Arquivo de 5 de Outubro de 2008

Na Colômbia, é tempo de trocar as fichas de um jogo macabro?

ANÁLISE Uribe entra em crise com as elites que lhe sustentam. Mudar, para deixar tudo como está, pode ser o caminho da oligarquia

Simone Bruno

O GOVERNO de Álvaro Uribe faz parte de um processo que começa antes dele e não terminará com ele. A presidência atual não existiria sem três fatores: Estado paramilitarizado, um conflito e uma guerrilha. E todos não são mais que instrumentos de um projeto que os inclui e tenta controlálos e manipulá-los.

O conflito
Os confl itos armados geram refugiados, mas essa interpretação deve ser invertida no caso colombiano, no qual os deslocamentos forçados são a origem do processo. A terra dos indígenas, afrodescendentes e camponeses é a razão da guerra.
As oligarquias rurais – uma das mais reacionárias do continente – e as empresas nacionais e transnacionais, com seus aliados paramilitares e narcotraficantes, sonham em apropriar-se do generoso solo e subsolo.
Para que isso aconteça, são necessários Estado ausente e existência de um conflito. Ambas as condições sempre existiram na Colômbia.
A guerra justifica a violência, confunde agressões e resistência em uma nuvem cinzenta, transforma sindicalistas, movimentos e ativistas em subversivos e converte a repressão por meio da força em algo aceitável por uma sociedade acostumada com ela, como um mal endêmico que não se pode curar nunca.
O conflito é permanente, o inimigo, necessário: aos paramilitares, seguem os “grupos emergentes”; ao cartel de Medellín, o “escritório” de “Don Berna”; as próprias Farc podem se dissolver em uma série de pequenos exércitos regionais a serviço de narcotraficantes. Acabam-se os grupos, mas não as condições em que eles foram gerados. Assim, perpetua-se o conflito para que sempre exista um inimigo.
Todos são fichas em um jogo de guerra que legitima os abusos, a expulsão, a repressão e a reprodução da classe dominante.
Isso vem sendo denunciado por muitos dos movimentos sociais colombianos que viveram a guerra na própria carne, pagaram com mortos sua resistência ou simplesmente sua existência. Mas, agora, pela primeira vez, uma engrenagem se rompeu e as relações entre as elites rurais, os paramilitares e a esfera empresarial saíram à luz do sol.

O paramilitarismo
Em maio de 2006, a Corte Constitucional transformou a Lei de Justiça e Paz, legislação que regulamenta o processo de paz dos paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) com o governo Uribe. A sentença tornou abrigatória a confissão total dos crimes por parte dos paramilitares que quiserem ter penas máximas de oito anos. Antes, na versão presidencial da lei, a confissão era facultativa.
Por isso, os chefes se viram obrigados a contar ao mundo a história da paramilitarização colombiana. Nada novo, só que dessa vez são as bocas dos carrascos, e não os gritos das vítimas, que contam as mesmas histórias, as mesmas relações com políticos e empresários, os mesmos massacres. Paradoxalmente, os carrascos têm sido mais escutados que os massacrados; e a justiça parece acreditar mais neles.
Dessas versões livres, desencadeou o escândalo da parapolítica: 70 políticos, entre parlamentares e senadores investigados pela Corte Suprema de Justiça por compra e venda de votos e pela criação, financiamento e apoio aos paramilitares da AUC (provavelmente o grupo mais sangrento da América Latina).
Quase a metade desses representantes está presa e 10 confessaram seus crimes. A maioria dos investigados pertence a partidos que apóiam o presidente, dentre eles, o seu primo, Mario Uribe, companheiro político desde o início da sua carreira.
Das versões livres, pode-se desvelar o segredo fundador dos grupos paramilitares, sua função e, de forma geral, as dinâmicas do conflito colombiano. Os “paras” nada mais foram do que fichas nas mãos das elites, uma criação dela, um ator endógeno ao Estado, um instrumento de repressão aos protestos, principalmente sindicais, para poder expulsar os camponeses e seguir uma nunca acabada contra-reforma agrária.
Éver Veloza, o chefe paramilitar conhecido como H.H., diferentemente dos outros líderes, ainda não foi extraditado para os Estados Unidos. Suas versões livres e suas entrevistas para os diários Espectador e Washington Post são fundamentais para entender o papel dos “paras”. Ele afirma, assim como muitas organizações de vítimas e defensoras dos direitos humanos, que a extradição dos outros chefes paramilitares é uma estratégia para enterrar verdades incômodas.
H.H. fala também sobre o papel dos paramilitares no conflito colombiano, a razão do conflito e quem se beneficia com ele. “Veja como estamos. Na prisão, outros extraditados e outros estão se rearmando por falta de oportunidades.
A maioria de nós não está na guerra por vontade própria, mas sim porque não há o que fazer. A guerra virou uma bolsa de emprego. Faltaram mais compromissos do governo para oferecer condições aos rapazes que se desmobilizaram. Nas cidades, não encontraram nenhuma condição. […] É preciso falar a verdade: dessa guerra, só se beneficiaram os ricos. Nessa guerra, perderam os pobres e nós, que estamos presos.
Nós fizemos mortos e fizemos morto ao povo. Mas os ricos se benefi ciaram. É preciso contar a verdade para que essas pessoas não continuem usando a guerra para se beneficiar economicamente”.
Se a parapolítica está levando à luz a rede de relações entre paramilitares e políticos, o capítulo das relações deles com o mundo empresarial está apenas começando. A única exceção é a transnacional Chiquita Brands, que aceitou acusação de ter financiado a AUC em um tribunal federal dos Estados Unidos.
H.H. conta como se gastava esse dinheiro e por qual razão uma empresa estrangeira pagava um grupo terrorista internacional: “Chegamos para recuperar o controle em Urabá, já que paralisações prejudiciais às empresas vinham acontecendo. Quando chegamos a Urabá, em fevereiro de 1995, não houve mais nenhuma paralisação. Isso porque eu, pessoalmente, obrigava as pessoas a trabalhar. Em benefício de quem? Dessas empresas exportadoras”.
H.H. declarou-se culpado de, pelo menos, 3 mil homicídios, mas será extraditado aos Estados Unidos, que o acusam por ter exportado e distribuído “5 ou mais quilos de cocaína”.

A guerrilha
As Farc assumiram um papel político fundamental nos últimos anos, entretanto este foi o oposto àquele que provavelmente proporiam.
Os atentados que precederam as eleições de 2002 e a ruptura das negociações com o governo de Andrés Pastrana empurraram à vitória o candidato da opção militar, Uribe. Rapidamente, cada uma das numerosas derrotas da guerrilha contribuiu para tirar o governo das suas piores crises. Além disso, reforçaram na opinião pública a concepção de que o governo ia por um bom caminho, e da necessidade da perpetuação de Uribe no poder. Essa mesma série de derrotas é a que mantém os índices de popularidade do presidente em níveis inverossímeis. Se as Farc não existissem, o governo teria que lidar com os problemas reais do país, como as altas taxas de pobreza e desemprego.
As Farc, também, atravessam um momento de incrível dificuldade, depois de ter recebido os golpes mais duros de sua história. Desacreditada frente à população, isolada internacionalmente, inclusive no campo militar, ela tem sofrido importantes derrotas. Em março, morreram três integrantes do secretariado:
Raúl Reyes, Iván Ríos e o histórico chefe Turofijo, que faleceu provavelmente de causas naturais. Além destes, caíram alguns membros médios fundamentais.
Com relação à inteligência, o Estado colombiano tem demonstrado uma superioridade abismal graças à cooperação e ao treinamento de exmilitares israelenses e estadunidenses. Histórias, como o anúncio da morte de Tirofijo pela boca do ministro da defesa, Juan Manuel Santos, demonstram o que já se sabia: as diferentes frentes estão isoladas e atualmente as comunicações estão restritas aos correios humanos.
Mas é preciso considerar que, nos últimos 40 anos, as manchetes de jornais que dão as Farc por acabadas são capazes de cobrir toda a Plaza Bolívar, no centro de Bogotá. O grupo guerrilheiro conta ainda com uma estrutura burocrática praticamente intacta, hierarquia de comando – nova, mas em pé e reconhecida – e milhares de homens armados. Se o Estado continuar dando fortes golpes militares, existe a possibilidade de divisão do grupo guerrilheiro em frentes separadas de alcances regionais, sob o comando de pessoas sem ideologia, guiadas somente pelos enormes lucros do narcotráfico e dispostas a fazer alianças com paramilitares ou cartéis de droga. Do ponto de vista de resolução do conflito, seria evidentemente melhor negociar com uma guerrilha unida e ideológica do que com uma dezena de bandos armados.
O novo comandante das Farc é Alfonso Cano, que é símbolo de uma mudança fundamental: o novo secretariado, com a exceção de “Mono Jojoy”, já não é composto por velhos camponeses que pegaram em armas para se defender na época da La Violencia, mas sim por um grupo de ex-estudantes universitários que preferem o aspecto político, uma geração urbana, com mais formação política, acadêmica e cultural. De imediato, por essa imagem que o acompanha, é possível que os primeiros atos das novas Farc sejam de tipo militar, para convencer as tendências mais militaristas da legitimidade dos novos líderes.
Com efeito, uma série de atentados recentes, aparentemente imputados às Farc, parecem comprovar essa teoria. O início de uma nova temporada de negociações a curto prazo não será automático. É mais fácil que a guerrilha se retire para as áreas onde ainda mantém maior controle territorial, metabolize as derrotas e estude novas táticas, mais efetivas, para o cenário atual.
Na organização, provavelmente debate-se se é necessária uma negociação em curto prazo para se reorganizar – o que seria útil também para o Estado aproveitar as vatagens acumuladas e provavelmente não sustentáveis a longo prazo – ou se prepara- se para um projeto de longo prazo para as próximas décadas, tendo em conta que a atual ofensiva militar fundase em dois pilares que não podem durar para sempre: o dinheiro do Plano Colômbia e um gasto militar de 8% do produto interno bruto (PIB).

Uribe e o pós-Uribe
O futuro político de Uribe depende da resitência da coalizão que o apóia. Enquanto por esses dias foram apresentadas 5 milhões de assinaturas para chamar um referendo que permitiria um terceiro mandato presidencial, Uribe ainda não se pronunciou sobre essa possibilidade.
Em meio a escândalos, o mandato de Uribe sobrevive somente graças aos altos índices de popularidade, algo que parece cada vez mais com uma bolha de popularidade. Nos últimos meses, a aprovação que os cidadãos têm do país e do governo diverge da do presidente. Os primeiros começam a mostrar uma falta de confiança no futuro e no Executivo, enquanto a provação do presidente segue subindo. Na última pesquisa trimestral do Gallup Colombia, evidencia-se como o país pede, em sua maioria, uma negociação com as Farc e se mostra preocupado por sua situação econômica mais do que com segurança. O risco para o presidente é que, cedo ou tarde, os colombianos relacionem o fato da sua vida estar piorando com quem nada faz para que melhore.
Alguns setores do uribismo, sobretudo os industriais, estão procurando um cenário pós-Uribe; ou um uribismo como uma cara apresentável frente a uma possível presidência de Barack Obama nos Estados Unidos e frente aos vizinhos latino-americanos. Os empresários não se esquecem dos custos econômicos das crises com os países vizinhos, principalmente com a Venezuela, único país que compra manufatura colombiana.
O comércio entre os dois países cresceu 40% no último ano, e uma crise teria efeitos ainda mais graves sobre a economia colombiana, a qual está entrando em uma fase de recessão. Outro tema é o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, cuja aprovação está suspensa em um Congresso de maioria democrata, por temas relacionados ao atropelo dos direitos humanos por parte do Estado colombiano. Parece difícil uma aprovação do TLC enquanto Uribe for presidente.
Existe então um aparente contra-senso: o presidente experimenta índices de popularidade tão altos que aqueles que o levaram ao poder procuram alternativas. De um lado, as elites rechaçam as aspirações plebiscitárias do presidente, que se aproxima demais do modelo de Alberto Fujimori no Peru, um mandatário tão forte que tira a capacidade da própria elite de negociar.
Quando precisa negociar acordos, as associações preferem fazê-lo com um partido, e não apenas com um só homem, ainda menos se este é tão popular quanto Uribe. Por outro lado, essas entidades são historicamente institucionalistas e respeitosas da forma da democracia colombiana, modelo que deve parecer perfeito, se não quiserem que o conteúdo o seja. Os seguidos escândalos e as crescentes brigas do presidente com outros poderes institucionais fazem tremer essa forma da democracia colombiana. Uribe e os paramilitares eram, então, parte de um mesmo projeto oligarca. Ambos já não são mais úteis.
É tempo de mudar as fichas para manter o mesmo jogo, o jogo de uma oligarquia necrófila que vive agachada sobre os sepulcros dos camponeses e que se alimenta de seus cadáveres, dor e massacre. Grupos emergentes e Juan Manuel Santos à presidência?

