Arquivo de 3 de Dezembro de 2008

Leda Paulani: entrevista sobre a crise

Economia e Infra-Estrutura

Quais as lições de Marx em relação ao livre mercado que podem nos ajudar a compreender a crise financeira atual?

Leda Paulani - O que Marx mostrou de mais importante sobre o assim chamado “livre mercado” é que ele esconde por trás de sua aparência de liberdade, igualdade e equilíbrio o contrário disso. Ele põe a aparência de liberdade porque todos são juridicamente iguais, proprietários de mercadorias, e parecem livres para vender suas mercadorias a quem quiserem e se quiserem e para comprar o que quiserem, de quem quiserem e se quiserem. Ele põe a igualdade porque quando mostra que algo, uma bolsa por exemplo, é igual a R$ 25,00, a venda da bolsa parece uma transação justa, em que se trocou valor de um tipo por valor de outro tipo. A aparência de equilíbrio vem da reiteração das transações mercantis (com suas trocas iguais) no dia-a-dia dos mercados, num movimento que parece poder repetir-se indefinidamente. Quando surgem crises da dimensão da que agora vivemos, elas não combinam com essa aparência idílica e denunciam a complexidade e as relações contraditórias que constituem o sistema capitalista.

IHU On-Line - Qual a validade das definições de Marx para o crédito e o capital financeiro neste momento de crise mundial?

Leda Paulani - Crédito e Capital Financeiro condicionam-se mutuamente. Quando o dinheiro serve não apenas para comprar mercadorias (bens, serviços, força de trabalho, máquinas etc.), mas igualmente para pagar dívidas (e também comprar honra, consciência, enfim tudo aquilo que seja adaptável à forma preço - e fica difícil descobrir o que não seja), Marx diz que ele se transforma em meio de pagamento geral e se ele funciona assim é porque já estão em cena credores e devedores. Aquele que fornece crédito é ao mesmo tempo o detentor de uma forma especial de capital, que Marx chama de capital portador de juros, e que mais popularmente é chamado de capital financeiro. Marx diz sobre o capital portador de juros que ele é a matriz de todas as formas aloucadas de capital. Quem acompanhou o redemoinho vivido pelos mercados financeiros do mundo nas últimas semanas não pode deixar de dar-lhe razão.

IHU On-Line - Em que sentido o conceito de “capital fictício” elaborado por Marx contribui para esclarecer o caráter da crise de agora?

Leda Paulani - Dentre todos os conceitos criados por Marx para dar conta da realidade capitalista, talvez não haja conceito mais importante para interpretar a crise atual do que o de capital fictício. Muitos autores têm considerado que, pelo menos desde o início dos anos 1980 do século passado, o capitalismo vive uma nova etapa, cujo tom é dado pela financeirização. Essa financeirização, produzida pelo crescimento desmesurado da riqueza financeira (frente ao crescimento da riqueza real), implica a submissão da totalidade do sistema econômico aos imperativos da lógica financeira da acumulação, o que garante a continuidade do crescimento dessa mesma riqueza. Ora, esse crescimento desmesurado simplesmente não existiria se não existisse o capital fictício. Quando o dinheiro é emprestado para que se o receba de volta aumentado, numa data futura, está implícita nessa transação a capacidade potencial que o dinheiro tem de se multiplicar. Essa capacidade é “verdadeira”, se esse dinheiro for dar uma voltinha no mundo da produção de bens e serviços, mas cria capital fictício quando, por meio de uma série de mecanismos, cuja explicação demandaria um espaço que não temos, ele não percorre esse caminho. A crise que agora presenciamos tem em seu bojo uma criação num grau inédito de capital fictício. Tudo seria mais simples se pudéssemos simplesmente eliminar esse capital, digamos assim, “espúrio”, penalizando apenas quem contribuiu para sua disseminação, conseguindo com isso colocar o sistema de volta num curso menos fantasmagórico. Mas isso está longe de ser simples, porque existem inúmeros fios nervosos ligando um sistema ao outro. O crédito para a produção e para o comércio é o mais importante e o mais visível desses fios.

IHU On-Line - É correto afirmar que a crise financeira internacional é conseqüência da crise do capitalismo?

Leda Paulani - Essa é uma questão polêmica, cuja resposta não podemos dar aqui integralmente, pois o espaço não é suficiente. O ponto mais polêmico é se o capitalismo está ou não em crise e se está desde quando. Dentre os autores marxistas, alguns julgam que o capitalismo está em crise desde meados dos anos 70 do século passado, porque desde então as taxas médias de crescimento declinaram em todo o planeta. Outros acreditam que há, desde pelos menos uma década antes disso, um problema irresolvido de sobreacumulaçao de capital. Outros ainda acreditam que o capitalismo passa por ciclos sistêmicos de acumulação, ora real, ora financeira e que estaríamos agora num ciclo de acumulação financeira. Seja como for, o fato é que, pelo menos desde o início deste novo século, essa morosidade do sistema no que tange ao crescimento da riqueza real parece ter sido substituída por uma velocidade maior, puxada fundamentalmente pela decisão da China de passar a integrar o sistema capitalista. Nesse sentido, o terremoto financeiro que assistimos tem funcionado como desmancha prazeres, de modo que se poderia dizer, ao contrário, que a crise do capitalismo (a que virá agora) é que é conseqüência da crise financeira. Mas, como disse, essa uma questão muito complicada para ser trabalhada aqui.

IHU On-Line - A crise financeira que assusta o planeta pode ser uma “jogada política” dos países envolvidos?

Leda Paulani - Não. Pensar assim é endossar aquilo que se costuma chamar “visão conspiratória da História”. Por mais onipotente que se imaginasse, nenhum político do centro do sistema colocaria deliberadamente em marcha um processo como esse para alcançar seja lá qual fosse o objetivo. O processo não é evidentemente controlável, e tampouco se sabe de antemão quais serão suas efetivas conseqüências. O feitiço viraria contra esse feiticeiro de araque muito antes do que ele pudesse imaginar. Isso não quer dizer, no entanto, que a própria crise não venha a servir, num futuro não tão distante assim, de argumento para a adoção de políticas fiscais restritivas, de contenção monetária, de cortes de direitos aos trabalhadores, de encolhimento de direitos sociais etc. O aumento do poder do trabalho organizado é um temor constante (como deixou explícito um colunista do ultraliberal jornal Daily Telegraph ao criticar o plano “socialista” de socorro à crise formulado pelo governo britânico - vide matéria na Folha de São Paulo de 10/10, p.B10), de modo que nunca se perde a oportunidade de criar situações em que ele se enfraqueça. Além disso, é um equívoco e uma ingenuidade imaginar que essa crise possa ser atribuída aos “desvios de conduta” de personagens específicos, sejam eles políticos maquiavélicos, investidores gananciosos ou especuladores inescrupulosos. Ainda que os “desvios” existam, eles são, na maior parte dos casos, produzidos pelas próprias circunstâncias sociais, ou seja, a raiz de tudo é sistêmica e não ética.

IHU On-Line - A partir das teorias de Marx, quais os rumos que podemos imaginar para o mundo capitalista, a partir da crise financeira internacional?

Leda Paulani - Esta pergunta está relacionada à anterior sobre a crise do sistema capitalista e sua resposta depende, em última instância, da forma como enxergamos o capitalismo hoje. Tem se falado muito que voltaremos a viver sob um capitalismo super regulado, como aquele que vigiu desde o fim da Segunda Guerra até meados dos anos 1970, que o capital financeiro perderá força, que o neoliberalismo morreu etc. Não acredito muito nessas previsões. Creio que o reinado financeiro ainda durará por um bom tempo, primeiro porque, por mais que a crise tenha debilitado essa poderosa riqueza financeira, ela ainda parece grande demais para deixar de impor seus requerimentos ao andamento material do planeta. Segundo porque o que vivemos hoje é o resultado de um longo processo de financeirização, cujo desmonte não se dará assim do dia para a noite. Terceiro porque, e esse talvez seja o argumento mais forte, ninguém sabe para onde vai o sistema monetário internacional, e esse processo todo - a financeirização e sua crise - é resultado, entre outras coisas, da (não) solução encontrada para a desarticulação do sistema de Bretton Woods.

IHU On-Line - A crise financeira internacional representa o fim de um ciclo? Podemos aguardar uma mudança na condução do sistema financeiro internacional?

Leda Paulani - Sobre ciclo já falei um pouco acima. Mas vale uma observação. Se entendemos que a financeirização configurou um ciclo e se ao mesmo tempo acreditamos que esta crise marca o fim do predomínio do capital financeiro, então estamos autorizados a falar que esta crise marca o fim de um ciclo. Se pensarmos, porém, que a economia mundial vinha finalmente retomando um crescimento menos anêmico depois de décadas de resultados pobres, então não dá para acreditar em ciclo e teremos simplesmente que admitir que as estripulias financeiras destinadas a aumentar mais e mais a riqueza e o poder do capital financeiro atropelaram o ciclo que vinha firmemente engatando a marcha da subida.

IHU On-Line - Até que ponto a regulação do mercado proposta por Marx e Keynes, permitirá que o mercado não se autodestrua?

Leda Paulani - Parece evidente que passaremos por um período de maior regulação, até porque isso acabará por se impor como exigência política. Contudo, se prevalecer, como imagino que prevalecerá, o poder do capital financeiro, essas crises abissais continuarão no horizonte, porque o capital financeiro é extremamente flexível e pródigo em invenções que escapam a qualquer regulação. Além disso, não podemos esquecer que vivemos uma fase do capitalismo em que o dinheiro e o poder estão muito próximos, particularmente por conta de ativos financeiros importantíssimos como os títulos da dívida pública, cujo volume é hoje enorme em praticamente todos os países. Passada a turbulência e o temor, essa proximidade impedirá que qualquer regulação mais efetiva se estabeleça.

IHU On-Line - Como a crise da economia mundial pode afetar a economia ecológica, apresentada por Marx?

Leda Paulani - (essa pergunta não vou responder, pois não sei a que vocês se referem quando falam da economia ecológica “apresentada por Marx”)

IHU On-Line ― A senhora acredita que a atual crise irá suscitar uma renovação política mundial? Em que sentido a senhora vislumbra mudanças?

