nieves. “Até a sua morte não quisemos fazer nada. Ele teve medo durante a vida toda”, disse ela. Antonio tinha 25 anos quando mataram seu pai. Estava no quarto ano de medicina e teve que interromper o curso. A carreira nas salas de cirurgia foi destruída, ele teve de ganhar a vida nos andaimes, escritórios ou como chofer para uma marquesa. “Uma boa mulher que tentou lhe devolver a faculdade”, comenta Nieves. Mas foi inútil. “Ele não quis voltar. Temia que o identificassem e colocassem na prisão”.

A sombra ficou para os filhos. Marcou a todos. O mesmo aconteceu com os descendentes de Francisco Galadí. E o paradeiro dos parentes mais próximos do outro toureiro, Joaquín Arcollas Cabezas, ainda é um mistério. Ninguém reclamou seu corpo. Os dois foram, além de toureiros, membros insurrectos da CNT e da FAI. No levante de Albaicín, participaram de piquetes de greve e discussões. Os encarregados da repressão não gostavam deles. Enquanto Dióscoro Galindo foi detido em sua casa, onde pensava que nada podia lhe acontecer, Arcollas e Galadí foram pegos quando fugiam.

Os três passaram a engrossar a lista negra na qual o número um era outra pessoa. O poeta Federico García Lorca. Um homem se empenhou em sua detenção. O direitista Ramón Ruiz Alonso, que o encontrou na casa de Luis Rosales, onde Lorca se escondia confiando que ninguém se atreveria a procurá-lo na casa de um importante falangista.

Detiveram-no em 16 de agosto e na madrugada do dia 18 começou seu caminho ao calvário a desde a sede do Governo Civil, ao lado de Dióscoro Galindo. Os dois toureiros se juntaram a eles mais arde, em uma das escalas de seu caminho para a morte.

Todos foram vítimas de uma repressão que acabou em 12.500 desaparecidos em Granada. Enquanto em Víznar existem cerca de 3 mil, há outros tantos assassinados junto às cercas do cemitério - outro buraco negro símbolo da morte na cidade.

Vários haviam sido amontoados numa vala que não foi fechada. “Uma vala na qual se acumulavam os restos mortais e que tiveram que fechar em 1971″, comenta Francisco González. Foi um prefeito, Manuel Pérez-Sarrabona y Sanz, quem o fez. Mas não porque aquilo lhe parecia uma desonra, “e sim porque tinha que aumentar os espaços sobre esses terrenos”, acrescentou o presidente da ARMH granadina. “Sabe o que ele fez com os cadáveres? Os despejou em um lixão”.

A sombra da repressão sempre pesou como uma pedra sobre Granada. É um assunto mais do que pendente. Desde que os pioneiros da ARMH começaram a trabalhar em 1997, pouco conseguiram das autoridades. Tampouco os granadinos se mostraram muito dispostos a colaborar. “Existe uma apatia alarmante na cidade”, assegura o jornalista Francisco Vigueras, membro da associação e autor de “Los paseados com Lorca” [”Os passeios com Lorca”].

As ações do juiz Garzón deram sentido a seu trabalho. “Até hoje, apesar de muitas outras províncias terem exumado suas valas, nenhuma havia sido recuperada em Granada”. E isso porque existe um censo rigoroso que foi apresentado para a Audiência Nacional, com um total de 6.376 casos documentados sobre pessoas que sofreram repressão apenas na cidade, sem contar na província.

À iniciativa de Garzón, que vêem como uma boa notícia, soma-se a nova postura da família García Lorca. De fato, a posição deles não mudou, mas o fato de anunciarem que não impediriam a exumação é um passo gigantesco para o processo. “Os reconhecemos de forma muito positiva e estamos agradecidos”, assegura González, presidente da ARMH.

A privacidade da operação está garantida. “Nossa intenção é proteger os trabalhos com um recinto fechado e contratar segurança 24 horas por dia para que ninguém possa ter acesso”, diz.

Laura García Lorca ressalta que esse é um tema prioritário para eles.

Além da dor que isso implica para sua família. “Abrir uma vala é espantoso para todos. Pode ser um consolo para alguns, uma tranqüilidade; mas para mim, pessoalmente, gera inquietude, sobretudo quando não foi solicitado”. O tema tem a ver com a expressão “abrir e fechar feridas”, que para ela é confusa e pode ser manipulada. “Antes de mais nada, prevalece o sentimento próprio, mais íntimo. No meu caso, cavar essa vala não implica fechar nenhuma ferida. Pode ser que as abra de novo”.

São terrenos tão pessoais como escorregadios. Como o fato de considerar a exumação um ato progressista ou o contrário, conservador: “Isso é algo que se insinua, que paira e que simplesmente não é certo. Não é algo que tenha a ver com a ideologia, mas com o sentimento íntimo, porque nossa ideologia é a que é. Cremos que esse já é um lugar sagrado e que deve ficar como está. É nossa impressão. Naturalmente, queremos que nos ouçam e que nos compreendam, mas não vamos impedir nada”.

É o mesmo que ressalta Manuel Fernández Montesinos, também sobrinho do poeta, filho de sua irmã Concha, que foi a presidente anterior da fundação. “Acreditamos que cada um pode fazer o que achar mais conveniente. É claro, respeitaremos todas as decisões judiciais. Mas este é um caso especial, especialíssimo”. Fernández Montesinos também está preocupado com a repercussão na mídia. “Exigimos privacidade absoluta, que aquilo não se transforme num mercado com câmeras. Para nós, aquele lugar é um santuário civil; será doloroso mexer lá, até mesmo humilhante, mas não nos oporemos”, ressalta.