Simone Bruno é jornalista italiano

“Brasil De Fato”

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Movimentos brasileiros em Paris

DOCUMENTÁRIOS Mostra reuniu, em Paris, 25 filmes que denunciam a exploração dos brasileiros do campo e da cidade

Douglas Estevam

“BRASIL EM Movimentos” é o nome do festival de cinema organizado anualmente na França pela associação Outros Brasis (Autres Brésils). Essa quarta edição, que se desenrolou entre os dias 2 e 8 – no momento que, em Roma (Itália), ocorria a conferência internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre segurança alimentar, tendo como pano de fundo a explosão da alta de preços dos alimentos e as rebeliões que ocorrem em vários países do mundo –, teve como tema Direitos Humanos e Meio Ambiente.
A seleção – mais de 25 filmes – apresentou vários aspectos da inserção do país no comércio internacional e suas consequências socioeconômicas, as formas de organização política e os desafios que os movimentos sociais vêm enfrentando.

Agrocombustíveis
A produção de agrocombustíveis e o trabalho escravo foram temas de duas noites de apresentações. Na primeira delas, cujo título era “Os agrocombustíveis: energia ou desespero?”, o debate apenas começava. O primeiro filme apresentado nesta noite foi Migrantes, do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), economista e cineasta Beto Novaes. O trabalho, lançado no Brasil no final de 2007, faz parte de um projeto que inclui um livro e um ensaio fotográfico.
Beto Novaes acompanhou o trajeto de trabalhadores rurais que partiram dos Estados de Piauí e Maranhão rumo às usinas de São Paulo, particularmente as da cidade de Ribeirão Preto. O trabalho nos canaviais paulistas já foi tema de outro trabalho de Novaes, cujo título Califórnia à brasileira, gravado em 1991, já demonstrava a atenção do diretor a essa região que viria a ser o orgulho dos usineiros do país.
Em Migrantes, seguimos o caminho percorrido por aquelas famílias de antigos pequenos proprietários ou arrendatários que foram expulsos do campo e não encontram condições de vida nas periferias das cidades. Segundo o cineasta, são cada vez mais os jovens que partem para buscar a única possibilidade de sobrevivência nas terras paulistas.
De umas dessas cidades do interior nordestino, partiu, numa única noite, 13 ônibus, seguidos de mais 4 na semana seguinte. O volume da produção também tem alcançado altos índices: hoje, um bóiafria chega a cortar 15 toneladas de cana, o dobro da produção de 30 anos atrás. O número de mortes em decorrência desse tipo de trabalho não está ausente e no filme há depoimentos de parentes e amigos de trabalhadores mortos no trabalho.

Padrão de consumo
O segundo filme da noite, de Jean-Michel Rodrigo, apresentava o alto desenvolvimento da produção de etanol brasileiro e os impasses da crise energética, com a alta do preço do petróleo, para as grandes economias. O consumo de álcool, que no Brasil supre mais de 40% das necessidades do mercado interno, se coloca como uma das alternativas para o mercado europeu, mas os custos ambientais questionados pelos realizadores e a interrogação sobre a possibilidade de manutenção desse padrão de consumo mundial de energia são ressaltados. Permanece o problema da alteração do sistema mundial de consumo de energia; uma mudança no padrão de consumo é necessária.
No debate realizado após a exibição dos filmes, o brasileiro André Pereira, pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cired), alegava que, “mesmo com a más condições de trabalho propostas para os bóias-frias, isso ainda seria melhor que o desemprego de mais de um milhão de trabalhadores” desse setor, e que a “expansão da produção de cana-de-açúcar não afetaria a Floresta Amazônica”.
O ministro conselheiro da Embaixada brasileira na França, Demétrio Carvalho, ressaltou o papel do Brasil na produção e exportação da tecnologia do etanol para o restante do mundo como uma das maiores contribuições do país, além da geração de riqueza para a população.
Já o mediador do debate, Patrick Piro, jornalista do semanal francês Politis, que recentemente publicou um artigo sobre o avanço do agronegócio, afirmou que “no Mato Grosso, serão construídas mais de 60 usinas, e isso não é para alimentar o mercado interno, é para exportação.
A maioria dos habitantes não tem condições de sobreviver e ninguém apresenta um projeto para solução desses problemas, agravados pela mecanização. E isso é inquietante, essa euforia, o otimismo desse discurso de que os agrocombustíveis serão enfim a solução para toda a sociedade mundial e os povos. Eu não acredito nisso, porque a sociedade se estrutura segundo um único vetor principal, que é o da rentabilidade do capital”.

Trabalho escravo
Ligado ainda a essa problemática do desenvolvimento do agronegócio brasileiro, o trabalho escravo foi o tema da noite intitulada “Vida escrava no século 21”. Tratando desse assunto, dois filmes foram apresentados. Aprisionados por promessas e Nas terras do bem-virá.
O primeiro é uma produção da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em parceria com a Witness. O vídeo documenta as condições dos trabalhadores em situação de escravidão, principalmente no Pará, submetidos ao serviço em carvoeiras. O documentário, dirigido pelo frei dominicano Xavier Plassat, apresenta as ações do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho, que apura as denúncias de trabalhadores que conseguiram fugir.
O Grupo Móvel, em atuação desde 1995, registra uma média de 250 casos por ano, envolvendo aproximadamente 8 mil trabalhadores. Desde 2003, com o lançamento do Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, as fi scalizações têm aumentado, libertando cerca de 4 mil trabalhadores por ano. Mas metade das denúncias ainda fica sem fiscalização.
O deputado federal Tarcísio Zimmerman (PT/RS), um dos entrevistados do filme, ressalta a dificuldade que a Bancada Ruralista coloca para o desenvolvimento de políticas mais eficazes contra o trabalho escravo. Segundo o governo, 25 mil pessoas entram no ciclo da escravidão a cada ano.

Impunidade
O filme de Alexandre Rampazzo, Nas terras do bemvirá, desenvolve ainda mais a violência contra os trabalhadores rurais. Descrevendo também os problemas do Pará, o vídeo ressalta o avanço da destruição da Floresta Amazônica e a expulsão dos camponeses. A violência policial é abordada na investigação realizada pelo diretor no caso de Eldorado do Carajás, ocorrido na região. Entrevistando as famílias e colhendo materiais de arquivo, ele refaz o histórico do maior massacre ocorrido no país. Em meio à precariedade econômica da região, o filme apresenta a organização social do trabalhadores como forma de enfrentamento dos problemas, destacando como a presença do MST possibilitou mudanças nas relações políticas da região. O filme termina com a violência do ato cometido contra a irmã Dorothy.
Xavier Plassat, francês, mas que há mais de 20 anos integra a CPT no Tocantins, nos debates que se sucederam ao filme, denunciou a impunidade que ainda existe na Justiça brasileira e a total ausência de punição contra os produtores que se utilizam do trabalho escravo. Sua análise é de que uma mudança na orientação das políticas sociais é necessária para garantir condições de existência aos trabalhadores.
De acordo com suas palavras, enquanto não houver uma reforma agrária com políticas que possibilitem o desenvolvimento das famílias camponesas, não haverá solução para o problema da escravidão.

Movimento sem-teto
“Face às ilegalidades: ocupar, resistir, viver!” foi o tema da noite que reuniu filmes que abordam essencialmente os problemas de moradia urbana. A perspectiva das organizações sociais começa a se estabelecer com o filme do carioca Cacau Amaral Um ano e um dia. O vídeo foi gravado no primeiro dia após completar-se um ano da ocupação 17 de Maio, no Rio de Janeiro. Realizada de forma espontânea, sem uma organização prévia que orientasse a ação da famílias, o filme deixa transparecer a mudança de perspectiva que a ação coletiva proporcionou aos moradores da ocupação.
Complementando a temática sobre os problemas de moradia urbana, foi apresentado o fi lme Direitos Esquecidos, produzido pela Brigada Guerrilha Cultural, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
A versão reduzida do filme Chico Mendes, uma dignidade que não se rende, também produzido pela Brigada, acompanha o processo organizativo da ocupação Chico Mendes, realizada no município paulista de Taboão da Serra. As centenas de famílias que massificaram o acampamento, cerca de 4 mil em poucos dias, revelam a gravidade da questão urbana brasileira.
A experiência organizativa como forma de enfrentamento e a inventividade nos processos organizativos, como as experiências realizadas no âmbito cultural comprovam, possibilitaram uma visão ampliada da riqueza dos movimentos sociais no Brasil. No debate dos filmes, a experiência organizativa dos movimentos sem-teto no Brasil evidenciou a ligação entre os problemas urbanos, originados das mudanças do modelo agrícola implantado principalmente a partir dos anos de 1960, e as problemáticas rurais vistas nas noites anteriores.

Rumos do país
A noite de encerramento do festival poderia ser interpretada como uma síntese da história brasileira dos últimos anos e a consolidação de um modelo de inserção adotado pelo país num contexto de lutas e enfrentamentos sociais e políticos.
Durante as noites anteriores, as questões sobre a atual estrutura econômica e as formas de reação das organizações sociais apareciam ainda com um sentido de interrogação sobre os rumos do país presidido por Lula. A imagem de um Partido de Trabalhadores, tendo a sua frente um ex-sindicalista, seria o sinal de que um projeto social mais igualitário inegavelmente se efetivaria.
Estas indagações se rearticularam na noite final. O primeiro filme a retomar a problemática foi Acordos, do francês Robert Cabanes e do brasileiro Daniel Veloso. Interessados em avaliar o impacto das ações de ONGs no Brasil, eles seguiram diferentes líderes sociais que desenvolvem projetos de assistência social em parceria com instituições privadas e as orientações que esses projetos e organizações adotam.
Em contrapartida, alguns dos entrevistados, moradores dos mesmos bairros onde são realizados esses projetos, comparam a diferença da experiência que tiveram como participantes de antigos núcleos do Partido dos Trabalhadores, desativados há anos. O último filme, ainda inédito no Brasil, chama-se Movimento, o engajamento da igreja brasileira, produzido pelo brasileiro Marcello Lunière.
Centrado na história de Frei Betto, desde sua atuação com as organizações guerrilheiras nos anos de 1960, passando pelas comunidades eclesiais de base, as lutas pela anistia e redemocratização, a formação do PT, até sua saída do partido, o filme reconta a história do país nesse período.
Frei Betto afirma que o partido mudou seu projeto inicial e que isso se deve ao fato de a legenda ter trocado um projeto de nação por um de poder. Ele deixou a coordenação do programa Fome Zero em dezembro de 2004, alegando que um conjunto de interesses internos do partido promoviam políticas que não alteram a estrutura social do país, e que estas seriam facilmente anuladas por um outro governo.
Simbolicamente, poderíamos dizer que o festival finaliza com as palavras de Frei Beto, que termina dizendo que cabe aos movimentos sociais fazer uma verdadeira reforma social, que a ação dos movimentos seria o único meio para uma transformação social de fundo.

Quanto
25 mil pessoas entram no ciclo da escravidão a cada ano

“Brasil De Fato”

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Guerra e Paz

A guerra na Geórgia não é uma guerra antiga, pelo contrário, é um anúncio do futuro. A Rússia foi a grande perdedora da década de 90 e, ao contrário do que diz o senso comum, será a grande questionadora da nova ordem mundial, qualquer que ela seja, até que lhe devolvam - ou ela retome - o seu velho território.

José Luís Fiori

“A guerra nunca deflagra subitamente: a sua extensão não é obra de um instante”.
Carl Von Clausewitz, Da Guerra, Martins Fontes, São Paulo 1979 [1832] p: 77

Os fatos mais recentes, e importantes, são conhecidos. No mês de abril de 2008, a última reunião de cúpula da OTAN, na cidade de Bucareste, reconheceu a aspiração da Geórgia de participar da aliança militar liderada pelos EUA, apesar da resistência alemã, e da oposição explícita do governo russo. E no dia 11 de julho de 2008, aviões da Força Aérea Russa sobrevoaram o território da Ossitéia do Sul, na véspera da vista à Geórgia, da secretária de estado norte-americana Condollezza Rice, para inaugurar, no dia 15 de julho, à operação “Resposta Imediata 2008”: um exercício militar conjunto do exército norte-americano, com as tropas da Geórgia, Ucrânia, Armênia e Azerbaijão, realizado na Base Aérea de Vaziani, que havia pertencido à Força Aérea Russa, até 2001. Logo em seguida, no dia 8 de agosto de 2008, as Forças Armadas da Geórgia atacaram a província da Ossétia do Sul, e conquistaram sua capital, Tskhinvali.

