Arquivo de 4 de Outubro de 2008

“A IGNORÂNCIA DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO”

Robert Kurz

Conhecimento é poder - trata-se de um velho lema da filosofia burguesa moderna, que foi utilizado pelo movimento dos operários europeus do século 19. Antigamente conhecimento era visto como algo sagrado. Desde sempre homens se esforçaram para acumular e transmitir conhecimentos. Toda sociedade é definida, afinal de contas, pelo tipo de conhecimento de que dispõe. Isso vale tanto para o conhecimento natural quanto para o religioso ou para a reflexão teórico-social. Na modernidade o conhecimento é representado, por um lado, pelo saber oficial, marcado pelas ciências naturais, e, por outro, pela “inteligência livre-flutuante” (Karl Mannheim) da crítica social teórica. Desde o século 18 predominam essas formas de conhecimento.

Mais espantoso deve parecer que há alguns anos esteja se disseminando o discurso da “sociedade do conhecimento” que chega com o século 21; como se só agora tivessem descoberto o verdadeiro conhecimento e como se a sociedade até hoje não tivesse sido uma “sociedade do conhecimento”. Pelo menos os paladinos da nova palavra-chave sugerem algo como um progresso intelectual, um novo significado, uma avaliação mais elevada e uma generalização do conhecimento na sociedade. Sobretudo se alega que a suposta aplicação econômica do conhecimento esteja assumindo uma forma completamente diferente.

Filosofia das mídias - Bastante euforia é o que se apreende por exemplo do filósofo das mídias alemão Norbert Bolz: “Poder-se-ia falar de um big-bang do conhecimento.
E a galáxia do conhecimento ocidental se expande na velocidade da luz. Aplica-se conhecimento sobre conhecimento e nisso se mostra a produtividade do trabalho intelectual. O verdadeiro feito intelectual do futuro está no design do conhecimento. E, quanto mais significativa for a maneira como a força produtiva se torne inteligência, mais deverão convergir ciência e cultura. O conhecimento é o último recurso do mundo ocidental”.

Palavras fortes. Mas o que se esconde por trás delas? Elucidativo é talvez o fato de que o conceito da “sociedade do conhecimento” esteja sendo usado mais ou menos como sinônimo do de “sociedade da informação”. Vivemos numa sociedade do conhecimento porque somos soterrados por informações. Nunca antes houve tanta informação sendo transmitida por tantos meios ao mesmo tempo. Mas esse dilúvio de informações é de fato idêntico a conhecimento? Estamos informados sobre o caráter da informação? Conhecemos afinal que tipo de conhecimento é esse?

Na verdade o conceito de informação não é, de modo nenhum, abarcado por uma compreensão bem elaborada do conhecimento. O significado de “informação” é tomado num sentido muito mais amplo e refere-se também a procedimentos mecânicos. O som de uma buzina, a mensagem automática da próxima estação do metrô, a campainha de um despertador, o panorama do noticiário na TV, o alto-falante do supermercado, as oscilações da Bolsa, a previsão do tempo… tudo isso são informações, e poderíamos continuar a lista infinitamente.

Conhecimento trivial - Claro que se trata de conhecimento, também, mas de um tipo muito trivial. É a espécie de conhecimento com a qual crescem os adolescentes de hoje. Já aqueles na faixa dos 40 anos estão tecnológica-comunicativamente armados até os dentes. Telas e displays são para esses quase partes do corpo e órgãos sensoriais. Eles sabem que informações têm que ser observadas para acessar a internet ou como filtrar tais informações da rede, por exemplo, como se faz o “download” de uma canção de sucesso. E um dos meios de comunicação prediletos dessa geração é por escrito, o do “Short Message Service” ou, na forma abreviada, o SMS que aparece no display do celular. O máximo de comunicação está limitado ali a 160 caracteres.

Já é estranho que o armamento tecnológico de ingenuidade juvenil seja elevado à condição de parte integrante de um ícone social e seja associado ao conceito de “conhecimento”. Em termos de uma “força produtiva inteligência” e “feito intelectual do futuro”, isso é um pouco decepcionante. Mais próximos da verdade estaremos talvez se compreendermos o que se entende por “inteligência” na sociedade do conhecimento ou da informação. Assim, numa típica nota da imprensa econômica publicada na primavera de 2001, lê-se: “A pedido da agência espacial canadense, a empresa Tactex desenvolveu em British Columbia tecidos inteligentes. Em tiras de tecido são costurados em série minúsculos sensores que reagem à pressão. Primeiramente, o tecido da Tactex deve ter seu desempenho testado como revestimento de bancos de automóveis. Ele reconhece quem se sentou no banco do motorista… O banco inteligente reconhece o traseiro de seu motorista”.

Para um banco de automóvel, trata-se, seguramente, de um feito grandioso. Temos de reconhecer. Mas, ora, não pode ser considerado a sério um paradigma para o “feito intelectual do futuro”. O problema reside no fato de que o conceito de inteligência da sociedade da informação – ou do conhecimento – está muito especificamente modelado pela chamada “inteligência artificial”. Estamos falando de máquinas eletrônicas que por meio de processamento de dados têm capacidade de armazenamento cada vez mais alta, para simular atividades rotineiras do cérebro humano.

Objetos inteligentes - Há muito que se fala na “casa inteligente”, que regula sozinha a calefação e a ventilação, ou na “geladeira inteligente”, que encomenda no supermercado o leite que acabou. Da literatura de terror, conhecemos o “elevador inteligente”, que infelizmente se tornou maligno e atentou contra a vida de seus usuários. Novas criações são o “carrinho de compras inteligente”, que chama a atenção do consumidor para as ofertas especiais, ou a “raquete inteligente”, que com um sistema eletrônico embutido permite ao tenista um saque especial, muito mais potente.

Será esse o estágio final da evolução intelectual moderna? Uma macaqueação de nossas mais triviais ações cotidianas por máquinas, conquistando uma consagração intelectual superior? A maravilhosa sociedade do conhecimento aparece, ao que tudo indica, justamente por isso como sociedade da informação, porque se empenha em reduzir o mundo a um acúmulo de informações e processamentos de dados e em ampliar de modo permanente os campos de aplicação destes. Estão em jogo aí sobretudo duas categorias de “conhecimento”: conhecimento de sinais e conhecimento funcional. O conhecimento funcional é reservado à elite tecnológica que constrói, edifica e mantém em funcionamento os sistemas daqueles materiais e máquinas “inteligentes”. O conhecimento de sinais, ao contrário, compete às máquinas, mas também a seus usuários, para não dizer: seus objetos humanos. Ambos têm de reagir automaticamente a determinadas informações ou estímulos. Não precisam, eles mesmos, saber como essas coisas funcionam, mas precisam processar dados “corretamente”.

Comportamento programável - Tanto para o comportamento maquinal quanto para o humano, na sociedade do conhecimento a base é dada, portanto, pela informática, que serve para programar sequências funcionais. Lida-se com processos descritíveis e mecanicamente reexecutáveis, com meios formais, por uma sequência de sinais (algoritmos). Isso soa bem para o funcionamento de tubulações hidráulicas, aparelhos de fax e motores de automóveis; e tudo bem que haja especialistas para isso. Porém, quando também o comportamento social e mental de seres humanos é representável, calculável e programável, estamos diante de uma concretização de visões de terror das modernas utopias negativas.

Essa espécie de conhecimento social de sinais lembra bem menos vôos audaciosos do que, isso sim, o famoso cão de Pavlov. No começo do século 20, o fisiologista Ivan Petrovitch Pavlov havia descoberto o chamado reflexo condicionado. Um reflexo é uma reação automática a um estímulo externo. Um reflexo condicionado ou motivado consiste no fato de que essa reação também pode ser desencadeada por um sinal secundário aprendido, que esteja ligado ao estímulo original. Pavlov associou o reflexo salivar inato de cães com a visão de ração por meio de um sino e pôde finalmente desencadear esse reflexo também ao utilizar o sino isoladamente.

Ao que parece, a vida social e intelectual na sociedade do conhecimento - aliás, da informação – deve ser levada a um caminho de comportamento que corresponda a um sistema de reflexos condicionados: estamos sendo reduzidos àquilo que temos em comum com cães, pois o esquema de estímulo-reação dos reflexos tem tudo a ver com o conceito de informação e “inteligência” da cibernética e da informática. O conjunto de nossas ações na vida é cada vez mais monitorado por dígitos, trilhas, clusters e sinais de todo tipo. Esse conhecimento de sinais, o processamento reflexo de informações, não é, porém, exigido somente no âmbito tecnológico, mas também no mais elevado nível social e econômico. Assim, por exemplo, se é como se diz, os governos, os “managers”, os que têm uma ocupação, enfim todos devem permanentemente observar os “sinais dos mercados”.

Esse conhecimento miserável de sinais não é, na verdade, conhecimento nenhum. Um mero reflexo não é, afinal, nenhuma reflexão intelectual, mas seu exato contrário. Reflexão significa não apenas que alguém funcione, mas também que esse alguém possa refletir “sobre” a tal função e lhe questionar o sentido. Esse triste caráter do conhecimento-informação reduzido foi prenunciado pelo sociólogo francês Henri Lefebvre já nos anos 50, quando ele, em sua “Crítica da Vida Cotidiana”, descrevia a era da informação que chegava: “Ele adquire um “conhecimento”. Mas em que consiste ele, exatamente? Não é nem o conhecimento (Kenntnis) real ou aquele adquirido por processos de reflexão (Erkenntnis), nem é um poder sobre as coisas observadas, nem, por último, a participação real nos acontecimentos. É uma nova forma do observar: um olhar social sobre o retrato das coisas, mas reduzido à perda dos sentidos, à manutenção de uma falsa consciência e à aquisição de um pseudoconhecimento sem nenhuma participação própria…”.

O “sentido da vida” - Em outras palavras, a questão do sentido e da finalidade dos próprios atos de cada um se torna quase impossível. Se os indivíduos se tornam idênticos a suas funções condicionadas, eles deixam de estar em condições de questionar a si mesmos ou ao ambiente que os cerca. Estar “informado” significa então estar totalmente “em forma”, formado pelos imperativos de sistemas de sinais técnicos, sociais e econômicos; para funcionar, portanto, como a porta de comunicação de um circuito complexo. E mais nada. A geração jovem da chamada sociedade do conhecimento é talvez a primeira a perder a questão pueril quanto ao “sentido da vida”. Para isso não haveria espaço suficiente no display. Os “informados” desde pequenos não compreendem mais nem sequer o significado da palavra “crítica”. Eles identificam esse conceito com o erro crítico, indicação de um problema sério, a ser prontamente eliminado na execução de um programa.

Nessas condições, o conhecimento reflexivo intelectual é tido como infrutífero, como uma espécie de bobagem filosófica da qual não precisamos mais. Seja como for, tem-se que lidar com isso de maneira pragmática. O primeiro e único mandamento do conhecimento reduzido diz: ele deve ser imediatamente aplicável no sistema de sinais dominante. O que está em questão é o “marketing da informação” sobre “mercados da informação”. O conhecimento intelectual tem de ser encolhido para a condição de “informações”. O que por exemplo será no futuro um “historiador” já é mostrado hoje pelo historiador Sven Tode, de Hamburgo, com seu doutorado.

Sob o título “History Marketing”, ele escreve, sob encomenda, a biografia de empresas a comemorar aniversários de fundação; ajuda-as também cuidando de seus arquivos. Seu grande sucesso: para uma empresa norte-americana que se achava envolvida numa disputa pela patente de um encaixe tipo baioneta para mangueiras de bombeiro, Tode pôde desenterrar documentos arquivados que proporcionaram a quem encomendou os seus serviços uma economia de US$ 7 milhões.

Cada vez mais desempregados, indivíduos submetidos a uma dieta financeira de fome e portadores achincalhados de um socialmente desvalorizado conhecimento de reflexão se esforçam em transformar seu pensamento, reduzindo-o aos conteúdos triviais de conhecimentos funcionais e reconhecimentos de sinais, para permanecer compatíveis com o suposto progresso e vendáveis. O que se produz daí é uma espécie de “filosofia do banco de automóvel inteligente”. Na verdade, é triste que homens instruídos no pensamento conceitual se deixem degradar à condição de palhaços decadentes da era da informação. A sociedade do conhecimento está extremamente desprovida de espirituosidade, e por isso até mesmo nas ciências do espírito o espírito vai sendo expulso. O que resta é uma consciência infantilizada que brinca com sucata desconexa de conhecimento e informação.

De todo modo, o conhecimento degradado em “informação” não se revelou economicamente estimulante na medida em que se havia esperado. A New Economy da sociedade do conhecimento entrou em colapso tão rápido quanto foi proclamada. Isso também tem sua razão; pois o conhecimento, seja lá na forma que for, diferentemente de bens materiais ou serviços prestados, não é reproduzível em “trabalho” e, portanto, em criação de valor, como objeto econômico. Uma vez posto no mundo, ele pode ser reproduzido sem custo, na quantia que se deseje. Em seu debate com o economista alemão Friedrich List, em 1845, Karl Marx já escrevia: “As coisas mais úteis, como o conhecimento, não têm valor de troca”. Isso vale também para o atualmente reduzido conhecimento-informação, cuja utilidade pode ser posta em dúvida.

Assim a escassa reflexão intelectual vinga-se dos profetas da alegada nova sociedade do conhecimento. A montanha de dados cresce, o real conhecimento diminui. Quanto mais informações, mais equivocados os prognósticos. Uma consciência sem história, voltada para a atemporalidade da “inteligência artificial”, tem de perder qualquer orientação. A sociedade do conhecimento, que não conhece nada de si mesma, não tem mais nada a produzir senão sua própria ruína. Sua notória fraqueza de memória é ao mesmo tempo seu único consolo.

Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor de “Os Últimos Combates” (ed. Vozes) e “O Colapso da Modernização” (ed. Paz e Terra). Ele escreve mensalmente na seção “Autores”, do Mais!. Tradução de Marcelo Rondinelli.

“Geografia Geral e do Brasil”

Comentários

Os cientistas loucos da agroindústria

Ao perseguirem o lucro máximo, as empresas gigantes da agroindústria provocam, no fim do milênio, um inesperado “grande medo”: o da alimentação cotidiana. É longa a lista dos produtos de consumo adulterados, da “vaca louca” à galinha com dioxina, da carne de gado com hormônios à soja transgênica, da água mineral à Coca-Cola contaminadas.

François Dufour

A crise na agroindústria na Bélgica com o caso da galinha com dioxina questiona as orientações da Política Agrícola Comum (PAC) européia, cuja ambição atual é adaptar-se à globalização.