Onde quer que estejam os restos, é impossível escapar à memória do espanto. Quem havia visto Federico García Lorca, em sua etapa na Residencia dos Estudantes, representar na cama macia de seu quarto a imagem e o momento de sua morte, sabia o que mais o aterrorizava naquele momento. Toda aquela via crucis deve ter sido como um chicote em sua alma e uma coroa de espinhos rasgando-lhe as entranhas. O olhar perdido, ensimesmado, ao lado de Dióscoro Galindo, dentro do carro pelas ruas da Duquesa até San Jerónimo e San Juan de Dios. Depois, pelas pedras da ladeira do Hospício e o passeio da Cartuja até a estrada poeirenta de Víznar. Depois a parada no palácio do Bispo Moscoso para um controle, em direção a Las Colonias. Depois, na escuridão, cavando sua própria tumba, tal como recordava Gerald Brenan. Uma vala que agora reclama o seu definitivo halo de luz. Como se o fato simples e frio de sua morte não fosse humilhação suficiente para esses quatro mártires.

“El País”

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O dia em que Hayek chorou

Aos que vislumbravam um descompasso entre “o empreendorismo” que crescia por seus méritos e um Estado falido, ainda iludido com seu gigantismo, cabe uma pergunta. Quem terminou falindo e a qual instância pediu socorro?

Gilson Caroni Filho

Quando o presidente George Bush, em seu “discurso à Nação”, afirmou que uma crise financeira ameaçava a economia dos Estados Unidos, um espectro rondou o mundo de certezas da banca. No momento em que saíram notícias, ainda não confirmadas até a hora em que concluímos esse artigo, de que democratas e republicanos aprovaram um pacote que garante US$ 700 bilhões em ajuda ao mercado financeiro, sua forma ficou mais nítida, definida: vagando perdido estava o fundamentalismo neoliberal que tanto se empenhou em desacreditar qualquer forma de regulação da economia.

Um pensamento político e econômico que, como fundamento ideológico da fantasia do livre mercado, fingiu acreditar que apresentava o produto final de uma engenharia irretocável, quando nunca passou de uma utopia autoritária.

Convém reler John Gray em seu magnífico livro “Falso amanhecer: os equívocos do capitalismo global”: “mercados controlados são norma em qualquer sociedade, ao passo que os mercados livres são produtos de estratagemas, planos e coerção política (…), se” capitalismo” que dizer ” livre mercado”, então nenhuma visão é mais ilusória do que a crença de que o futuro reside no ” capitalismo democrático.

Estamos assistindo ao ocaso de velhos credos. Uma racionalidade crescente que traria com ela a desregulamentação da economia, a supressão de subsídios, a redução das despesas de segurança social e o desmantelamento do poder sindical. Tudo isso, acompanhado de um Estado incapaz de operar mecanismos de redistribuição, posto que tornado mero apêndice jurídico de normas elementares de troca. Eis o paraíso perdido na data em que as Bolsas voltaram a apresentar otimismo. Em síntese, 25 de setembro de 2008, entra para a história como “o dia em que Hayek chorou”. A “mão invisível” mostrou a plenitude de sua deformação no capitalismo desordenado.

E agora? Como ficam aqueles que afirmavam não haver dúvidas sobre o fato de que seriam os agentes de mercado os demiurgos do ciclo de crescimento sem sobressaltos? Que não haveria lugar para a política em um mundo de empreendedores que, obedecendo a expectativas racionais, e se deixando guiar pela satisfação de seus instintos levariam a humanidade à terra prometida.

Aos que vislumbravam um descompasso entre “o empreendorismo” que crescia por seus méritos e um Estado falido, ainda iludido com seu gigantismo, cabe uma pergunta. Quem terminou falindo e a qual instância pediu socorro?

Não procurem pelas cabeças coroadas do governo tucano, nem muito menos pelos seus porta-vozes na imprensa. Com os rostos lívidos de terror, choram com Hayek. Não só a perda do Éden, mas a assustadora constatação de que, sem a roupagem ideológica, ele nada mais é que o “Estado de Natureza” de Hobbes. Um espaço encantado onde a margem de lucro é assegurada pela aniquilação do outro. Um pesadelo do qual só se sai pelas seguras mãos do Estado.

Espera-se que a direita periférica tenha ao menos o cuidado de burilar o discurso do recuo inevitável. Sem os factóides da imprensa que lhe ampara e, muito menos, sem o pretorianismo togado a que aderiu sem pudor. É hora de aprender com o luto. Ao menos uma vez.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Carta Maior”

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O dia da virada

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Estaríamos melhor com banha de porco que com margarina

Autor de livro sobre comida diz que dieta ocidental é invenção da indústria e que tradição deve guiar o que as pessoas comem

MICHAEL POLLAN

OS MAIS NOVOS conselhos sobre dieta acabam de vir dos EUA: primeiro, coma comida. Depois, não coma nada que sua avó não reconheceria como comida. Se isso parece óbvio para você, diz o jornalista americano Michael Pollan, vá ao supermercado -e tente imaginar uma dona-de-casa de meados do século 20 tentando decifrar dezenas de rótulos com ingredientes impronunciáveis de “substâncias semelhantes à comida” nas gôndolas. Em seu novo livro, “Em Defesa da Comida” (editora Intrínseca), ele lança um ataque impiedoso à indústria e aos cientistas da alimentação, que, ajudados por um governo americano complacente e por jornalistas confusos, transformaram a dieta ocidental em uma máquina de adoecer.
Essa revolução maligna na maneira como os americanos -e, por tabela, o resto do Ocidente- comem se instalou plenamente anos 1980. Nessa década, diz o livro, os alimentos deixaram de ser vistos como entidades completas (uma cenoura, um tomate, um bife) e passaram a ser comercializados pelo que continham de nutrientes: caroteno, licopeno, proteínas. A indústria passou a “engenheirar” a comida de forma a torná-la irreconhecível, tudo em nome do lucro, disfarçado de benefício à saúde.
Qual foi o resultado? “Nossa saúde dietária é pior hoje do que era. Há mais obesidade, mais diabetes”, diz Pollan. O enfoque nos nutrientes, que teve seu início nos anos 1960, virou uma ideologia, o “nutricionismo”. Segundo o americano, essa ideologia é baseada na “ciência ruim” da nutrição, que é incapaz de produzir resultados consistentes em estudos epidemiológicos sobre dieta. Isso porque os nutricionistas buscam avaliar nutrientes, mas um alimento é maior que a soma de suas partes.
Um dos pecados dessa abordagem, argumenta, foi a condenação das gorduras saturadas de origem animal. No lugar delas, os nutricionistas nos deram as gorduras trans, que hoje o mundo inteiro -o Brasil inclusive- se esforça para banir. “Estaríamos melhor com banha de porco”, disse Pollan à Folha. Leia a entrevista. (CLAUDIO ANGELO)

