Arquivo de 1 de Novembro de 2008

Gabeira e os canibais do Jobi

São múltiplas as significações da candidatura Gabeira e da “onda verde” nas eleições municipais do Rio de Janeiro, mas a mais expressiva de todas aponta para uma parcela da classe média em permanente crise de identidade.

Gilson Caroni Filho

Para Dani Tristão, que conheceu a ferocidade dos bronzeados que pontificam na orla, e não desistiu da militância.

Em processos eleitorais há quem veja determinadas posturas e discursos como expressões de coerência e determinação, quando o mais correto seria falar em oportunismo político com base social objetiva. São múltiplas as significações da candidatura Gabeira e da “onda verde” nas eleições municipais do Rio de Janeiro, mas a mais expressiva de todas aponta para uma parcela da classe média em permanente crise de identidade.

Um estrato que se enxerga como inovador no trabalho, nas manifestações artísticas e na política, mas como nenhum outro representa a cultura da submissão ao poder e de intolerância a quem não partilha sua cultura de classe.

Esconde seu conservadorismo autoritário empunhando bandeiras que vão da liberação sexual a movimentos ecológicos e descriminalização de usuários de drogas, mas, quando confrontada com perda de privilégios, não hesita em expressar a verdadeira face ideológica: aquela que revela seu caráter histórico submisso e seu velho hábito de festejar formas de poder que recusam a cidadania, não distinguindo o público do privado.

É dessa tensa dialética entre ideal do eu e sua verdadeira subjetividade que nasce a identidade entre a classe média carioca e Fernando Gabeira. Ambos sabem que não são como se apresentam, mas não podem viver sem a auto-imagem construída por meio de omissões espertas.

Precisam repetir como mantra: ”Somos éticos, progressistas e democratas”. E se a realidade não confirmar nada disso, não haverá problema. Pois tal como na letra de Adriana Calcanhotto, “cariocas são modernos/cariocas são espertos/ cariocas são diretos/ cariocas não gostam de dias nublados”.

Se há quem diga que a passagem de Gabeira pela luta armada “teve a marca da imaginação”, não há motivos para não destacar que ela só foi pródiga no seu primeiro sucesso memorialístico: “O que é isso companheiro?”

Se a narrativa não o apresenta como figura central, as interpretações posteriores, que lhe deram um protagonismo que nunca teve, nunca foram desmentidas pelo autor. Pra quê? Mais importante que o fato é a versão.

De fato, jamais sustentou ter sido o autor do texto - manifesto que jornais, rádios e TVs foram obrigados a tornar público, mas nem pensou em desautorizar os que lhe conferiram uma autoria indevida. Isso é de conhecimento dos freqüentadores do Jobi, bar de boa qualidade do Leblon, onde entre cenas de canibalismo, a nata bronzeada da sociedade carioca celebra seu socialismo de salão. Afinal, “cariocas são atentos/ cariocas são tão claros/ cariocas não gostam de dias fechados”.

Como destaca Alfredo Sirkis, em entrevista a Mário Augusto, pesquisador da Unicamp, “foi ele que contou a história e ficou com a notoriedade, ficou como referência daquela geração com idéias que não correspondem às deles”. Nada mais justo. Uma discreta apropriação indébita não é pecado capital para “os inocentes da orla carioca”

As especulações sobre sua sexualidade não foram desmentidas por conta de uma estratégia efetiva de trazer a intolerância sexual para o debate político, mas, como revela Sirkis, por um cálculo erótico prosaico. “O que acontecia naquela época era que… estava na moda ser bissexual! Inclusive, dava prestígio entre as mulheres você dizer que era bissexual”.

Foi assim, prezado leitor, que Gabeira se tornou o primeiro heterossexual enrustido do Ocidente. Mais uma vez se comprova que “cariocas são bonitos/ cariocas são sacanas/ cariocas são dourados”… e adoram o arbítrio de uma falsa narrativa que os fazem parecer mais “modernos” do que são.

Gabeira não tem sido diferente na campanha. Usa imagens do dia em que mandou o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, calar a boca, como se tivesse vencido uma batalha que não travou. O mesmo com as cenas em que, aos trancos, entra na Sessão do Senado onde se votava a cassação de Renan Calheiros. São ações que não ultrapassaram o marco do espetáculo, mas que se encaixam bem no acordo tácito com suas bases.

Os canibais do Jobi precisam se sentir desassombrados e importantes. Sabem que Gabeira é uma construção farsesca, mas isso pouco conta. Eles, em busca de suas ilusões perdidas, também são.

Redivivo, Lacerda vê com satisfação o PV assumir, enfim, o seu destino histórico: ser a tanga de crochê que faltava à direita carioca.

Carta Maior

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Olho grande sobre o urânio brasileiro

Um poderoso lobby age em silêncio, no Congresso e junto ao Executivo, para quebrar o monopólio estatal sobre o combustível. Interesse: exportá-lo em estado primário, num momento em que os preços internacionais não param de subir e o país desenvolveu tecnologia para processá-lo

Sergio Ferolla, Paulo Metri

O Balanço Energético Nacional de 2007 nos indica que, para a geração elétrica no mundo em 2005, foram utilizadas as seguintes fontes: o carvão mineral com participação de 40,3% do total gerado, o gás natural com 19,7%, a energia hidráulica com 16,0%, a nuclear com 15,2%, os derivados de petróleo com 6,6% e outras fontes com 2,2%. Com o preço do barril de petróleo ultrapassando a barreira dos US$ 100 e, obviamente, os preços dos derivados e do gás natural acompanhando essa escalada, somado ao fato da ameaça do efeito-estufa, em decorrência da queima dos hidrocarbonetos e do carvão, a humanidade enfrenta o desafio da busca de fontes geradoras de eletricidade mais limpas e competitivas. Alguns aproveitamentos hidráulicos causam fortes impactos ambientais, que proíbem seu uso, e muitas das fontes alternativas ainda não foram suficientemente desenvolvidas, como a solar, de forma que ainda fornecem eletricidade a preço proibitivo.

As necessidades de mais curto prazo estão a impor caminhos já conhecidos e a energia nuclear desponta sempre como forte candidata. Nesse contexto, os programas nucleares existentes no mundo começam a serem revisados, inclusive impondo-se a antecipação da construção de novas usinas. Como decorrência, prevê-se um crescimento considerável do consumo de urânio, em futuro próximo, com a acelerada valorização desse estratégico energético. Com o término da guerra fria, por volta de 1990, estoques de urânio destinados, inicialmente, para fins militares, foram ofertados em torno de US$ 10 por libra de urânio (U3O8), no mercado de geração elétrica, tanto pelos Estados Unidos como pela Rússia. Quando os estoques militares mostraram sinais de esgotamento, a libra de urânio atingiu US$ 130 em 2007, estando atualmente em torno dos US$ 95.

Aceitar a concessão seria cercear as conquistas da tecnologia nacional, para manter programas nucleares de países que não têm urânio, como França, Inglaterra, Japão, Alemanha, China e Índia
O Brasil, além de possuir 309 mil toneladas de reservas de urânio conhecidas, através da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), domina a tecnologia do enriquecimento, que agrega enorme valor ao produto, caso seja decida a exportação. O enriquecimento, em escala industrial, é realizado na INB, que também fabrica, depois do urânio ser enriquecido, os elementos combustíveis, significando nova agregação de valor ao produto final. Nossa capacitação tecnológica e industrial no setor nuclear precisa ser levada em consideração pelos órgãos federais e pelos congressistas, nesse momento em que algumas mineradoras, inclusive estrangeiras, demonstram a intenção de produzir urânio para exportá-lo na forma mais primária (U3O8).

Aceitar esse tipo de concessão significará o cerceamento das conquistas da tecnologia nacional, com a conseqüente limitação dos benefícios para toda a sociedade, permitindo que tais mineradoras abasteçam unidades de enriquecimento no exterior, para manter programas nucleares de países que não têm urânio, como França, Inglaterra, Japão, Alemanha, China e Índia. O lobby das mineradoras junto ao Executivo e ao Legislativo é enorme, pois, para poderem atuar nesse setor é necessário que o monopólio estatal do urânio seja extinto, sabendo-se que, para tal, um deputado já apresentou proposta de emenda à Constituição, a PEC 171.

A demanda por fontes de energia tem motivado guerras e tragédias sociais em várias regiões do globo, causando a denominada geopolítica do petróleo, presente nos planos e ações das grandes potências industriais e militares. A exaustão dos hidrocarbonetos, a agressão ao meio ambiente pela queima dos combustíveis fósseis e o irreversível crescimento de muitas nações emergentes, exigindo maior suprimento de energia, levará, em futuro muito próximo, à aparição da geopolítica do urânio. Para esse cenário de forte e disputada demanda por energéticos geradores de eletricidade, impõe-se preservar nossas reservas de urânio como monopólio inflexível do Estado, bem como expandir e aperfeiçoar as preciosas conquistas da engenharia e da técnica nacional, no domínio do combustível nuclear.