Leda Paulani - Uma verdadeira renovação política mundial só aconteceria se a crise permitisse uma reorganização dos trabalhadores e dos movimentos sociais de modo geral e planetário, num processo que permitisse a construção de uma efetiva resistência a esse “fascismo do capital” ( se é que a expressão não constitui pleonasmo) que experimentamos há pelo menos um quarto de século. Infelizmente creio que estamos muito longe de um cenário como esse. Ao contrário, como já disse acima, me parece que a crise vai contribuir para vitaminar o discurso conservador (afinal estamos numa situação de emergência!) e permitir a elevação do grau de exploração que possibilita, a um só tempo, enfrentar a tendência congênita deste tipo de capitalismo a sobreacumular capital, e gerar a renda real que coloca sempre ao alcance da mão a possibilidade de tornar absolutamente concretos, assim que se queira, os luxuosos desejos dos donos do capital fictício. Assim, se alguma mudança houver será talvez uma perda relativa de importância dos EUA, mas nada que altere o âmago do sistema capitalista e de sua reprodução tal como hoje se dá.

Socialismo e Liberdade

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Diesel de cana

Combustível vai ser produzido por meio de transformações genéticas em leveduras

Marcos de Oliveira

Saccharomyces cerevisae, a levedura em forma de bastão, em imagem de microscopia, na fase de fermentação
A cana-de-açúcar já não precisa ser identificada apenas pelo nome do tradicional adoçante. Essa gramínea doce já pode ser chamada também de cana de etanol, cana de energia elétrica, com a queima do bagaço que gera eletricidade, e não se pode esquecer da cana da cachaça, a bebida típica nacional. Dentro em breve ela poderá ser reconhecida também como a cana do diesel. A novidade é da Amyris-Crystalsev, uma parceria no formato joint venture, entre a Amyris, empresa norte-americana de biotecnologia, e a Crystalsev, uma das maiores empresas de comercialização de etanol e açúcar do Brasil, que pertence ao mesmo grupo da Usina Santa Elisa, de Sertãozinho, no interior paulista. Também participa do empreendimento a Votorantim Novos Negócios, empresa de capital de risco que passou a investir na nova empresa. O feito tecnológico é da Am-yris, que desenvolveu modificações genéticas em linhagens comerciais da levedura Saccharomyces cerevisiae, responsável por transformar o caldo de cana em etanol durante o processo de fermentação nas usinas. A transformação faz o microorganismo secretar uma substância chamada farneseno, em vez de etanol, que pode ser utilizado em qualquer motor diesel, principalmente em caminhões, ônibus e tratores.

Para viabilizar a tecnologia em larga escala, a Amyris precisava de parceiros que tivessem muita matéria-prima barata como fonte de açúcar e carbono. “No Brasil estamos fazendo a otimização do processo para escala industrial”, diz Roel Collier, diretor-geral da Amyris-Crystalsev. “A pesquisa básica com o desenvolvimento do microorganismo e até uma planta piloto foram feitas nos Estados Unidos.” Para o biólogo Fernando Reinach, diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, a decisão da Amyris em produzir diesel de cana no Brasil se deve também ao conhecimento em fermentação em grande escala dominada pelas usinas brasileiras, no caso a Crystalsev, além do clima e de a produção ser feita de uma fonte barata de sacarose e carbono. “A produção de biocombustíveis a partir da cana tem que ser aqui porque fica caro exportar e transformar a garapa em outro lugar”, diz Reinach, que passou, em outubro, a fazer parte do conselho de administração da Amyris nos Estados Unidos. Para o novo diesel ser competitivo, o preço do barril de petróleo deve estar próximo a US$ 60. O novo diesel não é biodiesel porque não passa pelos mesmos processos desse biocombustível. Reinach acredita que ele encontrará um bom mercado no exterior porque, além de ser uma commodity, o combustível é muito puro. “Ele é melhor que o melhor diesel existente hoje, principalmente porque não tem enxofre (um dos mais sérios responsáveis pela poluição do ar atmosférico) como o diesel do petróleo.” Essa característica tem um apelo ambiental forte, assim como o fato de o ciclo de dióxido de carbono (CO2) ser favorável à cana porque as plantações, para fazer fotossíntese e crescer, absorvem esse gás para produzir novamente a sacarose que resultará no diesel.

A preparação do novo combustível exige poucas modificações no processo e no maquinário de produção tradicional de etanol. Ainda sem revelar todos os detalhes do processo, a Amyris-Crystalsev mostra em um esquema gráfico da produção que, depois da fermentação, quando o caldo de cana recebe o microorganismo modificado geneticamente pela Amyris, vem uma fase de separação, seguida de outra etapa de finalização química, quando o produto está pronto para ir ao mercado. São duas etapas que substituem as fases de destila-ção e desidratação do etanol.

A tecnologia biotecnológica usada pela Amyris foi a da reengenharia de metabolismo. “É modificar os ge-nes que codificam as enzimas responsáveis por transformar o açúcar não em etanol, mas em um outro produ-to”, diz Reinach. Para isso, o trabalho foi quase como o de uma reengenharia reversa, em que a partir de um produto conhecido descobre-se como ele é feito. A molécula farneseno, que forma um líquido incolor e é um componente do diesel fóssil, já era conhecida dos catálogos químicos e possui as mesmas propriedades do diesel, como em relação à combustão, embora seja um produto caro extraído de outras plantas como a citrone-la. Assim, as modificações genéticas foram direcionadas para a secreção de farneseno pela Saccharomyces. Os estudos começaram com os pesquisadores da empresa, que tem sede na cidade de Emeryville, no estado da Califórnia, fazendo o seqüenciamento do genoma da levedura. “Eles conheceram todos os genes da Saccharomyces que produzem etanol para entender também as diferenças que ela tinha com outras linhagens do mesmo microorganismo usadas em laboratório (a mesma levedura também é usada para produzir pão, cerveja e cachaça, por exemplo)”, diz Reinach. “Produzimos algumas ‘microcirurgias’ pontuais no material genético da levedura que modificou a rota metabólica do microorganismo”, diz Collier. “Foram introduzidas seqüências genéticas que incentivaram a produção de diesel em vez de etanol.” Cerca de 15 genes foram modificados. Os responsáveis pela novidade dizem que a Saccharomyces é um organismo geneticamente modificado, mas não divulgam a origem dos genes nem se são de outros organismos. Isso acontece porque o processo ainda se encontra na fase de elaboração de patentes.

Campinas e Sertãozinho - Na atual fase do projeto Amyris-Crystalsev, o momento é de engenharia da planta industrial que deverá ser instalada na Usina Santa Elisa, em Sertãozinho, em junho de 2010. Antes, uma planta piloto estará pronta em 2009 no centro de pesquisa da empresa no Technopark, em Campinas, no interior paulista. A produção começará com 10 milhões de litros de diesel por ano. Em 2011 passará para 50 a 60 milhões de litros na Santa Elisa. A partir daí, a joint venture pretende ofertar a tecnologia para outros grupos sucroalcooleiros. O consumo de diesel no Brasil deve atingir 45 bilhões de litros em 2008, mas a expectativa, segundo divulgou a própria empresa com base em analistas do setor, é de 80 bilhões em 2020.

No entanto, a tecnologia da Amyris não deve se limitar ao novo diesel. “Já é possível afirmar que poderemos fazer querosene de aviação, gasolina e avançar também no caminho da indústria petroquímica”, diz Reinach. Com microorganismos reengenheirados com biotecnologia e alimentados com açúcar, os dirigentes da empresa afirmam ser possível produzir todos esses combustíveis além de insumos para a indústria de plásticos. Todo esse processo tecnológico pela Amyris foi iniciado com pesquisa básica no Departamento de Engenharia Química e Bioengenharia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, pelo professor Jay Keasling, sócio-fundador da empresa com outros três pesquisadores de pós-doutorado da mesma universidade, Neil Renninger, atual diretor de tecnologia, e Kinkead Reiling e Jack Newman, vice-presidentes. Keasling não participa do dia-a-dia da Amyris, mas está ligado ao conselho científico da empresa. Atualmente ele é o diretor-executivo do Joint BioEnergy Institute (JBEI) – algo como instituto reunido de bioenergia, em português –, um novo centro científico norte-americano, também situado em Emeryville, que tem a missão de avançar no desenvolvimento de novos biocombustíveis. Formado em junho de 2007, o instituto foi criado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos em parceria com o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, o Laboratório Nacional Sandia e o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, além da Universidade da Califórnia em Berkeley e em Davis.

A Amyris Biotechnologies foi fundada em 2003 para desenvolver as plataformas tecnológicas vislumbradas pelo grupo. Além da recente participação da Votorantim Novos Negócios, a empresa já recebeu investimentos de mais quatro empresas de capital de risco, que somam no total mais de US$ 100 milhões, como a Kleiner Perkins Caufield & Byers, que participou do nascimento do Google, da Amazon e da America Online. Também recebeu investimentos da Khosla Ventures, TPG Ventures e da eDAG Ventures.

O primeiro produto da empresa foi o desenvolvimento da síntese em laboratório da artemisinina, princípio ativo de um medicamento contra a malária muito usado na África e na Ásia. Até então ela era extraída da própria planta artemísia (Artemisia annua), num processo caro que exige grandes quantidades do vegetal. A equipe da Amyris conseguiu produzir a artemisinina por meio da reengenharia genética de uma bactéria muito usada em laboratório, a Escherichia coli. Novos genes, enzimas e açúcar num processo de fermentação fazem a bactéria modificada produzir o medicamento. Com isso o produto foi barateado em 90%, segundo a empresa. O projeto, iniciado em 2004, durou três anos e meio, foi realizado em parceria com a Universidade da Califórnia em Berkeley e teve um investimento de US$ 42,6 milhões do Instituto OneWorld Health, da Fundação Bill & Melinda Gates. A Amyris está transferindo a tecnologia de produção da artemisinina para a Sanofi-Aventis, indústria farmacêutica de origem francesa, que vai produzir o medicamento a partir de 2010.

A Amyris na sua sede em Emeryville deverá atingir o número de 200 funcionários até o final de 2008. No Brasil, na empresa Amyris-Crystalsev, já são 20 pesquisadores, sendo 50% com doutorado. “Entre janeiro e março de 2009 nós vamos contratar mais pesquisadores para implementar a usina piloto e a futura usina industrial”, diz Collier, da Amyris-Crystalsev.

Pesquisa Fapesp

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O formador das crianças pequenas

O criador dos jardins-de-infância defendia um ensino sem obrigações porque o aprendizado depende dos interesses de cada um e se faz por meio da prática

O alemão Friedrich Froebel (1782-1852) foi um dos primeiros educadores a considerar o início da infância como uma fase de importância decisiva na formação das pessoas – idéia hoje consagrada pela psicologia, ciência da qual foi precursor. Froebel viveu em uma época de mudança de concepções sobre as crianças (leia quadro na página 49) e esteve à frente desse processo na área pedagógica, como fundador dos jardins-de-infância, destinado aos menores de 8 anos. O nome reflete um princípio que Froebel compartilhava com outros pensadores de seu tempo: o de que a criança é como uma planta em sua fase de formação, exigindo cuidados periódicos para que cresça de maneira saudável. “Ele procurava na infância o elo que igualaria todos os homens, sua essência boa e divina ainda não corrompida pelo convívio social”, diz Alessandra Arce, professora da Universidade Federal de São Carlos.

