Arquivo de 1 de Dezembro de 2008

Viagem no tempo

Fazer turismo é um hábito novo: por muito tempo, as pessoas achavam um sacrifício ter que viajar, ir à praia ou descer cachoeiras. Saiba como o turismo nasceu e por que nos tornamos loucos por ele

Eduardo Szklarz

Estamos em Copacabana, o calor é de rachar e o mar convida para um mergulho. Mas a praia está vazia. Não há ninguém pegando sol nem jogando futevôlei. Apenas cor­pos de escravos jogados na areia e urubus competindo por um naco de carne. E não só em Copacabana. Até o fim do século 18, lagartear ao sol era coisa de calango; tomar banhos de mar, uma afronta ao mundo civilizado. Ninguém pensava em se divertir escalando montanhas ou descendo cachoeiras. Não havia estradas, nem hotéis, nem colônias de férias. Aliás, não havia férias. As pessoas achavam viajar um sacrifício.

A história está cheia de exemplos de turismo entre os antigos: os egípcios do século 2 a.C. visitavam as pirâmides, os fenícios faziam périplos pelo Mediterrâneo e os gregos lotavam o san­tuário de Apolo, em Delfos. Mas os deslocamentos eram em geral motivados por devoção, fuga ou sobrevivência. Com a formação das nações, as jornadas viraram parte de campanhas militares e religiosas, do comércio e dos estudos. O turismo co­mo conhecemos tomou forma somente no século 19, com a evolução do transporte e as visitas dos nobres aos balneários europeus. Até virar um costume tão forte hoje em dia, todo o jeito com que vivemos e trabalhamos teve que mudar.

Os pioneiros

“Durante milênios, a viagem foi uma obrigação. Os primeiros a cruzar a Europa buscavam abrigo e caça ou fugiam de inimigos e catástrofes”, diz o psicólogo espanhol Alexandre García-Mas, autor de La Mente del Viajero (“A Mente do Viajante”, sem edição brasileira). “Se olharmos os registros escritos, ve­mos que os viajantes seguintes eram soldados, peregrinos, comerciantes, di­plo­matas e uns poucos estudantes e aventureiros.”

O primeiro salto do turismo aconteceu na Grécia antiga lá pelo século 5 a.C. Milhares de gregos viajavam a cada 4 anos a Olímpia para ver os jogos em homenagem a Zeus. O evento era bem diferente da Olimpíada atual: além dos torneios esportivos, incluía discursos filosóficos, recitais de poesias e sacrifícios. Mulheres e escravos ficavam de fora.

Vem daquela época a noção de hospitalidade. Para quem morava no caminho dos templos, receber bem os forasteiros era um ato de honra. Muitos gregos também perambulavam pelo mausoléu de Halicarnasso e pelas pirâmides do Egito – construídas por volta do século 25 a.C., as pirâmides eram tão antigas para os gregos como a Grécia antiga hoje para nós. Também nasceu durante os Jogos Olímpicos gregos o turismo predatório – aquela mania de rabiscar o nome no artefato histórico. “Vários desses monumentos exibiam nomes de viajantes ou marcas riscadas na pedra para mostrar que eles tinham estado lá”, afirmam os pesquisadores José Roberto Yasoshima e Nadja da Silva Oliveira, no livro Turismo no Percurso do Tempo. Esse costume já foi praticado por muita gente ilustre. Em 1810, o poeta britânico Lord Byron, então com 22 anos, grafitou seu nome em uma coluna do templo de Posêidon, na Grécia.

As viagens gregas só aconteciam graças ao sistema monetário, que possibilitava a troca de moedas entre as cidades-Estado, e o uso do grego como idioma comum. Mas não era nada fácil dar uma de Heródoto, o historiador grego que viajou pelo Egito, Síria, Pérsia, Macedônia e Itália. Era preciso se sujeitar a crises de enjôo e ataques de piratas. Séculos depois, os imperadores romanos deram um jeito nisso ao inaugurar na Europa uma rede de estradas e pontes feitas de areia, laje, brita e pedras lisas. Os súditos podiam circular nelas desde que portassem diploma (espécie de passaporte) e viajavam mais de 60 quilômetros por dia em cavalos ou veículos de tração animal como a birota, que tinha duas rodas e levava duas pessoas, e a raeda, para grandes grupos. Os mais ricos preferiam uma liteira carregada por 8 escravos. Esses “turistas” privilegiados ficavam em choupanas chamadas de diversoria e se orientavam consultando o itinerarium, avô dos guias de turismo atuais.

Com o fim de Roma, no século 5, o turismo sofreu um retrocesso. As estradas foram depredadas pelos bárbaros e o que sobrou delas foi usado por peregrinos que partiam rumo à Terra Santa, Roma e Santiago de Compostela. Uma caravana da Itália a Jerusalém podia levar 9 meses, belo sacrifício pela fé. Havia algumas hospedagens pelo caminho, mas insuficientes para tantos devotos. O peregrino não escolhia o itinerário nem a duração da viagem, não sabia onde dormir nem se acharia comida. Na maioria das vezes, viajar era algo incômodo e inseguro.

Grand tour

Essa noção começou a mudar com o Renascimento e a Reforma Protestante, que reduziram a obsessão pelo plano divino e valorizaram o indivíduo. Aliado ao ressurgimento das cidades, do comércio e das artes, o pensamento humanista inspirou uma corrente de viajantes que não queriam saber de adorar deuses, mas de conhecer e catalogar cada palmo do mundo real. Um deles foi o pensador francês Michel de Montaigne, que em 1581 percorreu Itália, Alemanha, Suíça e Áustria, anotando em seu diário as impressões sobre cada cultura.

Na Inglaterra, os novos valores mudaram a visão sobre o ensino da elite: estudantes na faixa dos 25 anos, recém-formados nas Universidades de Oxford e Cambridge, deveriam completar seus co­nhecimentos com uma grande viagem a outros países, na companhia de um tutor. Conhecida como grand tour (de onde vem “turismo”), a empreitada durava de 6 meses a 2 anos – e era bancada pela rainha da Inglaterra. A idéia era conhecer diferentes culturas e ficar pronto para se tornar um membro da elite.

O grand tour ganhou muitos adeptos entre os intelectuais europeus. O filósofo inglês John Locke não cansou de elogiar esse tipo de instrução e o colega Adam Smith foi tutor do filho de um duque. O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau defendia um método autodidata que tinha a natureza como mestra suprema. Não é à toa que o Dicionário Larousse de 1875 descreve Rousseau batendo pé pela Europa, mochila nas costas e cajado na mão, como um discípulo da natureza. O imperador dom Pedro 2º não ficou de fora: visitou as pirâmides do Egito em 1871 e, 5 anos mais tarde, percorreu o Líbano, a Síria e a Palestina.

Foi também nessa época que a aristocracia européia redescobriu o prazer das termas e dos banhos de mar – um antigo hábito romano que havia minguado na cristandade medieval por ser sinônimo de luxúria. Até então, os europeus pensavam que o mar era um território demonía­co, onde vivia o monstro bíblico Leviatã. O escritor italiano Dante Aliguieri deixa isso claro na Divina Comédia: para ele, aquela imensidão de águas carregava a desgraça. Aos poucos, porém, as pessoas começaram a expor o corpo sem culpa, munidos de conselhos médicos sobre os benefícios das imersões na água salgada. A cidade inglesa de Bath virou sinônimo de banhos termais e o município de Spa, na Bélgica, inspirou a máxima do “corpo são, mente sã”. Os ingleses também inventaram as temporadas de inverno no sul da França e o esqui nos Alpes.

É isso mesmo: os pontos turísticos foram sendo inventados como produtos da evolução sociocultural. “O turismo causou mutações profundas. Ele mudou nosso olhar sobre as paisagens. Até mesmo as imagens, os utensílios e os habitats tradicionais só encontram um valor histórico a partir do momento em que a comunicação turística toma conta deles”, diz o historiador francês Marc Boyer, autor de História do Turismo de Massa.

Quem hoje pratica escalada e rapel pode achar estranho, mas até o século 18 as montanhas não eram apreciadas. Ao contrário: os europeus as descreviam como um território de pavor. “Nos mapas, elas eram representadas por espaços brancos com dragões e criaturas terríveis. A maioria dos cumes não tinha nome e alguns eram chamados de malditos e pavorosos por mercadores que precisavam atravessá-los”, diz Boyer.

Toda essa redescoberta das paisagens no século 18 formou o que Boyer chama de “a invenção do inútil”. O processo funcionava assim: primeiro, alguém da alta sociedade identificava uma nova prática em um novo lugar – por exemplo, escalar os Pirineus. Essa pessoa era o gate keeper, o guardião, que abria as portas da cultura aos demais. Depois alguns nobres imitavam a tal prática, que finalmente caía no gosto das pessoas de alta renda (cerca de 10% da população européia). Tratava-se de uma dinâmica bem elitista. Para se popularizar, o turismo ainda precisaria da Revolução Industrial.

Turismo para o povo

Lembra-se das velhas estradas do Império Romano? Pois elas só se aposentaram de vez com a adoção de locomotivas e barcos a vapor no século 19. Com essas máquinas em cena, o trajeto entre Roma e Londres se reduziu de 3 semanas para 3 dias. As cabines de trens e navios se diferenciavam de acordo com a classe social dos passageiros, um resquício que dura até hoje. Planejar as viagens também ficou mais fácil graças ao telégrafo.

Agora motorizado, o turismo foi agregando novos elementos ao cenário urbano. Um deles foi o restaurante, como o Dicionário de Trévoux observava em 1771: “Estabeleceram-se em Paris estalagens que vendem restaurants (bebidas reconfortantes) e são chamadas de restauranteurs”. Outra novidade foi o moderno hotel, palavra que até então significava apenas um rico domicílio urbano. Ao contrário das estalagens de beira de estrada, os hotéis ficavam no coração das cidades, perto do teatro ou da ópera.