Não está claro por que a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, exatamente no dia da inauguração das Olimpíadas chinesas. Mas não há dúvida que a grande surpresa dos governos envolvidos nesta história, foi a rapidez, extensão e eficácia da resposta russa, que em poucas horas, cercou, dividiu e atacou - por terra, mar e ar - o território da Geórgia, numa demonstração contundente, de decisão política, organização militar, e poder de conquista. Tudo feito com tamanha rapidez e agilidade que deixou os governos “ocidentais”, perplexos, divididos e impotentes, obrigados a acompanhar os desdobramentos da ofensiva russa, hora a hora, através de fatos consumados, sem conseguir saber ou poder antecipar o seu objetivo final.

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, Hans Morgenthau, pai da teoria política internacional norte-americana, formulou uma tese muito simples e clássica, sobre a origem das guerras. Segundo Morghentau: “a permanência do status de subordinação dos países derrotados numa guerra, pode facilmente produzir a vontade destes países desfazerem a derrota e jogarem por terra o novo status quo internacional criado pelos vitoriosos, retomando seu antigo lugar na hierarquia do poder mundial. Ou seja, a política imperialista dos países vitoriosos tende a provocar uma política imperialista igual e contrária da parte dos derrotados. E se o derrotado não tiver sido arruinado para sempre, ele quererá retomar os territórios que perdeu, e se possível, ganhar ainda mais do que perdeu, na última guerra” .

Em 1991, depois do fim da Guerra Fria, não houve um Acordo de Paz, que estabelecesse as perdas da URSS, e que definisse claramente as regras da nova ordem mundial, imposta pelos vitoriosos, como havia acontecido no fim da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais. De fato, a URSS não foi atacada, seu exército não foi destruído e seus governantes não foram punidos, mas durante toda a década de 90, os EUA e a UE apoiaram a autonomia dos países da antiga zona de influencia soviética, e promoveram ativamente o desmembramento do território russo. Começando pela Letônia, Estônia e Lituania, e seguindo pela Ucrânia, a Bielorússia, os Bálcãs, o Cáucaso e os países da Ásia Central.

Neste período, os EUA também lideraram a expansão da OTAN, na direção do leste, contra a opinião de alguns países europeus. E mais recentemente, os EUA e a UE apoiaram a independência do Kosovo, aceleraram a instalação do seu “escudo anti-mísseis”, na Europa Central, e estão armando e treinando as forças armadas da Ucrânia, da Geórgia e dos países da Ásia Central, sem levar em conta que a maior parte destes países pertenceu ao território russo, durante os últimos três séculos. Em 1890, o Império Russo, construído no século XVIII, por Pedro o Grande e Catarina II, tinha 22.400.000 Km2 e 130 milhões de habitantes. Era o segundo maior império contíguo da história da humanidade, e era uma da cinco maiores potencias da Europa.

No século XX, durante o período soviético, o território russo se manteve do mesmo tamanho, a população chegou a 300 milhões de habitantes, e a Rússia se transformou na segunda maior potência militar e econômica do mundo. Pois bem, hoje a Rússia tem 17.075.200 km 2 e apenas 152 milhões de habitantes, ou seja, em apenas uma década, a década de 1990, a Rússia perdeu cerca de 5 .000.000 km2 , e cerca de 140 milhões de habitantes.

A maior parte dos analistas internacionais que se dedicam a prever o futuro se esquecem – em geral - que os grandes vitoriosos de 1991, não foram apenas os EUA, foram os EUA, a Alemanha e a China. Numa virada histórica onde só houve um grande derrotado, a URSS, cuja destruição trouxe de volta ao cenário internacional, uma Rússia mutilada e ressentida. A Alemanha e a China ainda tomarão muitos anos para “digerir” os novos territórios e zonas de influência que conquistaram, nas últimas décadas, na Europa Central e no Sudeste Asiático. Enquanto isto, o desaparecimento da União Soviética colocou a Rússia na condição de uma potência derrotada, que perdeu um quarto do seu território, e metade de sua população, mas que ainda mantém de pé o seu armamento atômico, e o seu potencial militar e econômico, junto com uma decisão cada vez mais explícita “de desfazer a derrota, e jogar por terra o novo status quo internacional criado pelos vitoriosos (em 1991), retomando seu lugar na hierarquia do poder mundial”.

Por isto, neste início do século XXI, a Rússia é um desafio e uma incógnita, para os dirigentes de Bruxelas e de Washington e para os comandantes militares da OTAN. Quando na verdade, o mistério não é tão grande, e se Hans Morghentau estiver com a razão, se trata de um segredo de Polichinelo: a Rússia foi a grande perdedora da década de 90, e ao contrário do que diz o senso comum, será a grande questionadora da nova ordem mundial, qualquer que ela seja, até que lhe devolvam - ou ela retome - o seu velho território, conquistado por Pedro o Grande e Catarina II. Por isso, a atual guerra na Geórgia não é uma guerra antiga, pelo contrário, é um anúncio do futuro.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Carta Maior”

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Abrindo o cofrinho

Penalizado com a intervenção do governo em banco e seguradoras, contribuinte americano deve fiscalizar e exigir contrapartida ao pacote

JAMES K. GALBRAITH e WILLIAM K. BLACK

Vivemos dias de milagres e maravilhas…” O mercado entrou em colapso, e só o governo pode nos salvar agora. Três décadas de papo furado desapareceram.
De repente, estamos todos juntos na parada. Henry Paulson [secretário do Tesouro dos EUA] e Ben Bernanke [presidente do Federal Reserve, o banco central do país] na liderança, o Congresso remando como escravos de galé pós-partidários, o presidente George W. Bush tentando passar despercebido e procurando, com certeza avidamente, pela porta de saída.
Alguma coisa precisa ser feita. Fato. Mas em que termos? O Tesouro propõe gastar US$ 700 bilhões na aquisição de títulos lastrados por hipotecas sem prestar contas a ninguém.
O secretário Paulson pede confiança. Mas ele fez por merecê-la? Lembrem-se: quando assumiu, seu projeto era destruir a Lei Sarbanes-Oxley [criada em 2002, estabeleceu critérios mais rigorosos de responsabilidade corporativa e controle contábil].
Posteriormente, ele tentou paralisar a Securities and Exchange Commission [órgão responsável pela fiscalização e regulamentação do mercado de valores mobiliários].
E, há apenas três semanas, recorreu ao banco Morgan Stanley -de forma alguma uma parte desinteressada- em busca de conselhos que levaram à nacionalização de Fannie Mae e Freddie Mac [empresas de crédito imobiliário].
Portanto, “devemos confiar, mas verificar”, como Ronald Reagan diria (e disse).
O Congresso precisa agora impor condições que protejam o público, o interesse nacional e, não menos, os interesses do próximo governo. Segue uma lista sumária:

Cláusula de informação
O Tesouro deve ter acesso imediato e completo a informações sobre carteiras, contrapartes, os métodos internos de avaliação usados pelas companhias financeiras, seus modelos operacionais exclusivos e ao histórico dos ajustes feitos nesses modelos para reconhecer ou ocultar prejuízos à medida que a crise se desenrolava.

Cláusula de preços
O Tesouro precisa estabelecer um mecanismo claro a fim de determinar um valor justo de mercado para os títulos lastreados por hipotecas antes do resgate, estipular limites para o ágio a ser pago com relação a esse valor e requerer que as instituições financeiras avaliem suas carteiras plenas a preço de venda.
Em outras palavras, a prática de ocultar prejuízos -”leniência contábil”- deve ser abolida.

Contra fraudes
Os títulos adquiridos devem ser revisados e -no caso daqueles cujo valor se baseia em avaliações fraudulentas, documentação inadequada, práticas predatórias ou de outra forma abusivas- devem ser restituídos às instituições, com uma multa punitiva.

Policiamento
O Tesouro deve ser forçado a criar uma estrutura para investigações e para encaminhar acusações criminais às autoridades responsáveis e provar que essa estrutura está sendo utilizada de maneira agressiva.
As empresas participantes deveriam ser forçadas a investigar e documentar fraudes passadas, estabelecer controles internos contra fraudes e apresentar denúncias criminais quando necessário.
O FBI [polícia federal dos EUA] e os procuradores da Justiça Federal deveriam receber um “cheque em branco” para investigar os crimes que estão por trás desse fiasco.

Arbitragem
Um dos grandes perigos do plano de Paulson é o de que instituições, fundos de hedge e outras empresas de fora dos EUA aproveitem a oportunidade para vender seus maus papéis a instituições americanas elegíveis, reabastecendo o pântano que o Tesouro procura secar.
Todas as instituições financeiras dos EUA devem ser forçadas a apresentar informações básicas sobre suas posições em títulos lastreados por hipotecas e outros ativos elegíveis em 15 de setembro de 2008.

Transparência
As operações do Tesouro no cumprimento do plano, incluindo comunicações e consultas com assessores externos, devem ser transparentes para o Congresso, que deve receber toda a informação que deseje. Sem exceção.

Compadrio
O programa deve ser dirigido por pessoas que não estejam sujeitas a conflitos de interesse abusivos.
Para garantir que seja esse o caso, o Tesouro deve requerer informações financeiras completas sobre qualquer pessoa contratada para gerir o programa e impor regras e um sistema que estabeleça um código severo para prevenir conflito de interesses.
Recado especial ao Congresso: John McCain personifica e incorpora o sistema de compadrio. Não aprovem, então, um projeto de lei que daria a ele, como presidente, controle irrestrito sobre a maneira como o programa operaria.

Modificação
À medida que o número de hipotecas executadas cresce, o Tesouro termina no controle de propriedades físicas que se deteriorarão rapidamente caso não sejam vendidas, alugadas ou estejam ocupadas.
Para prevenir essa possibilidade deve ser estabelecida uma nova agência, para rapidamente modificar os contratos hipotecários existentes, administrar as conversões para locação e arrendar, vender ou demolir casas vazias.
A agência pode ser operada como os conselhos de recrutamento militar em guerras passadas, sob o comando de cidadãos em cada comunidade, mas respeitando normas federais.
Isso seria tudo? Não, apenas um começo.
Outras medidas precisam ser adotadas, entre as quais uma reforma abrangente do sistema regulatório, divisão de receitas para proteger os gastos públicos estaduais e locais à medida que caem as receitas com impostos imobiliários, apoio a investimentos de capital e à criação de empregos.
Mas essas outras medidas serão parte da agenda do novo governo. Sobreviver até que ela chegue é a tarefa do povo norte-americano agora.

JAMES K. GALBRAITH é economista e professor na Universidade do Texas, em Austin. É autor de “The Predator State - How Conservatives Abandoned the Free Market and Why Liberals Should Too” [O Estado Predador - Como os Conservadores Abandonaram o Livre Mercado e Por Que os Liberais Deveriam Fazer o Mesmo].

WILLIAM K. BLACK é professor de direito e economia na Universidade de Missouri e autor de, entre outros, “The Best Way to Rob a Bank Is to Own One” [A Melhor Maneira de Roubar um Banco É Ser Dono de Um].
Este texto foi publicado na “The Nation”.

“Folha de S. Paulo”

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As ilhas que escapam da União Européia

Marc Roche e Olivier Truc

“Not quite European” (Não totalmente europeus): esse slogan permitiu há muito tempo que as ilhas de Jersey, Guernesey e Man atraíssem os capitais de contribuintes abastados, sobretudo britânicos e irlandeses, amantes de benefícios fiscais.

Saint-Hélier, St. Peter Port e Douglas, respectivamente capitais de Jersey, Guernesey e Man, puderam durante muito tempo ignorar Bruxelas. Possessões da coroa britânica, essas ilhas do Canal da Mancha dotadas de grande autonomia não fazem parte da União Européia: a priori, as diretrizes não se aplicam a elas.

Garantida durante os 18 anos de governo conservador Thatcher-Major, a tranqüilidade desses paraísos fiscais foi abalada a partir de 1997, com a chegada ao poder de um Partido Trabalhista decidido a combater a evasão fiscal organizada. O Executivo de Bruxelas, por sua vez, examinou o estatuto fiscal das ilhas, denunciando a presença de empresas não-residentes isentas de impostos, enquanto as empresas residentes eram taxadas em 20%. Resultado: em 2008, as três jurisdições devem promulgar o plano “imposto zero” para todas as firmas. Os bancos são taxados em 10%. As ilhas também tiveram de aceitar a diretriz sobre a poupança que entrou em vigor em 1º de julho de 2005: os europeus detentores de contas devem declarar os juros recebidos ao fisco de seu país ou aceitar uma retenção na fonte de 20%.

“Jersey quer ser um bom vizinho em termos de cooperação”, afirma Geoff Cook, diretor-geral da Jersey Finance, porta-voz do setor financeiro. A UE é o maior parceiro comercial dessas pequenas ilhas, cuja população total chega a 165 mil pessoas. Os nativos tomaram consciência de que uma aproximação com Bruxelas permite resistir melhor às vontades hegemônicas de seu principal concorrente, a City de Londres.