As técnicas utilizadas até hoje em Educação Infantil devem muito a Froebel. Para ele, as brincadeiras são o primeiro recurso no caminho da aprendizagem. Não são apenas diversão, mas um modo de criar representações do mundo concreto com a finalidade de entendê-lo. Com base na observação das atividades dos pequenos com jogos e brinquedos, Froebel foi um dos primeiros pedagogos a falar em auto-educação, um conceito que só se difundiria no início do século 20, graças ao movimento da Escola Nova, de Maria Montessori (1870-1952) e Célestin Freinet (1896-1966), entre outros.

Biografia
Filho de um pastor protestante, Friedrich Froebel nasceu em Oberweissbach, no sudeste da Alemanha, em 1782. Nove meses depois de seu nascimento, sua mãe morreu. Adotado por um tio, viveu uma infância solitária, em que se empenhou em aprender matemática e linguagem e a explorar as florestas perto de onde morava. Após cursar informalmente algumas matérias na Universidade de Jena, tornouse professor e ainda jovem fez uma visita à escola do pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), em Yverdon, na Suíça. Em 1811, foi convocado a lutar nas guerras napoleônicas. Fundou sua primeira escola em 1816, na cidade alemã de Griesheim. Dois anos depois, a escola foi transferida para Keilhau, onde Froebel pôs em prática suas teorias pedagógicas. Em 1826, publicou seu livro mais importante, A Educação do Homem. Em seguida, foi morar na Suíça, onde treinou professores e dirigiu um orfanato. Todas essas experiências serviram de inspiração para que ele fundasse o primeiro jardim-de-infância, na cidade alemã de Blankenburg. Paralelamente, administrou uma gráfica que imprimiu instruções de brincadeiras e canções para serem aplicadas em escolas e em casa. Em 1851, confundindo Froebel com um sobrinho esquerdista, o governo da Prússia proibiu as atividades dos jardins-de-infância. O educador morreu no ano seguinte, mas o banimento só foi suspenso em 1860, oito anos mais tarde. Os jardins-de-infância rapidamente se espalharam pela Europa e nos Estados Unidos, onde foram incorporados aos preceitos educacionais do filósofo John Dewey (1859-1952).

Treino de habilidades
Por meio de brinquedos que desenvolveu (leia quadro na página 48) depois de analisar crianças de diferentes idades, Froebel previu uma educação que ao mesmo tempo permite o treino de habilidades que elas já possuem e o surgimento de novas. Dessa forma seria possível aos alunos exteriorizar seu mundo interno e interiorizar as novidades vindas de fora – um dos fundamentos do aprendizado, segundo o pensador.

BRINQUEDOS CRIADOS PARA APRENDER

Froebel considerava a Educação Infantil indispensável para a formação da criança – e essa idéia foi aceita por grande parte dos teóricos da educação que vieram depois dele. O objetivo das atividades nos jardins-de-infância era possibilitar brincadeiras criativas. As atividades e o material escolar eram determinados de antemão, para oferecer o máximo de oportunidades de tirar proveito educativo da atividade lúdica. Froebel desenhou círculos, esferas, cubos e outros objetos que tinham por objetivo estimular o aprendizado. Eles eram feitos de material macio e manipulável, geralmente com partes desmontáveis. As brincadeiras eram acompanhadas de músicas, versos e dança. Os objetos criados por Froebel eram chamados de “dons” ou “presentes” e havia regras para usá-los, que precisariam ser dominadas para garantir o aproveitamento pedagógico. As brincadeiras previstas por Froebel eram, quase sempre, ao ar livre para que a turma interagisse com o ambiente. “Todos os jogos que envolviam os ‘dons’ começavam com as pessoas formando círculos, movendo-se e cantando, pois assim conseguiam atingir a perfeita unidade”, diz Alessandra Arce. Para Froebel, era importante acostumar as crianças aos trabalhos manuais. A atividade dos sentidos e do corpo despertariam o germe do trabalho, que, segundo o educador alemão, seria uma imitação da criação do universo por Deus.

Ao mesmo tempo que pensou sobre a prática escolar, ele se dedicou a criar um sistema filosófico que lhe desse sustentação. Para Froebel, a natureza era a manifestação de Deus no mundo terreno e expressava a unidade de todas as coisas. Da totalidade em Deus decorria uma lei da convivência dos contrários. Isso tudo levava ao princípio de que a educação deveria trabalhar os conceitos de unidade e harmonia, pelos quais as crianças alcançariam a própria identidade e sua ligação com o eterno. A importância do autoconhecimento não se limitava à esfera individual, mas seria ainda um meio de tornar melhor a vida em sociedade.

Além do misticismo e da unidade, a natureza continha, de acordo com Froebel, um sistema de símbolos conferido por Deus. Era necessário desvendar tais símbolos para conhecer o que é o espírito divino e como ele se manifesta no mundo. A criança, segundo o educador, trazia em si a semente divina de tudo o que há de melhor no ser humano. Cabia à educação desenvolver esse germe e não deixar que se perdesse.

Educação espontânea
O caminho para isso seria deixar a criança livre para expressar seu interior e perseguir seus interesses. Froebel adotava, assim, a idéia contemporânea do “aprender a aprender”. Para ele, a educação se desenvolve espontaneamente. Quanto mais ativa é a mente da criança, mais ela é receptiva a novos conhecimentos.

O ponto de partida do ensino seriam os sentidos e o contato que eles criam com o mundo. Portanto, a educação teria como fundamento a percepção, da maneira como ela ocorre naturalmente nos pequenos. Isso não quer dizer que ele descartasse totalmente o ensino diretivo, visto como um recurso legítimo caso o aluno não apresentasse o desenvolvimento esperado. De modo geral, no entanto, a pedagogia de Froebel pode ser considerada como defensora da liberdade.

NOVO CONCEITO DE INFÂNCIA NA EUROPA

Duas tendências históricas são essenciais para a compreensão da obra de Froebel. Uma é a valorização da infância – que passou, entre os séculos 18 e 19, a ser encarada como uma fase da vida com particularidades bem marcantes e com duração longa (é dessa época também o surgimento do conceito de adolescência). Havia pouco tempo, era comum meninos europeus de 7 anos entrarem para as Forças Armadas. Cerca de um século antes do nascimento de Froebel, tamanha era a mortalidade infantil que a infância não passava de um período de “teste” para candidatos a adultos. Na Idade Média, segundo o historiador francês Philippe Ariès, a idéia de infância simplesmente não existia: as crianças eram adultos à espera de adquirir a estatura “normal”. Outra tendência histórica marcante do período em que Froebel viveu foi o individualismo burguês, simbolizado pela figura de Napoleão, que encarnava o ideal do homem que se fez sozinho e se tornou imperador da França.

O educador acreditava que as crianças trazem consigo uma metodologia natural que as leva a aprender de acordo com seus interesses e por meio de atividade prática. Ele combatia o excesso de abstração da educação de seu tempo, argumentando que ele afastava os alunos do aprendizado. Na primeira infância, dizia, o importante é trabalhar a percepção e a aquisição da linguagem. No período propriamente escolar, seria a vez de trabalhar religião, ciências naturais, matemática, linguagem e artes.

Froebel defendia a educação sem imposições às crianças porque, segundo sua teoria, elas passam por diferentes estágios de capacidade de aprendizado, com características específicas, antecipando as idéias do suíço Jean Piaget (1896-1980). Froebel detectou três estágios: primeira infância, infância e idade escolar. “Em seus escritos, ele demonstra como a brincadeira e a fala, observadas pelo adulto, permitem apreender o nível de desenvolvimento e a forma de relacionamento infantil com o mundo exterior”, diz Alessandra Arce.

Froebel não fez a separação entre religião e ensino, consagrada atualmente, mas via a educação como uma atividade em que escola e família caminham juntas, outra característica que o aproxima da prática contemporânea.

Para pensar
Froebel chegou a suas conclusões sobre a psicologia infantil observando as brincadeiras e os jogos das crianças. Diante das atividades espontâneas de seus alunos, você já pensou que tem a oportunidade de entender a psicologia de cada um e também de depreender algumas características da faixa etária a que eles pertencem?

Revista Escola

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O retorno de Keynes

Robert Skidelsky

Eu sempre disse que John Maynard Keynes viverá enquanto o mundo precisar dele. O que o mundo decidiu, 30 anos atrás, foi que não precisava mais de Keynes. A revolução keynesiana foi reduzida a um sistema mecânico para a estabilização de economias por meio de superávits e déficits orçamentários - mais déficits do que superávits, conforme se viu, levando às crises “estagflacionárias” da década de 1970. Segundo os teóricos, Keynes foi redundante, não tendo conseguido provar que o mundo necessita das políticas “keynesianas”. O sistema de mercado se auto-corrigia automaticamente; o keynesianismo só levava à inflação.

E, a partir desse ponto de vista, os teóricos tinham razão. A única base aceitável para a teorização econômica é o pressuposto de que os seres humanos são maximizadores racionais. Sendo isto verdade, segue-se que os vários distúrbios aos quais as economias de mercado estão susceptíveis são resultado de interferências externas. Para Hayek e Friedman, a culpa residia na manipulação de reservas monetárias por parte do governo com fins populistas. Fora os economistas, ninguém acredita que a natureza humana seja aquela descrita pela economia, mas, sem o seu axioma da racionalidade, a economia não poderia existir como a ciência que ela alega ser.

A grandeza de Keynes, e, na verdade, a sua singularidade como economista, é o fato de ele ter sido mais do que um economista. Além de ser um brilhante teórico e um grande administrador, ele foi o único poeta da natureza humana na área da economia. Ele tentou colocar a sua poesia a serviço da ciência e das políticas de governo. Mas tal proposta não se adequava bem à realidade, conforme ele próprio reconheceu em parte. A parte poética e a científica da sua teoria são discordantes. Assim, a poesia foi extirpada, e, com isso, a sua ciência também veio abaixo. De acordo com os teóricos, ele nunca conseguiu demonstrar por que agentes racionais deveriam desprezar negócios que os beneficiariam. Desemprego involuntário é impossível. E, assim que a ciência de Keynes se foi, restou pouco ou nada das políticas keynesianas. Tudo o que é necessário à economia é um sistema bancário central, cujos princípios são bem anteriores à economia de Keynes.