Mas mesmo com tanta novidade as pessoas ainda não viam sentido em sair de casa para pegar trens fumacentos. Era bem mais divertido caçar pato ou lutar esgrima. Até que, no verão de 1841, o pastor inglês Thomas Cook teve uma brilhante idéia. Ele alugou um trem e levou 570 fiéis de Leicester à vizinha Loughborough para assistir a uma palestra sobre os males do álcool. Por poucos centavos de libra, os passageiros tinham direito a chá e sanduíche de presunto, jogar críquete e curtir o show de uma banda.

A excursão foi um sucesso e Cook realizou outras 3. Depois, organizou viagens ao litoral de Liverpool, desta vez voltadas apenas ao lazer. Cook viu que podia fazer negócio com as empresas de transporte usando uma regra óbvia dos dias de hoje: tarifas reduzidas aumentam a demanda, e os lucros vêm com a escala. Foi assim que, aos 30 e poucos anos, esse pregador metodista se tornou o primeiro agente de viagens do mundo. Sua agência, a Thomas Cook & Son, montou pacotes para Nova Zelândia, EUA, Suíça e Oriente Médio. No final do século 19, a agência de Cook já tinha 1 700 empregados. Foi assim que o turismo se uniu a outra característica moderna: o capitalismo.

Não tem preço

“O turismo, como é concebido hoje, tem origem na concepção capitalista da vida”, diz a antropóloga e socióloga Deis Siqueira, da UnB. O capitalismo possibilitou não apenas a acumulação de riqueza: ele mudou nossa maneira de lidar com o tempo. No passado, as várias atividades humanas conviviam no Ocidente de forma integrada: trabalho, religiosidade, diversão, ócio e festa. Foi apenas com a lógica produtiva que veio a separação entre tempo de trabalho e tempo livre.

“Com o desenvolvimento do capitalismo, passou-se do ócio – o fazer nada contemplativo, valorizado no Oriente – ao lazer, isto é, ocupar o tempo livre com atividades”, afirma Deis. Empresários, comerciantes e profissionais liberais foram se apropriando das práticas e dos lugares do turismo aristocrático. Em 1870, os pastores suíços montaram as primeiras colônias de férias para os filhos dos operários. Essa iniciativa permitia que crianças pobres pudessem sair da poluição das cidades e respirar o ar puro das colinas. Também é dessa época a criação dos albergues da juventude, dos camping clubs e do Movimento Amigos da Natureza, que ampliou o lazer do proletariado.

Após muita pressão dos sindicatos, os trabalhadores foram conquistando o direito ao descanso e à jornada de 8 horas. Na década de 1920, cerca de 17% da mão-de-obra inglesa já tinha férias remuneradas. Em 1936, esse direito virou lei na França e se estendeu a outros países da Europa. O tempo livre virou até objeto de políticas públicas – principalmente de países autoritários. Mussolini criou o Dopolavoro (“depois do trabalho”), um programa que “educava” a massa por meio de torneios esportivos e excursões ao mar Adriático. Hitler organizava férias para operários nos Alpes bávaros e Stálin levava trabalhadores a temporadas no Leste Europeu.

Nos países democráticos, o turismo de massa ganhou impulso no período de 1945, quando acabou a 2ª Guerra, à crise do petróleo de 1973. Foi quando a classe média entrou para valer nos circuitos turísticos. Nada mais natural, já que as ondas de turismo sempre começavam com poucos privilegiados e em seguida se popularizavam. Foi assim com o grand tour, com as viagens de trem, os passeios de carro e os pacotes aéreos.

Hoje, essa dinâmica está saindo dos trilhos. Parte do público já não quer seguir roteiros inventados pelos outros. O filósofo francês Gilles Lipovetsky, autor de A Era do Vazio, diz que os “turistas que não querem ser turistas” caracterizam um novo fenômeno, o hiperconsumo. Ou seja: a pessoa consome não para ter status, mas para ter prazer e viver alguma coisa contra a corrente. Não basta ir ao lugar, mas trabalhar lá como voluntário, andar de bike, ter uma experiência que seja única. Hoje, o grande desafio não é inventar novas práticas nem novos lugares para viajar. É inventar a si mesmo.

Se você reclama do caos dos aeroportos brasileiros, precisa ver como era viajar pelo país no período colonial. Na falta de uma estrutura de transporte, o jeito era embarcar pelo traçado tortuoso dos rios ou se aventurar pelos caminhos que os bandeirantes usavam para buscar ouro e pedras preciosas. Nos dois casos, o turista estava sujeito a doenças, enfrentamentos com índios e ataques de onças e cobras.

Numa viagem a partir de Cuiabá rumo ao Rio de Janeiro, aí, sim, a coisa complicava. “Em 1856, a comunicação entre o Mato Grosso e o Atlântico era feita através da bacia do rio da Prata. A Guerra do Paraguai interrompeu essa via, que foi reaberta em 1870”, diz o pesquisador Edil Pedroso da Silva, autor de Nos Caminhos Fluviais de Mato Grosso.

Se quisesse pegar um sol em Copacabana, o mato-grossense tinha que passar por 3 países (Paraguai, Argentina e Uruguai). Os barcos zarpavam pelo rio Cuiabá, alcançavam o São Lourenço e daí o Paraguai; deste, atravessavam Corumbá (MS) e Assunção, seguindo pelos rios Paraná e Prata até enfim chegar ao Atlântico. O trajeto levava em média 30 dias e o luxo dependia do tipo de embarcação.

O vapor Coxipó, por exemplo, era tão grande que tinha até galinheiro. Em 1884, o alemão Karl von den Steinen viajou nele rumo a Cuiabá e anotou em seu diário o cotidiano da aventura. Todos acordavam cedo e tomavam café, chá ou conhaque; almoçavam às 10 horas e jantavam às 17 horas. Os homens se reuniam na mesa contando piadas até altas horas. As mulheres dormiam “apinhadas como sardinhas em lata”, ocupando bancos e às vezes o piso dos camarotes. Não bastasse o calor, o ranger das madeiras e as picadas de mosquitos, muito gringo morria de susto quando peixes saltavam para dentro do barco. O pior era quando ele encalhava em tocas de jacarés.

No Sudeste, as viagens eram um pouco mais fáceis. Um dos caminhos mais freqüentados era a estrada Real, que cresceu com o escoamento de metais e pedras preciosas e com a chegada de trigo, bebidas e outros suprimentos de Portugal. No início, os viajantes saíam a pé ou a cavalo de São Paulo, passavam por onde é hoje Lorena (SP) e entravam em Minas Gerais pelo município de Passa Quatro (pois tinham que passar por 4 pontes) rumo a Ouro Preto.

“Os bandeirantes iam no sentido da aventura, em busca do Eldorado, sem saber se voltariam vivos”, diz Eberhard Hans Aichinger, diretor do Instituto Estrada Real. Como o porto de escoamento era Paraty, o trecho que ligava a cidade a Ouro Preto ficou conhecido como Caminho Velho. Para percorrê-lo, levava-se de 75 a 90 dias.

Por volta de 1790, a mudança do porto para o Rio de Janeiro demandou outro caminho que ligasse Ouro Preto à costa carioca – daí a construção do Caminho Novo. Essa rota consumia 25 dias de galope (hoje são apenas 5 horinhas de carro). Com a busca frenética por diamantes, a estrada Real ganhou um terceiro caminho até a região de Diamantina, totalizando 1 400 quilômetros. Ao longo do percurso, apareceram postos de abastecimento onde o pessoal plantava milho, feijão e mandioca e criava porcos e galinhas. Em vez dos atuais radares de velocidade, os viajantes eram surpreendidos por pontos de roubo. O alto da serra da Mantiqueira virou um clássico da tocaia. “Os assaltantes ficavam ali esperando para abordar as tropas fatigadas”, diz Aichinger. “Tanto que o alferes Tiradentes foi contratado pela Coroa para comandar a segurança do Caminho Novo.” Pensando bem, nada como uma filinha de aeroporto.

Super

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Destruição da polícia fortalece crime organizado

Airton Florentino de Barros

É sabido e mais do que sabido que é a segurança direito fundamental do cidadão e de toda a sociedade, sendo do Estado o dever de prestar os serviços de segurança pública, sejam os de caráter ostensivo e preventivo, sejam os relativos à polícia judiciária.

Ninguém ignora também o fato de que, por prestar um dos mais relevantes serviços ao Estado democrático de direito, tem a polícia um dos mais profissionalizados quadros entre as carreiras públicas.

Não pode a administração pública, pois, maltratar tanto a categoria de agentes policiais, como tem ocorrido na atualidade, a ponto de desprezar, por exemplo, o justo movimento de reivindicação salarial da Polícia Civil do mais populoso estado brasileiro, que amargou uma greve por dois meses, sob a omissa espreita governamental.

É público e notório que as condições de trabalho dos integrantes da importantíssima polícia brasileira são péssimas, não só em razão do aviltamento de salários e da tão progressiva quanto indevida redução dos quadros de recursos humanos, mas ainda em virtude do verdadeiro sucateamento de seus recursos materiais.

De outro lado, não pode a corrupção, que não é vício exclusivo da polícia, justificar a recusa da administração pública em tratar com o merecido respeito agentes públicos indispensáveis à existência do Estado e ao exercício dos direitos fundamentais do cidadão.

Hoje, é verdade, como a linguagem econômica substituiu por completo a linguagem jurídica, a ordem é reduzir ao mínimo a folha de pagamento de servidores do Estado. Em outros termos, a redução do Estado é a primeira lição da cartilha da globalização econômica, pouco importando os danos decorrentes da falta de estrutura pública mínima a ensejar o controle ético da sociedade.