Le Monde diplomatic

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Em Angola, MPLA recebe 82% dos votos

ELEIÇÕES Movimento Popular pela Libertação de Angola vence primeira eleição legislativa multipartidária desde 1992

Achille Lollo

EM ANGOLA, a primeira eleição legislativa multipartidária se realizou, em 1992, em um cenário de violências, tiroteios e atentados que não intimidaram os eleitores em votar a favor do MPLA-PT, desqualificando a certeza do líder da Unita, Jonas Savimbi, que não aceitou a derrota eleitoral e partiu para uma terceira guerra civil.
Finalmente, em 2002, com a morte de Savimbi, iniciou-se entre o MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola) e a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola) um processo de reconciliação nacional e a fixação de novas eleições para 5 de setembro de 2008.
Desta vez, o pleito eleitoral foi, em geral, sereno e tranqüilo, excluindo algumas raras exceções que não passaram de brigas entre grupos rivais. Tanto que os representantes da Human Rights Watch não puderam denunciar as falsificações de cédulas que seus “informantes” da Unita davam por certas.

Mau humor da EU
As eleições se abriram com um clima de desconfiança generalizado. Boaventura de Sousa Santos, apesar da diplomacia em seu artigo de 1º de agosto, no site www.esquerda.net, acreditava na fraude eleitoral por parte do MPLA. Este clima infl uenciava também a representante da União Européia, Luisa Morgantini, que, na véspera das eleições, declarou que “estas eleições eram um desastre”. A seguir, a vice-presidente do Parlamento Europeu reconheceu que houve só “alguns casos pontuais de anomalias e que por isso a missão européia não iria invalidar todo o processo eleitoral, porém se recusava a admitir que as eleições haviam sido justas e livres”.
Para os analistas, o posicionamento mau humorado da chefe da missão européia representa, também, o sentimento de desilusão de uma parte do executivo da União Européia com Angola, que nos últimos anos ampliou suas relações políticas e comerciais com a China, em degovertrimento de alguns importantes países europeus.
Entretanto as críticas de Morgantini se referiam, sobretudo, à pressão que o governo e seu partido, o MPLA, exercitaram no eleitorado, usando seus principais órgãos de informação – o diário Jornal de Angola; a Televisão TPA; a Rádio RNA e a agência de notícias Angop. Uma acusação que não impediu o reconhecimento da vitória do MPLA, visto que estes órgãos de imprensa, juntamente com a empresa petrolífera Sonangol e a diamantífera Diamang, são, de fato, empresas estatais eficientes, cujas organizações foram temperadas ao longo de 30 anos trabalhando em precárias condições de guerra.
Por outro lado, o governo do MPLA e o presidente Eduardo dos Santos não repetiram o erro cometido em 1992, quando anteciparam o pagamento de subsídios para projetos sociais e produtivos, tanto que os observadores ocidentais e os partidários da Unita interpretaram isso como uma forma de comprar votos.

MPLA com 81,82%
No dia 8, a manchete do Jornal de Angola não escondendo sua intimidade com o poder Executivo, encheu a primeira página com a manchete “MPLA arrasa concorrência”, querendo transmitir aos leitores o peso da vitória do MPLA, que, dos 4.316.934 votos considerados legais por Adão de Almeida, presidente do Comitê Nacional Eleitoral, havia arrematado nada mais do que 3.530.819, enquanto a Unita não passava de 453.266.
Diante desses resultados, é fácil entender por que Filomeno Manacás, diretor-adjunto do Jornal de Angola, autorizou uma manchete que aponta para o povo quem é quem na política angolana.
Por sua parte, a Unita, o partido da antiga FNLA e o da Renovação Nacional reconheceram que para eles estas eleições foram um verdadeiro desastre. Na capital Luanda e na homóloga província – onde se concentram 2 milhões e meio de angolanos – o MPLA ganhou com 75% dos votos. Nas províncias de Kwanza Norte, Cunene, Huila, Malanje e Namibe alcançou 90% dos sufrágios. Em Moxico, Bié, Uije, Kuando-Kubango, Kuanza-Sul e Huambo, consideradas áreas da Unita, o MPLA ganhou com 70%. Nas províncias do Norte do país, Lunda-Norte e Zaire, o MPLA obteve 65% dos votos. Em Cabinda, onde ainda vigora um acordo de paz com os separatistas da Frente de Libertação de Cabinda, o partido de Eduardo dos Santos ganhou com 58,50%. Somente na província de Lunda-Sul, o MPLA registrou um resultado abaixo da média, com 47,25%, seguido pelo Partido da Renovação Social, com 45,08%.

Reconciliação nacional
Quando a Comissão Nacional Eleitoral angolana anunciou que haviam sido abertas 90% das cédulas e que o MPLA estava com uma vantagem de 80%, o presidente da Unita, Isaias Samakuva, logo declarou que iria impugnar os resultados porque acreditava que a vitória esmagadora do MPLA, certamente, devia ser fruto de falsificações. A seguir, tal como foi com Morgantini, o presidente da Unita teve que admitir a derrota: “Agora que o MPLA ganhou, teremos quatro anos de trabalho para nos preparar devidamente para participar das próximas eleições de 2012”.
Por sua parte, o secretáriogeral do MPLA, o histórico comandante guerrilheiro Julião Paulo “Dino Matrosse” reafirmou que “esta eleição legislativa manifesta o desejo do povo em reconstruir em paz e serenidade o país que ficou quebrado após quase 30 anos de guerras: a colonial, a de agressão sulafricana e por último a guerra civil imposta pela teimosia de Savimbi. Por isso, o MPLA fará de tudo para manter abertas as esperanças dos angolanos”.

Brasil de Fato

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Por favor, fiquem com o meu filho

Aumentam na Espanha os pais que pedem ao governo para guardar seus filhos

Pere Rios

Aconteceu alguns anos atrás, no Ministério Público de Madri, quando um pai se apresentou com sua filha adolescente presa por uma corrente. “Venho pedir que a tranquem, porque se dedica à prostituição e não posso com ela”, o homem relatou. Trata-se de um caso extremo, mas não insólito. Todos os anos, dezenas de pais em toda a Espanha procuram o governo para pedir que se encarregue da guarda de seus filhos menores de idade, porque se sentem incapazes de continuar a educá-los ou estão arrasados pelas más relações que se estabeleceram entre eles.

É o que se denomina legalmente guarda administrativa, que está amparada pelo artigo 172.2 do Código Civil. “Quando os pais ou tutores, por circunstâncias graves, não podem cuidar do menor, poderão solicitar da entidade pública competente que esta assuma sua guarda durante o tempo necessário”, diz o texto.

A competência da tutela dos menores foi transferida para as comunidades autônomas, e por isso é muito difícil quantificar o alcance do fenômeno, mas os especialistas concordam que são cada vez mais freqüentes as situações de pais que se sentem impotentes diante dos filhos. A Junta [governo regional] da Andaluzia, por exemplo, tem atualmente 25 crianças sob sua tutela em regime de guarda administrativa. Muitos outros pais tentaram isso e o governo autônomo rejeitou assumir a guarda porque não se justificava.

Como ocorre quase sempre com a letra da lei, a questão é determinar quando ocorre uma dessas “situações graves” de que fala o Código Civil e quanto tempo devem ficar separados de seus pais. “Os pais são insubstituíveis e não cabe ao governo cumprir essa função”, explica Carmen Belinchón, diretora-geral da Infância e Famílias da Junta da Andaluzia. “Outra coisa é se for demonstrado que o sistema de saúde, educacional ou serviços sociais falharam”, acrescenta. “Nesses casos, o governo assume a guarda durante um tempo, que costuma ser um mês, para tentar corrigir essa deficiência.”

Félix Pantoja, ex-membro do Conselho Geral do Poder Judiciário, é mais crítico: “O governo reluta em exercer essa função que a lei lhe atribui e tende a se omitir de sua responsabilidade”. Pantoja, que foi fiscal de menores em Madri de 1992 a 2001, também lembra o caso de outros pais que procuraram o ministério para que se encarregasse de uma adolescente que tinham adotado. “A esses pais foi dado um certificado de idoneidade para adotar, e é claro que não estavam capacitados para isso”, opina.

Imma Pérez, diretora-geral de Cuidados com a Infância e Adolescência da Generalitat de Catalunha, concorda com Belinchón em que o governo não pode assumir a guarda de uma criança se não for justificada. Mas lembra que em algumas ocasiões se advertiu veladamente os pais de que se não cumprissem suas obrigações seriam denunciados. Pérez também fala de pais que queriam “devolver” seus filhos adotivos porque estes sofriam uma doença, por exemplo. Se o governo se negar, a promotoria pode instalar um procedimento de jurisdição voluntária, e afinal um juiz acaba resolvendo. “Houve casos em que, em troca de assumir a guarda por imperativo legal, o governo cobrou dos pais os gastos gerados pelos cuidados de manutenção do filho.”

“Tirar um rapaz de sua família é duro, mas às vezes é mais duro trabalhar com os pais para conscientizá-los de sua responsabilidade”, diz Pantoja. “São casos anedóticos, mas que existem”, lamenta Pérez.

Como o de uma mãe de Sevilha que em 2001 pediu que a junta se encarregasse de seu filho menor, viciado em drogas. Ou o de uma mulher de Córdoba que exigiu a mesma medida para sua filha de 13 anos, grávida.
Como se pode chegar a essa situação em uma família? A psicóloga clínica e criminologista Paola González, das Canárias, afirma que a família é uma unidade de socialização que precisa manter alguns papéis e que estes não podem se perder. “Os pais devem atuar como pais e os menores, como menores. Se ocorre um relaxamento da disciplina e das normas, estas acabarão sendo impostas pelos filhos, que se tornarão ingovernáveis”, indica.