Quando, nos anos 80, os lobistas britânicos da agroindústria, desejosos de fazer despencar de qualquer maneira os custos de produção, liberaram o setor da carne bovina, não esperavam pelos efeitos desastrosos de sua decisão sobre a saúde animal e humana: em 1996, o caso da encefalopatia espongiforme bovina (ESB), chamado de “vaca louca”, lançou suspeitas sobre certas práticas agrícolas. Entretanto, é sobre os agricultores que o descrédito recaiu, apesar deles serem vítimas dos fabricantes de alimentos para o gado, e de seus aliados, os matadouros.

A responsabilidade desta situação não cabe somente aos britânicos: ela é compartilhada pelas autoridades da Comunidade Européia e tem sua origem na orientação que deram à PAC. E não foi por falta de alerta: desde 4 de abril de 1996, a Confederação Camponesa interpelava as autoridades francesas e belgas sobre as medidas urgentes a serem postas em prática proibindo a utilização de farinhas animais na alimentação de todos os animais domesticados. Em Paris, recebeu como resposta que a identificação de “carne bovina francesa” e uma total “transparência” daria todas as garantias. Ingenuidade ou hipocrisia? A manutenção da autorização para utilizar todas as farinhas para alimentar os porcos e as aves abria o caminho para as ilegalidades e os desgovernos. Foi desse modo que cinco meses mais tarde, em 1997, uma epidemia de peste suína apareceu nos Países Baixos, destruindo metade da criação: foi preciso abater milhões de porcos. Custo da operação: 1,1 bilhões de dólares, metade desta soma recaindo no bolso dos contribuintes europeus.

Concentração de animais
Nenhuma medida isolada solucionará o problema, que tem como origem a imposição de um modelo produtivista, organizado, via PAC, para único benefício dos lobbies da agroindústria, e em primeiro lugar das transnacionais da alimentação animal, produção de antibióticos e ativadores do crescimento. Os custos de utilização dos antibióticos são avaliados oficialmente em cerca de 67 dólares por suíno fêmea, numa criação de menos de 100 animais. Mas, quando a produção se concentra num mesmo lugar, estes custos podem superar a soma de 170 dólares por cabeça. O objetivo agora não é mais cuidar do animal, mas obter ganhos de peso artificial. No entanto, os pesquisadores em microbiologia têm, há muito tempo, demonstrado que, concentrando os animais, a industrialização da criação concentra também os elementos patogênicos e os riscos.

Sabemos que as salmonelas, muito presentes no setor avícola, estão na origem de cerca de 80% das infecções tóxico-alimentares coletivas recenseadas na França. Por outro lado, as bactérias tornam-se cada vez mais resistentes a antibióticos consumidos em quantidades excessivas, com evidentes inconvenientes no tratamento das doenças infecciosas. O comitê científico da União Européia (composto de 16 experts independentes) publicou um relatório nesse sentido, no qual pede a sua interdição — sem ter conseguido ser ouvido até hoje em Bruxelas. É preciso dizer que este ramo do mercado farmacêutico mundial representa uns 250 bilhões de dólares…

Quanto à utilização — posta em questão de maneira espetacular depois da “vaca louca” — das farinhas animais como proteínas incorporadas na alimentação do gado a fim de equilibrar as rações, ela não é nada nova. A criação industrial intensiva construiu seu poder e sua estratégia de conquista dos mercados mundiais sugando uma fonte inesgotável: os restos do abate reciclados que em seguida são dados aos animais como alimentação [1]. A pesquisa do menor custo para obter o maior lucro levou os responsáveis dos grandes grupos de fabricantes de farinha a recusar sistematicamente as regras públicas de transparência e de informação aos criadores sobre as características e composições dos produtos fabricados. Em julho de 1996, a Confederação Camponesa fez a primeira queixa no caso da ESB [2], mas a justiça é lenta. Os poderes públicos francês e europeu, muitas vezes prontos a tomar medidas, inclusive legislativas, são bem mais lentos quando se trata de aplicá-las e de fazer respeitá-las.

Sanções comerciais
O escândalo da contaminação de carnes pela dioxina [3], substância altamente cancerígena e presente em doses consideráveis em certos alimentos do gado, como o caso da ESB, revela novamente a apatia, ou até mesmo a cumplicidade, dos serviços estatais em relação aos poderes financeiros, apesar dos discursos pacificadores dos governos. As repercussões serão graves — enquanto aumentarem “os medos alimentares” — para os criadores de aves, de porcos, até mesmo de bovinos: eliminação dos rebanhos atingidos, redução do preço, revisões unilaterais dos contratos de produção para os produtores integrados às empresas de alimentos. Porém, além da dioxina, outros perigos espreitam, como os ligados à acumulação de metais pesados nos solos através da fertilização com o lodo do tratamento de efluentes, sem esquecer as conseqüências, ainda desconhecidas para o meio ambiente e para a saúde, das manipulações genéticas com animais e vegetais.

As instâncias comunitárias até agora resistiram à pressão das firmas farmacêuticas que desejam impor hormônios leiteiros e animais, embora seja conhecido que a Bélgica é um país-chave para o tráfico destes hormônios na Europa. Entretanto, os Estados Unidos — que querem exportar a qualquer preço seu gado bovino para a Europa dos Quinze —, já marcaram sérios pontos a seu favor no seio da OMC que pouco se importa com as considerações de saúde pública [4]. Os europeus, como preço de sua recusa, devem pagar 253 milhões de dólares, sob a forma de aumento dos direitos de importação de certas exportações destinadas aos Estados Unidos (202 milhões) e ao Canadá (51 milhões). A Comissão Européia não se opõe ao princípio destas sanções, apenas reclama quanto ao seu montante. Ela se recusa a invocar o princípio de precaução, que está previsto no acordo das medidas sanitárias e fito-sanitárias concluído em 1994 por ocasião da Rodada Uruguai do Acordo Geral Sobre as Tarifas Aduaneiras e o Comércio (GATT), sob o pretexto de que isso poderia ser considerado por Washington como uma provocação!

Como vimos em fevereiro de 1999 em Cartagena (Colômbia) [5], um outro conflito comercial de envergadura se prepara entre os países que produzem e comercializam vegetais geneticamente modificados (Argentina, Austrália, Canadá, China, Estados Unidos, México) e Europa, onde somente nove variedades são autorizadas para a cultura e para a importação desde 1994. Mas somente a pressão dos consumidores e os movimentos de cidadãos europeus obrigou a Comissão e a maioria dos governos a ainda não liberalizar totalmente o comércio dos transgênicos, estas novas ferramentas de apropriação das sementes e das plantas por algumas firmas: Novartis, Monsanto, Pioneer-DuPont, Agrevo, etc. Desde o surgimento da agricultura, os agricultores semeiam seus campos a partir de suas próprias colheitas. Foram eles que há milênios selecionaram e adaptaram as plantas em função de suas necessidades e das características do ambiente. Hoje, os grandes grupos fabricantes de sementes selecionaram as sementes híbridas, com performances adaptadas à agricultura produtivista. Estes híbridos não podem ser semeados, enquanto as plantas autógenas como o trigo, a cevada e a colza são reutilizadas em 50% dos casos. Os fabricantes de sementes não têm, evidentemente, nenhum interesse em que os agricultores possam voltar a semear suas terras a partir de suas próprias colheitas. Eles tentam convencê-los de que as manipulações genéticas lhes darão margens financeiras maiores.

Enganos
Esta pretensão constitui um engano intelectual, em primeiro lugar, porque ela postula que a agricultura produtivista, importante consumidora de insumos, pesticidas e fungicidas de todo tipo é o único modelo apto a satisfazer as necessidades humanas. Ora, são numerosos os agricultores que desenvolvem outros modos de produção (especialmente a agricultura biológica), bastante competitivos, porém preocupados com a natureza e os consumidores. Em seguida, é um engano econômico, porque deixar as sementes nas mãos de algumas firmas multinacionais é aceitar uma integração cada vez mais forte dos agricultores ao complexo genético-industrial [6].

Os riscos do plantio dos transgênicos para a saúde e o meio ambiente são objeto de debates entre os cientistas. E a tendência é a mais extrema prudência, particularmente após numerosos estudos demonstrando os efeitos nefastos sobre as borboletas, do milho transgênico Bt, produzido pela Monsanto, Novartis e Pioneer. Porém, agindo como aprendizes de feiticeiros, os governos alemão, espanhol e francês autorizaram a sua comercialização [7].

Após o caso da dioxina, os ministros da agricultura dos Quinze, não deram prosseguimento à demanda francesa de proibição das farinhas animais, já que se coloca o problema de soluções para a substituição de proteínas vegetais.

A Europa, que fez a triste escolha do desenvolvimento de cereais a preço baixo, destinados ao mercado mundial, é fortemente deficitária em plantas ricas em proteínas e oleaginosas. Sua taxa de auto-suficiência para a colza, o girassol e a soja é somente de 22% para o ano comercial 1996-1997 [8]. Também, pudera: durante as negociações do GATT de 1993, ela aquiesceu às exigências de Washington, aceitando limitar em 5 482 hectares a sua área cultivada de oleaginosas, de modo a garantir ao agro-business americano uma colocação sem limites de suas tortas de soja e produtos de substituição dos cereais que entram na Comunidade livres de qualquer direito de aduana. Portanto, é para os Estados Unidos e para os países da América Latina — para eventualmente substituir as farinhas animais — que os agricultores europeus deverão voltar-se para seus fornecimentos. Ou seja, para os países onde milhões de hectares de transgênicos são cultivados (de acordo com fontes profissionais, 40% da soja e 20% do milho norte-americanos são trangênicos) e onde as multinacionais se negam a criar filiais de condicionamento e de comercialização separadas entre transgênicos e não transgênicos. Dito de outro modo, devido à falta de um sistema de etiquetagem claro, para a alimentação tanto humana quanto animal, os consumidores e os agricultores são tomados como reféns e têm apenas a escolha entre a peste das farinhas animais e a cólera dos transgênicos.

Dois mercados diferentes
Mais além do apoio dado pela França, dia 24 de junho, à proposta grega de suspensão de toda nova venda de transgênicos no plano europeu, as associações (France Nature Environnement, Greenpeace, Attac, etc.) reclamam uma moratória sobre o cultivo e a comercialização das tecnologias genéticas e a aplicação do princípio de precaução. Uma grande parte dos produtores, dependentes das grandes firmas nos planos tecnológico, econômico e financeiro, não tem mais margem de manobra. A indústria se apoderou do agricultor ao lhe impor suas próprias normas de fabricação de matérias primas de preço baixo, tornando-o uma cobaia descartável, que se joga no lixo quando não serve mais.

A fome no mundo não é um problema técnico que se possa resolver através das tecnologias genéticas. Ela será solucionada apenas pela soberania alimentar [9], isto é, pelo reforço de uma autonomia política dos países em vias de desenvolvimento, pelo reconhecimento de seu direito de se proteger das importações desleais e do dumping econômico, social e ecológico dos países ricos. É conveniente orientar-se, então, para uma agricultura que coloca no centro de suas preocupações a dimensão social, territorial e ambiental, e não uma agricultura dual onde os pobres se empanturrariam de uma alimentação de má qualidade, produzida por um punhado de agricultores ricos, e os ricos consumiriam uma alimentação de qualidade, fornecida por agricultores pobres.

Colocar a PAC, como fez a Comissão européia, a serviço da “vocação exportadora da agricultura européia” é uma grave confusão entre dois mercados de natureza fundamentalmente oposta: o dos produtos básicos (leite em pó, cereais, carnes brancas e cortes baixos de carne vermelha) e o de produtos elaborados e de importante valor agregado. O mercado mundial dos produtos básicos é alimentado pelos excedentes agrícolas dos grandes (União Européia, Canadá, Estados Unidos). Os preços deste mercado são extremamente baixos e permanecerão assim por muito tempo, se dermos crédito a um relatório recente do Banco Mundial: preço do leite entre US$ 0,10 dólares e US$ 0,17 o litro; quilograma do porco entre US$ 0,25 e US$ 0,40; e da vitela a US$ 0,75. Para produzir a preços tão baixos, é preciso eliminar todas as obrigações na produção e fazer recuar todos os limites: ateliers que se tornaram gigantescos, terras e ajudas públicas monopolizadas por alguns agro managers.

O mercado dos produtos elaborados ou de importante valor agregado obedece a regras fundamentalmente diferentes. Os agricultores, mesmo que busquem atingir a maior produtividade, não se enfrentam diretamente. As produções seguem normas muito claras e respondem a um conjunto de obrigações precisas. Elas se fazem em zonas geográficas bem identificadas e permitem valorizar um conhecimento. Contribuem para uma verdadeira economia local gerada por um valor agregado importante. Esta agricultura é a única alternativa a um tipo de desenvolvimento fundado na globalização cega das trocas. As catástrofes da “vaca louca” e da galinha com dioxina podem ser apenas o prelúdio de outras, se não for constituída uma frente ampla reunindo agricultores, consumidores e movimentos de cidadãos para recusar esta forma de ditadura dos mercados que representa o poderio das multinacionais da agroindústrias e indústria química.

[1] Sobre o conteúdo das farinhas e os métodos de matadouros, ler extratos do relatório confidencial da Direção Nacional de Pesquisas e de Repressão das Fraudes (DNERF) publicadas no jornal Le Canard Enchaîné, 9 junho 1999.

[2] Bertrand Hervieu, “Folie des vaches, folie des hommes” (Loucura das vacas, loucura dos homens), Le Monde diplomatique, maio 1996.

[3] As dioxinas são poluentes orgânicos resistentes, classificados de “cancerígenos humanos conhecidos” pelo Centre International de Recherche sur le Cancer (CIRC). Trata-se essencialmente de sub produtos de procedimentos industriais: fundição, branqueamento do papel, fabricação de certos herbicidas e pesticidas e, sobretudo, incineração do lixo, porque esta combustão é incompleta. O termo “dioxina” designa uma família de compostos (mais de 400) aparentados à mais tóxica de todas, a TCDD.

[4] Desde 1989, a União Européia proibiu a utilização dos hormônios de crescimento na alimentação animal, devido os riscos que elas comportam para a saúde humana. Os Estados Unidos e o Canada obtiveram em 1997, um julgamento da OMC condenando esta “violação das regras do comércio mundial” que se refere a 10 mil toneladas de importações, sobre um total de cerca de 45 mil toneladas. Dia 12 de julho, um grupo de arbitragem da OMC deveria estatuir sobre o montante de compensações que a União Européia deverá pagar aos dois países reclamantes.