Oportunistas, grandes e inúmeras legiões de mercenários do crime e da economia moderna patrocinam o enfraquecimento do Estado, a partir do marketing da destruição. Tudo o que é produzido pelo Estado não presta. Com essa afirmação, provoca-se a ilusória expectativa popular de ser realmente necessária a privatização de serviços públicos por todas as formas de terceirização. Com a redução do Estado, ficam livres de fiscalização e podem, sossegados, investir mais nos mercados informais, inclusive aquele subterrâneo, do tráfico de entorpecentes e armas, da lavagem de dinheiro e da formação de novas organizações criminosas.

Entretanto, privatiza-se a segurança e dá no que deu. Quanto pior a segurança pública, melhor para as empresas de segurança privada.

Ora, a destruição da polícia só interesse ao crime organizado.

É necessário compreender, pois, que a máquina do Estado é predominantemente constituída por recursos humanos, que só alcançam eficiência se bem selecionados, o que deve pressupor a existência de elevado grau de interesse de cidadãos em candidatar-se aos cargos públicos. Não há certamente candidatos para funções mal gratificadas.

Os agentes da segurança pública, então, como integrantes da estrutura do Estado, devem ser valorizados por regular e digno plano de carreira e decente remuneração, de modo a que possam exercer a função com satisfação e não por castigo, ou, pior ainda, como instrumento de trocas ilícitas. Devem, pois, ter o mínimo de independência contra o assédio da corrupção. É que, com raras exceções, e estas sempre existirão, os brasileiros não são ambiciosos. Querem apenas um teto humilde, escola, saúde e trabalho que lhe assegure salário suficiente para uma vida familiar modesta e digna.

Esta é a única saída para a ordem pública.

Correio da Cidadania

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Missouri, o espelho dos Estados Unidos

Patrick Jarreau

A Anheuser-Busch, que é o maior fabricante de cerveja dos Estados Unidos, fabricante da lendária Budweiser, vai passar a ser controlada pela InBev, um grupo belga cuja diretoria é brasileira. Este notícia foi anunciada no início do verão e, desde então, ninguém em Saint Louis se conforma com isso. “Ainda é preciso que os compradores consigam viabilizar seu empréstimo no mercado…”, comentam em voz baixa na cidade, torcendo para que o contrário aconteça. Enquanto isso, uma assembléia geral dos acionistas está prevista para 12 de novembro.

“Seria uma vergonha que a Bud se torne propriedade de estrangeiros”, havia declarado Barack Obama, quando estivera na cidade em julho, vindo da vizinha Chicago. Na ocasião, John McCain se mantivera em silêncio, porque a sua mulher, herdeira de uma companhia de distribuição de cervejas e detentora de uma parcela do capital da Anheuser-Busch, estava interessada naquela venda.

Desenvolvida por um imigrante alemão no século 19, a fábrica de cerveja sobreviveu à Proibição, durante os anos 1920. Além disso, ela sempre teve como presidente um Busch, August Busch IV. Carro-chefe do terceiro maior grupo mundial, ela emprega cerca de trinta mil pessoas em Saint Louis e na sua região. Por muito tempo, ela foi proprietária dos Cardinals, o time de baseball da cidade, que atua em domicílio no Busch Stadium, o qual não pertence mais à companhia, mas conserva seu nome.

A sociedade e a família Busch declararam ter efetuado doações no montante de US$ 10 milhões (R$ 23 milhões), para as mais diversas instituições. Estas incluem desde a Washington University até a Orquestra Sinfônica da cidade, passando pelas organizações sociais e médicas vinculadas ao United Way of Greater Saint Louis.

Além do mais, o orçamento publicitário da Anheuser-Busch é vital para diversas competições esportivas nacionais. Os compradores belga-brasileiros têm a reputação de não se deixarem levar pelos sentimentos e de serem propensos a “eliminar as gorduras” de maneira implacável, quer se trate de empregos ou de mecenato.

Até uma época recente, a região de Saint Louis só era superada em termos econômicos por aquela de Detroit, por conta da importância da indústria automobilística. A General Motors e a Ford desapareceram há muito tempo de Saint Louis; enquanto isso, a Chrysler está no processo de reduzir pela metade a atividade de uma usina que produz caminhões, e de fechar a outra, de onde saíam mini-vans. “Uma fábrica para a qual eles haviam consentido ainda assim investimentos no montante de US$ 500 milhões (cerca de 1,150 bilhão) em 2007″, lamenta Richard Fleming, o presidente da Câmara regional de comércio. Enquanto isso, as firmas terceirizadas e as que fabricam e distribuem equipamentos e peças de reposição padecem.

O marasmo do setor do automóvel atinge também as concessionárias, que são importantes provedoras de empregos, além das empresas que alugam veículos. A Enterprise Rent a Car, que é a mais importante companhia de locação nos Estados Unidos, e cuja sede fica em Saint Louis, está demitindo muita gente, o que nunca havia acontecido até então. Assim como os Busch, os Taylor, proprietários da Enterprise, se incluem entre essas famílias ricas que, no contexto da fiscalidade americana das associações de caridade e das fundações, vêm sustentando um bom número de instituições científicas, culturais e sociais.

Situado exatamente no centro geográfico dos Estados Unidos, o Estado do Missouri “votou 25 vezes da mesma forma que o restante do país nas últimas 26 eleições presidenciais”, precisa David Robertson, um professor de ciências políticas na universidade do Missouri. Os republicanos dominam a maior parte do território - que é rural, pouco povoado e evangélico -, enquanto as aglomerações de Saint Louis (2,8 milhões de habitantes) e de Kansas City (2 milhões) apresentam uma maioria esmagadora de democratas. “O Estado que paga para ver” - “Show Me State”, um apelido que lhe foi dado pelos seus próprios habitantes - é um bom revelador da situação em meio à qual o novo presidente foi eleito e que ele deverá enfrentar a partir de 20 de janeiro de 2009.

O Missouri nunca cresce nas alturas em tempos de prosperidade, e nunca afunda em demasia em tempos de crise, insistem muitos habitantes, repetindo este bordão como que para conjurar o mau olhado. A derrocada dos créditos hipotecários revela ser menos violenta aqui do que na Flórida ou na Califórnia, onde os preços do setor imobiliário chegaram a disparar de maneira alucinante. Mas os casos de não-pagamento existem, com os despejos que eles provocam, sobretudo na região norte de Saint Louis, onde está concentrada a população africano-americana.

Além dos tomadores de empréstimo sufocados por taxas de juros de créditos imobiliários que seguem aumentando em velocidade acelerada (chamadas de “ballooning interest rates”), muitos inquilinos modestos vêm sendo obrigados a deixarem seu alojamento porque o proprietário parou de reembolsar o banco, que penhora o bem e dele expulsa os seus ocupantes. Assim, duas mil e quinhentas habitações foram penhoradas, em Saint Louis, em 2007, segundo explicou recentemente o prefeito democrata, Francis Slay. Ele reuniu diversas associações com o intuito de ajudar os tomadores de empréstimo que ainda tenham condições para tanto a renegociarem o financiamento do seu crédito, enquanto os outros foram de fato abandonados à sua própria sorte.

A derrubada dos mercados, que foi provocada pela crise dos créditos hipotecários conhecidos como “subprimes”, vem reduzindo o valor das aplicações que os americanos fazem para a sua aposentadoria, como complemento para a Seguridade Social, que é o sistema de previdência coletivo. “Eu nem sequer confiro mais os relatórios de prestação de contas a respeito das minhas economias e do meu plano 401 (k)”, diz Nancy Cross, uma dirigente da união local do sindicato de empregados, cuja sigla é SEIU. Os 401 (k), assim chamados em função do número do artigo do código dos impostos que os regulamenta, são planos de poupança e de aposentadoria cujas prestações são abonadas pelos empregadores à altura das quantias aplicadas pelos assalariados. Depois da decisão da General Motors, outras empresas já estudam suspender suas contribuições para esses planos.

É possível prever que no médio prazo, a Bolsa acabará se recuperando. Já, a diminuição das reservas de petróleo, por sua vez, é irreversível. O custo da gasolina tem um peso considerável sobre o poder aquisitivo dos assalariados. “As pessoas utilizam seu carro para irem trabalhar”, explica Nancy Cross. “Entre os filiados do nosso sindicato, muitos têm dois empregos porque, caso contrário, eles não conseguiriam sobreviver. Ora, na maioria dos casos, eles não conseguiriam se deslocar de outra forma de um até o outro, a não ser de carro”. O sindicato apoiou a criação, que foi submetida a um referendo em 4 de novembro, de uma taxa adicional sobre as vendas no varejo destinada a financiar o desenvolvimento do metrô, que está limitado por enquanto a uma única linha. “É verdade que a vida é mais em conta aqui do que em Nova York ou em Boston, porque paga-se menos impostos em Saint Louis”, diz Nancy Cross, “mas, por uma parte, isso se deve ao fato de que aqui existem menos serviços públicos”.

A situação econômica andou ofuscando os outros assuntos de preocupação, mas todos eles estão vinculados a ela. A imigração, por exemplo, constitui um problema que George W. Bush e o Congresso não conseguiram solucionar. “A idéia de se proceder a uma reforma de conjunto era um erro enorme, porque ela promoveu a união das oposições”, avalia Anna Crosslin, que dirige o Instituto Internacional, um organismo cuja função é de prestar auxílio para os imigrantes legais e também, de fato, para os ilegais.

Mesmo se o Missouri conta apenas 3% de habitantes nascidos fora dos Estados Unidos (a média nacional é de 12%, um nível sem precedente desde a grande onda de imigração que ocorreu há um século), uma tensão crescente é palpável no mercado do trabalho. No setor da construção civil, a atividade dos “coiotes”, como são chamados os passadores que trazem para os canteiros de obra, escondidos dentro de camionetes, operários mexicanos remunerados ilegalmente, provoca a cólera dos sindicatos. Dana Spitzer, a chefe de redação do “Labor Tribune”, o jornal regional da confederação sindical AFL-CIO, também denuncia a existência de um tráfico de números de Seguridade Social, que faz com que muitos empregadores possam escapar dos processos por recrutarem trabalhadores em situação irregular.