Assim se corre o risco de que surja o que os especialistas chamam de síndrome do imperador, um comportamento tirano a ponto de agredir fisicamente a família. E isso afeta todo tipo de família, não só as desestruturadas. “É preciso impor limites para o ser humano”, explica González. Segundo ela, não é que os adolescentes estejam superprotegidos, “mas que estão sub-representados no grupo social. Deixam que atuem como adultos sem que o sejam”. E essa permissibilidade em longo prazo acaba prejudicando.

O perfil das crianças que acabam em regime de guarda administrativa é o de um adolescente entre 12 e 16 anos. Afeta igualmente ambos os sexos e em muitos casos provêm de famílias estruturadas, inclusive abastadas, que têm suas necessidades básicas cobertas em todas as frentes.

Filhos que receberam educação, mas que na adolescência entram em confronto com seus pais. “É um perfil que não tínhamos previsto, mas aí estão, dando vozes em silêncio e colocando a todos nós à prova”, explica Carmen Belinchón, diretora-geral da Infância e Famílias da Andaluzia. “Ser pai é muito difícil”, acrescenta. Há 20 anos, quando o desenvolvimento econômico não havia se expandido para amplas camadas da população, as famílias procuravam o governo para que assumisse a guarda de seus filhos por causa de doença de um progenitor ou questões relacionadas ao trabalho que as impediam de cuidar dos menores. Hoje é por outros motivos.

O psicólogo e criminalista Vicente Garrido retrata muito bem esses jovens em seu livro “Los Hijos Tiranos [Os filhos tiranos]. Na opinião dele, muitos pais que sofrem essas situações não são permissivos nem negligentes. “Cuidaram de seus filhos, mas é uma questão diferente se poderiam tê-lo feito melhor”. Javier Urra, outra referência nesse ramo, psicólogo da promotoria de menores de Madri e autor da obra “El Pequeño Dictador” [O pequeno ditador], afirma que o que muda no ser humano é a educação, “sobretudo nos primeiros anos, meses e até antes de nascer”. Na opinião dele, “é muito diferente ser filho desejado ou não, ser um pai descontraído ou agressivo”.

Paola González insiste que “as crianças sem limites e fora de controle correm o risco de acabar tendo uma reação violenta”. Basta falar com os juízes de menores para comprovar que as agressões a pais ou parentes aumentam cada vez mais e que são as próprias vítimas que vão denunciá-los. “Não há turno em que não apareçam um ou dois casos”, explica o titular do Juizado de Menores nº 4 de Barcelona, Ramón Mariñosa.

Por isso a psicóloga González insiste na necessidade de que essas crianças tenham uma referência de autoridade clara. “Essa mesma criança diante de um juiz ou policial se cala e escuta, mesmo que por dentro pense outra coisa. Isso porque reconhece o papel da autoridade, que não pode se perder na família.”

El Pais

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Apenas comércio justo não basta

SEGURANÇA ALIMENTAR Problemas que impedem a produção voltada à alimentação local nunca foram resolvidos dessa forma

José Antonio Segrelles

A MAIOR parte das vozes que se fizeram ouvir durante a última reunião da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), em Roma, continuaram insistindo nos mesmos raciocínios de sempre quando falam do campo e da pobreza no planeta, ainda que agora seus argumentos estejam reforçados pelo aumento espetacular dos preços dos alimentos – o qual ameaça com a fome milhões de pessoas do mundo subdesenvolvido.
Tais raciocínios são diferentes de acordo com sua procedência. Os governos dos países dominantes, a agroindústria, as grandes firmas de transformação e distribuição de alimentos e os organismos multilaterais (Organização Mundial do Comércio – OMC; Fundo Monetário Internacional – FMI; Banco Mundial – BM) sustentam que a pobreza dos países subdesenvolvidos seria solucionada se houvesse uma maior liberalização comercial no mundo.
Os governos dos países pobres e algumas ONGs, por sua parte, insistem que os ricos deveriam abandonar a proteção às suas agriculturas, eliminando de uma vez por todas as ajudas e subsídios ao setor agropecuário para evitar, assim, uma concorrência desleal nos mercados internacionais. As intenções de uns e outros são muito diferentes, algumas até boas, ainda que, do meu ponto de vista, sejam igualmente equivocadas e ao final desemboquem na implementação de estratégias e receitas muito parecidas.

Livre mercado
Como aponta o historiador Eric Hobsbawn, imaginar que o comércio internacional livre e sem limitações permitirá que os países pobres se aproximem dos ricos vai contra a experiência histórica e o senso comum. Quem ganha mais e melhor com as aberturas de mercados são as corporações transnacionais de grande distribuição organizada. Inclusive as recentes políticas agrárias da União Européia, que tentam adaptar o setor a um comércio internacional livre de travas aduaneiras e de subsídios agrícolas protecionistas, foram feitas para atender às grandes companhias agroalimentares do continente. E estas não se movem exatamente pela solidariedade e nem pelo altruísmo de um comércio internacional mais justo, mas sim pelo interesse em comprar as matérias- primas que utilizam ou os produtos frescos que vendem ao preço mais baixo possível para negociá-los o mais caro que puderem.
Em qualquer um dos casos, e à luz de experiências concretas, a liberalização comercial que preconizam esses paladinos do livre-comércio implica de fato em prejuízo claro para os pobres dos países ricos, mais precisamente, aos agricultores, em benefício quase exclusivo dos ricos dos países pobres, ou, o que dá no mesmo, a oligarquia latifundiária, a agroindústria e os exportadores mais dinâmicos, sem esquecer, claro, das transnacionais que ali atuam.

Agroexportação
Para conseguir as matériasprimas e os produtos agroalimentares a um preço baixo, essas pujantes corporações, com a conivência de muitos governos locais, fomentam os modelos agroexportadores, baseados em uma monocultura depredadora e empobrecedora que arruína os ecossistemas, a agricultura camponesa e a organização social de muitas comunidades rurais. A distribuição organizada precisa de grandes fornecedores capazes de oferecer enormes quantidades de produtos padronizados, a um preço mínimo e no menor tempo possível, e, por isso, procuram os países subdesenvolvidos, onde a terra e a mão-de-obra são baratas e a legislação ambiental e trabalhista são permissivas.
Além disso, o modelo agroexportador supõe que muitos países dediquem as terras de cultivo aos produtos susce suscetíveis de serem vendidos nos mercadores exteriores (flores, hortaliças, soja, cítricos, canade-açúcar), em detrimento da produção alimentar da população local (trigo, arroz, mandioca, feijão). O mundo desenvolvido cada vez consome mais produtos que vêm de longe e fora da estação correta. Tudo isso provoca enorme êxodo rural e leva a fome e a desnutrição para milhões de seres humanos, assim como uma grande contribuição à poluição e ao aquecimento global.
A questão agroalimentar e as ameaças que pairam sobre ela têm muito que ver com a existência de dois modelos produtivos: a agricultura familiar e camponesa e a agroindústria. Este último é dominante e sua influência afeta o mundo camponês até o ponto de contribuir com sua inviabilidade e conseqüente desaparição. Definitivamente, os problemas que oprimem os agricultores dos países pobres são muito parecidos com aqueles que devem ser enfrentados pelas famílias dos países ricos.

Luta no campo
Apesar dos eloqüentes discursos e declarações oficiais, os quais tranqüilizam as consciências e ajudam a difundir entre a população mundial a preocupação um tanto cínica de muitos governos e das instituições de Washington (FMI e BM), a realidade demonstra que os alimentos sobem de preço constantemente, e que cada vez menos pessoas têm acesso a eles.
Por outro lado, o termo comércio justo encontra-se cheio de confusões e ambigüidades. Existe uma visão tradicional cujo enfoque orienta-se sobre a necessidade dos camponeses dos países pobres venderem seus produtos no exterior como forma para sair do subdesenvolvimento. No entanto, há uma outra maneira mais global e crítica de enfrentar a questão, pois sobram pessoas bem intencionadas, que compram um produto de um país subdesenvolvido pensando que assim está apoiando os camponeses desses lugares, quando na verdade está contribuindo para fomentar um modelo produtivo depredador e responsável por grandes impactos ambientais e exclusões sociais em amplas áreas do planeta.
O comércio justo serve para sensibilizar a população; até aqui perfeito, mas os graves problemas estruturais que perseguem os camponeses impedem a produção agrária voltada à alimentação local e ameaçam a soberania alimentar dos povos nunca foram resolvidos dessa forma.

União internacional
Por mais paradoxal que pareça à primeira vista e contra aquilo que se insiste propagandear nas mais diversas instâncias, a melhor forma de defender os camponeses dos países subdesenvolvidos é proteger os agricultores familiares das nações ricas. Assim, o comércio seria mais eqüitativo, o consumo ganharia em responsabilidade e as grandes transnacionais de distribuição e trans- formação agroalimentares ficariam impossibilitadas de arruinar uns e outros.
Talvez os países subdesenvolvidos devessem renunciar à miragem da liberalização comercial e da assinatura de tratados de livre-comércio com as nações dominantes e se agruparem em blocos regionais políticos e econômico-mercantis que os possibilitariam defender melhor seus interesses, dando proteção aos seus produtores e camponeses mediante a implementação de uma preferência comercial regional similar à que inspirou a Política Agrícola Comum (PAC), quando foi criada a Comunidade Econômica Européia (CEE), em 1957.