[5] Inaugurada dia 14 de fevereiro, a conferência de Cartagena sobre os produtos transgênicos procuravaestabelecer um “protocolo sobre a prevenção dos riscos biotecnológicos” suscitados por tais produtos. O “grupo de Miami”, levado pelos americanos se opôs, transferindo o problema para a OMC, forum onde o comércio prima sobre qualquer outra consideração (Le Monde, 26 fevereiro, 1999).

[6] Ler Jean Pierre Berlan e Richard C. Lewontin, “La menace du complexe genético-industriel” (A ameaça do complexo genético-industrial), Le Monde diplomatique, dezembro 1998.

[7] Um estudo da Universidade de Cornell, publicado na revista Nature de 20 maio 1999, e confirmada pelos pesquisadores da Universidade de Iowa, revelou uma taxa de mortalidade de 44% em 48 horas nas larvas da borboleta monarca alimentadas com leite contaminado com o pólen do milho Bt. Trabalhos realizados pelo Greenpeace com um entomologista da Universidade de Exeter mostraram que este milho poderia ser nefasto para mais de cem espécies, entre elas o o pavão, e duas variedades específicas de borboletas. Greenpeace International: www.greenpeace.org

[8] Jacques Loyat e Yves Petit, La politique agricole commune, La Documentation française, Paris, 1999.

[9] Edgar Pisani, “Pour que le monde nourrisse le monde” (Para que o mundo alimente o mundo), Le monde diplomatique, abril 1995.

“Le Monde diplomatique”

Comentários

Tanja Privenau, uma arrependida do neonazismo

Cécile Calla

Ela casou-se num dia 20 de abril, a data do aniversário do Führer. Com uma voz suave, Tanja Privenau relembra com certo distanciamento seus vinte anos de militância no meio da extrema-direita alemã. Desde a sua adolescência até completar 33 anos, esta jovem mulher originária de um pequeno vilarejo da Baixa Saxônia (ex-Alemanha Ocidental) engajara-se com fervor em diversas organizações neonazistas.

Uma homeopata de profissão, ela experimentou os mais diversos aspectos do movimento, antes de romper, três anos atrás, com esse meio. De um dia para o outro, ela fez as malas, deixou seu marido e seus amigos, e, levando consigo seus cinco filhos, partiu de uma vez por todas para dar início a uma nova vida.

A sua decisão foi motivo de surpresa, tanto para os seus ex-colegas dos meios neonazistas quanto para as autoridades alemãs. Até Bernd Wagner, um antigo policial e o presidente da Exit, uma associação que ajuda os antigos militantes de extrema-direita a efetuarem sua reinserção na sociedade democrática, o reconhece: “Ela era uma figura carismática”.

Foram recenseados em toda a Alemanha 38.600 militantes de extrema-direita, repartidos em cerca de 182 organizações. As duas principais agremiações políticas neonazistas, o Partido Nacional Democrata (NPD) e a União Popular Alemã (DVU), contam com a representação de deputados nos parlamentos de três regiões da antiga Alemanha Oriental (a ex-RDA).

Em abril, o Partido Social-Democrata alemão (SPD) havia retomado a idéia de dar continuidade ao processo de proibição do NPD. Entretanto, a maioria dos ministros do Interior dos Länder (Estados) se opôs a esta iniciativa, sublinhando que uma outra tentativa similar já havia fracassado em 2003, por decisão da Corte constitucional do país.

Tanja Privenau tinha sido uma dirigente regional da FAP, uma organização neonazista que fora proibida em 1995, além de membro da comunidade de crença germânica (Artgemeinschaft), e havia trabalhado a serviço do NPD. Na época, a sua vida era organizada conforme os preceitos do nacional-socialismo. Em seu domicílio, uma foto de Adolf Hitler estava dependurada na parede da sala de estar. Ela havia banido a televisão do seu cotidiano, e as suas crianças estavam proibidas de trajarem calças jeans e de usarem roupas nas quais eram impressos símbolos americanos.

No dia do nascimento do Führer, ela e o seu marido faziam questão de usar roupas de festa, acendiam as velas de um castiçal e liam trechos de “Mein Kampf”. Da mesma forma que inúmeros outros jovens que cresceram neste meio, os seus filhos foram enviados para campos da “Juventude alemã fiel à sua pátria”, cujos métodos relembram aqueles das Juventudes hitlerianas dos anos 1930. As crianças são ensinadas a desfilarem e a tocarem tambor, mas, reina também nesses campos uma disciplina extremamente rígida. “Eles querem transformar os jovens em máquinas de combate”, denuncia agora a ex-neonazista. A lavagem cerebral começa até mesmo logo no nascimento. Quando jovem mãe, Tanja Privenau costumava reunir-se com outras mães, na companhia dos seus recém-nascidos, para cantarem textos guerreiros ou populares.

Muito cedo, esta filha única sentiu-se atraída pela extrema-direita. A influência do seu avô, que havia desempenhado o papel do pai depois do divórcio dos seus pais, quando ela tinha 10 anos, foi determinante. Este antigo soldado da Wehrmacht (como era chamado o conjunto do exército alemão) se dedicara a contar-lhe as glórias da propaganda guerreira do nacional-socialismo. Quando a sua filha começou a escrever textos de conteúdo revisionista na escola, os pais de Tanja foram convocados pelos professores. Contudo, já era tarde demais. Aos 13 anos, a menina já era uma anti-semita convicta: um dia, ela declarou à sua professora de religião que ela se recusava a “acompanhar as aulas de uma judia”.

Ela efetuou os seus primeiros contatos com o NPD pelo intermédio do seu namorado “skinhead”, e então começou a distribuir material de propaganda no pátio da escola. Ela foi expulsa então do estabelecimento. “Se alguém tivesse tentado conversar comigo, para confrontar os seus argumentos aos meus, isso talvez não me tivesse impedido de prosseguir nesse caminho, mas teria me obrigado a refletir”, diz, relembrando aquela situação com a distância dos anos.

Naquela época, Tanja Privenau participava todos os fins de semana de manifestações da extrema-direita. Ela era regularmente interpelada pela polícia. O seu pai, então um militante da CDU (União Democrata-Cristã da Alemanha), fazia vistas grossas para as atividades da filha. A sua mãe, pouco comovida com as suas idéias, preocupava-se muito mais “com a sua reputação”. Mais tarde, ela mesma acabaria se aproximando dos movimentos de extrema-direita. Tanja decidiu então aderir à FAP. Neste lar do neonazismo, ela chamava as atenções pela desenvoltura que ela mostrava ao discursar em público. A partir daquele momento, ela passou a galgar muito rapidamente os escalões dessa agremiação.

O seu status de mulher não parece ter sido um obstáculo. “Possivelmente porque eu nunca aparentei ser do tipo da mulherzinha pentelha”, diz Tanja, às gargalhadas. Trajando um vestido verde pistácia com flores brancas desenhadas, além de calçados e brincos sortidos, ela gosta visivelmente de vestir-se de modo atraente.

No que vem a ser um paradoxo, foi a sua paixão pelas atividades da militância que a conduziu a vivenciar suas primeiras dúvidas. Ela acabou se dando conta de que um grande número das lideranças do movimento aplicava sem grande afinco o modo de vida nacional-socialista. “Por ocasião das nossas reuniões, aos fins de semana, eles trajavam seu vestuário folclórico. Mas, durante a semana, eram vistos trajando calças jeans ou indo almoçarem no McDonald’s”, conta. Mais tarde, quando ela começou a conscientizar-se de todos os tráficos que cercavam esse movimento, principalmente no que dizia respeito às armas, a distância foi aumentando de maneira constante. “Eu não queria ver os meus filhos crescerem neste meio mafioso”, diz Tanja, sem mostrar qualquer hesitação.

A violência doméstica que ela era obrigada a aturar por parte do seu marido foi um outro motivo para a ruptura. Em 2002, ela viajou para Colônia com o objetivo de se apresentar aos funcionários do Verfassungschutz - o equivalente de um serviço nacional de inteligência -, aos quais ela pediu ajuda para se desvencilhar desse meio. Assustada com a perspectiva de cortar todos os vínculos com os seus familiares e amigos, ela renunciou num primeiro momento a este projeto. Mas, ela acabou se decidindo a dar o passo definitivo três anos mais tarde. Desde então, ela ainda não retomou o seu trabalho e vive da ajuda social. Por temer eventuais represálias por parte dos seus antigos camaradas, e para evitar que os seus filhos sejam estigmatizados na escola, ela é obrigada a manter em sigilo sua nova identidade e a dissimular-se por trás de grandes óculos escuros, além de usar um boné e um espesso jaleco quando ela aparece em público. Mas, ela faz questão de dar depoimentos sobre a sua história, para que outras mulheres e mães que pertencem a esse meio se conscientizem da verdadeira realidade da extrema-direita.

Espontaneamente, ela não menciona a ideologia nazista como sendo um dos motivos da sua ruptura. Quando indagada a esse respeito, ela responde que “refletiu muito sobre a questão do 3º Reich” e que ela tirou um traço sobre a ideologia que este regime desenvolveu. “Ela aceita o sistema democrático”, garante Bernd Wagner, “mas ela permanece muito crítica a seu respeito, principalmente naquilo que se refere às questões de justiça social”. Ela tampouco está interessada em se mostrar mais explícita em relação às idéias políticas que ela defende atualmente.

“Le Monde”

Comentários

O brega desconstruído

Paulo César de Araújo fala sobre a música brega durante o regime militar

Adriano Belisário

Se vivo, Euclides da Cunha concordaria: o cantor brega também é, antes de tudo, um forte. Sobreviventes da pobreza e do trabalho infantil, estes artistas conviveram com duras críticas a seus trabalhos mesmo depois de se tornarem celebridades. O enorme sucesso não evitou que fossem excluídos da historiografia da música brasileira por décadas. Ouvido por muitos e desprezado por poucos, o brega voltou às páginas dos jornais este mês por conta da morte de Waldick Soriano, cantor, compositor e ícone deste movimento.

Seus representantes são vários. Odair José, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo e Paulo Sérgio são apenas alguns dos nomes mais conhecidos da geração de cantores bregas que marcou época durante o regime militar. Ao contrário dos artistas da MPB, eles não tiveram formação universitária e não compunham prioritariamente canções de protesto. O Brasil dos cafonas era outro. Suas músicas falavam quase sempre sobre a rejeição, seja ela amorosa ou social. Por conta disso, foram taxados de alienados e ignorados pelas elites culturais.

No entanto, está em marcha uma retomada do brega. Patrícia Pillar lançou recentemente o documentário “Waldick, Sempre no meu coração” e bandas jovens, como Los Hermanos e Mombojó, já regravaram canções de artistas considerados cafonas. Sem dúvida, ao menos no meio acadêmico, um dos responsáveis por tal resgate é o historiador Paulo César de Araújo.

Autor da biografia censurada sobre Roberto Carlos, ele escreveu a mais completa análise sobre a música brega e o regime militar. Em entrevista para a Revista de História da Biblioteca Nacional, Paulo falou sobre a censura sofrida por estes artistas, a relação que manteve com eles e seus próximos projetos. Confira:

RHBN - Você já viu o documentário sobre Waldick?
Paulo - Não pude ver, pois estava nos Estados Unidos quando ele passou em um festival aqui do Rio. No ano passado, vi o DVD com o show dele, também dirigido pela Patrícia Pillar. Achei fantástico. Ela deu um tratamento espetacular às músicas do Waldick.

RHBN - Como surgiu seu interesse pela música brega?
Paulo - Faz parte da minha memória afetiva. Sou de Vitória da Conquista, interior da Bahia. No início dos 70, não tínhamos televisão, nem toca-discos. Escutava música através das rádios AM. Ouvia de Waldick Soriano a Chico Buarque, tudo misturado. Claro, os bregas tocavam muito mais que a MPB. Então, cresci em contato com esses artistas.

Quando ingressei na faculdade e me interessei pela história da música brasileira, constatei que aqueles cantores não estavam representados na historiografia. Eu me formei em História na UFF e Jornalismo na PUC. As pessoas falavam sobre bossa nova, tropicalismo e samba de raiz, mas nada sobre os bregas. É como se eles não tivessem existido.

RHBN - Você encontrou resistência dentro da academia?
Paulo - Não exatamente. Em um primeiro momento, não encontrei entusiasmo. Lembro que falava com alguns professores da UFF e não sentia grandes interesses. Tinha uma professora que até queria que me orientasse, mas ela falou: “Paulo, nessa época eu estava exilada na Europa. Não recebia discos de Waldick. Eu recebia do Caetano, do Milton. Não tenho nada para falar sobre isso”.

Há uma falta de intimidade com essa produção musical, mas eu consegui. Fiz alguns trabalhos e essas “resistências” foram sendo derrubadas à medida que ia apresentando os projetos. Depois, defendi a tese no mestrado na UNIRIO. Isso resultou nesse livro “Eu não sou cachorro não”.

RHBN – Como foi a pesquisa?
Paulo - Eu trabalhei muito com entrevistas para esse livro e ainda mais para o “Roberto Carlos em detalhes”. Também analisei jornais e revistas da época, além da discografia que rastreei em sebos. Isso não estava sendo re-editado, né? Foi uma pesquisa de garimpagem mesmo. Não só no Rio ou São Paulo. Por onde eu viajava, ia aos sebos reunindo esse material. Utilizei também entrevistas com produtores e os arquivos da censura, mostrando que ao contrário do que se pensava não foi só a MPB que foi proibida na época da ditadura. Fui no Arquivo Nacional e em Brasília atrás dessas fontes, que hoje já podem ser facilmente acessadas, mas na época também era uma garimpagem.

O depoimento dos cantores foi fundamental. Na MPB, há sempre entrevistas publicadas com regularidades. Com esses cantores, não. Muitos já estavam fora da mídia e nunca tinham dado uma entrevista de caráter histórico. Geralmente, era sobre os discos e sucessos do momento. Nada que contextualizasse a obra deles a um momento da sociedade brasileira. Saber onde eles estavam quando o AI-5 foi decretado, por exemplo. Tanto que muitos falaram: - É a primeira vez que eu estou falando sobre esses assuntos.

RHBN - Você recorda de alguma entrevista em particular?
Paulo - Fiz todas pessoalmente. O Waldick, por exemplo, na época estava morando em Fortaleza. Então, tive que esperar ele vir até aqui. Um dia, ele foi para São Paulo e eu fui atrás. Ele estava em um hotel na Avenida São João.