A forma como Keynes entende a psicologia humana nos mercados tem três características, nenhuma das quais encaixa-se no paradigma dominante da economia. O primeiro é a incerteza inevitável. “O fato notável é a extrema precariedade da base de conhecimento sobre a qual as nossas estimativas de possíveis retornos precisam ser feitas”, escreveu ele na sua obra-prima, “The General Theory of Employment, Interest, and Money” (”A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”), de 1936.

Nós ocultamos esta incerteza de nosso pensamento ao assumirmos que o futuro será como o passado, que a opinião existente resume corretamente as perspectivas futuras, e ao copiarmos tudo o que os outros estão fazendo. Mas qualquer visão do futuro baseada “em uma estrutura tão frágil” está sujeita “a mudanças súbitas e violentas. A práticas da calma e da imobilidade, da certeza e da segurança, subitamente se esfacelam. Novos temores e esperanças tomarão conta, sem aviso, da conduta humana… O mercado ficará sujeito a ondas de sentimentos de otimismo e pessimismo, que não são razoáveis, mas que, de certa forma, são legítimos onde não existe uma base sólida para cálculos razoáveis”. Ele via a economia como “uma dessas belas e educadas técnicas que procuram lidar com o presente abstraindo-se do fato de que nós conhecemos muito pouco sobre o futuro”.

Face à incerteza, os verdadeiros motivadores do comportamento humano são muito diferentes daqueles cogitados pelos economistas. “A maior parte… das nossas decisões de fazer algo positivo… só podem ser vista como um resultado de espíritos animais… Se os espíritos animais são suprimidos… o empreendimento desvanece-se e morre”, é uma das suas famosas observações. O investimento profissional, escreveu Keynes, é como “um jogo de Snap, Old Maid ou Musical Chair”, no qual o objetivo é passar adiante a Old Maid - a dívida “tóxica” - para o vizinho antes que a música pare. Eis aqui a anatomia identificável da “exuberância irracional”, seguida pelo pânico cegante, que tem dominado a atual crise.

O segundo aspecto é aquilo que pode ser chamado de “organicismo” de Keynes. Ele era um individualista, mas em um sentido tradicional e quase religioso - ou seja, ele via os indivíduos como partes de uma comunidade de valores. A sua unidade de análise é bem diferente do “individualismo metodológico” que permeia o pensamento econômico. A essência disto pode ser difícil de se captar de forma abstrata, mas ela pode ser ilustrada nos seus escritos freqüentes contra a idéia de fazer da folha de balanço e das análises de eficiência os únicos testes de virtude econômica. Na década de 1930 ele elogiou a sua própria cidade natal, Cambridge, como sendo um lugar onde podia-se passar uma tarde andando pelas redondezas, “conversando com amigos antigos” e fazendo compras em “lojas que são realmente lojas, e não apenas um ramo da tábua de multiplicação”. Visões como estas fizeram dele o único apoiador qualificado daquilo que atualmente é chamado de globalização.

Keynes teria aprovado a operação de resgate montada pelos governos mundiais para salvar o sistema bancário global. Como patriota britânico, ele estaria orgulhoso do fato de o seu país ter assumido a liderança nesta iniciativa. Mas ele estaria preocupado com o grande elemento de incerteza quanto ao resultado. O governo precisa injetar no sistema dinheiro suficiente para compensar a “propensão a acumular” (preferência por liquidez na linguagem de Keynes), de forma a fazer com que a taxa de juros de longo prazo caia. A questão é saber o quanto é suficiente. Se for muito pouco, a tendência deflacionária e uma depressão podem não ser evitadas; se for muito, há o risco de inflação mundial. Nenhum cálculo mecânico fornecerá a resposta correta; tudo depende da confiança com que as medidas são recebidas pela população. No momento, nós simplesmente não sabemos; e nenhuma “técnica bela e educada” nos fornecerá a resposta.

Prospect

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A morte de um antifascista

CINEMA Diretor italiano Florestano Vancini deixa esperança de que, mesmo num mundo em que o capitalismo mais desumano parece triunfar, há seres incorruptíveis e solidários como ele

Florence Carboni

NO DIA 18 de setembro, morreu, aos 82 anos, Florestano Vancini, célebre diretor de cinema italiano. Nascido na cidade de Ferrara, em 1926, ele se destacou pelo engajamento político antifascista. Após alguns documentários e colaborações com os famosos diretores Mario Soldati (1906-1999) e Valerio Zurlini (1926-1982), Vancini realizou, em 1966, seu primeiro filme, La lunga notte del ’43, inspirado em conto do livro Cinque storie ferraresi, do escritor e roteirista antifascista Giorgio Bassani (1916-2000), que nasceu em Bolonha, mas que, como o diretor, viveu desde a infância em Ferrara, região onde são ambientados alguns de seus romances – entre eles, Gli occhiali d’oro e Il giardino dei Finzi Contini.
Realizado com um roteiro de Ennio De Concini (1923-…) e Pier Paolo Pasolini (1922- 1975), La lunga notte del ‘43 narra o massacre, em 14 de dezembro de 1943, de onze resistentes pelas brigadas fascistas da República de Salò.
No filme, Vancini registra visão da história fina e profunda, quase profética: na cena final, após o fim do conflito, o mussolinista responsável pelo massacre dos combatentes antifascistas volta à cidade e passa a ser respeitado e admirado, como se nada tivesse ocorrido.
Vancini dirigiu inúmeros outros filmes: La banda Casaroli (1962), que conta a história de um famoso bandido bolonhês; La calda vita (1963); Le stagioni del nostro amore (1965), que obteve o Prêmio da Crítica no Festival de Berlim; I lunghi giorni della vendetta (1967), western à italiana, que dirigiu com o pseudônimo de Stan Vance, com a participação do famoso ator Giuliano Gemma, também protagonista em outros dois filmes do diretor, Violenza al sole – Un’estate in quattro (1969) e La Baraonda (1980). Nos anos de 1970, Vancini dirigiu La violenza, quinto potere (1972), Amore amaro (1974), ambientado na Ferrara da época do fascismo, e Un dramma borghese (1979). O último filme de Vancini, E ridendo l’uccise, de 2005, foi ambientado na Ferrara do Renascimento.
O diretor ganhou fama sobretudo graças a dois filmes históricos: Bronte (1972) e Delitto Matteotti (1973).
Bronte, cronaca di un massacro che i libri di storia non hanno raccontato, escrito por Vancini com Leonardo Sciascia (1921-1989), Nicola Badalucco (1929-…) e Fabio Carpi (1925-…), a partir da novela pouco conhecida de Giovanni Verga, Libertà, aborda a revolta camponesa siciliana contra o latifúndio, ocorrida em 1860, durante a unificação da Itália, e o seu massacre promovido pelo exército de Giuseppe Garibaldi, comandado por seu general Nino Bixio.
Delitto Matteotti narra o assassinato do deputado socialista e opositor intransigente de Mussolini, Giacomo Matteotti (1885-1924), logo após seu discurso na Câmara, em 1924, no qual contestara a validade das eleições de abril, em que a Lista Nazionale, formada por fascistas e liberais, obteve mais de 60% dos votos.
Nos anos de 1980, o diretor realizou séries para a televisão, sem jamais abandonar seu comprometimento com a história dos oprimidos.
São dele: La neve nel bicchiere (1984), sobre a história de três gerações de camponeses da planície ferrarense, desde os últimos anos do século 19 até 1927; La Piovra 2, segunda minissérie (em seis episódios episódios – o primeiro foi lançado em 1986) da conhecida saga televisiva sobre a máfia, com o famoso ator Michele Placido; a série Piazza di Spagna (1993) e Lettera dal Salvador (1987), filme político para a televisão sobre um médico francês em El Salvador, no período da guerra civil, com o ator Bruno Crémer (1929-…), para a série francesa Médecins des hommes.
O nome de Vancini não costuma ser citado entre os grandes diretores italianos do pósguerra.
No entanto, ao lado de algumas produções menores, a maioria dos filmes de Vancini possui grande valor cinematográfico e altíssimo conteúdo ético. Sobretudo no contexto político singular que a Itália atravessa – no qual, ao lado do cotidiano desrespeito à vida e aos direitos da população, assistimos a incessantes releituras revisionistas e enaltecedoras do trágico passado fascista, por membros do próprio governo de Silvio Berlusconi –, os filmes de Vancini trazem alívio e esperança. A esperança de que, mesmo nesse mundo triste em que o capitalismo mais desumano parece triunfar, há seres humanos como ele, incorruptíveis e solidários. Seus filmes são igualmente instrumento útil para reiterar a certeza de que a dinâmica da história é bem mais complexa do que alguns, hoje, querem fazer acreditar.

Brasil de Fato

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Imaturos diante da vida, maduros para a morte

Em geral os adolescentes não têm direito de opinar sobre coisas menores, mas sua maturidade pode crescer até tomar decisões adultas

Jaime Prats

Os adolescentes não costumam ser ouvidos em questões menores de sua própria vida, mas sua maturidade pode aumentar até ele serem capazes de decidir, por exemplo, sobre sua morte. Contradição? Os psicólogos acreditam que, submetidos a uma situação difícil, os jovens são amplamente capazes de tomar uma decisão adulta. E a lei lhes dá razão.

As imagens de Hannah Jones, 13 anos, cercada de bichos de pelúcia em seu quarto e dando explicações sobre os motivos pelos quais prefere morrer rodeada de seus parentes a se submeter a um transplante de coração de eficácia duvidosa, entraram na última quarta-feira nos lares de meio mundo através dos noticiários. “Há riscos demais. Poderia não dar certo e eu ficar pior do que estou agora”, explicou com espantosa tranqüilidade. “Além disso, os médicos não podem garantir de forma científica que se eu aceitar o transplante ficarei curada”, acrescentou, olhando para a câmera com seu rosto sardento.

A questão estaria fora de qualquer discussão se se tratasse de um adulto. O Convênio do Conselho da Europa de Direitos Humanos e Biomedicina de 1997, com estatuto de lei em todos os países membros da União Européia, estabelece com clareza que qualquer paciente pode recusar o tratamento proposto pelos médicos sem necessidade de justificar sua decisão. É uma opção que cabe à autonomia de cada pessoa e que se pode levar ao extremo, desde que, evidentemente, ela esteja na plenitude de suas faculdades mentais.