Os dois territórios autônomos da Dinamarca, as ilhas Féroe e a Groenlândia, também escapam às regras da UE. As Féroe nunca fizeram parte, enquanto a Groenlândia deixou a Comunidade Econômica Européia em 1985 depois de um referendo. Pouco inclinados a dividir seus recursos, pois dependem quase totalmente do mar, eles contestam o sistema europeu de cotas. O arquipélago das Féroe adotou, em vez disso, um sistema de cotas de dias de pesca.

Alguns habitantes gostariam de aderir à UE, se tivessem certeza de ter uma isenção para a pesca, “como as ilhas Aland têm isenção para ficar fora do espaço fiscal europeu”, disse Edmund Joensen, deputado dos parlamentos das Féroe e da Dinamarca.

A Groenlândia tem um estatuto diferente porque pertence ao grupo de países e territórios de ultramar, como Saint-Pierre-et-Miquelon ou a Polinésia Francesa, que têm uma relação especial com a UE.

“Le Monde”

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No século 17, tulipas deixaram Amsterdã à beira da bancarrota

Quase 400 anos depois, Wall Street se vê diante de insanidade parecida

MAURÍCIO MORAES

Um arranjo de tulipas custa hoje cerca de R$ 30. Mas, na Holanda do século 17, para comprar um só bulbo da flor, era necessário dispor de 24 toneladas de trigo. A conta é assustadora, assim como foi a quebradeira que se seguiu à primeira crise especulativa de que se tem notícia. Quase 400 anos depois, Wall Street vê algumas de suas instituições ruírem. Os tempos e as crises são outras, mas o “espírito animal” que faz as cotações alcançarem preços irreais continua o mesmo.
“Espírito animal” foi o termo usado pelo economista inglês John Keynes (1883-1946) para explicar a euforia que move os investidores em busca do lucro fácil proporcionado pelo mercado financeiro. Assim foi na crise de 1929 e assim foi na rica Amsterdã dos anos 1600. A exótica tulipa, vinda do Oriente, virou mania entre os holandeses, que passaram a colecionar e logo a disputar os bulbos.
Tamanha valorização fez os produtores (e logo os intermediários) fecharem contratos futuros informalmente, os chamados “windhandel” (negócio de vento). A cada ano, o preço da tulipa se inflacionava e alcançava valores exorbitantes.
“Uma isca dourada fisgou tentadoramente um a um. Todos correram para os mercados de tulipas, como abelhas num pote de mel”, descreveu Charles Mackay, num relato do século 19 que celebrizou a tulipamania, como ficou conhecida.
O que foi inicialmente uma vaidade dos ricos holandeses se tornou um negócio milionário. Mackay conta que um marinheiro bêbado passou seis meses na prisão depois de comer um dos valiosos bulbos, pensando se tratar de uma cebola.
Em 1637, a bolha estourou. “Foi um efeito manada”, explica o professor Renato Colistete, da FEA-USP. “Os negociantes começaram a vender os contratos e o mercado fictício desapareceu.” Assim como evaporaram as propriedades e tudo o que os holandeses empenharam na tulipamania. O relato de Mackay é controverso e muito do que conta pode ser lenda, ou seja, tão real quanto o valor de muitos títulos negociados Bolsas afora. Mas a história ilustra bem a crise que chacoalha Wall Street, tragando instituições de peso como o banco Lehman Brothers e virando a ideologia do livre mercado pelo avesso.
Assim como o governo americano já torrou US$ 1 trilhão para aliviar a crise (e deve gastar em breve outros bilhões), o governo holandês teve de intervir. Os contratos podres eram comprados por 10% de seu valor. Para Colistete, a atual intervenção “é surpreendente”. Muito diferente de 1929, quando o governo Herbert Hoover assistiu de braços cruzados à erosão do sistema financeiro. Dinheiro público seria usado só depois, para pagar as frentes de trabalho num país em que 25% da população ficou desempregada.
Um dos efeitos da tulipamania foi a sofisticação do sistema financeiro e a criação de mecanismos como o mercado de opções. Colistete acredita que a atual crise também trará mudanças: “Haverá uma pressão por mais transparência”, diz, já que houve uma oferta exacerbada de crédito ao setor imobiliário e os riscos não foram perceptíveis no início.
Sobre a crise atual, o professor não se arrisca, mas parece crer no presidente do Federal Reserve: “Ele está usando o conhecimento acumulado pelos estudos”, brinca Colistete. Enquanto acadêmico, Ben Bernanke foi um especialista em Grande Depressão.

“Folha de S. Paulo dinheiro”

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Por que Socialismo?[N1]

Albert Einstein

Primeira Edição: Monthly Review, nº 1, maio 1949.
Origem da presente Transcrição: Monthly Review.
Tradução: Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves para o Marxists Internet Archive, Janeiro 2007.
HTML de: Fernando A. S. Araújo .
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

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É aconselhável que alguém que não é um especialista em assuntos econômicos e sociais expresse suas opiniões acerca do tema do socialismo? Creio, por uma quantidade de razões, que sim.

Consideramos primeiramente a questão desde o ponto de vista do conhecimento científico. Poderia parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos tentam descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenômenos com o objetivo de fazer a interconexão destes fenômenos tão claro quanto for possível. Mas na realidade tais diferenças existem. O descobrimento de leis gerais em economia se complica pela circunstância de que os fenômenos econômicos observados são freqüentemente influenciados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência que se acumulou desde o princípio do chamado período civilizado da história humana tem sido — como é sabido — grandemente influenciada e limitada por causas cuja natureza não são de nenhum modo exclusivamente econômicas. Por exemplo, a maior parte dos Estados na história devem sua existência à conquista. Os povos conquistadores se estabeleceram, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Atribuíram-se o monopólio da posse da terra e designaram para o sacerdócio alguém de suas fileiras. Os sacerdotes, com o controle da educação, fizeram da divisão de classes da sociedade uma instituição permanente e criaram um sistema de valores mediante o qual dali em diante o povo foi, em grande medida inconscientemente, guiado em sua conduta social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em nenhuma parte temos realmente superado o que Thorstein Veblen chamou de “a fase depredadora” do desenvolvimento humano. Os feitos econômicos observáveis pertencem a esta fase e suas leis não são aplicáveis a outras fases. [Primeiro] Dado que o propósito real do socialismo é superar e avançar além da fase depredadora do desenvolvimento humano, a ciência econômica em seu estado atual não pode deixar muita luz sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo está dirigido para um fim social-ético. A ciência, sem embargo, não pode criar fins nem, ao menos, induzí-los nos seres humanos. Mas os fins em si mesmos são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos — estes propósitos não são rígidos senão vitais e vigorosos — são adotados e levados adiante por aqueles muitos seres humanos que — quase inconscientemente — determinam a lenta evolução da sociedade.

Por estas razões, deveríamos estar atentos a não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos, e não deveríamos assumir que os especialistas são os únicos que têm direito e expressar-se sobre as questões da organização da sociedade.

Inumeráveis vozes têm afirmado desde já algum tempo que a sociedade humana está passando por uma crise, que sua estabilidade está gravemente prejudicada. É característico desta situação que alguns indivíduos se sintam indiferentes, ou integrados, ou hostis ao grupo que pertencem, seja ele grande ou pequeno. Para ilustrar este ponto, deixem-me registrar aqui uma experiência pessoal. Recentemente discuti com um homem inteligente e bem disposto a ameaça de outra guerra, a que em minha opinião colocaria seriamente em perigo a existência da humanidade, e comentei que somente uma organização supranacional poderia proteger-nos daquele perigo. Depois, o homem, calmamente e friamente, me disse: “Por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Estou seguro que apenas um século atrás ninguém teria afirmado tão levianamente algo semelhante. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar um equilíbrio interior e basicamente perdeu a esperança de alcançá-lo. É a expressão de uma solidão e isolamento de que muita gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Tem uma saída?

É fácil fazer estas perguntas, mas é difícil respondê-las com alguma segurança. Devo tratar, contudo, da melhor maneira que se pode, mesmo eu sendo consciente da ação de nossos sentimentos e esforços que podem ser contraditórios e obscuros e que não podem ser expressados em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, busca proteger sua própria existência e aqueles que são mais próximos, para satisfazer seus desejos pessoais e desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e o afeto de seus semelhantes para compartilhar o seu prazer, confortá-los com sua solidariedade e melhorar suas condições de vida. Só a existência destes esforços, freqüentemente em conflito, podem dar conta do caráter especial do homem, e sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar o equilíbrio interior e contribuir para o bem estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destes dois impulsos diversos esteja, basicamente, fixada pela herança. Mas a personalidade que finalmente emerge está em grande medida formada pelo entorno em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição desta sociedade, e por sua valoração de diversos tipos de condutas. O conceito abstrato “sociedade” significa para o indivíduo a soma de suas relações, diretas e indiretas, desde os seus contemporâneos até as gerações anteriores. O individuo é capaz de pensar, sentir, atuar, e trabalhar por si mesmo, mas sua dependência da sociedade é tanta — em sua existência emocional e intelectual — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora do marco da sociedade. É a “sociedade” quem lhe proporciona comida, roupas, ferramentas de trabalho, linguagem, as formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; sua vida se faz possível graças ao trabalho e às conquistas dos muitos milhões, contemporâneos e antepassados, que estão escondidos detrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente então que a dependência do indivíduo pela sociedade é um feito natural que não pode ser abolido — exatamente como no caso das formigas e das abelhas. Sem dúvida, enquanto todas as ações das formigas e das abelhas estão fixadas até o menor detalhe por instintos rígidos e hereditários, os capatazes sociais e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e suscetíveis à mudança. A memória, a capacidade de realizar novas combinações, o dom da comunicação oral têm feito possíveis desenvolvimentos nos seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos se manifestam nas tradições, nas instituições e nas organizações; na literatura; nos avanços científicos e nos engenhos; nas obras de arte. Isto explica como ocorre que, em certo sentido, o homem possa influir sobre sua vida através de sua própria conduta e que neste processo o pensamento e os desejos conscientes são muito importantes.

O homem adquire ao nascer, por meio de herança, uma continuação biológica que é fixa e inalterável, que inclui os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Ademais, adquire durante sua vida uma constituição cultural que adota da sociedade por meio da comunicação e através de muitas outras formas. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita às mudanças e que determina em grande medida a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, usando o estudo das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode apresentar grandes diferenças, dependendo dos padrões culturais prevalecentes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que podem fundar suas esperanças aqueles que se esforçam em melhorar as condições dos homens: os seres humanos não estão condenados, por sua constituição biológica, a aniquilarem-se uns aos outros, ou à mercê de um destino cruel e de castigos.

Se nos perguntamos como deveriam ser transformadas a estrutura da sociedade e a atitude do homem para fazer a vida tão satisfatória como possível, deveríamos estar conscientes de que somos incapazes de modificar certas condições. Como foi mencionado antes, a natureza biológica do homem não está, a todos efeitos práticos, sujeita à mudanças. Ademais, as condições criadas pelos desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos chegaram para ficar. Nos locais com população relativamente densa, com os produtos que são necessários para sua existência, uma profunda divisão do trabalho e um aparato altamente centralizado são absolutamente necessários. Os tempos – que em perspectivas parecem tão idílicos – em que homens ou grupos pequenos podiam ser completamente auto-suficientes se foram para sempre. É apenas um leve exagero dizer que a humanidade já constitui uma comunidade planetária de produção e consumo.

É alcançado agora o ponto aonde posso indicar brevemente o que para mim constitui a essência da crise de nosso tempo. Está relacionado com o individuo e sua relação com a sociedade. O indivíduo está mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade. Mas não sente esta dependência como um traço positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas uma ameaça a seus direitos naturais, ou a sua existência econômica. Por outro lado, sua posição na sociedade é tal que os impulsos egocêntricos de sua constituição são constantemente acentuados, enquanto que seus impulsos sociais, naturalmente mais débeis, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, em qualquer posição da sociedade, sofrem este deterioramento progressivo. Involuntários prisioneiros de seu próprio egocentrismo se sentem inseguros e privados do mais inocente e simples desfrute da vida. O homem só pode encontrar o sentido da vida, curta e perigosa como é, consagrando a sociedade.

A anarquia econômica da sociedade capitalista de hoje em dia é, em minha opinião, a verdadeira fonte dos males. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente em privar o outro dos frutos de seu trabalho coletivo — não pela força mas cumprindo inteiramente as regras legalmente estabelecidas. A este respeito é importante dar-se conta de que os meios de produção — isto é: toda a capacidade produtiva necessária para produzir bens de consumo assim como bens de capital adicionais — podem ser — e em sua maioria o são efetivamente — a propriedade privada de alguns indivíduos.

Para simplificar, na discussão que se segue chamarei “trabalhadores” os que participam na propriedade dos meios de produção, apesar de isto não corresponder ao uso corrente do termo. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que transformam-se em propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Em quanto o contrato do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe está determinado não pelo valor real dos bens que produz mas por suas necessidades mais básicas e pela necessidade de força de trabalho por parte dos capitalistas em relação ao número de trabalhadores competindo por empregos. É importante entender que nem sequer na teoria o salário do trabalhador é determinado pelo valor do que produz.

O capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades maiores de produção em detrimento das menores. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos grupos não privilegiados da população. Por outra parte, nas condições atuais os capitalistas privados controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa escrita, rádio, educação). É então extremamente difícil, e por certo impossível na maioria dos casos, que cada cidadão possa chegar às conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.

A situação prevalecente em uma sociedade baseada na propriedade privada do capital está então caracterizada por dois princípios mestres: primeiro, os meios de produção são propriedade de indivíduos, e estes dispõem deles como melhor lhes parecer; segundo, o contrato de trabalho é livre. Supostamente, não existe sociedade capitalista pura, neste sentido. Em particular, deve-se assinalar que os trabalhadores, por meio de grandes e amargas lutas políticas, tem conseguido uma forma um tanto melhorada do “livre contrato de trabalho” para certas categorias de trabalhadores. Mas, tomada como um todo, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.

Esta mutilação dos indivíduos é o que considero o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educativo como um todo sofre este mal. Uma atitude exageradamente competitiva se inculca no estudante, que é treinado para adorar o êxito da aquisição como uma preparação para sua futura carreira.

Estou convencido de que há somente uma forma de eliminar estes graves malefícios: através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal economia, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e utilizados de maneira planejada. Uma economia planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do poder e do êxito em nossa sociedade atual.

Sem embargo, é preciso recordar que uma economia planificada não é todavia o socialismo. Uma economia planificada como tal pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: “como é possível, considerando a muito abarcadora centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo poderosa e arrogante? Como podem proteger os direitos do indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”

Ter claras as metas e problemas do socialismo é de grande importância nesta época de transição. Dado que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e sem travas destes problemas são um grande tabú, considero a fundação desta revista [N2] um importante serviço público.

Notas:

[N1] Este texto, originalmente intitulado “Why Socialism?”, foi escrito por Einstein para o primeiro número (1949) da revista marxista estadunidense Monthly Review. O texto, em sua versão na língua inglesa, pode ser consultado pelo http://www.monthlyreview.org/598einst.htm. Também há uma versão em espanhol disponível em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=24924. (Nota do Tradutor) (retornar ao texto)

[N2] A revista marxista estadunidense “Monthly Review”. (retornar ao texto)

“marxists”

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O fundo político da atual crise econômica

A esquerda costuma centrar-se nas pessoas que caíram devido aos cracks econômicos, os pobres e os sem teto, assim como nas minorias étnicas e raciais. Mas o problema mais grave está no próprio núcleo da economia. Quando se chega a um ponto em que você só pode atuar sobre pessoas que caíram por causa dos cracks econômicos, o jogo, a longo prazo, está perdido. A análise é do economista Michael Hudson.

Mike Whitney - Sin Permiso

Mike Whitney entrevistou o economista Michael Hudson sobre a crise econômica nos EUA. Profundo cientificamente, político de princípio ao fim e, como sempre, rápido e original em sua forma de argumentar, o respeitado especialista em mercados financeiros e política fiscal oferece uma análise político-econômica tão clara quanto instrutiva sobre as causas de fundo da atual crise econômica.

Mike Whitney: Antes de John Kennedy tomar posse, aqueles que tinham renda superior aos 200.000 dólares estavam, em termos tributários, submetidos a altos impostos. As corporações empresariais também pagavam uma porcentagem muito maior do que hoje da carga tributária total. As taxas fiscais muito mais altas que pesavam sobre os ricos jamais prejudicaram o PIB, que se manteve, ano após ano, com um crescimento acima de 4%, e as classes médias floresceram de um modo que não tinha precedentes na história universal. Por que não voltamos às políticas “redistributivas” que tão bem funcionaram no passado? Você acredita que a “tributação progressiva” é crucial para manter a democracia e estabelecer uma igualdade maior entre as pessoas?

Michael Hudson: Eu acho que sua pergunta contempla o problema fiscal de uma forma estreita demais. O que está em questão não é simplesmente a dimensão da taxa sobre os rendimentos tributáveis, que agora mesmo não são mais do que, sobretudo, os de origem salarial, seguidos por aqueles que são provenientes dos lucros. Os economistas clássicos focaram, primeiro, e acima de tudo, a questão de determinar o que deveria ser objeto de cargas tributárias. Desde os fisiocratas, passando por Adam Smith e John Stuart Mill, até os socialistas, como Ferdinand Lasalle e os reformadores da Era Progressista norte-americana, todos concluíram que a fonte fiscal principal tinha que vir da “renda não ganha” (unearned income), definida como rendimento da terra, renda monopólica, outras formas de renda econômica (lucros obtidos sem desempenhar o necessário papel na produção) e os rendimentos de capital obtidos a partir desses ativos geradores de renda, principalmente terras.

Tal como estão as coisas agora, você poderia elevar as taxas fiscais sobre a renda para 100%, e continuaria sem sequer tocar o fluxo de dinheiro procedente dos rendimentos dos bens imobiliários, dos monopólios e das transnacionais, que se servem, todos, do mecanismo de transferência de preços para manipular suas declarações de renda e de gastos, com a finalidade de demostrar que não têm nenhum tipo de rendimento tributável. De modo que a primeira questão que deveria nos ocupar é a de que tipo de renda deve ser tributada. Possuir uma propriedade rentista sobre um bem imóvel é como possuir um poço de petróleo na época da depletion allowance (1). Além de contar o juro como um gasto que se pode deduzir (e não como uma escolha financeira), os proprietários alegam que seus edifícios estão se deteriorando, apesar do fato de que os preços da propriedade praticamente não deixaram de crescer.

Ou seja, na maioria dos anos, não se declara renda tributável alguma. Os proprietários de bens imóveis nem sequer precisam pagar um imposto pelos ganhos de capital (aquilo que Mill chamou de “aumento não ganho”, que ocorre quando se usam os recursos gerados pelas vendas para comprar ativos posteriores). E isso é, justamente, o que faz a grande maioria dos possuidores de riqueza. Fazem comércio e acumulam, livres de impostos. A situação é muito parecida à das companhias que ficam sob controle dos profissionais do assalto financeiro das corporações empresariais. Pagar juros aos donos de “moedas podres” (títulos de baixo valor) absorve o que antes eram rendimentos tributáveis, pagos como dividendos. Isto é o que realmente está corroendo o sistema fiscal norte-americano e desindustrializando nossa economia.

Quando Kennedy chegou à presidência, uma das primeiras coisas que fez foi aprovar uma lei de crédito fiscal ao investimento (a Tax Investment Credit). Isso deu às companhias industriais um crédito para fazer investimentos tangíveis de capital. Os bens imóveis também subiram nesse carro, mas a idéia era usar o sistema fiscal para incentivar o investimento e o emprego, com a finalidade de manter os EUA no caminho da industrialização.

Vamos voltar rapidamente aos nossos dias. O sistema fiscal favorece a especulação financeira e a propriedade absentista (a propriedade que não é para uso pessoal e direto do proprietário). Pode parecer uma ironia, mas quem é realmente rico prefere não ter rendimento algum. Preferem centrar-se nos retornos totais, que chegam a eles em forma de ganho de capital. Por isso, os bilionários dos fundos hedge pagam muito menos impostos que suas secretárias. O setor dos bens imóveis é agora o maior da nossa economia –o grosso do seu valor de mercado provém do valor da localização—, não a indústria ou outros meios de produção. Dadas as brechas fiscais existentes, eu preferiria não tributar os lucros empresariais, ou, inclusive, não tributar nenhum tipo de rendimento, se o governo pudesse transformar em fonte de recursos fiscais o atual vale tudo da renda econômica. Assim, a discussão sobre o que deve ser tributado precisa ser prévia à discussão sobre o nível de pressão fiscal que é necessário exercer sobre o parco rendimento proveniente do setor FIRE (finanças, seguros e bens imóveis, por suas iniciais em inglês; N. do T.) que os ricos estão obrigados a declarar.

Talvez a melhor forma de categorizar o assunto seja convocar essa discussão ou debate da reindustrialização. Resta dizer que quanto mais regressivo for o sistema fiscal, maiores serão a pobreza e a desigualdade. E, como disse Aristóteles, a democracia é a etapa política que precede imediatamente a oligarquia. Nessa direção está evoluindo agora a economia.

MW: Por que os Democratas têm tanta apreensão em fiscalizar aqueles que mais se beneficiaram com o nosso sistema? Você vê algum sinal de que os liberais de esquerda estejam se somando à luta contra os ideólogos de extrema direita que vêm dominando o debate econômico nos últimos 30 anos?

MH: A explicação mais rápida para o fato dos Democratas não terem tributado a riqueza está no poder dos lobistas, mercenários de interesses particulares, e no poder dos think tanks, contratados por eles para promover uma teoria econômica lixo. A maior parte da riqueza é obtida, hoje, por meio de privilégios fiscais especiais, e o setor financeiro é o maior contribuinte das campanhas políticas, seguido pelo setor dos bens imobiliários. Os Democratas têm suas bases, tradicionalmente, nas grandes cidades. E, como disse Thorstein Veblen, em Absentee Ownership, a política urbana é, substancialmente, um projeto de promoção dos bens imobiliários.

Um século atrás, a questão fiscal estava no primeiro plano da política norte-americana. Os reformadores lutaram vigorosamente a favor de uma legislação fiscal que tributasse os rendimentos: exatamente o oposto da tentativa atual de aboli-la. A razão era que o primeiro imposto sobre a renda recaía principalmente sobre os ricos, e especialmente, sobre os bens imobiliários, a mineração e os monopólios, que eram, na época, exatamente como agora, as fontes principais de riqueza.

O problema de fundo é que não há uma filosofia econômica capaz de esclarecer o modo pelo qual funciona a economia como um sistema de conjunto. Sem distinguir que tipo de investimento e que tipo de atividades queremos, é bastante difícil definir uma política fiscal. A idéia de uma taxa fiscal plana, por exemplo, parte do pressuposto de que todos os rendimentos são igualmente valiosos, com a cautela de que essa taxa evita incluir a fiscalização da propriedade e dos fluxos de dinheiro do setor FIRE, que os lobistas deram um jeito para que, frente a agência fiscal norte-americana, apareça como despesas e deduções. Ou seja, que essa idéia não só não é axiologicamente neutra e livre de valores, senão que é explicitamente hostil ao mundo do trabalho. E você pode vê-la aplicada hoje em sua forma mais pura nos países da antiga União Soviética, como os Estados bálticos.

Eu não vejo o Congresso discutindo a questão fiscal, exceto quando são apresentadas propostas de cortes fiscais por parte dos inimigos da intervenção estatal. E não vejo, também, que seja possível iniciar uma discussão realista enquanto não for definido o significado preciso de uma contribuição tributária progressiva. É necessário começar definindo alguns tipos de rendimentos e investimentos que são mais produtivos do que outros. Isso terminaria com os subsídios fiscais à rolagem de dívida e à especulação financeira.

MW: Como Obama deveria abordar o assunto do “alívio da dívida” para as vítimas do boom imobiliário que estão, agora mesmo, perdendo suas moradias? Os afro-americanos estão sendo especialmente golpeados pelo fracasso das hipotecas podres. Existe alguma forma de minimizar as perdas das pessoas que foram apanhadas nessa fraude bancária?

MH: A questão das moradias hipotecadas é um problema muito antigo, ou seja, há um amplo repertório de vias para abordá-lo. Na minha opinião, a lei mais efetiva é a lei do Estado de Nova York sobre transmissão fraudulenta. Registrada quando Nova York era uma colônia, manteve-se quando Nova York passou a fazer parte dos Estados Unidos. O problema era, na época, que os gananciosos credores ingleses tentavam apropriar-se do rico território agrícola de Nova York. O estratagema consistia em emprestar dinheiro hipotecário aos granjeiros, que ofereciam suas terras como garantia para a dívida. Então, podiam executar a hipoteca, às vezes antes da chegada da colheita, ou seja quando os granjeiros careciam de liqüidez para pagar. Outros prestamistas emprestavam demais em relação às possibilidades dos contratantes de devolver o crédito quando se exigia, subitamente, que pagassem. De modo que Nova York aprovou uma lei prescrevendo que se um credor concedia um empréstimo sem ter uma idéia realista das possibilidades de devolução do devedor, a transação seria considerada fraudulenta e a dívida declarada inválida e nula de pleno direito.

Na década de 1980, muitas empresas buscaram amparo nessa lei para defender-se do assalto das grandes corporações, que usavam títulos podres como arma predileta. As empresas, na alça da mira, alegaram que seriam forçadas a reduzir drasticamente seus negócios, ou ficariam sem ativos ao ponto de terem que declarar falência. Eu pensei, então, que os países do Terceiro Mundo que tinham contratado empréstimos dos grandes bancos de Nova York podiam defender-se desta maneira, porque as únicas formas de pagar eram pedir empréstimos para cobrir o serviço da dívida ou —como acabou acontecendo— liquidando seus ativos pela via de privatizar seu setor público, com a finalidade de juntar dólares.