Eu imaginava o Waldick, não é? Aquele cara meio cowboy, de óculos escuros e chapéu. E foi assim que eu o encontrei. Ele estava deitado na cama assistindo um bang-bang na televisão com a perna estirada. Era o próprio personagem vendo o filme.

Fiquei ali assistindo com ele e depois fomos conversar. Eles sempre foram receptivos. No início, imaginavam que seria mais uma daquelas entrevistas de sempre. Geralmente, o jornalista chega sem maior intimidade com aquele universo, o que é compreensível. Mas, quando o assunto começava, sentia que eles ficavam mais entusiasmados e surpresos com o conhecimento que tinha da obra deles. Então, eles falavam mais abertamente. Houve uma boa interação.

RHBN - Eles pareciam ressentidos com essa exclusão da memória oficial da música brasileira?
Paulo - Depende de cada um. Don e Ravel, por exemplo, tiveram aquela pecha de porta-vozes da ditadura militar. Eles pareciam mais inconformados. O Agnaldo Timóteo é mais radical: “Eu sei que canto bem pra caramba. Esses críticos não entendem nada”. Ia da arrogância ao ressentimento, dependendo da personalidade de cada um. Já o Waldick parecia indiferente. “Se tenho mais de 600 músicas gravadas, mais de 80 discos e eles não me reconhecem, então também não me merecem”. Era um gozador, ironizava os críticos também.

Mas acho que isso não era tanto um problema para eles quanto seria para artistas que convivem nesse universo cultural. Acho até que meu livro revelou para eles algo que não tinham tanta consciência. Após a publicação alguns deles se tocaram: “Poxa, é mesmo. A gente estava fora da história”. O livro ajudou inclusive a revelar isso para eles.

RHBN - E qual o impacto do livro na carreira deles?
Paulo - Foi positivo. Principalmente com o Odair José, que foi uma das figuras centrais do livro. Pelo fato dele ter sido o mais censurado, talvez tenha sido o que teve maior repercussão. Houve um resgate do Odair José. Ele mesmo reconhece que houve uma retomada na sua carreira. A mesma coisa com o Waldick. Ele até reclamou quando fui lançar o livro em Salvador. Ele estava morando em Fortaleza, mas ficou chateado porque eu não o avisei. Disse: - Poxa, você não me convidou. Se você tivesse me avisado, eu iria.

Já com o Agnaldo Timóteo, eu fiquei em dúvida por causa do capítulo “Pederastas, maconheiros e prostitutas”. Nele, falo como a questão do sexo e amor foi tratada nesse repertório dos anos 60. Cito canções e falo de aspectos da vida pessoal do Agnaldo. E alguns amigos me alertavam dizendo que o Timóteo é brigão, estourado. Tinha essa dúvida de como seria a reação dele. A noite de autógrafo no Rio foi lá no Museu do Catete. Era uma noite chuvosa e, de repente, quando eu olho para a porta, entra aquele cara de capa escura com aquela voz de trovão: “Quem é Paulo César de Araújo?”. Eu pensei: “Pronto, é agora”. Aí chega o Agnaldo e fala: “Paulo César, vim aqui te dar um abraço”. Perguntei se ele não estava chateado comigo e ele respondeu: “Não, você nos tratou com muito respeito. Tudo que você disse é verdade. Quero que você dê um autógrafo para o Silvio Santos e outro para o Raul Gil. Vou entregar os livros pra eles”. Foi bacana. Ele percebeu que embora eu estivesse falando da vida dele, isso estava num contexto.

RHBN – E o Waldick? Como foi a trajetória dele?
Paulo - Dessa geração, ele é o mais velho. Começou primeiro e acabou se tornando o ícone maior da chamada música brega. Iniciou a carreira na virada de 59 pra 60 fazendo sucesso basicamente no norte e nordeste. Só a partir de 69, quando lança a música “Paixão de homem”, ele estoura no Brasil inteiro. A trajetória foi crescendo, não foi fácil, nem rápida. Ele foi engraxate, trabalhou no garimpo e como servente de pedreiro, mas ao mesmo tempo sonhava com a carreira artística.

Ele passa toda década de 70 no auge. Nesse período, seus discos alcançavam grandes vendagens e muitas execuções nos rádios. Já na virada de 70 para 80, o foco passa a ser o rock. As rádios FM ganham destaque e pela primeira vez assumem a dianteira na audiência. Após essa época, aquele sucesso vai rareando. Não é mais um álbum por ano. A vendagem é menor, toca menos e as gravadoras já não dão o mesmo espaço. A partir daí, eles vivem basicamente de shows. Até pouco antes de ficar doente, o Waldick estava fazendo show.

Eles tiveram mais sucesso de 69 até 79, por isso os chamo de geração do AI-5. Aliás, é assim com toda música popular. Isso é a regra. A exceção é um Roberto Carlos ou Caetano, que atravessam décadas com destaque e projeção. Você pega o pessoal da bossa nova, Carlos Lyra e Roberto Menescal, por exemplo. Eles tiveram sucesso na virada dos 50 até 64 e até hoje eles fazem shows sobre bossa nova. Cantam a produção daquele período. Com esses cantores não foi diferente.

RHBN - Como eles encararam a mudança de status social?
Paulo – Uma característica deles é que a grande maioria trabalhou durante a infância. Não é à toa que a obra deles vai ter esse caráter. Ao mesmo tempo que fala de uma rejeição amorosa, também trata de uma rejeição social. Então, há canções como: “Eu não sou cachorro não”, “Eu não sou sapato seu”, “Eu não sou tapete”. Ou como Evaldo Braga: “Eu não sou lixo”. Em uma leitura simples, é uma temática amorosa, sim. Mas dada as circunstâncias sociais, a origem deles, também dá para interpretar como uma rejeição social. Isso os ajudou no sucesso desses artistas. O público que vai ouvi-los também é formado por porteiros, empregadas, garçons e imigrantes nordestinos. São pessoas freqüentemente humilhadas e ofendidas no cotidiano brasileiro. Então, vai haver essa identificação.

Acontece com eles mais ou menos o que acontece com jogadores de futebol, eu acho. Os que administraram melhor, conseguiram acumular patrimônio. Outros que não souberam aproveitar esse período de maior sucesso ficaram depois em condições mais difíceis. Mas o que dá dinheiro na música é prestígio, não é sucesso. Eles ganham dinheiro com shows. Se o artista tem prestígio, o show dele é caro, logo ele vai ganhar muito com música. Vendagem de discos dá (ou dava) dinheiro para a gravadora. Os bregas vendiam muito e recebiam a porcentagem que lhes cabiam, mas quem ganhava mais com isso era a gravadora. Já os artistas da MPB vendiam pouco em comparação. Mas o show do Caetano, do Chico, do Milton era e é caro. Então, esses artistas conseguiram ganhar muito mais dinheiro ao longo do tempo. A exceção é o Nelson Ned, que fez muito sucesso lá fora. Ele conseguiu um patrimônio maior por causa disso. É um dos cantores brasileiros de maior popularidade principalmente na América Latina e na África. Os que ficaram mais no Brasil não ganharam tanto quanto poderiam.

RHBN - Como foi a relação desses cantores com a ditadura militar?
Paulo – Especialmente com o AI-5, você tinha a repressão política e a repressão moral caminhando juntas. A MPB vai sofrer a repressão política, pois a temática de artistas como Vandré e Chico Buarque era a temática política. Eles faziam canções de protestos, músicas criticando o presidente Médici. Já os bregas vão tocar mais na questão moral, então vai sofrer outro tipo de repressão. Alguns deles fizeram canções de temática política, mas o foco maior e o que incomodou na época foi a questão moral. Eles falavam de temas considerados tabus, como pílula, prostituição, drogas e homossexualismo.

Por isso que o Odair José vai ser um dos mais censurados cantores da época. Suas músicas vão enfatizar, algo que era considerado subversivo. O Waldick Soriano sofreu menos, mas também sofreu. Ele não tinha uma obra tão voltada para o sexo, era mais romântico. Mas há um exemplo clássico e absurdo de proibição de músicas do Waldick que é a musica “Tortura de amor”. Na época, os militares não admitiam a existência da tortura no país, sequer que se falasse sobre isso. Então, essa referencia à tortura perturbou. Outra música dele chamada “Foge de ti” foi proibida porque os caras acharam a música ruim. Eles tinham um projeto de educar o povo, uma visão paternalista, bem típica dos regimes ditatoriais. Então, muitas vezes achavam que a música mal feita ia empobrecer o vocabulário.

Já Luiz Ayrão vai fazer canções de temática política. Ele está naquele grupo do “sambão-jóia” que teve seu ícone maior em Benito di Paula. Em 77, muito se falava dos treze anos da revolução. Ayrão fez uma música crítica chamada “Treze Anos”. Então, ficou muito óbvio e a música foi proibida. Aí ele mudou para “O divórcio”, mantendo a mesma letra e a música foi liberada.

Foi o caso do Odair José em “Pare de tomar a pílula”, de “A viagem”, que tratava de drogas. Ele abordava desses temas de forma consciente, queria confrontar mesmo. Ele ficou marcado desde o primeiro sucesso (”Vou tirar você desse lugar”) como um cantor de temas polêmicos. Então, a música atraiu mais essa repressão.

RHBN - Na tropicália, existe uma grande comunhão entre os artistas. Os cantores da música brega também produziam juntos?
Paulo - A tropicália é um grupo pequeno. No caso do brega, é uma geração que você tem desde cantores de bolero, baladistas até sambistas. É mais diverso. Era cada uma na sua carreira. Eles ocupavam o mesmo espaço, nos programas de TV e tal, mas mais pela contingência do que por um projeto em comum.

RHBN - Como era a relação dos outros cantores com os bregas?
Paulo - Os únicos artistas que tinham uma proximidade com o brega, eram exatamente os tropicalistas, pois isso era parte da própria essência do projeto de integração de misturar o cafona e o chique. Então, os artistas tropicalistas, especialmente Caetano, vão estar sempre atento à produção brega, tocando e gravando esse repertório na medida do possível. Em 73, há um famoso show de Odair José e Caetano. Você não vai ver Odair José cantando junto com um brega. Foi Caetano que quis. A Phonogram resolveu fazer uma apresentação onde cada um cantava com um companheiro. Gil cantou com Jorge Bem e Caetano escolheu Hermeto Pascoal, mas ele se recusou. Então, Caetano quis Odair José, que ficou até surpreendido. Já os cantores mais tradicionais não se relacionavam muito. Era cada macaco no seu galho.

RHBN - De onde surgiu a expressão música brega?
Paulo - Nos anos 70, a música popular mais romântica era chamada de cafona. No início dos anos 80 passa a se chamar de brega, que era uma expressão usada para designar o baixo meretrício, principalmente no interior da Bahia. Chegava um viajante e falava: “Onde é o brega aqui?”. Ele queria saber onde era a zona. Nesses locais tocava-se muito Waldick, Odair José e esses cantores mais populares. Aí no início dos anos 80 isso passa a ser adjetivo. A música do brega, passa a ser música brega. E o termo cafona vai perdendo força. Até hoje se chama de música brega. Acho até mais sonoro…

RHBN - E a música brega hoje?
Paulo - O brega está mais forte do que nunca. Assim como o samba, ele agoniza mas não morre. Ele se transforma. Estamos hoje no tecno-brega, que é dançante e mexe com o corpo. Nos anos 70 era algo mais romântico, você ouvia mais contemplativo. Essa geração sertaneja é chamada de “breganejo”. Zezé di Camargo e Luciano, Daniel ou Leandro e Leonardo estão dentro da produção identificada ao brega. O que eles vão fazer também não está associado ao moderno, nem ao tradicional. Os críticos não dizem que aquilo é musica caipira.

Saiu uma pesquisa no ano passado na Folha com os 10 artistas mais ouvidos no Brasil. E estavam lá: Calypso, Daniel, Zezé di Camargo e Amado Baptista. São cantores considerados bregas, que continuam sendo desqualificados pela crítica. Hoje eles têm uma presença maior. Há filmes, tocam na Globo, em novelas. Isso é o estilo brega, não aquela geração dos anos 70. A produção brega continua com força cada vez maior. Não dá mais para ignorar. Dá para desqualificar, pois eles não estão associados nem a tradição, nem a modernidade.

RHBN - Qual seu projeto atual?
Paulo - Fiz cerca de 200 entrevistas para esses dois livros. Foram quinze anos de pesquisa. Comecei em 90 e fui até em 2005. Usei apenas parte desse material. Então, ainda estou trabalhando com ele. Falei de Waldick Soriano a Tom Jobim. Conversei com todos pessoalmente e agora estou transcrevendo esse material. Só não consegui ainda dar um corte. Não sei se vou fazer uma síntese geral ou algo mais específico. Esse material dá pelo menos mais dois livros sobre música popular. Talvez eu vá contar os bastidores, ainda não sei. Mas com certeza vai ter mais um livro sobre música popular.

“Revista de História”

Comentários

Literalmente

Comentários

A insustentável sociedade de consumo

Chris Bueno

Lojas de departamentos de vários andares, shopping centers que oferecem todos os tipos de serviços, boutiques finas que servem champanhe aos clientes, pequenas lojas que vendem toda sorte de produtos por menos de R$ 2,00. Há décadas consumir deixou de ser um simples ato de subsistência para ser identificado com uma forma de lazer, de libertação e até mesmo de cidadania. Homens e mulheres são levados a consumir, mesmo sem necessidade, apenas pelo simples ato de comprar. Para alguns pesquisadores, consumir é indispensável para fazer a economia girar e os países se desenvolverem. Para outros, o consumo desenfreado é uma grave doença moderna, com complicadas conseqüências para a sociedade e para o meio ambiente.

O consumo é considerado, por alguns economistas, como a “mola propulsora” da economia mundial. Consumir geraria demanda, que por sua vez geraria maior produção por parte das indústrias, estimulando o surgimento de novos empregos, o aumento de salários e até mesmo o investimento em novas tecnologias para aprimorar a produção. Isso significaria mais trabalhadores, com salários melhores, que também seriam levados a consumir, formando um ciclo que manteria a economia aquecida e contribuiria para o desenvolvimento dos países. Por muito tempo, essa foi uma corrente de pensamento econômico predominante nos países capitalistas. Mas esse modelo neoliberal, que tinha os Estados Unidos como seu principal representante, está sendo cada vez mais questionado.