O que acontece quando se trata de um menor? A recusa de pacientes a se submeter a um transplante “já ocorreu e ocorre com certa freqüência na Espanha”, diz o diretor-geral da Organização Nacional de Transplantes, Rafael Matesanz, mas não há referências de nenhum adolescente. Marcelo Palacios, presidente do Comitê Científico da Sociedade Espanhola de Bioética, também não lembra de episódios semelhantes no exterior. Hannah, doente do coração devido ao arsenal terapêutico que lhe foi administrado durante os oito anos em que combateu uma leucemia, teve respeitada sua vontade por se considerar que tem maturidade suficiente para tomar decisões que afetam sua doença e sua vida. Essa é a questão: determinar até que ponto um menor tem critérios para que sua opinião seja considerada.

Sem ser exatamente igual ao que ocorreu com a adolescente inglesa, a Espanha teve seu próprio caso Hannah. Foi em 1994 e seu protagonista se chamava Marcos Alegre Vallés, um rapaz que vivia na localidade de Ballobar (Huesca). Existem pontos em comum entre os dois: ambos tinham 13 anos e sofriam de leucemia. Mas também há diferenças importantes: Marcos era testemunha de Jeová, razão pela qual resistiu a receber uma transfusão, e seu caso não só chegou aos tribunais como acabou no Constitucional.

A origem de tudo foi a queda da bicicleta que o menino sofreu enquanto passeava por sua cidade. Em conseqüência do acidente, teve uma hemorragia nasal que alertou seus pais. Depois de ele ser submetido a diversos testes, foi diagnosticada uma leucemia e prescrita uma transfusão, momento em que começaram os problemas, já que sua religião proíbe taxativamente essa prática.

Diante da negativa dos pais, os médicos do Hospital Arnau de Vilanova de Lleida pediram amparo judicial para combater a anemia de Marcos. Seus progenitores acataram a decisão, mas o rapaz, não. Rejeitou a transfusão “com autêntico terror, reagindo com agitação e violência, em estado de grande excitação”, segundo relataram os médicos, que preferiram não seguir adiante devido ao risco de agravar sua situação e provocar uma hemorragia cerebral. A saúde de Marcos foi se agravando progressivamente até que ele entrou em coma. Depois de uma nova autorização judicial, finalmente recebeu a transfusão, mas o sangue chegou tarde demais e ele morreu pouco depois.

Após um longo percurso pelos tribunais, o Constitucional se pronunciou sobre o caso em 2002. Por um lado, anulou uma condenação do Supremo de dois anos contra os pais de Marcos, por não terem convencido seu filho a aceitar o tratamento. Mas o mais relevante foi que os magistrados avaliaram que o menino tinha direito a se opor ao ato médico.

Segundo a sentença, Marcos “expressou com clareza”, no exercício de sua liberdade religiosa, uma vontade que consistia em não aceitar transfusões de sangue. E lhe reconheceram juízo suficiente para agir dessa forma. Nas palavras de Yolanda Gómez Sánchez, catedrática de direito constitucional da UNED e especialista em biomedicina e direitos humanos, o sentido da decisão foi que “toda pessoa tem direito à autonomia pessoal e a decidir sobre sua própria realidade física”. Os menores também, se tiverem critério suficiente.

Essa tese se soma, por um lado, à Convenção sobre os Direitos da Criança aprovada pela ONU em 1989, que em seu artigo 12 ordena aos países signatários que garantam à criança “o direito a expressar sua opinião livremente nos assuntos que a afetam, levando-se em conta suas opiniões em função da idade e da maturidade”. Por outro lado, se vincula ao Convênio de 1997 e toda a norma surgida dessa diretriz européia, que dá cada vez mais peso à opinião do menor em relação ao tratamento que deve sofrer. Mas além disso a sentença se adiantou à lei espanhola 41/2002 de Autonomia do Paciente, que consagra esses conceitos e foi publicada meses depois.

Primeiro, em seu artigo 2.4, que reconhece a todo paciente “o direito a decidir livremente, depois de decisão adequada, entre as opções clínicas disponíveis”. E mais adiante, no capítulo do consentimento informado, outorgando voz aos menores em função de sua maturidade. Abaixo dos 12 anos a lei não presume capacidade de escolha. A decisão é de seus pais ou tutores, “embora fosse necessário perguntar às crianças, não porque sua posição seja relevante juridicamente, mas para que os pais a levem em conta”, na opinião de Yolanda Gómez. A partir dos 16 anos, a opinião que prevalece é a do menor, embora seus pais tenham o pátrio poder. “Seria muito estranho que um juiz desse razão aos pais nessa idade. A maturidade é total; os menores têm inclusive responsabilidade penal”, aponta essa jurista.

Mas entre os 12 e 16 anos, idades entre as quais se encontra Hannah e nas quais estava Marcos, a coisa se complica. Nessas idades, a lei diz que o consentimento será dada pelo representante legal do menor, “depois de ter escutado sua opinião se tiver 12 anos”. A decisão é dos pais, mas existe a obrigação de escutar os filhos e de avaliar sua capacidade de julgamento.

Mais uma vez, e apesar de a lei definir as idades - algo que a declaração da ONU não faz -, tudo gira em torno da maturidade. Mas como se mede essa faculdade? Para Sabel Gabaldón, chefe de psiquiatria do Hospital Infantil Sant Joan de Déu de Barcelona, não há maturidade, mas maturidades. “É preciso perguntar para quê uma criança tem juízo. Talvez possa decidir sobre um tratamento médico concreto do qual tenha conhecimento e vivência suficiente, mas não sobre outras facetas de sua vida, por exemplo a sexualidade. Ou inclusive carecer de critério para decidir sobre outras questões de saúde”, aponta Gabaldón, que também coordena o comitê ético de seu hospital.

Na hora de avaliar a maturidade, María Victoria del Barrio, professora do Departamento de Personalidade, Avaliação e Tratamentos Psicológicos da Faculdade de Psicologia da UNED, se fixa principalmente em três aspectos. O domínio das emoções, a atitude na hora de se explicar e resolver problemas e a capacidade de reconhecer seus erros. Essa pesquisadora de emoções infantis afirma que em geral a maioria das crianças de 12 a 16 anos é imatura. “Vivem entre nuvens, protegidas por seus pais, não aceitam a menor contrariedade.” Sabel, que não compartilha essa generalização, se interessa mais por determinar até que ponto o jovem é capaz de assimilar a informação transmitida, se a pode manipular racionalmente e antecipar-se aos riscos ou benefícios que derivam dela.

Se nessa faixa de idade entre 12 e 16 a opinião do menor e dos pais coincide, não há problema. Foi o que aconteceu com a adolescente inglesa e a posição que prevaleceu, apesar das resistências que encontrou dos médicos. Se não estiverem de acordo, “apesar de a lei não indicar nada, os médicos costumam recorrer ao juiz”, comenta Gómez, que até 31 de dezembro passado pertenceu ao Comitê Internacional de Bioética da Unesco. “O normal é que o façam ‘ad cautelam’, quer dizer, que para proteger as costas transfiram essa questão ao comitê ético do hospital e que este ou a administração sanitária regional a leve aos tribunais”, explica.

Nem todos os juristas compartilham totalmente essas colocações. O jesuíta Carlos Romeo Casabona, diretor da cátedra de Direito e Genoma Humano da Universidade do País Basco e Deusto, não opõe objeção a que as testemunhas de Jeová rejeitem transfusões a partir dos 18 anos. Mas abaixo dessa idade ele tem suas dúvidas. “Se os pais se negam, o juiz deve ordenar aos médicos que transfundam o menor quando considerarem necessário.”

Casabona é consciente de que essa opinião se choca frontalmente com a sentença do Tribunal Constitucional: “Aos 13 anos não se pode reconhecer a maturidade suficiente para tomar uma decisão vital”, afirma.

Hannah se negou a receber um tratamento que, no melhor dos casos, poderia prolongar sua vida, mas que não vai curar sua leucemia. Questão muito diferente é se tivesse solicitado acabar com sua vida. Na Espanha a eutanásia é proibida, mas o ministro da Saúde, Bernat Soria, anunciou sua intenção de revisar a lei nesta legislatura.

Holanda (2000) e Bélgica (2002) são os únicos países europeus que autorizaram a eutanásia. O suicídio assistido é permitido na Suíça graças a uma brecha legal. Dentro do conceito cada vez mais extenso de considerar os menores sujeitos de direitos na medida de sua capacidade, e apesar de ter sido criada para a população adulta, a lei holandesa da eutanásia inclui a população que ainda não completou 18 anos. Entre 12 e 16, as crianças doentes que a solicitarem estão pendentes do que seus pais decidirem. Entre 16 e 17, o relevante é a decisão do paciente, e a opinião dos pais é levada em conta.

Na Bélgica, depois que há quatro anos se rejeitou essa opção, os liberais flamengos voltaram ao ataque. Em junho defenderam novamente baixar de 18 para 16 anos o limite legal exigido para adotar essa prática de forma autônoma. Abaixo dessa idade, a palavra final seria dos pais.

El Pais

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Trabalhadores estrangeiros nos EUA voltam para casa diante do enfraquecimento da economia

Bruce Finley

Uma economia mais apertada e a hostilidade social estão levando imigrantes antes esperançosos a deixarem os EUA.

Sete anos após cruzar ilegalmente a fronteira para entrar nos EUA e encontrar muito trabalho como cozinheiro e servente, Absalom Lopez - com a mulher e o filho de 6 anos nascido em Denver- planejam realizar o sonho de abrir uma fábrica de “tortillas” no México.

Seu salário combinado de US$ 1.000 por semana (em torno de R$ 2.000) mergulhou nos últimos meses para cerca de US$ 300 (R$ 600). Eles estão se mudando de uma casa alugada por US$ 700 por mês em um subúrbio de Denver para um apartamento mais barato de dois quartos, até partirem para Veracruz, no ano que vem, disse Lopez.

Os comentários negativos e os salários mais baixos para trabalhadores latinos “magoam”, disse ele, citando o ambiente social como fator para a decisão da família.

“O México é um lugar melhor para criar um filho. Se ficarmos mais tempo, vamos perder dinheiro, porque não vai haver trabalho suficiente.”

Um número crescente de famílias imigrantes está tendo que desatar os laços com o país por causa da dificuldade econômica e estão calculando se devem ir ou ficar. Qualquer êxodo virá somar-se a uma migração fortemente reduzida para os EUA, segundo mostram as pesquisas recentes, tanto nos EUA quanto no México.

“Essa crise nos EUA está afetando muitos mexicanos. Eles vieram para cá em busca de oportunidades. Agora, alguns estão pensando em voltar para o México. Alguns estão se mudando para outros Estados. Essas pessoas estão acostumadas a lidar com dificuldades”, disse Eduardo Arnal, cônsul-geral do México em Denver.