Brasil de Fato

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Exposição do Lovatto

Lovatto é meu ex-aluno e eu recomendo pela qualidade do traço. Visite seu site: clique.

Ricardo Alvarez

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Escalpos, voto e a torcida da imprensa

RAPOSA SERRA DO SOL Após voto de relator frustrar expectativas da mídia corporativa, jornais manipulam fatos

Memélia Moreira

“As atuais condições na fronteira são realmente alarmantes…Não se passa uma semana sem depredações feitas pelos índios…Nos últimos três anos, os moradores da fronteira pediram, suplicaram, pela proteção do governo federal que demonstra sangue frio e indiferença diante dos nossos problemas…”

COM TODO seu avanço e uso de tecnologia de ponta, a sociedade brasileira continua arcaica e sem sinais de mudança. O melhor exemplo é dado pelo texto acima. Embora aponte semelhanças com os fatos vividos hoje em Roraima, não foi publicado por nenhum dos jornais de Boa Vista, capital daquele Estado. Essas poucas linhas vão completar 148 anos na próxima sexta-feira, 13 de setembro, e foram publicadas pelo The White Man, jornal da cidade Weathford, no Estado do Texas, em 1860.
Na época, o mesmo jornal dizia que o então governador daquele Estado, Sam Houston, fez de tudo para mostrar ao presidente dos EUA, Abraham Lincoln, que “havia bandos de índios bem organizados que são ladrões e assassinos”. Qualquer semelhança com o governador de Roraima, José de Anchieta, não é mera coincidência, apenas a triste repetição de uma história de desrespeito que marca as relações entre os nativos das Américas, primeiro com conquistadores e, depois, com as elites das ex-colônias européias que se estendem da Patagônia ao Alasca. Nesse trecho citado pelo jornal, os índios em questão são o povo Comanche. Naquele distante 1860, a população de Weathford reuniuse para atacar os Comanche.
Não há informações de quantos foram mortos, mas a ordem era escalpar os índios. O ataque foi bem sucedido e, depois da chacina, segundo o editor do jornal The White Man, John Baylor, “a ação foi celebrada num churrasco público, com danças, e as armas e escalpos capturados serviram de decoração para a festa realizada nas salas do tribunal. O general Baker exibia seus troféus e todos gritavam: ‘Exterminemos os Índios’”.
Com raríssimas exceções, os jornais das áreas de fronteira dos Estados Unidos, tanto com o México quanto com o Canadá, promoviam uma campanha diária contra os povos indígenas que, também naquele país, foram perseguidos pelos militares, ao ponto do general Philip Sheridan, um dos mais implacáveis perseguidores do povo Shoshone (conhecido também pelo nome de Nez Percé, que hoje vive no Estado de Idaho, noroeste dos Estados Unidos), cunhar a célebre frase: “Índio bom é índio morto”. É o caso de perguntar: será que o general Augusto Heleno teria a coragem de repetir a mesma frase ou será que prefere o genocídio indolor, sufocando os índios em exíguas sobras de terra? Mas tudo isso é parte de uma história longínqua, de quase dois séculos atrás, e a mancha dos massacres cometidos contra os indígenas é um capítulo da história que os estadunidenses de hoje preferem esquecer.

Raposa Serra do Sol
Esses exemplos, à exceção dos escalpos, se repetem no Brasil em pleno século 21, em relação aos povos que vivem na área da Raposa Serra do Sol. Com raríssimas exceções, a imprensa brasileira se alinhou em defesa de seis grileiros de terra que ocupam o território indígena e, se não dançam nas salas dos tribunais, fazem a festa tentando influenciar os juízes e, muitas vezes, sob o manto do off (informação na qual se omite o autor da notícia), mente descarada e escandalosamente.

Voto de ficção
No caso do conflito de terras da região da Raposa Serra do Sol, o comportamento da chamada grande imprensa brasileira chegou às raias do jornalismo de ficção, gênero literário que já conta com um bom número de adeptos e faz estragos no exercício da informação. Sua Excelência, “o Fato”, foi simplesmente pisoteado, desrespeitado. Cada jornalista, dos mais capacitados aos mais incompetentes, se julgou no direito de “antecipar” a seus leitores a essência do voto do relator do processo no Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Britto. No abre-alas do bloco antiindígena, o inefável O Estado de São Paulo.
Como se fosse um coro afinado no mesmo tom, esses jornalistas e comentaristas afirmavam, categoricamente, que o ministro-relator votaria pela divisão da reserva. Quem acreditou no noticiário recebeu com surpresa o voto do ministro Ayres Britto. Os jornalistas erraram. E sequer pediram perdão aos leitores, como seria de se esperar.
O ficcionismo jornalístico invadiu blogs informativos, blogs pessoais, televisão e até quem não é jornalista tirou uma casquinha na onda antiindígena que vem se alastrando pelo país desde o início das agressões dos grileiros contra os índios. Um deles foi o ex-ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, deputado federal do PSDB de São Paulo. Ministro que passou em branco nos oito anos de Esplanada dos Ministérios, Paulo Renato, que chegou a ter veleidades de sair candidato à presidência da República, marcou sua passagem por Brasília somente porque abriu sua própria universidade particular na capital. Não fora isso, seria lembrado apenas pela fotografia da galeria de ministros. Mas, mesmo assim, se achou no direito de dar palpites na questão indígena.
Em artigo publicado ainda em abril, quando se reiniciaram os conflitos entre indígenas e grileiros, o deputado paulista diz: “Não estamos diante de uma disputa mesquinha entre governo e oposição. Muitos na base governista estão descontentes com o formato definido por Lula, a começar por seu líder no Senado, Romero Jucá, empenhado numa saída intermediária. Não se trata de um conflito localizado entre ‘arrozeiros’ (sic) e índios. Ao contrário, a Raposa Serra do Sol é hoje um problema nacional, a comprometer a existência de Roraima como Estado, pois, com a sua criação, 46% de suas terras serão reservas indígenas.
Nenhuma política séria – e articulada com os interesses nacionais – criaria algo como a Raposa Serra do Sol, onde apenas 17 mil índios serão proprietários de 1,7 milhão de hectares”. Mais adiante, o ministro, numa afirmativa sem qualquer base na realidade, pergunta: “Que país do mundo foi tão generoso ao pagar uma injustiça histórica? E isso corresponde à área geográfica de quantos países da Europa?”.
Se o ministro quer saber a resposta correta, podemos mais uma vez citar o exemplo do povo Comanche. Depois de batalhas vitoriosas e perdidas, eles hoje controlam um território de 2,5 milhões de hectares em área contínua, que se estende de Oklahoma ao Texas, chegando até a fronteira com o México. Mais um detalhe: os 2,5 milhões de hectares são povoados por 19.400 índios.

Blá… blá… blá
Talvez por não ser jornalista, o ex-ministro da Educação não se arriscou em antecipar o voto do relator. Apenas tentou influenciar a opinião pública, num texto carregado de preconceitos. Mais ousado foi o jornal Tribuna da Imprensa. Seu editor, o jornalista Hélio Fernandes, também não resistiu à tentação de engrossar as fileiras da torcida antiindígena. E, dois meses antes do julgamento no Supremo Tribunal Federal, pontificou: “Pelas convicções de Ayres Britto, pelo seu passado e pelo presente, nem chega a ser revelação concluir que dois fatos certamente formarão a base de seu voto: 1 – Ficará nitidamente contra a demarcação contínua (negrito do autor), que os maiores especialistas consideram verdadeira traição nacional, a transformação da nação brasileira (idem) em nação Ianomâmi (ibidem). Seu voto é o apogeu e a apologia da demarcação descontínua. 2 – Ayres Britto se concentrou no estudo da própria Constituição vigente (a chamada Consituição Cidadã) e nem admite, sugere ou apela para qualquer reforma constitucional…”, blá blá blá.
Talvez por desinformação, o consagrado jornalista tenha se referido ao povo Yanomami, que também já foi alvo de perseguições semelhantes nos anos de 1980 e 1990, quando na verdade os indígenas que agora se encontram sob fogo cerrado são os Makuxi, Wapixana, Tawarepang, Pokonoma e Ingarikó.

Mais uma gafe
Outro brilhante jornalista que esqueceu as raízes foi Alon Feuerwerker, do Correio Braziliense. Sem qualquer fundamento e na ânsia de apresentar as lideranças indígenas como representantes de interesses internacionais, ao comentar o desejo dessas lideranças em lucrar com a exploração dos minérios na terra da Raposa Serra do Sol (a exploração de minérios pelos indígenas e o percentual a ser entregue a eles está previsto na lei nº 6.001, o Estatuto dos Índios, aprovado durante o governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici), diz no seu blog do dia 9 de maio que o líder indígena Julio Makuxi é “um dos diretores da ONG estrangeira CIR (Conselho Indígena de Roraima)”.
Para qualquer desavisado, é um choque. Como??? Uma ONG estrangeira quer explorar o subsolo brasileiro???! Um pouco de pesquisa evitaria o editor de Política do mais importante jornal de Brasília fazer uma afirmação dessa natureza. O Conselho Indígena de Roraima foi criado por inspiração do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organização vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, até onde se sabe, não tem ligações escusas no Brasil e menos ainda defende interesses internacionais, a não ser que o chamado “Reino de Deus” também esteja sob suspeita.