A crise econômica que os Estados Unidos enfrentam atualmente coloca em dúvida esse modelo econômico fortemente baseado no consumo, pois evidencia sua instabilidade. A crise, desencadeada pelo setor imobiliário, levou os bancos norte-americanos a entrarem em colapso – muitos quebraram e outros precisaram pedir ajuda ao governo para seguirem ativos. Nesse cenário, as instituições financeiras tiveram que reduzir drasticamente o crédito ao consumidor, o que acarretou na queda do consumo e de toda a atividade econômica do país. Para conter a crise, o governo norte-americano lançou um pacote centrado no consumo da população. Uma das medidas do pacote determina a devolução de impostos à população como uma forma de injetar dinheiro na economia e esquentar o consumo. Se o baixo consumo representa um problema que agrava a crise nos Estados Unidos, no Brasil ocorre o exato oposto: o aumento do consumo da população está preocupando o governo, que teme a volta da inflação. Para evitar que isso ocorra, o governo brasileiro já está pensando em medidas que desestimulem o consumo e possam conter a alta dos preços. Mas não é só o Brasil e os Estados Unidos que enfrentam problemas econômicos relacionados ao consumo: o desemprego e a alta dos preços são sinais de desgaste do modelo que já despontam em diversos países da Europa, enquanto a desigualdade social conseqüente desse sistema mostra que ele está ficando cada vez mais inviável para os países da América Latina e da África.

“Estas relações geram impacto visível na economia, mas há um impacto ainda maior e mais grave na sociedade e sobre o meio ambiente”, aponta Aloísio Ruscheinsky e Mariana Ocaña Madruga, sociólogos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) . Segundo os pesquisadores, um dos principais impactos que esse estímulo ao consumo causa é o distanciamento entre ricos, que podem “consumir mais”, e pobres, que lutam para poder consumir o mínimo. “Esse fenômeno, por ironia da história tem como decorrência o aumento das desigualdades e do contingente da população na faixa da pobreza”.

“As relações sociais escravizaram-se pelo dinheiro e pelo poder de consumo”, afirma Valquíria Padilha, socióloga da USP e a utora do livro Shopping Center: A catedral das mercadorias . A socióloga explica que o cidadão foi reduzido a consumidor através de uma série de estratégias que construíram o capitalismo e o neoliberalismo. Como parte dessa estratégia, o Estado liberal foi deixando ao mercado responsabilidades que deveriam ser suas, como fornecer saúde, lazer, educação e infra-estrutura de qualidade. A conseqüência disso é um número cada vez maior de pessoas, principalmente de classe média, pagando, além dos impostos, planos de saúde privados, escolas privadas, pedágios e segurança privada. “Os ricos e endinheirados podem comprar conforto, segurança (ou ilusão de segurança), educação, saúde e lazer, mas os pobres morrem nas filas de hospitais públicos, ficam adultos analfabetos ou semi-analfabetos, não têm esgoto, água encanada, dentista, boas escolas”, declara. E conclui: “Quem não tem dinheiro não tem cidadania”.

Dessa forma, o consumo acabou se tornando um fator importante de construção de representações sociais. Ao comprar, não apenas se adquire um produto ou um serviço, mas define-se o status, e mesmo a identidade, de um indivíduo. É o “compro, logo existo”, uma forma do indivíduo se posicionar – e se diferenciar - dentro da sociedade através do que consome. “Aquilo que você veste, come e bebe define socialmente quem você é, onde você está e até onde pode ir. Desta forma, cria-se um mito cultural: aquele que maiores condições financeiras obtiver ‘irá mais longe’”, destaca Ruscheinsky. “ Os impactos psicossociais dessa lógica de vida são bastante complicados, porque o valor do ser humano é reduzido ao seu poder de compra. Quem tem carro importado é melhor, quem se veste com roupas da moda é gente de respeito e assim por diante”, concorda Padilha.

Comprando felicidade

Não é preciso apenas consumir para existir, mas é preciso consumir para ser feliz. Nessa lógica, vale tudo para se realizar um sonho de consumo: fazer horas-extras, “bicos” ou prestações a perder de vista. “É como se os objetos fossem capazes de propiciar o bem-estar social e a segurança que tanto se reclama e proclama”, aponta Ruscheinsky. Assim, busca-se a realização pessoal e a felicidade através do consumo. A sociedade de consumo vende a satisfação dos desejos individuais, mas desperta nos consumidores a cada momento novos desejos a serem satisfeitos, fazendo-os querer (e consumir) sempre mais. “O vazio existencial cavado pela complexidade dos relacionamentos psicossociais não se preenche facilmente com bolsas, celulares e carros. Se a felicidade prometida pela sociedade de consumo fosse real, nós não estaríamos vivendo uma sociedade tão violenta como a nossa. A violência física e simbólica são frutos da desigualdade e da perversidade da sociedade de consumo que elege os endinheirados como os sortudos da ilha da fantasia ”, alerta Padilha.

Para compreender a dimensão do consumo na vida moderna, é preciso vê-lo como uma prática social e cultural complexa e importante. “O acesso aos bens de consumo são parte das lutas pela eqüidade e das lutas pela qualidade de vida, em especial, as lutas pelo direito de escolha do tipo de vida que queremos viver. Nesse sentido, consumo e cidadania são inseparáveis, já que ambos criam e fortalecem sentimentos de pertencimento a um grupo social”, explica Fátima Portilho, socióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do grupo de pesquisa Sociedades e Culturas de Consumo e autora do livro Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania . A partir dessas considerações, não é mais possível pensar o consumidor como uma simples vítima manipulada pela propaganda, ou como uma pessoa superficial e alienada. Ao contrário, a tendência atual é que o consumo seja, cada vez mais, associado ao desejo de “fazer alguma coisa” e de participar da vida e dos problemas coletivos. “Ninguém quer apenas sobreviver biologicamente consumindo ‘produtos indispensáveis’, mas viver, ou seja, ter prazer, ter uma identidade, escolher, se expressar… E quem definirá o que é ‘consumir para sobreviver’, o que é supérfluo, o que é necessário, o que é indispensável?”, diz a socióloga.

“O consumo é indispensável na vida de todos os cidadãos. O que está em discussão é a tipologia, o significado e o montante do consumo. Principalmente no que diz respeito às produções que envolvem matérias-primas há uma crescente preocupação. A finitude dos recursos naturais é evidente, e é agravada pelo modo de produção regente, que destrói e polui o meio ambiente.”, diz Ruscheinsky. “O consumo é indispensável e cumpre diversas funções sociais, mas, nos níveis e padrões atuais, e em expansão, precisa ser modificado em direção a formas mais sustentáveis, tanto do ponto de vista social quanto ambiental”, concorda Portilho.

Repensando o modelo

O modelo da sociedade de consumo está tão enraizado na sociedade contemporânea que alguns pesquisadores já chegaram a afirmar que ele é irreversível. Porém, Padilha discorda: “Nada é irreversível quando se pensa em sociedade”. Para a pesquisadora, a atual crise nos Estados Unidos é um sinal de que esse modelo deve começar a ser repensado. “O produtivismo e o consumismo desenfreados são insustentáveis por mais tempo. O primeiro e mais importante limite dessa cultura do consumo, que estamos testemunhando hoje, são os próprios limites ambientais. O planeta não suportaria se cada habitante tivesse um automóvel, por exemplo. Psicológica e sociologicamente também não será suportável por muito mais tempo essa lógica de produção e consumo destrutivos a que estamos sujeitos hoje”, afirma.

“O espaço para discussão sobre o modo de produção e hábitos de consumo tem crescido muito atualmente, mesmo que ainda não tenha atingido a abrangência desejada e os resultados necessários para processos sustentáveis e processos reversíveis de uso dos recursos naturais”, declara Ruscheinsky. Porém, apesar de estar sendo colocada em cheque, ainda é preciso muita discussão e reflexão para se mudar a sociedade de consumo. Esse modelo possui uma estrutura complexa e precisaria da ação de vários atores para se alcançar uma mudança significativa. De acordo com os pesquisadores, é preciso trabalhar em vários níveis – do consumidor, da empresa e do Estado – para que haja uma alteração no sistema. Os consumidores precisam ser informados e conscientizados, buscando promover uma “mudança de hábito” que controle os efeitos do consumo desenfreado. As empresas, igualmente, devem procurar agir rumo a uma produção sustentável. E o Estado, através da promoção de políticas públicas, deve exercer diversas funções regulatórias, inclusive com as chamadas políticas de consumo sustentável (eliminação de subsídios, compras sustentáveis, políticas de estímulo ao transporte coletivo etc.).

Apesar de ainda não existir um modelo alternativo forte que possa substituir a sociedade de consumo, existem caminhos diversos que podem ajudar a torná-la mais sustentável. Portilho afirma: “ A ‘alternativa’ parece ser uma tendência à consideração do papel dos diversos atores (Estado, empresas, consumidores individuais, mídia, ONGs) que interagem no mercado e da redução das desigualdades de poder entre eles, em especial o consumidor, que nada mais é do que o cidadão nas relações com o mercado em expansão. Assim, embora não seja possível atribuir toda a responsabilidade pela resolução dos problemas ambientais a um só lado da equação (o consumidor), a atividade de consumo pode oferecer importantes possibilidades de ação política e exercício da cidadania”.

“Com Ciência”

Comentários

‘’Cidades médias não deveriam repetir os erros das metrópoles'’

Jonas Rabinovitch: coordenador de Desenvolvimento Urbano da ONU; arquiteto que há 15 anos elabora planos para cidades paupérrimas diz que é preciso enxergar São Paulo como um bem comum

Rodrigo Brancatelli

Observando o skyline de São Paulo do charmoso terraço do Unique (o hotel butique com diárias de R$ 1 mil), o arquiteto fluminense Jonas Rabinovitch arrisca-se em assumir que nunca foi lá muito fã da arquitetura. Não essa luxuosa, cheia de curvas e surpresas, que enche os olhos dos paulistanos. Seu trabalho, na verdade, sempre foi atuar em lugares onde quase não há arquitetura, onde o ser humano sobrevive com as mínimas condições de vida. E onde seus projetos podem realmente fazer a diferença e ser um sinônimo de felicidade.

“Procuro encontrar soluções e idéias que podem realmente representar algo e melhorar a vida das pessoas”, diz o arquiteto, que há 15 anos trabalha em Nova York como coordenador de Desenvolvimento Urbano da Organização das Nações Unidas (ONU). De sua prancheta, saíram planos para cidades paupérrimas, como Díli, no Timor Leste, Daca, em Bangladesh, e Cabul, no Afeganistão.

O senhor é conhecido por ser um reconstrutor de cidades, preocupado, não apenas com pontes vistosas, mas com soluções para cidades arrasadas pela guerra e por catástrofes naturais. Quais os maiores desafios que encontrou à frente da Coordenação de Desenvolvimento Urbano da ONU?

Não tenho nada contra os prédios lindos, mas nesses 15 anos de experiência na ONU tive a chance de ver o melhor e o pior da arquitetura. Descobri primeiro que os habitantes das áreas carentes têm uma criatividade fantástica, sabem construir uma casa com os poucos recursos que possuem. E isso me cativou. Trabalhei em projetos de reconstrução de áreas faveladas de Bangladesh, visitei favelas no Quênia, áreas devastadas em Mianmar, estive em Maldivas logo depois do tsunami, estive no Timor Leste quando ainda se sentia o cheiro de cinzas no ar, estive em Cabul logo depois da guerra. Foram experiências recompensadoras, que mostraram a criatividade humana em todos os níveis.

Quais foram os maiores sucessos e fracassos dessa experiência?

Difícil classificar entre acertos e fracassos, a gente faz a nossa parte, que é a de apoiar governos. A ONU não tem o poder de impor aos governos o que eles devem fazer. Mas, em todas as experiências, acho que tivemos resultados positivos, até por necessidade, porque muitas dessas situações eram emergenciais e a comunidade internacional se mobilizou. O desafio é esse. Não adianta ter bilhões de dólares se não existem projetos técnicos competentes para usar o dinheiro. Nosso papel é justamente ouvir os governos, ver as prioridades e organizar como o dinheiro é usado. Nas Maldivas, duas ondas do tsunami cobriram as ilhas e destruíram as habitações de baixa renda. O país perdeu 10% do estoque habitacional. É como se no Brasil desaparecessem umas quatro ou cinco cidades médias em poucas horas. Para o projeto, conversei com o ministro do Planejamento, com os prefeitos das ilhas, com a população, e organizamos uma maneira participativa de investir US$ 30 milhões para reconstruir as habitações de baixa renda. Em Cabul, foram US$ 100 milhões para resolver coisas básicas e urgentes, como drenagem, sinalização de trânsito. Até no zoológico tivemos de intervir, porque o leão morreu em uma explosão.

Como o senhor foi convidado para o cargo na ONU?

Trabalhei em Curitiba do começo da década de 1980 até 1992, quando sugeri ao prefeito Jaime Lerner fazer um encontro de prefeitos. Nessa ocasião, conheci algumas pessoas da ONU que me convidaram para o trabalho.

É menos complicado reconstruir uma cidade do zero do que encontrar soluções para lugares “no meio do caminho”, como São Paulo e Rio, que ficam entre a pobreza extrema e o desenvolvimento do Primeiro Mundo?

É difícil comparar realidades tão diferentes. No caso de São Paulo, pela dimensão, com todos os problemas, ainda é muito bom lugar para se morar. As pessoas gostam da cidade. A urbanização em si não é negativa, a cidade tem um mecanismo de produção e de distribuição eficientes. O que precisa é socializar os benefícios de São Paulo, enxergar a cidade como um bem comum.

Tanto São Paulo quanto as capitais européias e asiáticas passam por um forte boom imobiliário. São Paulo está aparelhada para tirar proveito desse aquecimento?

Acho importante que exista um equilíbrio entre a capacidade do sistema viário e as permissões para novas construções. Em Bangcoc, por exemplo, fui fazer uma conferência sobre trânsito e vi os mesmos gargalos. As ruas não têm capacidade para todo esse boom imobiliário, não há vinculação entre o uso do solo e o sistema viário. Não se pode permitir um boom imobiliário à custa de toda a população. Mas o problema mais urgente está nas cidades médias. Há um mito de que as megacidades é que estão explodindo, mas são as cidade médias, no meio do caminho, que estão crescendo mais. Existem centenas de milhares de cidades médias que deveriam estar se preparando para não repetir os erros que as cidades grandes fizeram no passado. Elas deveriam estar usando essa oportunidade de crescimento para se planejar melhor.

Ainda em relação aos condomínios residenciais, essa criação de ilhas isoladas com segurança privada, sem vida na rua, é uma solução urbanística muito criticada. É possível reverter isso?