Hoje, os empréstimos bancários fraudulentos, como no caso da Countrywide, são acusados de fabricar hipotecas podres com aparência normal, que, exatamente por isso, deveriam ser anuladas. Mas o prefeito de Cleveland foi além. Acusou de estrago público os bancos cujos empréstimos hipotecários levaram às alienações que deixaram as moradias vazias. Moradias que estão sendo depredadas por ladrões e usadas como antros de droga. Os prestamistas de hipotecas podres deveriam responder judicialmente por isso e assumir os custos de limpeza da contaminação que as dívidas induzidas por eles geraram.

MW: Parece bastante radical.

MH: Mas é o que a própria lei manda. Justamente na semana passada, no dia 26 de junho, depois que os fiscais gerais da Califórnia, Illinois e Connecticut apresentaram cargos contra a Countrywide, o Wall Street Journal citava a opinião de um professor de direito. Segundo ele, se os estados conseguem convencer as cortes de justiça para que garantam a restituição, a coisa poderia terminar em um gigantesco problema para a Countrywide, que teria que devolver os benefícios provenientes de todos esses empréstimos e, provavelmente, devolver todas as moradias alienadas até agora. A fraude financeira é um assunto muito sério. Há muito tempo que os remédios estão nos livros.

MW: Existe uma forma menos radical de manter as pessoas em casas que se tornaram caras demais para suas rendas ou deveríamos procurar outras alternativas?

MH: A resposta depende do modo em que você defina o fato de que as casas ficaram caras demais. Se falamos do salto dos juros hipotecários e de que os pagamentos de amortizações aumentaram demais para as rendas dos proprietários dessas casas, então uma forma de manter as pessoas em suas casas é um reajuste parcial do seu empréstimo hipotecário. O secretário do Tesouro, Paulson, já deu um passo que, contudo, continua baseado no mecanismo de mercado: estimar realisticamente o valor de mercado da propriedade e reajustar a hipoteca segundo esse valor.

O problema com essa solução são as casas que se tornaram mais do que muito caras. O que poderia ser resultado do problema de encarecimento repentino da saúde, em cujo caso terão, provavelmente, que deixar a casa, porque os EUA carecem de uma cobertura de saúde pública ao estilo europeu; preferem culpar as vítimas por suas doenças ou seus percalços. Mas se o prestamista fez, conscientemente, um mau empréstimo e, depois, o comprador tem que abandonar a casa porque sua renda é insuficiente para honrar a dívida, deveria, pelo menos, receber algum tipo de compensação e, no melhor dos casos, também uma reparação jurídica completa pela fraude de que foi vítima.

MW: Há alguma alternativa viável para o “livre mercado”, ou os trabalhadores norte-americanos terão que continuar sofrendo com perdas de emprego, com quedas do nível de vida e com a “corrida para o abismo”?

MH: A razão para que o trabalho tenha perdido competitividade nos EUA não é simplesmente a corrida para o abismo. Para entender por que as exportações norte-americanas perderam a corrida dos preços nos mercados mundiais, não apenas é preciso observar os salários depois dos impostos dos trabalhadores, mas também o fato de que os empresários não estão fazendo investimentos para aumentar a produtividade, assim como o que eles deixam de receber, por parte do governo, em matéria de manutenção da infra-estrutura pública básica.

Uma das causas para que os empresários não tenham realizado investimentos suficientes para aumentar a produtividade de suas fábricas e equipamentos é que são forçados a desviar um fluxo dos seus fundos para pagar juros aos proprietários de bônus e aos bancos, além de dividendos que acalmem os acionistas ativistas, o novo eufemismo para referir-se aos especuladores financeiros.

A filosofia das corporações empresariais norte-americanas tem seguido mais pela ideologia do ato reflexo que pela do interesse próprio. A General Motors declarou que tem que pagar enormes custos com saúde, enquanto seus concorrentes, não. Com uns 60 anos de atraso, descobrem, finalmente, que a medicina socializada é mais eficiente do que a saúde privatizada em mãos dos predadores que operam no mundo das finanças e dos seguros. Os serviços públicos não se constróem com custos de taxas de juro, com dividendos, com exorbitantes remunerações dos executivos, com opções de ações e com honorários de advogados. Tudo isso absorve uma parte gigantesca do gasto das empresas com sua força de trabalho, sem, por outro lado, contribuir para elevar o nível de vida.

Além disso, formar médicos, dentistas e enfermeiras é muito mais barato fora dos EUA. Aqui, eles saem de suas faculdades universitárias com dívidas de centenas de milhares de dólares, e depois ainda precisam endividar-se mais para abrir seus consultórios, e ainda, precisam, depois, pagar caríssimos seguros de responsabilidade profissional. Quando recebem uma licença do escritório federal de sanidade (HMO, nas iniciais em inglês), o normal é que tenham que esperar um ano, mais ou menos, antes de começar a cobrar. Contudo, precisam contratar seus próprios contadores apenas para que eles se entendam com o escritório federal de sanidade. O fornecimento de médicos, dentistas e enfermeiras está racionado.

Mas, acima de tudo, o preço do trabalho reflete os altos custos da moradia aqui: principalmente o custo de ter uma hipoteca imobiliária (além da dívida não hipotecária). O trabalho não se beneficia desses custos. E tal como as coisas se desenvolveram, a indústria também não é beneficiada. É o preço que a economia dos EUA tem que pagar, em seu conjunto, por ter sucumbido a um processo de financeirização e privatização completamente disfuncional.

MW: Você já disse alguma vez que a crise financeira parece com uma “cobra que, enroscada em torno da economia, está estrangulando-a lentamente”. Poderia aprofundar um pouco mais nessa idéia?

MH: Eu estava falando da deflação por dívidas. Quando o gasto com dívida cresce exponencialmente, detrai mais e mais dinheiro do seu gasto habitual em produção e consumo. O setor financeiro aplaude isso como o milagre do juro composto. O volume do empréstimo mantém-se crescente segundo princípios puramente matemáticos, despreocupado da capacidade —ou incapacidade— da economia de gerar um excedente suficientemente grande para permitir o pagamento. Para pagar os credores, cada vez são necessários mais salários, mais e mais lucros e rendimentos fiscais. Esses credores, então, vão lá e emprestam seu fluxo proveniente do serviço da dívida para outras pessoas. O que tem como conseqüência encontrar cada vez mais mercados de risco, enquanto a dívida vai se tornando mais e mais pesada.

Para poder pagar os gastos que trazem essas dívidas, os trabalhadores assalariados cortam o consumo, enquanto as empresas, esmagadas pelas dívidas, cortam seus investimentos em capital novo, pesquisa e desenvolvimento. Os governos locais, estatais e o federal pagam, também, os juros dos seus déficits, o que os leva a recortarem os gastos em manutenção de infra-estrutura e melhoramento dos serviços públicos. Esses cortes, por sua vez, derivam em um encolhimento do mercado interno, o que leva a uma queda do investimento e do emprego. Tudo isso é aplaudido como um resultado mágico da capacidade do mercado para destinar recursos. Mas quem aplaude é o setor financeiro, não a indústria.

MW: Isso significa que o sistema vai experimentar súbitas sacudidas, como falência de um banco importante —tal vez Citigroup ou Merril— e uma grande baixa no mercado de valores?

MH: A economia chega a um estágio Ponzi (2), no qual os bancos emprestam os juros aos seus clientes, para mantê-los em dia nos pagamentos. Cada vez mais empréstimos hipotecários são reestruturados desta maneira nos últimos anos. Quando os credores deixam de fazer esses empréstimos, a cadeia de pagamentos se rompe e dispara uma onda de pedidos de falência, o que traz consigo uma queda dos mercados.

MW: O dólar está condenado. Os EUA vão conseguir reduzir ambos os déficits (fiscal e comercial) e continuar atraindo capital estrangeiro no futuro? E caso venha uma recessão de verdade, os negócios diminuem e aumenta o desemprego, isso fortaleceria o dólar?

MH: Suponho que com isso do “dólar condenado” o que você quer dizer é que o dólar continuaria caindo com respeito às moedas estrangeiras, enquanto a inflação “engoliria” tudo o que os salários possam comprar. A idéia de que uma economia que vai mal pode curar-se por si mesma faz parte da ideologia hostil ao trabalho do FMI e da propaganda da Escola de Chicago. Para afirmar esse tipo de coisas são concedidos os Prêmios Nobel, garanto a você. Mas é teoria econômica-lixo. Um dólar com tendência a cair é um processo auto-alimentado. Para principiantes: as ações, os bônus e os bens imobiliários cotados em dólares valem menos em termos de euros, libras esterlinas ou outras moedas estrangeiras fortes. Isso faz com que não existam muitos incentivos para que os estrangeiros invistam aqui. E se entrarmos em uma recessão (para não falar em depressão), haverá ainda menos oportunidades para investir com lucros.

Paralelamente, a dependência norte-americana das importações continuará crescendo na medida em que a economia continue se desindustrializando, ou seja, se financeirizando. O gasto militar norte-americano no exterior vai lançar ainda mais dólares nos mercados de câmbio do mundo. De maneira que uma economia enfraquecida aqui não significa que o dólar ficará mais forte; significa, sim, que temos um mau clima para os investimentos! A austeridade vai nos tornar mais dependentes do exterior. Para que você tenha uma idéia, basta observar o que aconteceu quando o FMI impôs planos de austeridade aos países devedores do Terceiro Mundo. E lembre-se que da última vez, quando, com Clinton, foi dada liberdade a Robert Rubin para que reformasse a Rússia, o resultado foi o colapso industrial e a falência.

MW: Não séria melhor para o mundo se não houvesse nenhuma “moeda de reserva” e o valor do dinheiro dependesse simplesmente da fortaleza econômica e do equilíbrio orçamentário? Enquanto existir uma “moeda internacional”, como o dólar, haverá um Império, porque o papel moeda de um país (os EUA) domina sobre o resto. É realmente possível a democracia sem uma paridade maior entre as moedas do mundo?

MH: A taxas de câmbio são independentes dos sistemas políticos. Dito isto, as economias oligárquicas tendem a falir devido à sua tendência de deslocar as cargas fiscais dos bens de raiz e da infra-estrutura monopolizada e privatizada para o trabalho e a indústria. Isso reduz sua competitividade. Por exemplo, o complexo militar-industrial opera sobre uma base de magnificação de custos, não sobre uma base que os minimize. A questão é, então, se eles podem conseguir, pela via da extorsão de outros países, suficientes tributos estrangeiros para compensar. A Espanha não conseguiu isso do Novo Mundo depois de 1492, e Roma, antes, simplesmente destruiu a Ásia Menor e outras dependências imperiais.

Os EUA dos nossos dias poderiam ter mais sucesso? Parece que a manutenção da hegemonia do dólar é a única via possível para consegui-lo. Por definição, uma moeda de reserva é um empréstimo concedido por um governo a outro. Isso termina transformando-se sempre em carga fiscal sem controle de representantes políticos. É inerentemente não eqüitativo.

Há duas razões pelas quais os bancos centrais mantêm reservas em dólares. Uma é para efeitos de estabilização, para prevenir ataques monetários como os ocorridos na Ásia em 1997. A outra é que manter reservas de dólares em forma de empréstimos em dólares aos EUA mantém baixo o preço das suas próprias moedas e, assim, o valor das suas exportações. Esse efeito também poderia ser conseguido impondo uma tarifa flutuante às importações procedentes de países cujas moedas estejam em processo de desvalorização, fornecendo esse dinheiro, como subsídio, aos exportadores. Mas os países estrangeiros ainda não estão preparados para dar um passo político dessa envergadura, que os afastaria do império financeiro norte-americano.

No que diz respeito à política fiscal, não há realmente necessidade de equilíbrio orçamentário. Começando pelos “Greenbacks” dos tempos da Guerra Civil, os EUA demostraram que os governos não precisam aumentar os impostos para gastar dinheiro. Podem limitar-se a imprimi-lo. É o que, afinal de contas, faz a banca comercial. Em qualquer caso, o dinheiro é criado espontaneamente. O Tesouro da Reserva Federal, apenas em abril passado, criou um bilhão de dólares para um crédito de salvamento do setor financeiro. Entre parêntesis, ao mesmo tempo que declarava hipocritamente que a Seguridade Social iria falir em 40 anos por causa do seu trilhão de dólares de déficit. O Iraque acrescentou outro trilhão, mais ou menos.

