O domo de poluição em São Paulo
Aziz Nacib Ab`Sáber
Existe necessidade de se compreender melhor o contorno e a funcionalidade do chamado “domo de poluição”. Entende-se por este termo o aparelho natural formado pela emissão de gases e particulados que ascendem para a troposfera, em certo nível de altura. Eles produzem uma ampla abóbada que se esgarça do centro para setores da periferia. Em São Paulo, as emissões ascensionais produzidas pelo mundo urba-industrial se iniciam pela pluma do distrito petroquímico de Cubatão, entram pelo planalto adentro, envergadamente, somando-se aos fluxos de emissões do ABC e, mais adiante, ajuntando-se à imensa massa de gases do centro expandido da cidade de São Paulo. O conjunto todo indo de encontro às encostas florestadas da Serra da Cantareira.
Os ventos assimétricos provenientes do mar – Leste e Sudeste – são os responsáveis principais pela penetração de umidade e envergamento do domo de poluição paulistano. Mas, por outro lado, no verão chuvoso – em janeiro e fevereiro — através de nuvens carregadas de umidade e geradoras de grandes “chuvadas” – as grandes pancadas de chuva que afetam principalmente as zonas Sul, Norte Leste e Nordeste da cidade, ainda que comportando fortes variações espaciais – ocorre o assentamento e a limpeza dos gases e particulados do domo de poluição.
Essas grandes precipitações, acompanhadas de vibrantes trovoadas, distribuem-se em pontos nodais variáveis – sob a forma de nuvens negras e “bigornas” ocasionais – ocasionam grandes problemas de inundações e impactos na funcionalidade da cidade.
Mas, em compensação, são capazes de desmanchar temporariamente o domo de poluição regional que se adensou entre os períodos de maior chuva. No conjunto do planalto algumas massas de nuvens negras em forma de “bigorna” acontecem de forma semi-pontual – anunciando os grandes “torós”, conforme expressão popular dos paulistanos – enquanto o domo de poluição é de uma amplitude regional mais extensa.
Na região de São Luis do Paraitinga – Alto Vale do Paraíba – o povo designava os processos de múltiplas bigornas como responsáveis por “chuvadas” ou “torós” pelo nome de “tromba d’água”: algumas delas lembradas pelas conseqüências desastrosas em relação ao sítio e corpo urbano de pequenas cidades regionais.
Os estudos de clima urbano iniciado com Carlos Augusto Monteiro e ampliados nas pesquisas de Magda Lombardi, através de imagens de satélites, têm interesse particular para orientar projetos de arborização e multiplicação de praças e pracinhas minimizadoras do calor e mais que isso: para facilitar a previsão de impactos sub-regionais na Grande São Paulo e conjunto do Planalto Paulistano. Para atender as condicionantes climáticas naturais da região de São Paulo o trabalho mais importante já publicado é o Atlas da Dinâmica Climática do Estado de São Paulo, elaborado por Carlos Augusto Monteiro, em Rio Claro (Unesp) e publicado na íntegra pelo Instituto de Geografia da USP.
A percepção do autor sobre a periodicidade climática, em termos de variações anuais do sistema pluviométrico, abriu caminho efetivo para um verdadeiro entendimento de uma climatologia dinâmica regional. De tal maneira que os técnicos e pesquisadores generalistas, que falam em conseqüências alarmantes do aquecimento global, deveriam levar em conta a problemática da periodicidade e as perturbações que ocorrem sistematicamente por todas as regiões da América e do mundo. Compreender o jogo das massas de ar, em suas variações periódicas, é parte do conhecimento necessário para um planejamento múltiplo sobre a racionalidade da cidade e do seu entorno e, também, para evitar interpretações radicais sobre os processos de mudanças climáticas na visão do cotidiano.
A questão do aquecimento do corpo urbano metropolitano pelo tamponamento dos solos e construtivismo exagerado merece, certamente, também tratamento mais detalhado e interdisciplinar. É verdadeiro que a porção central da cidade de São Paulo tenha sofrido um aumento de temperatura bastante significativo em um século: de 18,6º, no início do século 20 – Belfort de Matos – atingiu uma média de 20,4º ou pouco mais no início do terceiro milênio. Um século, portanto, de aquecimento em uma área de uma gigantesca cidade, como é o caso da grande São Paulo.
Para minimizar os efeitos do calor mais forte, nos meses de transição primavera- verão, e meses de janeiro-fevereiro, deveria existir sempre um conjunto de projeto de arborização urbana e gestão de bosques remanescentes de antigas matas: no caso de São Paulo, e uma proteção integrada das florestas das serranias envolventes do planalto paulistano onde quer que eles existam. Seja em Cotia-Embu; São Migual-Suzano, Itapevi-Barueri, Santana de Parnaíba-Araçariguana, ou Paralheiros-Guarapiranga, Itapecirica da Serra-Ibiúna, além de pequenos espaços públicos sujeitos a invasões, se não forem bem cuidados. Nesses quintais esquecidos podem ser feita uma combinação de jardinagem com reintrodução, ainda que parcial, de espécies nativas.
Aziz Nacib Ab`Sáber é professor emérito da FFLCH/USP e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados/USP.
“Scientific American Brasil”
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