Historicamente, quando o centro da cidade perde sua função habitacional, morre à noite. O mesmo acontece em outras áreas, chega por volta das 17 horas e todo mundo desaparece. A mistura de usos é importante urbanisticamente, em qualquer planejamento, até para se preservar a vitalidade da cidade. E ter policiais dia e noite nas ruas para dar uma sensação maior de segurança, justamente para que os moradores voltem a ocupar as ruas.

Em São Paulo, os 39 municípios da região metropolitana quase não têm políticas públicas conjuntas para áreas como transporte e coleta de lixo. Qual o caminho para que o político brasileiro passe a pensar em uma gestão metropolitana, não apenas na cidade?

Houve no Rio e em Curitiba a experiência das regiões metropolitanas, com uma instituição tentando coordenar as ações. O transporte, por exemplo. Faz muito sentido que se pense em uma política unificada entre os municípios. O lixo também, a coleta de esgoto, a questão ambiental. Em Israel, os municípios alugam equipamentos uns dos outros, como tratores. Se um município tem tratores ociosos, empresta para o outro, e a manutenção é dividida entre eles. Mas, se o sistema institucional continua igual, se os orçamentos continuam separados, se não há incentivo para as cidades trabalharem em cooperação, a tendência é continuar como está. O prefeito vê seu orçamento, vê seu eleitorado, e não pensa em buscar essa coordenação.

O índice de tratamento de esgoto em São Paulo é pouco maior que 50%. Você acha que a falta de saneamento básico poderá ser uma barreira ao crescimento do País?

Claro, é um problema muito sério e muito caro. Os prefeitos investem menos em saneamento porque é uma obra invisível, não rende votos. É preciso pensar em incentivos financeiros para que os municípios tratem seus esgotos e focar em sistemas descentralizados, como fossas nas áreas periféricas. O Brasil tem bons administradores, bons especialistas. O que falta é ter uma visão estratégica das cidades. Não é só resolver uma questão pontual e causar com isso um problema para a cidade inteira. A própria palavra solução, em latim, significa uma combinação de compostos diferentes. É preciso combinar as políticas.

Quem é:
Jonas Rabinovitch

É arquiteto e coordenador de desenvolvimento urbano da ONU, em Nova York, há 15 anos

Fez projetos de reconstrução para locais devastados
pela guerra e por desastres naturais, como no Afeganistão

“Estadão”

Comentários

O submundo da cana

Estado que detém 60% da produção nacional de cana-de-açúcar, São Paulo não divide a riqueza derivada do boom de etanol com seus 135 mil cortadores, que vivem muitas vezes em situações precárias

MÁRIO MAGALHÃES e JOEL SILVA

Pontualmente às 4h42, a canavieira Ilma Francisca de Souza parte para o trabalho com sua marmita fornida de arroz coberto por uma lingüiça cortadinha. Em outro bairro de Serrana, ainda antes de o sol nascer, Rosimira Lopes sai para o canavial levando arroz com um só acompanhamento: feijão.
Durante o dia, elas vão dar conta da comida, que já terá esfriado. A despeito do notável progresso que ergue usinas de etanol com tecnologia assombrosa, o Brasil segue sem servir refeições quentes aos lavradores da cana-de-açúcar.
A bóia continua fria.
Durante dois meses, a Folha investigou as condições de vida e trabalho dos cortadores de cana no Estado que detém 60% da produção do país que é o principal produtor do planeta.
Gente como Ilma e Rosimira.
Em uma das etapas de apuração da reportagem, por 15 dias percorreram-se 3.810 quilômetros de carro, o equivalente a nove trajetos São Paulo-Rio de Janeiro. Um mapa [veja na pág. 6] mostra onde ficam as cidades visitadas.
Pela primeira vez em cinco séculos, desde que as mudas pioneiras foram trazidas pelos portugueses, em 2008 ao menos metade da cana de São Paulo não será colhida por mãos, mas por máquinas. É o que anunciam os usineiros.
Como na virada do século 16 para o 17, quando o país era o líder do fabrico de açúcar, a cana oferece imensas oportunidades ao Brasil, em torno do álcool combustível do qual ela é matéria-prima. O etanol pode se transformar em commodity, com cotação no mercado internacional. As usinas geram energia elétrica.
A riqueza do setor sucroalcooleiro, que movimentará neste ano R$ 40 bilhões, não atingiu os lavradores. Em 1985, um cortador em São Paulo ganhava em média R$ 32,70 por dia (valor atualizado). Em 2007, recebeu R$ 28,90. A remuneração caiu, mas as exigências no trabalho aumentaram. Em 1985, o trabalhador cortava 5 toneladas diárias de cana. Na safra atual, 9,3.
Em 19 cidades do interior -na capital foi ouvido um representante dos empresários- , os repórteres procuraram entender por que, entre nove culturas agrícolas, a da cana reúne os trabalhadores mais jovens.
Exige alto esforço físico uma atividade em que é preciso dar 3.792 golpes com o facão e fazer 3.994 flexões de coluna para colher 11,5 toneladas no dia. Nos últimos anos, mortes de canavieiros foram associadas ao excesso de trabalho.
Conta-se a seguir o caso de um bóia-fria que morreu semanas após colher 16,5 toneladas. Não há paralelo em qualquer região com tamanho rendimento.
Na estrada, flagraram-se ônibus deteriorados, ausência de equipamentos de segurança no campo, moradias sem higiene e pagamento de salário inferior ao mínimo.
Conheceram-se comunidades de canavieiros que dependem do Bolsa Família, migrantes que tentam a sorte e lavradores que querem se livrar do crack e de outras drogas.
Descobriram-se documentos que comprovam a existência de fraudes no peso da cana, lesando os lavradores.

Escravidão
No auge e na decadência do ciclo da cana-de-açúcar, os escravos cuidaram da lavoura e puseram os engenhos para funcionar. A arrancada do etanol brasileiro foi dada por lavradores na maioria negros.
Assim como os escravos sumiram de certa historiografia, os cortadores são uma espécie invisível nas publicações do setor. Exibem-se usinas high-tech, mas oculta-se a mão-de-obra da roça.
Impressiona na viagem ao mundo e ao submundo da cana a semelhança de símbolos da lavoura atual com a era pré-Abolição. O fiscal das usinas é chamado de feitor.
Acumulam-se denúncias de trabalho escravo. É um erro supor que as acusações de degradação passem longe do Estado mais rico do país e se limitem ao “Brasil profundo”. Uma delas é narrada adiante. Em São Paulo, localiza-se Ribeirão Preto, centro canavieiro tratado como a nossa “Califórnia”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem minimizado os relatos sobre trabalho penoso nos canaviais. No ano passado, ele disse que os usineiros “estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool”.
O medo de retaliações é grande entre os canavieiros. Nenhum nome foi mudado nos textos, mas algumas pessoas, a pedido, são identificadas apenas pelo prenome ou nem isso. As entrevistas foram gravadas com consentimento.
São muitos esses anti-heróis: segundo os usineiros, há 335 mil cortadores de cana no Brasil, incluindo os 135 mil de São Paulo. No Estado, prevê-se a extinção do corte manual para 2015, junto com as queimadas que facilitam a colheita.
Ilma e Rosimira compõem uma espécie em extinção. Por meio milênio, os cortadores, escravos ou assalariados, viveram tempos difíceis. Nos próximos anos, não será diferente: com baixa qualificação, eles terão de procurar outros meios de sobrevivência.
Não há sindicato que não constate queda nas contratações.
O canavial não está tão longe quanto parece: ao encher o tanque com 49 litros de álcool, consome-se uma tonelada de cana; quando se adoça com açúcar o café da manhã, milhares de brasileiros já estão na lavoura de facão na mão.

“Folha de S. Paulo”

Comentários

A transformação socialista do homem

Lev Vygotsky

A Psicologia científica estabeleceu como sua tese básica o fato que o tipo psicológico do homem moderno é um produto de duas linhas evolutivas. Por um lado, este tipo moderno de ser humano se desenvolveu em um processo prolongado de evolução biológica da qual a espécie homo sapiens surgiu com todas as suas características inerentes do ponto de vista da estrutura corporal, das funções de órgãos diversos e de certos tipos de reflexos e atividades instintivas que foram fixados hereditariamente e que são transmitidos de geração a geração.

Mas, juntamente com o início da vida social e histórica humana e das mudanças fundamentais nas condições às quais ela teve que se adaptar, mudou também, muito radicalmente, o próprio caráter do curso subseqüente da evolução humana. Até onde se pode julgar, com base no material efetivo disponível que foi obtido principalmente comparando os tipos biológicos de povos primitivos às fases mais primitivas de seu desenvolvimento cultural com representantes das raças mais culturalmente avançadas, até onde esta questão pode ser resolvida através de teoria psicológica contemporânea, há razões fortes para supor que o tipo biológico humano mudou notavelmente pouco durante o curso do desenvolvimento histórico do homem. Isto não quer dizer, é claro, que a evolução biológica paralisou-se e que a espécie humana é uma quantidade estável, inalterável, constante, mas sim que as leis fundamentais e os fatores essenciais que dirigem o processo de evolução biológica retrocederam ao plano de fundo e, ou decaíram completamente, ou tornaram-se uma parte reduzida ou sub-dominante das novas e mais complexas leis que governam o desenvolvimento social humano.

Realmente, a luta pela sobrevivência e a seleção natural, as duas forças motrizes da evolução biológica no mundo animal, perdem a sua importância decisiva assim que passamos a considerar o desenvolvimento histórico do homem. As novas leis que regulam o curso da história humana e que regem o processo de desenvolvimento material e mental da sociedade humana, agora tomam os seus lugares.

Como um indivíduo só existe como um ser social, como um membro de algum grupo social em cujo contexto ele segue a estrada do desenvolvimento histórico, a composição de sua personalidade e a estrutura de seu comportamento reveste-se de um caráter dependente da evolução social cujos aspectos principais são determinados pelo grupo.

Já nas sociedades primitiva, que só há pouco estão dando os seus primeiros passos ao longo da estrada do desenvolvimento histórico, a completa constituição psicológica dos indivíduos pode ser vista como diretamente dependente do desenvolvimento de tecnologia, do grau de desenvolvimento das forças de produção e da estrutura daquele grupo social ao qual o indivíduo pertence. Pesquisas no campo da psicologia étnica forneceram provas incontroversas de que estes fatores, cuja interdependência intrínseca foi estabelecida pela teoria do materialismo histórico, são os componentes decisivos da psicologia integral do homem primitivo.

Em nenhum outro lugar, de acordo com Plekhanov [1], esta dependência da consciência relativa ao modo de vida manifesta-se de maneira mais óbvia e direta que na vida do homem primitivo. Isto ocorre por serem os fatores que realizam a mediação entre o progresso tecnológico e o psicológico ainda muito deficientes e primitivos, esta é a razão pela qual esta dependência pode ser observada quase que em seu estado bruto. Mas uma relação muito mais complicada entre estes dois fatores pode ser observada em uma sociedade altamente desenvolvida que adquiriu uma estrutura de classes complexa. Aqui a influência da base sobre a superestrutura psicológica do homem não se dá forma direta, mas mediada por um grande número de fatores materiais e espirituais muito complexos. Mas, até mesmo aqui, a lei fundamental do desenvolvimento histórico humano, que proclama serem os seres humanos criados pela sociedade na qual vivem e que ela representa o fator determinante na formação de suas personalidades, permanece em vigor.

Do mesmo modo que a vida de uma sociedade não representa um único e uniforme todo, e a sociedade ela mesma é subdividida em diferentes classes, assim também, não pode ser dito que a composição das personalidades humanas representa algo homogêneo e uniforme em um dado período histórico, e a psicologia tem que levar em conta o fato básico que a tese geral que foi formulada agora mesmo, só pode ter uma conclusão direta, confirmar o caráter de classe, natureza de classe e distinções de classe que são responsáveis pela formação dos tipos humanos. As várias contradições internas que são encontradas nos diferentes sistemas sociais encontram sua expressão tanto no tipo de personalidade quanto na estrutura da psicologia humana naquele período histórico.

Nas descrições clássicas do período inicial do capitalismo, Marx enfatiza freqüentemente o tema da corrupção da personalidade humana que é provocada pelo crescimento da sociedade capitalista industrial. Em um dos extremos da sociedade, a divisão entre o trabalho intelectual e o físico, a separação entre a cidade e o campo, a exploração cruel do trabalho da criança e da mulher, pobreza e a impossibilidade de um desenvolvimento livre e completo do pleno potencial humano, e no outro extremo, ócio e luxo; disso tudo resulta não só que o tipo humano originalmente único torna-se diferenciado e fragmentado em vários tipos nas diversas classes sociais que, por sua vez, permanecem em agudo contraste umas às outras, mas também na corrupção e distorção da personalidade humana e sua sujeição a um desenvolvimento inadequado, unilateral em todas estas diferentes variantes do tipo humano.

‘Juntamente com a divisão de trabalho’, diz Engels, ‘o próprio homem foi subdividido’[2] de acordo com Ryazanov, ‘toda forma de produção material especifica alguma divisão social do trabalho, e que é responsável por sua divisão espiritual. A começar pela corrupção da sociedade primitiva, já podemos observar a seleção de várias funções espirituais e organizacionais em espécies e subespécies determinadas correspondentes ao esquema da divisão social de trabalho’[3]. Mais adiante Engels diz:

“Já a primeira grande divisão do trabalho, a divisão entre a cidade e o campo, condenou a população rural a milênios de entorpecimento mental, e os moradores de cidade à escravização, cada um segundo seu trabalho particular. Destruiu a base para desenvolvimento espiritual do primeiro, e a do físico para o último. Se um camponês é o mestre de sua terra e o artesão de sua arte, então, em grau nada menor, a terra governa o camponês e a arte o artesão. A divisão do trabalho causou ao homem sua própria subdivisão. Todas as demais faculdades físicas e espirituais são sacrificadas a partir do momento que se desenvolve somente um tipo de atividade”.