Nova torcida
Ao encerrar seu voto de 108 páginas, o ministro Ayres Britto cobriu de frustrações algumas manchetes já prontas. E então, o voto-alvo passou a ser o do ministro Carlos Alberto Direito, que pediu vistas do processo na sessão do dia 27 de agosto.
O jornal Folha de S. Paulo saiu na pole position. Imediatamente após o encerramento da sessão, o repórter Felipe Seligman foi logo dizendo que “o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Alberto Direito deverá citar documento da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre direitos dos índios para contestar, em seu voto, a forma de demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, defendida pelo relator do tema, ministro Carlos Ayres Britto”.
E mais adiante, no terceiro parágrafo de sua nota, ele passa para o time dos torcedores afirmando: “Direito poderá argumentar que os índios, em reserva contínua, ganham poderes com respaldo internacional que permitiria, inclusive, a criação de nação autônoma dentro do Brasil e que poderia sujeitar o país, em caso de atuação militar no interior da região, por exemplo, a ser acusado de cometer ‘infrações penais’ por descumprir documento das Nações Unidas”.
Seligman usa, nesse parágrafo, o verbo “poder” para justificar seu argumento. Ora, qualquer principiante de jornalismo sabe que o uso do verbo “poder” é um artifício bastante comum quando jornalistas não têm certeza total da informação. Ou seja, quando a informação é do tipo “ouvi dizer”. O restante da matéria são considerações genéricas sobre a carta das Nações Unidas sobre o direito dos povos indígenas.

Mais um artifício
No dia seguinte do voto do ministro, já refeito do susto, mas ainda sem engolir o erro cometido, o Estadão ataca novamente. A nota, assinada por dois repórteres da sucursal de Brasília (Felipe Recondo e Mariângela Galucci), é um primor daquilo que se chama “informação difusa”, ou seja, quando se coloca o autor da informação no plural. Esse é outro artifício usado por jornalistas quando querem manter o sigilo da fonte ou quando não têm fonte alguma.
E o artifício é usado logo na abertura do texto que começa assim: “Consultados pelo Estado, 4 dos 11 ministros mostraram- se propensos a fazer ressalvas ao voto de Ayres Britto. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) consultados pelo Estado adiantaram ontem que podem diminuir a área destinada à reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, para deixar livres para as Forças Armadas as faixas de fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. A demarcação permaneceria da forma contínua, como determinou o governo, mas o tamanho da reserva seria reduzido”.
E continua: “A decisão nesse sentido contrariaria o voto do relator da ação, contra a demarcação, ministro Carlos Ayres Britto, que manteve a delimitação da reserva nos moldes originais. Quatro dos 11 ministros se mostraram propensos a fazer ressalvas ao voto de Britto, que foi classificado por um colega de ‘romântico’ e visto por outros como superficial – mesmo tendo 108 páginas. Para que sejam feitas alterações na reserva são necessários 6 votos. Os demais membros do Supremo preferiram não se pronunciar, mesmo reservadamente”.
Depois desse exemplo de desrespeito à Sua Excelência, “o Fato”, o mesmo jornal voltou à carga em matéria assinada pelo repórter Roldão Arruda. E, obviamente, traz apenas a opinião daqueles que defendem os grileiros. Sob o título “Indefinição sobre a reserva paralisa RR”, o repórter traz uma entrevista com um desconhecido economista, professor da Universidade de Roraima, Gilberto Hissa. O jornalista garante que Hissa não se envolve com nenhuma das duas posições, mas, apesar disso, prefere ver mais produção no Estado, porque “a área ocupada hoje pela agricultura gira em torno de 100 mil hectares. Mas nós temos outros 2 milhões para explorar.
Quando começarmos a fazer isso a economia do Estado avançará e deixará de ser tão dependente dos recursos federais. Hoje 60% do PIB de Roraima é do setor público”. Ora, essa é exatamente a posição dos seis grileiros que querem derrubar a homologação da Raposa Serra do Sol. E, se terra de índio fosse impedimento para desenvolvimento de qualquer Estado, Piauí e Rio Grande do Norte seriam os campeões de riqueza e desenvolvimento do Brasil. Nenhum dos dois Estados tem um centímetro qualquer de terra indígena, até porque os dois bradam à Rosa dos Ventos que não há um índio sequer em seus territórios.
O fato é que, em todo esse processo da Raposa Serra do Sol, a imprensa brasileira arrancou a máscara e mostra sua verdadeira face, que sempre esteve em defesa do latifúndio e contra qualquer possibilidade de respeitar interesses coletivos.

Brasil de Fato

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Livre-arbítrio e programação cerebral

Se nossos atos são determinados por acontecimentos anteriores, então não temos escolha sobre nada - nem responsabilidade sobre o que fazemos?

Shaun Nichols

Cientistas e filósofos estão convencidos de que não existe livre-arbítrio. De acordo com esses céticos, tudo o que acontece é determinado pelo que ocorreu antes ─ nossos atos são conseqüências inevitáveis de acontecimentos que culminaram com outro ato ─ e isso impede que possamos fazer as coisas de forma inteiramente livre. Esse tipo de atitude contra o livre-arbítrio remonta aos debates filosóficos do século 18, mas ultimamente a idéia ganhou mais destaque em artigos e livros científicos de penetração popular. Será que devemos dar atenção a essas questões? Se as pessoas chegarem a acreditar que não têm livre-arbítrio, quais serão as conseqüências para a responsabilidade moral e ética?

Em um brilhante estudo, os psicólogos Kathleen Vohs, da University of Minnesota e Jonathan Schooler, da University of Califórnia, em Santa Bárbara, testaram a questão utilizando trechos do conhecido livro de ciência The Astonishing Hypothesis (“Uma hipótese assustadora”), de Francis Crick ─ bioquímico ganhador do prêmio Nobel com James Watson, pela descoberta dupla hélice do DNA. Metade dos participantes recebeu um trecho que começava da seguinte forma: “Você, suas alegrias e tristezas, suas lembranças e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, na realidade não são mais que o comportamento de um imenso aglomerado de neurônios e moléculas a eles associadas. A pessoa que você é não é mais que um pacote de neurônios.” O trecho prossegue discorrendo sobre a base neural das decisões e afirmações, que “…embora pareça que temos livre-arbítrio, na realidade, nossas escolhas já estão predeterminadas e isso não pode ser mudado.” Outros participantes receberam um trecho sobre a importância de estudar a consciência, que também parecia ter um cunho científico, mas não mencionava o livre arbítrio.

Depois de ler os trechos, todos completaram uma pesquisa sobre sua crença no livre-arbítrio. Aí veio a parte inspiradora do experimento. Os participantes receberam instruções para resolver 20 problemas aritméticos que seriam mostrados na tela do computador. Mas quando aparecesse a questão, eles precisariam pressionar a barra de espaço, caso contrário, uma falha de programação mostraria a resposta na tela. Os participantes também foram informados de que ninguém saberia se eles haviam pressionado a barra de espaço ou não, e lhes foi pedido que não tentassem trapacear.

Os resultados foram claros: os que leram o texto contra o livre-arbítrio tentaram trapacear mais! Ou seja, pressionaram a barra de espaço menos vezes que os outros. Além disso, os pesquisadores descobriram que o número de tentativas de trapaça de um participante estava correlacionado com o grau de rejeição ao livre arbítrio encontrado nas suas respostas na pesquisa.

Formas de imoralidade

Alguns elementos do estudo, no entanto são questionáveis. Em primeiro lugar, o texto contra o livre-arbítrio apresenta uma perspectiva sombria, e isso seria suficiente para levar alguém a trapacear mais (“Mas se eu sou simplesmente um conjunto de neurônios, tenho mais com que me preocupar do que me comportar bem nesse experimento!”). Talvez fosse possível obter um maior número de trapaças se os participantes tivessem recebido um trecho defendendo o princípio de que toda vida sensitiva, será no final destruída na morte escaldante do Universo.

Por outro lado, os resultados se encaixam nas previsões de alguns filósofos. A concepção ocidental da idéia de livre-arbítrio parece ligada de modo indissolúvel ao nosso senso de responsabilidade ética, o sentimento de culpa pelas más ações e orgulho nas realizações. O que nos mantém responsáveis é exatamente pensar que nossos atos provêm do livre-arbítrio. Sob esse aspecto, não é surpresa que as pessoas tenham um comportamento menos ético quando passam a desacreditar no livre-arbítrio. Além disso, o resultado da pesquisa de Voh e Schooler se ajusta à idéia de que as pessoas se comportarão com menos responsabilidade se considerarem que seus atos estão além do seu controle. Se uma pessoa pensa que não há motivo para tentar ser bom, então estará menos propensa a tentar.