Os ânimos estão em baixa, em Saint Louis, mas não a ponto de viverem uma tragédia. “O que está acontecendo em Wall Street mostra os excesso de um sistema. Aqui, nós atuamos em função de um modelo de gestão mais conservador, possivelmente por causa das nossas raízes rurais”, diz Richard Fleming. O Meio-oeste, que sempre alimentou certa inveja em relação à luz que as estrelas econômicas das costas Leste e Oeste atraem, sonha com o advento de um novo equilíbrio em seu favor. Em Saint Louis, o setor financeiro - no qual operam companhias como a Edward Jones, a AG Edwards, a Scottrade e a Stifel Nicolaus - está resistindo melhor do que o setor do automóvel. A montadora de aviões Boeing, que é um outro importante empregador da região, está agüentando firme. Os meios dos negócios apostaram alto no desenvolvimento de um poderoso setor de biotecnologia, voltado para os serviços hospitalares e para a pesquisa médica, de um lado e, do outro, para firmas agronômicas tais como a Monsanto, cuja sede fica nesta cidade.

Cem mil pessoas compareceram para ouvir Barack Obama, em Saint Louis, em 18 de outubro. John McCain, por sua vez, promoveu um comício num condado vizinho, dois dias mais tarde. A corrida estava extremamente disputada neste Estado, no qual os eleitores chamados de independentes não raro revelam ser republicanos decepcionados. “Nós precisamos apagar a lousa e partir para outra”, afirma a sindicalista Nancy Cross. Philippe de Lapérouse, um descendente do famoso navegador, que é consultor no setor agro-alimentício, e que, até uma data recente, era um eleitor republicano, confirma esta avaliação: “As pessoas pensam que as coisas precisam mudar”. Ele se inclui entre esses republicanos típicos que, segundo o professor Robertson, têm o sentimento de que o seu partido se afastou deles desde que o presidente Bush e a direita religiosa e populista assumiram o seu controle.

A guerra no Iraque, as mentiras que permitiram que ela fosse travada, e as mortes que ela provocou (mais de 4 mil entre os soldados americanos, além de dezenas de milhares de iraquianos) formaram o pano de fundo desta eleição. “Hoje, os americanos não se sentem tão bem com si mesmos, diferentemente do que ocorria antes”, analisa Nancy Cross. Embora eles nem sempre consigam dar-se conta da dimensão das mudanças que estão ocorrendo na sua economia, na sua sociedade e no seu meio-ambiente, os habitantes de Saint Louis percebem que essas mudanças tornam indispensável a adoção de princípios, de métodos e de um estilo de governo que sejam totalmente novos.

Le Monde

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Menos desperdício

Dois estudos resultam em catalisadores que podem tornar a produção de biodiesel mais eficiente e limpa.

Nanoesferas e detalhe em microscopia eletrônica do catalisador CNK47 idealizado em Itajubá
Produto de origem vegetal fabricado com plantas oleaginosas, principalmente a soja, o biodiesel está presente em 3% do diesel vendido nas bombas de combustível do país e já coloca o Brasil na terceira posição mundial com uma produção de 557 mil metros cúbicos (m3) entre janeiro e julho deste ano, atrás da Alemanha e dos Estados Unidos. Mas o aumento da produção não vem acompanhado de uma evolução tecnológica. Mesmo no exterior o processo de produção de biodiesel ainda revela problemas para um biocombustível que teoricamente deveria apresentar uma produção mais limpa e eficiente. Dois desses problemas são o uso excessivo de água no processo e a utilização de catalisadores como soda cáustica (NaOH) ou hidróxido de potássio (KOH), substâncias usadas para acelerar a transformação do óleo vegetal em biocombustível. Os dois catalisadores são altamente contaminantes do solo e da água se não tiverem um adequado descarte. Problema que mereceu a atenção de dois estudos e, como solução, resultou em novos catalisadores. Eles podem se transformar numa alternativa tecnológica para esse processo, tornando a produção mais eficiente e sustentável do ponto vista ambiental.

No Departamento de Física e Química da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), o professor Alvaro Antonio Alencar de Queiroz e o aluno Rafael Silva Capaz, do curso de engenharia ambiental, desenvolveram um catalisador inorgânico nanoestruturado alcalino chamado de CNK47. Com ele é possível fazer a catálise no processo de produção de biodiesel reutilizando a substância em até cinco sessões diferentes de produção até atingir a saturação. Ao contrário dos catalisadores convencionais chamados de homogêneos, o CNK47 é sólido e não se mistura ao produto. Ele pode ser reutilizado várias vezes e não é necessário lavar o biodiesel para a retirada de restos de catalisadores como acontece numa situação convencional. Com o uso de soda cáustica na produção de biodiesel é preciso gastar, por exemplo, 500 litros de água além dos mil litros produzidos de biodiesel para que o produto final fique totalmente limpo. Além do perigo da contaminação, qualquer remanescente de soda no biocombustível pode se tornar um forte corrosivo para os motores. Assim, a mudança de catalisador pode levar à economia de milhões de litros de água. “O CNK47 é formado por nanoesferas e nanoporos de sílica com elevado conteúdo de potássio disponibilizado na forma de um pó”, diz o professor Queiroz, do Instituto de Ciências Exatas da Unifei.

O novo catalisador é instalado num reator com uma coluna impregnada com o CNK47, num sistema de fluxo contínuo em que o óleo já misturado ao álcool (no processo de transesterificação necessário para a produção de biodiesel), no caso o metanol, passa pelo catalisador, que não se dissolve, antes de se transformar em biodiesel e glicerina, um subproduto da fabricação do biodiesel (ver Pesquisa FAPESP nº 149). A nanoestrutura do produto, como qualquer outro material nanométrico – medida equivalente a um milímetro dividido por um milhão de vezes –, possui elevada área superficial porque grande parte das moléculas exis-tentes nos nanoporos está em contato, no caso, com a mistura de óleo e álcool, facilitando a reação química.

Escala industrial - “Os nossos estudos foram realizados em laboratório com óleo de soja e metanol (os ingredientes mais utilizados no país). O ideal agora é fazer o experimento em projetos piloto em escala industrial com quantidades maiores dos produtos, o que já está sendo realizado por uma empresa paulista. Eles estão realizando os testes desde setembro deste ano e, por contrato de sigilo, nós não podemos divulgar o nome da empresa”, diz Queiroz. Após a confirmação dos resultados em escala industrial será formulada uma patente pela Unifei e pela empresa com âmbito internacional. O trabalho ficou conhecido ao ganhar o primeiro lugar da 16ª Edição do Prêmio da Sociedade Mineira de Engenheiros de Ciência e Tecnologia de 2007.

Um outro catalisador heterogêneo foi inventado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Nele também existe a preocupação de tornar o processo mais limpo e diminuir etapas da produção de biodiesel, eliminando o uso de água. É formado por um compósito de silicatos, argilas, alumínio e zeólitas, um tipo de mineral poroso que serve de base para o catalisador. “As zeólitas possuem poros nanométricos como uma peneira molecular onde acontece a reação química”, diz o professor Dílson Cardoso, do Departamento de Engenharia Química da UFSCar. Ele trabalha há 28 anos com catálise principalmente ligada a processos industriais das áreas de combustíveis e química fina.

“Há nove anos começamos a trabalhar com catalisadores para combustíveis líquidos e desenvolvemos um que aumenta a octanagem da gasolina, fator que melhora a qualidade desse combustível.” É um produto para ser utilizado nas refinarias, na obtenção de uma gasolina que melhora o desempenho do veículo.

“Em 2006, com o início da produção de biodiesel no Brasil, resolvemos utilizar as zeólitas também na reação de transesterificação, necessária para a produção desse combustível porque possuíamos experiência no uso desse mineral e até uma patente de um catalisador com base nas peneiras zeolíticas voltado para as indústrias químicas e farmacêuticas. Desenvolvemos outro catalisador para a produção de biodiesel e já entramos com pedido de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI)”, diz Cardoso, que possui como co-autores os alunos de doutorado Leandro Martins, com bolsa da FAPESP, e Demian Fabiano, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Agora trabalhamos na estabilidade do produto para que possa ser reutilizado várias vezes”, diz Cardoso.

Os catalisadores heterogêneos formulados por Queiroz e Cardoso apresentam muitas vantagens em relação aos produtos convencionais, como não precisar usar água no processo e eliminar os efluentes danosos ao ambiente, mas também mostram algumas dificuldades a serem superadas. Entre as desvantagens, Queiroz aponta a necessidade de temperaturas elevadas para o processo desenvolvido na Unifei, que necessita de 80° Celsius (C) para funcionar, fator que exige gasto de energia elétrica ou de outras fontes. O catalisador de Cardoso funciona a 50°C. O processo de síntese dessas substâncias também exige altas temperaturas. O catalisador CNK47 foi sintetizado em 600°C por 24 horas. “Ainda é caro fazer isso no país principalmente em pequenas quantidades.” Mesmo com dificuldades, o futuro da produção de biodiesel é promissor e dependente de novas tecnologias e da evolução de pesquisas e inventos, como mostraram os estudos recentes desses dois grupos de pesquisadores.

O Projeto
Processo catalítico baseado em peneiras moleculares para reações de transesterificação, úteis na produção de biodiesel

Modalidade
Programa de Apoio à Propriedade Intelectual (Papi)

Coordenador
Dílson Cardoso – UFSCar

Investimento

R$ 6.000,00 (FAPESP)

Pesquisa Fapesp

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Educação, subproduto do pré-sal?