FOLHA - O sr. diz que a comida virou presa da ideologia. Como assim?
MICHAEL POLLAN - Meu argumento é que a maneira como pensamos sobre a comida e como desenhamos a comida hoje em dia caiu presa de uma ideologia que chamo de nutricionismo. O nutricionismo é a crença de que o que importa na comida são os nutrientes: as proteínas, os minerais, as vitaminas. E, se você obtiver o bastante dos bons nutrientes e ficar longe dos ruins, esse é o caminho para a saúde.
Essa é uma visão muito reducionista tanto da comida quanto da saúde. A comida é mais do que a soma de suas partes nutrientes. O propósito dessa ideologia é dar mais poder para a indústria da alimentação, porque ela consegue redesenhar a comida de uma maneira que a natureza não consegue, e dá também muito poder a especialistas na nossa sociedade, sejam cientistas ou jornalistas.
A maior objeção é que pensar na comida dessa maneira não tem funcionado. Nós estamos reengenheirando a nossa comida há 30 anos para ter mais coisas boas e menos coisas ruins, mas a nossa saúde dietária é pior hoje do que era. Há mais obesidade, mais diabetes, e tirar da comida a gordura -supostamente um nutriente mau- não ajudou. Estamos comendo mais carboidratos e ficando mais gordos e diabéticos.

FOLHA - Então não há nada errado com a gordura?
POLLAN - Excesso de qualquer coisa é ruim, mas a gordura não é a vilã que achávamos que fosse. A gordura é um nutriente criticamente importante, e há gorduras boas e ruins. Jogar todas as gorduras no mesmo balaio foi um erro enorme. E afastar as pessoas das gorduras animais e aproximá-las de gorduras hidrogenadas vegetais também foi um erro. As gorduras trans fazem muito mais mal.

FOLHA - O Ministério da Saúde do Brasil quer banir as gorduras trans, mas está enfrentando uma enorme resistência da indústria, que diz que isso seria “voltar à era da banha de porco”. Isso é ruim?
POLLAN - Eu tenho duas respostas a isso: um, nós provavelmente estaríamos melhor com banha de porco do que com gorduras trans. Ela é mais saudável. Dois, há vários outros óleos vegetais que não precisam ser hidrogenados. É tudo uma questão de economia. Eles poderiam fazer batatas fritas com azeite de oliva e elas seriam deliciosas. Só que custariam mais. Ameaçar o público com o retorno da banha de porco, primeiro, não é tão assustador; segundo, não é verdade.

FOLHA - O público não está saturado com pesquisas sobre dieta? Hoje eu nem cubro mais estudos que dizem que o café faz mal ou bem, pois o próximo desmentirá o anterior.
POLLAN - Sim, é essa a situação do leitor hoje. Nós temos feito reportagens em excesso sobre uma ciência muito imperfeita. O estado do conhecimento nutricional é muito primitivo. Não sabemos o bastante para dizer se café faz bem ou mal…

FOLHA - Por que não dá para fazer estudos controlados com comida.
POLLAN - Exatamente. Você tem uma miríade de fatores, como estilo de vida, outras coisas que as pessoas comem, genética etc. Então em que conhecimento podemos confiar? Meu argumento em “Em Defesa da Comida” é que nós temos uma outra forma de conhecimento, que é a tradição. A sabedoria das nossas avós. E, quando se trata de comida, essa sabedoria pode ser mais profunda e mais útil que a dos nutricionistas -até agora, pelo menos.

FOLHA - Por outro lado, alguém poderia argumentar que as nossas avós tinham um cardápio muito pouco variado, e elas também morriam, e mais cedo que as avós modernas, na média.
POLLAN - A maioria dos ganhos na expectativa de vida vieram da prevenção da mortalidade infantil até os cinco anos de idade. E também tivemos coisas como ponte de safena e novos remédios. Mas as taxas de obesidade e diabetes eram muito menores há cem anos do que são hoje. Sim, a ciência e a tecnologia têm ajudado a prolongar a vida, mas mas não por meio da dieta. A dieta tem trabalhado na direção oposta.

FOLHA Seu livro é sobre como as pessoas comem nos EUA, mas a realidade de países como o Brasil é diferente. O que temos a ver com isso?
POLLAN - O jeito americano de comer está dominando o mundo. O Brasil e a Argentina estão rumando na direção da agricultura de forragem. Vocês estão arrasando seus campos naturais para plantar soja. E o que acontece com essa soja? Ela vira forragem barata para gado, que vira comida processada.
Então, o hábito de ir ao supermercado, o hábito de ir ao fast-food, essas coisas estão se espalhando pelo mundo. Minha esperança ao publicar esse livro é que as pessoas que ainda não perderam sua cultura alimentar lutem mais para defendê-la contra a onda de fast-food.