Se a descrença no livre-arbítrio resulta nesses efeitos nocivos, poderíamos pensar nos limites a que as pessoas chegariam. Então nos perguntamos se os efeitos vão além do domínio moral. Trapacear em um experimento psicológico não parece tão terrível. Certamente também, o experimento não levou os participantes que leram o trecho contra o livre-arbítrio a terem um surto de criminalidade. Nossa repulsa moral pelos atos de matar e ferir os outros provavelmente é muito sólida para ser destruída por reflexões sobre determinismo. No entanto, outros tipos de comportamento antiético, como colar nas provas, poderiam ser afetados pela rejeição ao livre-arbítrio.

Será um efeito permanente?

Outra questão é se o efeito é duradouro. O estudo de Voh e Schooler sugere que logo após desacreditarem no livre arbítrio, as pessoas passam a trapacear mais. Mas o que aconteceria se essas pessoas voltassem ao laboratório duas semanas depois? Poderíamos descobrir que continuariam não acreditando no livre-arbítrio, mas não enganariam mais.

Não há evidência concreta sobre essa questão, mas há uma evidência recente correlacionada a ela. Em uma pesquisa sobre determinismo e responsabilidade moral, o filósofo Hagop Sarkissian da City University de Nova Iorque e colegas ─ havia pessoas de Hong Kong, Índia, Colômbia e Estados Unidos ─ completaram uma pesquisa sobre determinismo e responsabilidade. O determinismo foi descrito em termos não-técnicos, e foi perguntado aos participantes ─ na prática ─ se nosso Universo é determinista e se as pessoas em um Universo determinista são moralmente responsáveis por seus atos.

Eles descobriram que, em todas as culturas, a maioria das pessoas respondeu que nosso Universo não é determinista e também que as pessoas não são responsáveis por seus atos em um Universo determinista. Embora isso não seja exatamente uma surpresa, pois as pessoas querem acreditar que têm livre-arbítrio. Quando se estuda um grupo menor de pessoas que considera o Universo determinista, aparece um dado muito interessante. Em todas as culturas, a minoria cética, que não acredita no livre-arbítrio mostrou maior tendência em afirmar que as pessoas são responsáveis, mesmo que o determinismo seja verdadeiro. Uma forma de interpretar esse resultado é que se chegarmos a acreditar em determinismo, não mudaremos nossas atitudes morais; simplesmente inverteremos nosso ponto de vista de que o determinismo exclui a responsabilidade moral.

Muitos filósofos e cientistas rejeitam o livre-arbítrio e embora não existam estudos sistemáticos sobre o assunto, atualmente não há porque pensar que filósofos e cientistas que negam o livre-arbítrio sejam, de modo geral, moralmente menos corretos que os que nele acreditam. Mas isso levanta ainda outra questão intrigante sobre a crença no livre-arbítrio. Pessoas que se declaram claramente contra o livre-arbítrio muitas vezes continuam a ser responsáveis por seus atos e a se sentir culpadas por agir de forma errada. Será que essas pessoas conseguem harmonizar suas atitudes com sua rejeição ao livre-arbítrio? Será que conseguem conciliar sua noção de culpa e responsabilidade de modo a realmente não dependerem da existência do livre-arbítrio? Ou será que em momentos críticos, quando estão tentando tomar decisões difíceis, tentando fazer o que é certo, voltam a acreditar que, no final das contas, eles têm mesmo livre-arbítrio?

Scientific American Brasil

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O (im)poder das marcas

Daniela Lot

A marca é o que importa. Ela é que define a compra. Ela é que determina a escolha. É a marca que se compra e não o produto. Seu poder captura quem pode comprar e quem não tem a menor condição de adquiri-la. Promove verdadeiros cultos obsessivos e estimula o consumismo desenfreado. Nessa linha de pensamento, as marcas emergem como fundamento do consumo, essência do capitalismo, característica de uma sociedade das aparências. As marcas, e o marketing que fariam delas o que são, funcionariam como instrumentos de persuasão das grandes corporações, controle social e homogeneização. Mas se o mundo dos logos parece adquirir cada vez mais poder, sua onipotência é questionada por verdadeiros movimentos anti-logo, que re-apropriam as marcas e subvertem imagens, objetos, usos, identidades dos produtos, arrancando-os dos seus contextos originais e dando a eles novos significados.

A noção de poder das marcas é explorada no livro Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido (2004), de Naomi Klein. Nele, a jornalista canadense mostra como as grandes corporações deixaram de ser um negócio de produtos, para ser um negócio de imagens – “Imagem é tudo” – deixando de vender apenas coisas, para vender sonhos, idéias e estilos de vida. Revelando os bastidores das multinacionais, com suas fábricas sombrias, a super-exploração da mão-de-obra dos países pobres, o trabalho infantil, as diferenças exorbitantes dos preços dos produtos ao saírem das empresas terceirizadas e chegarem às lojas, apresenta a face escondida pelas propagandas do glamoroso mundo das marcas. Como conclui o sociólogo Laymert Garcia, da Unicamp, em uma resenha do livro de Klein: “parece que na perspectiva do capitalismo global a única identidade que ainda faz sentido e deve ser preservada é a identidade da marca”.

Sonhar acordado

A antropóloga Débora Leitão, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da pós-graduação em moda da Fatec/Senac Porto Alegre, explica que a idéia de que as pessoas compram não um objeto (ou apenas um objeto), mas sonhos, estilos etc, não é uma coisa nova. A antropologia sempre tentou mostrar que na sociedade contemporânea os consumidores se relacionam com os objetos mais por razões simbólicas, do que utilitárias. “As pessoas produzem, consomem, usam coisas pelo que elas significam. O aspecto simbólico sempre foi mais importante. Atualmente, a marca é o lugar onde esse aspecto simbólico estará concentrado”, conclui a antropóloga.

Ela analisa que o consumismo contemporâneo tem a ver com o que o autor Colin Campbell, no livro A ética romântica e o espírito do consumismo moderno (2004), apontou como a necessidade das pessoas de fazer uma coisa que ele chama de “sonhar acordado” (day dreaming). “O consumismo é essa necessidade de comprar não um objeto novo, mas uma nova experiência imaginária, da mesma forma como quando lemos um romance”, explica a antropóloga. Consumir significa, assim, comprar uma experiência imaginada, que, por isso, nunca vai ser completamente satisfeita. “Daí a necessidade de continuar comprando, de continuar buscando outras experiências imaginadas”, conclui ela.

Criação da marca

Quando se planeja a criação de uma empresa ou de um produto, uma das principais preocupações é com a marca. Para Francisco Serralvo, que trabalha com marketing na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, sempre que um produto é criado, a ele é associada uma marca. Esta, ao ser construída, passa pelo processo de criação de sua identidade e pelo processo de ser posicionada no mercado. “Criar a identidade da marca significa desenvolver todo um conjunto de associações que o consumidor, o usuário do produto, vai fazer com relação àquela marca ou àquele produto. E o posicionamento é o grau de intensidade e de mudança que essa marca vai desfrutar, vai ter”. A intenção da marca, explica Serralvo, é agregar valor ao produto, e permitir o desenvolvimento de um conjunto de associações objetivas, diretamente relacionadas ao desempenho do produto, e subjetivas ou sociais. “Quando a pessoa compra um determinado produto de uma determinada marca”, diz ele, “essa marca acaba identificando essa pessoa dentro de uma perspectiva social”. Em sua opinião, as pessoas são identificadas pelo que elas fazem, pelos produtos e marcas que consomem, pelos locais que freqüentam etc. De acordo com ele, essa identificação tem um peso maior para algumas pessoas e grupos do que outros.

“Quase sempre o consumidor é seduzido pela propaganda”, diz o professor da PUC. Por isso ele ressalta que entender bem o consumidor e o conceito do produto e desenvolver um conjunto de associações que vinculem mais fortemente uma coisa a outra é fundamental, é o grande segredo do desenvolvimento das marcas no mercado. “As pesquisas de marketing têm se valido das pesquisas motivacionais que, um tempo atrás, estavam quase completamente suportadas pelos profissionais da psicologia, como da psicologia social, mas, hoje nós contamos com uma grande contribuição dos profissionais da área de antropologia”.

Funkeiros e rappers: (re)apropriação das marcas

Na criação da marca há uma aposta de que um conjunto de idéias, valores e imagens se tornam agregados a ela. A reapropriação da marca por outros grupos desestabilizaria essa noção? Débora Leitão traz como exemplo o funk carioca, Bonde da Osklen, que se re-apropriou de uma marca de roupas da classe média alta, a grife Osklen.

Se o Bonde da Osklen reforça a visibilidade da marca, e serve de estímulo aos funkeiros para consumi-la, ao mesmo tempo, como destaca a antropóloga, o antigo consumidor da Osklen da zona sul pode sentir ameaçado se for confundido com o novo público consumidor, o funkeiro. Da mesma forma ocorreu com a Lacoste na França, que virou a marca favorita dos rappers franceses. Ela conta que, no início, a empresa ficou incomodada, com medo de perder seus consumidores tradicionais da elite. A solução encontrada pela Lacoste, explica, foi segmentar a marca e desenvolver versões mais populares. Para ela, nos dois casos, “a escolha pelas marcas serviu como ‘ponte’ aos rappers e funkeiros para transpor a ‘cerca’ que os impedia de desfrutar do prestígio associado ao seu uso”.