Otaviano Helene

A divulgação de que os recursos gerados com a exploração do petróleo do pré-sal poderão ser vinculados ao financiamento da educação pública do País - e a ampla aceitação desta proposta pela sociedade - tem um (e apenas um) aspecto positivo: o reconhecimento geral da insuficiência de recursos para o setor. Entretanto, apesar desse mérito, tal vinculação apresenta muitos enganos.

A vinculação do desenvolvimento da educação pública à produção de petróleo no País só teria sentido se ela fosse um setor muito demandante de energia, o que não é o caso. Portanto, trata-se de uma associação tão esdrúxula quanto seria a vinculação da educação ao preço da soja no mercado internacional, ou ao uso da telefonia, ou à compra e venda de carros, etc.

O financiamento da educação não deve depender do bom (ou mau) desempenho da economia. O desenvolvimento educacional não pode ser um subproduto da economia, muito menos um subproduto de um único setor, como a produção de petróleo. É muita perversidade imaginar que a educação escolar das pessoas venha a variar paralelamente à cotação do petróleo ou à sua demanda.

Nas últimas décadas tivemos um exemplo das conseqüências negativas da vinculação da educação ao desempenho econômico. A crise econômica iniciada no final da década de 1970, que se prolongou ao longo de toda a década seguinte, teve como resultado a estagnação quantitativa do sistema escolar, que só voltou a apresentar um crescimento após 1990.

De um lado, com a crise econômica daquele período, pessoas e famílias viram aumentar suas dificuldades em arcar com as despesas induzidas pela condição escolar; de outro, o setor público intensificou as restrições orçamentárias. Assim, durante mais de uma década as taxas de conclusão da educação fundamental ficaram praticamente estagnadas em cerca de 30% e as do ensino médio, em perto de 20%. Essa estagnação provocou a subescolarização de enormes contingentes populacionais, que atualmente estão na idade economicamente ativa, criando problemas sociais gravíssimos e dificultando o crescimento econômico do País. Estabeleceu-se, assim, uma espécie de círculo vicioso, em que o declínio econômico prejudicou a educação; esta, ao deteriorar-se, concorreu negativamente para o desempenho da economia; e, novamente, os índices econômicos desfavoráveis incidiram prejudicialmente sobre os recursos destinados à educação…

Outro problema da vinculação do financiamento da educação aos recursos do pré-sal é quando e se estes existirão e também de quanto serão. As primeiras extrações só ocorrerão, dentro de uma perspectiva bastante otimista, daqui a pelo menos cinco anos, um tempo muito longo quando se leva em conta que atualmente cerca de 25% das crianças não concluem o ensino fundamental e que grande parte das que o concluem carregam consigo enormes deficiências - muitas delas, infelizmente, permanecendo analfabetas para qualquer fim prático.

No final do ensino médio, quase metade das pessoas já foram excluídas do sistema educacional. Portanto, não podemos depender de um eventual sucesso na exploração das reservas recém-descobertas de petróleo do pré-sal para enfrentar esse problema. A existência e a quantidade de recursos do pré-sal são de difícil estimativa: eles dependerão do custo da extração, do preço do petróleo no mercado internacional e do nível das necessidades de energia do País.

Se, de um lado, a educação não pode depender da produção de petróleo, de outro, não é razoável jogar todo o peso do financiamento da educação em seu custo. Em caso de sucesso, a produção do pré-sal pode ser estimada em centenas de milhões de barris de petróleo por ano, enquanto as necessidades adicionais de financiamento da educação pública são superiores a 4% do produto interno bruto (PIB) anual. A combinação destas duas cifras implicaria conseguir extrair de cada barril de petróleo algumas centenas de reais para financiar a educação, o que afetaria muito intensamente o custo da energia no País. Isso seria razoável?

Recuperar qualitativa e quantitativamente a educação pública em todos os níveis é uma tarefa urgente e que não pode depender do sucesso de uma única empreitada. Seu necessário financiamento deve ser buscado em toda a sociedade, e não apenas num setor, em particular um setor estratégico como o da produção de energia.

Atualmente, excluídas as maquiagens contábeis (como, por exemplo, a inclusão de despesas previdenciárias nas contas de educação), o Brasil investe apenas cerca de 3,5% de seu PIB em educação pública. A insuficiência desse porcentual explica o que está ocorrendo: classes superlotadas; professores mal remunerados, sobrecarregados e desmotivados; períodos letivos muito curtos e excesso de aulas vagas; aulas no período do almoço; escolas distantes do local de moradia dos estudantes, inexistência de laboratórios, etc. Não basta que a rede pública seja gratuita, é preciso oferecer aos estudantes pobres mais instrumentos de gratuidade ativa, ou seja, aquelas condições que lhes permitirão maior aproveitamento dos estudos: merenda, transporte, material escolar (livros, cadernos e outros), aulas extras quando necessárias.

As conseqüências da situação atual são a alta evasão escolar, as enormes deficiências de aprendizado e o desrespeito às escolas e àqueles que nela trabalham. Nada mudará se forem mantidos os atuais níveis de investimento. E vincular um possível aumento dos recursos à produção, ao preço e à demanda do petróleo extraído de uma fonte específica é um engano que se pode tornar uma perigosa ilusão.

O Estado de São Paulo

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Os horrores dos transgênicos

Andrew Malone

Quando o Príncipe Charles afirmou que milhares de camponeses da Índia estavam se suicidando após utilizarem cultivos GM (transgênicos), foi tachado de alarmista. Em realidade, como este arrepiante relatório revela, é ainda PIOR do que ele temia.

As crianças estavam inconsoláveis. Mudos de medo e lutando por conter as lágrimas, se aconchegavam junto à sua mãe enquanto amigos e vizinhos preparavam o corpo de seu pai para a cremação sobre uma ardente fogueira levantada sobre os gretados e estéreis campos próximos à sua casa.

Enquanto as chamas consumiam o cadáver, Ganjanan, de doze anos, e Kalpana, de quatorze, enfrentavam-se a um futuro sombrio. Embora Shankara Mandaukar tivesse imaginado que seu filho e sua filha teriam uma vida melhor sob o ‘boom’ econômico da Índia, eles têm que enfrentar agora um trabalho de escravos por uma diária miserável. Sem terra e sem lar, cairão na desgraça.

Shankara, camponês respeitado, marido e pai carinhoso, tinha posto fim à sua própria vida. Menos de vinte e quatro horas antes havia bebido uma taça de inseticida devido à perda de suas terras por causa de dívidas. Desesperou-se ao não poder devolver uma dívida equivalente ao lucro de dois anos. Não pôde encontrar solução.

Ainda havia rastros na terra por onde se retorceu em sua agonia. Outros camponeses apenas ficaram olhando a sua contorção dolorosa, pois sabiam por experiência que não tinha sentido intervir, quando se dobrou sobre a terra, gritando de dor e vomitando.

Gemendo, arrastou-se até um banco situado no exterior de seu singelo lar, situado a 180 quilômetros de Napgur, na Índia Central. Uma hora depois, já não se ouvia ruído algum. Tinha deixado de respirar. Às cinco da tarde de um domingo, a vida de Shankara Mandaukar chegou ao fim.

Quando os vizinhos se reuniram para rezar ao redor de sua casa, Nirmala Mandaukar, de 50 anos, contou para todos como voltou correndo do campo para encontrar seu marido morto. “Era um homem afável e carinhoso”, disse chorando brandamente. “Mas já não podia mais. A angústia mental era muito grande. Perdemos tudo”.

A colheita de Shankara fracassou durante dois anos seguidos. Certamente, a fome e a pestilência formam parte da antiga história da Índia.

Mas a culpa da morte deste respeitado camponês tem algo de mais moderno e sinistro: os cultivos geneticamente modificados (GM).

A Shankara, como a milhões de camponeses indianos, tinham-lhe prometido anteriormente insólitas colheitas e ganhos se deixasse de cultivar com as sementes tradicionais e em seu lugar plantasse sementes GM. Mas as colheitas foram um fracasso, e não restaram senão enormes dívidas e nenhum ganho.

Por isso Shankara se converteu em um dos 125.000 camponeses que se suicidaram como conseqüência da desumana campanha que converteu a Índia em um campo de provas dos cultivos geneticamente modificados.

A crise, denominada pelos ativistas de “Genocídio GM”, ganhou notoriedade quando o Príncipe Charles afirmou que a questão das sementes GM se converteu em uma “questão moral global” e que já era hora de pôr fim à sua incontida evolução.

Falando através de vídeo-conferência na capital da Índia, Nova Delhi, enfureceu os dirigentes das companhias dedicadas à biotecnologia e a alguns políticos ao condenar “a taxa verdadeiramente atroz e trágica de suicídios de pequenos camponeses na Índia, produto… do fracasso de muitas das variedades de cultivos GM”.

Poderosos grupos de pressão GM e proeminentes políticos se alinharam contra o Príncipe, afirmando que as sementes geneticamente modificadas transformaram a agricultura da Índia, proporcionando maiores colheitas como nunca houvera.

O resto do mundo, insistem, abraçará esse “futuro” lhe imitando.

Então, quem diz a verdade? Para averiguá-lo, viajei ao “cinturão do suicídio” no estado de Maharashtra.

O que encontrei foi tremendamente inquietante, com graves implicações para os países, incluído o Reino Unido, que torna necessário debater se ao se permitir a plantação de sementes manipuladas pelos cientistas não se está violentando as leis da natureza.

As cifras oficiais do Ministério da Agricultura da Índia confirmam efetivamente que, conformando uma crise humanitária imensa, mais de 1.000 camponeses se suicidam a cada mês.

Gente simples, do campo, que se mata agonizando lentamente. A maioria ingere um inseticida, uma substância que lhes prometeram não necessitariam quando foram coagidos a plantar os caros cultivos GM. Tudo indica, muitos estão muito endividados com os prestamistas locais, havendo-se endividado aos limites para poder comprar essas sementes GM.