FOLHA - O sr. defende um bocado a comida local e os orgânicos, que são a nova moda nos países ricos. Mas nós vivemos num mundo de mais de 6 bilhões de pessoas, e a agricultura precisa ser industrial e usar pesticidas em grande escala.
POLLAN - Pode ser que os orgânicos não sejam a resposta para o mundo inteiro, mas há modelos de agricultura em grande escala que não usam muito pesticida e são mais sustentáveis. Se você pensar na rotação que eles usam na Argentina, são cinco anos de gado no pasto e três anos de grãos, você pode produzir a melhor carne do mundo e três anos de grãos que podem ser plantados sem fertilizante e sem herbicidas.

FOLHA - Embora a Argentina tenha mergulhado de cabeça na soja transgênica…
POLLAN - Eu sei. Essa é uma das maiores tragédias do mundo hoje. Eles estão abrindo mão de um produto muito superior, que é a carne deles, em prol de um casinho passageiro com a soja transgênica. Eu acho que eles olharão para trás em algum ponto e se darão conta de que foi um grande erro.

FOLHA - As recomendações da FDA são seguidas ao redor do mundo. Mas o sr. diz que a FDA não é exatamente confiável. Por quê?
POLLAN - Qualquer país que siga a nossa pirâmide alimentar precisa saber como ela é feita. E não é um quadro bonito. O governo dos EUA precisa negociar cada mensagem sobre a comida com a indústria afetada.
Eles não apenas incluem o consenso científico sobre quanto açúcar você pode comer, mas têm de negociar com os usineiros, que querem aumentar esse valor. Então, eles tentaram dizer que 10% de açúcar na dieta era razoável, mas a indústria brigou e insistiu em 25%. Isso não é informação científica, é informação política, negociada com a indústria. Você deve tomá-la com um grão de sal.

FOLHA - Não é meio ridículo escrever um livro ensinando bom senso às pessoas?
POLLAN - (Risos) Eu jamais imaginei que pudesse vender um livro que se baseia num conselho às pessoas para comer comida. Isso é sintomático da nossa situação. Meu último livro dizia às pessoas de onde a comida vinha. Nós nos desconectamos tanto da comida que você precisa de jornalistas para dizer de onde a comida vem e que é preciso comê-la.

“Folha de S. Paulo ciência”

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A levitação de Lula

Presidente festeja a popularidade nas alturas (77,7%), mas crise global ameaça o brilho dos fogos

Ivan Marsiglia

Em 1996, dois anos depois da acachapante eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, alçado pela popularidade do Plano Real, o historiador Luiz Felipe de Alencastro concedeu uma entrevista à Teoria&Debate, revista da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Em plena maré alta tucana, quando o príncipe dos sociólogos anunciava o fim da era Vargas, enxergou a vazante que viria seis anos depois. “O que me parece grave no cálculo do FHC é que aparentemente não leva em conta o fato de que um país é forte quando tem uma coesão social forte”, disse ao jovem repórter Fernando Haddad, hoje ministro da Educação no segundo mandato consecutivo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Esta semana, pesquisa divulgada pela CNT/Sensus revelou uma extraordinária coesão em torno do nome do presidente Lula. Sua aprovação pessoal atingiu 77,7% e, pela primeira vez, ele obteve índices positivos em todas as faixas socioeconômicas e graus de instrução. Para Alencastro, a explicação está na convergência da melhoria das condições sociais e econômicas do país e da alta exposição do presidente na corrida pelas eleições municipais. Claro, considerando o terremoto financeiro global, e eventuais impactos na economia brasileira, tudo pode mudar.

“Também não nos esqueçamos que Lula está em campanha eleitoral há 20 anos”, acrescenta esse catarinense de Itajaí, que acompanha o processo político nacional de um posto privilegiado, a cátedra de História do Brasil da Universidade de Paris-Sorbonne. Aos 62 anos, Alencastro conseguiu a proeza de um olhar ao mesmo tempo íntimo e distanciado da realidade brasileira, conquistando o respeito de intelectuais à direita e à esquerda no espectro político-ideológico.

Ex-integrante do Cebrap, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, e professor da Unicamp, Alencastro é autor de A Economia Política dos Descobrimentos Portugueses (1998), Um Estadista do Império (1999) e O Trato dos Viventes (2000). Nesta entrevista, afirma que Lula melhorou a imagem do Brasil no exterior e controla não só as ambições políticas de seus ministros como as de seu partido, o PT. E aposta: “Ele é candidato em 2014”.

Como explicar tanta popularidade?

Há aí a convergência de dois fenômenos. Primeiro, a melhoria das condições sociais e econômicas do País: queda do desemprego, crescimento do PIB e a informação dada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) há alguns dias: 13,8 milhões de brasileiros subiram de faixa social entre 2001 e 2007. Segundo, há o efeito das campanhas municipais: em cerca de 6 mil municípios, dezenas de milhares de candidatos a vereador e a prefeito se declararam lulistas desde criancinhas.

E a aprovação em todas as faixas socioeconômicas e diferentes graus de instrução? Lula não assusta mais as elites?

Voltemos à ultima eleição presidencial. Ao contrário do que tem sido dito, o voto em Lula no segundo turno de 2006 foi bastante espalhado regional e socialmente. Lula venceu na maioria dos Estados do Norte e do Nordeste, mas ganhou também em Brasília, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nesses cinco Estados ele abriu uma vantagem de 7.291.000 de votos sobre Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno. Mesmo que todos os brasileiros do Norte e do Nordeste tivessem ficado em casa, Lula venceria com folga. O crescimento econômico provocou um espraiamento de sua popularidade noutras camadas sociais. É interessante notar também o efeito multiplicador de alguns programas do governo. É claro que o Bolsa-Família é importante, mas acho que o ProUni também teve repercussão: há duas gerações de famílias que pela primeira vez têm um membro fazendo curso universitário.

A popularidade está ancorada no carisma pessoal do presidente ou na aprovação do governo, que na pesquisa bateu em 68,8%?