Escolha, liberdade e política

O consumidor entra no supermercado para comprar iogurte e as muitas prateleiras lotadas trazem várias opções: natural, de frutas, com polpa, líquido, com fibras, petit suisse. O consumidor, a princípio, acha a experiência maravilhosa e imagina que ali, diante de inúmeras possibilidades encontrará o iogurte ideal para ele, que seja exatamente aquilo que ele estava procurando. Então depois de olhar, analisar, ele toma sua decisão. Mas, estará o consumidor feliz? Para o psicólogo Barry Schwartz, que escreveu O paradoxo da escolha (The paradox of choice: why more is less, Harper Collins Publishers Inc., 2004), a resposta é não.

Ao contrário do que as pessoas imaginam ser bom para elas, defende Barry Schwartz, a enorme variedade de opções as deixa insatisfeitas e, muitas vezes, paralisadas, com dificuldade de escolher. Isso porque, com tantas opções, elas querem “maximizar” suas escolhas, de modo a optar sempre pelo melhor, pelo mais adequado, ou pelo melhor preço. Quando, finalmente, tomam uma decisão, acabam se convencendo de que, se tivessem levado mais tempo poderiam ter encontrado um produto ainda mais adequado. Daí vem a frustração, aponta Schwartz. Para ele, quanto menos opções, mais modestas são as expectativas. Sua sugestão é procurar pelo “bom o suficiente”, e não pelo “melhor”. Já a antropóloga Débora Leitão discorda de que, efetivamente, o consumidor disponha de uma ampla gama de opções: “Se por um lado temos a sensação de termos uma enorme possibilidade de escolhas, essa possibilidade é um pouco falsa”, defende. “Existe uma gama de possibilidades que é oferecida pelo mercado, mas que não é imensa. A escolha existe, mas ela é dada dentro de um leque que já foi feito, de uma escolha anterior que já foi feita”.

Se as marcas tornaram-se aposta do mercado mundial nas sociedades contemporâneas, também se tornaram alvo privilegiado dos movimentos anti-corporação. Resistir às marcas e propagandas, subverter suas lógicas, aparece como modo de resistir à globalização, ao poder da marca e do mercado.

Com Ciência

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Novos desafios marinhos

A exploração de petróleo e gás abaixo da camada de sal no mar gera demanda de conhecimento e tecnologia

Marcos de Oliveira

Do interior de um conjunto de salas no prédio da Engenharia Mecânica da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo, na capital paulista, está saindo parte das soluções que vão permitir o transporte do gás natural extraído das profundezas da camada pré-sal na bacia de Santos, nas novas reservas petrolíferas confirmadas pela Petrobras desde o final de 2007. A equipe do professor Kazuo Nishimoto, coordenador do Tanque de Provas Numérico (TPN), um laboratório especializado em hidrodinâmica formado por aglomerados ou clusters de computadores, desenvolve sistemas para simular o futuro transbordo do gás natural das plataformas para os navios, uma das alternativas levadas em conta pela Petrobras para transportar esse tipo de recurso mineral. A outra opção seria fazer grandes tubulações ao longo do fundo do mar, mas essa é uma solução cara e de difícil execução, com a necessidade de dutos com diâmetro muito grande e de longa distância no ambiente marinho. O produto que está associado ao petróleo deverá ser transformado do estado gasoso para o líquido em plena plataforma petrolífera para facilitar o transporte em um navio especializado em gás liquefeito. Um sistema para funcionar em pleno alto-mar, a mais de 300 quilômetros da costa, num ambiente hostil em meio a ondas e ventos fortes e a uma profundidade, da superfície até o chão do mar, de 2.200 a 3.000 metros, a chamada lâmina d’ água, fator que dificulta a ancoragem e a estabilidade dos risers, que são as tubulações presas a equipamentos no fundo do oceano que levam petróleo e gás para a plataforma na superfície.

“Não existe no mundo um sistema em funcionamento em alto-mar para transformar o gás em líquido. Nesse estado, o gás natural líquido (GNL) tem que estar preservado a baixas temperaturas, num ambiente criogênico e de baixa pressão. Todo o sistema e o duto de transferência da plataforma que fará o transbordo para o navio precisarão estar a uma temperatura de -120° a -160° Celsius (C). O tanque também deverá ser resfriado. O problema é que o metal quando muito frio se torna frágil e pode trincar”, diz Nishimoto, que é do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Poli. Outro desafio é fazer o transbordo em condições críticas, com o movimento do mar e das plataformas, que podem ser as semi-submersíveis ou navios-tanques fundeados, conhecidos por FPSOs, sigla de Floating, Production, Storage and Offloading, ou sistema flutuante de produção, armazenamento e descarga, e do navio de GNL, que terá comportamento diferente com os tanques cheios e vazios.

O TPN, que faz parte do grupo de desenvolvimento de sistemas da Petrobras, produz cálculos e simula situações sobre esses futuros eventos considerando as diversas variáveis do ambiente marinho e dos equipamentos envolvidos. Ele foi montado com recursos da Petrobras e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia em 2002. Dele fazem parte também pesquisadores da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharias (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Grupo de Tecnologia e Computação Gráfica (Tecgraf), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

O aproveitamento do gás natural é um dos desafios tecnológicos que está posto à Petrobras e demais empresas do processo de exploração, além das parcerias com a academia ou fornecedores. Eles buscam soluções para a produção, a extração e o transporte de petróleo e gás em situações até agora inéditas com reservatórios abaixo da camada de sal, um conjunto de rochas sólidas com cerca de dois quilômetros de espessura. A camada de sal funciona como um selante natural para o petróleo e para o gás que se formaram abaixo, nas chamadas rochas carbonáticas (leia quadro na página 75), numa profundidade de 5 a 7 mil metros.

Embora líder na exploração de petróleo em alto-mar, com poços comerciais na profundidade de 1.800 metros de lâmina d’água, a Petrobras experimenta um período de verificação das reservas nos novos poços e a quantidade que será aproveitada comercialmente na região que se estende da costa do estado do Espírito Santo até Santa Catarina. Também verifica a tecnologia para extrair gás e petróleo em condições extremas e levar esses produtos até as refinarias e distribuidoras de gás. Para esse processo, a empresa criou o Programa Tecnológico para o Desenvolvimento da Produção dos Reservatórios Pré-sal (Prosal). Com 23 projetos em áreas distintas, como engenharia de poço, engenharia de re­servatório e garantia de escoamento de gás e petróleo, a empresa divulga informações cercadas de muito cuidado e mistério. “Muitos detalhes ainda estão guardados a sete chaves”, diz Osvair Tre­visan, diretor do Centro de Estudos de Petróleo (Cepetro) da Unicamp. “A empresa está definindo o tratamento, os padrões e os parâmetros de engenharia e de produção, mas estimamos que não haverá grandes barreiras tecnológicas para a exploração da camada pré-sal”, diz Trevisan, ex-superintendente de exploração da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

O sigilo que cerca os detalhes mais técnicos, inclusive para os setores da comunidade científica que têm parceria com a Petrobras, está provavelmente ligado às decisões sobre os rumos da exploração do pré-sal no contexto econômico porque o país poderá ter um crescimento nas suas reservas de petróleo dos atuais 14 bilhões para até 50 bilhões de barris ou mais. Poços como os de Tupi e Iara, na bacia de Santos, já garantiram algo entre 9 e 12 bilhões de barris em reservas. As descobertas, que tiveram os primeiros indícios confirmados de petróleo de excelente qualidade, capaz de oferecer produtos mais nobres para a petroquímica, ainda precisam ser quantificadas com mais exatidão. De toda forma, elas já podem alçar o Brasil para um dos dez grandes produtores de petróleo do planeta. Hoje o país está em 24° lugar. As perspectivas sobre gás natural anunciadas pela empresa, apenas no campo de Tupi, na bacia de Santos, na área de pré-sal, são de 176 bilhões a 256 bilhões de metros cúbicos (m3), quase a mesma quantidade das reservas atuais de 330 bilhões de m3, grande parte ainda de poços que não estão em produção. O Brasil ainda importa 60 milhões de m3 de gás, sendo a metade da Bolívia.

A viabilidade de exploração comercial e as reais reservas somente vão ser delineadas com os testes de longa duração (TLD), que devem permanecer por um ano e meio a partir de março de 2009 no poço de Tupi. Só então entram em ação os sistemas piloto de produção com início previsto para o segundo semestre de 2010. Depois, se tudo estiver comprovado e ajustado, virá a fase de produção que deve acontecer em novas plataformas que estarão funcionando entre 2013 e 2014, produzindo inicialmente, cada uma, 100 mil barris de petróleo e 5 milhões de metros cúbicos de gás por dia.

“Entre os desafios de explorar as novas jazidas está o de perfurar a camada de sal porque ela sofre deformações e pode colapsar a coluna de perfuração. É preciso monitorar a cada hora”, diz Nishimoto. “Por isso cada poço precisa ter um modelo numérico experimental feito por programas de computador que reproduza as condições do mar, do solo e calcule a dinâmica dos navios e plataformas.” Essa é uma das funções dos profissionais da área de perfuração da Petrobras que são auxiliados pelas instituições de pesquisa como o IPT e a USP.

