Arquivo de 4 de Novembro de 2008

Otan dedica-se a aplicar progressivamente sua estratégia da “afeganização”

Laurent Zecchini

Eles tentaram de tudo, mas de nada adiantou: por mais que os responsáveis militares e os diplomatas garantam que o número de incidentes envolvendo o uso de armas diminuiu de 35% em Cabul de um ano para cá, o sentimento de insegurança não pára de aumentar. Três assassinatos recentes reforçaram a impressão de que a capital afegã está tanto menos segura que ela se encontraria “sitiada” pelos insurretos.

A realidade revela ser mais contrastada: houve efetivamente um crescimento da criminalidade, que na maioria dos casos está vinculada ao tráfico de drogas e aos seqüestros perpetrados por motivos sórdidos.

Assim, os dois ocidentais que foram mortos em 25 de outubro teriam sido aparentemente eliminados por não terem concordado com a utilização da sua própria empresa (a DHL) para exportar heroína. Entretanto, globalmente, o número de atentados suicidas e de ocorrências de ataques perpetrados por meio de artefatos explosivos improvisados (IED) antes diminuiu. Além disso, embora nenhuma das estradas que conduzem a Cabul seja verdadeiramente segura, a capital não está ameaçada de tornar-se alvo de um ataque planejado dos talebans.

Durante a noite, a polícia reforçou as suas rondas e, daqui para frente, está onipresente nas principais encruzilhadas da cidade. Enquanto isso, as patrulhas do Exército Nacional Afegão (ENA) se multiplicaram. Esta visibilidade é um sinal do aumento considerável da capacidade do ENA, para o qual a Força Internacional de Assistência para a manutenção da Segurança (ISAF, sob o comando da Otan - Organização do Tratado do Atlântico Norte), entregou a responsabilidade do controle da cidade de Cabul, desde 28 de agosto. Desde então, a situação não se deteriorou, e os afegãos enxergam neste fato a prova da eficiência das suas forças de segurança.

Esta transmissão de poder reflete uma concretização da política conhecida como “de afeganização”. Concretamente, enquanto os 3.500 soldados afegãos estacionados em Cabul passaram a atuar na linha de frente, eles também contam com o apoio dos 3 mil homens da ISAF colocados sob o comando do general francês Michel Stollsteiner, o “patrão” do comando regional das operações no centro do país.

Se esta transição tiver prosseguimento sem que sejam registrados incidentes mais graves, o ENA ampliará o seu controle nos arredores da capital, até assumir o controle de toda a província de Cabul, a partir de março de 2009.

A Otan vem se esforçando para reconquistar terreno em volta da capital, de maneira a fazer com que o ENA possa instalar novamente suas guarnições, e com isso, devolver confiança à população. Depois da demonstração de força à qual se dedicaram as tropas da Otan, em 18 de outubro, no vale de Uzbin, uma “choura” (assembléia) foi organizada com os “maleks” (prefeitos), que se queixavam do assédio e da truculência dos talebans.

“O centro de gravidade em torno do qual tudo será decidido”, insiste o general Stollsteiner, “é a população. As forças que conseguirem conquistar o apoio da população levarão a melhor. É necessário que os afegãos tenham o sentimento de que nós os protegemos mais do que fariam os insurretos”.

“O objetivo”, insiste o general canadense Richard Blanchette, porta-voz da ISAF, “é de conseguirmos formar um “espírito de guarnição” local entre a população e o ENA, combatendo a propensão dos insurretos a implantarem um “governo fantasma” [uma administração paralela àquela de Cabul]”.

A “afeganização” também comporta uma estratégia da reconciliação. Trata-se de uma política de passos curtos, difícil de implementar em razão do esmigalhamento dos movimentos de luta talebãs, e porque a guerra enfraqueceu a estrutura tribal pachtun. No âmbito do governo, o debate em torno dos limites da reconciliação está longe de chegar a uma conclusão, tanto mais que um processo desta natureza, que passa pelo escalão local, segue antes um rumo inverso daquele da centralização do poder que por muito tempo foi preconizada pelo presidente Hamid Karzai e os americanos.

Contudo, o fato é que esta política de centralização não está rendendo os frutos esperados, em todo caso, não de modo suficiente e sem a agilidade desejada.

A Otan operou essa nova guinada de maneira progressiva: “Neste momento, nós estamos estudando até onde o poder central poderia ser descentralizado. Esta poderia constituir a melhor solução, principalmente nas regiões fronteiriças com o Paquistão”, confirma o general Blanchette. “Mas é também uma decisão muito política, e o governo Karzai precisa assumir a sua inteira responsabilidade”, apressa-se a acrescentar o oficial. Segundo explica um membro do Conselho Nacional de Segurança (um órgão presidido por Hamid Karzai), o governo deverá encarregar os governadores de conduzirem essas negociações em nível local.

Não faltam os obstáculos que deverão dificultar o duplo processo da “afeganização” e da reconciliação. Entre estes, já podem ser apontados o calendário eleitoral (a eleição presidencial deverá ser realizada em setembro de 2009) e a decisão da Otan de adotar uma atitude mais ofensiva para lutar contra o narcotráfico.

Na província de Cabul, as inscrições da população nas listas eleitorais deverão ser realizadas de 5 de novembro a 5 de dezembro, e tudo leva a crer que os insurretos irão fazer de tudo para dificultar este processo democrático, por meio de um recrudescimento da violência. Além disso, esta última só poderá ser atiçada pela decisão da Otan de desmantelar as redes de exportação da heroína.

“Esta estratégia antidrogas é necessária”, considera um diplomata, “mas é preciso prever desde já que ela irá constituir um chute num ninho de marimbondos. Isso é verdadeiro não apenas para os talebans”, avalia, “como também para todos aqueles que, nos círculos do poder, são beneficiados pelo dinheiro da droga”.

Portanto, mais do que nunca o caminho a ser seguido para enfrentar o duplo desafio da “afeganização” e da reconciliação é incerto. E tão difícil quanto será o processo de seleção entre os insurretos “reconciliáveis” e os “jihadistas globais” - militantes islâmicos promotores da “guerra santa” pelo mundo afora. “Com estes últimos, não existe nenhuma possibilidade de diálogo”, lembra um assessor do governo afegão. “Eles combatem em prol do além, não em favor desta terra”.

Le Monde

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O ÚLTIMO ESTÁDIO DO CAPITALISMO DE ESTADO

Robert Kurz

Crise, qual crise? Assim se fazia ouvir até há pouco tempo a jactância dos ideólogos liberais, de direita e também de esquerda, que acreditam na vida eterna do capitalismo. Escondia-se cada vez mais não só que esta espécie de sociedade tem uma história, mas também que se trata da história de uma dinâmica cega. Justamente nas duas últimas décadas, pretendia-se perceber apenas os “eventos” passageiros nas formas sociais a-históricas da ontologia capitalista. Isso vale para as pessoas comuns e para os pobres, tal como para as elites. À semelhança do personagem Dorian Gray no romance de Oscar Wilde, parecia que, em vez do capitalismo, só a imagem do mundo social por ele criado envelhecia, assumindo os traços da miséria, enquanto a lógica do dinheiro brilhava num falso frescor juvenil. A “segunda-feira negra” do maior crash financeiro da história revelou agora de um só golpe o verdadeiro rosto do Dorian Gray capitalista.

Mas ninguém quer reconhecer o carácter do novo surto de crise. A confiança atávica no capitalismo conduz apenas à busca de culpados. As “práticas nada sérias” dos especuladores e a “política económica anglo-saxónica” é que devem ser responsabilizadas pelo desastre. Tal explicação míope, com tom anti-semita, já foi mobilizada repetidamente no passado. Há mais de 20 anos que uma onda de crises financeiras acompanha a globalização. Todas as medidas aparentemente bem-sucedidas para evitar uma “fusão nuclear” do sistema financeiro internacional só lograram adiar o problema, mas não solucioná-lo. O actual desenvolvimento rebenta todas as concepções até agora vigentes; de modo nenhum afectou apenas o sector dos créditos hipotecários nos EUA, mas provocou também uma reacção em cadeia, que ainda está longe do fim. As causas já não podem continuar a ser localizadas na falha individual e nas deficiências morais dos actores, só podem residir no núcleo da economia real do sistema.

O capitalismo não passa de acumulação de dinheiro como fim em si mesmo, dinheiro cuja “substância” consiste na utilização continuamente ampliada da força de trabalho humana. Simultaneamente, porém, a concorrência conduz a um aumento da produtividade, que torna a força de trabalho supérflua numa escala cada vez maior. Apesar de todas as crises, tal autocontradição parecia resolver-se sempre numa regeneração da absorção maciça de força de trabalho por novas indústrias. O “milagre económico” depois de 1945 transformou essa capacidade do capitalismo em artigo de fé. Mas, desde os anos 1980, a terceira revolução industrial da microeletrónica trouxe uma racionalização qualitativamente nova, que desvaloriza a força de trabalho humana numa dimensão nunca vista. A “substância” real da valorização do capital derrete-se e não estão à vista novas indústrias com potencial de crescimento auto-sustentado. O neoliberalismo foi apenas a tentativa de gerir com meios repressivos a crise social daí decorrente, por um lado, e de produzir um crescimento “sem substância” do “capital fictício” mediante o inchaço desenfreado do crédito, do endividamento e das bolhas financeiras nos mercados de acções e de imóveis, por outro lado.