Os peritos que estão a favor dos GM afirmam que a pobreza rural, o alcoolismo, as secas e as “preocupações agrícolas” é que são as razões dessa horrorosa quantidade de vítimas.

Mas como descobri durante uma viagem de quatro dias através do epicentro do desastre, essa não é toda a história.

Em um povoado que visitei, 18 camponeses se haviam suicidado depois de que as dívidas dos GM os consumiu. Em alguns casos, as mulheres assumiram o trabalho de seus maridos mortos, só para acabar matando-se também.

Latta Arme, de 38 anos, bebeu inseticida quando suas colheitas fracassaram, dois anos depois de que seu marido desaparecesse quando as dívidas GM transbordaram.

Deixou um filho de dez anos aos cuidados de familiares. “Chora quando pensa em sua mãe”, disse a tia da falecida, completamente desolada, sentada à sombra perto dos campos.

A cada povoado visitado encontrei famílias que contam como foram endividando-se depois de que lhes convenceram a comprar sementes GM em vez das tradicionais sementes do algodão.

A diferença de preço é escandalosa: 10 libras[1] por 100 gramas de sementes GM, comparado com o que custam as sementes tradicionais: menos de 10 libras por mil vezes a quantidade anterior.

Mas os vendedores dos GM e os funcionários do governo tinham prometido aos camponeses que essas eram umas “sementes mágicas”, que produziam melhores colheitas, livres de parasitas e insetos.

Em efeito, para incentivar o consumo de sementes GM, em muitos bancos de sementes do governo se proibiu a venda das variedades tradicionais. O governo indiano, desesperado por superar a devastadora pobreza dos anos posteriores à independência esteve de acordo em permitir que os gigantes das novas biotecnologias, como o líder do mercado americano Monsanto, vendessem suas sementes geneticamente modificadas.

Em troca de permitir que as companhias ocidentais acessassem o segundo país mais populoso do mundo, com mais de um bilhão de habitantes, o Fundo Monetário Internacional concedeu empréstimos à Índia nas décadas de oitenta e noventa, ajudando assim a lançar uma revolução econômica.

Mas enquanto cidades como Mumbai e Nova Delhi avançaram muito, a vida do homem do campo retrocedeu à Idade Média.

Embora as zonas da Índia onde se plantaram sementes GM tenham duplicado o volume de produção em dois anos –até alcançar cerca de 7 milhões de hectares, muitos camponeses pagaram um preço terrível.

Longe de ser umas “sementes mágicas”, as variedades das plantas de algodão GM imune a pestes foram devastadas por uns vermes que atacam os casulos e que são um parasita voraz.

Tampouco disseram aos camponeses que essas sementes requereriam o dobro de irrigação. E isto acabou sendo uma questão de vida ou morte.

Por causa da seca sofrida durante os últimos dois anos, muitos cultivos GM atrofiaram e morreram, deixando os camponeses com dívidas pesadas e sem qualquer meio para pagá-las.

Ao ter pedido empréstimos aos prestamistas tradicionais a juros abusivos, centenas de milhares de pequenos lavradores tiveram que enfrentar a perda de suas terras ao fracassar as caras sementes, enquanto que os que ainda podiam lutar se enfrentaram a uma nova crise.

No passado, quando as colheitas fracassavam, os camponeses podiam ainda salvar as sementes e as guardavam para plantar no ano seguinte. Mas com as sementes GM não se pode fazer isso. Isto porque que as sementes GM contêm a denominada “tecnologia de extermínio”, o que significa que foram geneticamente modificadas para que as colheitas resultantes não produzam sementes aproveitáveis.

Como conseqüência, os camponeses têm que comprar novas sementes a cada ano a preços proibitivos. Para muitos, isso significa a diferença entre a vida e a morte.

Tomemos o caso de Suresh Bhalasa, outro camponês que foi incinerado esta semana, deixando viúva e dois filhos. Ao cair a noite, uma vez terminada a cerimônia e enquanto os vizinhos saíam de suas casas ao mesmo tempo que as vacas sagradas retornavam dos campos, sua família não duvidava de que seus problemas se originaram no momento em que fora incentivado a comprar Algodão BT, uma planta geneticamente modificada criado pela Monsanto.

“Agora estamos arruinados”, disse a viúva do morto, de 38 anos. “Compramos 100 gramas de sementes de Algodão BT. Nossa colheita fracassou duas vezes. Meu marido se deprimiu muito. Foi ao campo, deitou-se no algodoal e tomou inseticida”.

Os habitantes do povoado o colocaram em um rickshaw[[2] e lhe levaram ao hospital por veredas de cabras. “Gritava que tinha tomado o inseticida e que sentia muitas dores no estômago”, disse, enquanto sua família e vizinhos iam à sua casa expressar a sua solidariedade. “Quando chegaram ao hospital já estava morto”.

Ao perguntarmos se o morto era um “bêbado” ou sofria outros “problemas sociais”, como alegam os funcionários partidários dos GM, o tranqüilo e digno grupo de camponeses respondeu colérico: “Não! Não!”, exclamou um dos irmãos do morto. “Suresh era um bom homem. Enviava os seus meninos ao colégio e pagava seus impostos”.

“Viu-se asfixiado por essas sementes mágicas. Vendem-nos as sementes dizendo que não necessitarão pesticidas caros, mas sim necessitam. Temos que comprar as mesmas sementes à mesma companhia cada ano. Estão nos matando. Por favor, conte ao mundo o que está acontecendo aqui”.

A Monsanto admitiu que a dívida exagerada tinha sido um “fator na tragédia”. Mas, ao assinalar que a produção duplicou nos últimos sete anos, um porta-voz acrescentou que havia outras razões para a recente crise, tais como as “chuvas inoportunas” ou a seca, acrescentando que os suicidas sempre tinham formado parte da vida rural na Índia.

Os funcionários declaram também que as pesquisa dizem que a maioria dos camponeses indianos quer sementes GM, sem dúvida animados pelas agressivas campanhas de marketing.

Durante o curso de minhas averiguações em Maharastra, encontrei-me com três pesquisadores “independentes” rastreando os povos para informar-se sobre os suicídios. Insistiram em que as sementes GM eram apenas 50% mais caras, para terminar admitindo que a diferença era de 1.000%.

Um porta-voz da Monsanto insistiu depois em que suas sementes “só custam o dobro” do preço das sementes “oficiais” que não são GM, mas admitiu que a diferença podia ser imensa se as tradicionais sementes mais baratas fossem vendidas por comerciantes “sem escrúpulos”, que freqüentemente também vendem “falsas” sementes GM, propensas às pragas.

Ante os rumores de iminentes indenizações do governo para deter a quebra de onda de suicídios, muitos camponeses disseram que estavam desesperados por conseguir qualquer ajuda. “Queremos superar nossos problemas”, disse um. “Só queremos que nos ajudem para que se acabe esta cadeia de mortes”.

O Príncipe Charles está tão consternado pela grave situação dos suicídios dos camponeses que está montando uma entidade de beneficência, a Fundação Bhumi Vardaan, para ajudar os afetados e promover os cultivos orgânicos indianos em lugar dos GM.

Os camponeses da Índia estão também começando a contra-atacar. Além de tomar como reféns os distribuidores de sementes GM e de organizar protestos maciços, o governo de um dos estados está empreendendo ações legais contra a Monsanto pelos custos exagerados das sementes GM.

Todo isso chega tarde já para Shankara Mandaukar, que tinha 80.000 rúpias (ao redor de 2.900 euros) de dívidas quando tirou a sua vida. “Disse-lhe que poderíamos sobreviver”, disse sua viúva, com seus filhos junto a ela enquanto a escuridão invadia tudo. “Disse-lhe que poderíamos encontrar uma saída. Respondeu-me que preferia morrer”.

Mas a dívida não morreu com a morte de seu marido: a menos que possa encontrar uma forma para devolvê-la, não poderá permitir levar seus filhos à escola. Perderão suas terras, tendo que unir-se às hordas que mendigam por milhares aos lados da estrada por todo este imenso e caótico país.

Exatamente o mais cruel de tudo é que são os jovens os que mais sofrem pelo “Genocídio GM”, a mesma geração que se supunha sair de uma vida de dureza e miséria graças a essas “sementes mágicas”.

Aqui, no cinturão suicida da Índia, o custo do futuro geneticamente modificado é homicidamente alto.

Agencia Latinoamericana de Informacion

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NOAM CHOMSKY

América Latina está deixando de ser o quintal dos Estados Unidos

Uma das principais mudanças na ordem mundial está sendo vivida agora na América Latina, diz Noam Chomsky, em entrevista. Para ele, a região está começando a superar seus problemas internos e sua subordinação ao Ocidente, principalmente em relação aos EUA. Chomsky acredita que a crise atual traz oportunidades de mudanças reais na ordem mundial. “Até onde essa mudança pode chegar, isso depende daquilo que estamos dispostos a empreender”.

A Agencia de Prensa Alternativa Humanista “Sur” (APAHs) entrevistou Noam Chomsky sobre o desenrolar da crise econômica atual. Reproduzimos, aqui, a entrevista, onde Chomsky defende a necessidade de desmontar algumas mitologias relacionadas à crise, destaca o novo papel que a América Latina vem desempenhando no mundo e aponta a abertura de uma janela de oportunidades para mudanças na atual ordem político-econômica global.

Como explicar que, apesar de muita gente ter visto a crise se aproximando, aqueles que estavam na liderança dos governos e das economias não se mostraram preparados para enfrentá-la?

Noam Chomsky: As bases para a crise eram previsíveis. Um fator constitutivo da liberalização financeira é que haverá crises freqüentes e profundas. De fato, desde que a liberalização financeira foi instituída há cerca de 35 anos, estabeleceu-se uma tendência a incrementar a regularidades crises, e crises cada vez mais profundas. As razões são intrínsecas e entendidas: têm a ver fundamentalmente com as bem conhecidas ineficiências dos mercados. Assim, por exemplo, se você e eu fazemos uma transação, digamos que me vende um automóvel, podemos fazer um bom negócio para nós mesmos, mas não consideramos o efeito sobre os outros.

