“O capitalismo não pode acabar porque na prática nunca começou”, diz Chomsky

CRISE Para o mais renomado intelectual de esquerda do mundo, o sistema que os EUA vivem deveria ser chamado de capitalismo de Estado, e não só de capitalismo

EM 2005, o lingüista estadunidense Noam Chomsky foi escolhido o maior intelectual vivo do mundo, em votação realizada pela revista Prospect. O professor de 79 anos, que leciona no MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das mais renomadas instituições de ensino superior dos EUA, obteve à época o dobro de votos concedidos ao italiano Umberto Eco, que ficou em segundo lugar. Na entrevista abaixo, do dia 8 de outubro, dada ao jornalista Simone Bruno, Chomsky – que é referência quando o assunto envolve as práticas imperialistas conduzidas por seu país – comenta a crise financeira atual.

Pergunta – Eu gostaria de falar sobre a crise atual. Como pôde ser que várias pessoas podiam vê-la a caminho, mas, ao mesmo tempo, pessoas encarregadas de governos e economias não? Ou elas não estavam preparadas?
Noam Chomsky – A base para a crise é previsível, e, de fato, ela foi prevista. É esperado que a liberalização financeira traga em si crises freqüentes e profundas. De fato, desde que a liberalização financeira foi instituída há cerca de 30 anos, as crises têm sido assim. Elas têm a ver fundamentalmente com ineficiências bem compreendidas dos mercados.
Por exemplo, se você e eu fizermos uma transação, vamos dizer que você me venda um carro, nós podemos fazer um bom negócio para nós mesmos, mas não levamos em conta o efeito que atinge outras pessoas. Se eu compro um carro de você, isso fará com que o uso de gasolina aumente, isso irá aumentar a poluição, o congestionamento, e assim por diante. Mas nós não levamos em consideração essas conseqüências. Conseqüências essas que são chamadas pelos economistas de externalidades, e não são levadas em conta nos cálculos do mercado. Não era possível prever o momento exato em que ocorreria uma crise severa, mas que ela viria era óbvio. De fato, têm havido crises sérias e repetidas. Mas estas não haviam ainda atingido fortemente o centro da riqueza e do poder, e sim, em sua maioria, o Terceiro Mundo. Então, de novo, as crises são previsíveis e previstas.
Há um livro de dez anos atrás, por exemplo, de dois economistas internacionais muito respeitados, John Eatwell e Lance Taylor – Global Finance at Risk (Finança Global em Risco, em português) – no qual eles percorrem a lógica mais elementar de como a liberalização financeira menospreza o risco e, portanto, leva a riscos sistêmicos regulares e a quebras, por vezes sérias. Eles também traçam caminhos de como lidar com o problema, mas estes foram ignorados porque aqueles que tomam decisões nos sistemas corporativo e político – que são praticamente os mesmos – estavam tendo ganhos a curto prazo para si próprios.
Você lê nos jornais que os últimos 30 anos, os 30 anos de neoliberalismo, têm sido responsáveis pela maior diminuição da pobreza na história mundial e por um tremendo crescimento, e por aí vai, e há alguma verdade nisso, mas o que não dizem é que a saída da pobreza e o crescimento têm acontecido em países que ignoraram as regras neoliberais. Dessa forma, houve crescimento no Leste Asiático, que ignorou as regras. Na América Latina, onde as regras foram observadas rigorosamente, foi um desastre.

Joseph Stiglitz recentemente escreveu um artigo em que diz que esta crise marca o fim do neoliberalismo; e Chávez, numa conferência de imprensa, disse que a crise poderia ser o fim do capitalismo. Na sua opinião, qual dos dois está mais próximo da verdade?
Primeiro, nós devemos ter claro que o capitalismo não pode acabar porque ele nunca começou. O sistema em que vivemos deveria ser chamado de capitalismo de Estado, e não só de capitalismo. Pegue os EUA, por exemplo. A economia sustenta- se pesadamente no setor estatal. Há uma agonia tremenda agora em relação à socialização da economia, mas isso é uma piada sem graça. A economia avançada, a alta tecnologia, e assim por diante, têm sempre confiado extensivamente no dinâmico setor estatal da economia.
Isso é verdade em relação a computadores, internet, aeronaves, biotecnologia, em praticamente qualquer lugar que você olhe. O MIT, de onde eu estou falando com você, é um tipo de funil no qual o público despeja dinheiro, e desse dinheiro é que sai a tecnologia do futuro, que será entregue ao poder privado para lucrar com ela. Então, o que temos é um sistema de socialização de custos e riscos e a privatização do lucro. Então, em relação ao sistema financeiro, provavelmente deve acontecer o que o Stiglitz descreve. É o fi m de uma certa era de liberalização financeira dirigida pelo fundamentalismo do mercado. The Wall Street Journal lamenta que a Wall Street como a conhecemos desapareceu com o colapso dos bancos de investimentos. E que haverá alguns passos em direção à regulação. Mas as propostas que estão sendo feitas não mudam a estrutura. Não há uma ameaça ao capitalismo de Estado.