Mas essa abertura mundial das comportas monetárias e, sobretudo, a avalanche de dólares produzida pelo Banco Central dos EUA já foram um pecado cometido pelo chamado monetarismo, que postulara como cerne da doutrina neoliberal a redução forçada da massa monetária. Na verdade, a inundação de dinheiro, criado pelo Estado a partir do nada, subsidiou uma inflação de activos patrimoniais fictícios. O paradoxal “socialismo do dinheiro sem substância” sofre agora seu “Waterloo”, como antes já ocorrera com o capitalismo de Estado do Leste Europeu e com a versão keynesiana do crescimento fomentado pelo Estado no Ocidente. A estatização de facto do sistema bancário dos EUA e o plano do Secretário do Tesouro dos EUA para conter a crise com recursos estatais só podem ser avaliados como actos de desespero. Da noite para o dia revelou-se o carácter de capitalismo de Estado da suposta liberdade dos mercados. Já se fala ironicamente em “República Popular de Wall Street”. Mas isso não resolve nada. De certa forma, estamos perante o último estádio do capitalismo de Estado que, na melhor das hipóteses, poderá adiar o colapso dos balanços com mais emissões inflacionárias de moeda. Ao contrário de épocas anteriores, agora já não há margem de manobra para novos programas conjunturais, que teriam de se alimentar da mesma fonte.

Com isso também chegou o fim dos EUA como potência mundial. Já não é possível financiar guerras de intervenção com a caixa para despesas postais e o dólar como moeda mundial torna-se obsoleto. Mas não se vê nenhum substituto para os papéis da última potência mundial e do dólar. O ressentimento contra a “dominação anglo-saxónica” não é uma crítica do capitalismo nem merece credibilidade, pois foram os fluxos da exportação de sentido único para os EUA que sustentaram a conjuntura global do deficit. Na Ásia, na Europa e noutros lugares, as capacidades industriais não viviam de ganhos e salários reais, mas, directa ou indirectamente, do endividamento externo dos EUA. No fundo, a economia neoliberal das bolhas financeiras foi uma espécie de “keynesianismo mundial”, que agora se extingue como a anterior variante nacional do keynesianismo. Todas as “novas potências” supostamente emergentes estão inseridas de modo economicamente dependente no circuito global do deficit. A sua muito admirada dinâmica foi uma mera aparência, sem desenvolvimento interno próprio. Por isso não haverá em nenhum lugar o retorno a um capitalismo “sério” com postos de trabalho “reais”. Em vez disso, é de esperar o efeito dominó de uma repercussão da crise financeira na conjuntura mundial, ao qual nenhuma região poderá escapar. O capitalismo de Estado e o capitalismo concorrencial “livre” revelam-se como as duas faces da mesma moeda. O que está abalado não é um “modelo” passível de ser substituído por outro, mas o modo vigente de produção e de vida, como fundamento comum do mercado mundial.

O Beco

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“Devemos pensar grande”

Susan George é conhecida por suas críticas aos dirigentes da globalização corporativa e pelos livros combativos sobre a fome, o desenvolvimento e a dívida dos países pobres. Agora, argumenta, podemos aprender lições do início dos anos 40 para transformar nossas economias esfaceladas e interromper a mudança climática antes que seja tarde.

Susan George

Nosso pobre e combalido mundo está envolto em múltiplas crises. Há pobreza em massa e desigualdade crescente dentro e entre países pobres e ricos. O desastre financeiro que começou com as hipotecas subprimes se espalhou inexoravelmente pelos EUA e pelo resto do mundo, ameaçando mergulhar a economia global num período prolongado de estagnação tão severa como a Depressão. O pior de tudo é que a mudança climática e a destruição de espécies estão sendo aceleradas mais rapidamente do que muitos cientistas e alguns governos pensavam que fosse possível.

Uma crise retro-alimenta e intensifica a outra. Depois de anos de “inovações” irresponsáveis, grandes instituições financeiras estão sendo resgatadas com dinheiro público e muitos executivos pegam o dinheiro e desaparecem, enquanto milhões perdem seus empregos e frequentemente suas casas. Vejam a explosão da bolha imobiliária, o estouro especulativo das commodities do mercado, impulsionando o aumento do preço dos alimentos e da energia. O aumento dramático do preço dos gêneros de primeira necessidade mergulham outras 150 milhões de pessoas na pobreza. Comunidades pobres em recursos fazem o que podem, derrubam árvores, matam animais e super-exploram a pouca terra que têm, mas os ricos causam, de muito longe, um dano muito maior, com suas dinossáuricas pegadas ecológicas.

Defensor devoto da redução das suas emissões de dióxido de carbono, os EUA destina mais de um terço do plantio de seu milho e soja aos biocombustíveis, pressionando os preços dos alimentos para as alturas. O aquecimento global e a fúria de tempestades que ele provoca atingem mais duramente as regiões mais pobres da Terra, assim como o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC) disse há muito tempo.

Então, há um caminho de saída? Sim, mas não o ambientalista bem conhecido e há muito advogado. Desculpem-me, mas “nós” não podemos salvar o planeta nem se amanhã “nós” reduzirmos o nosso consumo de energia pela metade. Eu não estou sugerindo que os indivíduos não devam fazer todas as mudanças que puderem, mas eles não devem nutrir quaisquer ilusões de que o comportamento pessoal, ainda que virtuoso quanto à emissão de dióxido de carbono, possa fazer diferença. Os maiores destruidores não vão desistir e medidas voluntárias são ineficientes. A escala é o problema, e nossa tarefa é promover um quantitativo e qualitativo salto na ação ambiental, reconhecendo que grande pode ser não apenas bonito mas crucial, se pretendemos evitar o pior.

Um passo desses é possível? Está o planeta salvaguardado enquanto o capitalismo internacional prevalece, com seu foco no crescimento e no lucro a todo custo, com a captura predatória de recursos e com a euforia financeira? Como disse um homem sábio: “Tudo para nós e nada para outro povo parece, em todas as épocas do mundo, ter sido a máxima vil dos senhores da humanidade”. Quem disse isso foi Adam Smith, em A Riqueza das Nações, não Karl Marx.

Se Smith estiver certo e nossos “senhores” continuam a exibir voracidade e avareza, devemos organizar uma revolução mundial antes de que possamos salvar a Terra? Há algum ponto único de ataque? Se sim, por favor, diga-me o nome do Czar e o endereço do Palácio de Inverno. Ele não é para ser encontrado em Wall Street, que não apenas sobreviveu ao 11 de Setembro mas parece ter capturado o governo norte-americano, a despeito de algumas das maiores empresas terem virado pó. Nem tampouco alguém iria receber bem o sistema político que cobriu a vasta área em que essa revolução ocorreu. De alguma maneira, contudo, porque nosso sistema atual parece determinado à catástrofe, precisamos de uma alternativa entre o capitalismo “vermelho-no-dente-e-na-garra” (1) e uma insurgência mundial tão improvável como utópica.

Há um precedente histórico. Quando os Aliados enfrentaram o fascismo na Segunda Guerra Mundial, havia um adversário que lhes era tão calamitoso como o é a mudança climática para nós. Os EUA ainda não haviam se recuperado plenamente da Depressão, mas tinham em Franklin D. Roosevelt um presidente que entendeu o que era preciso. Sob sua direção, a economia se transformou espantosamente em pé de guerra num curto espaço de tempo. Minha cidade natal, Akron, em Ohio, a “capital vermelha do mundo” (2), passou a produzir pneus e equipamentos para o exército e para a força aérea. Todos os outros centros industriais também se voltaram para as necessidades militares. Os executivos-chefes se tornaram prestigiados “homens de um dólar por ano” (3), pagos com essa simbólica soma pelo Tesouro por ajudarem ao governo a encontrar objetivos quantitativos e qualitativos. Muitos desses executivos emolduraram os seus cheques de um dólar como um distintivo de honra.

Sim, ainda havia conflito entre patrões e empregados, mas no geral era um tempo de oportunidades, especialmente para as mulheres e as minorias. Os trabalhadores eram bem pagos e exibiam em alto e bom som os seus cultivos de “victory gardens” (4), as crianças usavam suas mesadas para comprar broches de guerra, o petróleo foi racionado. O país nunca tinha estado tão unido antes – ou desde então. A guerra fez o país unir esforços para superar, finalmente, a Depressão. Foi a economia keynesiana, nomeada graças ao economista britânico John Maynard Keynes.

Um esforço parecido seria necessário para enfrentar o derretimento ambiental e isso seria menos difícil do que parece. O ponto político é que o keynesianismo ecológico é um cenário em que todos ganham. As pessoas geralmente se põem frente aos governos reconhecendo o seu perigo, e elas tendem a construir coalizões para convencer os políticos de que elas votarão em quem quer que leve tão a sério uma crise específica como elas o fazem. Os políticos podem vencer com um programa keynesiano ambiental porque agora, como no momento em que o keynesianismo foi experimentado, ele promete uma sociedade altamente especializada, altamente bem paga por empregos qualificados e que renova oportunidades de exportação.