Se eu compro um automóvel, aumenta o uso da gasolina, aumenta a contaminação, o congestionamento, etc. Mas não levamos em conta esses efeitos. Isto é o que os economistas chamam de externalidades, que não são consideradas nos cálculos do mercado. Estas externalidades podem ser enormes. No caso das instituições financeiras, são particularmente grandes. A tarefa de uma instituição financeira é assumir riscos. Se é uma instituição financeira bem administrada, digamos, a Goldman Sachs, ela considerará os riscos para si própria, mas a expressão crucial aqui é “para si própria”. Não leva em conta os riscos sistêmicos, os riscos para o conjunto do sistema se a Goldman Sachs tiver uma perda substancial. Isso significa que esses riscos são subestimados. Assume-se mais riscos do que se deveria tomar em um sistema eficiente que leva em conta todas as implicações. Assim, esta fixação errônea de preços se integra simplesmente como parte do sistema do mercado e da liberalização das finanças.

Como conseqüência dessa subestimação de riscos, estes passam a ser mais freqüentes e quando há fracassos, os custos são mais altos que o esperado. As crises passam a ser mais freqüentes e mais graves à medida que o alcance e o volume das transações financeiras aumentam. Tudo isso se amplifica ainda mais pelo fanatismo dos fundamentalistas do mercado que desmontaram o aparato regulador e permitiram a criação de instrumentos financeiros exóticos e opacos.

É um tipo de fundamentalismo irracional porque fica claro que o enfraquecimento de mecanismos regulatórios em um sistema de mercado incorpora um risco de crise desastrosa. Trata-se de atos sem sentido, salvo para o interesse no curto prazo dos senhores da economia e da sociedade. As corporações financeiras podem, e conseguiram, colher enormes lucros no curto prazo ao empreender ações extremamente aventuradas, incluindo especialmente a desregulação, que trazem dano à economia em geral, mas não para elas, ao menos no curto prazo que é o que orienta o seu planejamento.

Nos EUA, os salários reais permaneceram praticamente estancados para a maioria durante trinta anos.

Não se podia prever o momento exato de uma crise severa, nem se podia prever o alcance exato da crise, mas era óbvio que ela viria. De fato, ocorreram crises sérias e repetidas durante este período de desregulação crescente. Só que até agora não tinham golpeado tão duramente o centro da riqueza e do poder, mas sim, sobretudo, os países do chamado terceiro mundo. Vejamos o caso dos Estados Unidos. É um país rico, mas para uma maioria substancial da população, os últimos trinta anos provavelmente figuram entre os piores da história econômica norte-americana. Neste período, não ocorreram crises massivas, grandes guerras, depressões, etc. No entanto, os salários reais permaneceram praticamente estancados para a maioria durante trinta anos.

Para a economia internacional, o efeito da liberalização financeira foi bastante daninho. Líamos na imprensa que os últimos trinta anos, os do neoliberalismo, mostraram o maior decréscimo da pobreza na história do mundo, um enorme crescimento, etc. Há algo de verdade nisso, mas o que falta dizer é que a diminuição da pobreza e o crescimento ocorreram em países que não seguiram as regras neoliberais, como ocorreu no leste asiático. E os países que observaram tais regras sofreram gravemente, como ocorreu na América Latina.

Joseph Stiglitz escreveu recentemente que esta última crise marca o fim do neoliberalismo. Chávez, durante uma coletiva de imprensa, disse que a crise poderia ser o final do capitalismo. Qual dos dois está mais próximo da verdade?

Chomsky: Em primeiro lugar, devemos ter claro que o capitalismo não pode terminar porque nunca começou. O sistema no qual vivemos deve ser chamado de capitalismo de Estado, não simplesmente capitalismo. No caso dos Estados Unidos, a economia se apóia muito fortemente no setor estatal. No momento, há muita angústia sobre a socialização da economia, mas isso é uma grande brincadeira. A economia avançada de alta tecnologia e similares sempre dependeu amplamente do setor dinâmico da economia estatal. É o caso da informática, da internet, da aviação, da biotecnologia, quase tudo o que está à vista.

Temos um sistema de socialização dos custos e riscos e privatização dos lucros.

O Massachusetts Institute of Technology (MIT), de onde estou falando, é uma espécie de funil no qual o setor público despeja o dinheiro e de onde sai a tecnologia do futuro, que será entregue ao poder privado para que saquem os lucros. Então, temos um sistema de socialização dos custos e riscos e privatização dos lucros. Isso não ocorre somente no sistema financeiro, mas em toda economia avançada.

De modo que, para o sistema financeiro, provavelmente o resultado será mais ou menos o descrito por Stiglitz. É o final de uma certa era da liberalização financeira conduzida pelo fundamentalismo de mercado. O jornal Wall Street Journal lamenta que Wall Street, tal como a conhecemos, tenha desaparecido com a derrocada da banca de investimentos. Alguns passos serão dados na direção da regulação. Isso é certo. No entanto, as propostas que estão sendo formuladas, por mais extensas e severas que sejam, não mudam a estrutura das instituições básicas subjacentes. Não há nenhuma ameaça ao capitalismo de Estado. Suas instituições fundamentais seguirão sendo as mesmas, talvez, inclusive, sem grandes sacudidas. Elas podem ser reacomodadas de várias maneiras. Alguns conglomerados podem absorver outros, alguns podem ser semi-nacionalizados tibiamente, sem que isso afete fortemente o monopólio privado da tomada de decisões.

No entanto, do jeito que vão as coisas, as relações de propriedade e a distribuição de poder e riqueza não mudarão significativamente, embora a era do neoliberalismo, vigente há uns trinta e cinco anos, seguramente será modificada de maneira significativa. Diga-se de passagem, ninguém sabe o quão grave essa crise poderá se tornar. Cada dia traz novas surpresas. Alguns economistas estão prevendo uma verdadeira catástrofe. Outros pensam que ela pode ser consertada, com um transtorno modesto e uma recessão, que provavelmente será pior na Europa do que nos Estados Unidos. Mas ninguém sabe ao certo.

Na sua avaliação, veremos algo parecido com a depressão, com pessoas sem trabalho fazendo grandes filas para conseguir alimentos, nos Estados Unidos e na Europa? E, se isso ocorrer, veremos uma grande guerra para repor as economias em pé, uma terapia de choque ou algo tipo?

Chomsky: Não acredito que a situação seja comparável com o período da grande depressão, ainda que haja algumas semelhanças com essa época. Os anos 20 também foram um período de especulação selvagem e de uma enorme expansão de crédito e empréstimos, com a criação de uma enorme concentração de riqueza em um setor muito pequeno da população e a destruição do movimento sindical. Deste ponto de vista, há semelhanças com o período atual. Mas também há muitas diferenças. Existe um aparato muito mais estável de controle e regulação, resultante do New Deal, e ainda que tenha se enfraquecido, boa parte dele permanece intacto.

Além disso, há a compreensão de que os tipos de políticas, vistas como extremamente radicais no período do New Deal, hoje são mais ou menos normais. Assim, por exemplo, no recente debate presidencial dos EUA, John McCain, o candidato da direita, propôs medidas tomadas do New Deal para enfrentar a crise da habitação. Então, há a compreensão de que o governo deve assumir um papel importante na gestão da economia e, de fato, os setores avançados da economia já vivem essa experiência há cerca de 50 anos.

Há muita mitologia que precisamos desmontar: Reagan foi o presidente mais protecionista da história econômica dos EUA do pós-guerra.

Muito do que se lê sobre isso é pura mitologia. Por exemplo, lemos que a crença apaixonada de Reagan no milagre dos mercados agora está sendo atacada. Atribuiu-se ao ex-presidente o papel de Grande Sacerdote da fé nos mercados. De fato, Reagan foi o presidente mais protecionista da história econômica estadunidense do pós-guerra. Ele aumentou as barreiras protecionistas mais que todos os seus precursores juntos. Convocou o Pentágono a desenvolver projetos para treinar administradores norte-americanos nos métodos avançados de produção japoneses. Ele também operou um dos maiores salvamentos bancários da história norte-americana e conformou um conglomerado baseado no Estado para tratar de revitalizar a indústria de semi-condutores. De fato, ele acreditava em um governo poderoso, de intervenção radical na economia. Quando digo “Reagan” refiro-me a sua administração. O que ele acreditava sobre tudo isso, se é que acreditou em algo, realmente não sabemos e isso não é muito importante.

Há muita mitologia que precisamos desmontar, incluindo aí o que diz a respeito do grande crescimento e da redução da pobreza. Nos próprios Estados Unidos, quando se aplicaram as regras neoliberais, os resultados foram bastante daninhos para a maioria da população. Olhando para além da mitologia, podemos perceber que uma economia capitalista de Estado que, particularmente desde a Segunda Guerra Mundial, dependeu muito fortemente do setor estatal, agora está voltando a depender do Estado para o manejo do sistema financeiro que está desmoronando. Por enquanto, não há sinais de que se produzirá algo parecido com o que ocorreu em 1929.

Então, você não considera que estamos nos encaminhando para uma mudança na ordem mundial?

Chomsky: Bom, há mudanças muito significativas na ordem mundial e esta crise talvez contribua para isso. Mas elas estão aí há algum tempo. Uma das principais mudanças na ordem mundial está sendo vivida agora na América Latina. Costuma-se dizer que a América Latina é o quintal dos EUA e que, há muito tempo, é uma região controlada pelos EUA. Mas isso está mudando. Em meados de setembro tivemos uma ilustração dramática disso.