O senhor acredita que veremos algo como a Grande Depressão, com pessoas sem trabalho, em longas filas por comida. Acredita que é possível termos essa situação nos Estados Unidos e na Europa? Uma grande guerra colocaria a economia novamente nos trilhos, ou o quê?
Não acho que a situação se assemelhe à Grande Depressão. Existem algumas similaridades. Os anos de 1920 também foram um período de especulação selvagem e de uma vasta expansão de crédito e empréstimos, criando uma tremenda concentração de riqueza num setor muito pequeno da população; um período de destruição do movimento trabalhista. Mas também existem muitas diferenças. Hoje, há um aparato muito mais estável de controle e regulação que surgiu com o New Deal e que, apesar de estar corroído, muito dele ainda está presente. E também há, atualmente, um entendimento de que os tipos de políticas que pareciam extremamente radicais no período do New Deal são mais ou menos normais. Muito do que se lê sobre isso é apenas mitologia.
Por exemplo, lê-se que a crença apaixonada de Reagan no milagre dos mercados agora está sob ataque, com Reagan sendo elevado ao papel de sumo sacerdote da fé nos mercados. Na prática, Reagan foi o presidente mais protecionista na história econômica dos Estados Unidos do pós-guerra. Ele aumentou as barreiras protecionistas mais do que os seus predecessores juntos. Ele chamou o Pentágono para desenvolver projetos para treinar gerentes dos EUA em avançados métodos japoneses de produção. Ele conduziu um dos maiores socorros bancários da história dos EUA. De fato, acreditava no big government (prática de intervenção radical do governo na economia). Quando digo “Reagan”, falo de sua administração; o que ele acreditava de tudo isso, se algo, nós realmente não sabemos, e isso não é muito importante. No momento, não há uma indicação que existirá algo como o crash de 1929.

Então o senhor não acredita que estamos em direção a uma mudança da ordem mundial?
Há mudanças na ordem mundial, algumas muito significantes, e talvez a crise contribua com elas. Mas elas já estão a caminho há algum tempo. Uma das maiores mudanças na ordem mundial pode ser vista agora na América Latina. Algumas semanas atrás, houve uma ilustração dramática disso. Houve um encontro da Unasul (União das Nações Sul-americanas) no dia 15 de setembro. E, apesar da presença da Colômbia – favorita dos EUA –, e do encontro ter acontecido no Chile – outro país favorito dos EUA – , o encontro tirou uma declaração muito forte de apoio a Evo Morales na Bolívia, além de opor-se aos elementos quase- segregacionistas que estão sendo apoiados pelos EUA naquele país. Há uma luta tremenda acontecendo na Bolívia.
A maioria indígena da população, pela primeira vez em 500 anos, entrou na arena política, por meio de uma impressiva eleição democrática. Isso evidentemente horrorizou o governo dos EUA, que se opõe fortemente à democracia popular, a não ser que o resultado dê certo [para eles]. A declaração foi lida pela presidente Bachelet, do Chile, que também é uma das favoritas do Ocidente. Morales respondeu agradecendo os presidentes pelo apoio, enquanto apontou corretamente que esta era a primeira vez em 500 anos que a América Latina tinha tomado seu destino em suas próprias mãos, sem a interferência da Europa e particularmente dos EUA.
Bom, isso é símbolo de uma mudança muito significativa que está a caminho, algumas vezes chamada de maré rosa. O fato foi tão importante que a imprensa dos EUA não noticiou. Há uma frase aqui, outra lá, dizendo que algo aconteceu, mas a imprensa está suprimindo completamente o conteúdo e o significado do que aconteceu. A América Latina também está diversificando sua relação com o mundo. O Brasil tem aumentado sua relação com a África do Sul e a Índia, e particularmente com a China, que se envolve cada vez mais em investimentos e intercâmbios com países latinoamericanos. Esses são desdobramentos extremamente importantes, e que agora começam a se espalhar pela América Central. Honduras, por exemplo, é a clássica república de bananas.
Foi o acampamento-base para as guerras terroristas do Reagan perpetradas na região e tem sido totalmente subordinada aos EUA. Mas Honduras recentemente ingressou na ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas). É um passo pequeno, mas não deixa de ser muito significativo.