O prestígio do governo decorre do prestígio de Lula. Veja que o segundo mandato conta com ministros mais discretos, que aprenderam a ficar à sombra do presidente. No primeiro mandato havia três superministros que acabaram se estrepando: José Dirceu, Antônio Palocci e Luiz Gushiken. E Lula está em campanha nacional há 20 anos! Foi candidato à Presidência cinco vezes e uma vez candidato ao governo de São Paulo (em 1982). Noutras vezes viajou pelo Brasil inteiro em pré-campanha, como na “Caravana da Cidadania” de 1996. O eleitorado dele tem uma curva crescente no primeiro turno: em 1989 ele teve 17% dos votos; em 1994, 27%; em 1998, 32%; em 2002, 46%; e em 2006, 48% . Não há paralelo de uma atividade eleitoral tão constante como a dele nas democracias atuais.

Patrus Ananias pilota o Bolsa-Família, principal programa social do governo, e mal aparece. Guido Mantega, na Fazenda, já foi até repreendido publicamente por Lula…

E certamente será de novo, porque é um incorrigível falastrão.

E o PT, também virou coadjuvante?

Sim. Sumiu o PT. Tanto que a ministra mais forte, a Dilma, não vem do PT, era ligada ao PDT gaúcho, chegou depois. Hoje, Lula controla as ambições do governo. Antes, um ministro ou algum líder partidário podia se fortalecer e “curto-circuitar” um veto do presidente ou uma oposição dele a uma eventual candidatura. Foi o que ocorreu com a Marta Suplicy, que no início do segundo mandato tentou tomar o Ministério da Educação do Fernando Haddad mobilizando o PT de São Paulo. Ali foi um momento crítico, e ela não conseguiu. Haddad é um intelectual, sua filiação ao PT é simbólica, não é um sujeito de aparelho. E ficou demonstrado que Lula tomou a coisa em mãos: qualquer possibilidade de influência do partido tinha acabado.

O senhor vê o traço populista no modo de atuar do presidente Lula?

A fronteira conceitual entre uma política classificada de “popular” e outra dita “populista” é tênue. Os partidários do governo sempre acharão que Lula faz uma política popular; seus adversários, que ela é populista. Parafraseando (o escritor polonês Witold) Gombrowicz, que escreveu “a pornografia é o erotismo dos outros”, pode-se dizer que o populismo é a popularidade dos outros. De todo modo, o carisma de Lula decorre também da ruindade da oposição. No mensalão, a estratégia da oposição de bombardear o governo com CPIs de todo tipo mostrou-se contraproducente. Quantas vezes líderes do PSDB e do PFL-DEM disseram que o governo Lula estava acabado? E as propostas? O último projeto político do PSDB foi o parlamentarismo, fragorosamente derrotado nas urnas em 1993. A política de defesa da indústria nacional e do mercado interno, que era o quintal de Serra e o diferenciava de Lula e até de FHC, foi incorporada por Lula. O PSDB está hoje reduzido a pegar carona no prestígio de Lula, reivindicando a paternidade remota do Bolsa-Família e de outros trunfos do governo atual. A ruindade dos governantes vizinhos também favorece o carisma internacional de Lula. Dos três países mais importantes da América Latina, só o Brasil tem tido uma longa estabilidade - iniciada, é certo, com FHC. A Argentina está sempre à beira de uma crise e o México não conheceu ainda uma verdadeira alternância democrática.

Lula é percebido por parte da população como “pai dos pobres”, a exemplo de Getúlio Vargas?

Getúlio reúne o prestígio obtido com a introdução da legislação trabalhista e o trauma causado por seu suicídio, ato que é quase um tabu numa sociedade impregnada de religiosidade como a brasileira. Aquilo foi tomado como martírio político. No final das contas, ele foi apenas um “pai dos pobres assalariados urbanos”, o que no Brasil da época era pouca coisa. Sobre Lula, é cedo para dizer se será lembrado assim. Sua carreira política continua, a história ainda não está escrita.

Como o senhor o compararia com outros líderes latino-americanos, como o venezuelano Hugo Chávez e o colombiano Álvaro Uribe?

A situação é muito diferente. Chávez é um ex-militar golpista que governa cavalgando uma máquina estatal engordada pela alta do preço de petróleo, com um Parlamento esmagadoramente dominado por seu partido e uma imprensa acuada. Uribe dirige um país atravessado por uma sangrenta guerra civil e seu prestígio depende do vaivém desse conflito.

E Alan García, que para muitos analistas tem feito um bom governo no Peru: por que ostenta índices de aprovação sofríveis?

García teve um primeiro mandato presidencial catastrófico (1985-1990), que jogou o Peru numa grave crise. Ele ainda tem muito a fazer para ganhar prestígio no seu país.

Como o senhor compararia o carisma de Lula com o de Vargas, JK e FHC, por exemplo?

Lula preside um país urbanizado, mais educado, mais integrado à mídia visual - nada a ver com o país majoritariamente rural presidido por Vargas e JK. A diferença com FHC também é patente: de 2000 a 2008, o eleitorado nacional aumentou em um quarto. Ao contrário de FHC, que sempre cultivou aquele ar professoral, Lula fala todas as línguas e linguagens sociais - sabe se dirigir a todos os setores do eleitorado nacional.

Mas, mesmo com ar professoral, FHC o derrotou duas vezes.

A primeira eleição de Fernando Henrique foi larga e legitimamente fundada no Plano Real. Ele fez um bom governo e Lula perdeu outra vez. Mas o ponto é que no fim do governo FHC a maioria do eleitorado - há uma pesquisa sobre isso - não votaria em um candidato indicado por ele. José Serra sabia disso, e muito de seu silêncio sobre o antecessor na campanha se deveu ao fato. Então, embora FHC tenha ganho duas eleições de Lula, saiu ao final do mandato com o prestígio lá embaixo e não conseguiu fazer seu sucessor.