A lição que se pode tirar disso é que a fortaleza econômica consiste na capacidade de criar crédito que alimente o crescimento econômico. Mas o setor bancário privatizado está, neste mesmo momento, destruindo essa fortaleza nos EUA. Em vez de criar crédito para financiar a formação de capital, o que faz o sistema bancário são empréstimos destinados a salvar a nefasta piramidalização financeira.

MW: Você acha que o crescimento do setor financeiro é um desenvolvimento positivo, ou não?

MH: O comportamento desse setor acabou sendo uma antítese do desenvolvimento industrial do capitalismo. Os reformadores do século XIX, inspirados por Henri St. Sino na França, tentaram reorganizar as finanças, passando do financiamento da dívida para o financiamento por meio da emissão de ações. Mas a economia atual vai exatamente na direção contrária. O que faz é substituir as ações por bônus e empréstimos bancários (ou de fundos de compra), criando dívida que não é usada para construir a capacidade produtiva necessária para devolver essa dívida com seus juros. O resultado é aquilo que os economistas clássicos chamavam de “dívida improdutiva”.

O setor financeiro parece menos inclinado a emprestar para desenvolver produtos úteis e empresas. Prefere reempacotar a dívida de outros (como nas obrigações respaldas por hipotecas) e vendê-las à investidores crédulos. Os bancos de investimento são responsáveis pela massiva proliferação do crédito e da dívida que agora estão destruindo a classe média e arruinando o país?

É o que está acontecendo. Mas uma causa importante de que a poupança vá parar nesses bancos é que as leis tributárias tornam mais rentável esse endividamento do que o investimento em capital industrial. O sistema tributário formou um mercado em que compensa mais especular do que investir na formação de novos meios de produção. O setor financeiro foi desregulamentado, segundo a lógica de que o que gera mais dinheiro é sempre o mais eficiente. O produto que estão vendendo os bancos é dívida, e ajuda a tomar o controle de empresas, ajuda as fusões e aquisições. O crédito é um produto cuja criação sai praticamente de graça. Seu principal custo de produção são os gastos dos lobbies para comprar apoios no Congresso.

MW: Vamos voltar, então, para a política. O que você sabe dos assessores econômicos de Obama? Temos que esperar uma repetição da “Rubinomics” (3) de Clinton, quando Wall Street obteve quase tudo o que pediu, enquanto os trabalhadores norte-americanos recebiam o NAFTA, a desregulamentação monetária, a rejeição da lei Glass Steagall e outras políticas de arrocho? Há alguma esperança de que Obama empreenda um novo curso e vá em uma direção progressista? Que políticas deveria promover Obama para reviver o sonho americano e dar um novo alento à maltratada classe média?

MH: Não estou em situação de dizer o que fará o senhor Obama. No que se refere a assessores econômicos, seu papel em uma campanha política não costuma ser tanto o de definir as políticas, mas o de mobilizar seu pessoal para sustentar economicamente o candidato. O papel do senhor Rubin e seus colegas, pelo menos agora, é, portanto, o de atrair o apoio de Wall Street. Que influência acabarão tendo esses assessores depois do próximo janeiro, ainda está por ver. Vai depender, provavelmente, das circunstâncias.

Uma coisa que se pode esperar é que o senhor Obama vá por um despenhadeiro como o novo trabalhismo de Tony Blair e volte aos rumos da política clintoniana, favorável a Wall Street e hostil ao mundo do trabalho. Se isso ocorresse, poderia causar tal decepção, que a unidade do partido democrata poderia quebrar-se de maneira irreparável.

Eu espero que ocorra o contrário, e faço o que está em minhas mãos para consegui-lo. Mas no que diz respeito a políticos, eu só posso responder pelo meu amigo Dennis Kucinich. Ele me pediu para organizar um conselho de cérebros de cunho rooseveltiano, com assessores econômicos e políticos que desenvolvessem um programa para reindustrializar os EUA e salvar o país de perecer em um processo de polarização que desde do século XVI é conhecido como “Síndrome Espanhola” e que antes era conhecido como “Síndrome de Roma”: uma economia em que os magnatas ricos libertam a si próprios de toda carga tributária, a qual passam para o trabalho e a indústria, e retiram-se para seus latifúndios, enquanto a economia sofre um retrocesso para níveis de mera produção local de subsistência.

Tudo isso já aconteceu, uma e outra vez. Não há nenhuma garantia automática de progresso. É preciso dirigi-lo e orientá-lo. Agora mesmo, o único partido que dirige e orienta é o composto pelas grandes instituições financeiras, que trabalham a favor dos interesses de seus ricos clientes. Dificilmente alguém se surpreenderá de que sua atitude seja hostil ao mundo do trabalho.

Eu acredito que as circunstâncias vão empurrar o senhor Obama a fazer um giro de retorno às políticas fiscais e econômicas mais classicamente progressistas. E neste momento não vejo um candidato que esteja em melhor posição para obrigar o Congresso a acompanhá-lo em suas reformas. Pode sair e apoiar candidatos que se oponham aos congressistas e aos senadores democratas mais recalcitrantes.

MW: No programa “60 minutos” da rede CBS, Alan Greenspan admitiu que apoiou a invasão do Iraque. Não é surpreendente, dada a dificuldade de imaginar que uma nação possa entrar em uma guerra sem o apoio dos manda-chuvas bancários. Que importância têm agora as grandes instituições financeiras e as megacorporações empresariais na determinação da política exterior? É algo endêmico do nosso sistema econômico —ou das nossas instituições financeiras— o que nos empurra para a guerra uma e outra vez?

MH: Não acho que a invasão do Iraque tenha sido resultado de uma decisão do setor financeiro. No que diz respeito ao senhor Greenspan, ele é um especialista em relações públicas, não um estrategista global. Eu acho que o que os bancos fazem é manobrar o melhor possível dentro de qualquer sistema político dado. Mas, como setor, raramente apóiam guerras.

Quando eu trabalhava no Chase Manhattan, em meados dos anos 1960, Wall Street não pressionava a favor da guerra do Vietnã. O presidente do conselho de administração do banco, George Champion, deixou claro que a guerra era fiscalmente irresponsável. Desencadeou uma inflação que levou a um declínio continuado do mercado de bônus durante 35 anos.

Imagine. Trinta e cinco anos, de 1945 a 1980, de aumentos das taxas de juro, que empurravam para baixo os preços dos bônus. Os bônus sempre têm sido a chave, mais do que as ações. O aumento dos tipos de juros significa que o preço dos bônus existentes, de baixas taxas, caem continuamente. E esse foi o resultado do déficit na balança de pagamentos induzido pela guerra e a política de canhões e manteiga do presidente Johnson, estimulada pela teoria econômica-lixo de falsos keynesianos, como Gardner Ackley, o presidente do conselho de assessores econômicos de Johnson.

A moral da história é que você não pode, realmente, ficar agarrado ao império —e às guerras que vão com ele—, e ao mesmo tempo ter uma economia pujante em expansão.

Uma coisa ou a outra, como estamos vendo agora. O que é mais notável é que as pessoas não relacionam a vontade norte-americana de criar um império unipolar com a crescente polarização econômica e o vertiginoso enfraquecimento financeiro a que estamos assistindo. A indústria, por sua vez, está perdendo o pulso com as finanças, e tenta, simplesmente, fazer dinheiro pela via de financeirizar-se ela também.

MW: Paul Harris escreveu um formidável artigo no ano passado no Guardian britânico, “Bem-vindos a Richistão, EUA”, no qual descrevia as gigantescas diferenças de riqueza na América do Norte dos nossos dias. Dizia:

“Os arqui-ricos norte-americanos voltaram aos tempos dos “alegres anos 20″. Enquanto o resto do país luta por seguir adiante, uma enorme bolha de multimilionários vive em um mundo quase paralelo. Os ricos vivem agora em seu próprio mundo de educação privada, saúde privada e mansões amuralhadas. Têm suas próprias escolas e seus próprios bancos. Inclusive viajam separados, o que gera uma pujante indústria de aeronaves e iates privados. Seu mundo tem agora um nome, graças a um novo livro escrito pelo colunista do Wall Street Journal, Robert Frank, que o batizou como ‘Richistão’.”

“Em 1985, havia nos EUA apenas 13 bilionários. Agora há mais de 1.000. Em 2005, somaram-se 227.000 novos milionários. Um relatório mostrou que a riqueza de todos os milionários norte-americanos juntos chegava a 30 trilhões de dólares, mais do que a soma do PIB da China, Japão, Brasil e a União Européia. Os ricos criaram agora sua própria economia para satisfazer suas necessidades, em uma época em que os aumentos de salário do trabalhador médio só consegue acompanhar a inflação e em que 36 milhões de seres humanos vivem, nos EUA, abaixo da linha de pobreza.”

Bem, a minha pergunta é a seguinte: a classe média está sendo afetada como nunca antes, enquanto que o vão que separa ricos e pobres fica cada dia mais largo. Você pensa que estamos nos aproximando de uma fase crítica nesse abismo de desigualdade, ou estou sendo alarmista?

MH: Para que ocorra uma crise, são necessárias pelo menos duas forças ou tendências ferozmente opostas. O problema mais grave do presente dilema norte-americano é que não parece haver nenhuma força que se oponha à polarização financeira. Sem uma contraforça, sem uma oposição à contra-ilustração financeira que estamos assistindo, o horizonte econômico vai continuar encolhendo.

Estamos entrando, com efeito, em uma sociedade de duas economias. O (candidato democrata) John Edwards trouxe à tona o assunto com quase as mesmas palavras que o primeiro ministro britânico Benjamin Disraeli popularizou no final do século XIX. Disraeli criou o Partido Conservador Britânico em sua versão moderna pela via de recrutar o grupo de conservadores que ficou conhecido como a Jovem Inglaterra. Clamavam, em grande medida como os socialistas, contra a injustiça da economia de mercado na forma brutal que ela havia adotado na Grã Bretanha. Seu sonho era tornar a industrialização compatível com uma moralidade mais sensível socialmente. O grande adversário ideológico de Disraeli não foi o socialismo, mas o ideário liberal do livre mercado, que instava as nações a competirem entre si pela via de reduzir os salários (o que agora se conhece como a corrida para o abismo). Sua legislação assistencialista culminou no sistema de saúde introduzido entre 1874 e 1881, promovido com o lema: sanitas sanitatum (saúde, tudo é saúde). Compare ele com os conservadores dos nossos dias!

Em 1845, três anos antes do Manifesto Comunista e da revolução que caiu sobre a Europa em 1848, abordou os horrores de um laissez faire sem freio em um romance, Sybil, ou As Duas Nações. O subtítulo fazia referência aos ricos e aos pobres, duas nações entre as quais não há o menor ensejo de trato nem simpatia, duas nações que não são governadas pelas mesmas leis. Apesar de que Disraeli colocava suas esperanças em uma aristocracia moralmente regenerada, não deixou de atribuir os mais elevados ideais a Sybil, a filha de um operário fabril. E quando o protagonista do romance, Egremont, pergunta pelas condições de vida nas cidades britânicas, um jovem estrangeiro, modestamente vestido de preto, explica que, apesar de que “‘os homens são usados uns junto dos outros, nem por isso deixam de continuar estando em situação de virtual isolamento… nas grandes cidades os homens se reúnem movidos pelo desejo de ganhar a vida. Não estão em um estado de cooperação, mas de isolamento, para fazer fortuna… O cristianismo ensina a amar o nosso próximo como a nós mesmos; a sociedade moderna não reconhece próximo algum’. ‘Bem; vivemos em tempos estranhos… talvez a sociedade esteja em sua infância’, diz Egremont… ‘mas, diga você o que quiser, nossa Rainha reina sobre a maior nação que jamais existiu’. ‘Que nação?’, perguntou o jovem estrangeiro, ‘porque ela reina sobre duas nações…

Duas nações entre as quais não há trato nem simpatia; tão ignorante cada uma delas dos hábitos, dos pensamentos e dos sentimentos da outra, como se fossem moradores de zonas diferentes, ou habitantes de planetas diferentes, de pessoas nascidas de linhagens diversas, nutridas com alimentos diferentes, possuindo modos diferentes, e não governadas pelas mesmas leis’. ‘Você —disse, vacilante, Egremont— está falando dos ricos e dos pobres’.”

Disraeli pintou os interesses financeiros com as cores da vilania (popularizando o mito do banqueiro judeu). Seu grande adversário político, como já foi dito, não foi o socialismo, mas o ideário liberal do livre mercado, que incitava as nações a competirem pela via de baixar os salários. Mas a compaixão econômica do Partido Conservador ficava limitada pelo fato de que era o partido dos latifundiários, principalmente daqueles que na Câmara dos Lordes bloquearam a proposta liberal de fiscalizar a renda da terra, em 1909. A dicotomia não ocorre somente entre uma elite e as massas, ou entre os interesses broquelados e os pisoteados, os cultos e os esfarrapados. É algo muito mais específico.