“Esta degeneração do homem avança à medida que a divisão do trabalho alcança seu nível mais alto na manufatura. A manufatura ‘quebra’ o ofício do artesão em operações fracionadas, atribui, na qualidade de vocação, cada uma delas a um trabalhador distinto e os acorrenta a uma operação fracionária específica, a uma ferramenta específica de trabalho para o resto da vida…”

“E não só os trabalhadores, mas também as classes que os exploram diretamente ou indiretamente, que são escravizadas pelos instrumentos de suas atividades, como resultado da divisão de trabalho: os burgueses mesquinhos, por seu capital e desejo por lucro; o advogado pelas idéias jurídicas ossificadas que o governam como uma força independente; ‘as classes educadas’ em geral, por suas limitações locais particulares e unilaterais, suas deficiências físicas e miopia espiritual. Estão todos mutilados pela educação que os treina para uma certa especialidade, pela escravização vitalícia a esta especialidade, até mesmo se esta especialidade é fazer absolutamente nada.”[4]

Isto é o que Engels escreveu em ‘O Anti-Dühring’. Nós temos que proceder da suposição básica que produção intelectual é determinada pela forma de produção material.

“Assim, por exemplo, no capitalismo é encontrada uma forma diferente de produção espiritual daquela prevalecente durante a Idade Média. Cada forma historicamente definida de produção material tem sua forma correspondente de produção espiritual, e isto, por sua vez, significa que a psicologia humana, que é o instrumento direto desta produção intelectual, assume uma forma específica a cada fase determinada do desenvolvimento”.

Esta incapacitação dos seres humanos, este desenvolvimento unilateral e distorcido das suas várias capacidades, que Engels descreve, e que surge com a divisão entre cidade e campo, está crescendo a uma enorme velocidade devido à influência da divisão tecnológica de trabalho. Engels escreve:

“Todo conhecimento, perspicácia e vontade que o camponês e o artesão independentes desenvolvem, embora em uma escala pequena, como o selvagem que age como se toda a arte da guerra consistisse no exercício de sua astúcia pessoal, estas faculdades agora são requeridas apenas da fábrica como um todo. As potências intelectuais de produção as fazem desenvolver em um só sentido, porque as fazem extinguir em muitos outros. O que foi perdido pelos trabalhadores especializados [‘teilarbeiter’] está concentrado no capital que os emprega. Como resultado da divisão de trabalho no seio da manufatura, o trabalhador é levado a encarar as potências intelectuais do processo material de produção como propriedade alheia, e como um poder que o domina. Este processo de separação começa em co-operação simples na qual o capitalista representa para o trabalhador particular a unidade e a vontade do trabalho social [‘Arbeitskörpers‘].Isto que começa na manufatura, que mutila o trabalhador transformando-o em um trabalhador especializado, é terminado pela indústria de larga escala que separa a ciência, como um potencial produtivo, do trabalho e a coloca a serviço do capital.”[5]

Como resultado do avanço do capitalismo, o desenvolvimento da produção material trouxe simultaneamente consigo a divisão progressiva do trabalho e o crescente desenvolvimento distorcido do potencial humano. Se ‘na manufatura e no trabalho artesanal o trabalhador faz uso de suas ferramentas, então na fábrica ele se torna o criado da máquina’. Marx diz que no primeiro caso ele inicia o movimento da ferramenta, mas no segundo ele é forçado a seguir seu movimento. Os trabalhadores se transformam em ‘extensões vivas das máquinas’, o que resulta na ‘tenebrosa monotonia do infinito tormento do trabalho’ que Marx [1890/1962, pág. 445] diz ser o elemento característico daquele período no desenvolvimento do capitalismo que ele está descrevendo. O trabalhador é preso a uma função específica, e de acordo com Marx [ibid, pág. 381], isto o transforma ‘de um trabalhador em uma anormalidade que artificialmente [’treibhausmäsig ‘] é nutrida por apenas uma habilidade especial, suprimindo toda a riqueza restante de seus talentos e inclinações produtivas’.

Nos dias atuais, o trabalho da criança representa um exemplo particularmente horrorizante da deformação do desenvolvimento psicológico humano. Na busca por trabalho barato e devido à simplificação extrema das funções que os trabalhadores têm que levar a cabo, o recrutamento em larga escala de crianças tornou-se possível, o que resulta em um desenvolvimento retardado, ou um completamente unilateral e distorcido que acontece na idade mais impressionante, quando a personalidade da pessoa está sendo formada. A pesquisa clássica de Marx está cheia de exemplos de ‘esterilidade intelectual’, ‘degradação física e intelectual’, transformação ‘de seres humanos imaturos em máquinas para a produção de mais-valia’ [ibid., pp. 421-2], e ele apresenta um quadro vívido de todo o processo que resulta em uma situação na qual ‘o trabalhador existe em função do processo de produção, e não o processo de produção em função do trabalhador’[ibid., pág. 514].

Porém, todos estes fatores negativos não dão um quadro completo de como o processo de desenvolvimento humano é influenciado pelo crescimento acelerado da indústria. Todas estas influências adversas não são inerentes à indústria de larga escala como tal, mas à sua organização capitalista que está baseada na exploração de enormes massas da população e que resultou em uma situação na qual em vez de todo passo novo para a conquista da natureza pelos seres humanos, todo novo patamar de desenvolvimento da força produtiva da sociedade, não só não elevou a humanidade como um todo, e cada personalidade humana individual, para um nível mais alto, mas conduziu a uma degradação mais profunda da personalidade humana e de seu potencial de crescimento.

Enquanto observadores dos efeitos incapacitantes do processo de progresso da civilização sobre os seres humanos, filósofos como Rousseau e Tolstói não puderam ver nenhuma outra solução que um retorno à integralidade e pureza da natureza humana. De acordo com Tolstói, nosso ideal não está à nossa frente, mas atrás de nós. Neste sentido, do ponto de vista deste romantismo reacionário, os períodos primitivos de desenvolvimento da sociedade humana apresentam-se como aquele ideal que a humanidade deveria estar perseguindo. Realmente, uma análise mais profunda das tendências econômicas e históricas que regulam o desenvolvimento do capitalismo mostra que este processo de mutilação da natureza humana, acima discutida, é inerente não só ao crescimento da indústria de grande escala, mas à específica forma de organização da sociedade capitalista.

A mais fundamental e importante contradição em toda esta estrutura social consiste no fato que dentro dela, sob pressão inexorável, estão evoluindo forças para sua destruição, e estão sendo criadas as precondições para sua substituição por uma nova ordem baseada na ausência da exploração do homem pelo homem. Mais de uma vez, Marx demonstra como o trabalho, ou a indústria de larga escala, em si mesmos, não levam necessariamente à mutilação da natureza humana, como um seguidor de Rousseau ou Tolstói assumiria, mas, pelo contrário, contêm dentro de si mesmos possibilidades infinitas para o desenvolvimento da personalidade humana.

Ele diz, ‘como pode ser averiguado a partir dos exemplos dados por Robert Owen, tem crescido a semente de um sistema educacional futuro que combinará o trabalho produtivo com a educação formal e física para todas as crianças acima de uma certa idade, não só como um método de aumento da produção, mas como o único método de produzir seres humanos bem equilibradamente educados’ [ibid., pp. 507-8]. Assim a participação das crianças nas fábricas, que sob o sistema capitalista, particularmente durante o período descrito de crescimento do capitalismo, é a fonte da degradação física e intelectual, contém em si mesma as sementes para um sistema educacional futuro e pode vir a constituir-se na forma mais elevada de criação de um tipo novo de ser humano. O crescimento da indústria de grande escala faz necessário, por si só, que se construa um novo tipo de trabalho humano e um novo tipo de ser humano que seja capaz de levar a cabo estas novas formas de trabalho. ‘A natureza da indústria de larga escala estipula um trabalho mutável; uma mudança ininterrupta de funções e uma completa mobilidade para o trabalhador’, diz Marx: ‘o indivíduo que foi se transformado em uma fração, o portador simples de uma função social fracionária, será substituído por um indivíduo completamente desenvolvido para quem as funções sociais diversas representam formas alternativas de suas atividades ‘ [ibid., pp. 511-12].

Assim não só se demonstra que a combinação do trabalho industrial com a educação provou ser uns meios de criar pessoas plenamente desenvolvidas, mas também que o tipo de pessoa que será exigida para trabalhar neste processo industrial altamente desenvolvido, diferirá substancialmente do tipo de pessoa era o produto do trabalho voltado para a produção durante o período inicial do desenvolvimento capitalista. Neste aspecto o fim do período capitalista apresenta uma antítese notável relativa a seu começo. Se no princípio o indivíduo foi transformado em uma fração, no executor de uma função fracionária, em uma extensão viva da máquina, então ao término, as próprias exigências da indústria requererão uma pessoa plenamente desenvolvida, flexível e que seja capaz de alterar as formas de trabalho, de organizar o processo de produção e de controlá-lo.

Não importa qual característica particular e definidora do tipo psicológico humano que tomemos, seja nos períodos iniciais ou recentes do desenvolvimento do capitalismo, em todos os casos nós encontraremos sempre um significado e um caráter duplos em cada característica crucial. A fonte da degradação da personalidade na forma capitalista de produção, também contém em si mesma o potencial para um crescimento infinito da personalidade.

Para dar um exemplo, concluiremos examinando situações de trabalho onde pessoas de ambos os sexos e de todas as idades têm que trabalhar juntas. ‘A composição do quadro geral de empregados por pessoas de ambos sexos e todas as idades…’, diz Marx, ‘deve, pelo contrário, sob circunstâncias apropriadas, se transformar em uma fonte de desenvolvimento humano’ [ibid., pág. 514].

Disto pode se tirar que o crescimento da indústria de grande escala contém dentro de si mesmo o potencial escondido para o desenvolvimento da personalidade humana e que somente a forma capitalista de organização do processo industrial é a responsável pelo fato de todas estas forças exercerem uma influência unilateral e incapacitante que retarda o desenvolvimento pessoal.

Em um de seus primeiros trabalhos, Marx escreve que se a psicologia desejar se tornar uma ciência realmente relevante, terá que aprender ler o livro da história da indústria material que encarna ‘os poderes essenciais de homem’, e que é uma encarnação concreta da psicologia humana[6]. Da maneira como se dá, toda a tragédia interior do capitalismo consiste no fato que na ocasião em que o estudo objetivo da psicologia do homem, que continha dentro de si potencial infinito de domínio sobre a natureza e sobre o desenvolvimento de sua própria natureza, crescia a passo acelerado, sua vida espiritual real estava degradando e passando pelo processo que Engels descreveu tão vividamente como a mutilação do homem.

Mas a essência de toda esta discussão consiste no fato que esta dupla influência de fatores inerentes à indústria de grande escala sobre o desenvolvimento pessoal do homem, esta contradição interna do sistema capitalista, não pode ser solucionada sem a destruição do sistema capitalista de organização industrial. Neste sentido, a contradição parcial que nós já mencionamos, entre o poder crescente do homem e sua degradação que paralelamente aprofunda-se, entre seu crescente domínio sobre a natureza, e sua liberdade por um lado, e a sua escravidão e dependência crescentes das coisas produzidas por ele mesmo, no outro — nós desejamos reiterar que esta contradição representa só uma parte de uma contradição muito mais geral e totalizadora que subjaz ao sistema capitalista tomado como um todo. Esta contradição geral entre o desenvolvimento das forças de produção e a ordem social que correspondente a este nível de desenvolvimento das forças de produção, é resolvida pela revolução socialista e uma transição para uma nova ordem social e uma nova forma de organização das relações sociais.

Paralelamente a esse processo, uma mudança na personalidade humana e uma alteração do próprio homem deve inevitavelmente acontecer. Esta alteração tem três raízes básicas. A primeira delas consiste no fato mesmo da destruição das formas capitalistas de organização e produção e das formas de vida social e espiritual que a partir daí irão surgir. Junto com o esfacelamento da ordem capitalista, todas as forças que oprimem o homem e que o mantêm escravizado pelas máquinas e que interferem com o seu livre desenvolvimento também desaparecerão e serão destruídas. Junto com a liberação dos muitos milhões de seres humanos da opressão, virá a libertação da personalidade humana das correntes que restringem seu desenvolvimento. Esta é a primeira fonte — a liberação do homem.

A segunda fonte de qual emerge a alteração de homem reside no fato de que ao mesmo tempo em que as velhas correntes desaparecem, o enorme potencial positivo presente na indústria de grande escala, o já crescente poder dos homens sobre a natureza, será liberado e tornado operativo. Todas as características discutidas acima, das quais o exemplo mais notório é a forma completamente nova de criar um futuro baseado na combinação de trabalho físico e intelectual, perderão seu caráter dual e mudarão o curso de sua influência de um modo fundamental. Considerando que anteriormente suas ações foram dirigidas contra as pessoas, agora elas começam a trabalhar por causa delas. De seu papel de obstáculos desempenhado outrora, elas se transformam em forças poderosas de promoção do desenvolvimento da personalidade humana.

Finalmente, a terceira fonte que inicia a alteração de homem é mudança nas próprias relações sociais entre as pessoas. Se as relações entre pessoas sofrem uma mudança, então junto com elas as idéias, padrões de comportamento, exigências e gostos também mudarão. Como foi averiguado por pesquisa psicológica a personalidade humana é formada basicamente pela influência das relações sociais, i.e., o sistema do qual o indivíduo é apenas uma parte desde a infância mais tenra. ‘Minha relação para com meu ambiente’, diz Marx, ‘é minha consciência’[7]7. Uma mudança fundamental do sistema global destas relações, das quais o homem é uma parte, também conduzirá inevitavelmente a uma mudança de consciência, uma mudança completa no comportamento do homem.

A educação deve desempenhar o papel central na transformação do homem, nesta estrada de formação social consciente de gerações novas, a educação deve ser a base para alteração do tipo humano histórico. As novas gerações e suas novas formas de educação representam a rota principal que a história seguirá para criar o novo tipo de homem. Neste sentido, o papel da educação social e politécnica é extraordinariamente importante. As idéias básicas que justificam a educação politécnica consistem em uma tentativa de superar a divisão entre trabalho físico e intelectual e reunir pensamento e trabalho que foram separados durante o processo de desenvolvimento capitalista.

De acordo com Marx, a educação politécnica proporciona a familiaridade com os princípios científicos gerais a todos os processos de produção e, ao mesmo tempo, ensina as crianças e adolescentes que habilidades práticas tornam possível para eles operarem as ferramentas básicas utilizadas em todas as indústrias. Krupskaja formula esta idéia da seguinte maneira:

“Uma escola politécnica pode ser distinguida de uma escola de comércio pelo fato de centrar-se na interpretação de processos de trabalho, no desenvolvimento da habilidade para unificar teoria e prática e na habilidade para entender a interdependência de certos fenômenos, enquanto em uma escola de comércio o centro de gravidade está em proporcionar para os alunos habilidades para o trabalho”.[8]

Coletivismo, a unificação do trabalho físico e intelectual, uma mudança nas relações entre os sexos, a abolição da separação entre desenvolvimento físico e intelectual, estes são os aspectos fundamentais daquela alteração do homem que é o assunto de nossa discussão. E o resultado a ser alcançado, a glória e coroamento de todo esse processo de transformação da natureza humana, deveria ser o aparecimento da forma mais alta de liberdade humana que Marx descreve da seguinte maneira: ‘Somente em comunidade,[com os outros, cada] indivíduo [possui] os meios de cultivar seus talentos em todas as direções: só em comunidade, então, é possível a liberdade pessoal’[9]. Assim como a sociedade humana, a personalidade individual precisa dar este salto que a leva do reino da necessidade à esfera de liberdade, como foi descrito por Engels.