Um político pode acabar refém de sua popularidade?

Essa é a maldição do poder, que vi acometer até amigos meus ex-ministros e ex-presidentes. Pega de todo lado, não tem como. Mas como Lula tem uma longa acumulação de derrotas, deveria estar mais vacinado contra isso que os outros. Eu espero que a maldição não o atinja.

Questionado sobre o caos em Wall Street Lula devolveu aos jornalistas: “Pergunte ao Bush”. A propósito da liquidação do Lehman Brothers e do Merryl Lynch, afirmou que “os palpiteiros estão quebrando”. Na ONU, cobrou de Bush explicações sobre a crise. Já não é confiança demais em si mesmo?

As críticas a Bush e ao caos em Wall Street estão na boca de todos os dirigentes do mundo. Mas o sinal mais patente da auto-segurança de Lula é outro: seu ataque aos jogadores da seleção. Não me lembro de nenhum presidente ter feito isso. Dizem que Médici fazia, mas ele era ditador. Você vê que na primeira vez que Lula chamou Ronaldinho de gordo, na Copa de 2006, o jogador retrucou e ele pediu desculpas. Agora, não: veio aquela resposta do goleiro Júlio César, mandando ele se mudar para a Argentina, e Lula nem considerou. Dizer que a seleção joga mal e o melhor jogador do mundo é um argentino é quase crime de lesa-nacionalidade (risos). E Lula faz isso.

Já que falou em futebol: esse tipo de comportamento ajuda a dissolver o tal “complexo de vira-lata” que Nelson Rodrigues via no brasileiro?

O fato de um ex-operário chegar à Presidência da República pelo voto e circular à vontade entre os chefes de Estado das grandes nações não é banal. Vivo há 30 anos fora do Brasil e circulo em vários lugares. Nunca vi o País tão respeitado como agora. Recentemente, o presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, disse a mesma coisa: “Ando o mundo inteiro e todos elogiam o presidente, me dá orgulho ser brasileiro”.

Embora a pesquisa CNT/Sensus tenha detectado que 44% dos eleitores votariam em um candidato apoiado por Lula, as intenções de voto da ministra Dilma Rousseff não passaram de 8,4%. Lula tem dificuldade para transferir votos?

A pré-campanha nem começou e o quadro vai se alterar. Penso que Ciro Gomes também tem grandes ambições e não desistiu de se candidatar com o apoio de Lula. Também é verdade que Dilma acumula ineditismos em seu projeto: ela nunca teve um voto na vida e se prepara para lançar-se como candidata governista à Presidência.

O senhor disse que a popularidade de Lula está ancorada em parte nos resultados da economia. Se a crise financeira bater às portas do Brasil com força, esses índices podem cair de uma hora para outra?

Aí, são outros quinhentos. Ninguém sabe aonde isso tudo vai dar, e são grandes os sinais de que o comando nos EUA está meio desarvorado. Se a crise afetar duramente a economia real, a popularidade de Lula pode desabar. Mas vale lembrar que os efeitos desse caos atual podem ser retardados: a crise de 29 nos EUA veio bater à porta da Europa em 1934 e 1935.

O presidente foi questionado sobre a hipótese de um terceiro mandato e sempre foi enfático na negativa. Acha que pode reconsiderar?

Acho que nem sequer há tempo hábil para uma emenda à Constituição com duas votações na Câmara e no Senado. Quando FHC fez essa modificação, foi em face da “ameaça Lula”, um temor quase generalizado no Congresso de uma vitória do PT. Hoje, o establishment é Lula, e não há uma percepção como a de 1996. Não haveria consenso na mídia ou no Congresso para se viabilizar um terceiro mandato - que é raro nos outros países, enquanto a reeleição em dois mandatos era bastante corrente à época de FHC.

Então Lula estaria administrando sua popularidade para retornar mais tarde ao poder?

Sim, inteiramente. A própria escolha da ministra Dilma, em vez de alguém como o Ciro ou outro político que tenha vôo próprio, indica isso. Ele é candidato em 2014.

“Estado de S. Paulo”

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Lugo assume compromisso e o poder com os pobres

“Renuncio a vivir en un país ‘donde unos no duermen porque tienen miedo y otros no duermen porque tienen hambre’” (disse Lugo em seu discurso de posse, em referência à frase do geográfo brasileiro Josué de Castro: “Metade da humanidade não come, e a outra metade não dorme, com medo da que não come”)

Egon Heck

NÃO FORAM apenas as palavras emocionadas, por vezes duras, mas também envoltas em carinho e memória histórica heróica e perigosa, que marcaram a fala de Fernando Lugo em sua posse, no dia 15. Foram também seu “sim juro” com toda a vibração de suas cordas vocais, ao contrário dos “sim” meio silenciosos de juramentos dos presidentes precedentes. E seu discurso de austeridade acompanhado pelo testemunho de suas sandálias nos pés e a camisa branca da paz, sem a habitual gravata e paletó. No dia anterior, aliás, já havia anunciado a renúncia a seu salário de presidente.
Lugo e Chávez, em momento de descontração, no show da posse, cantaram juntos a canção “Todo cambia”, para celebrar o início de mais um momento de mudanças no continente, na busca de transformações que dêem prevalência ao social, na construção de um socialismo com os jeitos plurais de cada país.