“Muitas vezes as instituições recebem e-mails dos profissionais que estão nas plataformas perfuradoras na bacia de Santos para a elaboração de previsões de cálculos.” Tudo é feito com muito cuidado porque, além de o sal ser facilmente fraturável, é preciso perpetuar e preservar o poço evitando o aprisionamento da broca. “Perfurar o sal não é difícil, o problema é o deslocamento que pode ocorrer, fechando o poço”, diz o professor Giuseppe Bacoccoli, da área de petróleo e gás da Coppe-UFRJ e ex-funcionário da Petrobras. Conter o desmoronamento é uma missão particularmente difícil num tipo de rocha salina chamada de taquidrita. As outras duas são a halita e a carnalita, mais resistentes. Para isso, as equipes de exploração têm que ser rápidas para preservar o poço e recuperar as brocas, peças muitas vezes perdidas na exploração da camada pré-sal na bacia de Santos.

Cimento e aço - Ao se furar um terreno é preciso colocar um revestimento de aço e preencher o espaço entre essa camada e a rocha com um cimento especial. Mesmo com esses cuidados, a pressão do sal pode deformar o aço. Para evitar isso, a empresa está estudando materiais mais resistentes. “Se o aço ou o revestimento for muito pesado, isso vai influir na capacidade da sonda em descer esses materiais pelo poço. É preciso encontrar um equilíbrio”, relatou o geólogo Cristiano Sombra, coordenador do Prosal. Por todo o ineditismo e pelos cuidados necessários que envolvem muito estudo de engenharia e a coordenação do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) e da área de exploração e produção, ambos da empresa, o custo da perfuração do primeiro poço foi de US$ 240 milhões. No total, a Petrobras gastou US$ 1,7 bilhão em 15 poços. As próximas perfurações devem cair para US$ 60 milhões. “Em Campos, em poços no pós-sal o custo chega a no máximo US$ 15 milhões”, diz o professor Bacoccoli.

Um dos desafios que parecem estar parcialmente resolvidos para a exploração em águas ultraprofundas são os risers, as tubulações flexíveis que levam petróleo e gás do poço às plataformas. “Os risers para operação em profundidades superiores a 2.500 metros estão em fase de desenvolvimento final e homologação”, diz o professor Celso Pesce, do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli. “Os novos serão úteis, independentemente se a exploração ocorre ou não no pré-sal”, diz. Com outros pesquisadores da Poli, Pesce desenvolve estudos com o objetivo de analisar o comportamento estrutural e mecânico dos risers, em projetos de parceria com a Petrobras e as empresas fabricantes desses artefatos, com financiamento da FAPESP, Finep e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), inclusive os risers para grandes profundidades. Os estudos envolvem a relação do movimento das unidades flutuantes sujeitas à acão dos ventos e das ondas, além da transmissão dos esforços às tubulações que vibram com a correnteza. A maneira de manter essas estruturas em operação, em lâminas d’água de 3 mil metros, e fazer com que elas não tenham fadiga mecânica são alguns dos fatores estudados na Poli.

Pesce aponta outro desafio para os risers que vão operar no pré-sal. “A temperatura do óleo a ser extraído está entre 60 e 70° C e numa pressão interna muito grande. A camada externa do tubo em contato com a água do fundo mar é muito mais fria com temperaturas que giram em torno dos 4° C e a perda de calor favorece a formação de parafinas que obstruem o duto. Isso acontece também nos poços de pós-sal. A solução utilizada hoje é remover a parafina do interior do tubo com um equipamento chamado de PIG que funciona como um desentupidor. “É preciso desenvolver novas concepções de tubulações, mas que tenham isolamento ou controle térmico e evitem a formação de parafinas”, diz Pesce, que participa da Rede de Estruturas Submarinas, uma das 40 redes que a Petrobras mantém com dezenas de instituições de pesquisas no país (leia em Pesquisa Fapesp n° 127).

A corrosão é outra questão que os engenheiros vão ter que enfrentar para perfurar poços há 6 ou 7 mil metros de profundidade. “Os tubos e as válvulas instaladas no fundo do mar, as chamadas árvores-de-natal, terão que ser mais resistentes porque naquele ambiente existe muito dióxido de carbono (CO2) e enxofre”, diz o professor Nishimoto. “Esses componentes mais a agressividade química e instabilidade estrutural do sal não são usuais para a Petrobras”, diz o professor Trevisan, da Unicamp.

Há vagas - Os vários desafios devem envolver muitos profissionais. Os números ainda são incertos, mas as áreas já estão definidas. “Serão necessários profissionais nas áreas da indústria metalomecânica, química de petróleo, logística e serviços, por exemplo”, diz Trevisan. Os formandos das universidades e institutos de pesquisa continuarão a ter grande procura por parte da empresa. “Em mais de 20 anos, o Cepetro já formou mais de 300 mestres e doutores que foram trabalhar na Petrobras.” Números também significativos aparecem na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na UFRJ, na USP e na Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde se iniciou, no campus de Rio Claro, a construção do Unespetro, um complexo voltado para a pesquisa e o ensino aplicados à indústria do petróleo, com foco na geologia e no ambiente. O investimento inicial para a edificação e para a compra dos equipamentos é de R$ 5 milhões totalmente bancados pela Petrobras. Num prédio de 1.600 m² vão funcionar o Centro de Geologia Sedimentar (CGS) e o Núcleo de Excelência em Petrologia Carbonática (Nopec). “A Petrobras entrou em contato com a Unesp em maio de 2007 depois de tomar a decisão de estabelecer no país um centro de pesquisa em rochas carbonáticas, aquelas que estão na camada pré-sal e são responsáveis por abrigar o petróleo e o gás recentemente descobertos”, explica o professor Dimas Dias Brito, do Departamento de Geologia Aplicada do Instituto de Geociências e Ciências Exatas e responsável pelo projeto Unespetro. “O curso de geologia de Rio Claro tem quase 40 anos e vários de nossos docentes, inclusive eu, já trabalharam na Petrobras”, conta Dias Brito. Os investimentos da Petrobras já permitiram que 18 geólogos da empresa fizessem na Unesp, neste ano, um curso sobre rochas carbonáticas com duração de seis meses. “No centro, nós vamos estudar todo o tipo de rocha calcária da margem atlântica brasileira, do pré-sal ao pós-sal. Os desafios da geologia são enormes e espetaculares. Hoje o geólogo brasileiro, representado pelos colegas da Petrobras, vive um momento mágico”, conclui Dias Brito.

Uma história antiga

Uma conjunção interessante de fatores geológicos e climáticos preparou de forma aleatória o petróleo e o gás que estão no subsolo marinho, abaixo de uma camada de sal no litoral sudeste-sul sob águas profundas e distantes da costa. O reservatório é composto por rochas carbonáticas que foram formadas pela ação de cianobactérias há milhões de anos. Com o desmembramento do supercontinente Gondwana, que resultou na América do Sul e na África, lagos se formaram ali no período entre 145 milhões e 113 milhões de anos. Logo depois começou a invasão de água salgada do mar. As bactérias começaram então a interagir e a crescer no ecossistema carbonático raso recém-formado, onde imperavam temperaturas e salinidades elevadas. Dessa ação microbiana foram gerados pacotes calcários, que mais tarde vieram a “hospedar” o petróleo gerado pela transformação da matéria orgânica de plânctons, microorganismos que vivem nas águas, acumulada nos antigos lagos. Assim, ao longo de milhões de anos, o soterramento progressivo das rochas lacustres aqueceu e pressionou essa matéria que se transformou em hidrocarbonetos (gás e petróleo), depois expulsos em direção às rochas carbonáticas onde ficaram confinados.

“A espessa camada rochosa de sal, impermeável, com centenas de metros de espessura, que funcionou como um escudo e impediu o petróleo de migrar para as rochas do pós-sal, se formou num espaço de tempo geológico curto, algo na ordem de 500 mil anos, possivelmente entre 113 e 112 milhões de anos atrás, quando aconteceu uma grande evaporação da água do oceano juvenil primitivo”, explica o professor Dimas Dias Brito, da Unesp. A camada de sal também existe em outras regiões, mesmo em terra, como, por exemplo, no município de Carmópolis, em Sergipe, onde a Petrobras extrai óleo em vários poços. “Mesmo o petróleo da bacia de Campos (extraído desde os anos de 1970) tem origem em camadas abaixo do sal. Trata-se de hidrocarbonetos que escaparam para as rochas superiores, calcários e arenitos, por meio de rasgos existentes na camada de sal, em áreas sob mar mais raso, onde a camada é mais fina. Assim, a maior parte do petróleo extraído no Brasil tem origem nos lagos antigos que precederam o Atlântico Sul.” Ele lembra que os reservatórios carbonáticos do pré-sal, iguais a outros, não são enormes cavidades cheias de petróleo. Tanto o petróleo como o gás estão alojados em camadas de rochas que apresentam poros interligados.

Embora não tenha maiores detalhes sobre as novas jazidas, Dias Brito lembra que essas formações carbonáticas com cianobactérias são únicas no mundo, porque as outras formações calcárias existentes, também associadas a petróleo, têm outras origens.

Pesquisa Fapesp Online

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