Os latinos, metade deles imigrantes, compõem 14% da força de trabalho da nação, segundo estimativas recentes.

Os sinais do êxodo gradual são encontrados em muitas partes.

O governo mexicano observou que, a partir de setembro, mais trabalhadores fazem fila em seu consulado em Denver para pedir isenção de impostos para a importação dos bens comprados nos EUA, garantida aos que estão voltando para casa. No ano passado, recebiam dois pedidos por semana. Atualmente, são três pedidos por dia, além de dezenas de pessoas tirando passaportes e outros documentos, disseram as autoridades.

Os negócios estão em alta para os revendedores de automóveis que trabalham com os imigrantes e aceitam apenas dinheiro em Denver. Os trabalhadores mexicanos estão comprando caminhonetes baratas para transportar seus pertences -1998 ou mais novas, para cumprir as leis ambientais mexicanas. Maria Casillas, da Sierra Auto Sales, disse que ela e seu marido venderam 21 veículos nos últimos três meses, o triplo do número vendido durante o mesmo período em 2007.

“Eles dizem que vão para casa porque não há trabalho e não podem pagar o aluguel. As crianças de uma família não queriam ir porque não conheciam ninguém lá.”

Dados bancários mostram que a quantidade de dinheiro que os trabalhadores mexicanos enviam para casa está caindo pela primeira vez em uma década. O México passou a depender dessas remessas, que totalizaram US$ 24 bilhões (cerca de R$ 48 bilhões) no ano passado.

As empresas de ônibus dizem que os ônibus para o México estão enchendo mais rapidamente do que o normal. Desde outubro, quatro ônibus de 55 assentos partem por dia da central de Autobuses Americanos de Denver. O gerente José Hernandez disse que isso só acontecia nas férias de dezembro. “Alguns estão comprando apenas passagem de ida”, disse ele. “Você entende que eles não vão voltar”.

Imigrantes da América Central e do México freqüentemente têm que fazer uma dura escolha pois as oportunidades econômicas em suas comunidades freqüentemente são piores. O desemprego aflige as áreas rurais do México. As montadoras estrangeiras pagam apenas US$ 50 (em torno de R$ 100) por semana.

Recentemente, uma senhora chorava abraçada ao seu marido, na porta do consulado mexicano em Denver. Ela criou três filhos nos EUA e, durante 15 anos, o trabalho do marido em construção, dirigindo caminhão e soldando dava o suficiente para pagar as parcelas da hipoteca de US$ 1.200 por mês de uma casa no subúrbio de Aurora - apesar de estarem no país ilegalmente.

Agora, após um ano sem trabalho, estão ameaçados de despejo. Eles não conseguiram nem pagar a taxa de US$ 95 pela permissão de importação que as autoridades mexicanas ofereceram para transportar as posses para o México. Eles pediram que seus nomes não fossem revelados por causa de sua situação na imigração, mas estavam no processo de carregar sua camionete Ford e partir na direção Sul, em busca de uma vida mais barata em Juarez.

Dentro do consulado, o construtor desempregado Antonio Manzo, 30, que está de partida para o México, disse que só voltaria ao Colorado legalmente. Há uma década, ele e outros imigrantes pagaram US$ 1.500 (aproximadamente R$ 3.000) cada para contrabandistas e quase morreram cruzando o deserto para entrar ilegalmente, disse Manzo.

O presidente eleito Barack Obama teria que encontrar uma forma para os mexicanos qualificados trabalharem aqui legalmente, com dignidade, disse ele. Hoje ele está deixando com relutância amigos próximos em Colorado e tentando olhar pelo lado positivo. Ele e sua noiva, Olga Guzman, de Sonora, planejam se casar depois de visitarem seus pais em Michuacan. Durante anos, Manzo enviou à família US$ 200 (cerca de R$ 400) por mês -até este ano.

“Eles compreendem”, disse Manzo. “Eles dizem: ‘Se não há muito para você fazer aí agora, melhor voltar para casa’”.

Defensores da redução da imigração argumentam que o reforço na fiscalização, tanto nos locais de trabalho quanto ao longo das fronteiras, também contribuiu para a partida dos moradores ilegais.

“Apesar do desaquecimento na construção civil e em outras indústrias com certeza ter contribuído para o declínio, há várias razões para crer que a fiscalização foi um importante fator na decisão dos imigrantes ilegais de partirem. Primeiro de tudo, o declínio no número de imigrantes ilegais começou antes do seu índice de desemprego subir; no passado, vimos quedas bem menores na população ilegal, mas apenas após seu índice de desemprego subir”, escreveu Mark Krikorian, diretor executivo do Centro de Estudos da Imigração, em recente coluna.

O centro hispânico Pew estimou, com base em pesquisas, que a população de imigrantes sem documentos nos EUA caiu de 12,4 milhões em 2007 para 11,9 milhões em março. O centro também estima que, pela primeira vez em mais uma década, há mais imigrantes chegando legalmente nos EUA do que ilegalmente.

Autoridades mexicanas têm números similares e estimaram na semana passada que o número de pessoas deixando a nação caíra 42% desde 2006.

Entretanto, mesmo levando em conta essas estimativas e as indicações de um êxodo, milhares de imigrantes continuam no país, caçando empregos diários.

Esperando em uma rua movimentada a Leste de Denver com outros homens desiludidos, Alejandro Cruz, 30, fez uma careta diante da perspectiva de trabalhar por US$ 50 por semana fazendo calças Dockers em uma fábrica perto de sua casa.

Por outro lado, ele nunca conheceu sua filha de dois anos de idade, Barbara, e quer estar com seus três filhos que talvez o tenham esquecido, disse Cruz, que mendigou a passagem de volta para partir do final de novembro.

“Aqui não há trabalho. Melhor morar com a minha família”, disse ele.

A mudança na dinâmica EUA-México espelha mudanças similares em outras partes. No Reino Unido, trabalhadores poloneses estão partindo em busca de melhores oportunidades na Polônia, disse Bela Hovy, chefe da seção de migração na divisão de população da Organização das Nações Unidas, em Nova York.

Países como o Brasil, que antes eram pobres e agora têm economias crescentes, podem empregar cada vez mais trabalhadores, disse Hovy. Uma mistura fluida global está emergindo na qual “todo país está se tornando um país de origem, um país de destino e um país de trânsito”, disse ele.

Autoridades mexicanas estão olhando para o futuro, enquanto sua população envelhece e os imigrantes voltam sem habilidades de trabalho e pressionam por oportunidades em casa. O México iniciou programas para a promoção de pequenas empresas e de micro-crédito. O governo ajuda as famílias a transferirem o histórico escolar das crianças nascidas nos EUA disse Arnal, do consulado do México.

“Somos um país rico. Nosso problema é que a riqueza está em poucas mãos”, disse ele. “Estamos contentes com a parada na imigração porque vamos procurar pessoas para trabalhar no México… o problema é que elas não terão salários bons.”

The NYT News Service

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Uma vida absurda, aceita como natural

Cada novo aumento da produção automobilística é comemorado pela mídia. Compram-se automóveis em 99 prestações. Entupidas, as cidades param. Estaremos, como diz Paulo Mendes da Rocha, nos dedicando a aprimorar a máquina de produzir veneno que inventamos?

José Correa Leite

O governo, os empresários e a mídia comemoraram, em 2007, a produção de três milhões de automóveis no Brasil. Agora, ambicionam uma meta ainda maior. Grande parte desses carros foi vendida na cidade de São Paulo. Todos os dias, 650 novos automóveis (além de 250 motos) são licenciados. São apenas os últimos acréscimos a uma frota de seis milhões de veículos — a segunda do mundo. A capital paulista enfrenta um trânsito cada vez mais lento, forçando grande parte da população a passar horas e horas em congestionamentos.

Apesar do aumento do preço do petróleo, a indústria automobilística mundial conhece um de seus maiores booms. Fabricantes indianos e chineses introduzem no mercado veículos de 2.500 dólares, que cedo ou tarde chegarão aqui. No Brasil, carros zero são agora financiados em até 99 meses.

É perceptível que a velocidade de circulação nas cidades brasileiras está caindo rapidamente (o Rio de Janeiro está seguindo o caminho de São Paulo). Todos vêm sentindo as conseqüências tanto da irresponsabilidade das autoridades para com o transporte coletivo quanto da expansão sem barreiras da frota de veículos. A quantidade dos que rodam em São Paulo cresceu. Em um ano, houve um aumento de 7%, sendo três quartos automóveis que, normalmente, circulam apenas com seus motoristas. A enorme expansão do número de motocicletas (cerca de um milhão), autorizadas pela legislação em vigor a circular entre as faixas, também contribui para degradar o trânsito e aumentar as mortes em acidentes.

Os problemas não se restringem ao trânsito. A poluição, causada essencialmente pelos veículos, em São Paulo, voltou a piorar, agravando, também, as tendências ao aquecimento da região.

A cada dia, duas ou três horas da vida de dez milhões de pessoas seja jogada fora, num estresse sem propósito. Mas elas têm dificuldades de perceber seu caráter grotesco
Temendo desgastar-se, a prefeitura não adota medidas de restrição à circulação de veículos — como pedágios urbanos, praticados nas capitais européias, exclusão dos automóveis particulares do centro velho, aumento do rodízio (como fez a Cidade do México) e da fiscalização (um terço da frota é irregular), maiores restrições a caminhões no centro ou a simples expansão das zonas azuis. Também não acelera a criação de corredores exclusivos de ônibus, por pressão dos comerciantes e moradores das vias onde eles seriam implantados.

O prefeito Gilberto Kassab afirmou que os congestionamentos são resultado da falta de investimento municipal na expansão do metrô nos últimos 32 anos. Para Kassab, agora “não adianta chorar sobre o leite derramado” [1]. O presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (e seu gestor em vários governos conservadores) Roberto Scaringella foi mais franco: não haverá “medidas radicais que dariam fluidez” ao trânsito, porque “podem impactar negativamente a economia”. “A conseqüência é que a gente terá de aprender a conviver com um número maior de quilômetros de lentidão. Quando eles se excedem, não gera um colapso da cidade, mas a deterioração e a delinqüência urbana”, completou Scaringella [2]. Pressionada pela imprensa, a prefeitura acabou anunciando uma série de medidas, mas elas são cosméticas: redução do espaço para estacionamento em algumas ruas, divulgação de rotas alternativas às vias principais etc.

A atuação do governo do Estado também é marcada pela inação. Ele não acelera a expansão do metrô e, tampouco, cumpre as metas de construção da Linha 4 - Amarela, onde os métodos privatistas geraram sucessivos desastres e atrasos [3]. Perdido em disputas menores de rateio dos custos com a prefeitura, o governo, nem mesmo, geri uma integração adequada com a rede de ônibus.