Mas onde está o dinheiro para financiar isso? O mundo está inundado de dinheiro, o problema está em chegar até ele. De acordo com a gigantesca prestadora de serviços financeiros, a norte-americana Merril Lynch, 10 milhões de pessoas no mundo estão sentadas sobre 40 trilhões de dólares em investimento potencial à vista. Os bancos devem ser informados de que, em troca das falências das garantias eles devem destinar X por cento de sua carteira de crédito para produtos ambientalmente comprometidos e tratar esse percentual sob as regras e classificações de mercado. Ele pode fazer a diferença quando concederem empréstimos aos maiores promotores do efeito estufa, em 10%.

Critérios básicos para novas construções devem ser tornar a norma, enquanto outras podem ser reconsideradas em termos simples; famílias e proprietários de terras devem receber incentivos financeiros para construir “casas verdes” e painéis de energia solar – e venderem o excesso de energia para a rede de energia. A pesquisa pode ser orientada em direção das energias alternativas e materiais fortes e ultra-leves para aviões e veículos. Falando tecnicamente, nós já sabemos como fazer essas coisas, ainda que algumas soluções limpas ainda estejam mais caras que as poluentes. A produção em massa poderia alterar isso.

A crise ambiental oferece uma oportunidade ideal para pôr o sistema financeiro global sob controle. Taxar transações financeiras correntes internacionais e outras operações de mercado é uma medida que requer apenas determinação política e algum programa. O cancelamento da dívida dos países pobres pelo G8 por uma década deveria ocorrer, com a exigência da contrapartida de que eles contribuam para o esforço global de reflorestamento, conservação do solo e coisas do gênero. Os paraísos fiscais deixariam de existir. Metade de todo o comércio mundial atual passa por ele; eles permitem que as pessoas ricas e as corporações escondam trilhões em ativos que poderiam prover os governos com pelo menos 250 bilhões de dólares por ano em arrecadação fiscal.

E quanto aos executivos relutantes e hostis? Vamos criar uma ultra-exclusiva Ordem dos Conquistadores de Carbono ou dos Eco-Heróis, dando-lhes fitas brilhantes de seda verde e dourado, para usarem em suas lapelas, e nos cartazes na frente de suas casas energeticamente neutras, e bandeirolas para os seus carros movidos à eletricidade. Poderíamos inclusive pagá-los 1 dólar por ano. Isso não seria melhor do que uma outra guerra?

Susan George é licenciada em filosofia pela Sorbonne e doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris). Autora de diversos livros, é dirigente da ATTAC-França (Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos) e presidente do conselho de administração do Transnacional Institute (Amsterdã).

Carta Maior

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A Gênese dos “Cem Anos de Solidão” (Parte I)

Gabriel Garcia Márquez já havia publicado nos anos de 1960 vários contos aparecidos em diversas revistas ou jornais latino-americanos, mas até então parecia uma das tantas promessas literárias que não vingam. Sentindo-se impossibilitado por suas tarefas como roteirista de cinema e como redator publicitário, ele decidiu-se por uma medida extrema. Ficaria trancado num lugar até colocar todo o livro que fazia tempo o incomodava em sonhos de uma só vez no papel. Para a glória das letras, assim foi que ‘Cem anos de Solidão’ veio à luz em 1967.

Na estrada para Acapulco

“Nem nos meus mais delirantes sonhos poderia eu imaginar que um milhão de pessoas poderiam ler uma obra escrita no meu quarto, com as 28 letras do alfabeto como todo arsenal, pareceria uma loucura.”

Garcia Márquez já fizera um tanto de tudo. Para desgosto da mãe, Luiza Santiaga, largara o direito para dedicar-se às letras. Tornou-se jornalista profissional para melhor se intimar com as palavras e com gente ligada aos livros, suas duas paixões assumidas. Começando na sua Colômbia, não tardou para que, no tempo da ditadura de Rojas Pinilla, o enviassem à Paris como correspondente, ideal de oportunidade insubstituível de qualquer intelectual latino-americano.

Desempregado, padeceu do conhecido roteiro comum aos ‘artistas da fome’, vagando por pensões e hotéis onde, por vezes, viveu por favor. Com a erupção da Revolução Cubana de 1959, convidaram-no para ser assumir a Prensa Latina, órgão oficial do regime fidelista criado para contrapor-se à sempre hostil mídia norte-americana.

Mudou-se então por uns tempos para Nova York, mas um desentendimento ocorrido em Cuba com o superior dele, fez com que ele se demitisse e viesse a morar na Cidade do México.

Sobrevivia fazendo roteiros e criando anúncios para uma agência de propaganda. Nada menos do que a “Walter Thompson”, uma das maiores empresas de publicidade dos Estados Unidos. Foi uma troca radical: deixou de servir a Cuba de Fidel Castro para ligar-se a Madison Avenue de Nova York. (*)

Evidentemente que aquilo o incomodava. Pulsava-lhe o talento de autor originalíssimo mas afogado pela necessidade do ganha pão diário, com família a sustentar. O estalo o acometeu dirigindo para Acapulco no seu velho ‘Opel’. A história de Macondo lhe apareceu por inteira na mente desde os 16 anos de idade forçava-o agora que a contasse. Não iria mais perder tempo, afinal iria fazer 40 anos. O livro tinha que sair de dentro dele de qualquer modo.

Afinal, lembra Mário Vargas Llosa, escrever uma novela é um ato ‘de rebelião contra a realidade e contra Deus’, uma atitude de insatisfação frente à vida, porque o autor, sempre um dissidente, não aceita o mundo tal qual é, e teima em inventar um outro mais próximo ao seu delírio. É,portanto, um deicida, um inconformado que recria um outro mundo com palavras e com a força da sua imaginação.

(*) Ainda assim, Garcia Márquez nunca rompeu com Fidel Castro como fez a maioria dos intelectuais e escritores latino-americanos conforme a Revolução de 1959 ia causando desencanto. Quando visitava Havana sempre levava consigo uma pilha de livros que ele pessoalmente selecionava para Castro ler, mantendo com ele uma relação de amizade que permaneceu inalterada esses anos todos. Tanto que hoje, octogenário, vive em Cuba procurando tratar-se de um câncer.

Na Cova da Máfia

O mundo onírico latino-americano (tela de Roberto Fabelo)
Recebeu integral apoio de Mercedes sua mulher. Entregou a ela uma suposta vara mágica que lhe permitiria prover a família e trancou-se numa pequena peça da casa que ele apelidara de ‘Cova da Máfia’. Sua residência ficava então de San Angel Inn, onde escolheu amuralhar-se, determinado que nada, a não ser caso de morte, fosse perturbá-lo. Supôs que a faina se estenderia por seis meses. Dar conta do mundo onírico que o envolvia exigiu-lhe no entanto um tempo bem maior.

Mercedes, enquanto isso, encarnou a função que a ‘abuela Mina’ - a avó materna de Garcia Márquez - desempenhara certa feita para manter a casa em ordem e com refeições diárias frente a um marido um tanto que ausente e que tinha ‘uma noção alegre do dinheiro’ (ver ‘Vivir para contarla’, 2002, pág. 97 e 98).

Ainda que amigos o procurassem para longas conversas à noite, o ritmo do trabalho de oito a dez horas por dia não se alterou. Resmas de papel eram consumidas num teclar insano da máquina de escrever. O escritor cismara acreditar que qualquer erro datilográfico que cometesse era sinal de deficiência na criação. Daí arrancar a página e rasgá-la com furor para recomeçar uma outra desde o começo.

Aos poucos a saga dos Buendias, perdidos em Macondo, lugar remoto do interior da Colômbia, tomou forma. Eram histórias que ele ouvira da matriarca da sua família, sua avó, que se misturavam a tantas outras das mulheres ‘da sua tribo’ que começaram a lhe chegar de todos os lados ao longo dos anos.

Na verdade eram recordações nostálgicas da Aracataca natal, um lugarejo alquebrado pelo sol inclemente e por borrascas arrasadoras, descrito então por ele à sombra inspiradora de um dos seus deuses tutelares: o romancista norte-americano William Faulkner.

Entre outros motivos, dava preferência aos relatos da veneranda e das tias porque segundo ele ‘são elas – as mulheres - que sustentam o mundo, enquanto que os homens o desordenam com sua brutalidade histórica’ (in ‘Vivir para contarla’, 2002, pág, 89). Era um ‘Paraíso hermético’ povoado com vozes ancestrais e outras assombrações que insistiam em entrar em contato mediúnico com ele.

Dezoito meses depois deu por findo o trabalho.

Somente muitos anos passados soube que a senhora que contratara para fazer a revisão dos originais e datilografar o material corrigido, certa vez deixara cair um maço de folhas dentro da água ao descer do ônibus. Por sorte ela as juntou uma a uma e depois, em casa, secou-as a ferro. Garcia Márquez não ficara com cópia nenhuma. Uma temeridade naqueles tempos em que não havia ainda a xerox.

O primeiro sinal

Terminados os três primeiros capítulos, ele os enviou ao novelista mexicano Carlos Fuentes, então na Europa, o primeiro a reconhecer-lhe a genialidade. “São absolutamente magistrais” - disse Fuentes entusiasmado após a leitura das 70 e poucas páginas - “toda a história ‘fictícia’ coexiste com a história ‘real’, o sonhado com o documentado, e graças às lendas, as mentiras, os exageros, os mitos…Macondo se converte num território universal, numa história quase bíblica das fundações e das gerações e das degenerações, numa história de origem e destino do tempo humano e dos sonhos e desejos com que os homens se conservam e se destroem”.