No dia 15 de setembro, ocorreu uma reunião da Unasul, a União das Nações Sul-americanas, da qual participaram todos os governos sul-americanos, incluindo a Colômbia, atual favorito dos EUA na região. A reunião foi realizada em Santiago, Chile, outro favorito dos EUA. Dela, saiu uma declaração muito contundente de apoio a Evo Morales, da Bolívia, e de rechaço aos setores quase-secessionistas deste país, que contam com o apoio dos Estados Unidos.

Evo Morales respondeu, corretamente, que esta era a primeira vez em 500 anos que a América Latina havia tomado seu destino em suas próprias mãos.

Há uma luta muito significativa na Bolívia. As elites estão se mobilizando pela autonomia e mesmo pela secessão, gerando fortes níveis de violência com a evidente concordância dos EUA. Mas as repúblicas sul-americanas assumiram uma postura firme, em apoio ao governo democrático. A declaração foi lida pela presidente Bachelet, do Chile, uma favorita do Ocidente. Evo Morales respondeu agradecendo aos presidentes pelo apoio e assinalou, corretamente, que esta era a primeira vez em 500 anos que a América Latina havia tomado seu destino em suas próprias mãos, sem a interferência da Europa nem, sobretudo, dos EUA. Esse é um símbolo de mudança muito significativo que está em curso, às vezes chamado de “maré rosada”. Foi tão importante que não foi reportado pela imprensa dos EUA. Há uma frase aqui, outra ali, que registra que algo aconteceu, mas suprimiram totalmente o conteúdo e a importância do que ocorreu.

Isso é parte de um processo de longo prazo, no qual a América do Sul está começando a superar seus enormes problemas internos e também sua subordinação ao Ocidente, principalmente em relação aos Estados Unidos. A América do Sul também está diversificando suas relações com o mundo. O Brasil tem relações cada vez maiores com a África do Sul, a Índia e, particularmente, a China, país cada vez mais envolvido com investimentos e intercâmbios com países latino-americanos. São processos extremamente importantes, que agora estão começando a chegar também na América Central. Honduras, por exemplo, era a clássica república bananeira. Serviu de base para as guerras do terror perpetradas por Reagan na região e subordinou-se totalmente aos EUA. Mas Honduras somou-se recentemente a ALBA, a Alternativa Bolivariana para os Povos da América, proposta pela Venezuela. É um pequeno passo, mas não deixa de ser muito significativos.

Você acha que estas tendências na América do Sul, como Alba, Unasul e os grandes acontecimentos na Venezuela, Bolívia e outros países, podem ser afetados por uma crise econômica da dimensão desta que estamos enfrentando agora?

Chomsky: Bem, esses países serão afetados pela crise mas, no momento, não tanto como estão sendo a Europa e os Estados Unidos. Se olhamos o caso da Bolsa no Brasil, ela caiu muito rapidamente, mas os bancos brasileiros não estão quebrando. Do mesmo modo, na Ásia, as bolsas estão declinando agudamente, mas os governos não estão assumindo o controle dos bancos, como ocorre na Inglaterra, Estados Unidos e boa parte da Europa. Essas regiões, América do Sul e Ásia, de alguma maneira conseguiram se separar das calamidades dos mercados financeiros. O que desatou a crise atual foram os empréstimos subprime para ativos construídos sobre areia, e estes, claro, estão em mãos de estadunidenses e de bancos europeus. O fato de possuir ativos tóxicos baseados em hipotecas os envolveu muito rapidamente nestes acontecimentos. Além disso, os europeus têm suas próprias crises de habitação, particularmente a Inglaterra e a Espanha.

A Ásia e a América Latina ficaram muito menos expostas por terem mantido estratégias de crédito mais cautelosas, particularmente a partir do descalabro neoliberal de 1997-1998. Um grande banco japonês, Mitsubishi UFG, acaba de comprar uma parte substancial do Morgan Stanley, nos EUA. Então, não parece, até agora, que a Ásia e a América Latina serão afetadas tão gravemente como Estados Unidos e Europa.

Você acredita que há uma grande diferença entre Obama e McCain no que diz respeito a temas como o Tratado de Livre Comércio e o Plano Colômbia? Na Colômbia, pode-se sentir que o presidente e seus apoiadores estão assustados frente à eleição de Obama. Sei que você tem a sensação que Obama é como uma folha em branco, mas pensa que ela fará alguma diferença?

Chomsky: Com efeito, Obama tem se apresentado mais ou menos como uma folha em branco. Mas não há motivo para que o governo colombiano se assuste com sua eleição. O Plano Colômbia é uma política de Clinton e há muitas razões para supor que Obama será outro Clinton. Ele é bastante impreciso, a propósito. Mesmo quando explicita políticas, elas se parecem muito a políticas centristas, como Clinton, que modelou o Plano Colômbia e militarizou o conflito.

Tenho, às vezes, a sensação de que os períodos de Bush se deram em um contexto de mudança da ordem mundial, tratando de manter o poder com o uso da força, e que, em troca, Obama pode representar a cara boa para renegociar a ordem mundial. Qual sua opinião sobre isso?

Chomsky: É importante lembrar que o espectro político nos EUA é bastante estreito. É uma sociedade controlada pelas empresas, basicamente, é um Estado de partido único, com duas facções, democratas e republicanos. As facções têm algumas diferenças e estas, às vezes, são significativas. Mas o espectro é bastante estreito. A administração Bush, porém, se situava bastante além do final do espectro, com nacionalistas radicais extremos, crentes extremos no poder do Estado, na violência no exterior e em um alto gasto governamental. De fato, estavam tão fora do espectro que foram criticados duramente inclusive por parte do poder, desde os primeiros tempos.

Seja quem for que assuma o mandato, é provável que desloque o tabuleiro político para o centro do espectro. Obama talvez faça isso em maior medida. Diria que, no caso de Obama, haverá algo como um renascimento dos anos Clinton, adaptado certamente às novas circunstâncias.

Há oportunidades para uma mudança real. Até onde essa mudança pode chegar, isso depende daquilo que estamos dispostos a empreender.

Agora que estamos chegando ao fim da globalização neoliberal, existe a possibilidade de algo realmente novo, uma globalização boa?

Chomsky: Penso que as perspectivas hoje estão muito melhores do que estavam antes. O poder está extraordinariamente concentrado, mas há mudanças a medida que a economia internacional torna-se mais diversificada e complexa. O Sul está se tornando mais independente. Mas, se olhamos para os EUA, mesmo com todo o dano causado por Bush, segue sendo a maior economia homogênea, com o maior mercado interno, a força militar mais forte e tecnologicamente mais avançada, com gastos anuais comparáveis aos do resto do mundo combinados e com um arquipélago de bases militares espalhadas pelo mundo. Estas são fontes de continuidade, mesmo que a ordem neoliberal esteja sofrendo uma erosão dentro dos EUA, na Europa e internacionalmente, com um crescimento da oposição a ela. Então, há oportunidades para uma mudança real. Até onde essa mudança pode chegar, isso depende da gente e daquilo que estamos dispostos a empreender.

Carta Maior

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Industria automóvel de Detroit à beira da falência

As três grandes marcas de automóveis de Detroit (GM, Ford e Chrysler) apresentaram esta semana ao Congresso Americano um pedido de 25 mil milhões de dólares para evitar falências, a subtrair aos 700 mil milhões de dólares do programa de salvação das instituições financeiras (Troubled Asset Relief Program) aprovado em Outubro.

Rui Curado Silva

Segundo o Center for Automotive Research sem esta ajuda calcula-se em cerca de dois milhões e meio o número de empregos em risco se a produção das três empresas fosse reduzida para metade - a solução alternativa para evitar a falência das empresas.

Esta crise de Detroit é resultante em parte dos efeitos secundários produzidos pela crise iniciada no sector imobiliário, dada a dependência destas empresas do crédito directo e do crédito ao consumo dos seus clientes. No entanto, boa parte da crise das marcas de Detroit é também o resultado de décadas de políticas erradas na concepção de automóveis para os quais parecia não haver limites para a capacidade dos motores e para o consumo de carburante. O veículo automóvel mais vendido nos EUA, o Ford F, é uma pickup cujo motor pode variar entre os 4200 cm3 (V6) e os 5400 cm3 (V8), com consumos superiores a 16 litros/100km em circuito urbano e a 11 litros/100 km em auto-estrada. Enquanto boa parte das marcas europeias e asiáticas se iam adaptando às novas necessidades ambientais - cumprimento do Protocolo de Quioto - e à crescente procura e consequente penúria de combustíveis fósseis, produzindo novas viaturas híbridas e motores de baixo consumo, o que orientava as empresas de Detroit era a procura do lucro fácil. Detroit ignorou as reais necessidades dos cidadãos e da sociedade, como se os consumidores fossem criaturas tão limitadas e fiéis que apesar de sofrerem com os efeitos da poluição e com as variações vertiginosas do preço do petróleo, acabariam por voltar a comprar sempre a mesma marca.

Nancy Pelosi, representante do Partido Democrata no Congresso, opôs-se à ajuda argumentando a falta de um plano da parte dos três construtores de Detroit para a aplicação dos 25 mil milhões de dólares. A decisão de Pelosi não foi indiferente aos cerca de 9 milhões de dólares que recebe por ano Rick Wagoner, o administrador da General Motors, e aos vários milhões de dólares por ano que a marca gasta em campanhas de lobbying.

A Europa deveria estar muito atenta a esta questão. Há décadas que os construtores europeus têm sofrido com o proteccionismo agressivo praticado pelo mercado automóvel americano. Esta ajuda de 25 mil milhões de dólares poderá significar a transferência do desemprego dos EUA para a Europa. Faria todo o sentido que a Europa aproveitasse a ocasião para impor metas ambientais no que respeita a emissões poluentes, consumo dos motores e novas tecnologias limpas, bem como exigir uma real abertura do mercado americano às marcas europeias.

Esquerda

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O BICHO

VI ONTEM um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

O Pensador

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