É absurdo que duas ou três horas por dia da vida de dez milhões de pessoas seja jogada fora, em um estresse sem propósito. Mas o sistema do automóvel está tão profundamente arraigado no imaginário das pessoas que elas têm dificuldades de perceber seu caráter grotesco. É aceito como natural ou inevitável, permitindo que governantes ajam de forma irresponsável.

No entanto, como afirma o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, “é como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem. Construir túneis e viadutos é aprimorar a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop… É a rota do absurdo” [4].

O correto é que o uso do transporte individual seja desestimulado, o coletivo favorecido e o usuário do carro passe a pagar por todo o impacto que provoca
O proprietário do carro impõe, a toda sociedade, custos que ele não paga no IPVA ou quando compra o automóvel. Ocupação do espaço público (50% do território urbano em São Paulo é dedicado ao transporte), perda de tempo, danos à saúde de milhões de pessoas etc. O correto é que o uso do transporte individual seja desestimulado, o coletivo favorecido e o usuário do carro passe a pagar por todo o impacto que provoca.

Parece evidente que não se pode esperar nada dos governantes! Esse é um problema que São Paulo só poderá enfrentar se organizar um movimento cidadão que reúna força política para libertar a cidade da ditadura do automóvel. Uma mobilização com propósitos claros, capaz de impor uma expansão da oferta e qualidade do transporte público e reduzir o espaço para o carro.

Assistimos, nos últimos anos, ao acúmulo de uma série de problemas de novo tipo, gerados pela lógica sem freios do mercado. Esse cobram um preço humano e ambiental cada vez maior.

O caso mais notório é o do aquecimento global, resultado de toda a economia do petróleo, carvão e automóvel, associada ao consumismo desenfreado. Ela exige pensarmos a atividade produtiva em função das necessidades humanas e não da busca do lucro e, portanto, do crescimento. Mas, como manter o capitalismo sem a maior expansão possível?

E agora os moradores de São Paulo enfrentam as conseqüências da irracionalidade que representa a “racionalidade” do mercado. Cada um busca satisfazer seus desejos na lógica do transporte (ou do consumo) individual, sem que haja intervenção do poder regulador de caráter público tolhendo os absurdos que o consumismo carrega.

Todas são questões que colocam a necessidade de outra vida e de outra organização da nossa sociedade em discussão.

Le Monde diplomatic

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Mass media e políticas de massas:

Perspectivas conservadora, liberal e marxista

James Petras

Debates e estudos sobre os mass media (MM) têm focado a sua parcialidade política, propriedade e ligações às grandes empresas, relações e laços com o Estado, abertura e diversidade relativas, promoção de guerras e interesses corporativos, entre outros grandes problemas que afectam as relações de poder, riqueza e imperialismo. De particular interesse para os autores que se opõem ou apoiam o papel dos MM é o impacto que estes têm, ao influenciar a visão geral do mundo, opiniões e comportamentos das pessoas. Ensaios, monografias e estudos empíricos têm sido publicados quanto à extensão da influência dos MM, o período de tempo durante o qual mantém controlo, a profundidade das opiniões inculcadas pelos MM e o ‘lugar’ que as mensagens transmitidas pelos MM têm na indução da opinião pública à conformidade com os interesses da classe dominante.

Uma compreensão do papel e poder dos MM na actual sociedade capitalista exige-nos que organizemos um debate compreendendo três grandes escolas – Conservadora, Liberal e Marxista – antes de procedermos a uma análise crítica e finalmente apresentarmos notas destinadas a criar alternativas às redes de informação e comunicações controladas pelas elites.

Paradigmas em competição: conservador, liberal e marxista

Há três paradigmas quanto ao papel, poder e relação dos mass media com a opinião e acção pública: o conservador, o liberal e o marxista.

O paradigma conservador, ou ‘pluralista’, largamente propagado pelos cientistas sociais dos EUA e Europa, enfatiza as múltiplas vozes, as redes em competição, o mercado de informação e a diversidade de opiniões. Os conservadores – ‘pluralistas’, afirmam que mesmo se a posse dos mass media estiver concentrada e a sua mensagem deturpada a favor do status quo, os mass media são simplesmente uma ‘ferramenta’, contrabalançada por outras ‘ferramentas’, tais como os ‘grandes números’ de votantes de baixos salários. Embora concedendo que haja um acesso desigual aos mass media entre trabalhadores e o capital, regimes pró-guerra e oposição anti-guerra, afirmam que a oposição também tem alguns meios de acesso ao mercado, através de numerosos escritores e agentes de difusão: O controlo sobre os mass media é ‘desigual mas disperso’. Discutem ainda que, com o crescimento da Internet, há múltiplas fontes de informação e que o monopólio dos mass media tem sido seriamente diluído, efectivamente ‘democratizando’ o ’sistema de comunicação’. Os ideólogos pluralistas mais astutos citam estudos empíricos, a demonstrarem que a maior parte das visões que os indivíduos têm são formadas pelos suas famílias, amigos e vizinhos – relações face-a-face, muito mais que os ‘impessoais’ media. Em suma, os conservadores defendem que não existe uma toda-poderosa elite dos mass media e que a extensão em que existe é contrabalançada pelos media alternativos, opiniões locais e pelo sua própria tolerância a opiniões diversas e concorrentes.

O paradigma liberal dos mass media

O paradigma liberal descreve os MM como o instrumento chave da dominação pela classe dominante numa democracia liberal. Começando com o registo histórico da concentração da propriedade do mass media nas mãos de um pequeno grupo de corporações interligadas com a área dos negócios e com o Estado, os MM são vistos como um componente essencial do ’sistema de controlo’ que perpetua a classe dominante e a construção de impérios pelo seu controlo e doutrinação da opinião pública. A maioria da população é convertida numa massa maleável, induzida na conformidade com os interesses e políticas da classe dominante, assim prevenindo a mudança e perpetuando o domínio pela elite corporativa. Para os liberais o controlo de cima para baixo pelos mass media explica o ‘paradoxo’ de um império altamente desigual e orientado para a acção militar, no contexto de um sistema político livre e democrático. O principal papel dos académicos é convencer outros académicos a desmascarar os media, a expor as suas fabricações, mentiras e hipocrisias, enfatizando as ‘contradições’ entre os ‘nossos’ valores democráticos e as mentiras dos poderosos. A versão mais radical da visão ‘liberal’ dos mass media atribui o alto grau de consenso entre as elites e as massas nos Estados Unidos à omnipresença e omnisciência dos mass media.

Crítica marxista

A abordagem marxista aos mass media começa necessariamente com a crítica às perspectivas conservadora e liberal. Contra a crítica conservadores, aponta que ‘poder’ não é um recurso imaterial desencarnado, mas uma relação em que os proprietários da riqueza e poder podem multiplicar e acumular bens políticos e económicos. A presunção que ‘toda a gente’ ou todos os grupos podem ter alguma influência esquece-se do facto de que os proprietários dos meios de comunicação estão ligados a outros poderosos grupos económicos, que têm poder sobre bancos, investimentos, trust funds, e estes, por sua vez, influenciam líderes políticos e partidos, controlando legislação, selecção de candidatos, gastos governamentais e agendas dos governos: tudo isto mina as fundações e validade do paradigma pluralista. Em todos os grandes eventos da nossa época, os mass media ecoaram fielmente as linhas políticas do Estado capitalista, justificando a invasão do Iraque, demonizando o Irão e ecoando a linha que o Estado assume em relação ao programa nuclear do Irão, aos bloqueios na Palestina, à invasão do Líbano e ao salvamento da Wall Street. Em todos os grandes eventos, os mass media unificaram-se, desempenhando um papel de liderança na propagação da mensagem da classe dominante entre as massas, com variáveis graus de sucesso.

O paradigma liberal do ‘determinismo dos mass media’ parece ser mais credível, uma vez que o seu diagnóstico da estrutura de poder e posse dos MM corresponde à realidade, assim como corresponde o seu papel de propagandista das mentiras do Estado acerca de guerras e economia. No entanto, quando abordamos a imagem liberal dos MM controlando a opinião pública e as atitudes das massas, as asserções dos todo-poderosos, todo-controladores mass media tendo grande sucesso em manipular o público, as assunções já são questionáveis.

Historicamente, o monopólio oligárquico de controlo dos mass media tem sido mal sucedido quanto ao moldar de atitudes e de acções das massas em grande número de importantes contextos políticos. Isto é verdade inclusivamente para os Estados Unidos. Por exemplo, apesar do apoio unânime dos MM à privatização do Programa Federal de Segurança Social, ao gigantesco salvamento público da Wall Street, à continuação da ocupação militar do Iraque, à escalada militar no Afeganistão e ao actual sistema de saúde lucrativo privado, a grande maioria do público dos EUA opõe-se fortemente à linha seguida pelos MM. Apesar dos líderes e maiorias dos dois partidos políticos governantes não reflectirem a opinião pública, uma maioria dos americanos tem consistentemente apoiado um sistema de saúde nacional de âmbito universal, a retirada das tropas americanas e tem-se veementemente oposto ao apoio do Congresso à Wall Street e à indústria da grande finança. Uma análise revela que os MM são influentes a moldar a opinião pública à classe dominante e políticas do Estado no que se refere a política externa, em particular as políticas de guerra, no início do conflito, com a agressão ou postura militarista a ocupar uma posição dominante antes dos custos económicos e humanos serem trazidos para o interior do país, para os cidadãos norte-americanos no seu dia-a-dia. Os MM são relativamente ineficazes no que se trata de medidas de política interna, que afectam adversamente a vida sócio-económica diária da massa do povo americano. Os MM operam com mais sucesso quando dominam o fluir e o acesso à informação, como no que se refere à política externa, onde podem fabricar, distorcer e carregar emocionalmente o que é visto e ouvido pelo público. Em contraste a propaganda de classe dos MM é severamente enfraquecida pelas evidências da experiência empírica, quando os americanos sentem na pele os problemas da sua saúde, pensões, salários e emprego. Os marxistas defenderiam que condições económicas específicas criam consciência de classe, o que contrabalança o poder dos MM.