Fragmentos da novela começam a aparecer em Bogotá, Lima, México e até Paris. A recepção foi unânime. Um novo fenômeno das letras hispânicas entrava na história das letras. Cervantes, enfim, achava um sucessor. (ver Mário Vargas Llosa - Garcia Márquez, historia de um deicidio, pág.77-84)

Todavia, as dificuldades financeiras do casal Márquez não se haviam desfeito. Mercedes amealhara uma dívida de dez mil dólares enquanto o marido se enfurnava para exorcizar os demônios de dentro de si. Para despachar o chumaço de páginas para o Editorial Sudamericana de Buenos Aires eles precisavam de 82 pesos. Contando os tostões, Mercedes alcançou apenas 53. Decidiram então dividir em dois o pacote. Na atrapalhação, remeteram a segunda parte. Felizmente, o editor ansioso logo tratou de enviar-lhes o valor necessário para que tudo fosse logo imprimido.

O livro surgiu então em junho de 1967, tendo um sucesso estrondoso. Nos três anos seguintes vendeu quase 500 mil exemplares. Em razão disto, acumularam-no de prêmios na Itália, na França e nos Estados Unidos. Assustado com tudo, Garcia Márquez então se mudou para Barcelona atrás de sossego. De pouco serviu, pois a imprensa e os editores, tentando saltar pela parede de negativas e silêncio que Mercedes formara ao redor dele, o perseguiam por todos os lados.

O dinheiro recebido, mesmo com a chatice do assédio correspondente à fama atingida, deixou-o muito bem de vida. Permitiu que ele por fim realizasse a ambição de se consagrar apenas às letras e a nada mais. Para sorte os seus leitores, nesses últimos quatro decênios, ele os têm abastecido de incontáveis outras novelas (’O amor em tempo de cólera’, ‘O general e seu labirinto…., ‘Crônica de uma morte anunciada’, ‘ Ninguém escreve ao coronel’, ‘Do amor e outros demônios’, ‘Memórias de minhas tristes putas’).

Nem o Prêmio Novel que recebeu em 1982 fez por alterar a qualidade do que continua a sair da sua prodigiosa imaginação fazendo dele e dos ‘Cem Anos de Solidão’ o maior sucesso literário da língua espanhola desde que Cervantes mandou imprimir a primeira parte de ‘D.Quixote de la Mancha’, em 1605.

A Gênese dos “Cem Anos de Solidão” (Parte II)

Edição magistral

Para afirmar ainda mais a sua exaltação como autor quase que insuperável das modernas letras hispânicas, Garcia Márquez viu-se premiado com uma edição especial da Editora Alfagarra, a pedido da Real Academia Espanhola de Letras, que imprimiu 650 mil exemplares dos ‘Cem Anos de Solidão’, numa tiragem especial que contém excelentes artigos introdutórios de Álvaro Mutis, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa, Víctor García de la Concha e Cláudio Guillén. Poucos autores alcançaram em vida tal homenagem.

Educação

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MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

“Entupiu o sistema circulatório do capitalismo. É preciso agir rápido, antes que ocorra a trombose”

Em entrevista à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares fala sobre a crise. “As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso”, adverte. Para ela, o Brasil tem algumas vantagens importantes para enfrentar a crise, entre elas a existência de três fortes bancos estatais e pelo menos três grandes empresas públicas de peso, salvas do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior. Isso dá ao governo instrumentos para intervir fortemente no mercado.

Decana dos economistas brasileiros, uma espécie de banco de reflexão de última instância ao qual se socorrem economistas quando o horizonte do mercado exibe mais interrogações que cifrões, a professora Maria da Conceição Tavares, 78 anos, quase não dormiu na noite de terça para quarta-feira. E voltou a fumar, muito, o que não deveria, por orientação médica. Motivo: os abalos seguidos nos alicerces do sistema capitalista norte-americano e seus efeitos sísmicos no mundo, inclusive no Brasil.

Conhecida pela rara capacidade de equilibrar razão e paixão – não necessariamente nessa ordem - , costuradas em frases contundentes e metáforas esmagadoras sobre os desafios da economia e do desenvolvimento, Conceição falou à Carta Maior sobre a crise em curso no sistema capitalista. A voz rouca e o cansaço de uma noite insone não impedirem que reafirmasse a reputação construída a partir de uma lucidez corajosa, que mesmo os adversários respeitam - e temem.

A seguir trechos de sua conversa com a Carta Maior:

“A questão central é que o crédito está congelado: entupiu o sistema circulatório do capitalismo. Sem crédito uma economia capitalista não funciona. Agora é torcer para que o entupimento não se transforme em trombose”.

“O Martin Wolf foi lento (NR: editor do Financial Times, conhecido pelas convicções neoliberais que, em artigo transcrito hoje pelos jornais brasileiros, pede um resgate estatal urgente, e amplo, do sistema bancário). Assim como ele, as autoridades norte-americanas também foram lentas. Demasiado lentas. Vão dizer que não sabiam o tamanho do estrago? Ignoravam a gravidade da bolha especulativa feita de hipotecas podres e derivativos, cuja soma vai além de US$ 6 trilhões, sem falar do resto? Como não sabiam? Eles são gente de Wall Street. São escolhidos entre os “piranhões” do mercado. Não podem dizer que não sabiam. O problema não é esse. O problema é que eles acreditam no mercado. Essa é a tragédia. Esperaram até o limite da irresponsabilidade para intervir. Aí perderam o controle e estão diante do pânico: ninguém empresta a ninguém, entupiu o sistema circulatório do capitalismo”.

“Agora tem de fazer isso mesmo, estatizar parcelas abrangentes do sistema financeiro; implantar safenas. Não é isso que estão fazendo? O FED já começou a descontar commercial papers direto no mercado. Tem que intervir largamente, e rápido. Eles são o centro da crise mundial. Mas um pânico financeiro não respeita fronteiras”.

“O problema do Brasil não são os fundamentos, que no geral são bons. Mas aqui também foram feitas operações especulativas por grandes empresas exportadoras. Ou será que a Sadia e a Aracruz agiram solitariamente? Não agiram. Não foram exceções. Foram irresponsáveis. Não se contentaram em contratar hedge (seguro) contra a variação cambial. Quiseram apostar quantias fantásticas na variação futura do câmbio e apostaram errado. Jogaram na valorização do Real o que é insólito, diga-se. Como exportadores deveriam engrossar as vozes que pediam maior competitividade da moeda brasileira. Mas apostaram. erraram e isso abriu rombos que a Sadia, felizmente, já reconheceu no seu balanço. Digo felizmente porque não pode pairar dúvidas no mercado sobre o tamanho e a abrangência desses prejuízos ou isso gera incerteza e a desconfiança bate nas taxas do dólar.”

“O Banco Central tem o registro, sabe quem fez operações de hedge, mas não sabe quem derivou daí a segunda operação, especulativa. Se soubesse deveria intervir, sanar rapidamente o problema para evitar essa incerteza. Mas o BC, infelizmente, não tem os controles de operações que são totalmente desreguladas. O jeito então é intervir direto no mercado. Impedir a disparada do câmbio que dificulta a vida dos exportadores e importadores. A volatilidade impede o fechamento de contratos de exportação e importação; isso desequilibra a oferta de dólares e empurra ainda mais as cotações. O BC deve intervir direto vendendo dólares (NR: foi o que ocorreu depois que Conceição falou a CM). Não adianta mais fazer swaps (contratos futuros), precisa vencer moeda mesmo. Moeda das nossas reservas – fazer o quê? Note que não há fuga de capitais, não é como no passado. Se fosse fuga de capitais, a simples existência de reservas de US$ 207 bilhões controlaria. O diabo não é fuga, nem inflação, nem recessão… É irresponsabilidade, exportadores- especuladores”.

“As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso. É preciso entender, porém, que a crise atual não é semelhante a de 1929. Claro, há elementos comuns, como o derretimento das ações e a fuga de ativos podres. Mas o dramático que a distingue daquele episódio dos anos 30 é o congelamento do crédito, fruto da desconfiança generalizada sobre o que vale o quê numa economia papeleira. A aversão ao risco gera a fuga dos ativos, todos querem se desfazer deles ao mesmo tempo e os bancos não emprestam a ninguém. Entope o sistema circulatório capitalista. Na crise de 1929 o crédito também refluiu mas isso se deu na esteira da desaceleração da atividade econômica, que foi brutal, caiu mais de 25% nos EUA. A recessão então é que diminuiu a demanda por financiamento. Hoje não. A economia não está em recessão – exceto talvez no Japão e engatinha na Europa. Mas é justamente esse paradoxo que mata o sistema: não existe crédito para a atividade econômica em curso. Pára tudo –e de repente: daí o pânico”

“O Brasil tem algumas vantagens importantes em relação a outros emergentes. E o governo Lula deverá saber usá-las. Primeiro, nós não somos exportadores de petróleo e metais – nesse sentido a crise pega a Venezuela e o Chile de frente. Vão ter problemas sérios porque as cotações despencam. Nós vendemos comida e isso deve se manter em bom nível. Segundo: temos, graças a Deus, três fortes bancos estatais, o que dá ao governo instrumentos para intervir fortemente no mercado. Mais ainda, temos pelo menos três grandes empresas públicas de peso, um trunfo que conseguimos salvar do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior”.