Sempre que a alteração do homem e a criação de um novo nível mais elevado de personalidade e conduta humanas são postas em discussão, é inevitável que sejam mencionadas idéias sobre um tipo novo de ser humano relacionado à teoria de Nietzsche sobre o super-homem. Partindo das perfeitamente verdadeiras suposições que a evolução não parou no homem e que o tipo moderno de ser humano representa nada além de uma ponte, uma forma transitória, que conduz a um tipo mais elevado, que a evolução não esgotou suas possibilidades quando criou o homem e que o tipo moderno de personalidade não é a realização mais alta e a última palavra no processo de desenvolvimento, Nietzsche concluiu que uma criatura nova pode surgir durante o processo de evolução, um super-homem que guardará a mesma relação com homem contemporâneo que o homem contemporâneo guarda com o macaco.

Porém, Nietzsche imaginou que o desenvolvimento deste tipo mais elevado de homem estava sujeito à mesma lei de evolução biológica, a luta pela vida e a seleção baseada na sobrevivência do mais apto, que prevalece no mundo animal. É por isto que o ideal de poder, a auto-afirmação da personalidade humana em toda sua abundância de poder e ambição instintivos, o individualismo áspero de homens e mulheres fora de série, de acordo com Nietzsche, formariam, a estrada para a criação de um super-homem.

Esta teoria é errônea, porque ignora o fato que as leis de evolução histórica do homem diferem fundamentalmente das leis da evolução biológica e que a diferença básica entre estes dois processos consiste no fato que um ser humano evolui e se desenvolve como um ser histórico, social. Só uma elevação de toda a humanidade a um nível mais alto de vida social, a liberação de toda a humanidade, pode conduzir à formação de um novo tipo de homem.

Porém, esta mudança do comportamento humano, esta mudança da personalidade humana, tem que conduzir, inevitavelmente, à evolução do homem para um tipo superior, para a alteração do tipo biológico humano. Tendo dominado os processos que determinam sua própria natureza, o homem que hoje está lutando contra velhice e doenças, ascenderá, indubitavelmente, a um nível mais elevado e transformará sua própria organização biológica. Mas esta é a fonte do maior paradoxo histórico do desenvolvimento contido nesta transformação biológica do tipo humano, que ela é alcançada principalmente por meio da ciência, da educação social e da racionalização dos modos de vida. A alteração biológica do homem não representa uma condição prévia para estes fatores, mas, ao invés disso, é um resultado da liberação social do homem.

Neste sentido Engels, que tinha examinado o processo de evolução do macaco ao homem, disse que trabalho que criou o homem[10]. Partindo daí, poder-se-ia dizer que novas formas de trabalho criarão o novo homem e que este homem novo se assemelhará ao tipo antigo de homem, ‘o antigo Adão’, apenas no nome, da mesma maneira como, de acordo com a grande declaração de Spinoza, um cão, o animal que late, se assemelha a Cão constelação celeste[11].

1930

Notas:

* Nota da tradução para língua portuguesa: cabem algumas observações acerca desta tradução:
a) Esta tradução é feita a partir da versão em língua inglesa do texto, portanto está mais sujeita a incorreções que o próprio texto que lhe serviu de base, dado que este já era por si só uma tradução.
b) O tradutor é brasileiro, e nessa qualidade efetuou toda a tradução tendo em vista as normas da língua portuguesa vigentes no Brasil, ainda assim, por não ser profissional do ramo das Letras, o tradutor pede desculpas por qualquer eventual erro.
c) Relativamente ao trabalho que serviu de modelo a esta tradução foi suprimida uma das notas, a nota número 5, por isso, a partir desta número as notas desta tradução não correspondem àquelas da numeração do texto original. O motivo da omissão foi não haver no corpo do texto indicação da nota, apenas constando a mesma do “rodapé”.
d) Ao contrário do tradutor para língua inglesa do texto original, o tradutor deste texto não buscou as traduções para a língua portuguesa dos textos originais citados. Nas notas que seguem (que também são traduções do texto base da tradução) são feitas referências às obras em língua inglesa, alemã ou russa dependendo do caso. É importante lembrar que as traduções dos textos originais aqui citados também são traduções livres do tradutor do presente texto.

1. Provavelmente se refere a Plekhanov, G. V. 1922: Ocherki po istorii materializma. Moscou.

2. Refere-se à pág. 272 de Engels, F. 1894/1978: Herrn Eugen Duhring’s Umwalzung der Wissenschaft [Anti-Duhring]. Dietz Verlag.

3. É obscuro a que livro que Vygotsky está se referindo.

4. Referência às pp. 271-2 de Engels 1894/1978. Ver também pp. 381 e 445 de Marx, K. 1890/1962: Das Kapital [O Capital] 4th ed.). Berlin: Dietz Verlag.

5. Um erro curioso. O texto atribuído a Engels pode ser achado na p. 382 de Marx, K. 1890/1962: Das Kapital [O Capital] (4th edn). Berlin: Dietz Verlag.

6. ‘Entendemos que a história da indústria e a atual existência objetiva da indústria são o livro aberto dos poderes essenciais do homem, percebemos a psicologia humana existente… uma psicologia para qual este livro, a parte de história que existe na forma mais perceptível e acessível, permanece um livro fechado, não pode se tornar uma ciência genuína, geral e real’. Ver pp. 302-03 of Marx-Engels Collected Works. Vol, 3: Economic and Philosophical Manuscripts. New York: International Publishers (1975).

7. Referência à p. 30 of Marx, K. e Engels, F. 1846/1978: Die deutsche Ideologie [A Ideologia Alemã].Berlin: Dietz Verlag.

8. A esposa de Lênin, N. K. Krupskaja, devotou muita atenção à questões educacionais. Em seu livro, Vospitanie molodezhi v Leninskom dukhe [Educação da Mocidade no Espírito de Lenin] ela discutiu experiências internacionais suas contemporâneas com escolas de trabalho (Arbeitsschule) à luz do ideal de Marx da educação politécnica. Ver Krupskaja, N. K. 1925/1989: Vospitanie molodezhi v Leninskom dukhe. Moscow: Pedagogika. Nós não pudemos estabelecer a fonte exata da presente citação.

9. Ver p. 74 de Marx e Engels (1846/1978).

10. Conferir pp. 444-55 de Engels, F. 1925/1978: Dialektik der Natur [A Dialética da Natureza]. Berlin: Dietz Verlag

11. Uma das citações favoritas de Vygotsky da Ética de Spinoza. Ver p. 61 of Spinoza, B. de 1677/1955: On the improvement of the understanding. The ethics. Correspondence. New York: Dover. ‘O antigo Adão’ pode ser uma referência implícita ao uso por Marx (1890/1962, p. 118) desta expressão.

Lev Vygotsky (1896 - 1934) foi o psicólogo soviético que desenvolveu a abordagem genética ao desenvolvimento de conceitos na infância e na juventude, apontando a transição de uma série de estados do desenvolvimento humano com base na prática social da criança. Os seus trabalhos, publicados após a sua morte em 1934 e suprimidos em 1936, só foram conhecidos no ocidente em 1958.

“www.socialismo.org.br”

Comentários

Especialistas debatem sistema carcerário

DEBATE Encontro internacional no Rio de Janeiro critica o Estado policial brasileiro

Nestor Cozetti

O QUE pode ser mudado nas prisões do Brasil foi, em outras palavras, o assunto do seminário “Depois do grande encarceramento”, realizado no Hotel Glória, no Rio de Janeiro (RJ), nos dias 28 e 29 de agosto. “Vivemos hoje como no tempo da Inquisição: a cura pela tortura e a prisão de hereges e bruxas, a pena como punição terapêutica”, disse Nilo Batista, criminologista e presidente do Instituto Carioca de Criminologia (ICC), que, em parceria com o Ministério da Justiça, organizou o evento. O seminário se propôs a recuperar horizontes para além da prisão, denunciando as modalidades de cárcere e discutindo o sistema penitenciário brasileiro.
Participaram dos debates especialistas nacionais e internacionais de áreas como Direito, Psicologia, Psicanálise e Ciências Sociais. Isso porque, segundo o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Pedro Abramovay, “o direito não é a única resposta, temos de procurar também na Sociologia, na Psicologia, em outras disciplinas”.
Os promotores do encontro denunciaram os efeitos perversos do capitalismo. “A expansão do sistema penal, a constituição das periferias em campos, o aumento da vigilância, a proliferação dos conflitos sociais e, principalmente, a inculcação do dogma da pena. A cultura da pena tem articulado soluções para todos os dilemas nacionais: da reforma agrária à saúde pública. O resultado foi o fortalecimento do Estado policial, o filicídio brasileiro com o extermínio de milhares de jovens e o encarceramento de quase 500 mil compatriotas”, apresentava a convocatória do encontro.
O Brasil tem 444 mil presos. O índice de pessoas que deixam a cadeia e reincidem no crime chega a 80%. Esse número cai para aproximadamente 5% no caso de condenados que cumprem penas alternativas. Tais dados, do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), apontam para a necessidade de buscar um novo modelo.

Os debatedores
Muito citado pelos palestrantes, o filósofo italiano Giorgio Agamben entende que o Estado usa de dispositivos legais justamente para suprimir os limites da sua atuação, a própria legalidade e os direitos dos cidadãos. O Estado de exceção apresentase como a forma legal daquilo que não pode ter forma legal.
Um poder além de regulamentações e controle que, para Agamben, hoje não é mais excepcional, mas o padrão de atuação dos Estados. Nilo Batista, que intitulou sua fala “A lei como o pai”, demonstrando a relação saber jurídico e médico, disse que no país se tem “a pena como cura e a cura como pena, a punição terapêutica. A medicina da maldade, segundo Platão, a penalidade”.
Vive-se na equação em que pobreza é igual à periculosidade, e o crime, manifestação da personalidade. Enquanto isso, da Psicanálise pouco ou nada se fala: “Errou Freud, o denegridor da espécie humana, já disse um jurista do passado. Saberes distantes, a Psicanálise e a Jurisprudência. Na Psicanálise, culpa é sofrimento, no Direito Penal é juízo e acarreta sofrimento punitivo. Não sofra com a culpa, diz o psicanalista; sofra com a culpa, diz o juiz. Sofrimento punitivo como imperativo ético. O valor do pai simbólico como representante da lei é mais problema do que solução, como a criminalização dos pobres com pais ausentes. E pôr o Estado no lugar do pai, com seu poder ilimitado, é fascismo. Mas há lugar para Psicologia Forense e Medicina Legal”, articulou Batista.

Castigo
Para Regina Néri, doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a interlocução entre Direito e Psicanálise existe na relação simbólica entre lei e pai como formadora de subjetividade e invasiva na personalidade. “A Psicanálise é contra os manicômios, mas não contra as prisões. [O psicanalista francês Jacques] Lacan lamenta o declínio do papel do pai em detrimento da mãe.
Mas o mal estar da modernidade abalou a figura paterna, e ele lamenta também a perda do paradigma do pai na crise do simbólico, que tem como efeito a fragmentação social. Mas o resgate da figura do pai é algo conservador.
A Psicanálise deve se desvencilhar da Lei do Pai, causa do mal estar contemporâneo; a solução paterna não é a única relação com que se pode ter a lei”, observou.
Acácio Augusto, mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisador do Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-Sol), estudando o anarco-abolicionismo penal, viu que as periferias são como campos de concentração em céu aberto. Enquanto Cecília Coimbra, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), psicóloga e uma das fundadoras do Grupo Tortura Nunca Mais, aponta a ilusão da paz e da segurança como outra forma de aprisionamento, “o encarceramento de si mesmo.
Dos 450 mil prisioneiros do Brasil, 95% são pobres e 53%, menores de 30 anos. Os indesejáveis, segundo Lacan, as prisões são seus depósitos. Na produção da subjetividade moralista capitalista surge o policial em nós”, analisou. Cristina Rauter, doutora em Psicologia pela PUC-SP e autora do livro Criminologia e Subjetividade no Brasil, afirmou que “as contribuições da área ‘Psi’ para o direito vão desde o discurso punitivo com o diagnóstico da incurabilidade, passando pela vertente psiquiátrica do geneticamente determinado, até o contexto globalitário atual, da estigmatização e separação. A ausência do pai como causadora da criminalidade: o que mata não é a polícia, mas a ausência do pai. Jovens não humanos, já que o pai está ausente. E há saída? É preciso, como já falou um filósofo, preservar a inocência do futuro”.

Exclusão
De seu lado, o professor Paulo Arantes, titular de direito ambiental da Universidade Estácio de Sá, lembrou que um terço da população brasileira é excluída. “O horizonte de expectativa já é o próprio presente, nós vivemos a emergência. Estamos aqui hoje para que as coisas não piorem”, afirmou.
Para a professora Vera Malaguti Batista, doutora em Saúde Coletiva e secretária geral do Instituto Carioca de Criminologia, “a democracia que construímos tortura e mata mais que a ditadura militar.
Em cinco séculos, temos em nossa história apenas um sem escravidão. Somos seguidores da cultura punitiva estadunidense e convivemos com adesão subjetiva a isso. A esquerda quer moralizar o capitalismo, usar o castigo como ordenador do conflito de classes? Devemos procurar alternativas às penas, procurar e produzir um novo mundo depois do grande encarceramento”.
Finalizando, o juiz de direito Rubens Casara, integrante do Movimento da Magistratura Fluminense pela Democracia (MMFD) do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, indicou que a função do Ministério da Justiça é fundamental como “órgão que deve fomentar a pesquisa e saídas. Os crimes cometidos pela classe média não são punidos com prisão”. Ele sugeriu o não-encarceramento para os crimes sem violência contra o patrimônio. “É uma luta política, não acredito no sistema penal, estou com os abolicionistas penais, pois é a população pobre que sofre com a penalização”, disparou.

“Brasil De Fato”

Comentários