Política indigenista
Nas últimas décadas, dominadas pelo Partido Colorado, os povos indígenas foram relegados à sua própria sorte, sem nenhuma política séria e conseqüente por parte do Estado paraguaio. O clientelismo, o assistencialismo e a corrupção marcaram os órgãos responsáveis pela proteção dos direitos dos 20 povos indígenas deste país, que atingem uma população um pouco superior a 100 mil pessoas.
O Instituto Nacional do Índio (INDI) está totalmente sucateado e marcado pela corrupção, especialmente no que diz respeito às terras indígenas, cujos processos de compra estão marcados por falcatruas envolvendo uma espécie de máfia interna que se beneficiava desses processos.
A difícil missão de construir uma nova política indigenista, a partir da posse do presidente Lugo, está em curso. A liderança de etnia Aché, Margarita Mbywangui, que foi candidata a senadora pelo movimento Tekojoja, é quem deverá assumir essa árdua missão.
Já se realizaram inúmeros encontros para definir a política e as estratégias de ação. Já no domingo, dia 17, aconteceu mais um debate para a definição das orientações, especialmente o funcionamento do INDI – que terá que passar por profundas mudanças, desde seu quadro de funcionários, que não passam de uma centena de pessoas, até a descentralização e a articulação com outros ministérios e organizações da sociedade civil.
Além dos desafios internos do INDI, será necessário construir uma unidade no movimento indígena entre suas principais organizações, pois ali também existem divisões e disputas, marcadas principalmente entre os indígenas da parte oriental (majoritariamente os Guarani) e os da parte ocidental, os povos indígenas da região do Chaco.

Novo Paraguai
Há quem avalie que dificilmente terá êxito quem assumir essas estruturas tão viciadas e comprometidas com a corrupção. O recém-empossado presidente Fernando Lugo não apenas tem uma grande sensibilidade e carinho com a questão indígena, como já sinalizou sua decidida atuação para garantir os direitos desses povos. Entende que a diversidade e a contribuição dos povos indígenas será sumamente importante na construção do novo Paraguai. Para tanto, duas questões serão prioritárias, destacadas no seu discurso de posse: a garantia das terras indígenas e a punição de todos os crimes cometidos contra esses povos.
Para Raquel Peralta, coordenadora da Conapi (Coordenação Nacional de Pastoral Indígena), este é um momento oportuno para fazer as mudanças e definir uma política indigenista do governo Lugo. Talvez, isso exija uma mudança estrutural mais profunda, com a criação de um conselho ou mesmo um ministério indígena. Entende que é o momento de unir as forças de todos os aliados dos povos indígenas para essa difícil, porém possível e necessária, missão.
Certamente, concorrerão para isso iniciativas como a elaboração de ações alémfronteiras que procuram articular e definir políticas públicas para os povos presentes em vários países, como é o caso dos Guarani. Iniciativa nesse sentido está em curso, por meio do Ministério Público do Brasil.

Feliz dia da criança
Lugo iniciou inaugurando um novo estilo de governo, ao abrir os reservados espaços do poder aos pequenos. A Mburuvicha Roga, um espaço nobre dos governantes, teve a alegre e barulhenta presença de centenas de crianças, dentre elas indígenas, incapacitados, e crianças do Brasil e Argentina, para mostrar na prática a intenção de construir um novo Paraguai, aprendendo com a história e a memória, mas procurando superar os traumas e os genocídios.
Dia 16 de agosto se celebra o dia da criança no Paraguai. Num texto alusivo à data , Osvaldo Zayas, no artigo “Feliz dia da criança”, diz: “Mais além do heroísmo das 3.500 crianças mortas pelas mãos do genocida Exército brasileiro, na batalha de Acosta Ñu, é importante recordar as causas da guerra e suas conseqüências posteriores (…). A vida dos pequenos grandes mártires foi a oferenda de um país que se negou a morrer”.
Zayas relata que a verdadeira causa da guerra foi o interesse dos ingleses em abrir o mercado paraguaio ao “mundo civilizado”. E nesta intenção, a tríplice aliança assassinou 75% da população paraguaia. Conclui o artigo dizendo: “Heróis como os de Acosta Ñu não morrem. Enquanto os sonhos de liberdade, a decisão de alcançar a justiça social e terminar com a opressão seguirem vivos, seguirão nascendo crianças em Acosta Ñu”.

“Brasil De Fato”

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As mentiras de Hiroshima subsistem

John Pilger

Quando fui pela primeira vez a Hiroshima, em 1967, a sombra sobre os degraus ainda estava ali. Era quase uma impressão perfeita de um ser humano: pernas inclinadas, costas encurvadas, uma mão ao lado enquanto ela sentava à espera que o banco abrisse. Um quarto de hora após as oito da manhã de 6 de Agosto de 1945, ela e a sua silhueta foram gravadas a fogo no granito. Fixei a sombra por uma hora ou mais, a seguir andei até o rio e encontrei um homem chamado Yukio, cujo tórax ainda estava marcado com o padrão da camisa que usava quando foi lançada a bomba atómica.

Ele e a sua família ainda vivem num barraco desconjuntado no pó de um deserto atómico. Ele descreveu um enorme flash sobre a cidade, “uma luz azulada, algo como um curto-circuito eléctrico”, após o qual o vento soprou como um tornado e caiu chuva negra. “Fui lançado sobre o piso e percebi que apenas os talos das minhas flores haviam ficado. Estava tudo quieto e silencioso, e quando levantei havia pessoas nuas, que não diziam nada. Algumas delas não tinham pele ou cabelo. Eu estava certo de estar morto”. Nove anos depois, quando voltei a procurá-lo, havia morrido de leucemia.

Na sequência imediata da bomba, as autoridades aliadas de ocupação proibiram qualquer menção ao envenenamento radioactivo e insistiram em que as pessoas haviam sido mortas ou feridas apenas pelo sopro da bomba. Foi a primeira grande mentira. “Nenhuma radioactividade nas ruínas de Hiroshima”, dizia a primeira página do New York Times, um clássico da desinformação e da abjecção jornalística, o qual deu ao repórter australiano Wilfred Burchett o furo do século. “Escrevi isto como uma advertência ao mundo”, contou Burchett no Daily Express, tendo chegado Hiroshima após uma viagem perigosa, o primeiro correspondente a ousar fazê-lo. Ele descreveu departamentos de hospitais cheios de pessoas sem ferimentos visíveis mas que estavam a morrer daquilo a que chamou “uma praga atómica”. Por contar esta verdade, sua credencial de imprensa foi-lhe retirada, ele foi atacado e caluniado – e inocentado.