“O que é preciso, portanto, é agir com rapidez e contundência. Desentupir o sistema de crédito. Por exemplo? O Banco Central deve obrigar os bancos a repassarem de fato os recursos liberados do compulsório para irrigar a economia (NR: uma das medidas já tomadas foi a redução do percentual de recolhimento de depósitos à vista no BC) . Eles têm que emprestar a quem precisa. O governo fez a sua parte, deu a cenoura para os grandes bancos repassarem liquidez. Se eles insistirem em segurar recursos o governo deve impor uma penalização forte sobre o volume retido. Já demos a cenoura - se a mula empaca é hora do stick (o porrete)”.

Carta Maior

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No Alasca, a febre do petróleo divide a comunidade dos esquimós inupiats

Nicolas Bourcier

Vista das alturas, uma vasta planície de terra negra e de vegetação selvagem se estende até mergulhar abruptamente no mar. Este cenário tem como pano de fundo uma gigantesca cadeia de montanhas que ocupa toda a linha do horizonte. É neste lugar, situado no grande norte do Alasca, a poucos quilômetros da fronteira com o Canadá, que Sarah Palin, a governadora do Estado e companheira de chapa de John McCain, o candidato republicano à Casa Branca, quer cavar o solo para dele fazer jorrar petróleo.

Seja bem-vindo à “Zona 1002″, o Artic National Wildlife Refuge (ANWR - Reserva nacional de vida selvagem da região do Ártico, onde, por enquanto, a exploração de petróleo é proibida). Este parque, no qual a presença humana está limitada aos cerca de trezentos esquimós inupiats da aldeia de Kaktovik, divide os defensores do meio-ambiente e os partidários de uma exploração dos recursos da reserva. Estes últimos acreditam que esta exploração seria um meio para diminuir a dependência dos Estados Unidos em relação ao petróleo bruto do Oriente Médio.

No caso, este debate tem sido retomado de maneira recorrente nos últimos vinte anos, a partir do momento em que a produção de petróleo das jazidas do Alasca apresentou os primeiros sinais de esgotamento. Em duas oportunidades, o presidente George W. Bush, apoiado pelos grandes grupos da indústria petroleira, entre os quais a Exxon, a Shell e a Conoco Phillips, tentou obter do Congresso a autorização para perfurar poços na região. Nas duas ocasiões, o projeto foi rejeitado por uma diferença de poucos votos.

No médio prazo, segundo as previsões da atual administração, a ANWR poderia fornecer um milhão de barris por dia durante cerca de trinta anos, ou seja, o equivalente de pouco menos de 4% das importações americanas. Insistindo nos argumentos que vinham sendo defendidos por George W. Bush, Sarah Palin promete uma exploração “responsável”, atenta para o respeito dos equilíbrios ecológicos, e que prejudicaria apenas uma “pequena parte” da reserva na sua área litorânea.

Essas declarações deixam as organizações ecológicas escandalizadas. “Serão necessários entre sete e dez anos de trabalho até que essas obras consigam obter as primeiras gotas deste ‘ouro negro’, e a diminuição do preço na bomba que resultar desta exploração será de alguns centavos de dólar, não mais”, sublinha Peter Van Tuyn, um advogado de Anchorage. “Portanto, nós continuaremos na dependência do petróleo importado, só que, além disso, teremos de aturar a presença de novos oleodutos e o impacto de uma série de danos ambientais que irão comprometer ainda mais o equilíbrio da região; ou seja, aumentarão os riscos de vermos o Alasca ser transformado no palco de uma poluição de grandes dimensões”.

Vazamentos tóxicos

Em Nuiqsut, a primeira aldeia esquimó que o viajante encontra depois de uma viagem de avião de uma hora, situada a oeste de Kaktovik, a querela já está ultrapassada. Aqui, em volta das construções provisórias de madeira sobre pilotis plantados no meio de uma tundra, as perfurações implantadas a algumas milhas de distância apenas, bombeiam sem interrupção. Há pouco mais de dez anos, os 450 habitantes desta área aceitaram alugar suas terras para as companhias petroleiras. Foram dez anos de uma exploração que rendeu cerca de US$ 5.000 (cerca de R$ 9.500) em royalties, por família e por trimestre. Além de um abastecimento em gás gratuito, complementado pelo fornecimento de gasolina a preço muito reduzido (US$ 3,75 - R$ 7,125 - o galão, ou seja, pouco menos de 1 dólar o litro) para alimentar as vans 4×4 que transitam constantemente em volta da aldeia, por causa da inexistência de estradas praticáveis na região.

“Eles começaram sem avisar propriamente a população”, recorda-se James Taalac, 38 anos, um cidadão encarregado da salvaguarda cultural da comunidade em relação com a indústria petroleira. “Inicialmente, os veteranos lutaram contra o projeto, mas tiveram de se render diante do fato consumado. Aquilo era inevitável. A exploração ajudou a nossa economia e modernizou a aldeia. Muitos outros municípios não tiveram a mesma sorte e enfrentam dificuldades até hoje”. Entretanto, ele reconhece que alguns esquimós inupiats enxergam na extração do petróleo uma fonte de destruição para o meio-ambiente e a sua cultura tradicional.

No total, pelo menos 6 mil poços foram perfurados nesta região que se estende até a cidade de Prudhoe Bay, onde fica o ponto de partida do oleoduto que atravessa o Alasca, de norte a sul, até Valdez. Duas plataformas em alto-mar da British Petroleum (BP) foram construídas e 2.000 quilômetros de oleodutos foram implantados ao ar-livre, formando um dos maiores complexos industriais no mundo. “Nós acabamos nos tornando dependentes desta indústria em menos de dez anos”, explica um caçador esquimó.

Segundo informam as próprias companhias que exploram o petróleo, haveria uma centena de ocorrências de vazamentos tóxicos por ano; peixes que foram analisados em laboratório conteriam taxas elevadas de PCB (ou bifenil policlorado, um composto químico de alta toxicidade e persistência ambiental, muito danoso para o ser humano); porções de terra fértil estariam impregnadas de bário, de clorato e de benzeno, três elementos químicos também altamente tóxicos; a fauna selvagem estaria diminuindo, prejudicada pela poluição sonora das instalações e dos oleodutos.

“Quando tudo começou, eles nos prometeram cinqüenta novos empregos por ano”, lembra amargamente Rosemary Ahtuangaruak, que é membro do conselho regional tribal de Nuiqsut. “Mas eles nunca tomaram qualquer providência nesse sentido”. Esta personalidade local enumera as diversas repercussões sanitárias e sociais sobre a região desde o começo da exploração do petróleo. A asma, que é provocada pelas fumaças tóxicas, atinge praticamente um membro de cada família. O número de casos de distúrbio da tiróide é elevado. Além destes, outros indicadores transmitem a imagem de uma comunidade sob tensão: os casos de vandalismo, de violência doméstica, de abuso de álcool e de drogas vêm aumentando constantemente.

“Nós perdemos o controle da situação, e nós não podemos interromper essas atividades”, explica Rosemary, alarmada.

Le Monde

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A derrota por trás da vitória

Expansão municipal do PT mostra que quem ganhou não foi o partido da luta, mas o do clientelismo

José de Souza Martins

Num país em que os grandes partidos têm sua identidade anulada por um número excessivo de pequenos partidos sem perfil ideológico e sem projeto político, os resultados de eleições como a eleição municipal recente são, no geral, enganadores mesmo quando não são surpreendentes. Desde que o clientelismo cedeu lugar ao populismo na política brasileira, nosso processo político é dominado por grandes eleitores invisíveis, como é o caso da nossa cultura comunitária, e partidos ocultos, como é o caso das alianças de ocasião.

O Brasil é um país em que o partidário e o propriamente político nem sempre caminham juntos. Esse desencontro manifestou-se nestas eleições. Nessa perspectiva, é possível ver na expansão municipal do PT não a vitória do partido, mas sua derrota. Nas pequenas localidades de regiões pobres fracassou o PT da luta em favor do PT do poder e do neoclientelismo do Bolsa-Família.

Não é estranho que o petismo venha sendo engolido pelo lulismo, como não serão estranhos os efeitos a médio prazo dessa metamorfose que faz de um partido de esquerda um partido populista. A prática do PT no poder não o confirmou como partido de esquerda e suas estratégias políticas o mergulham numa cultura de desgaste e perda de identidade. O PT já não é um partido alternativo, como se propunha o PT dos primeiros tempos, simplesmente porque não pode ser alternativo a si mesmo.