A fraqueza do ponto de vista liberal acerca do domínio dos mass media encontra-se na falha em levar em conta o impacto dos contextos de classe, as restrições nas crises económicas, os custos de guerra, o impacto da mobilidade social descendente e a importância de uma segurança social básica na sua avaliação das operações dos MM. A maior parte da teoria liberal dos mass media baseia-se numa visão selectiva de contextos, temas e locais que apoiem essa teoria. Por exemplo, os mass media e a conformidade das massas ‘encaixam’ num período de economia em expansão, mobilidade social ascendente, paz relativa ou intervenções militares menos dispendiosas, em particular no que se refere a temas de política externa. O apoio de longo prazo dos MM ao capitalismo ou ao ‘mercado livre’ domina as opiniões das massas até ao colapso do capitalismo: Com as crises e o desmoronamento do sistema financeiro e especialmente com a perda de pensões por milhões de pessoas, até alguns propagandistas nos MM aperceberam-se que a sua posição era indefensável. A visão liberal da omnipotência e dominância dos MM sob a opinião pública é profundamente imperfeita e esquece-se de levar em conta as mudanças politico-económicas que resultam do forte desvio que a opinião pública tem tomado em relação à propaganda dos MM.

A perspectiva marxista dos mass media

A perspectiva marxista relativiza a influência dos MM fazendo com que o seu poder sobre as massas em função do grau em que os trabalhadores e seus aliados de classe dependam exclusivamente dos MM para obterem informação e para definirem os seus interesses políticos e acção social. Os marxistas argumentam que os MM exercem máxima influência onde há pouca ou nenhuma organização de classes ou luta de classe (como nos EUA). Em contraste, onde há ou houve organização de classe, como na Venezuela ou na Bolívia, no Chile dos anos 70 ou na América Central dos anos 80, os mass media têm um impacto bastante mais fraco na opinião pública. Os marxistas argumentam que onde há uma história e cultura da classe trabalhadora, camponesa, índia ou outros movimentos baseados em classe e solidariedade de classe, a propaganda da classe dominante ou do Estado, promovida pelos MM, tem apenas um efeito muito fraco. Nessas situações, as massas têm uma estrutura preexistente, redes de comunicações e líderes de opinião locais, os quais filtram mensagens/propaganda que violem a solidariedade social/de classe/étnica/nacional.

Por exemplo, no Chile, durante a presidência de Salvador Allende (1970-73), a vasta maioria da imprensa opunha-se violentamente ao Presidente Democrata Socialista – no entanto Allende venceu a eleição, a esquerda aumentou a sua votação nas subsequentes eleições municipais e parlamentares, baseando-se no apoio esmagador dos trabalhadores, camponeses pobres, índios e desempregados residentes em bairros de lata.

Mais recentemente na Venezuela, a vasta maioria dos MM tem-se oposto ao Presidente Chávez (1998-2008) em todas as eleições parlamentares e municipais, mas no entanto ele venceu massivamente eleições. Em ambos os casos, programas sócio-económicos (grandes aumentos em programas de saúde e educação, distribuição de terras, mobilidade ascendente, programas de salários progressivos, nacionalização de recursos básicos), forte apoio baseado em classe e mobilizações em massa, criando consciência de classe, minaram a eficiência dos mass media.

Por toda a América Latina durante a primeira década do novo milénio, poderosos movimentos populares cresceram em número de membros e em organização, apesar da intensa demonização pelos MM. No Brasil os Trabalhadores Rurais Sem Terra expandiram-se e apoiaram as ocupações de terras apesar da criminalização da sua actividade pelos MM. O mesmo é verdade para os movimentos de mineiros, trabalhadores, camponeses e índios na Bolívia – que levaram à queda dos presidentes neoliberais apoiados pelos MM. Movimentos de massas similares derrubaram presidentes apoiados pelos MM na Argentina (2001) e Equador (2000 e 2005).

Esses casos ilustram condições contingentes e circunstanciais que influenciam o domínio dos MM sobre a opinião pública. Existem várias condições comuns em todos esses casos:

1. Elos históricos, culturais, comunitários ou familiares podem criar um ‘bloco’ ou um ‘filtro’ à propaganda dos MM, especialmente em temas socio-económicos que afectem o emprego, a vizinhança ou o nível de vida.

2. A luta de classes cria laços de classe horizontais, especialmente em resposta à repressão pelo Estado ou classe dominante, da qual resulta o declínio dos níveis de vida, concentração de riqueza, desalojamentos em massa e migrações forçadas. A luta de classes cria respostas positivas a mensagens que reforçam a luta e rejeitam as mensagens dos media publicamente identificados como tomando o partido da classe dominante.

3. As organizações de classe fornecem uma base alternativa para entender os eventos e para definir os interesses de massas em termos de classe, que possam ressoar com a sua experiência quotidiana e fornecer informação e interpretação que contrariem aquelas dos MM. Quanto mais alto o grau de organização de classe, maior a solidariedade e luta de classe e menor o impacto dos MM na opinião pública. O contrário é também verdade. Nos Estados Unidos, onde os sindicatos são geridos por funcionários que ganham 300 mil dólares ou mais por ano, que enfatizam a colaboração com os patrões (ou que rejeitam publicamente políticas de luta de classe) e que não conseguem organizar 93% da força de trabalho privada, os MM têm menos dificuldades em influenciar a opinião pública.

4. Quanto mais fortes forem as redes alternativas de formação de opinião, mais fraca a influência dos MM. Onde os movimentos sociais desenvolvam organizações locais, líderes de opinião e activistas comunitários, mais dificilmente as massas extrairão as suas informações acerca de eventos dos formais e distantes MM. Em muitos casos, as massas acedem selectivamente aos MM para entretenimento (desporto, novelas, comédias), rejeitando as suas notícias e editoriais. Famílias multi-geracionais que vivam em proximidade, localizadas em vizinhanças homogéneas e ocupacionais, com forte história de construção baseada na classe geram solidariedade de classe e mensagens sociais que entram em conflito com as mensagens da classe dominante que promovem ‘iniciativa privada’ e ‘micro-capitalismo de sucesso’ ou a criminalização de acções colectivas de classe. Tanto a visão liberal como a conservadora dos MM esquecem-se do contexto de classe na receptividade e poder dos media; os pluralistas subvalorizam propositadamente a sua capacidade de dominar em tempos de fraca organização de classe; os liberais sobreavaliam o poder dos MM, ignorando o poder oposto de organizações de classe, lutas de classe, cultura, história, tradições familiares e solidariedade que ligam indivíduos à sua classe e minam a receptividade às mensagens da classe dominante presentes nos MM.

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Armadilhas para superpartículas

Concluído na Argentina o maior observatório de raios cósmicos

Mónica Salomone

Há algum tipo de objeto ou fenômeno lá fora, seguramente além de nossa própria galáxia, que acelera as partículas que emite dezenas de milhões de vezes mais que o acelerador mais potente que se possa construir na Terra. Essas partículas superenergéticas cruzam o cosmo quase à velocidade da luz e, quando se chocam com a Terra, desencadeiam na atmosfera uma chuva - os cientistas falam em “temporal” - de centenas de milhões de partículas secundárias com menos energia. Detectando essa cascata se obtém informação sobre a partícula original e sua procedência e pode-se investigar que fenômeno potente e misterioso a produziu.

Esse é o objetivo do observatório Pierre Auger de raios cósmicos - assim são chamadas as partículas procedentes de objetos celestes -, que acaba de ser inaugurado oficialmente na localidade argentina de Malargüe, em uma planície ao pé dos Andes. No próximo ano haverá outro motivo de celebração. Começará a fase de desenvolvimento do observatório Pierre Auger Norte, que será instalado no Colorado (EUA).

É difícil imaginar a energia das partículas ultra-energéticas. Comparada à de um elétron de um tubo dos antigos televisores “é como a energia de uma bomba atômica termonuclear comparada com uma cabeça de fósforo”, explica na Argentina Enrique Zas, da Universidade de Santiago de Compostela e representante espanhol no observatório.
Os físicos estão há meio século intrigados com o que será que pode acelerar tanto esses raios cósmicos. Não por acaso a inauguração do Pierre Auger, a maior instalação de instrumentos já construída para caçá-los, foi uma festa que reuniu mais de uma centena de cientistas - entre eles o prêmio Nobel James Cronin, que idealizou o projeto em 1992 com seu colega Alan Watson - e representantes dos 17 países que participam do projeto.

Dos 42 milhões de euros que custou o observatório, o Ministério da Ciência e Inovação espanhol contribuiu com 2% e agora contribui com 8% na manutenção. Também participam várias comunidades autônomas.

É impossível abarcar a instalação com o olhar: consiste em 1.600 detectores, que são tanques de água pura, separados entre si cerca de 1,5 km. Cobre uma área de 3 mil quilômetros quadrados, porque os raios cósmicos mais energéticos também são os menos freqüentes (apenas um por quilômetro quadrado por ano) e geram cascatas muito amplas, com frentes de até 16 quilômetros quadrados. Assim, cada vez que uma partícula penetra em um detector, um computador envia por rádio um sinal para um centro de dados que integra a informação dos demais. Essa técnica se combina com a detecção, com quatro estações de telescópios, da luz que produz o novo temporal ao passar pela atmosfera - como uma estrela fugaz, embora rápido demais para que o olho humano a veja.

A festa do Pierre Auger começou na realidade no ano passado, quando se conseguiu o primeiro resultado sobre a origem dos raios cósmicos ultra-energéticos: os imensos buracos negros que ocupam o núcleo de galáxias ativas seriam uma fonte provável. Como se acelera uma partícula em um buraco negro? Quando esses sumidouros cósmicos de bilhões de massas solares devoram matéria, em suas imediações se emitem jatos de material que se move quase à velocidade da luz; uma partícula presente no entorno que interagisse com esses jatos poderia se transformar em um super-raio cósmico.

Para confirmar esse cenário é preciso analisar muito mais cascatas “para determinar melhor as distribuições de direções de chegada”, explica Zas. Também é preciso saber mais sobre os campos magnéticos galácticos e extragalácticos que influem na trajetória da partícula e a natureza desta última. São prótons, núcleos atômicos pesados? Ainda não se sabe.

Cerca de 30 pesquisadores espanhóis envolvidos no Pierre Auger lideram vários grupos de trabalho responsáveis por analisar os dados. O grupo de Zas analisa concretamente os temporais que chegam inclinados, que poderiam levar à detecção de um tipo concreto de misteriosas partículas: os neutrinos de alta energia. “Os neutrinos são as partículas mais desconhecidas e mais difíceis de detectar. Sua descoberta também nos daria muitas pistas sobre a origem de todos esses fenômenos”, salienta o cientista. A empresa Isofoton, por outro lado, contribui com os painéis solares que dão a energia aos 1.600 tanques de água.

O Pierre Auger Norte cobrirá uma superfície quase sete vezes maior que a atual: 20 mil quilômetros quadrados. O financiamento para construir todo o observatório ainda não está garantido.

El Pais

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