Essas duas nações, duas cidades, são, realmente, duas economias: a economia 1 (produção e consumo) contra a economia 2 (financeira e baseada na propriedade) que controla o excedente econômico em forma de poupança e investimento. As características diferentes dessas duas economias ultrapassam em muito a mera dimensão econômica. Trago este exemplo para mostrar o que poderia chegar a dar de si um conservadorismo verdadeiramente compassivo. Poderia, quem sabe, constituir um bom marco para que o presidente Obama apresentasse suas políticas de maneira tal que conseguisse atrair o maior apoio possível dos grupos que costumam chamar-se republicanos liberais.

Boa parte da comunidade empresarial poderia subir nesse carro se Obama equilibrar bem o seu programa. De fato, foi um banqueiro britânico conservador, Geoffrey Gardiner, que me chamou a atenção sobre o romance de Disraeli. O Conto das duas cidades, de Charles Dickens, expressava a mesma idéia de cidades divididas entre os ricos ociosos e aqueles que precisavam trabalhar para viver. É difícil imaginar um político escrevendo um romance assim em nossos dias, embora o socialista Michael Harrington tenha popularizado o tema nos anos 1960 com A outra América, e o candidato à vice-presidência democrata, Edwards, fez campanha em 2004 com o tema das duas Américas.

MW: Como podemos reverter esta tendência e pressionar a favor de mudanças que robusteçam a classe média ao mesmo tempo que proporcionam uma rede de segurança para aqueles se caíram devido aos cracks econômicos? Precisamos reconsiderar a forma em que tratamos as pessoas que estão presas a um ciclo demolidor, implacável, de pobreza?

MH: A esquerda costuma centrar-se nas pessoas que caíram devido aos cracks econômicos, os pobres e os sem teto, assim como nas minorias étnicas e raciais. Mas o problema mais grave está no próprio núcleo da economia. Fracassar em sua reestruturação e no controle do setor financeiro trará a exclusão de mais e mais gente do tipo de vida que você chama de classe média.

Quando o Império Romano se polarizou, a economia e seu invólucro político ficaram sem salvação possível. Tudo o que o cristianismo foi capaz de fazer foi proporcionar caridade individualmente. Pôde atuar somente sobre os sintomas, não erradicar as causas. Quando se chega a um ponto em que você só pode atuar sobre pessoas que caíram por causa dos cracks econômicos, o jogo, a longo prazo, está perdido.

O problema é que o sistema econômico como tal está falido. Ou seja, que vamos voltar ao começo desta entrevista: o que vai ser necessário é uma alternativa para a teoria econômica pós-clássica dos Chicago Boys e seus amiguinhos, os lobistas financeiros.

NOTAS

(1) A lei da depletion allowance entrou em vigor em 1913 e permitia que os proprietários de um poço petrolífero tivessem isenção, cada ano, de um 5% do valor do petróleo extraído. A lei foi modificada em 1926, aumentando a isenção para 27,5%. Assim, um proprietário que houvesse investido 100.000 dólares para abrir um poço que extraísse anualmente petróleo por valor de um milhão de dólares, em apenas um ano conseguiria deduções fiscais que praticamente triplicariam o valor do seu investimento inicial.

(2) No léxico da economia financeira, um “esquema Ponzi” é um negócio fraudulento de investimentos consistente em atrair investimentos de dinheiro com promessas de juros muito altos no curto prazo, mas pontualmente cumpridos, o que atrai uma multidão de novos investidores —ou sucessivos reinvestimentos dos antigos—, gerando, assim, um fluxo de dinheiro que permite, durante um tempo, pagar altos juros a curto prazo com o dinheiro que vai entrando em abundância. Charles Ponzi, de quem recebe o nome este truque financeiro, foi um emigrado italiano que se tornou milionário em poucos meses na Boston dos anos 1920 do século passado organizando um negócio fraudulento fundado nesse esquema.

(3) Em alusão a Robert Rubin, o todo-poderoso secretário de economia de Clinton e homem de Wall Street e da banca privada no governo.

Michael Hudson é ex-economista de Wall Street especializado em balança de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles “Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire”.

“Carta Maior”

Comentários

O impacto da possível derrota de Obama

Se os americanos perderem a chance e escolherem McCain, estarão dando as costas ao mundo

Jonathan Freedland*

Uma América que desdenha de Barack Obama por causa do seu apoio global corre o risco de transformar o sentimento atual anti-Bush em coisa muito pior.

A sensação é familiar. Eu a senti há quatro anos e outra vez quatro anos antes daquela: uma sensação de apreensão no estômago. É um tipo de pessimismo fisiológico que diz: “Ó não, está acontecendo novamente. Os democratas estão prestes a perder uma eleição que deveriam ganhar - e não poderia ser mais importante.”

Pessoalmente, não estou tão preocupado com as chances de Obama quanto estive em relação às chances de John Kerry em 2004 e de Al Gore em 2000. Ele é um candidato melhor do que estes dois colocados juntos, e todas as evidências empíricas dizem que este é o ano mais favorável aos democratas desde 1976. Ainda assim, não consigo me livrar da sensação lúgubre.

Observemos as pesquisas de opinião de 9 de setembro, que deram a John McCain uma pequena vantagem sobre este. Levando-se em conta a já bem documentada tendência dos candidatos afro-americanos de obterem melhor resultado nas pesquisas do que nas urnas - graças a pessoas que dizem que vão votar num candidato negro, mas não o fazem -, isto sugere que Obama está agora muito atrás. Ainda mais preocupante é a pesquisa ABC News/Washington Post que descobriu uma vantagem de McCain entre as mulheres brancas, com 53% das intenções de voto contra 41% de Obama. Duas semanas atrás, Obama tinha uma vantagem de 15% entre as mulheres. Há uma única explicação para esta reviravolta, e não é o discurso sedativo de McCain na Convenção Republicana: a liderança de Obama foi esmagada pelo fator Sarah Palin.

Assim, meu pessimismo é compreensível. Mas é agora somado a uma frustração cada vez maior. Observo enquanto os democratas cambaleiam, sem saber qual a melhor maneira de atacar Sarah Palin. Se combaterem com muita força, a máquina republicana, ecoada pelos direitistas e comentaristas conservadores dos programas de rádio e tevê a cabo, vai rotular os democratas de esnobes elitistas e sexistas, tratando com condescendência uma mulher provinciana. Se nada fizerem, a ascensão de Sarah seguirá avançando sem encontrar obstáculos, tão inovadora que, perto dela, até Obama parecerá desinteressante, a energia dela de grande estrela energizando e motivando a base republicana.

MARCHA

Assim, de alguma maneira Sarah acabará escapando ao alcance, imune a qualquer revelação bombástica - não importa o quanto faça cair o queixo ou o quanto possa encerrar a carreira de outros políticos, no caso dela, não provocaria dano suficiente para retardar a aparente marcha de Sarah rumo ao poder, arrastando o nada carismático McCain atrás de si.

Sabemos que um dos primeiros atos de Sarah enquanto prefeita de Wasilla, no Alasca, foi perguntar à bibliotecária qual era o procedimento a ser adotado para a proibição de livros. Ah, mas era uma pergunta “retórica”, diz a campanha McCain-Palin. Sabemos que Sarah está mentindo quando diz que foi contra o famoso projeto de US$ 400 milhões para a construção da “Ponte para Lugar Nenhum” no Alasca - na verdade, ela fez campanha pelo projeto -, mas, mesmo assim, ela continua a repetir esta alegação. Ela denuncia a interferência de interesses especiais em Washington - mas contratou lobistas caros para garantir que o Alasca recebesse uma porção do orçamento federal maior do que qualquer outro Estado da União.

Ela diz ser uma conservadora fiscal, mas deixou Wasilla atolada em dívidas que a cidade nunca teve antes. Ela até cobrou diárias - dinheiro dos contribuintes destinado às viagens do gabinete - enquanto estava morando na própria casa.

Mas ainda assim nada disto está afetando substancialmente sua imagem. O resultado é que uma política chamada pelo autor de blogs conservadores Andrew Sullivan de “Cristianista” - alguém que tenta politizar a cristandade assim como os islamitas politizam o Islã - poderia logo estar a um passo da presidência. Lembre-se, estamos falando de uma mulher que certa vez se dirigiu a uma congregação religiosa dizendo do seu trabalho enquanto governadora - o transporte, a educação e as medidas públicas - “na verdade nada disto importa se o povo do coração do Alasca não parecer correto aos olhos de Deus”.

Se Sarah Palin desafiar o senso comum de que as eleições são determinadas pelos candidatos principais, e de alguma forma ganhar a votação para McCain, qual será a reação? Os democratas anti-Bush ficarão novamente de luto, sentindo-se alienados no próprio país. Uma geração de jovens americanos - que apóiam Obama em massa - se tornará cínica, concluindo que a política não funciona afinal. E, o mais deprimente, muitos afro-americanos decidirão que se nem Barack Obama - com todas as suas qualidades evidentes - não foi capaz de vencer, então nenhum negro jamais conseguirá se eleger presidente.

Mas e quanto ao resto do mundo? Esta é a reação que mais temo. Pois Obama provocou uma excitação em todo o mundo muito superior a qualquer outro político americano na história. As pesquisas de opinião na Alemanha, França, Grã-Bretanha e Rússia mostram que Obama venceria por maioria esmagadora, repetindo-se o mesmo padrão na África, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Se no dia 4 de novembro a eleição fosse mundial, Obama venceria com facilidade. Se o mundo livre pudesse escolher o seu líder, este seria Barack Obama.

A multidão de 200 mil pessoas que se reuniu para ouvi-lo em Berlim no mês de julho não o fez simplesmente por causa do seu carisma, mas também porque sabem que ele, assim como a maioria da população do mundo, se opôs à guerra no Iraque. McCain a apoiou, vendendo a mentira de que Saddam estava ligado ao 11 de Setembro. Os não-americanos têm a sensação de que Obama não tratará aos pontapés o sistema internacional, mas considerará as alianças e instituições globais com seriedade: McCain quer passar ao largo das Nações Unidas em prol de uma Liga das Democracias, favorável aos EUA. McCain pode ter um bom papo sobre mudança climática, mas um cântico repetido entre os freqüentadores da Convenção Republicana era “Perfure, baby, perfure!” - como se a solução para o aquecimento global não fosse uma reavaliação radical de todo o sistema energético americano, mas a construção de mais plataformas petrolíferas fora do país.

MUDANÇA

Se os americanos escolherem McCain, estarão dando as costas ao resto do mundo, optando por nos mostrar durante mais quatro anos o dedo de Bush-Cheney. E prevejo uma mudança bastante desagradável.

Até agora, o antiamericanismo foi exagerado e muito incompreendido: fora de um núcleo esquerdista, tratou-se principalmente de um sentimento anti-Bush, oposição a uma administração específica. Mas se McCain vencer em novembro, isto pode muito bem mudar. De repente os europeus e os outros cidadãos do mundo concluirão que o seu problema não é com uma claque de poderosos, mas com os próprios americanos. Pois terá sido o povo americano, e não os políticos, quem terá perdido a chance - a única em toda uma geração - de recomeçar do zero. Um recomeço pelo qual o mundo anseia.

E a maneira com que esta decisão for tomada também é importante. Se for determinado que o fator decisivo foi o racial - que Obama foi rejeitado por causa da cor de sua pele -, o veredicto do mundo será severo. Em tais circunstâncias, segundo escreveu recentemente Jacob Weisberg, da revista Slate, a opinião internacional concluiria que “os Estados Unidos tiveram o seu tempo, mas afinal não foram capazes de colocar o seu interesse próprio acima da sua louca irracionalidade a respeito das raças”.

Mesmo que não seja o preconceito étnico, mas outro aspecto da guerra cultural que se mostre decisivo, a argumentação se mantém. Se a América tomar uma decisão tão importante quanto esta - enquanto o planeta ferve e os EUA combatem em duas guerras - com base na sabedoria trivial de que uma mãe de jogador de hóquei é fácil de se gostar e parece ter os pés no chão, isto transmitiria uma falta de seriedade, uma fuga da realidade, coisa que de fato sugere uma nação, parafraseando Weisberg, em “declínio histórico”. Não podemos esquecer que o chefe de campanha de McCain repete que nesta eleição “os temas políticos não são o mais importante”.

É claro que sei que a simples menção ao apoio a Obama em todo o mundo só serve para prejudicá-lo. Por incrível que pareça, aquela imensa multidão em Berlim atrapalhou Obama em casa, dando a ele o rótulo de “candidato da Europa” e fazendo com que parecesse um americano menos patriótico. Mas o que isto diz a respeito da América de hoje? Que agora a estima mundial não é mais desejada? Se os americanos rejeitarem Obama, estarão mandando ao resto de nós a mensagem mais clara possível - e não se enganem, nós a entenderemos perfeitamente.

*Jonathan Freedland é colunista do jornal inglês ‘The Guardian’

“Estado de S. Paulo Internacional”

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