Além disso, o carisma de Lula, que não é necessariamente medido pelos 80% de sua popularidade, começa a encontrar seu limite. O pessoal e direto envolvimento do presidente Luiz Inácio nas campanhas eleitorais dos candidatos petistas, em São Paulo e no ABC de seu domicílio e de sua origem política, não refletiu esse carisma. Não só porque carisma é intransferível, mas também porque no caso de Lula, excetuadas as regiões remotas do País, é ele considerado pessoa para se admirar, mas não necessariamente político para se obedecer e seguir. Lula pode, até mesmo, estar tirando votos dos candidatos de seu partido. Isso, provavelmente, aconteceu tanto em São Paulo quanto no ABC.

|Nesse cenário, a derrota do PT é acachapante. Em São Bernardo, lançou como candidato a prefeito um ex-ministro apoiado pelo maior cabo eleitoral do país, o presidente da República. Ali, Lula e o PT, sem o pretenderem, transformaram a eleição municipal num plebiscito para julgar o governo da República. Ao não vencerem a eleição no primeiro turno, perderam muito mais que uma eleição municipal. O mesmo vale para São Paulo, em que o PT entrou com o suposto capital social de uma candidata que é ex-prefeita e ex-ministra e também teve como cabo eleitoral o próprio Luiz Inácio. A derrota foi imensa, sobretudo porque aqui o maior eleitor de São Paulo, que é o governador José Serra, não se envolveu diretamente na campanha nem do candidato de seu partido nem do candidato da aliança política em que se apóia.

O que se agrava com a insistência na retórica de que a candidata do PT é de esquerda e representa os pobres e o candidato do DEM é de direita e representa os ricos. O que não tem apoio no patrimônio declarado da candidata petista, de mais de R$ 10 milhões, o dobro do patrimônio do candidato do DEM. O PT, em São Paulo, tornou-se prisioneiro e vítima de um periferismo antipolítico. Isso vem desde a administração de Luiza Erundina. Duas prefeitas que foram prefeitas da periferia e em nenhum momento tiveram clareza sobre a complexidade política do que vem a ser o urbano, a cidade e a metrópole. O PT revelou que não tem um projeto de revolução urbana, que transforme profundamente as condições de vida da população da metrópole. No lado oposto, desde que José Serra assumiu a Prefeitura e desde que Kassab o substituiu, fica evidente que o PSDB tem um projeto nesse sentido, ainda que tímido, numa concepção moderna e culta de metrópole.

Enquanto os votos de Kassab predominam no núcleo interior do município, os votos de Marta se distribuem num círculo ao redor desse núcleo. Há uma dinâmica nessa espacialidade eleitoral que se revela no fato de que Kassab ganhou eleitores onde Marta teve maior votação há quatro anos. E Marta não cresce onde Kassab se firma. O que tem sentido na perspectiva social-democrática, à qual o DEM aderiu na conjuntura de um pacto político que regeu sua vitória no primeiro turno.

O grande problema do PSDB, porém, é que o partido não se proponha aberta e pedagogicamente como partido da social-democracia. Num momento em que o PT já não tem condições de dizer publicamente que é um partido socialista, essa timidez do PSDB diminui o impacto que poderia ter na política brasileira. Na mesma linha de raciocínio, eu diria que o PSDB subestima e mesmo desconhece um dos grandes eleitores da política brasileira, que é a cultura comunitária de extensa parcela da população votante. O PT se apoderou desse comunitarismo sem entendê-lo e o interpretou como lealdade cega e obediente, coisa que ele não é, menos ainda em face de candidatos ricos que se passam por pobres. O PSDB aliado com o DEM, no caso de São Paulo, também sem entender exatamente o que é esse comunitarismo, empenhou-se no entanto, justamente, em governar em nome de valores comunitários, em gestos concretos de amor à cidade, em medidas civilizadas como a entrega domiciliar, regularmente, de medicamentos para os que dele necessitam, na continuidade de obras como os CEUs em nome do bem comum, porque governar é continuar o que é bom e inovar em relação ao que não o é.

No conjunto, os resultados das eleições passaram longe da concepção de que no Brasil de hoje são elas reguladas pela retórica da luta de classes e dos antagonismos sociais. Ao contrário, tanto onde o PT foi vitorioso quanto onde foi derrotado, o eleitorado mostrou-se conservador no voto e, em casos como o de São Paulo, mostrou-se conciliatoriamente moderno nas aspirações. Os eleitores recusaram a concepção depreciativa e anticomunitária de que política é o bate-boca de porta de botequim.

O Estado de São Paulo

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O porta-voz do humanismo

Holandês anunciou o fim da predominância religiosa na educação, defendeu a importância da leitura dos clássicos e o desenvolvimento do homem em todo o seu potencial

Embora fosse clérigo e profundamente cristão, o filósofo holandês Erasmo de Roterdã (1469-1536) passou para a história por se opor ao domínio da Igreja sobre a educação, a cultura e a ciência. A influência religiosa vigorou praticamente sem contestação durante toda a Idade Média no Ocidente e ainda no tempo de Erasmo era preciso ousadia para ir contra ela. De qualquer modo, ousadia individual fazia parte das atitudes que um número crescente de intelectuais começava a enaltecer no período de transição para a Idade Moderna, entre eles o filósofo holandês. O pensamento nascente defendia a liberação da criatividade e da vontade do ser humano, em oposição ao pensamento escolástico, segundo o qual todas as questões terrenas deviam subordinar-se à religião.

O antropocentrismo – o predomínio do humano sobre o transcendente – era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de humanismo. A palavra deriva da expressão latina studia humanitatis, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal.

Biografia
Geert Geertz – que depois adotaria o nome literário de Erasmo – nasceu em 1469 em Roterdã, Holanda. Era filho ilegítimo de um padre e também se ordenou monge. Aos 26 anos, foi a Paris para se doutorar e hospedou-se entre os frades do Colégio Montaigu, mas não suportou o regime de austeridade. Isso o levou a procurar sustento dando aulas e organizando compêndios de provérbios latinos. Em 1499 foi para a Inglaterra, onde fez amizade com intelectuais como Thomas More. Na casa dele, escreveria sua obraprima, O Elogio da Loucura. Convites de nobres e atividades acadêmicas levaram Erasmo a viajar pela Europa até o fim da vida. Acusado de inspirar Martinho Lutero a se rebelar contra a Igreja, Erasmo se viu obrigado a entrar em polêmica pública com o religioso alemão. O episódio se desdobrou em outras disputas teológicas até sua morte, em 1536, em Basiléia, na Suíça. A obra mais importante de Erasmo sobre educação é Civilidade Pueril.

Influência continental
A mais típica cultura humanista se desenvolveu nas cidades do norte da Itália, mas o mesmo espírito irradiou-se por toda a Europa. Entre os não-italianos, Erasmo foi o representante mais influente desssa corrente de pensamento. “Ele era o intelectual mais respeitado e prestigiado de seu tempo e sempre esteve ligado aos círculos de poder europeus”, diz Cézar de Alencar Arnaut de Toledo, professor da Universidade Estadual de Maringá.

A fonte original de todo humanismo foi a literatura clássica. A época era de redescoberta e reinterpretação da produção cultural da antigüidade greco-romana. O interesse por esse período da história foi acompanhado por uma série de mudanças profundas na vida européia: a revitalização das cidades, a formação de redes de comércio entre centros distantes, a consolidação de uma classe mercantil muito abastada, a criação de bancos e a centralização do poder político em torno de cidades ou de reinos. Tudo isso ocasionou a abertura de brechas na autoridade da Igreja, antes onipresente. Por razões evidentes, esse período histórico de grandes transições ficou conhecido como Renascimento, dando origem a uma produção cultural das mais ricas e fecundas de todos os tempos (leia quadro na página 25).

A PERFEIÇÃO POR MEIO DO CONHECIMENTO

Erasmo criticava as escolas de seu tempo, em geral administradas por clérigos que baseavam sua pedagogia em manuais imutáveis, repetições de conceitos e princípios de disciplina com traços de sadismo. O filósofo via nos livros um imenso tesouro cultural, que deveria constituir a base do ensino. “Para Erasmo, a linguagem era o começo de toda boa educação, já que é sinal da razão humana”, afirma Cézar de Toledo. Não se trata apenas de alfabetização e leitura, mas de interpretar os textos criticamente, prática que os humanistas e reformadores religiosos introduziram na história da pedagogia. Erasmo acreditava que um bom aprendizado das artes liberais até os 18 anos prepararia o jovem para entender qualquer coisa com facilidade. Como todo humanista, o pensador holandês defendia a possibilidade de chegar à perfeição por via do conhecimento. “Erasmo prenuncia novos rumos para a pedagogia ao deter um olhar mais acurado na infância”, diz Toledo. Para o filósofo, ao ensinar era necessário levar em conta a pouca idade da criança – e por isso cercá-la de cuidados específicos – e também a índole de cada uma. O programa pedagógico do pensador era generoso, mas de modo algum democrático. Segundo ele, apenas a instrução religiosa deveria ser para todos, enquanto os estudos das artes liberais estariam restritos aos filhos da elite, que futuramente teriam cargos decisórios.

Erasmo se inseria no panorama cultural como um símbolo da nova era. Num tempo em que os papas insuflavam guerras e acumulavam fortunas e o clero dava fartas mostras de ostentação, hipocrisia e arrogância, Erasmo pregou a volta aos valores cristãos originais, a começar pela paz. Sua obra mais célebre, O Elogio da Loucura, é uma sátira à inversão de valores que detectava na sociedade de seu tempo. A moralidade estava no centro das preocupações do filósofo e deveria, de acordo com ele, ser a fonte e o objetivo final da educação.

História no centro do saber
As críticas de Erasmo ao clero, assim como seu interesse pelos estudos da linguagem, o aproximaram de Martinho Lutero (1483-1546), o monge alemão que deu origem ao protestantismo. Mas o filósofo holandês combatia a idéia de predestinação de Lutero por acreditar firmemente no livre-arbítrio dos seres humanos – todos são capazes de distinguir o bem e o mal, segundo ele. Além disso, sempre pregou o diálogo entre as facções discordantes no interior do cristianismo.