O bombardeamento atómico de Hiroshima e Nagasaki foi um acto criminoso numa escala colossal. Foi um assassínio em massa premeditado que desencadeou uma arma de criminalidade intrínseca. Por esta razão os seus apologistas procuraram refúgio na mitologia do “boa guerra” final, cujo “banho ético”, como a denominou Richard Drayton, permitiu ao ocidente não só expiar seu sangrento passado imperial como promover sessenta anos de guerra predatória, sempre abençoada pela sombra de A Bomba.

A mentira mais duradoura é que a bomba atómica foi lançada no fim da guerra do Pacífico e salvou vidas. “Mesmo sem os ataques de bombardeamento atómico”, concluiu o United States Strategic Bombing Survey de 1946, “a supremacia aérea sobre o Japão poderia ter exercido pressão suficiente para levá-lo à rendição incondicional e dispensar a necessidade de invasão. Com base numa investigação pormenorizada de todos os factos, e apoiado pelo testemunho dos líderes japoneses sobreviventes, o inquérito opina que …o Japão se teria rendido mesmo se a bombas atómicas não tivessem sido lançadas, mesmo se a Rússia não entrasse na guerra e mesmo se nenhuma invasão tivesse sido planeada ou considerada”.

Os Arquivos Nacionais em Washington contêm documentos do governo estado-unidense que revelam iniciativas de paz japonesas já em 1943. Nenhuma delas foi seguida. Um telegrama enviado a 5 de Maio de 1945 pelo embaixador alemão em Tóquio e interceptado pelos EUA afasta qualquer dúvida de que os japoneses estavam desesperados para pedir a paz, incluindo “capitulação mesmo que os termos sejam duros”. Ao invés disso, o secretário da Guerra do EUA, Henry Stimson, disse ao presidente Truman estar “temeroso” de que a US Air Force deixaria o Japão tão bombardeado que a nova arma não seria capaz de “mostrar a sua força”. Posteriormente ele admitiu que “não fora feito qualquer esforço, e nenhum foi considerado seriamente, para alcançar a rendição simplesmente a fim de não ter de utilizar a bomba”. Os seus colegas de política externa estavam ansiosos “para amedrontar os russos com a bomba que possuíam de preferência espalhafatosamente”. O general Leslie Groves, director do Projecto Manhattan que fabricou a bomba, testemunhou: “Nunca houve qualquer ilusão da minha parte de que a Rússia era o nosso inimigo, e que o projecto fora conduzido nesta base”. O dia seguinte a Hiroshima foi apagado, o presidente Truman proclamou a sua satisfação com o “êxito esmagador” do “experimento”.

Acredita-se que os Estados Unidos estiveram à beira de utilizar armas nucleares pelo menos três vezes desde 1945. Ao travarem a sua falsa “guerra ao terror”, os actuais governos em Washington e Londres declararam-se preparados para efectuar ataques nucleares “antecipativos” (”pre-emptive”) contra Estados não nucleares. A cada pancada rumo à meia noite de um Armagedão nuclear, as mentiras justificativas tornam-se mais ultrajantes. O Irão é a actual “ameaça”. Mas o Irão não tem armas nucleares e a desinformação de que está a planear um arsenal nuclear provém em grande medida de um desacreditado grupo de oposição iraniano patrocinado pela CIA, o MEK – assim como as mentiras acerca das armas de destruição em massa de Saddam Hussein foram originadas pelo Iraqi National Congress, montado por Washington.

O papel do jornalismo ocidental ao promover este espantalho é crítico. Que o Defence Intelligence Estimate da América diga “com alta confiança” que o Irão abandonou seu programa de armas nucleares em 2003 foi remetido para o buraco da memória. Que o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, nunca tenha ameaçado “varrer Israel do mapa” não tem qualquer interesse. Mas tamanha tem sido a repetição deste “facto” nos media que na sua recente actuação servil perante o parlamento israelense Gordon Brown aludiu a isto quando, mais uma vez, ameaçou o Irão.

Esta progressão de mentiras trouxe-nos uma das mais perigosas crises nucleares desde 1945, uma vez que a ameaça real permanece quase proibida de mencionar nos círculos do establishment ocidental e portanto nos media. Há apenas uma potência nuclear desenfreada no Médio Oriente e esta é Israel. O heróico Mordechai Vanunu tentou advertir o mundo em 1986 quando revelou provas de que Israel estava a construir até 200 ogivas nucleares. Em desafio a resoluções da ONU, Israel hoje está claramente desejoso de atacar o Irão, receoso de que uma nova administração americana possa, apenas possa, efectuar negociações genuínas com um país que o ocidente tem violado desde que a Gra-Bretanha e os EUA derrubaram a democracia iraniana em 1953.

No New York Times de 18 de Julho, o historiador israelense Benny Morris, outrora considerado um liberal e agora um consultor do establishment político e militar do seu país, ameaçou com “um Irão transformado num deserto nuclear”. Isto seria um assassínio em massa. Para um judeu, a ironia é gritante.

A pergunta que precisa ser colocada: serão os restantes de nós simples espectadores, a apregoar, como fizeram bons alemães, que “nós não sabíamos”? Será que nos esconderemos cada vez mais atrás daquilo que Richard Falk chamou “um écran farisaico, unilateral, legal/moral [com] imagens positivas dos valores ocidentais e da inocência apresentada como ameaçada, validando uma campanha de violência irrestrita”? Apanhar criminosos de guerra está na moda outra vez. Radovan Karadzic está no banco do réus, mas não Sharon e Olmert, Bush e Blair. Por que não? A memória de Hiroshima exige uma resposta.

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