O senhor acredita que haverá uma grande diferença se o presidente eleito for McCain ou Obama em relação a assuntos como o NAFTA e o Plano Colômbia – porque aqui na Colômbia, onde vivo, dá para sentir que o presidente e o establishment estão um pouco assustados com a possibilidade de Obama ganhar. Eu sei que o senhor considera Obama uma tábula rasa, mas ainda sim, o senhor acha que há diferenças?
O caso é bem esse. Obama tem se apresentado bem como uma tábula rasa. Mas não há razão para o establishment colombiano temer a sua eleição. O Plano Colômbia é uma política do Clinton e há todas as razões para se esperar que Obama seja mais um Clinton. Ele é bem vago. Mantém aparências, na maioria das vezes, vazias, de propósito, mas à medida que as políticas aparecem, elas aparentam ser muito mais políticas de centro, como as de Clinton, que confeccionou o Plano Colômbia e militarizou o conflito.

Algumas vezes, tenho o sentimento de que os dois mandatos de Bush aconteceram num contexto de mudança da ordem global, tentando manter o poder usando a força; e em constraste, Obama teria uma face boa e educada para renegociar a ordem mundial. O senhor acredita que isso possa ser verdade?
Lembre-se de que o espectro político dos EUA é bem estreito. Os EUA são uma sociedade governada por negócios, de alguma forma mais do que a Europa. Basicamente, é um Estado de um partido só, com um partido de negócios que possui duas facções, democratas e republicanos. As facções são de alguma forma diferentes, e algumas vezes as diferenças são significantes. A administração Bush, entretanto, situava-se bem no final desse espectro, nacionalistas radicais extremos, crentes extremos no poder do Estado, em violência além mar. Seja lá quem for eleito, a tendência é que mova as coisas em direção ao centro, Obama provavelmente mais. Então eu diria que, no caso do Obama, seria algo como uma volta aos tempos de Clinton, mas, é claro, adaptado às circunstâncias atuais. No caso do McCain, no entanto, é muito difícil prever. Ele é um franco-atirador. Ninguém sabe o que irá fazer…

Sim, ele me parece bem perigoso.
Especialmente num país como os EUA, que tem tanto poder. EUA não é Luxemburgo, afinal de contas. McCain por si é extremamente imprevisível. A candidata dele a vice, Sarah Palin, vem de um histórico extremista radical (para padrões mundiais), por exemplo, do criacionismo – você sabe que sustenta que o mundo foi criado há 10 mil anos etc. Se alguém assim estivesse concorrendo em Luxemburgo, seria cômico. Mas quando isso acontece no país mais rico e poderoso do mundo, é perigoso.

Agora que estamos no fim da globalização, há a possibilidade de algo realmente novo, uma boa globalização?
As perspectivas são muito melhores do que já estiveram. O poder está ainda incrivelmente concentrado, mas há mudanças na economia internacional tornando-se mais diversas e complexas. O Sul está se tornando mais independente. Mas se você olhar para os EUA, mesmo com todo o estrago feito por Bush, ainda é a maior economia homogênea, com o maior mercado interno, com as mais fortes e tecnologicamente avançadas forças militares, com gastos anuais comparados com o resto de todo o mundo reunido, e com um arquipélago de bases militares espalhadas pelo mundo.
Essas são fontes de continuidade apesar de a ordem neoliberal estar corroendo tanto dentro dos EUA e Europa como internacionalmente, ao passo que há mais e mais oposição a ela. Então, existem oportunidades para mudança real, mas a distância que elas podem alcançar depende das pessoas, do que nós estivermos dispostos a empreender. (Tradução de Marcelo Netto Rodrigues)

Brasil de Fato

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 178.

Deixe um Comentário