No campo propriamente pedagógico, o interesse de Erasmo pelo conhecimento das línguas antigas semeou o terreno para o estudo do passado, em particular do Novo Testamento e dos primeiros pensadores da fé cristã. A ênfase na história do homem e o estudo dos acontecimentos pretéritos ergueram um dos principais pilares da educação moderna. A cultura medieval, ao contrário, se construíra em torno do ideal de intemporalidade.

ARTE COMO FILOSOFIA

Cultivo simultâneo do corpo e do espírito; procura da harmonia e do equilíbrio; elogio da vida ativa; busca do realismo, em todas as dimensões (incluindo as negativas e abjetas); e surgimento do conceito de dignidade do ser humano. Todos esses pilares humanistas, aliados aos investimentos materiais de comerciantes e nobres, deram às artes – mais especificamente à literatura e às artes plásticas – o ponto de convergência dos interesses do humanismo. A filosofia e a ciência ficaram, até certo ponto, em segundo plano, porque a obra artística passou a ser considerada manifestação filosófica. Em particular na Itália, a pintura e a escultura atingiram a perfeição pelas mãos de artistas como Sandro Botticelli, Rafael, Leonardo da Vinci e Michelangelo.

A então recente invenção da impressora de tipos móveis, pelo alemão Johannes Gutenberg, entusiasmava Erasmo com a promessa de ampla circulação de textos da literatura clássica. Ele via o conhecimento dos livros como alternativa saudável à educação religiosa que recebera. Segundo Erasmo, o ensino que havia conhecido “tentava ensinar humildade destruindo o espírito das crianças”.

Outros valores renascentistas, como a exaltação da beleza e do prazer, se encontravam em profusão nos clássicos greco-romanos. Para Erasmo, esses princípios eram mais interessantes do que as abstrações da filosofia escolástica. Além disso, dizia ele, o prazer físico e o bom humor não conflitam com o cristianismo.

Apesar da notoriedade de que desfrutou em vida, Erasmo foi desprezado pelas gerações seguintes. Suas idéias seriam retomadas cerca de um século depois pelo educador tcheco João Comênio (1592-1670), considerado o pai da didática moderna.

Revista Escola

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Triste balanço do “livre” comércio

Num caso emblemático da crise alimentar no planeta, a alta dos preços desencadeia protestos no México, obriga o governo a subsidiar a importação e desequilibra a balança comercial. Em 14 anos, Nafta devastou a economia e obrigou milhões de empobrecidos a deixar o país

Anne Vigna

Noite de reiveillon no México. Sob uma enorme faixa com os dizeres Sin maíz no hay país (“sem milho não há país”), milhares de lavradores formaram uma corrente humana em Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos. Era o 14° aniversário do Acordo de Livre-comércio Norte-americano (Nafta), estabelecido em 1° de janeiro de 1994 entre Canadá, México e Estados Unidos. Os camponeses protestavam contra a liberalização total da agricultura, que entraria em vigor justamente no início de 2008, e exigiam a renegociação do tratado. A mobilização, porém, de nada adiantou. Naquele dia, as importações de milho, feijão, açúcar e leite em pó, produtos básicos da alimentação dos mexicanos, deixaram de ser tributadas.

As organizações camponesas consideram o acordo um caminho sem volta: “dois milhões de hectares deixaram de ser cultivados, dois milhões de empregos agrícolas foram extintos e oito milhões de agricultores mexicanos viram-se obrigados a emigrar para os Estados Unidos”, resumiu Víctor Suárez, diretor da Associação das Empresas Comerciais Rurais. Essa mesma realidade foi assim expressa pela pesquisadora americana Laura Carsen: “a cada hora, o México importa 1,5 milhão de dólares em alimentos e, nesse mesmo espaço de tempo, trinta agricultores mexicanos entram nos Estados Unidos [1]”.

A concorrência dos produtos agrícolas serviu para agravar as já imensas desigualdades entre os dois países. Carlos Salazar, representante dos produtores de milho mexicanos, explica: “nós cultivamos 27 milhões de hectares; os Estados Unidos [2],179 milhões. Os subsídios à produção são de 700 dólares para o agricultor mexicano e de 21 mil dólares para o fazendeiro norte-americano. O rendimento é de 8,4 toneladas por hectare nos Estados Unidos e de 7,2 toneladas no Canadá, contra 2,5 toneladas no México”.

Com esses dados, é possível calcular que o prejuízo da abertura total das fronteiras atinja 1,5 milhão de pequenos agricultores mexicanos. Mas, apesar do dramático cenário vislumbrado, uma renegociação do setor agrícola do Nafta não está na agenda, mesmo sendo viável juridicamente. Para Alberto Cárdenas, ministro da Agricultura, “o 1º de janeiro de 2008 não alterará muita coisa: 90% do milho já entram livres de impostos no país e o mercado internacional de cereais está em alta constante, com a demanda por etanol. Nós vamos aumentar a produção nos próximos anos, porque ela voltou a ser rentável” [3].

A partir de 1994, o país triplica a importação de cereais. Agora, depende do trigo, arroz e até milho, prato nacional
Claro, cabe ao ministro tranqüilizar não só os agricultores como também os consumidores. Há exatamente um ano, a “crise da tortilla”, o alimento básico da população, reacendeu a polêmica sobre a dependência do país em relação ao milho norte-americano. O aumento incessante do preço do produto, em 2006, por pouco não resultou numa crise social de grande envergadura: a utilização cada vez mais freqüente do produto para a fabricação de etanol resultou na elevação dos preços e na redução do abastecimento com fins alimentares. A situação chegou a um limite no início de 2007, quando dezenas de passeatas, repletas de mulheres batucando em suas panelas vazias, obrigaram o governo a comprar 600 mil toneladas suplementares de milho branco norte-americano, criar um fundo de emergência e tabelar o preço do produto.

O balanço final é que, de lá 1994 para cá, o México triplicou a importação de cereais. Dela dependem 40% de suas necessidades alimentares: 60% do arroz, 50% do trigo, 23% do milho e a quase toda a soja. “Atualmente, somos obrigados a importar produtos básicos, sejam quais forem os preços do mercado”, lamenta Armando Bartra, diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Rural. O país gasta nisso mais de um terço das divisas obtidas com a exportação do petróleo [4].

Até mesmo o Banco Mundial reconheceu a crise da agricultura mexicana: o setor primário foi considerado o grande perdedor do Nafta. Os pesquisadores trataram de matizar essa constatação, alegando que as cláusulas agrícolas do tratado não tinham sido respeitadas por nenhum dos dois lados. Caso contrário, dizem, as conseqüências teriam sido bem menos drásticas.

Os EUA restringem a importação e praticam dumping. O México reduz a ajuda aos agricultores
O governo do México admite, efetivamente, que “sacrificou” a agricultura nas negociações. Foi uma opção criminosa, se considerarmos que mais de um terço da população era rural, em 1994. Nenhuma das medidas de proteção previstas para os primeiros catorze anos funcionou, no que diz respeito aos produtos sensíveis, entre os quais o milho. De modo que, a partir de 1996, o país adotou unilateralmente a entrada massiva da produção norte-americana, acima das cotas autorizadas e isentas de impostos. Outro exemplo de violação das cláusulas do tratado: em 2001, o então presidente mexicano Vicente Fox (ex-presidente da divisão Américas da Coca-Cola Company) apoiou a importação de frutose oriunda do milho transgênico norte-americano e utilizada na indústria de bebidas, em vez de favorecer a cana-de-açúcar mexicana, que passava por dificuldades.

Em compensação, do lado norte-americano, os poderes legislativo e executivo empenharam-se em impor uma série de embargos aos produtos mexicanos, infringindo os acordos e suas próprias leis. Os produtores de tomate de Sinaloa tiveram que lutar por quatro anos até obterem autorização para exportar para os Estados Unidos, que “protegiam” os agricultores da Flórida. Atualmente, é o cultivo de abacate de Michoacán que enfrenta as “normas sanitárias”, instauradas unicamente para conter a concorrência do Sul.

Como se não bastasse, o governo do México ainda suspendeu a maioria dos programas de ajuda ao campo: segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o apoio aos produtores passou de 28% da receita agrícola entre 1991 e 1993, para 14% em 2007 [5], sendo que os principais beneficiados foram os grandes empresários. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos redobraram os incentivos à exportação, particularmente os subsídios.

O Instituto para Agricultura e Política Comercial (IATP), um centro de pesquisas sobre o impacto da liberalização sobre o mundo rural sediado nos EUA, estudou, a partir de cinco produtos, o dumping norte-americano desde o estabelecimento do Nafta [6]. O trigo foi vendido 43% abaixo do custo real; a soja, 25%; o milho, 13%; o arroz, 35%; e o algodão, 61%. Em 2002, a Farm Bill, lei de política agrícola norte-americana, votada de cinco em cinco anos, foi veementemente denunciada pelas organizações agrícolas mexicanas: só no caso do milho, os subsídios eram dez vezes superiores ao orçamento total da agricultura de seu país. E o investimento persiste, mesmo sabendo que (como recorda Timothy Wise, pesquisador do Instituto para o Desenvolvimento e o Meio Ambiente da Tufts University), “em termos ambientais, o abandono do milho mexicano não representa nenhuma vantagem para os norte-americanos. Sua produção é uma das que mais polui e consome água e nos Estados Unidos, embora se desenvolva em locais com precipitações limitadas. Ou seja, requer uma irrigação que chegará a níveis insustentáveis” [7].

Há uma década, a economia está estagnada. Crescem os grandes negócios, muitas vezes norte-americanos
Reagindo às críticas, o ministério da Agricultura mexicano forneceu outros dados. Lembrou que, entre 1994 e 2007, a produção aumentou, passando de 18,2 milhões de toneladas para 23,7 milhões de toneladas: “o Nafta abriu um mercado de 430 milhões de consumidores e o México passou a ser o principal fornecedor de frutas e legumes dos Estados Unidos” [8].

Trata-se dos chamados “poucos ganhadores do Nafta”: são os latifúndios do norte do país, que geralmente pertencem à sociedades norte-americanas e onde os lavradores trabalham nas piores condições. A riqueza agrícola concentra-se nas mãos de 3% dos produtores. Pouco importa para o governo que, entre 1995 e 2004, o Produto Interno Bruto (PIB) agrícola mexicano tenha tido um crescimento anual de 1,9%, bem inferior ao do resto da América Latina. Nada mais decepcionante para um grande país, com mais de 100 milhões de habitantes.

O ministério da Economia relativiza. De acordo com ele, por si mesmos, os resultados agrícolas não permitem julgar a relação comercial Estados Unidos-México. “Nós só temos a ganhar procurando a integração com a América do Norte. Outros setores são mais importantes hoje para a nossa economia. E, globalmente, o balanço do Nafta é muito positivo”, declarou James Salazar Salinas, subdiretor do serviço de “negociações comerciais” do ministério. Para os seus defensores, o Nafta teria cumprido sua missão, ao aumentar consideravelmente as trocas entre os parceiros.

De fato, comércio bilateral entre mexicanos e americanos cresce, em média, mais de 10% ao ano. O México passou a ser o terceiro parceiro comercial dos Estados Unidos e o segundo mercado para seus produtos. O intercâmbio com o Canadá mais do que dobrou, ainda que continue modesto em volume. O tratado também possibilitou aumentar muito o investimento direto estrangeiro (IDE). Entre 1994 e 2006, as empresas dos EUA injetaram 120 bilhões de dólares no México, mais de 60% dos investimentos totais realizados no país.

Dos 730 mil mexicanos que entram no mercado de trabalho anualmente, apenas 80 mil conseguem vagas
Mas os números brutos não revelam a realidade vivida pela população: o “sucesso” do Nafta não criou os empregos esperados. Apenas 80 mil dos 730 mil mexicanos que entram no mercado de trabalho anualmente conseguem vagas [9]. Além disso, os novos postos são abertos principalmente nas maquiladoras, fábricas que se restringem a montar componentes importados dos Estados Unidos e reexportá-los de volta. “A teoria liberal clássica, segundo a qual a abertura comercial amplia a oferta de empregos nos países com mão-de-obra abundante, está redondamente equivocada”, avalia Sandra Polaski, pesquisadora do Carnegie Endowment for International Peace [10].

Surgidas na década de 1960, as maquiladoras desenvolveram-se muito com o Nafta. No entanto, a importação de material isento de tributos rapidamente reduziu o efeito indireto que o setor podia ter gerado na economia nacional e, particularmente, no emprego. “Atualmente, as maquiladoras importam 97% do que usam”, constata Polaski. “E esse modelo se reproduz no setor industrial clássico, cuja produção depende muito de componentes importados que, até 1994, eram fornecidos pelos fabricantes mexicanos”.

Tal sistema fragilizou as finanças do México, obrigando-o a cortar os gastos sociais e demandar mais receita do petróleo, para equilibrar o orçamento. Afinal, explica Enrique Peter Dussel, doutor em economia pela Universidade do México (UNAM), “a importação de produtos de alto valor agregado faz com que a balança comercial com os Estados Unidos seja deficitária. Continuará sendo, inclusive em 2008, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI)”.

O pior de tudo é que até mesmo as maquiladoras vêm perdendo força no mercado interno mexicano. O Banco Mundial (Bird) calcula que “os benefícios que o México pôde tirar do Nafta se esgotaram” e que “o declínio do emprego no setor vai se acentuar”. È um modo de dizer que outros países emergentes ganharam a disputa da produtividade.

De acordo com o Bird, os salários mexicanos são quatro vezes mais elevados que os chineses, por exemplo. Exatamente por isso, o México foi o último país a aceitar as condições de ingresso da China na OMC, em 2001. E com razão: essa adesão ocasionou uma concorrência feroz para os setores-chaves de sua economia de exportação, tais como o automobilístico, o têxtil e o eletrônico. Desde 2003, Pequim é a segunda maior exportadora para os Estados Unidos, à frente dos mexicanos.

Entre 1980 a 1994, a migração se expandiu 95%; de 1994 a 2006, aumentou nada menos que 452%
Decorrência disso, a desigualdade não pára de crescer nos países que integram o Nafta, especialmente no México. Em comparação com o período anterior (1984-1994), 90% das famílias mexicanas viram sua renda cair ou estagnar. Para sobreviver, metade da população ativa extrai uma receita complementar de um emprego informal, e um terço depende também do auxílio financeiro dos parentes emigrados, as famosas remesas. Em 1995, elas representaram 3,6 bilhões de dólares; em 2006, foram 23 bilhões de dólares [11]. E, no entanto, segundo os promotores do Nafta, a emigração deveria ser contida. O argumento remonta a 1993, quando a procuradora-geral dos Estados Unidos, Janet Reno, afirmou: “nós só reduziremos os fluxos migratórios no dia em que esses imigrantes encontrarem um trabalho decente em seu país, e o tratado vai criar empregos”. A realidade foi bem diferente dessa utopia: de 1980 a 1994 a migração se expandiu 95% e de 1994 a 2006 aumentou nada menos que 452% [12].

Sem dúvida, o México mudou muito. Principalmente se comparamos a nação de hoje à do início século 20, quando Emiliano Zapata e outros camponeses empreenderam uma revolução que limitou, e até mesmo proibiu, os investimentos estrangeiros, principalmente agropecuários. A Constituição aprovada então foi respeitada por muitos anos. Mas com o Nafta, tudo mudou. Uma empresa estrangeira pode ser dona de até 100% do capital de uma infra-estrutura mexicana. E o “Nafta-Plus”, assim denominado pela imprensa, deve se revelar ainda mais radical. Seu nome exato é Parceria Norte-americana para a Segurança e a Prosperidade (PSP), iniciativa lançada oficialmente por ocasião da Cúpula de Waco, no Texas, em 23 de março de 2005. Assinaram o pacto George W. Bush (Estados Unidos), Vicente Fox (México) e Paul Martin (Canadá).

Os três dirigentes aderiram de corpo e alma às recomendações de um grupo de trabalho batizado “The Independent Task Force on the Future of North America”, constituído pelo Conselho Canadense dos Chefes de Empresas, o Conselho para Relações Exteriores dos EUA e o Conselho de Assuntos Internacionais mexicano. Sob esses três acrônimos figuravam exclusivamente empresas [13]. Seu relatório, intitulado “Construir uma comunidade norte-americana”, propunha 39 recomendações destinadas a “estabelecer um espaço econômico único e seguro”.

Quando da segunda Cúpula, em março de 2006, em Cancún (México), criou-se oficialmente o Conselho Norte-americano da Competitividade (CNAC), composto de trinta homens de negócios, dez por país. A razão de ser dele, conforme nota divulgada à imprensa, era “estabelecer as prioridades do PSP e pilotar o processo de integração profunda”. Em seu último relatório [14], o CNAC promete mundos e fundos com inflexões que lembram as de 1994 sobre as vantagens do Nafta: “O PSP é ao mesmo tempo estratégico e realista. Tem por princípio fundamental contribuir para aperfeiçoar o funcionamento das economias dos três países, melhorando, simultaneamente, a segurança e a qualidade de vida em toda a América do Norte”. Como as empresas pretendiam fazer isso? Elas enxergaram dois meios: “fronteiras seguras e transparentes no seio da América do Norte, assim como acesso confiável a uma energia rentável”.

A liberdade de circulação dizia respeito unicamente aos recursos naturais. Especificamente sobre a energia, o CNAC advogava a abertura do mercado do gás e do petróleo. Aconselhava os mexicanos a privatizarem parcialmente a Pemex, a petroleira estatal, e dividi-la, dissociando as atividades ligadas ao gás natural. O CNAC já tinha até um nome para a nova empresa: Gasmex.

A proposta surtiu algum efeito e em julho de 2007, o atual presidente, Felipe Calderón, anunciou o “Programa Nacional de Infra-estrutura 2008-2012” nos seguintes termos: “o objetivo é transformar o México numa das principais plataformas logísticas mundiais, aproveitando nossas vantagens geográficas e comerciais”. Agora, o Congresso vai discutir um projeto de reforma constitucional visando abrir o capital da Pemex. A política continua a mesma. E a desigualdade cresce a cada dia. Como melhorar a qualidade de vida em toda a América do Norte? Bastaria perguntar aos agricultores mexicanos, eles sabem a resposta.

Le Monde diplomatic

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